sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Filme: Some People - Por Luiz Domingues

Houve uma tendência cinematográfica no cinema inglês, a partir do final dos anos cinquenta, conhecida como: “Nova Onda do Cinema Britânico”. Geralmente fotografados em preto & branco, tais filmes tiveram como influência o Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa, certamente, no entanto, tal escola construiu-se rapidamente amparada por um forte sentimento nacionalista, portanto, foi uma tendência de cinema muito centrada em sua identidade britânica, apesar das evidentes influências advindas da parte de escolas estrangeiras. Tal vertente foi ampla e usou várias nuances para expressar-se e não necessariamente permaneceu fechada na ideia de ser um estilo cinematográfico para a juventude a enfocar signos inerentes à sua cultura, porém muitas vezes, capturou tais nuances a observar a mentalidade jovem britânica, e por extensão a mostrar movimentos ocorridos ao longo dos anos cinquenta e sessenta. Nesses termos, a questão da música e das diversas tribos que gravitaram em torno de tais tendências, foi enfocada em várias ocasiões e foi o caso deste filme em específico, chamado: “Some People”, lançado em 1962.
Ao fugir do padrão, esta produção foi fotografada em cores, algo não usual dentro dessa escola de cinema. Com tal opção, esse filme não perdeu as características típicas desse estilo a esbarrar no realismo e a mostrar muitas cenas em externas com as personagens a caminhar pelas ruas das cidades e também a mostrar pontos conhecidos e até turísticos. Neste caso, a opção não foi usar Londres ou Manchester, localidades mais esperadas a ser usadas como cenário para filmes ingleses, contudo, a produção de “Some People” optou por Bristol, cidade e condado ao leste da Inglaterra. Ótima escolha, pois apesar de não ser uma cidade/região muito popular no imaginário dos turistas estrangeiros, Bristol é na verdade, uma importante cidade inglesa e tem muitos recursos, uma história muito antiga que remonta à Idade Média e muitos atrativos culturais. Portanto, esse filme mostra a cidade a pulsar no ambiente de início de década de sessenta, e a produzir uma cena artística jovem, e absolutamente local.
O ambiente na Inglaterra de 1962, como sabemos, constituiu-se de uma fase pré-Beatlemania que estava em ebulição. A fama dos Beatles era localizada ainda, a restringir-se à sua cidade de Liverpool, no norte do país, no entanto, a banda fora contratada recentemente por uma gravadora major e em outubro desse mesmo ano, lançaria o seu primeiro single para dar início ao seu sucesso em âmbito nacional, portanto, a ebulição já mostrava-se em curso. Além desse fenômeno em vias de acontecer, o som jovem britânico existia em forma de centenas de grupos de Rock ao estilo, “Skiffle”, espalhados pelo país; o Rock Instrumental do grupo, The Shadows e o astro Pop, Cliff Richard a fazer sucesso radiofônico e também através de seus filmes (inclusive a contar com o próprio grupo, The Shadows, como a sua banda de apoio, nos discos, shows ao vivo e nos filmes). A estética “Mod”, outro fenômeno tipicamente britânico, também já estava em voga, se bem que ganharia (assim como a Beatlemania e a “British Invasion” sobre a América do Norte), uma proeminência maior em seguida, e isso sem contar outras tribos a seguir tendências socioculturais existentes no Reino Unido, como os “Teddy Boys”, “Rockers” e gangues formadas por motociclistas em geral. 
Em “Some People”, a ideia foi traçar um painel sobre a juventude comum, não necessariamente para mostrar membros de tribos, mas jovens do povo a viver e sonhar em meio a esse panorama todo acima descrito. Assim transcorre o filme, portanto a mostrar um grupo de jovens, rapazes e moças, que andam pelas ruas de Bristol, à cata de diversão em seu cotidiano. Não apenas diversão, certamente, pois existia a questão das obrigações escolares e familiares, a culminar na questão da colocação desses jovens no mercado de trabalho e nessa realidade britânica, é sabido que a maioria das pessoas menos abastadas, sempre estiveram concentradas na chamada, “classe operária”, a camada mais simples dentro da sociedade no Reino Unido.
Nesses termos, a ação mostra um grupo de jovens que saem para divertir-se e eventualmente praticam pequenos delitos em termos de vandalismo contra o patrimônio público e, sim, são músicos e planejam formar uma banda de Rock. Eventualmente interagem com gangues de motociclistas, mas não necessariamente são membros dessa tribo, embora por força da história, um desses rapazes esboça ingressar em uma gangue dessa característica e assim gera-se um conflito com direito a briga em vias de fato, em um momento mais avante da película. 
Tais rapazes são: Johnny (Ray Brooks), David Andrews (como Bill) e Bert (interpretado por David Hemmings), como os principais elementos em um primeiro instante. A vagar pelas ruas de Bristol, eles mexem com as meninas, vandalizam sinais de trânsito e latas de lixo, entre outras falcatruas e ao serem autuados por abusar da velocidade e não respeitar o sinal vermelho de semáforos, ao pilotar motos, são levados ao tribunal para serem condenados a receber multas e uma dura repreensão da parte de um magistrado bastante conservador.
Chateados com tal revés, eis que os rapazes invadem uma igreja e o jovem, Johnny, que é bastante talentoso, a tocar teclados e guitarra, sobe ao patamar onde encontra-se o órgão da instituição e passa a tocá-lo em plena madrugada, e logicamente que o que ele executa não é exatamente música sacra, mas sim, Rock’n’ Roll in natura, enquanto os seus amigos divertem-se a valer, a dançar debochadamente, inclusive com um deles a apropriar-se e usar um hábito sacerdotal que ali encontrara. O vigário (interpretado por Michael Gwynn), os surpreende em meio à balbúrdia juvenil que estão a empreender dentro do templo e passa-lhes uma descompostura, é óbvio, mas logo em seguida, eis que aparece a figura de Mr. Smith (interpretado pelo experiente ator, Kenneth Moore), que é um maestro, e diretor do coral da igreja. Pois ele percebe que os rapazes não são marginais e oferece-lhes uma oportunidade para que usem o salão paroquial para promover os ensaios da sua banda de Rock e assim, eis que isso passa a ocorrer. 
Nesse ínterim, eis que os rapazes conhecem a bela filha do senhor Smith (Anne, interpretada por Anneke Wills), que trabalha como secretária da instituição e obviamente que ela torna-se amiga de todos os rapazes e ao mesmo tempo, objeto de desejo deles, até que enfim, chegue a escolher, Johnnie como namorado. Entra em cena a figura de mais uma bela moça, Terry (interpretada por Angela Douglas), que é cantora e assim, após alguns ajustes, a banda completa-se, com a inclusão de um rapaz frequentador da paróquia para tocar bateria no grupo.
Há muita ingenuidade juvenil a envolver as cenas onde tal banda ensaia, logicamente, mas há espaço também para certas reflexões Rockers, quando por exemplo, um dos rapazes produz sem querer uma microfonia com a sua guitarra e por não saber lidar com o recurso do “feed back” natural proporcionado por um amplificador, fica desconcertado com tal fenômeno eletrônico. De fato, nessa época tal tipo de ruído proporcionado por uma guitarra ligada em um amplificador, não era considerado como um recurso a ser explorado em prol da sua performance musical e salvo engano de minha parte, a situação só modificar-se-ia a partir do lançamento da canção, “I Feel Fine”, pelos Beatles, em 1964, quando a introdução dessa canção apresentou tal tipo de recurso sonoro, graças ao estupendo guitarrista, George Harrison, que transformou a microfonia gerada e antes considerada como algo indesejável pelos músicos, como um trunfo sonoro em favor da canção.
Uma outra cena que chama muito a atenção em “Some People”, ocorre com Anne, a bela filha do maestro que é surpreendia na banheira de sua casa pelo pai, a tomar banho quente com roupa e para explicar a estranha ação ao seu pai, ela explica-lhe que a água quente ajustada no corpo, serviria para encolher o tecido jeans e tornar a calça justa ao máximo, para poder seguir a moda vigente entre as meninas da ocasião. Eis então uma abordagem cultural interessante sobre a moda feminina jovem, de início de década de sessenta entre as moças britânicas e quero crer em toda a Europa (e quiçá ao redor do mundo), em 1962.
A história segue com a ocorrência de pequenos conflitos gerados por ciúmes e mal-entendidos entre os jovens e o clímax ocorre quando um dos rapazes envolve-se com uma gangue formada por motociclistas e estes invadem o salão onde a banda ensaia e uma briga chega às vias de fato, com a destruição de tudo em volta. O senhor Smith fica muito desapontado, naturalmente, e após algum tempo, Johnnie compromete-se a arcar com os prejuízos, para restabelecer prontamente a confiança de Smith, mas sobretudo da sua namorada, Annie. Simples assim.
Enfim, um filme bastante inocente, mas que observa alguns méritos, já expressos. Na parte musical, o que é digno de nota, é a incidência da banda a tocar, e o seu estrato musical é um som Pop, bastante leve e a observar-se a raiz do R’n’B, entretanto devidamente absorvido pelo padrão britânico. Trata-se outrossim de uma sonoridade agradável, embora bem simples em sua execução. As canções exibidas com a voz da personagem, Terry (Angela Douglas), na verdade foram dubladas pela atriz em questão e a verdadeira voz é da cantora, Valerie Mountain. A parte instrumental foi gravada por uma banda real, igualmente, chamada: “The Eagles”, que existia desde 1958, mas que teve a sua primeira melhor chance para alcançar uma melhor projeção, com o convite a gravar a trilha sonora do filme, “Some People”. 
Apesar do álbum a conter a trilha sonora do filme ter obtido um relativo sucesso, ao ponto em frequentar a parada de sucessos britânica, tal banda não angariou nada mais que uma modesta repercussão no cenário do Rock inglês, pois nem mesmo com a explosão do Rock britânico no mundo, reuniu forças para fazer parte dessa euforia toda e sucumbiu, ao encerrar atividades em 1964, portanto, eu posso imaginar o quanto os seus componentes frustraram-se em não ter aproveitado as oportunidades. A canção título do filme, “Some People”, também foi lançada em compacto/single e teve um bom desempenho na parada de sucesso britânica em 1962.
Tal película teve um bom desempenho, porém sob o âmbito nacional, a atingir um resultado circunscrito ao Reino Unido em uma primeira instância. A crítica foi moderada na ocasião, a elogiar a boa fotografia colorida (isso é uma verdade), além da observação de externas a mostrar bonitas tomadas da cidade de Bristol, outra afirmação bem colocada. Contudo, a história em si; a atuação dos atores; a observação sobre a direção e no tocante à trilha sonora, não despertou maiores elogios. De fato, não se trata de uma obra prima do cinema, eu concordo, mas também passa longe de ser um filme ruim.
 
Ainda a participar do elenco de atores e atrizes: Timothy Nightingale (como Tim), Frankie Dymon Junior (como Jimmy), Richard Davies (como Harper), Cyril Luckham (como o juiz de direito que condenou os garotos), Fanny Carbie (como a mãe de Johnny), Harry H. Corbet (como o pai de Johnnie) e outros.
Foi escrito por John Eldridge, produzido por James Archibal e dirigido por Clive Donner. Lançado em junho de 1962. Há por destacar-se também, que este filme foi realizado graças aos esforços da parte do Duque de Edinburgh para incentivar a cultura em meio a um prêmio por ele criado nesse sentido. Portanto, a ideia de se mostrar no filme, diversos pontos turísticos da cidade de Bristol, observou também a preocupação de enaltecer as virtudes dessa municipalidade, como uma obrigação contratual, em face do concurso estabelecido pelo senhor Duque.
 
Aqui no Brasil, tal filme não passou com grande constância na TV. Desconheço exibições regulares em canais de TV a cabo, nem mesmo em mostras sobre o cinema britânico, que são comuns na grade de certos canais temáticos, no entanto, a privilegiar outras produções, pois confesso, somente pude assistir “Some People” através do YouTube, onde inclusive não é fácil achar-se uma cópia na íntegra, mas enfim, os interessados culminam em encontrar, com a devida paciência na busca.
Em síntese, acho que vale a pena assistir, pois trata-se de um bom documento a mostrar a ambientação britânica pré-Beatlemania, pré-movimento Mod e com o atrativo de contar com atores jovens que posteriormente cresceram no cinema britânico (David Hemmings, sobretudo), e também pela presença de Kenneth More, como um ator já veterano na ocasião, em ação.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 386.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Filme: Let's Rock - Por Luiz Domingues

Mais um filme lançado na enorme safra de Rock Movies ao final dos anos cinquenta, “Let’s Rock” ao menos buscou algum tipo de diferencial em seu mote, ao contrário da imensa maioria dos seus pares, que não preocupou-se muito em ser original no tocante à trama central para buscar alinhavar uma história. No entanto, que não se engane o leitor, pois o mote em questão não foi nada revolucionário para que pudesse apresentar um roteiro instigante, aliás longe disso. A questão em específico para este filme, deu-se com a perspectiva de um artista que luta contra o Rock, em via de regra. 
Outros filmes contemporâneos haviam inserido em sua trama a ideia de pessoas a adotar tal tipo de posição, no entanto a tratar-se de cidadãos comuns e invariavelmente conservadores, preocupados com a perda do controle sobre os costumes adotados por seus filhos e netos, ou autoridades movidas por motivações semelhantes, mas em “Let’s Rock”, o que ocorreu foi a observação de um ponto de vista ligeiramente diferente, a mostrar um outro lado da contrariedade que o Rock’n’ Roll também gerou.
Falo a respeito de artistas tradicionais que sentiram-se incomodados com as mudanças no panorama musical ao longo da segunda metade dos anos cinquenta em diante e por perder espaço, lutaram contra a instauração de uma nova ordem musical, a usar de argumentos e expedientes não muito respeitosos, em uma clara sinalização de contrariedade, como se fosse mais fácil evitar que uma nova ordem estética surgisse, a tentar entender o teor das novidades e quiçá, buscar uma adequação aos novos ventos que sopravam no show business. 
 
Bem, tal tipo de sentimento da parte de artistas que recusam-se a abrir caminho para o novo e pelo contrário, sentem-se ameaçados em ter que sair de sua zona de conforto, é um fenômeno que ocorre o tempo todo. Não restringe-se ao mercado do universo Pop, pois remonta a outros tempos bem mais antigos. No entanto, pelo fator da aceleração dos avanços da tecnologia, principalmente no campo das comunicações, tal rapidez cada vez maior a abranger o alcance da informação, trouxe em seu bojo a oportunidade para que os modismos também acompanhassem tal frenesi e nesses termos, a percepção no mundo cinquentista, alcançou praticamente a defasagem da mudança comportamental em uma década.
 
Nesses termos, a ambientação dos anos cinquenta ganhou muito rapidamente uma outra orientação completamente diferente em relação à década anterior, anos quarenta, que por sua vez, não fora muito distinta das décadas de vinte e trinta. Em suma, o tempo parecia passar de uma forma bem mais lenta anteriormente, e as transformações culturais decorrentes, costumavam consumar-se entre uma geração e outra, ou seja, um período entre vinte e cinco & trinta anos, para que algo muito diferente surgisse. Entretanto, a aceleração contínua de tais mudanças e sobretudo a percepção das pessoas nesse sentido, mudara e assim, mediante o advento dos fenômenos do Rock’n’Roll, o cinema a enfocar gangues formadas por jovens em torno de motos & carros e a literatura advinda da Beat Generation, sobretudo, moldou a percepção que a juventude começara a comportar-se de uma maneira diferente em relação às expectativas inerentes e decorrentes da mentalidade arraigada da parte dos adultos conservadores.
É nesse sentido que o filme, “Let’s Rock”, trabalha a sua história, a partir da visão de um artista que sente-se incomodado com a onda do Rock’n’Roll a assaltar a produção na indústria fonográfica, mídia e show business de uma forma geral, na ambientação cinquentista. Ao invés de tentar compreender a nova estética, ele não abre mão em manter o seu estilo antiquado e pelo contrário, adota a estratégia antipática em lutar conta o Rock’n’ Roll, sob a errônea avaliação de que possa suplantá-lo e que por uma mera questão de tempo, ao acreditar que tal modismo cairia e rapidamente ele recuperaria por conseguinte, o seu espaço perdido e continuaria a fazer sucesso com as suas baladas obsoletas. 
O que faltou-lhe como percepção, ou antevisão nesse momento, foi que o Rock’n’ Roll chegara ao mercado não apenas como um mero modismo, mas muito pelo contrário, estava a sedimentar-se como uma instituição e na condição de uma nova raiz hegemônica, teria diversas ramificações a nascer de seu tronco, para mostrar posteriormente modificações múltiplas, porém sem abalar a sua estratificação como um pilar, tal como o Jazz e o Blues também houveram estabelecido-se e a deixar claro que o Jazz e o Rock, foram ambos, na verdade, derivados do tronco primordial do Blues.
Muito bem, essa é a história de Tommy Adane (interpretado por Julius La Rosa), que inconformado com a crescente escalada do Rock’n Roll, tem como meta destruí-lo de uma forma bastante imprudente, ao considerar que os jovens vão preferir as suas canções antiquadas, arranjadas mediante o uso de orquestrações rococó e sobretudo defendidas por um tipo de interpretação ultrapassada ao demonstrar uma grandiloquência completamente fora do padrão versado pela raiz do Blues, ou seja o pilar básico do então novo estilo: Rock’n’ Roll.
Ele luta nesse sentido, mas frustra-se à medida em que observa que as suas canções já não encontram eco entre os jovens que estão enlouquecidos pela nova estética do Rock’n’ Roll. A sua namorada, Kathy Abbott (interpretada por Phyllis Newman), tenta convencê-lo a não lutar contra a nova estética e seus artífices, mas conservador, ele não atende aos seus apelos, inicialmente. Charlie (interpretado por Conrad Janis), que é o seu empresário, também tenta demovê-lo da luta inglória contra o inevitável, mas apenas ao final do filme isso ocorre de fato, mediante a conversão de Tommy em favor do Rock’n’ Roll, quando ele canta  a música: “Crazy, Crazy Party”, um Rock sensacional. 
 
E o filme encerra-se com os jovens a assediá-lo com pedidos para autógrafos e com a devida resiliência da parte da sua namorada que não incomoda-se com o seu namorado envolto perante a presença de mulheres jovens, porém ao contrário, mostra-se feliz por saber que ele acertara a sua estratégia, enfim, ao parar de lutar contra o Rock’n’ Roll, e inserira-se em seu contexto, ao modernizar-se como artista. Ou como diz o ditado: “se não consegue vencer o inimigo, junte-se a ele”.
Nesse ínterim, houve espaço para uma encenação bem leve em torno de alguns desencontros com a sua namorada, com direito até a uma cena em que ele sai propositalmente com outra mulher na frente da namorada para demarcar um sinal de contrariedade, mas desiste da moça ao cair na realidade e tudo volta ao normal, portanto não houve tempo para explorar o conflito. A garota insinuante dessa cena, e cujo personagem foi designado apenas como uma “Pickup Girl”, foi interpretada por Joy Harmon.
Naturalmente que os números musicais exibidos por outros artistas intercalam-se, geralmente sob o subterfúgio em aproveitar-se a ambientação de estúdios de programas de TV, mas há também até a ocorrência de externas, incluso um número ocorrido em meio a um parque público com a filmagem natural a luz do dia. E nesse rol de artistas, observa-se a presença de: Paul Anka, Danny and The Juniors, Roy Hamilton, Wink Martindale, a ótica cantora, Della Resse, que muitos anos mais tarde, ficaria famosa também como atriz, inclusive a atuar em seriados de TV,  The Royal Teens (a contar com Bob Gaudio) e The Tyrones. 
 
Ou seja, um elenco espetacular de artistas cinquentistas. Destaca-se inclusive a presença da canção: “Short Shorts”, que fez estrondoso sucesso radiofônico na época, a conter uma letra insípida, todavia carregada por um tipo de malícia sexista/machista a enaltecer as pernas torneadas das meninas, valorizadas pelo uso de tal tipo de vestimenta bem curta aos padrões da época, digamos assim. 
Ainda a falar sobre a música, cabe mencionar que o ator, Julius La Rosa também foi cantor na vida real. O seu estilo era parecido com a personagem que defendeu, ao trabalhar mais detidamente com o cancioneiro orientado para a estética mais antiquada, mas ele também gravou material mais contemporâneo, como por exemplo em 1970, quando lançou o single com a versão da canção: Where Do I Go”, que faz parte do musical teatral, Hair”. Tudo bem que a sua versão, quase em arranjo “Bossa Nova”, fica longe da proposta da canção original composta para a peça em questão, mas é uma boa interpretação, não resta dúvida, pois ele foi um bom cantor.
Este filme foi escrito por Hal Hackady e dirigido e produzido por Harry Foster e lançado em junho de 1958. A crítica massacrou o filme, tanto pela ideia em ridicularizar-se uma estética em detrimento de outra, como pela produção em si, que realmente como mera peça cinematográfica, é fraquíssima, sou obrigado a concordar. As atuações como atores de Julius e Phyllis, foram consideradas amadoras e o filme considerado um mero “promo” de gravadora para divulgar os seus artistas musicais. 
 
Mais uma vez eu concordo com a avaliação, entretanto, ao contrário dos críticos da época, é preciso salientar que à luz de décadas passadas, este filme (assim como os seus muitos outros pares cinquentistas, feitos com pouco orçamento), ganhou a relevância arqueológica, digamos assim, no sentido expresso de que tornou-se uma peça importante enquanto documento valioso sobre a história do Rock. Portanto, ao pensar-se nesses termos, toda a crítica técnica observada na época, tornou-se irrelevante. 
 
Particularmente, no entanto, a minha visão clama pelo equilíbrio, ou seja, a buscar um balanço entre as duas visões mais extremas. Nesse sentido, eu prefiro manter o respeito absoluto ao filme, pela sua importância histórica adquirida, naturalmente, e ao mesmo tempo, reservo-me o direito de manter uma observação crítica e realista da obra, mesmo ao compreender perfeitamente as suas dificuldades gerenciais à época e assim, tolerar mas não deixar por observar os seus pontos fracos.
 
Como a maioria desses filmes produzidos sob baixo orçamento na década de cinquenta, “Let’s Rock” foi bastante exibido na TV aberta durante a década de sessenta e a partir dos anos oitenta e noventa, inseriu-se em mostras temáticas sobre o Rock’n’ Roll da década de cinquenta, em canais da TV a cabo. Existe a sua versão em DVD para a aquisição em lojas e sites para vendas do gênero e encontra-se disponibilizado para ser assistido na íntegra e gratuitamente no YouTube.

Como última observação, não posso deixar de mencionar que o título do filme, a mostrar-se sucinto; objetivo e ao mesmo tempo sonoro, é um dos melhores já criados para designar um Rock Movie, em todos os tempos. Portanto, a despeito de ser em linhas gerais uma obra fraca, tem em seu título um ponto notável em seu favor. É a melhor atitude a ser tomada por um Rocker, então, sem mais a acrescentar... Let’s Rock!

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" e está presente no seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 380.