quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Filme: Shine a Light - Por Luiz Domingues

Martin Scorsese é um diretor de cinema com grandeza inquestionável. The Rolling Stones é a maior banda de Rock do mundo, esse é outro fato irrefutável. O que poderia acontecer quando ambos unissem forças para trabalhar em conjunto? Pois é, uma explosão sonora e visual, certamente. Antes de avançar sobre a resenha, é preciso esclarecer que mais uma vez eu abri uma exceção ao arrolar um documentário neste rol, em contraste com o fato de que a proposta deste livro é comentar sobre filmes.*
Portanto, é óbvio que o ideal seria elaborar uma lista específica sobre tal modalidade, e assim, possivelmente lançar um livro específico para enfocar tal assunto, em separado. Entretanto eu considerei que algumas exceções seriam importantes em constar aqui e não por coincidência, esta em especial, é a segunda peça que extrapolou a condição de um documentário e assumiu outro patamar, para ser tratado como um filme, dada a sua luxuosa concepção, conteúdo e a conter a mesma assinatura, ou seja, da parte do diretor, Martin Scorsese.
Pois então, se Scorsese houvera transformado o último show da maravilhosa, “The Band”, em uma peça de arte, como ocorrera em “The Last Waltz”, certamente que tal documentário elevou-se a atingir a categoria de um filme. Scorsese a continuou lançar documentários fantásticos ligados ao Rock, Blues e Folk Music, ao longo dos nos subsequentes em que lançara “The Last Waltz”, e quando os anos dois mil já estavam em curso, eis que Scorsese anunciou um novo projeto de filmagem de show ao vivo, com uma banda de primeira grandeza, ninguém menos que: The Rolling Stones. Ao contrário do trabalho realizado com The Band em 1976, desta feita não tratou-se de um show de despedida dos Stones, portanto sem a carga emocional sentida em “The Last Waltz”, no entanto, certamente haveria de conter muita emoção ao envolver uma banda dessa magnitude gigantesca.
Bem, “Shine a Light” é uma canção magnífica, contida em álbum excepcional da discografia dos Rolling Stones, chamado: “Exile on Main Street”, que foi lançado em 1972. Considerado um dos melhores discos da sua carreira, é bom ressaltar que em uma carreira longeva e coroada por êxitos, abundam discos incríveis lançados por tal banda. Em meu caso, eu posso arrolar no mínimo dez discos espetaculares lançados por tal banda, e “Exile on Main Street” está contido em tal lista, sem dúvida alguma. 
Todavia, este filme não é temático sobre tal disco e tampouco sobre a canção citada, a revelar-se portanto, uma ideia pinçada em meio a um repertório gigantesco criado pela banda e a conter a rara felicidade de exprimir em uma simples frase, o que essa banda representa na história. Pois eis que “Brilhar a Luz” é o que The Rolling Stones faz de forma ininterrupta, desde 1962. Modismos passaram, concorrentes tão grandes quanto, tombaram pelo caminho, mas a luz dos Rolling Stones não parou de brilhar, por décadas.
Ficou mais do que justificável portanto a intenção de Scorsese em repetir o que já fizera com The Band e mais uma vez ele logrou êxito, pois “Shine a Light” elevou-se da condição de um simples documentário a mostrar o show de uma banda de Rock, para a categoria de um filme luxuoso. Não possui dramaturgia, mas não há problema, tem o élan de um Rock Movie.
Ao contrário do risco que correra em 1976, ao contar com um único show da The Band para filmar, “The Last Waltz” e assim desafiar o próprio azar em perder tudo, se alguma pane ocorresse, desta feita, Scorsese foi mais prudente e assim, a produção programou-se para filmar dois shows completos dos Rolling Stones no Beacon Theatre em Nova York, nos dias 29 de outubro e 1º de novembro de 2006. Tais shows foram encaixados especialmente dentro da turnê que eles realizavam na ocasião, chamada: “A Bigger Band”, especialmente para dar vazão às filmagens que Scorsese comandaria. Claro que a contar com apenas dois dias também não seria o ideal como margem de segurança para uma filmagem desse porte, entretanto, foi como já mencionei, tratou-se de uma situação mais confortável para Scorsese e a sua equipe de filmagem, sem dúvida alguma.
Sobre o Beacon Theatre, a sua capacidade anunciada para 2984 pessoas acomodadas, em três andares, obrigatoriamente ofertou à Scorsese, um padrão de filmagem intimista. Essa foi a ideia, deliberadamente e note-se que um show ser considerado como “intimista” em um teatro a conter quase três mil pessoas, é um conceito relativo e que pode ser medido pela grandeza do artista que ali apresenta-se, pois acostumados em tocar em estádios de futebol, na maior parte do tempo e nessas circunstâncias, para até cem mil pessoas na média, eis que um show realizado para cerca de três mil pessoas, no caso dos Rolling Stones, pode sim, ser considerado “intimista”. E mais um dado, o Beacon Theatre, fundado em 1929, é um charmoso teatro, portanto, a filmagem ali só poderia tornar-se visualmente muito bonita, por um questão natural.
O início do filme, mostra cenas bem funcionais, com Scorsese e os membros dos Rolling Stones a discutir detalhes sobre a filmagem. Nesse aspecto, é um privilégio ver Scorsese em ação a conversar com os seus produtores, e assim ser mostrado mesmo que rapidamente, como tantos detalhes são planejados para filmar-se um show ao vivo. O mesmo ocorre com os membros dos Rolling Stones, e neste caso, com Mick Jagger a assumir o controle dos interesses da banda. Então, isso significa que a banda não tem um empresário  a comandar uma equipe de produção para cuidar dos seus assuntos gerenciais? Pois é claro que existe e certamente que trata-se de uma equipe enorme a gerir cada detalhe da carreira da banda, incluso a ostentar tentáculos muito além da questão musical, com negócios e investimentos múltiplos a constituir uma máquina de gerar lucros e assim dar emprego para muita gente. No entanto, quem conhece mais a fundo a história dos Rolling Stones, sabe que Mick Jagger é um homem de negócios, vinte e quatro horas por dia e nada escapa ao seu crivo, no que concerne os negócios e a receita que a banda movimenta. Nesse aspecto, talvez desaponte algumas pessoas, ver Mick Jagger longe do palco a portar-se com uma seriedade além da conta e que beira o mau humor, no entanto, esse choque de realidade é interessante ao meu ver. 
E finalmente, acrescento que há um lado nessa movimentação de bastidores, que soa falso. Eu sei que eu afirmei acima, ser bonito ter o contato com os bastidores da produção e isso eu reafirmo como uma verdade. Todavia, é quase indisfarçável que tais cenas foram forçadas, como se todos os envolvidos houvessem interpretado tais situações a seguir um roteiro pré-estabelecido, sem espontaneidade, portanto. 
Sinceramente, eu creio que não importa se tal expediente possa ser considerado como um pecado a denegrir a imagem do filme, ou como algo perfeitamente suportável, a tratar-se de um ato inofensivo. E aliás, isso não é algo confesso, mas apenas um desconfiança que que foi cogitada por muitas pessoas e eu incluo-me nesse rol, pois eu também acho que foi uma sequência de cenas armadas para parecer naturais, contudo, teriam sido combinadas e eu não usaria o termo, dramaturgia, pois ninguém li envolvido era ator, apesar de Mick Jagger ter protagonizado alguns filmes em sua vida, a atuar como ator improvisado (e não despontou em tais atuações, é bom frisar).  
Outro aspecto que precede o show e mostra um lado social e formal que todo artista que chega em um patamar de grandeza enorme, caso dos Rolling Stones, tem que enfrentar praticamente de uma maneira obrigatória, é revelado quando a banda precisa receber em reservado, o então, ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, acompanhado de sua esposa, a então senadora, Hilary Clinton e familiares. É engraçada uma cena onde os membros dos Rolling Stones são mostrados perfilados a cumprimentar a comitiva de Clinton, a incluir pessoas idosas e crianças. Contabilize-se também que por uma contingência da agenda de um ex-presidente, estava presente nessa ocasião, o ex-presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski e comitiva, portanto, a configurar um tipo de obrigação muito comum para artistas desse porte, em manter contato social com autoridades máximas de várias nações, o tempo todo como uma praxe. Bem, no caso de Bill Clinton, houve uma boa justificativa para a sua presença ali no evento, visto que as duas apresentações foram monetizadas em benefício de sua fundação em prol da caridade e por isso, ele em pessoa apresentou a banda no início do show, como um mestre de cerimônia. do evento.
Bem, eis que o show começa e toda a grandiosidade de um típico show dos Rolling Stones, nestes tempos mais modernos, é apresentada. É óbvio que a banda não possuía mais o élan criativo de outrora e isso faz muito tempo, aliás. Entretanto, a banda sempre soa bem, e não importa o avançar do tempo, pois os seus componentes estão sempre em forma impecável e claro, com a presença muito boa de diversos músicos de apoio, alguns com história, inclusive, no âmbito particular, caso do baixista, Darryl Jones, considerado um virtuose, mas que em sua participação como músico contratado dos Stones (desde que o baixista original da banda, Bill Wyman, deixou a banda em 1993), respeita inteiramente os arranjos originais das canções e não exagera em sua performance, o ótimo tecladista, Chuck Leavell, que foi componente do The Allman Brothers Band por um bom tempo e o hoje saudoso, Bob Keys, saxofonista sensacional e que tocou com muitos astros do Rock sessenta-setentista e com os Rolling Stones em específico, Bob tocou por décadas como convidado em discos e turnês. Sim, o famoso solo da canção, “Brown Sugar”, do LP “Sticky Fingers”, de 1971, foi feito pelo grande, Bob, que deixou-nos infelizmente, em 2014.  
Bem, o que se mostra encantador neste filme, foi o apuro nas imagens, áudio e enquadramentos. Toda a planificação que Scorsese desejou ter usado em “The Last Waltz”, no ano de 1976, e não conseguiu realizar a contento nesse outro filme, ele finalmente colocou em prática, dessa feita. Isso inclusive faz parte das conversações travadas ao início, quando Scorsese é mostrado a perguntar sobre cada música do set list que será executada, pois a sua meta seria direcionar as câmeras para capturar o início de cada riff, principalmente quando iniciadas pelas guitarras de Keith Richards e Ron Wood. Então, o que se observa ao longo do filme, é um trabalho não apenas de captura bastante minucioso, mas sobretudo, uma edição caprichadíssima, pois todas as nuances musicais foram detalhadas de um forma magnífica. Chega a ser impressionante em alguns instantes, ver e ouvir com uma nitidez impressionante, os diferentes arranjos combinados entre os dois guitarristas, como raramente isso é observado em qualquer outra filmagem de um show ao vivo. Em alguns momentos, chega a ser algo tão gritante, que dá a impressão para o espectador mais atento e que seja músico, que esteja a ocorrer uma sessão de audição de estúdio em trabalho de decupagem, para ouvir-se cada instrumento separadamente (“solado“, no bordão usado por músicos e técnicos em estúdio de gravação).
Isso sem contar flagrantes sensacionais sobre a performance em si. O baterista, Charlie Watts a recuperar o fôlego, após o término de uma canção com andamento acelerado, é algo a ser exaltado como um exemplo de humanização total de um ídolo. E claro, a figura inacreditável de Mick Jagger, que tem um domínio de palco absurdo, além de possuir um grau de carisma perante o público, que é algo muito sério, talvez a designá-lo como um “encantador de serpentes”, no bom sentido da expressão, pois o seu poder de comando é total. É uma filmagem maravilhosa, portanto, em todos os quesitos técnicos imagináveis, tanto pelo aspecto da cinematografia comandada por Scorsese, quanto pela performance impecável da parte dos Rolling Stones.
Ao final, quando todos os participantes cumprimentam o público e isso envolve a banda, músicos de apoio e os artistas convidados para o show, eis que em última instância, a banda, reduzida a um quarteto, desde 1993, conforme já afirmei, fica no palco para receber a sua ovação particular e quando os componentes saem, a câmera acompanha os movimentos, principalmente no encalço de Mick Jagger e com Scorsese a aparecer na direção do seu cinegrafista, mostra-se a rua e a seguir, a cena torna-se aérea, ao ponto de mostrar a ilha de Manhattan do alto, sob uma linda visão noturna. Uma tomada sensacional, para encerrar com requinte um filme luxuoso.
Cabe destacar os convidados especiais, então. O guitarrista, Jack White, da então famosa banda dos anos zero do novo milênio, “White Stripes”, entra no palco e canta a bela balada, “Loving Cup” com a banda. A sua performance é boa e a emoção de sua parte, é cativante e não parece falsa para angariar simpatia calculada. Fica a impressão portanto, que ele realmente emocionou-se por estar a cantar com os Rolling Stones e sobretudo por fazer dueto vocal com Mick Jagger e a mirar-lhe em seus olhos.
Buddy Guy o velho mestre do Blues, entrou com uma postura firme, porém bastante simpática para defender um blues de raiz, a constituir-se de: “Champagne & Reefer”, um clássico composto por Muddy Waters. 
E finalmente, a cantora Pop, Christina Aguilera, teve uma performance exemplar ao cantar com Jagger, o ótimo Rock, “Live With Me”, uma peça dos Rolling Stones, oriunda dos anos sessenta, ou seja da época em que a banda estava sob explosão criativa total. Tal cantora, por ter uma carreira Pop e muito longe do espectro do Rock, geralmente é desprezada pelos Rockers em geral, mas o fato foi que ela possui (ou possuía, pelo menos), uma garganta privilegiada, pois cantou com muita desenvoltura e assim demonstrou que teria potencial para ser uma cantora sensacional no espectro do Rock, Blues e Soul Music, se dessa forma o desejasse, mas a sua carreira caminhou para um outro lado. Bem, é curioso, mas o então bem cotado com o “hype” daquele instante, a saudá-lo como a pretensa “salvação do Rock”, para a virada do milênio, o senhor Jack White, ficou muito aquém da performance de Christina Aguilera, que rasgou a voz como se fosse Tina Turner em seus melhores dias e como se não bastasse a voz e a performance de palco sensacional, hoje em dia (2019), nem tanto, mas na imagem de 2006, que impregnou-se nesse celuloide, essa moça estava com uma beleza feminina deslumbrante.
Destaca-se também que intercalado aos shows, imagens de entrevistas e shows dos Stones ao longo dos anos sessenta e setenta, principalmente, mas também da década de oitenta, são inseridas. Na edição, privilegiou-se trechos de entrevistas engraçadas com os componentes a declarar certas posições que através da passagem do tempo, tornaram-se ridículas, como por exemplo, Mick Jagger na metade dos anos sessenta, ao ser questionado sobre quanto tempo o sucesso da banda duraria, ter vaticinado um prazo mínimo, completamente desconectado com a realidade construída a posteriori. É bonito também, ver algumas imagens de shows antigos, com as presenças do baixista, Bill Wyman, que deixou a banda em 1993, e sobretudo do saudoso guitarrista, Brian Jones, falecido em 1969. 
Sobre o repertório, os Rolling Stones, pelo volume da obra, dada a sua longevidade artística e genialidade exibida desde sempre, sob o ponto de vista criativo, construiu um repertório monstruoso e recheado por sucessos. Então, já faz décadas que as suas turnês são montadas com um esqueleto básico de canções que repetem-se obrigatoriamente em todo show, porém a conter uma margem calculada para mudanças estratégicas de um show para o outro, Por conta desse dispositivo, a turnê é montada com um repertório enorme a privilegiar músicas de vários álbuns e fases da banda. Assim, o público sempre tem uma boa surpresa, que é exclusiva para aquele show em específico e quem assiste mais de um show da mesma turnê, sabe da existência desse expediente e comemora tal iniciativa. Eu mesmo já tive o prazer em passar por tal experiência, em passagens da banda pela minha cidade, São Paulo, nos anos noventa e foi muito prazeroso receber a boa surpresa de haver a execução de músicas diferentes de um dia para o outro e algumas, a revelar-se muito surpreendentes, inclusive, extraídas de discos não tão óbvios da discografia da banda. 
No caso deste filme, o set list contou com: Jumpin Jack Flash, Shattered, She Was Hot, All Down The Line, Loving Cup, As Tears Go By, Some Girls, Just My Imagination, Far Away Eyes, Champagne & Reefer, Tumbling Dice, You Got The Silver, Connection (surpresa boa, direto de 1967!), Sympathy For the Devil; Live With Me, Start me Up e Satisfaction.
A canção, “Shine a Light” é executada, mas como apoio em background a conter a sua versão de estúdio. Casos também de “Wild Horses” (em uma versão acústica) e “Only Found Out Yesterday”. Na versão em DVD, algumas canções tocadas ao vivo foram inclusas, casos de “Undercover of The Night”, “Paint in Black”, Little T&A (She’s my Litle Rock’n’ Roll) e “I’m Free”.  
Em suma, se o leitor não assistiu, fica a minha recomendação, pois a despeito de não ser uma captura dos Rolling Stones em seu melhor momento artístico observado durante as décadas de sessenta e setenta, mostra a banda sob uma grande performance, e neste caso, talvez os Stones sejam um dos únicos artistas conhecidos como “dinossauros” que não abalam-se nunca com a passagem do tempo, pelo menos em termos de shows ao vivo. Some-se a isso um trabalho visual primoroso, assinado por um cineasta do quilate de Martin Scorsese, que acima de tudo, adora o vintage Rock,  portanto a constituir-se de um grande filme. A crítica elogiou bastante quando do lançamento oficial em 2008 e de fato, não há como tecer algum comentário ruim.  
Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood na formação oficial dos Rolling Stones. Os músicos de apoio: Darryl Jones, Bob Keys, Chuck Leavell, Lisa Fischer, Blondie Chaplin, Bernard Fowler, Tim Ries, Kent Smith e Michael Davis. Os artistas convidados: Jack White, Buddy Guy e Christina Aguilera.
Um aviso aparece ao final do filme, para explicar que essa obra fora dedicada a um senhor chamado: Ahmet Ertegün. Talvez o grande público não saiba, mas este homem que nasceu na Turquia, como sugere a grafia e sonoridade de seu nome, foi o fundador da lendária gravadora Atlantis, que tantos artistas importantíssimos na história do Rock e da Black Music, lançou, o Led Zeppelin, entre tantos, só para citar um nome de peso, além de ter trabalhado com os Rolling Stones, sendo muito próximo de seus componentes. Pois nesta ocasião da filmagem ele esteve presente na audiência, no alto de seus então, 83 anos de idade. Nesse dia de uma das filmagens (29 de outubro de 2006), ele sofreu um acidente nas dependências do teatro, por tropeçar e bater a cabeça com força no chão. Levado às pressas para um hospital, entrou em coma e veio a falecer em dezembro do mesmo ano. Um dado a mais, apaixonado por futebol, foi esse senhor que montou o time do Cosmos de Nova York nos anos setenta e contratou diversos jogadores internacionais de renome para reforçar o time, incluso: Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia, Johan Neeskens e os brasileiros, Pelé e Carlos Alberto Torres, entre outros. Que descanse em paz esse grande empreendedor no campo da música e também do esporte.
Produção por Steve Bing e Michael Cohl. Direção de Martin Scorsese. Lançado em abril de 2008. O filme estreou no Festival de cinema de Berlim. Já foi exibido muitas vezes na TV, sobretudo na TV a cabo, e geralmente a marcar mostras sobre o Rock em geral, Rolling Stones em específico e também sobre a filmografia de Martin Scorsese. Na Internet, somente em versão paga, tanto no YouTube, quanto Google Play. No portal da Netflix, não encontra-se mais, mas em compensação, um documentário mais moderno sobre os Rolling Stones, denominado: “Crossfire Hurricane”, está em plena exibição neste portal (ao me referir ao ano de 2019, bem entendido) 
*A referir-me ao livro que lancei em 2020
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 441

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Filme: Janis et John (Janis & John) - Por Luiz Domingues

Eis aqui uma produção aparentemente despretensiosa, que teve tudo para ficar restrita às mostras de cinema alternativo, onde fitas dessa natureza costumam despertar a atenção de poucos aficionados do cinema anticomercial e igualmente da parte de críticos muito específicos desse tipo de produção subterrânea, tão somente. No entanto, dada a dimensão extra que angariou, por alguns fatores que eu elucidarei ao longo da resenha, adquiriu um interesse maior. 
Trata-se de uma história bizarra, em princípio, que poderia ser encarada de diferentes formas, a saber: por aparentar ser uma trama policial rocambolesca, por que envolve um plano de estelionato motivado por uma falcatrua financeira cometida anteriormente; por também constituir-se em uma comédia de costumes por conta de uma questão familiar e sobretudo, ao ganhar uma aura Rock Movie, pois toda a farsa montada pelos protagonistas em prol de um golpe, conteve as figuras de Janis Joplin e John Lennon como fantasias em sua construção.
Trata-se de uma produção franco-espanhola, chamada: “Janis et John”, que foi traduzida em português da mesma forma, e em que pese a semelhança entre os idiomas francês e português, creio que nem precisaria haver a tradução. Enfim, com Janis Joplin e John Lennon a dar título ao filme, naturalmente que mesmo não sendo um filme comercial com orçamento blockbuster, haveria em despertar a atenção dos Rockers, Freaks & hippies e pelas circunstâncias do tempo em questão (2003, quando o filme foi lançado), a revelar-se um público mais maduro em tese e aliás, no filme, essa questão do envelhecimento dos aficionados de artistas ícones da contracultura sessentista, como Janis e John, é abordada em alguns aspectos, inclusive a garantir boas piadas e também reflexões revestidas de uma maior seriedade em termos dessa questão da passagem do tempo e a marcar o arrefecimento de ícones culturais. 
A história é montada em torno de uma família classe média francesa, e que vive em um subúrbio, com toda a tranquilidade, a grosso modo. No entanto, apesar da aparente normalidade em que vivem os seus componentes, há um desequilíbrio financeiro em curso, e que o senhor, Pablo Sterni (interpretado por Sérgi López), vai ter que resolver com certa urgência. Ele trabalha como um corretor de seguros e só a contar com o seu salário e eventuais comissões, não tem perspectiva em resolver a sua situação. Ele é casado com Brigitte Sterni (interpretada por Marie Trintignant), que é uma dona de casa apática, em permanente estado depressivo e cuja sogra, (interpretada por Amparo Soler Leal), não gosta dela, declaradamente, exatamente por tal moça ser excessivamente tímida e com tal tipo de comportamento, em sua ótica, não ser uma boa esposa para o seu filho. Completa o tal núcleo familiar, o filho do casal, um garoto em idade escolar, chamado, Jeremiah Sterni (interpretado por Sacha Aubart).
Então, eis que uma oportunidade surge para Pablo resolver as suas pendências financeiras, quando um senhor o procura para fechar uma apólice de seguro para um carro que pouco usa. Trata-se do monsieur Cannon (interpretado pelo veterano e ultra consagrado ator, Jean-Louis Trintignant, que aliás, era pai na vida real, da saudosa, Marie Trintignant, que protagoniza este filme), que providencia então o seguro para o seu bólido, um Aston Martin DB4, que em tese, ele mantém estacionado na garagem como uma peça de coleção, sem intenção em usá-lo como transporte. 
É com tal perspectiva que o corretor, Pablo Sterni, vislumbra obter uma vantagem pessoal, pois já que o tal senhor não usa o automóvel em questão, por dedução, esse carro jamais sofreria um “sinistro”, e por extensão, o valor do seguro jamais seria desembolsado pela seguradora. Falcatrua a revelar-se um crime, é evidente, mas Pablo não pensa assim, visto que planeja usar o dinheiro do seguro alheio e devolvê-lo sem que a sua empresa e sobretudo o monsieur Cannon perceba o desfalque, pois Pablo não é um bandido, mas considera-se um “homem de bem” e assim, tal desvio é por ele considerado uma pequena manobra perfeitamente perdoável, ou seja, uma reflexão interessante sobre os pequenos delitos que são considerados inofensivos no âmago da sociedade, no entanto, delito não tem isenção por conta de sua extensão, pois qualquer delito é um malfeito, simples assim.
 
Todavia, o plano de Pablo vem abaixo, quando o imponderável ocorre. Eis que em uma noite, um gatuno invade a garagem do monsieur Cannon e ao acelerar o seu carro de coleção, tal ato culmina em um acidente lamentável, com o carro a mostrar-se semidestruído. Logicamente que o monsieur Cannon procura o escritório da seguradora, no dia seguinte e surpreendido, o corretor, mantém a aparência de normalidade ao atendê-lo, mas secretamente entra em pânico, pois agora vai ter que arrumar dinheiro urgente para honrar o seguro e os reparos na oficina, não serão baratos, visto que o carro tem o valor de um veículo especial, objeto de coleção.
Então, eis que ele lembra-se que tem um primo que foi hippie nos anos sessenta e que nos dias atuais, vive a administrar uma loja de discos (chamada: “Strawberry”), que é temática, por apenas vender material (não apenas discos), de Janis Joplin e John Lennon. E há uma explicação para tal abordagem temática, a revelar-se uma questão absurda, no entanto, plausível apenas se levar-se em consideração as circunstâncias pelas quais isso foi construído.
O tal hippie veterano é Léon (interpretado pelo famoso ator, Christopher Lambert). Bem, em flashback, é mostrado que em 1973, Léon ingerira um ácido lisérgico (LSD), e no banheiro de uma casa noturna, onde encontrava-se naquele instante, teve uma alucinação ao ver que Janis Joplin e John Lennon entraram juntos no mesmo recinto sanitário e conversam com ele, a dar a entender que Léon teria uma missão a cumprir, em manter a memória de ambos preservada de alguma forma e que ambos voltariam para falar novamente com ele, no futuro. 
 
Bem, o excesso ocorrido pelo abuso na utilização de não apenas um, mas múltiplos ácidos dali em diante, lesou a capacidade cerebral de Léon, certamente, mas para efeito de uma licença poética bem grande, é sugerida a ideia de que Léon estaria sob efeito do mesmo ácido ingerido em 1973. E cabe destacar que a ideia em ter tido tal visão com Janis Joplin e John Lennon, teria sido motivada pelo fato de ambos ter falecido, no entanto, na vida real, apenas Janis já não estava mais entre nós, desde 1970, mas Lennon, estava vivo e muito ativo em 1973, tanto artisticamente com a sua carreira em pleno curso e com bastante sucesso, além da forte militância sociocultural e política em que ele inserira-se e cujas ações midiáticas geravam apoio e ataques da parte de seus detratores, incluso agências governamentais a serviço de nações gerenciadas por forças conservadoras. 
 
Ocorre um ponto anacrônico e não muito bem correto como construção da personagem, pois Léon é retratado em 1973, mais como um punk de 1977, anti-hippie em essência, do que verdadeiramente um hippie. A contradição expressa-se pelo seu corte de cabelo e pelo uso de uma camiseta a conter o símbolo da anarquia, algo nada plausível em 1973, e ainda mais se a intenção da descrição da personagem apontava em tese, para retratar-se a figura de um freak sessenta/setentista típico, fã de ícones do Rock sessentista, como Janis Joplin & John Lennon. 
 
Bem, fica por conta da pesquisa que não foi feita a contento, ou, em uma hipótese mais remota ao meu ver, em deliberadamente marcar tal questão como algo simbólico no intuito proposital de se passar ao espectador uma metáfora ou alegoria, no entanto, se foi essa a intenção, deixo ao leitor a sua interpretação, pois eu realmente não enxerguei dessa forma e nessa predisposição, parece apenas um erro de interpretação cultural, ao misturar-se conceitos dispares entre si.
Bem, o tempo passou e Léon vive da movimentação de sua loja, no entanto, algo excepcional ocorre, pois ele recebe inesperadamente uma herança milionária (um milhão de francos). Com tal informação, Pablo, que não vê o primo há anos e certamente o desprezava por ele, Léon, ter tornado-se catatônico, preso em uma viagem de ácido há tanto tempo, arquiteta um plano mirabolante para poder apropriar-se de uma parte dessa fortuna e assim poder resolver os seus problemas. Ele simplesmente não teria como visitar o primo, após esse hiato gigantesco e pedir-lhe dinheiro emprestado, e dessa forma, faz algo pior, ao montar um estratagema absurdo.
Eis então que ele contrata um ator desempregado, Walter Kingkate (interpretado pelo famoso e ótimo ator, François Cluzet), para interpretar, John Lennon, visto que tal rapaz mantinha uma relativa aparência com o astro do Rock e assim, com a cabeleira que Lennon teve entre 1973 e 1974, mais ou menos, e o uso de um figurino parecido, e claro, a conter em sua composição os óculos escuros com lentes redondas, a sua marca registrada, eis que o ator ficou razoavelmente bem parecido com o Rock Star britânico. Entretanto, a loucura arquitetada por Pablo, extrapola-se ainda mais, quando ele sugere à sua tímida esposa, que ela caracterize-se como Janis Joplin, para juntamente ao ator que simularia ser John Lennon, participar da farsa montada para ludibriar o alucinado, Léon, e dessa forma conseguir o dinheiro necessário para resolver os seus problemas.
 
É um ponto interessante do filme, pois aqui, verdadeiramente, o que seria apenas uma trama policialesca com cunho satírico e a conter uma leve drama sociocultural, revela-se enfim um Rock Movie, pois além da trilha sonora que mostra-se excelente, e a conter todas as motivações Rockers em torno da loja do tresloucado, Léon, entra em cena a construção das personificações de Janis Joplin e John Lennon, da parte dos farsantes, portanto, abundam as situações engraçadas e também as sutilezas inerentes ao evocar-se a vida e obra de ambos os artistas, e sobretudo, a importância cultural / contracultural que os dois possuem na história.
E vai além (veja só, leitor, que surpresa agradável ao tratar-se de um filme supostamente alternativo e despretensioso), pois aspectos psicológicos em contraste, são evocados, em relação às pessoas que vão cometer tal loucura, e as personalidades dos artistas que simularão ser, para tentar ludibriar, Léon. Isso inclui por extensão, o próprio, Léon e o grande articulador dessa farsa, Pablo. Nesses termos, o maior contraste fica mesmo com a esposa de Pablo, Brigitte, pois fica muito óbvio que a ideia é absurda em transformar uma mulher tão tímida e apática, em uma personalidade tão extrovertida e explosiva como foi Janis Joplin em vida, dada a sua intensidade como artista e pessoa. É nesse aspecto que o filme torna-se ainda mais interessante portanto, pois se para simplesmente ouvir a ideia estapafúrdia de Pablo, Brigitte já sentiu-se envergonhada, imagine então como foi aceitar fazer parte dessa trapaça e vencer a sua timidez contumaz, para fingir ser uma pessoa exuberante, algo completamente fora da sua realidade.
Em tese, ela só precisaria fingir ser Janis Joplin para ludibriar Léon, ao lado do falso, John Lennon, e dessa maneira, seria apenas uma questão de compor um visual parecido e esforçar-se em parecer ser extrovertida como Janis o fora em vida, para empreender uma simples conversação e assim envolver o pobre dono da loja e arrancar-lhe um dinheiro por conseguinte, o que aliás, seria a tarefa da parte do Pablo. Nesse plano, Janis e John alegariam que estavam ali a cumprir a promessa feita durante o delírio que Léon tivera em 1973, e depois dele ficar emocionado com tal abordagem, Pablo teria facilidade para ir direto ao ponto ao ter em mente que o seu primo estaria sob forte comoção.
 
Então, a dificuldade de Brigitte é mais explorada, visto gerar um conflito maior, todavia, a questão do falso Lennon defendido por Walter, também recebe um foco. Ele é um ator sem perspectivas e assim agarra-se na personagem com um certo exagero laboratorial, digamos assim, tanto que em uma cena, onde apresenta-se em público em um restaurante, devidamente caracterizado, ao lado da falsa Janis e de Pablo, ele briga com o autor do plano, a culminar com as vias de fato e indignado, ele sai aos gritos do recinto: -“eu sou John Lennon!”
Bem, confusões em torno desse imbróglio são propiciadas a garantir a dose necessária de humor, e nesse ínterim, a parte mais musical ocorre, visto que em determinado ponto, a falsa, Janis Joplin, visita a loja e Léon a conduz a um anexo onde funciona uma sala de ensaio. Ali, ela é apresentada a três bons músicos veteranos, com aparência de hippies velhos e então, Léon sugere que ela faça uma jam session com esses rapazes. Claro que ela não canta nada e trava, em meio aos acordes do clássico do repertório de Janis Joplin, “Kozmic Blues”. Em cenas subsequentes, ela demonstra paulatinamente estar a gostar de viver a personagem e essa parte revela o tal fator psicológico que eu mencionei anteriormente e muito interessante a revelar-se embutido na história, pois logicamente representa um despertar para a personagem, que alcança assim o acesso à forças latentes que nem imaginava possuir dentro de si. 
Então, eis que Brigitte passa a viver trajada como Janis Joplin, vinte e quatro horas por dia e mais do que isso, adota posturas muito diferentes no trato social, ao perder completamente a sua timidez obsessiva. Até a relação com a sua sogra, que mostrava-se conflituosa, melhora muito, pois finalmente a mãe de Pablo percebe nessa nova postura de sua nora, exatamente o que ela esperava da moça.
 
E o mais incrível ocorre, quando ela, sem nenhuma explicação plausível e na base da pura fantasia, melhora a sua performance musical, e isso culmina em cenas onde paulatinamente melhora a sua performance para cantar sempre a mesma canção: “Kosmic Blues”.
Walter por sua vez, também anima-se ao tentar compor como se fosse John Lennon, e é engraçada a cena onde traz consigo uma suposta namorada, não oriental, mas com baixa estatura e a usar longos cabelos negros, que sentada em profundo silêncio, o vê trabalhar em várias cenas a repetir a mesma intenção. Creio não ser necessário explicar a motivação dessa intervenção, não é mesmo?
 
Bem, chega-se em um ponto onde a farsa é descoberta por Léon, que “mata” simbolicamente o falso Lennon ao alvejá-lo com um revolver que é uma réplica da arma que Mark Chapman usou para assassinar Lennon na vida real. 
 
Todavia, Janis (ou melhor, Brigitte), já não sabe mais se deseja voltar para a sua velha vida como dona de casa, pois agora frequenta botequins com os seus colegas de banda, a beber, drogar-se e jogar bilhar até o dia amanhecer. Pablo percebe que criou um problema a mais, então, ao colocar a esposa nessa fantasia descabida. Ele passa a ter que cuidar da casa e do filho, pois Brigitte, ou melhor, Janis, não realiza mais nenhuma tarefa caseira, como se não fosse mais uma mãe tradicional. Pablo, atormentado com a situação, passa a ver diversas mulheres pelas ruas, vestidas como Janis Joplin e aí fica dúbio se são os seus demônios interiores a atormentá-lo ou a representação da liberdade que Brigitte inspirara na vizinhança, de forma simbólica, naturalmente.
 
Eis que em uma determinada noite, Pablo entra em um bar e vê Brigitte subir ao palco, acompanhada da tal banda e ela canta: “Kozmic Blues” com a mesma desenvoltura de Janis Joplin, o que deixa o seu marido, boquiaberto. A fantasia causara uma transformação, verdadeiramente e agora, ele não reconhecia mais a própria esposa com essa postura e sobretudo dotada desse talento musical todo.
Monsieur Cannon aborda Pablo e confessa que já estava a par do golpe todo, pois por coincidência, presenciara a cena que chegara às vias de fato no restaurante, com os falsos John Lennon e Janis Joplin. Em “flashback”, a cena em questão é reprisada, mas sob a perspectiva de Monsieur Cannon mediante uma imagem propiciada por outro ângulo.
 
E o filme encerra-se bem diferente dos filmes tradicionais comerciais em geral, ao mostrar a família reunida em um restaurante e com a imagem de Brigitte/Janis Joplin, a flutuar no ar, como a dar a entender que tal situação seria eternizada por ela, doravante.
Em suma, uma ideia bastante exótica, mas que funcionou, por incrível que pareça, ao mostrar um desenvolvimento criativo. Tal filme, apesar desse mérito acumulado, tornou-se triste por um aspecto não necessariamente motivado por sua causa, mas que foi inevitável. Ocorreu que a boa atriz, Marie Trintignant, não assistiu o filme em seu lançamento, visto que morreu tragicamente em agosto de 2003, apenas três meses após o término das filmagens, assassinada pelo seu então namorado, o músico, Bertrant Cantat, que a espancou covardemente, a ocasionar-lhe um edema cerebral. 
Uma curiosidade, Marie, além de ter sido filha de Jean-Louis Trintignant (este, um ator importantíssimo do cinema francês e mundial, basta ver o seu currículo impressionante), foi casada com o diretor deste filme, Samuel Benchetrit (este, também ator e escritor de vários livros), e igualmente fora casada com o ator, François Cluzet (que interpretou Walter/John Lennon, neste filme, e mais um ator com vasta cinematografia elogiada). Sérgi López, por sua vez, é um ator espanhol com um currículo gigantesco no cinema a contabilizar inclusive trabalhos realizados com Woody Allen. Isso sem deixar de mencionar a presença do ator, norte-americano, Christopher Lambert, cuja trajetória dispensa apresentações. Então, a conclusão sobre o elenco, ao pensar-se nesses atores citados, é óbvia no sentido em que o talento dramatúrgico reunido para tal obra, foi gigantesco.
 
Mais alguns atores no elenco, ainda não citados: Basile Leroux (como Bob, músico da banda), Eric Hervé (como Freddy, outro músico), Reynald Tescaro (como Miki, outro músico), Patrick Dietsch (como Johnny Rassov), Michel Berrie (como Victor Artie), e outros. 
A crítica parece não ter entendido a proposta do filme, por não estabelecer uma boa cotação em linhas gerais. Tirante o sisudo jornal “Le Monde”, normalmente exigente em suas resenhas cinematográficas, e que considerou tal filme como a uma peça inteligente. Em outros veículos menores, ressaltou-se a qualidade do elenco, a conter alguns monstros do cinema europeu, e claro que isso foi um fato consumado dentro dessa obra. No contraponto, o jornal, “Libération”, massacrou a obra e observou exatamente o contrário, a dar conta que nem mesmo um elenco tão bom conseguiu salvar o filme do constrangimento em apresentar-se com diálogos tão fracos. E ainda execrou o diretor, ao chamá-lo como um “charlatão da capital” e que ele não seria bom como escritor, tampouco como diretor de cinema. Em outros veículos, falou-se que foi um desperdício de talento generalizado e que resultou em dois minutos de um bom blues, quando finalmente a farsante, Brigitte, cantou como Janis Joplin. Nas bilheterias, o resultado foi apenas razoável, com a fita a ser exibida mais em circuito alternativo pelos cinemas de arte. Tornou-se comentado entre os fãs mais específicos de Janis Joplin e John Lennon, mas não ao ponto em tornar-se cultuado, mesmo por que, não foi todo mundo que entendeu a proposta da obra em seu enredo.
 
A trilha sonora é ótima. A despeito da música “Kozmic Blues” ter sido a única canção recorrente nas tentativas de Brigitte para cantá-la, ouve-se bastante o som de Janis Joplin ao longo do filme, com outras canções de seu repertório clássico, e também de John Lennon, em sua carreira solo, bem entendido, visto que dificilmente haveria qualquer canção dos Beatles, por motivos de direitos autorais obstruídos. Como a viúva de Lennon, Yoko Ono, é bem mais benevolente nesse sentido e ela controla tal material solo de Lennon, ficou viável a execução de suas canções. Ouve-se também o som de artistas sessenta/setentistas tais como: T. Rex, Ten Years After, 
Donovan, além de artistas mais modernos, em menor proporção. 
Um dado interessante sobre a produção, muitas cenas foram filmadas em Étiolles, cidade pequena, situada vinte e sete quilômetros ao norte de Paris, portanto, que bom assistir um filme francês que não tenha sucumbido à tentação de usar o clichê ao utilizar a capital francesa em seus pontos turísticos, como externas. Cabe explicar aliás, que se este filme foi uma coprodução franco-espanhola, ficou evidente que tirante a presença dos atores, Sérgi López e Amparo Soler Leal, a ambientação foi toda francófona.  

Escrito por Samuel Benchetrit e Gábor Rassov, foi dirigido por Samuel Benchetrit. Lançado em 2003, teve discreta exibição televisiva. Foi lançado em formato DVD, logo a seguir e encontra-se à disposição com facilidade no YouTube para ser assistido em versão integral e gratuitamente. 

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a sua leitura está disponibilizada a partir da página 430.