sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Blindagem Excessiva - Por Luiz Domingues



O futebol é o mais popular esporte do planeta, por vários fatores. Um dos deles, sem dúvida, é o fato de ter regras extremamente simples, que são assimiladas por crianças. Com exceção da regra do impedimento, ou "off-side", que sucinta certas indagações e gera polêmica, quase sempre, o restante é muito simples.

Mesmo assim, ao seguir o exemplo de outros esportes com regras mais confusas, a questão da arbitragem pôs-se a ganhar contorno de uma disciplina rígida, ao longo dos tempos. Para visar tornar as decisões dos árbitros irrevogáveis e sobretudo a pensar na integridade moral e física dos mesmos, os órgãos controladores do futebol engessou cada vez mais a figura do árbitro (e de seus auxiliares, também), de uma forma militarizada, para outorgar-lhe status hierárquico de comando, e assim, não aceitar insubordinações de forma alguma por parte da "baixa casta", formada pelos jogadores.
Em primeira instância, fazia sentido dar esse poder todo ao árbitro. De fato, sem esse cuidado, estaria indefeso em meio às pressões de vinte e dois jogadores em campo, mais quatorze sentados nos dois bancos de reservas e além de outras pessoas a representar as suas respectivas comissões técnicas de cada time. Seria temerário demais não ter essa regulamentação que o protegesse de toda forma de protestos, quiçá agressões físicas em toda jogada polêmica onde um time sentisse-se prejudicado por sua decisão. Todavia, temos observado algumas distorções nessa regulamentação.
O primeiro ponto é óbvio : o árbitro também é um ser humano. Portanto, está passível em cometer erros, e no caso específico da arbitragem, o futebol pode apresentar situações dúbias, onde erros crassos são cometidos a todo instante. O segundo ponto, é que por ser humano, também, apresenta emoções e toda uma gama de precipitações psicológicas inerentes a qualquer um.
E o terceiro ponto, parece crucial nesse tabuleiro : toda a estrutura do futebol é profissional e envolve negócios na conta de milhões de reais; dólares ou euros, mas o único setor que permanece amador nessa cadeia bilionária, é o da arbitragem.
Então, por mais apaixonado que o sujeito seja pela sua nobre atividade, ele é a autoridade máxima naqueles noventa minutos, para decidir o futuro de centenas de pessoas que dependem daquele resultado diretamente, por estar envolvidas profissionalmente ali (fora os milhões que frustram-se indiretamente, os ditos torcedores), mas ele volta para a casa com um pequeno cachet no bolso (nem tão módico assim...), e no dia seguinte vai trabalhar no seu escritório; clínica; comércio; repartição pública. Com essa completa falta de compromisso com a estrutura monstruosa que envolve o futebol, política e financeiramente a falar, ele simplesmente toca a sua vida particular, sem perder o sono com eventuais prejuízos causados por seus erros terríveis, e só volta a pensar no futebol no próximo jogo.
Profissionalizá-los, seria a melhor medida para que dedicassem-se em horário integral à sua capacitação, e não somente a ficar restritos a cursinhos de fim de semana, sob um primeiro momento de sua preparação para a função. E posteriormente, responsabilizados por seus atos, de forma funcional. Fora tudo isso, como ser humano ele está sujeito às intempéries de seu ego e daí, todo esse poder inebria, em muitos casos.
O excesso de blindagem que recebem, torna-os muitas vezes, prepotentes, arrogantes... e tal como imperadores romanos tresloucados, sentem-se poderosos ao advertir atletas; expulsá-los; humilhá-los publicamente, e se for o caso de um clássico televisionado e assistido por milhões de pessoas, então...
A Fifa reluta em usar a tecnologia para auxiliar os árbitros em jogadas polêmicas. Dá-se um desconto enorme para o lado humano deles, em ter que decidir sob uma fração de segundos um lance duvidoso que todos vemos claramente, mediante infinitas repetições auxiliados pela visão do vídeotape das transmissões da TV. No entanto, por outro lado, se é notoriamente difícil para um ser humano (mesmo que supostamente capacitado para a função), tomar uma decisão dessas, em segundos, por que a Fifa não adequa à arbitragem ao século XXI, e não usa enfim a tecnologia em casos duvidosos ?
E isso evitaria a enorme insatisfação de quem é prejudicado decisivamente em uma partida, ao amargar maus resultados que geram consequentes prejuízos financeiros enormes, aos clubes.
E estabeleceria uma relação mais humana entre árbitros e jogadores, ao evitar assim essas manifestações marcadas pela extrema prepotência de árbitros que julgam-se Deuses inatingíveis, por ter o poder da vida e da morte, no uso de seus malfadados cartões, amarelo e vermelho, distribuídos a esmo, além das súmulas que redigem, onde somente as suas palavras são levadas em consideração nos tribunais esportivos, sem direito ao contraditório. Respeito à autoridade do árbitro, sim, mas intransigência exercida mediante uma couraça de aço, não !

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Roberto Piva, Beatnick da Paulicéia - Por Luiz Domingues


Mesmo através de uma época onde as comunicações deixavam a desejar no quesito velocidade, podemos afirmar que o movimento Beatnick não chegou com grande atraso à terra tupiniquim. E dessa forma, a literatura libertária produzida por escritores como : Jack Kerouac; Allen Ginsberg; William Burroughs, entre outros, espalhou-se quase simultaneamente entre alguns jovens paulistanos, a produzir uma vontade imediata, pela identificação causada, em extravasar no papel, a sua veia literária e libertária, digamos. Roberto Piva foi um deles.

Nascido em São Paulo, em 25 de setembro de 1937, Roberto Piva teve outras influências marcantes na sua juventude, além da Beat Generation, que mescladas, imprimiu-lhe uma sólida base.

A começar pelo Marquês de Sade, que certamente apontou-lhe a trilha do erotismo, e passar pelos malditos da literatura francesa oitocentista, com Rimbaud e Baudelaire na cabeceira.

O teatro de Antonin Artaud e o cinema de Pier Paolo Pasolini, também impressionou-lhe fortemente, sem dúvida e tudo condimentado devidamente pela poesia de Álvaro de Azevedo e Jorge de Lima. Sem contar que Piva foi um dos maiores especialistas em Dante Alighieri, cuja obra estudou à exaustão, no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro.
Também entusiasta do surrealismo, foi um dos poucos (ao lado de Claudio Willer e Sérgio Lima) a ser resenhado pela revista francesa : "La Breché Action Surrealisté", editada por André Breton. Com tudo isso a reverberar decisivamente em sua imaginação, foi evidente que o impacto da literatura Beat imprimiu-lhe a dose final para que pudesse formatar a sua obra contundente.
A sua primeira obra publicada constou na antologia de novos poetas : "Antologia dos Novíssimos", de 1961 (Editora Massao Ohno).
Mas foi através de seu livro, "Paranoia", de 1963, que ele ganhou o destaque que tratou em torná-lo verdadeiramente conhecido e respeitado no meio literário brasileiro. A riqueza de suas múltiplas influências certamente abriu-lhe um diferencial em relação ao modus operandi dos poetas Beat, norteamericanos. Ao invés de seguir a marca registrada das impressões colhidas nas ditas "Road Trips", Piva concentrou-se nas imagens paulistanas que rodeavam-no. A sua substância poético forjou-se em meio a viagem pelas ruas da Pauliceia e o encontro com seus meandros; submundos e tipos.

De certa forma a redescobrir São Paulo, após Mário de Andrade já ter passado por essa epifania nos anos vinte, Piva agora a via pelas lentes do movimento Beat, com muito Jazz; anfetaminas e sexualidade lasciva. E assim, evoca em sua obra as "locomotivas uivantes", "cadillacs sem sangue" e "a garoa cinza que engrossa num céu de cimento"... as portas da percepção escancaram-se através dos Beatnicks, para antecipar a lisergia contracultural dos Hippies que viriam a seguir.
Seguiu-se : "Piazzas" (1964); "Abra os Olhos e diga Ah !" (1975); "Coxas" (1979), e "20 Poemas com Brócoli" (1981), entre outras obras significativas. Tornou-se admirado pelas gerações posteriores, protagonizou diversos encontros literários; saraus & palestras, sempre animadas pela sua declamação inflamada. Nos seus últimos dias, mostrou interesse pelo tema do xamanismo.
Roberto Piva deixou-nos em 3 de julho de 2010, ao abrir uma lacuna difícil para ser preenchida na literatura paulista e brasileira.

Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

Filme: The Wiz (O Mágico Inesquecível) - Por Luiz Domingues


Você conhece aquela brincadeira do telefone? Você contava um fato a uma criança, que repassava um terceiro participante e assim sucessivamente, até que a última desse círculo, contava à primeira criança que iniciara a conversação, o que ouvira, e esta verificava que a história estava completamente diferente. Em relação ao filme: "The Wiz" ("O Mágico Inesquecível"), lançado em 1978, parece que o seu resultado de crítica e da parte do público, foi motivado por alguma fator nesse sentido da brincadeira que citei neste parágrafo e creio que eu poderei explicar o que eu quis dizer com essa alegoria.
Em sua raiz inicial, tudo começou com a criação de um escritor fantástico, chamado: Lyman Frank Baum, um autor  norte-americano que viveu entre 1856 e 1919. Dono de uma imaginação fértil, ele também foi um estudioso de ocultismo (foi um dos primeiros membros da Sociedade Teosófica norte-americana, vinculada à famosa Sociedade Teosófica de Londres, Inglaterra). Autor de vários livros a retratar universos mágicos e fantásticos, criou um em específico, que tornar-se-ia um best-seller, chamado: "The Wizard of Oz" ("O Mágico de Oz").
Sucesso absoluto, gerou outros livros ambientados em tal universo que inventou, o Reino de Oz e assim a obra original, foi transposta para o cinema em 1939, para gerar um sucesso retumbante e inquestionável, ao fazer dele, um filme cultuado para sempre.
Em 1976, uma adaptação da história para o universo do Rock e ambientada no interior da Austrália, chegou às telas, com o nome de "Oz", dirigido por um cineasta conhecido  como: Chris Löfvén. Filme rústico, sem muita produção, passou ao largo em termos de visibilidade, mas apesar dos pesares, tal obscura película contém os seus (poucos) méritos. Aliás, tal obra australiana consta neste livro com a sua respectiva resenha.

Ainda nos anos setenta, o compositor, Charlie Smalls adaptou a história para o universo afro-americano, ao transformá-lo em um espetáculo musical para o teatro, e de fato, foi um sucesso essa versão chamada: "The Wiz".

Mediante a existência de boas canções e uma excelente produção, a peça musical fez bastante sucesso na Broadway, e outros circuitos teatrais por onde excursionou. Impressionado pelo sucesso na Broadway, a Motown, a mítica gravadora especializada em Black Music, comprou os direitos da peça e bancou a sua adaptação para o cinema.

Logo de imediato, gerou-se controvérsia a mão de ferro em exigir a presença da cantora, Diana Ross, a todo custo para interpretar o papel de "Dorothy". 

No livro de L. Frank Baum, Dorothy é uma menina adolescente, e assim, muitos anos depois quando foi adaptado ao cinema, em 1939, escalou-se a então atriz/cantora adolescente, Judy Garland, para interpretar Dorothy, com sucesso retumbante. Pois nessa versão "black" para o cinema, Diana Ross convenceria como Dorothy, aos 33 anos de idade?  Bem, como tratou-se da versão, da versão da versão... usar-se uma licença poética mastodôntica foi o que não faltou nessa versão cinematográfica. Todavia, tal escolha gerou um mal-estar na produção do filme, ao ponto do primeiro diretor contratado, John Badham, desistir da tarefa. Ele alegou que adorava a cantora, Diana Ross e acreditava no potencial dela como atriz e dançarina, mas a sua idade cronológica naquele instante, mostrava-se completamente inadequada para defender a personagem.
Foi então que se contratou o grande, Sidney Lumet, um diretor com fama e currículo gigantesco, muito respeitado no mundo cinematográfico, e que ao contrário, não considerou suportável contar com Diana para defender o papel. O que é um diferente ponto-de-vista, não é mesmo? Pois Lumet acreditou na capacidade de usar-se a licença poética em nome da arte, ao menos no campo teórico, visto que o filme deixou a desejar em outros aspectos.


E por outro lado, p objetivo de Barry Gordon, o mandatário máximo da gravadora foi prestigiar ao máximo o seu elenco musical e dessa forma, nada o demoveu de sua insistência, e assim, Diana Ross interpretou, Dorothy, sob uma condição, digamos, bem "madura".
E Michael Jackson, já a descolar-se da sua famosa (e ótima) banda que manteve com os seus irmãos, o Jackson Five (posteriormente foi simplificado o nome da banda para "Jacksons"), foi escalado para interpretar o personagem do "espantalho".
É bom situar inclusive, que por uma questão de meses, o Jackson Five havia assinado com uma outra gravadora e não trabalhava mais com a Motown, contudo, Gordon bancou a presença de Michael Jackson no filme, mesmo que não fosse mais um contratado de sua gravadora. Ted Ross fez o leão covarde, e Nipsey Russell, o homem de lata. O ator de ofício, Richard Pryor, interpretou o Mágico de Oz. 

Tal produção teve tudo para dar certo, pois senão vejamos: um ótimo elenco (apesar da dúvida sobre Diana Ross, por estar madura demais para o papel); um diretor do quilate de Sidney Lumet, roteiro por Joel Schumacher, e garantia de uma trilha espetacular, com o melhor do Soul e do R'n'B, a esperar-se dos artistas vinculados à gravadora Motown. Todavia, a expectativa frustrou-se por completo quando o filme foi exibido no cinema...
Para início de conversa, a história ambientada no Harlen novaiorquino, pareceu uma imitação barata de "Godspell", com o figurino utilizado; coreografias e ambientações em externas, muito semelhante a esse outro musical filmado em 1973.
E o seu maior trunfo, por incrível que pareça, a música, não deslanchou. 

Na abertura, o espectador/ouvinte anima-se ao imaginar que vai ouvir Soul Music com alta qualidade, mas à medida que o filme avança, ao deparar-se com canções pouco significativas, sob arranjos com teor Pop, no mau sentido do termo e assim, "pasteurizados", ao deixar toda a tradição da velha gravadora Motown para trás, em busca de uma sonoridade "moderna" com a preocupação em adequar-se à então em voga "Disco Music". Típica manifestação na metade/final de anos setenta, ou seja, deixa muito a desejar.
E o pior de tudo, da história original do Mágico de Oz, não sobrou quase nada, assassinado pela licença poética extrema que praticou-se nesta versão, isto é, se tal fato chegasse aos ouvidos do escritor, L. Frank Baum, dentro daquela brincadeira do telefone que eu citei no início da resenha, a sua reação provavelmente seria afirmar algo como: -"mas... eu não escrevi isso"... 
Ainda a repercutir a parte musical, Quincy Jones foi o produtor. Foi nesse trabalho efetivamente que a amizade entre ele e Michael Jackson frutificou-se e no futuro não muito distante, ainda ao final dos anos setenta e principalmente ao dos anos oitenta, Quincy Jones seria o produtor dos álbuns mais bem sucedidos da carreira solo de Michael Jackson, ao menos pelo aspecto comercial, visto que eu, particularmente, tenho a impressão que sob a análise mais artística, o melhor de Michael esteve contido nos álbuns que gravou com os seus irmãos, a bordo do grupo, Jackson Five, entre o final da década de sessenta e início dos anos setenta. A constar da trilha deste filme, ouve-se canções como: "Glinda's Theme", "Soon as I Get Home", "Believe in Yourself, Dorothy", "So You Wanted to See the Wizard", "Emerald City Sequence", "Poppy Girls", "Is This What Feeling Gets?", "Can I Go On" e outras.


Algumas canções são boas, mas os arranjos extremamente pasteurizados desapontam. Se o espectador for um da Soul Music, R'n'B ou o Funk (o verdadeiro), e eu incluo-me em tal rol, haverá por verificar que essa trilha sonora gera uma expectativa grande, mas que simplesmente não chega a contento, ao gerar-se uma enorme frustração.
Sobre outros atores não citados anteriormente: Lena Horne (como Glinda, a "bruxa má do sul"), Mabel King (como Evillene, a "bruxa má do oeste"), Thelma Carpenter (como Miss One, a "boa bruxa do norte"), Theresa Merritt (com a tia Em e também, Shelby Gale), Stanley Greene (como o tio Henry), Clint Jackson (como o gnomo verde), Gloria Van Scott (a garota do Rolls Royce), Johnny Brown (como o pretendente da Tia Em) e outros atores de apoio. Quincy Jones aparece a tocar piano em uma cena, além de haver também aparições rápidas de outros artistas da música, tais como: Roberta Flack e Luther Vandross, entre outros músicos e cantores reais.
Uma boa explicação para o roteiro ter sofrido transformações externas, bem fora do contexto do livro original escrito por L. Frank Baum, talvez resida no fato de que o roteirista, Joel Schumacher, estivesse muito influenciado por uma linha de pensamento nessa época, a tratar-se de uma filosofia criada por um sujeito chamado, Werner Erhard, e conhecida como "Est". Tal linha de pensamento filosófico, mostrava-se como uma nova perspectiva para enxergar o papel do homem no planeta, a erradicar a fome e o sofrimento, portanto, a mostrar-se como algo nobre, em tese.


Mesmo a fugir da designação a portar-se como uma "seita", na prática foi o que ocorreu em algum momento, enquanto a "Est" existiu e nessa trajetória, muitos artistas e intelectuais tornaram-se membros e entusiastas da filosofia, e no caso, Schumacher foi um desses admiradores.

Diana Ross, segundo consta, também se entusiasmara com a filosofia proposta por Werner Erhard. Enfim, graças ao deslumbramento da parte de Schumacher com tal pensamento, muitas falas foram escritas para exprimir tal filosofia, através de alguns personagens, portanto a fugir do livro original e gerar uma estranheza para quem conhecia bem a história do Mágico de Oz.

Nesses termos, com um texto a conter anomalias: uma Dorothy a mostrar-se como uma mulher madura e pela música que não deslancha, o filme reverberou negativamente e fracassou de uma forma retumbante nas salas de cinema. O fiasco foi tão grande, que não cobriu nem a metade do valor gasto com a produção e provocou por sua conta, o cancelamento sumário de outros musicais que estavam a ser cogitados na época. Frequentemente tal fracasso é considerado pelo prisma histórico, como o fim da década de ouro do cinema "Blaxpoitation", ou seja, os  filmes feitos para explorar a cultura Black nos Estados Unidos e que tanto sucesso houvera feito na década de setenta.
A crítica massacrou o filme e desta vez, acho que não haveria outra alternativa, infelizmente. Falou-se muito mal da escolha de Diana Ross para viver a personagem, Dorothy, por conta da sua idade: criticou-se com ênfase a trilha sonora (opa, parece que a decepção não foi apenas minha, então), e um  certo jornalista chegou a escrever que a canção, "Believe in Yourself, Dorothy", foi a pior música já inserida em um musical, em todos os tempos. E também se falou muito mal sobre o roteiro, exatamente sobre essa opção do roteirista, Joel Schumacher, em inserir as pérolas da filosofia "Est" nos diálogos, para usar o filme como uma espécie de panfleto da seita. Chegou-se ao ponto em até ironizar-se tal espécie de panfleto da seita. Chegou-se ao ponto em até ironizar-se tal prerrogativa de sua parte, ao escrever-se: -"Believe in Est, Schumacher", ou seja, uma demonstração de escárnio nada sutil.

Tal sonoridade imposta por Quincy Jones nesta trilha sonora, norteou a carreira solo de Michael Jackson doravante, a corroborar a minha opinião pessoal que foge completamente  ao senso comum, eu sei, e o leitor pode considerar-me como um purista exigente e intransigente, até, mas em minha avaliação, a Black Music não é isso.
Baseado no livro: The Wizard of Oz", de L.Frank Baum. Roteiro de Joel Schumacher. Produção de Rob Cohen. Direção de Sidney Lumet. Música por Quincy Jones. "The Wiz" foi lançado em outubro de 1978.

Este filme entrou naturalmente para o circuito de TV, mas dado o seu fracasso nas bilheterias, não chamou a atenção em demasiado também na TV. Lembro-me de tê-lo visto ainda em canal aberto, no início dos anos oitenta e a minha reação inicial deve ter sido a mesma de muitas pessoas que nutriram as melhores expectativas possíveis, ou seja, a decepção com a trilha sonora a mostrar-se mais acentuada do que em relação à própria história e produção em si, visto que tirante as crianças, qualquer adulto leva em consideração o fator da fantasia quando pensa em "O Mágico de Oz", portanto, não é possível esperar uma maior densidade dramática para uma fantasia eminentemente infantil.
Nos anos oitenta, a obra chegou às lojas e locadoras, a versão em VHS e ao final da mesma década, uma edição com extras foi relançada. Em 1999, foi lançada a versão em DVD e em 2008, uma edição de luxo do DVD, foi relançada, como parte da comemoração pelos quarenta anos do lançamento do filme. Em 2010, chegou enfim a sua versão em formato Blu-Ray.

Bem, apesar dos inúmeros problemas que este filme acumulou por tantos equívocos cometidos em sua linha de condução, acho que vale a pena assistir-se ao menos por uma vez, nem que for para conferir a subliminar qualidade de algumas canções, a despeito do arranjo infeliz que foi usado, e também para assistir-se alguns astros da Black Music em ação, junto a um bom grupo de atores. E quanto ao diretor, Sidney Lumet, eu nunca soube de alguma declaração dele a lamentar essa obra, no entanto, certamente que é um item maculado em sua filmografia maravilhosa. Ou seja, ninguém é perfeito. 
Tal filme teve uma passagem pelos canais da TV a cabo, certamente, oportunidade em que eu gravei a minha cópia pessoal, aliás, nos anos noventa. Na internet, na atualidade de 2012,, está disponível em versões pagas nos portais, Google Play e YouTube. No YouTube gratuito, há fragmentos; a trilha sonora completa para escutar-se, os trailers oficiais e até micro documentários sobre o seu processo de filmagem. Em portais menores, é possível ser encontrado na íntegra, como por exemplo, em um portal chamado> Trak.tv e em outros, a procurar-se.

Esta resenha foi publicada inicialmente na Rádio/Blog do Juma em 2012. Posteriormente, foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" e está disponível para a leitura através do seu volume II, a partir da página 47.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Trotes Estudantis, Até Quando ? - Por Luiz Domingues


Na sociedade em que vivemos, a obsessão pelo dinheiro é o normal. Esse paradigma está tão solidificado, que todo sistema educacional é centrado nesse valor básico. Dessa forma, a pressão para que obtenha-se a melhor educação, tem como objetivo primordial a preparação para o mercado de trabalho, e sob uma segunda ou terceira instância, o prazer pelo saber, razão nobre pela qual surgiram as academias na antiguidade, e as universidades na idade média.
Posto isso, o paralelo dessa pressão por melhores colocações é certamente um dos fatores que explicam o porquê da existência desse jogo marcado pela dominação; subjugação; sadismo; arrogância; prepotência etc. Segundo dizem, a palavra "trote" seria mesmo uma alusão à relação homem / eqüino, e nesse caso denotaria o "montar em cima", literalmente, como exercício de humilhação e dominação.


Alguns estudiosos sustentam a tese de que a palavra "Bixo", escrito com o "X" propositalmente, teria uma dupla função depreciativa : 

1) Chamar alguém de bicho, animal, como forma de depreciação e 

2) O "X" revelaria o estigma com o qual marcam os novatos para persegui-los até que uma nova turma entre na universidade e o ciclo perpetue-se.
A manutenção desse status quo do malfadado "bullying", só que  socialmente aceito, perpetua-se, pois o oprimido de hoje, sente-se compelido a repetir o padrão, "a descontar" no próximo novato, e não passa na mente de ninguém, quebrar esse padrão idiota em termos de paradigma, que não sabe-se onde começou.
O circo romano com gladiadores, um dia acabou; as rinhas de galos e as touradas hão de acabar um dia, e por quê essa imbecilidade do trote estudantil precisa existir ainda ? Observo defesa inflamada por parte de entusiastas dessa prática e a argumentação parece pífia, ao esbarrar no surrado argumento de que tal prática "integra" o novato à instituição, e principalmente ao convívio com os veteranos.
Desculpe, mas não aceito tal argumentação pois mais parece uma mera manutenção de um padrão adquirido, sem que haja nenhum sentido prático realmente plausível. Por quê ? Ora, não é possível receber a nova turma com um padrão diferente, em termos de convívio civilizado, mediante a observação da gentileza; respeito; boa educação ?
Se uma pessoa vem pela primeira vez à minha casa, devo-lhe aplicar um trote, com práticas humilhantes e quiçá sádicas, para que ela sinta-se bem recebida, "integrada" ?  O que se vê na maioria dos casos, não tem nada de "integração". Vemos apenas cenas marcadas pelo extremo sadismo; humilhação; exploração etc. Isso sem contar a oportunidade que abre-se para constrangimentos de conotação sexual, principalmente com as meninas.
Acho desnecessário arrolar casos extremos ocorridos com tragédias perpetradas pelos famigerados trotes. São públicos e notórios e estão nos noticiários policiais.
Só acrescento que há maneiras mais civilizadas para recepcionar os calouros. Ou podem ser recebidos com festas e atividades culturais, ou mesmo com um caderno de encargos sociais a ser cumpridos, tais como : ajudar na limpeza pública; auxiliar pessoas carentes etc.
E quem sabe, as duas coisas, em uma semana inicial com atividades edificantes, coordenadas pelos veteranos. Em suma, proponho andar para a frente, e deixar as práticas medievais para trás...


Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, e republicada posteriormente no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012