quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Filme: The Trip (Viagem ao Mundo da Alucinação) - Por Luiz Domingues

A quantidade de filmes que foram produzidos nos anos sessenta para retratar a contracultura sob diversos aspectos, foi enorme. Em meio à ebulição gerada pelo movimento Hippie, muitas obras foram produzidas, tanto com teor cinematográfico tradicional, a trabalhar com dramaturgia, roteiro, "storyboard" e que tais, quanto em termos mais alternativos, a buscar o caminho mais livre em torno do neorrealismo e com ecos na escola cinematográfica nouvelle vague. Isso sem deixar de mencionar que a quantidade de documentários que foram produzidos, também foi muito grande. E registre-se igualmente que não apenas a abordar diretamente a questão do movimento Hippie em voga, mas a focar em assuntos correlatos, tais como o Rock e a música em geral a ver com tal efervescência, diretamente; os ecos advindos da “beat generation”, Road Movies em geral, uma enorme quantidade de Motorcycles Movies e até filmes não exatamente ligados em tais ideias diretamente, mas a inseri-las em meio ao seu enfoque, seja lá qual fosse, visto que tornou-se uma espécie de pauta do dia para muitos cineastas, ao sentir-se a movimentação nas ruas, a gerar muita proeminência no cotidiano da sociedade norte-americana e europeia de uma maneira geral. 
Acrescente-se a tudo isso que eu mencionei anteriormente, uma movimentação interessante no meio cinematográfico, onde jovens atores formaram espontaneamente núcleos dentro da indústria tradicional hollywoodiana, a mostrar-se simpáticos às ideias contraculturais, e mais que isso, ao demonstrar empenho em usar a máquina dessa indústria para produzir obras com tal teor. E mais um aspecto, a presença de alguns cineastas mais veteranos, mas que haviam impactado-se fortemente com tais ideias, desde a explosão da “beat generation” cinquentista, aliás, e que dessa forma, sinalizaram buscar mais do que a simples vontade de procurar entender o que ocorria, contudo, a apresentar o ímpeto para trabalhar diretamente com tais questões em sua cinematografia, doravante. Casos de Otto Preminger e Roger Corman, por exemplo. Há registro de que Preminger (juntamente com o veterano ator, Cary Grant), conversaram bastante com o professor Timothy Leary (considerado um dos mais ativos acadêmicos a aprofundar as pesquisas sobre as drogas alucinógenas, notadamente o LSD), e chegou-se a cogitar a hipótese de Preminger filmar uma história com os atores sob efeito do ácido lisérgico.
O ator, Cary Grant entusiasmara-se muito com tal perspectiva. Tal informação consta do livro autobiográfico de Tim Leary, “Flashbacks”. Não há registro que Preminger tenha filmado sob tais condições, na prática, mas o fato é que tal cineasta lançou a seguir, a comédia musical, “Skidoo” (em 1968), com um elenco jovem mesclado a diversos astros veteranos do cinema em seu elenco (Groucho Marx e Mickey Rooney, entre outros), e cujo mote, foi a psicodelia em voga, mediante muita lisergia exposta em cena e com muitos freaks & hippies a surgir na tela, mediante o uso de muitas cores e delírios inerentes (há uma cena em tal filme, aliás, em que coloca-se ácido lisérgico no reservatório de água de uma penitenciária e todos os internos e também os guardas penitenciários, iniciam uma viagem psicodélica coletiva motivada pela droga).
Entre muitos atores simpatizantes dessas correntes de pensamento, houve um núcleo formado por jovens a destacar-se as figuras de Jack Nicholson, Bruce Dern, Peter Fonda, Dennis Hopper, Susan Strasberg, Karen Black, Mimsy Farmer, Max Julien, Adam Roarke e outros tantos. Desse núcleo básico formado por atores militantes contraculturais, algumas obras surgiram (“Easy Rider”, talvez seja o emblema máximo perpetrado por essa turma), e não por acaso, muitos desses atores mantinham estreita relação profissional com o diretor, Roger Corman, desde o início dos anos sessenta.
Corman era reconhecido por trabalhar com orçamentos muito modestos e geralmente a trilhar o caminho do terror e do Sci-Fi, como gêneros em que atuava no cinema, predominantemente e com sucesso, aliás, principalmente ao adaptar contos do escritor, Edgar Allan Poe ou recorrer à literatura gótica europeia para filmar as suas histórias de terror e neste caso, tornaram-se clássicas as suas obras com a participação do sensacional ator, Vincent Price, como o seu protagonista predileto e Jack Nicholson esteve envolvido igualmente, com essa filmografia clássica de Corman, em alguns momentos.
Em 1966, o filme, “Hallucination Generation (este dirigido por Edward Mann), já havia chamado a atenção para o tema dos Hippies em ebulição na sociedade. Eis que a toque de caixa, no ano seguinte, 1967, surgiu nas telas de cinema, mais filmes como : “The Love-Ins” e “Riot on Sunset Strip” (estes dois últimos citados, de autoria de Arthur Dreifuss e aliás, constam em resenhas para este livro, basta procurá-los no índice*), e no mesmo ano, para esquentar a temática nesse panorama, Roger Corman entrou com tudo no tema, ao lançar : “The Trip” (“Viagem ao Mundo da Alucinação”, como ficou conhecido em português), e com direta colaboração daquela turma boa de atores freaks, que eu mencionei acima, a atuar e escrever a história, no caso, da parte de Jack Nicholson. 
É preciso esclarecer,  no entanto, que no plano inicial estabelecido por Corman, a sua ideia fora trabalhar com o roteirista, Charles Byron Griffith, com quem já contara em filmes anteriores. De fato, Charles, que foi um roteirista competente, iniciou o trabalho, no entanto, Corman percebeu que precisava de um texto mais contundente, mais próximo da realidade expressa nas ruas, em termos de movimento Hippie que explodia e dessa forma, convidou, Jack Nicholson, para assumir o projeto e segundo consta na história dessa produção, pelo menos oitenta por cento do trabalho foi feito por Nicholson, a dar a entender que o trabalho de Griffith não foi totalmente descartado e algo de seu roteiro foi utilizado na filmagem.
 
Outro dado interessante e que corrobora o que eu comentei anteriormente sobre diretores veteranos de cinema que estiveram entusiasmados com os meandros da contracultura: Roger Corman, antes de iniciar a filmagem de “The Trip”, fez uso de LSD, para experimentar a sensação que a alucinação teria consigo próprio, portanto, tal qual um ator, fez o seu laboratório experimental pessoal, a preparar-se para mergulhar de cabeça nesse trabalho.
E mais um dado: a obra usou a música mais do que um mero adorno para compor a história e portanto gerou-lhe também a classificação como um Rock Movie, além de ser uma peça contracultural e alternativa, no sentido de um filme não comercial, em tese. Isso por conta das aparições sensacionais de artistas como: Gram Parsons (um grande nome do Folk-Rock), International Submarine Band e da Electric Flag, onde o baterista/cantor, Buddy Miles e o guitarrista Mike Bloomfield, grandes músicos da cena sessentista, atuavam juntos. 
Bem, sobre o mote principal, a trama foi construída como uma história comum, e não em tom de ode à contracultura, em princípio. Talvez tenha sido essa justamente a parcela de colaboração do primeiro roteirista contratado, ao ter concebido uma abordagem tradicional. Trata-se da história de um diretor de comerciais de TV, que em momento de crise matrimonial, procura ajuda profissional e através de um terapeuta que está a experimentar novas técnicas de tratamento, este lhe sugere o uso de drogas lisérgicas para que o paciente busque uma espécie de mergulho em seu próprio subconsciente e nessa reflexão, encontre respostas para entender os seus problemas, a configurar uma espécie de psicanálise bem alternativa e muito moderna aos padrões da época. 
Esse tal diretor de cinema, é Paul Groves (interpretado por Peter Fonda), que está atormentado pela suspeita de traição da parte de sua esposa, Sally Groves (interpretada por Susan Strasberg). Ele conversa com esse terapeuta chamado, John (interpretado por Bruce Dern), que propõe então a terapia em si, mediante o uso de LSD. É óbvio que a alusão ao terapeuta remete à figura do professor, Timothy Leary, e não por coincidência, em um "frame" bem rápido, adiante, a fotografia do próprio, Tim Leary, aparece em meio ao delírio que Paul tem, em meio à sua viagem lisérgica. O livro: “Howl” do poeta Beat e militante hippie, Allen Ginsberg, também é mostrado sutilmente, mas como um volume colocado a esmo no gabinete do Dr. John.
Paul conhece então uma moça que atua como uma espécie de apoio ao terapeuta, ao monitorar pessoas que estão a experimentar o tratamento, para também colher informações. Trata-se de Glenn (interpretada por Salli Sachse), e há um outro guia dessa experiência, na figura de Max (interpretado por Dennis Hopper), que mostra-se como um hippie convicto.
Entretanto, a grande ação do filme é a viagem lisérgica que Paul obtém ao tomar uma dose de LSD e são nessas ações entre a realidade a mostrar tal personagem a perambular pelas ruas e a encenação de seu delírio propriamente dito, que a trama mais desenvolve-se e aí sim, foi a porção mais clara da contribuição de Jack Nicholson como roteirista, certamente.
Bem, Paul mostra-se ansioso no início da experiência, ao cobrar do terapeuta, John, uma maior rapidez para que o efeito apresente-se de fato, todavia, quando a alucinação inicia-se, ele embarca de uma forma indelével nessa viagem (The Trip...), e a experiência dura por horas a fio, quase a completar um dia de duração, praticamente. Nessa circunstância, Paul vê-se em muitas cenas como se estivesse a interagir com estranhas situações, a vivenciar um sonho e em que muitos momentos, configura-se como um pesadelo. 
Ele interage com uma mulher seminua e belíssima, geralmente com o rosto e o corpo pintados com motivações psicodélicas e em outros momentos, em estilo afro em ambientação praiana, mas isso muda radicalmente ao bel prazer da viagem, logicamente, visto que ele vê-se em outras localidades e situações. Por exemplo, em uma espécie de mansão macabra, em meio a um grupo de pessoas sinistras, que sugere uma ação perpetrada por uma espécie de seita obscura a persegui-lo. Cabe observar que nessa parte mais sinistra da viagem de Paul, é óbvio que o diretor, Roger Corman foi para a sua chamada “zona de conforto”, ao trabalhar dentro da sua especialidade, que sempre foi predominantemente os filmes de terror. Nesses termos, cenas em ambientes tétricos a envolver masmorras, mediante forte ação da fumaça e vozes não identificadas a gargalhar de uma forma maquiavélica para assustar a personagem, mas sobretudo o espectador do filme, deixa isso bem claro. Até a morte de Paul é encenada com uma espécie de sacerdote a comandar membros dessa sugerida seita estranha, a conduzir o caixão para uma cerimônia fúnebre e muito estranha.
Fica claro que tal parte da viagem, a configurar-se como algo desagradável, denota a luta da personagem de Paul contra os seus “demônios interiores” e nesse sentido, os estranhos cavaleiros encapuzados que sempre estão a rondá-lo, sugerem isso fortemente e acima de tudo, tal suspeita confirma-se ao final, quando ao levantar os respectivos capuzes, revela-se que os tais cavaleiros são diversas mulheres com as quais Paul tivera envolvimento em sua vida, a começar por sua esposa, Sally. Fica então subliminarmente desvendada uma intenção psicanalítica no roteiro do filme e a justificar a tese, inclusive defendida pelo Dr. Timothy Leary na vida real, de que o LSD poderia vir a ser um agente terapêutico poderoso a auxiliar a psicanálise, no sentido de acessar compartimentos da psique humana, outrora inatingíveis.
Há um momento de volta à realidade, deveras interessante, quando Paul conversa com o terapeuta, John, a tecer muitas impressões sobre a sua experiência e na verdade, ele nem percebe que ainda está sob o forte efeito da droga. É claro que John sabe disso, mas há um momento de descontrole na monitoração e Paul, em meio à sua alucinação, fica agitado e vê John desfalecido, como parte da fantasia, e assim, sai para a rua. Em cenas noturnas, a parte mais psicodélica do filme acontece, com cenas editadas de uma forma frenética, para reforçar a ideia da alucinação a atingir o seu ápice. As cores explodem na tela, com as motivações psicodélicas a abundar. A música é magnífica nessas cenas, ora a sugerir o Rock psicodélico explícito, com toque Blues em alguns momentos, ora a sugerir o Jazz. 
Garotas a dançar seminuas, com os seus corpos pintados com motivações psicodélicas, cores em profusão vistas através de efeitos caleidoscópicos e fotos de personalidades completamente distintas da história, passam rapidamente, a sugerir registros de memórias dispersos contidas na mente de Paul e desconectadas entre si. 
Em algum momento, a consciência de Paul fica dividida entre a alucinação provocada pelo LSD e a realidade, quando por exemplo ele entra em uma casa de família a esmo e interage com uma menina pequena que inocentemente o trata como um amigo, mesmo sendo um adulto estranho e com comportamento adulterado dentro de uma residência alheia. A menina pede-lhe um copo de leite e ele a atende, como se fosse o seu pai e a seguir, senta-se com a pequena no sofá da sala de estar da residência para assistir TV, quando o pai da garotinha aparece e Paul percebe enfim que mesmo sem fazer nada ofensivo, está ali indevidamente e sai a correr. 
Em outra cena, ele entra em uma lavanderia coletiva e trava uma conversa bizarra com uma moça que está ali a esperar por suas roupas que estão a ser lavadas. Uma outra cena delirante, mostra Paul a circular com a companhia de um homem anão em um brinquedo ao estilo carrossel, de parque de diversão, enquanto, Marx (Dennis Hopper), verbaliza frases desconexas. Puro nonsense.
Enfim, Paul percebe que a polícia está a segui-lo e ele entra em uma casa noturna psicodélica, onde a ótima banda, Electric Flag, está a tocar e a loucura intensifica-se sobremaneira, a mostrar a psicodelia em cores e sonoridade máxima. Glenn o leva para a sua casa em uma bela praia californiana e ambos encerram a noite juntos. No dia seguinte, ao acordar, Glenn pergunta à Paul, qual foi a sua impressão definitiva sobre a sua primeira experiência com o uso da substância lisérgica e ele simplesmente responde-lhe que essa resposta ele só terá “amanhã”, a denotar que repetiria a experiência. Bem, dá-se um desconto pela euforia da época em enxergar os supostos benefícios e não mensurar os malefícios advindo pelo uso indiscriminado de uma droga tão poderosa, daí esse tipo de abordagem com tal teor, sem questionar, como hoje percebemos claramente, uma outra dimensão sob aspectos nocivos. 
O filme foi lançado em agosto de 1967, portanto a coincidir com o auge do chamado: “Summer of Love” (“o verão do amor”), considerado o grande clímax do movimento hippie e consequentemente a conquistar um interesse grande nas salas de cinema, tendo arrecadado muito bem em contraste ao fato de ter sido produzido com o orçamento modesto de um filme classe B. 
A crítica reagiu mal, à época, naturalmente. Falou-se basicamente sobre a trama ser inconsistente; os efeitos visuais exagerados e usados como mera muleta para encobrir uma história tão fraca. Nesse aspecto, eu penso que os críticos não foram injustos ou impiedosos como deles sempre espera-se tal tipo de comportamento desagradável, pois à luz da realidade, a história é realmente simplória e os efeitos chamam mais a atenção que o conflito em si. Faltou-lhes naturalmente a compreensão sob outros parâmetros culturais e neste caso em específico, contraculturais, pois se houvesse tal compreensão da parte deles sob tal ponto de vista, saberiam que a preocupação da parte de Roger Corman, Jack Nicholson e grande parte do elenco, que foi formado por atores engajados, foi passar ao máximo a ideia da experiência lisérgica, expressa em cores, sons e imagens completamente surreais a sugerir o acesso total do ser humano ao subconsciente. 
Nesse campo, os elementos oníricos são fortíssimos e as sensações amplificadas em níveis absurdos, daí a existência de tantas cores e sons em experiências psicodélicas, dada a sua profusão muito além da realidade normal corpórea que vivemos em nosso cotidiano. A intensidade das cores e dos sons torna-se enorme quando estimulada nesses termos e daí a necessidade de tentar passar a ideia. Entretanto, o inevitável ocorre, pois sem a indução proporcionada pela substância, a pessoa que vê tais imagens e ouve tais sons, não tem a mesma sensação, por isso, poder-se-á observar a opinião de pessoas que assistem manifestações desse aporte e as considerar profundamente entediantes. 
Creio portanto, que muitos críticos pensaram assim, notadamente jornalistas conservadores. Uma crítica que eu li quando pesquisei sobre o filme, levou mais para o lado cinematográfico, no entanto, ao afirmar que uma determinada cena, onde ocorre uma representação medieval do enterro de Paul, teria sido uma alusão ao filme: “O Sétimo Selo” (“Des Enjud Enseglet”, em sueco), obra elogiada do diretor, Ingmar Bergman. De fato, a figura de um sacerdote fantasmagórico lembra a representação da “morte”, personagem do filme de Bergman e a encenação toda, inclusive, lembra um pouco a atmosfera desse filme emblemático, ambientado na Idade Média. Daí a dizer ter sido essa a intenção deliberada da parte de Roger Corman, sinceramente eu não poderia afirmar com certeza, pois não encontrei nenhuma manifestação da parte dele nesse sentido. Se eu estiver enganado, portanto, que o leitor perdoe-me. Digo de antemão, que não descarto a hipótese, embora eu não tenha tal confirmação mediante pesquisa realizada e nem mesmo eu possuo essa impressão pessoal, mediante uma intuição particular minha. 
Em princípio, pareceu-me uma cena a evocar os temores internos da personagem de Paul em termos de traumas psicológicos advindos de suas neuroses e sob o ponto de vista cinematográfico, creio que foi uma inserção do estilo pessoal de Roger Corman como um especialista em filmes de terror, em uma brecha que o roteiro proporcionou-lhe, ao sugerir uma viagem ruim (bad trip), em forma de pesadelo e assim, nesses termos, Corman não fez-se de rogado, ao usar da sua especialidade como diretor de cinema. 
Independente das opiniões emitidas à época por críticos não simpatizantes da contracultura, o fato é que tal filme entrou para a história, mesmo que em seu bojo, seja considerado ingênuo nos dias atuais quando a consciência sobre o papel das drogas alucinógenas, mudou muito e enxerga-se muito mais os malefícios. No entanto, sob o ponto de vista histórico e artístico, é uma peça que tem a relevância assegurada, com certeza. 
 
No ponto onde o conceito em ser considerado como um Rock Movie, ficou patente, eu gosto muito da parte mais musical, ao mostrar e executar o som de artistas significativos da época e nesse quesito, o som é de primeira qualidade. Principalmente na parte mais acentuada da famosa viagem psicodélica da parte da personagem, Paul, quando a música mostra-se tão vital quanto os efeitos visuais a evocar a psicodelia total expressa na tela.
 
Outros atores participantes a ser citados: Barboura Morris (como Flo), Luana Anders (a garçonete), Dick Miller (este a tratar-se de um veterano ator com farta filmografia, inclusive dentro do gênero, Rock Movies, inclusive com algumas peças citadas neste livro. Em “The Trip”, ele interpretou a personagem: “Cash”), Judy Lang (como Nadine), Katherine Walsh (como Lulu) e outros.
Escrito por Jack Nicholson (com participação menor de Charles B. Griffith). Foi produzido e dirigido por Roger Corman. Lançado em 31 de agosto de 1967. Pelo teor do filme, as proibições foram inevitáveis, portanto, em muitos países foi exibido com cortes; sob forte controle de idade ou simplesmente proibido. Na TV, ficou muito restrito igualmente e apenas com a advento da TV a cabo, conteve mais exibições em canais mais específicos a abrir caminho para produções alternativas. Foi lançado em fita VHS, posteriormente em DVD e Blu-Ray. Na atualidade de 2019 (quando escrevi a resenha), encontra-se disponível com facilidade na Internet, através do portal YouTube, com a sua versão integral e gratuita pronta para ser acessada. 
 
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume III, com a sua leitura disponibilizada a partir da página 452

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Filme: Shine a Light - Por Luiz Domingues

Martin Scorsese é um diretor de cinema com grandeza inquestionável. The Rolling Stones é a maior banda de Rock do mundo, esse é outro fato irrefutável. O que poderia acontecer quando ambos unissem forças para trabalhar em conjunto? Pois é, uma explosão sonora e visual, certamente. Antes de avançar sobre a resenha, é preciso esclarecer que mais uma vez eu abri uma exceção ao arrolar um documentário neste rol, em contraste com o fato de que a proposta deste livro é comentar sobre filmes.*
Portanto, é óbvio que o ideal seria elaborar uma lista específica sobre tal modalidade, e assim, possivelmente lançar um livro específico para enfocar tal assunto, em separado. Entretanto eu considerei que algumas exceções seriam importantes em constar aqui e não por coincidência, esta em especial, é a segunda peça que extrapolou a condição de um documentário e assumiu outro patamar, para ser tratado como um filme, dada a sua luxuosa concepção, conteúdo e a conter a mesma assinatura, ou seja, da parte do diretor, Martin Scorsese.
Pois então, se Scorsese houvera transformado o último show da maravilhosa, “The Band”, em uma peça de arte, como ocorrera em “The Last Waltz”, certamente que tal documentário elevou-se a atingir a categoria de um filme. Scorsese a continuou lançar documentários fantásticos ligados ao Rock, Blues e Folk Music, ao longo dos nos subsequentes em que lançara “The Last Waltz”, e quando os anos dois mil já estavam em curso, eis que Scorsese anunciou um novo projeto de filmagem de show ao vivo, com uma banda de primeira grandeza, ninguém menos que: The Rolling Stones. Ao contrário do trabalho realizado com The Band em 1976, desta feita não tratou-se de um show de despedida dos Stones, portanto sem a carga emocional sentida em “The Last Waltz”, no entanto, certamente haveria de conter muita emoção ao envolver uma banda dessa magnitude gigantesca.
Bem, “Shine a Light” é uma canção magnífica, contida em álbum excepcional da discografia dos Rolling Stones, chamado: “Exile on Main Street”, que foi lançado em 1972. Considerado um dos melhores discos da sua carreira, é bom ressaltar que em uma carreira longeva e coroada por êxitos, abundam discos incríveis lançados por tal banda. Em meu caso, eu posso arrolar no mínimo dez discos espetaculares lançados por tal banda, e “Exile on Main Street” está contido em tal lista, sem dúvida alguma. 
Todavia, este filme não é temático sobre tal disco e tampouco sobre a canção citada, a revelar-se portanto, uma ideia pinçada em meio a um repertório gigantesco criado pela banda e a conter a rara felicidade de exprimir em uma simples frase, o que essa banda representa na história. Pois eis que “Brilhar a Luz” é o que The Rolling Stones faz de forma ininterrupta, desde 1962. Modismos passaram, concorrentes tão grandes quanto, tombaram pelo caminho, mas a luz dos Rolling Stones não parou de brilhar, por décadas.
Ficou mais do que justificável portanto a intenção de Scorsese em repetir o que já fizera com The Band e mais uma vez ele logrou êxito, pois “Shine a Light” elevou-se da condição de um simples documentário a mostrar o show de uma banda de Rock, para a categoria de um filme luxuoso. Não possui dramaturgia, mas não há problema, tem o élan de um Rock Movie.
Ao contrário do risco que correra em 1976, ao contar com um único show da The Band para filmar, “The Last Waltz” e assim desafiar o próprio azar em perder tudo, se alguma pane ocorresse, desta feita, Scorsese foi mais prudente e assim, a produção programou-se para filmar dois shows completos dos Rolling Stones no Beacon Theatre em Nova York, nos dias 29 de outubro e 1º de novembro de 2006. Tais shows foram encaixados especialmente dentro da turnê que eles realizavam na ocasião, chamada: “A Bigger Band”, especialmente para dar vazão às filmagens que Scorsese comandaria. Claro que a contar com apenas dois dias também não seria o ideal como margem de segurança para uma filmagem desse porte, entretanto, foi como já mencionei, tratou-se de uma situação mais confortável para Scorsese e a sua equipe de filmagem, sem dúvida alguma.
Sobre o Beacon Theatre, a sua capacidade anunciada para 2984 pessoas acomodadas, em três andares, obrigatoriamente ofertou à Scorsese, um padrão de filmagem intimista. Essa foi a ideia, deliberadamente e note-se que um show ser considerado como “intimista” em um teatro a conter quase três mil pessoas, é um conceito relativo e que pode ser medido pela grandeza do artista que ali apresenta-se, pois acostumados em tocar em estádios de futebol, na maior parte do tempo e nessas circunstâncias, para até cem mil pessoas na média, eis que um show realizado para cerca de três mil pessoas, no caso dos Rolling Stones, pode sim, ser considerado “intimista”. E mais um dado, o Beacon Theatre, fundado em 1929, é um charmoso teatro, portanto, a filmagem ali só poderia tornar-se visualmente muito bonita, por um questão natural.
O início do filme, mostra cenas bem funcionais, com Scorsese e os membros dos Rolling Stones a discutir detalhes sobre a filmagem. Nesse aspecto, é um privilégio ver Scorsese em ação a conversar com os seus produtores, e assim ser mostrado mesmo que rapidamente, como tantos detalhes são planejados para filmar-se um show ao vivo. O mesmo ocorre com os membros dos Rolling Stones, e neste caso, com Mick Jagger a assumir o controle dos interesses da banda. Então, isso significa que a banda não tem um empresário  a comandar uma equipe de produção para cuidar dos seus assuntos gerenciais? Pois é claro que existe e certamente que trata-se de uma equipe enorme a gerir cada detalhe da carreira da banda, incluso a ostentar tentáculos muito além da questão musical, com negócios e investimentos múltiplos a constituir uma máquina de gerar lucros e assim dar emprego para muita gente. No entanto, quem conhece mais a fundo a história dos Rolling Stones, sabe que Mick Jagger é um homem de negócios, vinte e quatro horas por dia e nada escapa ao seu crivo, no que concerne os negócios e a receita que a banda movimenta. Nesse aspecto, talvez desaponte algumas pessoas, ver Mick Jagger longe do palco a portar-se com uma seriedade além da conta e que beira o mau humor, no entanto, esse choque de realidade é interessante ao meu ver. 
E finalmente, acrescento que há um lado nessa movimentação de bastidores, que soa falso. Eu sei que eu afirmei acima, ser bonito ter o contato com os bastidores da produção e isso eu reafirmo como uma verdade. Todavia, é quase indisfarçável que tais cenas foram forçadas, como se todos os envolvidos houvessem interpretado tais situações a seguir um roteiro pré-estabelecido, sem espontaneidade, portanto. 
Sinceramente, eu creio que não importa se tal expediente possa ser considerado como um pecado a denegrir a imagem do filme, ou como algo perfeitamente suportável, a tratar-se de um ato inofensivo. E aliás, isso não é algo confesso, mas apenas um desconfiança que que foi cogitada por muitas pessoas e eu incluo-me nesse rol, pois eu também acho que foi uma sequência de cenas armadas para parecer naturais, contudo, teriam sido combinadas e eu não usaria o termo, dramaturgia, pois ninguém li envolvido era ator, apesar de Mick Jagger ter protagonizado alguns filmes em sua vida, a atuar como ator improvisado (e não despontou em tais atuações, é bom frisar).  
Outro aspecto que precede o show e mostra um lado social e formal que todo artista que chega em um patamar de grandeza enorme, caso dos Rolling Stones, tem que enfrentar praticamente de uma maneira obrigatória, é revelado quando a banda precisa receber em reservado, o então, ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, acompanhado de sua esposa, a então senadora, Hilary Clinton e familiares. É engraçada uma cena onde os membros dos Rolling Stones são mostrados perfilados a cumprimentar a comitiva de Clinton, a incluir pessoas idosas e crianças. Contabilize-se também que por uma contingência da agenda de um ex-presidente, estava presente nessa ocasião, o ex-presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski e comitiva, portanto, a configurar um tipo de obrigação muito comum para artistas desse porte, em manter contato social com autoridades máximas de várias nações, o tempo todo como uma praxe. Bem, no caso de Bill Clinton, houve uma boa justificativa para a sua presença ali no evento, visto que as duas apresentações foram monetizadas em benefício de sua fundação em prol da caridade e por isso, ele em pessoa apresentou a banda no início do show, como um mestre de cerimônia. do evento.
Bem, eis que o show começa e toda a grandiosidade de um típico show dos Rolling Stones, nestes tempos mais modernos, é apresentada. É óbvio que a banda não possuía mais o élan criativo de outrora e isso faz muito tempo, aliás. Entretanto, a banda sempre soa bem, e não importa o avançar do tempo, pois os seus componentes estão sempre em forma impecável e claro, com a presença muito boa de diversos músicos de apoio, alguns com história, inclusive, no âmbito particular, caso do baixista, Darryl Jones, considerado um virtuose, mas que em sua participação como músico contratado dos Stones (desde que o baixista original da banda, Bill Wyman, deixou a banda em 1993), respeita inteiramente os arranjos originais das canções e não exagera em sua performance, o ótimo tecladista, Chuck Leavell, que foi componente do The Allman Brothers Band por um bom tempo e o hoje saudoso, Bob Keys, saxofonista sensacional e que tocou com muitos astros do Rock sessenta-setentista e com os Rolling Stones em específico, Bob tocou por décadas como convidado em discos e turnês. Sim, o famoso solo da canção, “Brown Sugar”, do LP “Sticky Fingers”, de 1971, foi feito pelo grande, Bob, que deixou-nos infelizmente, em 2014.  
Bem, o que se mostra encantador neste filme, foi o apuro nas imagens, áudio e enquadramentos. Toda a planificação que Scorsese desejou ter usado em “The Last Waltz”, no ano de 1976, e não conseguiu realizar a contento nesse outro filme, ele finalmente colocou em prática, dessa feita. Isso inclusive faz parte das conversações travadas ao início, quando Scorsese é mostrado a perguntar sobre cada música do set list que será executada, pois a sua meta seria direcionar as câmeras para capturar o início de cada riff, principalmente quando iniciadas pelas guitarras de Keith Richards e Ron Wood. Então, o que se observa ao longo do filme, é um trabalho não apenas de captura bastante minucioso, mas sobretudo, uma edição caprichadíssima, pois todas as nuances musicais foram detalhadas de um forma magnífica. Chega a ser impressionante em alguns instantes, ver e ouvir com uma nitidez impressionante, os diferentes arranjos combinados entre os dois guitarristas, como raramente isso é observado em qualquer outra filmagem de um show ao vivo. Em alguns momentos, chega a ser algo tão gritante, que dá a impressão para o espectador mais atento e que seja músico, que esteja a ocorrer uma sessão de audição de estúdio em trabalho de decupagem, para ouvir-se cada instrumento separadamente (“solado“, no bordão usado por músicos e técnicos em estúdio de gravação).
Isso sem contar flagrantes sensacionais sobre a performance em si. O baterista, Charlie Watts a recuperar o fôlego, após o término de uma canção com andamento acelerado, é algo a ser exaltado como um exemplo de humanização total de um ídolo. E claro, a figura inacreditável de Mick Jagger, que tem um domínio de palco absurdo, além de possuir um grau de carisma perante o público, que é algo muito sério, talvez a designá-lo como um “encantador de serpentes”, no bom sentido da expressão, pois o seu poder de comando é total. É uma filmagem maravilhosa, portanto, em todos os quesitos técnicos imagináveis, tanto pelo aspecto da cinematografia comandada por Scorsese, quanto pela performance impecável da parte dos Rolling Stones.
Ao final, quando todos os participantes cumprimentam o público e isso envolve a banda, músicos de apoio e os artistas convidados para o show, eis que em última instância, a banda, reduzida a um quarteto, desde 1993, conforme já afirmei, fica no palco para receber a sua ovação particular e quando os componentes saem, a câmera acompanha os movimentos, principalmente no encalço de Mick Jagger e com Scorsese a aparecer na direção do seu cinegrafista, mostra-se a rua e a seguir, a cena torna-se aérea, ao ponto de mostrar a ilha de Manhattan do alto, sob uma linda visão noturna. Uma tomada sensacional, para encerrar com requinte um filme luxuoso.
Cabe destacar os convidados especiais, então. O guitarrista, Jack White, da então famosa banda dos anos zero do novo milênio, “White Stripes”, entra no palco e canta a bela balada, “Loving Cup” com a banda. A sua performance é boa e a emoção de sua parte, é cativante e não parece falsa para angariar simpatia calculada. Fica a impressão portanto, que ele realmente emocionou-se por estar a cantar com os Rolling Stones e sobretudo por fazer dueto vocal com Mick Jagger e a mirar-lhe em seus olhos.
Buddy Guy o velho mestre do Blues, entrou com uma postura firme, porém bastante simpática para defender um blues de raiz, a constituir-se de: “Champagne & Reefer”, um clássico composto por Muddy Waters. 
E finalmente, a cantora Pop, Christina Aguilera, teve uma performance exemplar ao cantar com Jagger, o ótimo Rock, “Live With Me”, uma peça dos Rolling Stones, oriunda dos anos sessenta, ou seja da época em que a banda estava sob explosão criativa total. Tal cantora, por ter uma carreira Pop e muito longe do espectro do Rock, geralmente é desprezada pelos Rockers em geral, mas o fato foi que ela possui (ou possuía, pelo menos), uma garganta privilegiada, pois cantou com muita desenvoltura e assim demonstrou que teria potencial para ser uma cantora sensacional no espectro do Rock, Blues e Soul Music, se dessa forma o desejasse, mas a sua carreira caminhou para um outro lado. Bem, é curioso, mas o então bem cotado com o “hype” daquele instante, a saudá-lo como a pretensa “salvação do Rock”, para a virada do milênio, o senhor Jack White, ficou muito aquém da performance de Christina Aguilera, que rasgou a voz como se fosse Tina Turner em seus melhores dias e como se não bastasse a voz e a performance de palco sensacional, hoje em dia (2019), nem tanto, mas na imagem de 2006, que impregnou-se nesse celuloide, essa moça estava com uma beleza feminina deslumbrante.
Destaca-se também que intercalado aos shows, imagens de entrevistas e shows dos Stones ao longo dos anos sessenta e setenta, principalmente, mas também da década de oitenta, são inseridas. Na edição, privilegiou-se trechos de entrevistas engraçadas com os componentes a declarar certas posições que através da passagem do tempo, tornaram-se ridículas, como por exemplo, Mick Jagger na metade dos anos sessenta, ao ser questionado sobre quanto tempo o sucesso da banda duraria, ter vaticinado um prazo mínimo, completamente desconectado com a realidade construída a posteriori. É bonito também, ver algumas imagens de shows antigos, com as presenças do baixista, Bill Wyman, que deixou a banda em 1993, e sobretudo do saudoso guitarrista, Brian Jones, falecido em 1969. 
Sobre o repertório, os Rolling Stones, pelo volume da obra, dada a sua longevidade artística e genialidade exibida desde sempre, sob o ponto de vista criativo, construiu um repertório monstruoso e recheado por sucessos. Então, já faz décadas que as suas turnês são montadas com um esqueleto básico de canções que repetem-se obrigatoriamente em todo show, porém a conter uma margem calculada para mudanças estratégicas de um show para o outro, Por conta desse dispositivo, a turnê é montada com um repertório enorme a privilegiar músicas de vários álbuns e fases da banda. Assim, o público sempre tem uma boa surpresa, que é exclusiva para aquele show em específico e quem assiste mais de um show da mesma turnê, sabe da existência desse expediente e comemora tal iniciativa. Eu mesmo já tive o prazer em passar por tal experiência, em passagens da banda pela minha cidade, São Paulo, nos anos noventa e foi muito prazeroso receber a boa surpresa de haver a execução de músicas diferentes de um dia para o outro e algumas, a revelar-se muito surpreendentes, inclusive, extraídas de discos não tão óbvios da discografia da banda. 
No caso deste filme, o set list contou com: Jumpin Jack Flash, Shattered, She Was Hot, All Down The Line, Loving Cup, As Tears Go By, Some Girls, Just My Imagination, Far Away Eyes, Champagne & Reefer, Tumbling Dice, You Got The Silver, Connection (surpresa boa, direto de 1967!), Sympathy For the Devil; Live With Me, Start me Up e Satisfaction.
A canção, “Shine a Light” é executada, mas como apoio em background a conter a sua versão de estúdio. Casos também de “Wild Horses” (em uma versão acústica) e “Only Found Out Yesterday”. Na versão em DVD, algumas canções tocadas ao vivo foram inclusas, casos de “Undercover of The Night”, “Paint in Black”, Little T&A (She’s my Litle Rock’n’ Roll) e “I’m Free”.  
Em suma, se o leitor não assistiu, fica a minha recomendação, pois a despeito de não ser uma captura dos Rolling Stones em seu melhor momento artístico observado durante as décadas de sessenta e setenta, mostra a banda sob uma grande performance, e neste caso, talvez os Stones sejam um dos únicos artistas conhecidos como “dinossauros” que não abalam-se nunca com a passagem do tempo, pelo menos em termos de shows ao vivo. Some-se a isso um trabalho visual primoroso, assinado por um cineasta do quilate de Martin Scorsese, que acima de tudo, adora o vintage Rock,  portanto a constituir-se de um grande filme. A crítica elogiou bastante quando do lançamento oficial em 2008 e de fato, não há como tecer algum comentário ruim.  
Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood na formação oficial dos Rolling Stones. Os músicos de apoio: Darryl Jones, Bob Keys, Chuck Leavell, Lisa Fischer, Blondie Chaplin, Bernard Fowler, Tim Ries, Kent Smith e Michael Davis. Os artistas convidados: Jack White, Buddy Guy e Christina Aguilera.
Um aviso aparece ao final do filme, para explicar que essa obra fora dedicada a um senhor chamado: Ahmet Ertegün. Talvez o grande público não saiba, mas este homem que nasceu na Turquia, como sugere a grafia e sonoridade de seu nome, foi o fundador da lendária gravadora Atlantis, que tantos artistas importantíssimos na história do Rock e da Black Music, lançou, o Led Zeppelin, entre tantos, só para citar um nome de peso, além de ter trabalhado com os Rolling Stones, sendo muito próximo de seus componentes. Pois nesta ocasião da filmagem ele esteve presente na audiência, no alto de seus então, 83 anos de idade. Nesse dia de uma das filmagens (29 de outubro de 2006), ele sofreu um acidente nas dependências do teatro, por tropeçar e bater a cabeça com força no chão. Levado às pressas para um hospital, entrou em coma e veio a falecer em dezembro do mesmo ano. Um dado a mais, apaixonado por futebol, foi esse senhor que montou o time do Cosmos de Nova York nos anos setenta e contratou diversos jogadores internacionais de renome para reforçar o time, incluso: Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia, Johan Neeskens e os brasileiros, Pelé e Carlos Alberto Torres, entre outros. Que descanse em paz esse grande empreendedor no campo da música e também do esporte.
Produção por Steve Bing e Michael Cohl. Direção de Martin Scorsese. Lançado em abril de 2008. O filme estreou no Festival de cinema de Berlim. Já foi exibido muitas vezes na TV, sobretudo na TV a cabo, e geralmente a marcar mostras sobre o Rock em geral, Rolling Stones em específico e também sobre a filmografia de Martin Scorsese. Na Internet, somente em versão paga, tanto no YouTube, quanto Google Play. No portal da Netflix, não encontra-se mais, mas em compensação, um documentário mais moderno sobre os Rolling Stones, denominado: “Crossfire Hurricane”, está em plena exibição neste portal (ao me referir ao ano de 2019, bem entendido) 
*A referir-me ao livro que lancei em 2020
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 441