domingo, 15 de março de 2026

Filme: The Girl Can't Help It (Sabes o que Quero) - Por Luiz Domingues

Este é um caso excepcional, pois trata de um filme que não foi concebido para ser um Rock Movie, propriamente dito, mas ao envolver diversos artistas sensacionais do universo do Rock cinquentista, inicialmente apenas como uma “escada” para servir às sketches propostas como piadas, eis que abriu um inesperado campo e tornou tal filme um dos melhores Rock Movies da história, por incrível que pareça. Mais do que isso, este filme precipitou um impensável arranjo involuntário que seria crucial para a história do Rock, portanto, é considerado nos dias atuais, uma importante peça, também por tal detalhe. Falo sobre o filme : “The Girl Can’t Help It”, que em português recebeu o malicioso título: “Sabes o que Quero”.
 
Cabe destacar que a tradição brasileira de estabelecer títulos completamente fora da tradução literal do original em línguas estrangeiras, gerou ao longo dos tempos, aberrações as mais diversas. A alegação da parte dos “gênios” do marketing que estabelecem tais mudanças desde os primórdios do cinema mudo, para alimentar a exibição nacional, sempre pautou-se pela ideia de que seria importante adaptar os títulos em torno do mote de cada filme, para promover assim o melhor entendimento da parte do público brasileiro, quando ocorressem expressões idiomáticas; gírias ou ditados culturais muito específicos em outras culturas e que seriam portanto incompreensíveis ao nosso entendimento. 
Mera balela, a julgar que seríamos tão provincianos assim ao ponto em ignorar completamente as diferenças culturais, tendo em vista que o Brasil é basicamente um país que recebeu imigração de povos do mundo inteiro, portanto, com tantas colônias estrangeiras aqui estabelecidas, nada causa tanta estranheza, em tese, mesmo que sejamos um povo colonizado por europeus, em nosso caso, pelos portugueses. Ao falar sobre esse filme em específico, a minha explanação sobre essa questão de invenção de nomes aleatórios, passa por tal aberração e há uma explicação para tal. Quem inventou o título: ”sabes o que quero”, quando teve essa ideia, quis certamente enfatizar os aspectos maliciosos, machistas e sexistas contidos no texto do filme e vou além, pois a inspiração para o nome inventado tem forte influência das antigas chanchadas brasileiras dos anos cinquenta, notadamente filmes com referência direta ao antigo teatro de revista, vedetes & rebolados, ou seja, a  tratar-se de fitas a envolver artistas com estilo de humor debochado, tais como Dercy Gonçalves e Zé Trindade, principalmente. Portanto, trata-se sim de uma comédia norte-americana típica da década de cinquenta, a buscar o elemento erótico como mote, porém dentro de um abordagem com limites, naturalmente, muito longe da falta de decoro e da cafajestagem que supostamente o responsável pela elaboração do título em português para o público brasileiro, considerou, talvez baseado em suas convicções pessoais.
Postas tais considerações iniciais, eu avanço para explicar mais um detalhe do ponto de vista cinematográfico. Tal tipo de abordagem humorística, no cinema norte-americano (falo sobre comédias românticas), remontava tranquilamente aos anos trinta e quarenta, ou seja, fora bem explorada em algumas obras assinadas por diretores do quilate de Ernest Lubitsch, Frank Capra, Charles Vidor e outros. Porém, tal gênero das comédias românticas evoluiu e enfim, ganhou um ar mais apimentado nos anos cinquenta, quando Marilyn Monroe foi protagonista de vários filmes a explorar o humor em torno da sua beleza descomunal e o inerente machismo gerado, como “Gentleman Prefer Blondies” (de Howard Hawks), “How To Marry a Millionaire” (de Nunally Johnson) e outras, mas principalmente com a ótima comédia dirigida por Billy Wilder, “The Seven Year Itch”, a mais apimentada até então, em 1955. 
Nesse sentido de explorar a sua beleza (Marilyn), com um tipo de roteiro cem por cento baseado no furor gerado pela tensão sexual que ela provocava naturalmente entre os homens, chegou-se ao clímax no cinema cinquentista. Nesse filme em específico, que teve um mote muito próximo das sketches do humor televisivo, Marilyn interpreta uma mulher sexy, mas absolutamente ingênua, que provoca os sonhos de um vizinho que viu-se livre da esposa e dos filhos por alguns dias (as tais “coceiras dos sete anos de casamento”, a designar uma fase onde os homens voltariam a sonhar com outras mulheres, além da esposa), e assim, as piadas desenvolvem-se em meio à malícia que só existe na mente do rapaz, pois ela, a personagem defendida por Marilyn, gera tais situações sensuais, completamente desprovida de qualquer insinuação erótica, daí a graça das piadas. Bem, o ator que atuou com Marilyn em tal filme, foi Tom Ewell.
Pois um ano depois, em 1956, eis que sob a batuta do diretor, Frank Tashlin, o bom ator e comediante, Tom Ewell novamente foi convocado para estrelar uma comédia nos mesmos moldes, a explorar a tensão sexual, porém deste vez com uma concorrente de Marilyn, a exuberante, Jayne Mansfield
Tão linda quanto, voluptuosa, loura e acostumada a interpretar o papel da garota ingênua, porém sexy e que derretia os corações dos homens por anda passava, foi uma escolha perfeita para a história. A estrutura da comédia, foi praticamente a mesma adotada em filmes similares, principalmente os estrelados por Marilyn Monroe, mas neste caso, a história conteve o diferencial de ambientar-se no mundo da música e foi nesse ponto, que a opção em aproveitar a recente euforia gerada pelo Rock’n’ Roll, no início da segunda metade da década de cinquenta, transformou este filme em algo muito maior que uma comédia tradicional da época, mas a revelar-se um dos maiores Rock Movies daquela década.
Senão vejamos: a história baseia-se na história de um mafioso que explora máquinas de jogos de azar ao estilo caça níqueis espalhadas por centenas de estabelecimentos comerciais norte-americanos. Esse sujeito chama-se: Marty “Fats” Murdock (interpretado por Edmund O’Brien, aliás, um ator que já era bem experiente na ocasião e curiosamente não muito afeito a comédias, porém normalmente escalado para filmes de guerra, westerns e tramas de espionagem).
Pois esse tal Murdock é bastante temperamental, daquele tipo que não aceita desculpas ou negativas e quer ser satisfeito o tempo todo e com rapidez. Ele tem uma namorada que é belíssima e por onde passa, encanta os homens, chamada: Jerri Jordan (interpretada por Jayne Mansfield). Murdock inventa que a sua namorada precisa cantar e assim tornar-se uma estrela da música, porém, sem aptidão e nem mesmo desejo algum pessoal nesse sentido, ela frustra os planos do mafioso. Pois então, ele contrata um produtor musical que é considerado competente no mercado, todavia é também um ébrio contumaz, na figura de Tom Miller (interpretado por Tom Ewell). 
 
Neste caso, a sua contratação teve duas motivações básicas: ele era considerado o responsável pelo sucesso da cantora real, Julie London (a interpretar a si mesma em pequena participação no filme), e também por ser conhecido por não misturar o lado pessoal com o profissional e não ter tido nenhum envolvimento amoroso com Julie, portanto, uma condição sine qua non para Murdock não alimentar ciúmes em relação à Jerri. Cabe destacar que Julie London, na vida real, além de ter sido uma boa cantora, foi atriz, também e a sua atuação neste filme é sui generis, conforme comentarei a seguir. 
Murdock tem um capanga próximo, apelidado como “mousie” (interpretado por Henry Jones, um ator também experiente, com participação em diversos filmes no seu currículo, além de muitas participações em seriados de TV), que fica a observar a movimentação toda de Tom. “Mousie”, Tom & Jerri, logicamente foram nomes a sugerir uma brincadeira com o famoso desenho animado com tais personagens.
Daí em diante, Tom passa a conviver com Jerri e claro que encanta-se com a sua beleza e apelo sexy, irresistível. Nesses ponto, várias cenas abrem espaço para piadas incessantes sobre como ela enlouquece os homens, bem naquele tipo de humorismo sexista e machista de antigamente, em torno da “mulher dotada de pouca inteligência, porém boazuda”. Mote detestável a parte, por rebaixar a mulher ao posto de um mero objeto sexual, não posso negar que enquanto piadas, são engraçadas. Como por exemplo, cenas em que ela anda pelas ruas (ao som da canção: “The Girl Can’t Help It” interpretada pelo grande, Little Richard), e assim provoca acidentes absurdos, tal como o homem que carrega cubos de gelo e os derrete com o calor do corpo ao ver Jerri passar; o leiteiro que provoca a ebulição do leite dentro das garrafas que carrega ou o senhor idoso que ao mirar o corpo escultural da beldade, tem as lentes dos seus óculos, rachadas, instantaneamente.
Tom fica íntimo de Jerri e descobre no cotidiano que ela não quer cantar de forma alguma e o seu sonho é ser uma dedicada dona de casa, bem no espírito da mulher “bela; recatada e do lar”, perfeita ao ideário do modo de vida norte-americano. Ele comunica isso à Murdock e o mafioso não aceita tal diagnóstico. Então, Tom aluga um estúdio de ensaio e ao piano, propõe alguns exercícios vocais para aquecer a voz de Jerri, mas ela desafina de uma forma tão absurda que chega a espatifar uma lâmpada. 
Convencido de que ela não tem a mínima condição para pleitear ser uma cantora, no entanto, isso não demove Murdock de seu plano e neste caso, gera-se mais uma piada, desta feita a desdenhar do Rock, pois Murdock considera que a voz horrorosa da bela moça, seria perfeita para que ela gravasse uma música que ele mesmo teria composto quando fora presidiário, a tratar-se de um Rock (“Rock Around The Rock Pile”, que vem a ser uma paródia debochada de “Rock Around the Clock”, de Bill Haley and His Comets). Pois então, Tom Miller grava a canção absurda de Murdock e ela, Jerri, grava a sua participação apenas com gritos guturais horripilantes, a imitar uma sirene de prisão e certamente antecipou em mais de uma década as performances costumeiras da parte de Yoko Ono, sem dúvida. É bem engraçada a cena em que Jerri grava em estúdio a sua participação deprimente nessa canção. 
 
Uma vez em Chicago, Tom procura um rapaz apelidado como “Wheeler” (interpretado por John Emery), um desafeto de Murdock em meio às rivalidades entre grupos mafiosos distintos, e esse rival mantém um esquema de controle de máquinas jukebox espalhadas por muitas lanchonetes e estabelecimentos semelhantes ao longo da América do Norte inteira. Pois tão importante quanto tocar nas emissoras de rádio, foi manter os discos de artistas disponíveis em máquinas jukebox, na América cinquentista. Portanto, essa constatação mercadológica e tipicamente cinquentista, é muito interessante no filme, a mostrar os bastidores do show business da época. 
 
Wheeler mostra-se propenso a fechar contrato pois gosta da música em questão, no entanto, descobre que o seu compositor foi Murdock, o seu inimigo-mor e cancela tudo. Nesse ínterim, Murdock contra-ataca e através de um emissário seu, sabota os negócios de Wheeler, para que ninguém mais compre as suas máquinas de jukebox. A confusão instaura-se, inclusive com as tais máquinas a serem destruídas e arremessadas às ruas em cenas violentas mas com o devido tom da comédia. Wheeler mostra-se enfurecido e com os seus capangas a apoiá-lo, jura vingança, a anunciar que eliminará Murdock. 
O espião de Murdock, “Mousie”, já havia descoberto que Tom e Jerri estavam apaixonados um pelo outro, mas ao invés de delatá-los ao patrão, simpatizara com ambos e omite a sua descoberta. Nesse ínterim, haverá um grande show de Rock’n’ Roll em um teatro, transmitido pela TV, onde Jerri fará a sua estreia como cantora. De forma surpreendente, Murdock confessa para o seu assistente, “Mousie”, que não gostava mais de Jerri e que não pretendia casar-se com ela. Ora, foi a dica milagrosa para o filme alcançar o seu final feliz. Nos mesmos bastidores em cena paralela, Jerri declara-se à Tom e conta mais uma verdade: ela fingira ser desafinada pois não pretendia manter uma carreira como cantora. Então, ela sobe ao palco e canta bem, para provar à Tom que falava a verdade. 
Quando todos encontram-se na coxia, Jerri confessa à Murdock que está apaixonada por Tom e este surpreende à todos ao oferecer-se para ser padrinho do casal, algo que seria bastante irreal para um mafioso na vida real, mas engraçado para a comédia, é claro. Simultaneamente, Wheeler e os seus capangas aparecem para alvejar Murdock, mas eis que Tom o empurra para o palco e ele canta o seu número, a inibir a ação de Wheeler e os seus bandidos. Tom e Jerri beijam-se e tudo acaba muito bem...
 
Enfim, uma típica comédia com apelo sensual dos anos cinquenta, bem dirigida, munida de um ótimo elenco e com produção muito boa. Então por quê é considerado um Rock Movie tão elogiado, se na verdade, pareceu ser uma comédia feita com outros propósitos? Bem, a resposta é que além da música título (que é sensacional), a ideia em inserir o Rock como um pano de fundo, proporcionou participações espetaculares ao longo do filme e então, tanto quanto as boas risadas que o filme proporciona e sim, Edmond O’Brien, Heny Jones e sobretudo, Tom Ewell, estiveram muito bem em suas atuações pessoais e também a considerar que a beleza sensual de Jayne Mansfield é para tirar o fôlego de qualquer um, a participação de muitos astros do Rock cinquentistas, é um verdadeiro desfile, a enriquecer este filme de uma forma absurda. 
Posso supor que à época, ninguém ligado a tal produção, e nem mesmo o tarimbado diretor, Frank Tashlin, deduziu que isso aconteceria, pois alguns desses artistas musicais eram apenas emergentes no calor de 1956, quando do lançamento desse filme, no entanto, com o decorrer do tempo, contar com as presenças de tantos artistas que tornaram-se lendas do Rock, fez com que esse filme transformasse-se em algo muito além de uma boa comédia, todavia um verdadeiro marco e sim, para ganhar a importância extra por haver tornado-se um dos maiores Rock Movies da década de cinquenta e quiçá de todos os tempos.
 
Como surgem as participações desses astros? De forma esparsa, pois como já afirmei, à época, possivelmente foram tratados como um ato secundário para o filme, a mostrá-los como artistas emergentes de um modismo que em sua concepção (falo sobre o estilo do Rock’n’ Roll), seria algo a retratar o panorama da época, mas absolutamente passageiro, como uma tendência Pop, no sentido efêmero do termo. Ninguém em 1956, nem mesmo o “Colonel” Tom Parker (o astuto empresário de Elvis Presley), poderia afirmar categoricamente que o Rock transformar-se-ia em uma instituição sólida a atravessar décadas e gerações, eu acredito. Portanto, se assim foi concebido como filme e eu acredito nessa premissa, ou seja, como algo meramente ocasional, pode-se afirmar que “The Girl Can’t Help It” foi um filme que ganhou o bilhete premiado de loteria, por pura ação da sorte.
Na cena em que Tom e Jerri alugam uma sala de estúdio para ensaiar, quem está a ensaiar em uma outra sala no mesmo complexo? Pois é para arrepiar ver a figura sensacional de Gene Vincent, acompanhado por sua selvagem banda Rockabilly (His Blue Caps), a executar: “Be Bop a Lula”. Em uma aparição de TV, eis Eddie Cochran em ação, com a sua guitarra e a típica mise-en-scène que o marcou, ou seja, é para emocionar. 
E assim, números ocorridos em shows de casas noturnas, ocorrem também. Little Richard aparece a cantar e tocar ao vivo em um número sensacional. Fats Domino canta um R’n’B belíssimo. O super classudo quinteto vocal R’n’B, “The Platters”, canta o seu mega sucesso, “You Never, Never Know”. Eddie Fontaine, Teddy Randazzo and the Three Chuckles, Abbey Lincoln, Johnnie Ollen, Nino Tempo e “The Treniers”, reforçam o time. Em suma, é um luxo para esse filme.
No caso da cantora, Julie London, a sua aparição, como eu havia comentado sem explicar com mais detalhes anteriormente, foi muito interessante. Em uma cena em que a personagem de Tom Miller (Tom Ewell), chega em sua residência chateado e embriagado, ele resolve colocar um LP da cantora na vitrola para reforçar a sua nostalgia, visto que na ficção dessa história, ele houvera sido o seu produtor. Então, eis que a voz bonita de Julie ressoa a interpretar o belíssimo blues, “Cry me a River” (a interpretação de Joe Cocker para essa canção seria visceral para essa canção, em 1970), neste caso com um arranjo jazzy, lindo, a exibir a ação de uma guitarra muito bem executada, mediante o uso de belos acordes e fraseados bem digitados. 
No entanto, como Tom mostra-se bêbado, ele enxerga a cantora a materializar-se enquanto ouve a música, em diversos pontos da sua casa, para enfim desaparecer ao descer uma escada e logicamente a coincidir com o final da canção, quando a agulha da vitrola encerra a sua ação no LP. É portanto uma aparição fantasmagórica da cantora, fruto de um delírio da parte de Tom, por conta da sua embriagues.
Cabe destacar que o filme ainda teve a presença do maestro e trompetista, Ray Anthony, que conduziu a orquestra na gravação da música de Murdock, onde Jerri apenas berrou a imitar uma sirene (e que também aparece ao final no tal show). E da atriz, Juanita Moore, que interpretou, Hilda.
 
Frank Tashlin, foi um diretor, roteirista e produtor de cinema com uma lista interminável de filmes em seu currículo. Egresso dos anos trinta, quando ele dirigiu “The Girl Can’t Help It, já era um veterano e bem sucedido diretor. Em sua carreira, trabalhou com vários gêneros, embora seja geralmente lembrado pelas comédias, e no caso, ele dirigiu várias que alcançaram o sucesso popular, como filmes da dupla formada por Dean Martin e Jerry Lewis e posteriormente em muitos filmes apenas com Jerry Lewis, assim como voltaria a trabalhar com Jayne Mansfield, ainda na década de cinquenta, como em “Will Success Spoil Rock Hunter” (?), em 1957, novamente a explorar a sensualidade dessa bela atriz.
“The Girl Can’t Help It” não recebeu grandes elogios da crítica especializada à época. As participações dos astros do Rock não eram nem consideradas importantes nesta altura, conforme eu já contextualizei e a trama em si não despertou nenhuma simpatia enquanto comédia, principalmente pelo fato da atuação de Jayne Mansfield ter sido considerada uma mera imitação do tipo de apelo sexual que Marilyn Monroe costumava provocar em seus filmes. Ao analisar friamente, não é algo descabido, visto que nem Marilyn, tampouco Jayne ou outras tantas atrizes que atuaram a usar desse artifício, foram artistas preparadas para atuar com um padrão de interpretação “Shakesperiano”. Entretanto, documento histórico para o Rock, à parte, se analisado como um filme regular, é uma comédia boa, portanto, a tratar-se de um tipo de obra despojada de outra intenção artística superior, é injusta a crítica mais exigente ao seu respeito, em meu entendimento.
Nas bilheterias, o seu desempenho foi apenas razoável na ocasião, visto que a concorrência era enorme em termos de comédias, o seu nicho de atuação mais determinado. Mesmo que o Rock não tenha sido a principal motivação do filme em sua divulgação inicial, tal percepção aumentou pelo efeito dos boatos. Portanto, foi neste contexto que o filme propiciou algo inacreditável, visto que John Lennon teria revelado, já depois de famoso, que a motivação pelo Rock já o encantara anteriormente, mas quando o filme estreou na Inglaterra em 1957, o seu impacto através de uma tela grande, determinou fortemente a sua vontade de tornar-se verdadeiramente um músico de Rock, visto que ele mostrou-se inteiramente arrebatado ao assistir diversos ídolos seus em ação, pela primeira vez e ao deparar-se com a imagem de tais astros em carne e osso, convenceu-se que também poderia trilhar tal caminho. Por conta desse filme, John esforçou-se em formar a sua primeira banda, “The Quarrymen”, ou seja, a semente mais remota dos Beatles. Paul McCartney narrou tal história também ao longo do documentário, “Anthology”, quando comentou sobre o impacto que ele também recebeu por conta em ter visto esse filme. 
Há o registro ainda, de que quando os Beatles estavam a gravar a canção, “Birthday”, que faria parte do LP duplo, White Album”, em 1968, eles interromperam a sessão de gravação pois estava anunciada a reprise do filme em um canal da TV britânica e assim, os quatro componentes preferiram estabelecer um pausa no trabalho, somente para assistir mais uma vez essa comédia, que adoravam. Em suma, se esse filme foi assim tão determinante como inspiração para que a vida desses garotos de Liverpool modificasse-se ao ponto em culminar com a criação dos Beatles, creio que está patente a sua importância na história.
Escrito por Frank Tashlin e Herbert Baker. Produção e direção a cargo de Frank Tashlin, igualmente. Lançado em dezembro de 1956. É óbvio que esse filme teve inúmeras reprises em canais de TV aberta ao longo do planeta, incluso o Brasil, onde eu tive o prazer de assistir pela primeira vez nos anos sessenta, em pleno usufruto de minha infância que foi muito enriquecida pela visão de grandes filmes, ainda bem. Nos anos oitenta, tal filme ganhou a sua versão em fita VHS, passeou em canais de TV a cabo a partir dessa época e posteriormente foi disponibilizado em formato DVD. Está no YouTube sob versão integral para ser visto gratuitamente, e se o leitor ainda não teve esse prazer, a minha recomendação é para que o faça em breve, pois é um documento maravilhoso e sim, Jane Mansfield, está eternizada em sua beleza inacreditável.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock1n1 Roll" através do seu volume III e a leitura pode ser feita a partir da página 393.

sábado, 7 de março de 2026

Filme: Rock and Roll Circus - Por Luiz Domingues

Teoricamente concebido para ser um especial a ser exibido na TV, “Rock and Roll Circus” ganhou um status maior com o decorrer do tempo, ao praticamente ser considerado um “movie documentary”, ou seja, um híbrido entre documentário e filme. A ideia foi original, sem dúvida, ao retratar os Rolling Stones e convidados mais do que especiais em meio a um espetáculo circense propriamente dito, com a apresentação de artistas dessa tradição inclusos, certamente, intercalados aos números musicais. Uma pequena plateia formada por fãs Rockers dos Rolling Stones também foi permitida e mais que isso, a interagir, por usar vestimentas e adereços especiais e assim dar a entender haver uma simbiose total entre o picadeiro e a arquibancada. Nesse sentido, o filme mostra essa intenção, e também exibe outras virtudes e alguns pontos falhos.

Primeiramente, é preciso destacar que o projeto inicial previa a participação de mais uma banda significativa no panorama do Rock britânico sessentista, a tratar-se do “Small Faces”, tanto que o baixista dessa ótima banda, Ronnie Lane, participou ativamente das reuniões de produção que ocorreram ao longo dos últimos meses de 1968, mas lastimavelmente a participação do Small Faces foi cancelada e houve a ideia então de incluir-se em seu lugar o então emergente, Led Zeppelin, mas isso também não ocorreu e se houve uma banda nova nesse filme, foi então o Jethro Tull. Além desses citados, o filme teve a participação sensacional do The Who, a cantora Pop, Marianne Faithfull , o cantor norte-americano, Taj Mahal e um combo montado especialmente para a ocasião, denominado: “The Dirty Mac”, para que John Lennon cantasse uma música sua e recentemente lançada em um álbum dos Beatles, devidamente acompanhado por um super time de músicos, dos quais falarei detidamente mais adiante. 
A entrada triunfal dos participantes foi feita ao som de: ”Entry of the Gladiators” (“Vjezd gladiátorů”, em tcheco), que vem a ser um tema musical muito identificado com o universo do circo. No entanto, é preciso esclarecer que essa marcha ao estilo militar, não foi composta com tal intenção, pelo compositor, tcheco, Julius Fucik, em 1897, visto que a sua concepção fora mesmo em torno de uma ode em tom militar às glórias do antigo Império Romano. Bem, eis que os Rolling Stones entram em cena com cada membro a representar uma figura típica das tradições circenses, assim como também os seus convidados especiais. Mick Jagger surge à frente, aparentemente caracterizado como um domador de leões, e ao mesmo tempo a apresentar o evento.
O tema, “Entry of the Gladiators” é dublado pelos participantes que simulam tocar instrumentos de sopro e percussão. Ora, foi inevitável que muitos dos participantes debochassem da pantomima e a edição não conseguiu evitar tomadas a mostrar Keith Moon e Pete Townshend, membros do The Who, em plena ação ginasiana em termos de bagunça juvenil, mesmo caso de John Lennon e Brian Jones e este último, que mal conseguiu disfarçar a sua galhofa ao simular estar a tocar uma flauta. Um anão “clown” anuncia então o número do Jethro Tull. 
É interessante notar a performance do Jethro Tull, ainda em início da sua trajetória, ao buscar formatar as suas tradições musicais e também cênicas, vide a performance pessoal de Ian Anderson a insinuar a figura do mendigo de Aqualung, algo que só ocorreria em sua plenitude, alguns anos depois, mas o esboço ficou bem alinhavado nessa apresentação. 
Ainda a falar sobre o Jethro Tull, é histórica a aparição do guitarrista do Black Sabbath, Tony Iommi, em sua formação. A explicação para Iommi ter participado, foi que o guitarrista oficial da banda, Mick Abrahams, estava afastado da sua função, supostamente por um problema de saúde (na verdade, tal músico estava demissionário do Jethro Tull e já a articular uma nova banda, o “Blodwyn Pig"), e Iommi fora convidado para substituí-lo emergencialmente, mesmo com a agenda do Black Sabbath em conflito, visto que tal banda ainda não havia lançado o seu primeiro disco e portanto estava longe do sucesso que alcançaria no futuro próximo, no entanto, em 1968, já mostrava-se como um grupo emergente a tocar bastante pelo circuito underground  entre casas noturnas e festivais para artistas novos. 
Tanto foi provisória participação de Tony Iommi, que logo a seguir, o guitarrista, Martin Barre, assumiria a vaga definitiva em tal posto no Jethro Tull, para vir a tornar-se, inclusive, o braço direito de Ian Anderson na condução criativa da banda, em seus melhores anos ao longo da década de setenta. E Iommi fez o mesmo ao brilhar intensamente a bordo do Black Sabbath, nos anos vindouros. 
 
No filme, o Jethro Tull (com a presença também em sua formação do bom baixista, Glenn Cornick e do discreto baterista, Clive Bunker), estava bem em seu início, a defender as músicas do seu primeiro disco, “This Was” e é preciso esclarecer que esse início de carreira do Jethro Tull não mostrou a sua real identidade. Em tal disco de estreia, a sua verve em prol do Folk-Prog Rock, não delineou-se claramente e assim, qualquer ouvinte que escutar o primeiro disco e não ouvir os demais, tende a considerar o Jethro Tull como uma banda orientada pelo Blues-Rock, com forte tendência Jazzy, mas ao longo da carreira dessa banda a sua orientação não foi essa. 
Músicas em gestação e que fariam parte do segundo álbum, chamado: “Stand Up”, foram tocadas também, no entanto, não foram aproveitadas na edição final do filme, portanto, apenas é exibida a canção: “A Song From Jeffrey”. Esta música inclusive tem uma história pessoal, pois Anderson a compôs a homenagear um amigo seu, Jeffrey Hammond (conhecido artisticamente como Jeffrey Hammond-Hammond), que tornar-se-ia em seguida, o novo baixista fixo da banda, a partir do quarto álbum do Jethro Tull, chamado : Aqualung, lançado em 1971). 
Bill Wyman, o baixista dos Rolling Stones, aparece caracterizado como um palhaço a aplaudir a performance e a anunciar-se então a atuação de palhaços mas essa cena não entrou na edição oficial e ficou apenas disponível como extra, quando o filme foi lançado nos anos noventa.
Em seguida, Keith Richard anuncia a participação do The Who. A banda vivia uma grande fase, um pouco antes de lançar o LP duplo “Tommy”, e a divulgar com enorme sucesso os álbuns imediatamente anteriores, “A Quick One” e “The Who Sell Out”. 
Essa foi a base do seu repertório nessa apresentação, embora na edição, somente apareça a performance para a mini suíte: “A Quick One While He’s Away”. Mesmo limitada em um pequeno set de estúdio de TV, a performance do The Who é esfuziante, com Pete Townshend e Keith Moon a barbarizar através de uma mise-en-scè ne típica, a dignificar a marca registrada de suas atuações ao vivo. Mesmo a ficar dúbio em alguns momentos se estão a tocar ao vivo ou a dublar, parece tocar ao vivo de fato. John Entwistle, o baixista virtuose, impressiona como sempre e Roger Daltrey, mesmo com um espaço físico limitado, mostrou a sua expressividade costumeira. 
Brian Jones aplaude e ri de uma forma estranha, e creio que muito mais motivado pelo seu estado mental naqueles dias ao final de 1968, quando a sua condição pareceu deixar claro que os abusos por ele cometidos nos últimos anos, estavam a miná-lo. Não por acaso, poucos meses depois dessa aparição (e foi de fato a última oficial dele como membro dos Rolling Stones), Brian perderia a vida a pairar boiado na piscina de sua mansão. É bem verdade que neste filme ele pareceu estar tranquilo e a divertir-se com essa filmagem, mas o seu brilho pessoal, que era enorme anteriormente (quando era considerado um menino prodígio dentro da banda e galã para o público feminino, tanto quanto Mick Jagger), estava nitidamente diminuído, portanto, ficou impregnado neste filme, tal decadência pessoal da parte dele. 
Bem, o filme segue com uma apresentação bem simplória da parte de trapezistas e um deles a mostrar-se bem veterano. Creio que deva ter havido uma limitação técnica evidente para que a sua apresentação fosse prejudicada, visto que em meio a um estúdio de cinema, com todo o equipamento de iluminação ali colocado, o trapézio em questão foi içado em um patamar muito abaixo do seu normal. Enfim, independente desse detalhe, a apresentação foi meramente protocolar para justificar o mote em torno do circo, certamente, visto que o que importou ali foi sustentar a ambientação circense meramente como uma fantasia para a apresentação dos Rolling Stones e de seus convidados. 
Entra em cena o cantor e compositor, Tah Mahal. Figura sensacional, um artista versado pelo R’n’B, Soul Music, Blues, Rock’n’ Roll e Jazz, estava a viver os dias embalados pelos seus dois ótimos primeiros álbuns (“Taj Mahal” e “The Natch’l Blues”, ambos lançados no mesmo ano de 1968). Ele aparece no filme a cantar a canção R’n’B/Soul, “Ain’t That a Lot of Love”, que somente seria lançada em versão como single (compacto), no ano seguinte, 1969.
Taj Mahal é acompanhado por uma excelente banda nessa performance, a contar com Jesse Ed Davis à guitarra, que fazia parte da sua banda fixa à época. Jessie era norte-americano e índio por origem étnica. A sua lista de participações em discos é inacreditável, a destacar-se artistas de primeira grandeza na história do Rock sessenta/setentista e de fato, ele foi (faleceu em 1988), um músico excepcional. Além de Jessie, nota-se a presença do ótimo baterista, Chuck Blackwell, também fixo com Taj Mahal à época e que foi sideman de Leon Russell, Little Richard, Jerry Lee Lewis e The Everly Brothers, entre outros e finalmente, o baixista, Gary Gilmore, que além de Taj Mahal também emprestou o seu talento para a arte do gênio do Country-Folk-Rock,  J.J. Cale.
Sobre a canção em si, que é uma composição de autoria de Homer Banks e Willia Dean Parker, há uma particularidade, visto que o seu riff inicial é muito parecido com o utilizado pela canção: “Gimme Some Lovin’ do ótimo, Spencer Davis Group, no entanto, a realidade mostra que é justamente o contrário, isto é, ele nasceu anteriormente à canção que foi um retumbante sucesso com os britânicos do Spencer Davis Group, portanto, a pecha de se imitar está mal colocada na história. 
Simpático, porém um pouco sem graça, eis que o sempre discreto baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts aparece em meio a um público feminino em profusão, na arquibancada do circo e anuncia a próxima atração: “a cantora Pop, Marianne Faithfull, que defende a canção, “Something Better”, que não é uma má canção, longe disso, pois foi composta por uma dupla famosa de compositores especialistas em fabricar sucessos baseados no estilo do R’n’B (Barry Mann/Gerry Goffin). No entanto, é nítido no filme que é um ponto mais baixo a destoar da euforia gerada pelas apresentações anteriores.
Marianne não era uma cantora ruim, entretanto, com todo o respeito, o seu repertório era mal escolhido pelos produtores com os quais trabalhou, pois a sua carreira jamais teve um grande pico de criatividade ou menos de popularidade, a não ser sobre a sua versão para a música: “As Tears Go By”, dos Rolling Stones, aliado ao fato de que fora namorada de Mick Jagger, portanto, neste filme em específico, a sua participação fica aquém ao ter defendido uma balada lenta, com um tipo de arranjo e interpretação a mostrar-se antiquados e por conseguinte, deslocados da loucura Rocker ali reinante no picadeiro proposto pelos Rolling Stones. Tirante a sua beleza feminina que era grande e naturalmente que ilumina a tela quando ela aparece, não resta algo mais substancial em sua performance, principalmente sob o ponto de vista musical, para ser realçado em torno da sua participação no filme.
Keith Richard aparece e anuncia a exibição de um engolidor de fogo: “The Fire Eater and Luna”. A performance do rapaz ao imolar-se com um tocha e engolir o fogo é bem rápida e dentro do esperado em números circenses, exatamente na mesma predisposição observada anteriormente, ou seja, foi clara a intenção de se intercalar tais atrações para justificar a temática, mas ao fornecer-lhes um espaço bem reduzido. Nesse número, com o devido respeito ao artista circense, o que chamou mesmo a atenção foi a presença de sua voluptuosa assistente (Donyale Luna), com o perdão pelo comentário machista, entretanto, creio que não posso omitir a verdade. Cabe destacar que Donyale Luna foi uma atriz e modelo belíssima, que participou de “Skidoo”, um filme norte-americano em tom de comédia, lançado em 1968, a satirizar o movimento Hippie/Contracultura e o LSD e também atuaria em “Satyricon”, uma obra prima do diretor italiano, Federico Fellini, em 1969. 
Bem, acredito que um dos momentos mais bizarros do filme, vem a seguir, com Mick Jagger e John Lennon a conversar. Mick tem a missão de introduzir os dois números que Lennon defenderia em sua participação, mas ao contrário do que ocorrera ao longo do filme, desta feita o caráter circense utilizado na divulgação das apresentações anteriores foi abolido e o que apresenta-se na tela, é um simulacro de conversa informal entre os dois. 
Lennon está a comer, mediante um prato em mãos e ambos estabelecem um diálogo deveras nonsense, para em seguida Jagger anunciar a apresentação do grupo “The Dirty Mac”, um combo feito às pressas para acompanhar Lennon em tal empreitada. A primeira música apresentada é “Yer Blues”, uma canção que Lennon escrevera e gravara no “Álbum Branco” dos Beatles, recém lançado. 
Para auxiliá-lo em tal tarefa, Lennon arregimentou um grupo de músicos do mais alto calibre, a começar por Eric Clapton, o famoso guitarrista do super grupo orientado pelo Blues-Rock, Cream (que curiosamente também encerrara as suas atividades ainda naqueles dias de dezembro de 1968, mediante um grande show realizado no Royal Abert Hall de Londres). Clapton carregava consigo a pecha em ser considerado como o maior guitarrista inglês naquela atualidade e tal percepção espalhara-se entre os seus fãs, ao ponto de surgir pela capital britânica naquela ocasião, muros pichados com os dizeres: “Clapton is God” (Clapton é Deus), para corroborar tal máxima.
Mitch Mitchell, o excelente baterista do grupo Jimi Hendrix Experience, que servia o grande guitarrista norte-americano, que era a grande sensação do Rock naquele instante e o guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards a tocar baixo, completaram esse grupo de apoio. Sobre Richards, ele de fato sempre tocou baixo, e aliás, com desenvoltura, sendo um fato comprovado na biografia dos Rolling Stones, que Richards gravou muitas linhas de baixo nos discos, a despeito de Bill Wyman ter sido o baixista oficial do grupo. 
Em seguida, um segundo número, denominado, “Whole Lotta Yoko” (uma menção à “Whole Lotta Love”, música do Led Zeppelin, ou uma mera coincidência?), é anunciado e entra em cena a então namorada de Lennon, a artista plástica japonesa, Yoko Ono. E também é anunciada a presença do violonista israelense, Ivry Gitlis, que era considerado um músico virtuoso, oriundo do mundo erudito.
Visivelmente deslocado em tocar com uma banda de Rock, mais que isso, é nítida em sua apresentação que não houve ensaio, pois o seu improviso, mesmo tendo sido ele um super músico erudito, mostrou-se pífio, visto que completamente sem traquejo para atuar com músicos de Rock e certamente desacostumado a atuar sem partitura ou no mínimo, com as peças que costumava tocar, devidamente decoradas, nota por nota em sua mente, o fato é que a sua atuação foi fraca, muito longe da sua real condição como um músico do mais alto gabarito.
Para piorar, a mixagem não ajudou-o de forma alguma, pois o som do seu violino foi engolido pela massa proporcionada pela banda e certamente que o monitor ali no calor da apresentação também não o favoreceu, Neste caso, mais uma vez eu relembro que ele não devia estar acostumado a tocar com uma banda de Rock. E mais um fator para inibi-lo, ocorreu quando Yoko Ono começou a sua performance, ao seu lado, pois tal resultado sonoro sob o caráter mais gutural possível certamente que gerou-lhe um desconforto sob o ponto de vista musical e notadamente pelo fator psicológico, em sentir-se constrangido por estar a atuar com artistas tão distantes de seu espectro cultural. 
John Lennon anuncia a próxima atração, mas de uma forma bastante alternativa, digamos assim, ao abrir o caminho para que finalmente os anfitriões iniciassem a sua performance, ou seja, hora para que os donos do circo entrassem em ação: -“Respeitável público, com vocês, The Rolling Stones!” Com o uso do picadeiro inteiro, é claro que a banda utilizou o cenário mais favoravelmente, o que foi justificável naturalmente. Reforçados pelo grande pianista, Nicky Hopkins e também pelo percussionista, Kwazi Rocky Dzidzornu, a banda tocou alguns números provenientes de seu recém lançado novo álbum, o espetacular, “Beggar’s Banquet”: “Parachute Woman”, “No Expectations”, “Sympathy For The Devil” e “Salt of the Earth” (esta ao final, dublada e com a participação de todos os convidados e pessoas da plateia), além de um single, ”Jumpim Jack Flash” e uma música que entraria no próximo álbum, “You Can’t Always Get What You Want”, ou seja, não uma música qualquer, no entanto a tratar-se de um hino imortal. 
A performance dos Rolling Stones não é ruim, mas na época, os seus componentes ficaram tão contrariados com o resultado, que o filme foi vetado. A alegação foi que o som ficara ruim e a banda estaria visivelmente sem energia e há uma explicação para tal: de fato, tudo foi filmado em apenas dois dias e quando os Rolling Stones foram gravar a sua participação ao vivo, passava das cinco horas da manhã do segundo dia de filmagem e todos estavam exaustos. É nítido que à exceção de Mick Jagger, que deu o seu melhor ali, os demais estão com semblantes fechados, a denotar irritação ou mau humor, pelo cansaço, sobretudo, mas também aborrecidos com muitos dissabores a envolver a engenharia do áudio, visto que houve uma troca de acusações veladas entre alguns músicos participantes a dar conta que o som ficou prejudicado para alguns em detrimento de outros. 
 
Bem, como músico eu sei que é sempre complicado atuar em festivais a conter muitas bandas seguidas e que a arrumação técnica de uma banda (set up), em relação à outra, muda completamente em termos de requisitos técnicos a ser observados em um rider técnico/imput list, portanto, sei que é sempre difícil administrar tais demandas e interesses diferentes.
Além disso, extra-oficialmente há um rumor de que os componentes dos Rolling Stones ficaram contrariados em verificar que a performance do The Who teria ficado superior à deles. Não descarto esse rumor e sei bem como funcionam festivais e egos de artistas em conflito. O fato concreto é que após muitos anos, eis que resolveu-se enfim reeditar tal material e lançá-lo no formato DVD e a conter extras. No caso dos bônus, há mais músicas do Taj Mahal, uma entrevista com Pete Townshend, uma nova versão de "Sympathy For The Devil”, desta feita com Brian Jones a tocar guitarra (na versão oficial do filme ele aparece a tocar maracas para reforçar a percussão), mais uma conversa entre Lennon e Jagger e mais números circenses, e no caso dos palhaços, com Bill Wyman também caracterizado como palhaço a apresentá-los (Brian Jones, apresenta também, um número circense). 
Um dado interessante sobre o diretor deste filme. Michael-Lindsay Hogg, é filho do grande ator e diretor cinematográfico, Orson Wells e a sua mãe também foi atriz, Geraldine Fitzgerald. Menos de um mês após ter filmado, “Rock and Roll Circus”, Michael assumiu a direção de um outro filme emblemático na história do Rock, no caso, “Let It Be”, dos Beatles, ali mesmo na mesma cidade de Londres. Nos anos setenta, Michael filmaria muitos videoclips para os Rolling Stones e outros artistas e no caso dos Stones, a produção por ele assinada foi grande e estendeu-se até 1982. Ele também havia dirigido muitos “promos” (a pré-história dos videoclips) para os Beatles e os Rolling Stones, nos anos sessenta, desde 1966, e assinou clips do Wings de Paul McCartney, na década de setenta.
Como esse filme foi idealizado para ser exibido na TV, inicialmente e foi vetado, com o seu lançamento apenas assegurado nos anos noventa, houve exibições só a partir dessa data, e ênfase na vendagem do material em formato DVD e que também gerou um CD em caráter de trilha sonora do especial. Na Internet, é muito difícil achá-lo na íntegra, mas apenas fragmentos editados como pequenos clips de canção exibida.
A despeito dos próprios membros dos Rolling Stones terem feito tantas restrições ao ponto em vetá-lo para a exibição em 1968, e apenar liberar tais imagens em 1996, quase trinta anos depois, eu considero tal filme um documento interessantíssimo e nem avalio a performance dos Rolling Stones com o mesmo crivo exigente de seus componentes. Apenas por ser possível assistir-se a banda no frescor de 1968, e a exalar a completa contemporaneidade do LP “Beggar’s Banquet”, creio que vale cada segundo. Mesmo ao levar em consideração que é triste ver o grande, Brian Jones em adiantado estado de decadência pessoal, ainda assim acho que vale muito a pena. Isso sem contar os super convidados especiais, certamente.
Um amigo fraterno meu e que compartilha dos mesmos ideais Rockers, certa vez disse-me em relação à cena em que John Lennon e Mick Jagger conversam: -“já imaginou estar nesse set de filmagem e testemunhar esses dois juntos? Acho que equivaleria a um cidadão grego da antiguidade ser convidado a comparecer ao Olimpo e flagrar uma conversa entre Zeus e Poseidon... ou seja, se um dos Deuses o mirasse, o sujeito tornar-se-ia pó, instantaneamente”. É claro que eu não concordo com esse tipo de excesso em torno de uma idolatria desmedida, mas por outro lado, foi óbvio que eu entendi a proporção que o meu amigo quis enfatizar com tal comparação.
Esta resenha foi preparada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume I, com a leitura disponibilizada a partir da página 67.