segunda-feira, 15 de junho de 2026

Filme: Rainbow Bridge - Por Luiz Domingues

Este filme entrou para o imaginário dos Rockers, Freaks & Hippies, mas sobretudo entre os fãs do guitarrista norte-americano, Jimi Hendrix, como uma peça importante a registrar um momento da história desse artista, do Rock e da contracultura, no entanto, mesmo que haja em seu bojo, alguns pontos positivos, no cômputo geral é uma obra que foi construída em torno de um improviso muito grande, a denotar amadorismo sob o ponto de vista cinematográfico e igualmente por demonstrar muitos equívocos no âmbito em torno de uma visão cultural mais ampla, ou melhor, contracultural. Em certos aspectos, tal precariedade estrutural e sobretudo em termos de um roteiro confuso (isso na melhor das hipóteses, pois na prática, mais revela a ausência de um roteiro minimamente organizado), serviu como uma espécie de "antipropaganda" do ideário hippie. 
É possível até comparar-se com um filme brasileiro em moldes semelhantes, chamado, “Geração Bendita”, se bem que no caso da película tupiniquim, o nível apresentado (pasmem!), é muitíssimo pior, e assim, não posso chegar a outra conclusão. E além do mais, “Geração Bendita” não contém uma performance ao vivo de Jimi Hendrix, portanto, precariedade à parte, “Rainbow Bridge” é muito melhor. 
Bem, este filme foi um tentativa livre de improvisar uma história muito simples, a envolver apenas uma personagem solitária e através da sua percepção, traçar um painel sobre o que envolvia o imaginário da juventude Hippie na América do Norte, capturado no momento de 1970. 
Portanto, ao melhor estilo: “uma ideia na cabeça e um câmera na mão”, a intenção foi essa, literalmente, em acompanhar a andança dessa moça, cuja personagem nem mesmo recebeu um nome na ficção, interpretada por Pat Hartley. Registre-se que não há nenhuma influência detectável em termos de Nouvelle Vague francesa neste película, portanto, a citação que eu fiz a sugerir um estilo a la Jean-Luc Godard, foi uma mera lembrança a esmo de minha parte. 
Pat, a protagonista, trabalha como uma modelo, supostamente, e que vive em Nova York, mas está em San Diego, na Califórnia, apenas em trânsito, pois o seu objetivo é sair dali para Maui, Havaí, onde deseja visitar um centro místico envolvido com meditação e outras práticas místicas. É nesse aspecto que o filme tenta justificar o seu mote, pois, tudo gira em torno das andanças dessa moça, a mostrar as pessoas que ela encontra pelo caminho e também as situações onde insere-se. 
 
Nesses termos, a garota encontra pelas ruas, muitos Hippies, Freaks e uma gama de pessoas comuns que reagem com a esperada estupefação sobre tal movimentação da parte de pessoas que propunham-se a adotar um tipo de modo de vida bastante alternativo, muito diferente de seu espectro normal, ditado por valores conservadores. Nesses termos, são muitas cenas a acompanhar a trajetória andança dessa moça em meio a tal viagem que realiza, por diversos logradouros públicos, onde ela passeia a bordo do transporte público e bastante a pé, para interagir com uma indisfarçável alegria, que é mostrada em seu semblante. 
Tal energia, que é visível por emanar de sua pessoa, talvez seja a grande chave a explicar a intenção dos produtores deste filme, ao resolver produzi-lo. Explico: pois foi em torno dessa sutil euforia que estava impregnada no ar, que os responsáveis por este filme possivelmente entusiasmaram-se em produzir tal obra, no afã de passar ao público essa realidade que existiu naqueles últimos anos da década de sessenta e início dos anos posteriores, a formar-se a década de setenta. Tal tentativa para eternizar em celuloide tal modo de vida libertária da parte das pessoas que realizaram de fato o “Drop Out”, foi certamente válido e nobre, eu diria, enquanto empreendimento cultural para preservar fatos históricos, portanto de inteiro interesse da humanidade, no sentido mais amplo e ousado dessa premissa. 
 
No entanto, se a intenção do filme foi ótima enquanto mote, na prática, por conta dos seus equívocos gerenciais, o resultado deixou a desejar por muitos aspectos, e inclusive em seu aspecto mais sutil ao desejar mostrar a euforia inerente ao movimento Hippie em prol em propor-se um modo de vida alternativo, desassociado do grande sistema opressor em torno da sociedade de consumo. 
Nesses termos, a personagem vê-se em meio a uma série de pessoas que nem sempre mostram a tal euforia natural que impregnara-se no ar tal qual uma polinização, e a concatenar a mesma percepção do movimento, e assim, o seu comportamento e mentalidade trata por depor contra os nobres ideais filosóficos em torno dessas ideias libertárias e assim, com o perdão pelo clichê, portam-se com libertinagem, na busca efêmera pelos prazeres hedonistas. 
 
Bem, esse foi um dos deméritos a explicar a derrocada dos ideais, certamente, contudo, é patente neste filme que a intenção não foi fazer esse contraponto, como se fosse uma peça documental com cunho jornalístico a dar espaço para o contraditório. Neste caso, é bem óbvio que tratou-se de uma filmagem feita em aberto, sem um roteiro pré-estabelecido, portanto, apenas preocupado em seguir a personagem livremente e capturar o que ocorresse ao seu redor.
É nessa predisposição (em que pese a alegria estampada no rosto da moça, ao deparar-se com todos os tipos de freaks), que as cenas mostradas contém falas desconexas com citações esotéricas e ufológicas proferidas a esmo por muitos desses participantes. Sim, tais tópicos eram ícones culturais importantes no espectro de muitos hippies, mas como são mostrados, sem nenhuma seriedade ou profundidade, apenas reforça os preconceitos todos estimulados pelos detratores, ao jogar o movimento na vala comum em torno da ideia de ter sido apenas formado por um grupamento de drogados a esmo. 
Bem, nem todas as falas foram tresloucadas, houve interessantes cenas a mostrar grupo com freaks a praticar meditação e Tai Chi Chuan em meio a natureza e isso é bastante salutar, assim como muitas cenas a exibir jovens a praticar esportes, o surf em predomínio, afinal de contas, a natureza de Maui foi propícia, assim como as caminhadas em meio a bosques, e em ambientes vulcânicos.
E o melhor do filme ocorre, quando os jovens são mostrados a caminhar para uma ambientação em campo aberto e ali vai ocorrer um show de Jimi Hendrix. Ora, que sensacional, toda a precariedade em torno da ausência de uma história consistente, haveria por ser redimida com tal apresentação. Todavia, isso não cumpriu-se em cem por cento e eu comentarei a seguir.
 
É preciso esclarecer de antemão, que o próprio, Hendrix, relutou bastante em participar do filme. Consta que nessa época ele estava bastante incomodado com o rumo de sua carreira e não animara-se nem um pouco com o projeto. A ideia inicial seria contar com as músicas de Hendrix apenas para compor a trilha sonora, mas no calor dos acontecimentos, a predisposição inicial evoluiu para que houvesse a filmagem de um show ao vivo com ele, Jimi Hendrix (e a sua banda, “Experience”, naturalmente), porém tudo foi muito nebuloso nessa produção, pois o improviso para montar-se tal cena a simular um festival, foi total. 
 
O que verifica na tela é uma ambientação muito bonita em termos de natureza, isso é um fato, mas o palco montado é simples ao extremo e pequeno para abrigar um show da dimensão de uma estrela desse porte. E o equipamento disponibilizado, mostrou-se apenas razoável, mas deu para cumprir o mínimo necessário. Antes da apresentação de Jimi Hendrix, houve a performance de um trio Folk Rock, com um rapaz a tocar violão e duas moças. Esse trio vocal não é mencionado na ficha técnica, mas o seu som mostra-se bem agradável. Quase não há imagens dos três jovens freaks em ação no palco, a não ser ao final da canção, muito rapidamente, portanto, o áudio dessa performance apenas serve como “bg” para ilustrar as imagens das pessoas a aproximar-se do local do show. Um grupo de adeptos da seita indiana, “Hare Krishna” também comandou a entonação do mantra, “Aum”, alguns momentos antes do show.
Sobre a performance de Jimi Hendrix, a despeito de ser de fato a melhor parte de um filme tão caótico, nem assim é algo para ser comemorado, exatamente. A performance de Hendrix, a tocar com o grande baterista, Mitch Mitchell e o bom baixista, Billy Cox, não é ruim, aliás, pode ser considerada boa. No entanto, por falta de uma melhor estrutura profissional, alguns fatores pesaram muito para tornar tal filmagem, precária: o fato cabal de ter sido uma apresentação única, revelou-se uma temeridade, visto que qualquer falha que ocorresse, do artista ou da equipe de filmagem, inviabilizaria o material de pronto, visto que sem outras opções de filmagem, inexistiria a possibilidade para se montar as melhores performances para cada música. 
Além disso tudo, por uma questão de economia, a filmagem desse show foi feita com a luz do dia, para economizar-se com a questão da iluminação do show e também da filmagem em apoio, no entanto, mesmo assim, o bom senso em uma filmagem, manda usar-se sim um equipamento de iluminação adequado para a luz do dia, com rebatedores de luz; uso de filtros especiais e tudo mais, portanto, a impressão que fica, é a de uma filmagem amadora, ao estilo de uma filmagem caseira de um piquenique familiar com a fotografia opaca por falta de melhores recursos.    
 
Sobre a performance de Hendrix, apesar dessa apresentação ter ocorrido no dia 30 de julho de 1970, ou seja, menos de dois meses antes de seu falecimento, para quem o viu ali no calor do show e da filmagem, e não o conhecesse pessoalmente, não poderia imaginar que a sua saúde estava fragilizada por conta dos seus excessos cometidos em relação ao consumo de drogas. No filme, ele parece em boa forma e sua performance é muito boa, dentro da normalidade com a qual sempre atuou.
O mesmo ocorre com os seus companheiros, com Mitch Mitchell sempre a apresentar-se daquela forma exuberante e Billy Cox, embora fosse um bom músico, a mostrar-se comedido em sua performance cênica, mas dentro da normalidade, visto que ele nunca teve uma postura Rocker, exatamente. Na parte musical, o som do seu baixo Fender Jazz Bass, soa muito bem, a deixar a impressão que ali no palco devia estar com peso e timbre, incríveis, mas graças aos problemas verificados no áudio que foi colocado no filme, a sonoridade não é das melhores.
Por conta desses problemas técnicos apresentados, é uma grande pena, mas o show de Jimi Hendrix só contém dezessete minutos de duração e pior ainda, com todas as músicas cortadas na edição, pois foi a única solução encontrada para viabilizar as imagens do show neste filme. Em suma, se toda a publicidade do filme foi calculada para valorizar-se a presença de Jimi Hendrix como atração máxima, desaponta assistir um show tão curto e totalmente picotado pela edição. Paciência, foi o que ocorreu e dadas as circunstâncias dramáticas que ocorreram cerca de cinquenta dias depois da filmagem ter sido feita, tornou-se um documento importante da carreira de Jimi Hendrix e da história do Rock sessentista.
Outro dado a desabonar esta obra, deu-se em relação à sua trilha sonora. Quando o LP saiu, em cerca de outubro de 1971, Hendrix já havia nos deixado há mais de um ano (ele falecera em setembro de 1970), e este álbum não contém a performance ao vivo mostrada no filme, mas trata-se na verdade de uma coletânea montada com performances de estúdio, gravadas como Jam-session em sessões ocorridas entre 1968 e 1970. Tais canções foram usadas como BG no filme, é bem verdade, mas mesmo assim, a grosso modo tratou-se de uma picaretagem tremenda, em tese, da parte da gravadora. 
 
A despeito do embuste duplo, perpetrado por conta da gravadora e da produção do filme, os fãs não reclamaram, pois ainda em meio à comoção recente causada pela perda do astro, um disco com material gravado em estúdio e a revelar jam-sessions tornou-se um adendo à discografia para os colecionadores. Mas que fique bem claro, o disco com a trilha sonora do filme, não tem nada a ver com as músicas tocadas ao vivo na película, ou seja, foi uma atitude tresloucada da parte de quem autorizou essa falcatrua fonográfica.
 
Em sua estreia no cinema, em outubro de 1971, a metragem do filme foi em torno de cento e vinte e três minutos de duração. Quando o filme saiu em outras versões, foi reduzido para um pouco além dos sessenta minutos. Há versões alternativas portanto, que correm, como piratas no mercado, a conter metragens diferentes. A diferença na metragem maior é que contém mais músicas do show de Hendrix, no entanto, na mesma disposição em picotar-se as performances, a evitar exibir-se as falhas. E mais cenas dispersas da personagem de Pat a interagir com toda a sorte de malucos, no bom e mau sentido do termo, por todos os cantos.
Sobre as canções de Hendrix, no show que aparece no filme, são executadas as músicas: “Hey, Baby”, “In From The Storm”, “Foxy Lady”, “Hear My Train a Comin”, “Voodoo Chile” (Slight Return), “Purple Haze” e “Star Splangled Banner”. Como material usado como BG ao longo do filme, acrescenta-se: “Ezy Rider”, “Dolly Dagger”, “Bleeding Heart”, “Pali Gap”, “Look Over Younder”, “Room Full of Mirrors”, ou seja, o material oriundo de jam-sessions gravadas em estúdio, entre 1968 e 1970, com exceção da versão de “Hear Me a Train Coming”, não do filme, mas do LP, que foi retirada de um show ao vivo gravado em maio de 1970, no teatro da Universidade da Califórnia, Berkeley. Algumas fotos dessa performance ao vivo em Maui para a filmagem do filme, foram usadas logo a seguir para ilustrar a capa interna do LP “Cry of Love”, que Jimi Hendrix gravava em 1970, e que ele não chegou a ver lançado, pois o disco somente saiu para a venda em março de 1971, a mostrar-se póstumo.
 
Por falar nisso, Jimi Hendrix não chegou a assistir o filme montado, igualmente, visto que veio a falecer em 18 de setembro de 1970, e o filme apenas ficou pronto em meados de 1971, para ser lançado em outubro do referido ano. Por uma ironia do destino, esta performance em Maui, foi o seu antepenúltimo show em vida, pois dessa data de 30 de julho de 1970, quando filmou o show para compor o filme “Rainbow Bridge”, em diante, ele cumpriu mais um show na América e o derradeiro aconteceu no festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, poucos dias antes de passar mal e falecer em Londres.
Ainda a destacar-se, há o uso e abuso de lentes e filtros a buscar distorções e também a visar proporcionar o estouro das cores, e assim potencializar o efeito psicodélico de algumas cenas. Talvez seja essa pirotecnia cinematográfica a sua ação em termos de maior acerto, visto que no cômputo geral, o filme mostra-se extremamente pobre como peça cinematográfica. Ainda a falar sobre a ação, destacam-se muitas ocorrências que soam até engraçadas, em face do seu caráter bizarro, como por exemplo a presença de adeptos da ufologia que afirmam ser venusianos, ou seja, seres oriundos do planeta Vênus, segundo acreditavam no auge de seu delírio, mas tudo perfeitamente compreensível, se pensarmos no tipo de substâncias alucinógenas bastante apreciadas por tais pessoas nessa ocasião.
Há a observação da natureza, que é incrível, mas também exótica, principalmente no tocante aos fortes ventos, um fenômeno normal naquela ilha do oceano Pacífico. Tanto foi assim, que a personagem de Pat, é mostrada quase a flutuar em determinadas cenas, quando na companhia de um freak, ambos lutam para não ser carregados pela ventania. Isso também observa-se durante o show de Hendrix, visto que os microfones usados estão revestidos com grossas camadas de espuma, para tentar inibir os ruídos inerentes da ação do vento. O local que Pat visita em Maui, chamou-se: Ocult Research Meditation Center, que na prática, fica dúbio se realmente existiu ou foi inventado como uma fantasia para o filme, pois não há registro oficial de sua existência nos dias atuais. Portanto, se existiu na realidade, foi algo muito obscuro, ao ponto de não ter sido registrado oficialmente.
 
Há uma crítica ao governo Nixon, embutida, mas sutil, quando em cenas rápidas, são mostradas barracas a vender drogas e em uma delas exibe-se uma placa de identificação onde lê-se: “Nixon Point”. E também em uma cena em San Diego, quando Pat vê-se perto de um grupo de recrutas alistados pelo exército para servir na guerra do Vietnã, a receber instruções duras da parte de um sargento e ao invés de ouvir-se a sua voz de comando, escuta-se latidos. E mais uma ocorrência truculenta, ocorre em uma abordagem policial bastante agressiva pela qual Pat é submetida e em decorrência dessa arbitrariedade, ela é presa, mas logo a seguir, vê-se a personagem a deixar as dependências da delegacia, sob a luz do dia, a denotar que dormira no cárcere. 
Fora disso, não tem mais nada em termos de protestos, mas pelo contrário, apenas cenas a conter ações em torno de esportes em meio à natureza e muitos rituais orientais em tom de espiritualidade, seja em sessões coletivas de meditação, a entoar-se mantras ou com jovens freaks a reunir-se na esperança de manter algum tipo de contato ufológico. Claro, a personagem, Pat é vista na plateia a dançar durante a apresentação de Jimi Hendrix, no entanto, ela não interage com o guitarrista ou com a sua banda, em momento algum.
 
É óbvio que a crítica conservadora atacou com todas as suas forças tal obra. Chega a ser engraçado, no entanto, a beligerante verbalização cometida em alguns casos. Um crítico afirmou: -“é um filme tão viciado, pseudomístico e a conter hippies narcisistas, que a única esperança para salvá-lo do desastre total, foi inserir Jimi Hendrix em seu bojo”. Ora, a despeito de todo o veneno conservador contido em sua observação, eu não posso deixar de concordar com ele, sob uma análise técnica e honesta. Um outro jornalista disse: -“uma peça a vomitar um ridículo balbuciar sob a ação de ácido lisérgico, pseudomístico e descompromissado com a verdade”. Infelizmente, preconceitos a parte, esse rapaz também não errou em sua avaliação. Outro pegou ainda mais pesado, ao acusar o diretor do filme de “explorar o cadáver de Jimi Hendrix para salvar o seu bolso”. E mais uma vez, não posso achar que a opinião desse jornalista, tenha sido descabida.
Sobre mais pessoas relacionadas como parte do elenco, creio que não valha a pena arrolar tais nomes, pois tratou-se de pessoas comuns e não atores a participar e principalmente pelo fato de que tais pessoas não atuaram, mas apenas interagiram como pessoas comuns em um documentário ou em reportagens jornalísticas de rua. Roteiro de Charles Bacis e neste caso, eu tenho curiosidade de ler o seu manuscrito com tal roteiro em forma de rascunho ou a página datilografada, que passou a limpo e que receio, não deve ter chegado à metade de uma folha sulfite, dada a insipidez do seu trabalho. Produção de Michael Jeffery e Barry De Prendergast. Direção de Chuck Wein. Lançado em outubro de 1971.
No cinema, ficou restrito ao circuito de cineclubes e pequenas salas a exibir filmes alternativos. Na TV aberta, as exibições foram poucas e escondidas em sessões exibidas às madrugadas, ao estilo “Sessão Coruja”. Na TV a cabo, foi exibido apenas muito sazonalmente, via mostras sobre Jimi Hendrix, algo muito específico. Saiu em VHS e DVD e aí existe uma confusão, sobre qual versão, a super editada com pouco mais de uma hora de duração ou a mais robusta, com cerca de cento e vinte minutos. Na Internet, por incrível que pareça, é difícil achar-se tal peça em uma versão na íntegra e gratuita. No YouTube, há fragmentos disponíveis, apenas, portanto, o leitor interessado que ainda não assistiu, deverá gastar um certo tempo para pesquisar em portais alternativos. 
 
Esta resenha foi preparada para compor o livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a sua leitura está disponibilizada a partir da página 419.

sábado, 30 de maio de 2026

Filme: The Last Waltz (O Último Concerto de Rock) - Por Luiz Domingues

Em tese, esta resenha não caberia neste livro *, por não ser exatamente o caso de um Rock Movie, portanto, assim como muitos outros trabalhos excelentes que eu aprecio muito, caberia mais adequadamente em outro tipo de enfoque, ou seja, se fosse arrolado como um documentário ou mesmo como um exemplo de filmagem de um show ao vivo, pura e simplesmente. Talvez no futuro eu invista em um livro nesses moldes e de fato, a quantidade de documentários importantes é impressionante na história do Rock e se o leque abrir-se a abranger outras vertentes correlatas e a contracultura de uma forma ampla, torna-se um volume gigantesco a justificar uma enciclopédia, praticamente. No entanto, embora esteja justificada a ressalva, eis que eu relaciono esta obra neste livro*, como um Rock Movie, por conta de haver um élan nesse sentido.
O primeiro ponto a corroborar tal tese, é o fato de que esse projeto foi assinado por um diretor de cinema a ostentar uma grandeza dentro do panorama cinematográfico norte-americano, mas certamente também sob âmbito mundial, a tratar-se de Martin Scorsese. Esse ítalo-americano construiu ao longo dos anos uma prestigiada cinematografia irretocável e também notabilizou-se por envolver-se diretamente com a música, por conta dos inúmeros trabalhos em que trabalhou em termos de documentários, filmagens de shows ao vivo e até cinebiografias, isso sem contar ter coordenado o ousado e muito bonito trabalho em torno do projeto: “The Blues”, uma obra múltipla a conter diversos filmes, lançados como um pacote a narrar a história do Blues, desde as suas raízes africanas, na visão de diversos diretores importantes por ele convidados, incluso com um dos filmes naturalmente sob a sua direção. Falo tudo isso a envolver o que ele já havia feito antes e depois do lançamento de “The Last Waltz”, naturalmente.
O segundo ponto, foi que apesar de ser em tese um show filmado em data única desta banda maravilhosa, chamada, “The Band”, e a ser intercalado com pequenas entrevistas que Scorsese conduziu com os seus componentes, portanto a caracterizar a película praticamente como a um documentário, a aura adquirida pelas circunstâncias, tornou esta peça algo mais que um documentário, pois a sua resolução ficou luxuosa pela abordagem e a carga emocional que adquiriu, sobreveio para conferir-lhe um outro patamar, certamente.
 
Esclarecido esse ponto inicial sobre esta obra poder ser considerada um filme e não um documentário (em termos românticos, eu sei, pois não se trata de um critério técnico aceitável, em tese), é preciso agora falar um pouco sobre as circunstâncias que envolveram tal empreendimento. A questão, é que este concerto da “The Band”, marcou a sua despedida dos palcos, visto que a banda anunciara o término das suas atividades, daí o show em si e a sua filmagem por conseguinte, a revestir-se de uma comoção muito grande. Ainda a repercutir essa decisão do grupo de encerrar a sua carreira, há muita controvérsia, no entanto. 
Como um fato concreto, a história registra que o pianista/baterista e cantor, Richard Manuel, sofrera um acidente náutico por volta do início de 1976, e por conta da sua recuperação lenta, tal debilidade de sua parte haveria por prejudicar a agenda do grupo, doravante. Mediante tal perspectiva, inclusive de não haver mais possibilidade da banda apresentar-se ao vivo e apenas manter-se reunida para gravar discos em estúdio (tal qual o grupo britânico, The Beatles, havia conduzido a sua carreira desde 1966, quando não mais apresentou-se ao vivo, até 1970, quando da sua dissolução). 
Isso despertara o sentimento ruim para o guitarrista, Robbie Robertson, que então tomou a dianteira e anunciou um concerto de despedida e com direito à produção de um filme a registrar esse momento do adeus. 
A controvérsia, no entanto, veio de seus colegas, pois os demais não consideraram a hipótese de parar com os shows ao vivo, ao imaginar que a convalescença de Richard Manuel não seria crônica como Robbie aventara de uma forma pessimista, e assim, seria um hiato breve e perfeitamente contornável na opinião de todos, incluso na opinião do próprio acidentado, Manuel. 
Portanto, encerrar as atividades do grupo tampouco seria algo a ser cogitado pelos demais. Dessa forma, o que é mais crível, seria imaginar-se que sim, havia um desgaste interno na banda, decorrente do cansaço acumulado após muitos anos de atividade, o que seria normal. Registre-se que tal banda lançara o seu primeiro disco, em 1968 (“Music From Big Pink”), mas estava na estrada desde muito tempo antes disso (cerca de 1958), portanto, o convívio entre os seus cinco componentes remontava ao final dos anos cinquenta, como banda de apoio do cantor Country/Rockabilly, Ronnie “Hawks” Hawkins (nessa época, adotavam o nome: “The Hawks”), com quem atuaram até por volta de 1964, e posteriormente, o grupo foi banda de apoio de Bob Dylan por um bom tempo, antes de finalmente buscar o seu caminho autoral (e genial), com o lançamento do seu primeiro e sensacional disco acima citado.
 
Por conta dessa vontade pessoal de Robbie para fechar a história do grupo, se deixa a ressalva de que a versão a dar crédito aos demais, em torno de que a opinião formada em contrário, resultaria em um placar a registrar uma goleada pela não dissolução (4 x 1 pela continuidade da banda), portanto, o fato do único voto contrário ter vencido e ter sido imposto aos demais, gera uma estranheza. É difícil cravar uma opinião sem o devido conhecimento da verdade, no entanto, deduz-se que Robertson estava saturado e desejava livrar-se do convívio com os seus companheiros e assim forçou o final da banda, como uma maneira para perpetuar a boa imagem do grupo, com chave de ouro. 
Nesses termos, o seu planejamento foi bom, ao pensar na imagem da banda a fechar a sua história com pompa e circunstância, no entanto, se este não foi o desejo dos demais, o correto teria sido Robertson anunciar a sua saída do grupo para buscar a sua carreira solo; formar uma nova banda ou até ingressar em outra banda já sedimentada, e a banda por sua vez, a prosseguir a carreira normalmente, com a entrada de um novo guitarrista em sua formação. Aliás, isso culminou a ocorrer a posteriori, com uma volta da banda, com outra formação, nos anos oitenta.
Para agravar a impressão de que esse final forçado da parte de Robertson não agradara aos demais, houve tempos depois do lançamento do filme, declarações de outros membros a afirmar que Robertson manipulou Scorsese para dar a entender que ele, Robertson, seria o líder e os demais componentes, menos importantes na história do grupo. De fato, ao assistir-se o filme, fica a impressão de que Robertson teve muito maior espaço nos depoimentos e a sua postura blasé, observada em suas falas, denota uma empáfia, o que seria um indício de que os demais membros teriam tido razão em nutrir um sentimento ruim sobre tal episódio.
Bem, se falei sobre tais bastidores tão amargos, mas no início enalteci tanto o filme, ficou dúbia a minha opinião? Absolutamente não, pois a despeito de eu ter feito as devidas ressalvas necessárias, tenho em mente que esse filme é maravilhoso, emocionante e sim, dignifica o bojo da obra dessa banda que não foi apenas uma banda, mas “a” banda, ou seja, The Band.
Qual foi a ideia então? Filmar-se tal concerto realizado na famosa casa de espetáculos, “Winterland”, em San Francisco, na Califórnia, em 25 de novembro de 1976, sob os auspícios do grande, Bill Graham, um dos produtores musicais mais famosos entre os anos sessenta e setenta, com centenas, quiçá milhares de shows em seu currículo como realizador. 
Perfeito, uma casa maravilhosa para encenar tal despedida. Parte do cenário da Ópera, “La Traviatta”, que estava a ser apresentada na cidade, nessa época, foi alugado e assim, a parte visual do palco, ficou luxuosa para ser apresentada no filme, incluso com a colocação de lustres portentosos e assim, transformou o Winterland, que era um salão com decoração rústica, em um palácio europeu (estou a exagerar, certamente, mas ficou bonito isso é um fato). 
 
Na planificação inicial, seria uma película a ser filmada em 16 milímetros, porém Scorsese não economizou e decidiu filmar em 35 milímetros e com muito mais câmeras disponibilizadas para a captura, a reforçar a ideia de que não foi um documentário, mas verdadeiramente um filme que ele praticou. Para dirigir a parte musical do show, o produtor, John Simon, acostumado a trabalhar com a banda, esteve à frente dessa função. Portanto, com Scorsese, Graham e Simon em suas funções, todos muito competentes e no caso de Simon e Graham, bastante acostumados a lidar com a banda, não poderia haver outro resultado que não fosse um grande filme.
Scorsese convocou cinegrafistas renomados para a função, acostumados a lidar com grande obras cinematográficas e além disso, fez um minucioso trabalho de pesquisa, ao buscar entender a temática de cada letra das canções do repertório da The Band que seriam executadas, além das canções defendidas pelos muitos convidados escalados para abrilhantar o concerto. No entanto, o imponderável poderia ocorrer e de fato ocorreu, pois essa planificação para dar ênfase em detalhes a envolver cada canção, veio abaixo, na medida em que algumas câmeras falharam e assim, a edição posterior ficou prejudicada nesses termos. 
 
E mais um detalhe e este por minha observação como um adendo, a gravação de um show, seja com o objetivo de lançar-se um disco ao vivo ou a filmar-se, fica muito limitada se é feita com tomada única a valer, mediante um único espetáculo. 
O correto nesse caso, é filmar uma grande parte, senão a totalidade de shows ocorridos em uma turnê e aí, mediante uma decupagem, que é lenta, certamente, escolhe-se as melhores performances de cada canção para compor um disco ou um filme. No caso de um filme, há a questão da continuidade em mostrar-se os artistas em palcos diferentes e no uso de figurino igualmente diferentes, mas para um disco ao vivo, é o ideal gravar-se muitos shows para depois escolher as melhores performances. Neste caso, com uma opção única, é claro que mesmo a contar com músicos maravilhosos, a possibilidade de ter havido erros crassos, seria mínima, mas normalmente são muitos os riscos que todo músico enfrenta em uma apresentação, a despeito da sua condição técnica pessoal e mesmo do grupo com quem toca, estar muito bem ensaiado. Portanto, houve a possibilidade do risco e de fato, pequenas falhas são exibidas, mas tudo absolutamente contornado de primeira e até com simpatia, eu diria.
 
Nesse caso, como músico, muito agrade-me ver imagens de grandes ídolos que eu tenho na música, de uma forma mais próxima da realidade de qualquer músico em cima do palco, humanizados, pode-se afirmar. O que ocorre ali em cima do palco? Todo mundo que toca, sabe que monitores podem falhar e assim ao cantar, e na impossibilidade de se ouvir a sua própria voz com nitidez, desafinar é algo possível; amplificadores podem falhar, uma tarraxa de um instrumento de cordas, pode ceder e eventualmente uma ou mais cordas, desafinar, um dedo pode esbarrar em uma tecla indesejada e o acorde executado em um teclado, soar com uma desagradável dissonância harmônica, as peças da bateria saem do lugar o tempo todo, a atrapalhar a performance de qualquer baterista, enfim, muitas ocorrências são absolutamente normais na vida de qualquer músico.
 
No filme, pequenos erros são notados, mas como eu já observei, são facilmente corrigidos e geralmente com brincadeiras entre os músicos e quem for músico, haverá por saber que essa tolerância em tom de brincadeira acontece normalmente entre os colegas, a não ser em casos excepcionais onde tal situação vem a ocorrer com artistas muito temperamentais que não portam-se de forma solidária com os colegas em cima do palco, quando estes erram e na medida inversa, não costuma admitir os seus erros, quando isso acontece (isso também ocorre, infelizmente). 
Bem, tirante pequenas desafinações vocais, erros de passagens de uma parte de uma música para outra, perpetrado por algum músico (algo quase imperceptível), e a correia da guitarra de Eric Clapton, que falhou e no meio de um solo, quase que o instrumento escapa das suas mãos (mas ele pede socorro à Robbie, que entra a solar sem pestanejar e Eric sorri, com aquele típico sorriso de músico que repercute as falhas que ocorrem, com os colegas em sua volta), tudo ocorreu bem.
Além do show, existe uma boa quantidade de cenas a conter depoimentos, alguns individuais e outros fornecidos em duplas, trios ou com a banda inteira presente na conversação. E há também a inserção de três filmagens extras, a conter a banda em situação diferente, tratados como três “promos” de luxo. Sobre os depoimentos, a edição final do filme também foi objeto de críticas da parte de alguns membros insatisfeitos, que manifestaram o seu desagrado ao fato de que Garth Hudson (teclados e saxofone), teve pouquíssimo destaque em falas individuais e que Robbie Robertson, ao contrário, praticamente monopolizou as falas e como já disse, em atitude blasé, muitas vezes, ao denotar menosprezar a própria banda. 
Ele chega a afirmar que que estava exausto em excursionar com a banda por dezesseis anos e que não conseguia conceber exercer isso até completar vinte anos. A declaração em si não tem nada demais, pois sabe-se bem que os conflitos internos dentro de uma banda acumulam-se muito rapidamente e assim, esgotar-se a paciência por conta desse fator, é algo trivial, mas o jeito com o qual ele expressou tal sentimento, realmente não foi dos mais elegantes, eu preciso salientar e concordar com os demais que reclamaram da postura do colega. E neste caso, quem mais protestou, foi Levon Helm (bateria, mandolin e voz).
Outro ponto interessante, dá-se quando Scorsese é escoltado por Rick Danko (baixo, violino e voz), ao andar pelos corredores do estúdio, "Shangri-la", que era de fato uma propriedade da banda, mas nesta ocasião, Danko gravava um álbum solo, homônimo (“Rick Danko”, que seria lançado em 1977).
Sobre os artistas convidados, a ideia inicial seria contar apenas com Ronnie Hawkins e Bob Dylan, pelo fato de ambos ter uma história umbilical com a The Band. No entanto, eis que a lista aumentou e muita gente extraordinária foi acrescida, inclusive artistas britânicos. Por força das intempéries técnicas, alguns foram prejudicados, com a sua inclusão no filme, a revelar-se bastante limitada (casos de Ringo Starr e Ronnie Wood), e pior ainda para Stephen Stills, cuja participação em uma Jam ocorrida ao vivo, foi inteiramente perdida na filmagem, portanto, foi como se ele não houvesse participado da celebração.
 
Bem, a melhor parte, é claro, mostra-se em relação à música magnífica apresentada e nesse caso, insatisfações à parte da parte de Helm, Manuel, Danko e Hudson, em relação ao que Robertson idealizou com tal projeto, a atropelar as opiniões dos colegas, o resultado final como filme, é sensacional. E não haveria como não ser, com a história da The Band ali representada e ainda a conter o luxo máximo de conter participações especiais de artistas de primeira grandeza, à altura da The Band e cada um deles a deter uma ligação emotiva com essa grande banda.
Nessas condições, o filme inicia-se com um jogo de bilhar, a mostrar um momento de descontração nos bastidores da banda, e que logo descobriu-se, não estava bom o clima, na realidade. A banda é mostrada a tocar, “Don’t Do It”, mas que na realidade, teria sido um “encore” ou como estamos acostumados a dizer no Brasil, um pedido de “bis” da parte da plateia para que um artista toque uma ou mais músicas, após o término de uma apresentação. 
 
A seguir, é muita bonita a cena a filmar a fila formada pelos fãs à porta do Winterland, a espera pela abertura de suas portas. Tornou-se significativo, pois foi nessa casa que a The Band realizara o seu primeiro show oficial como uma banda autoral e tal espaço em si, também continha a sua história fortíssima para Rock e a contracultura em geral, graças aos esforços empreendidos pelo senhor, Bill Graham, um empreendedor cultural de primeira linha. 
Após um depoimento de Robbie Robertson, o show volta a ser enfocado, desta feita a mostrar mais ou menos o começo de fato, com a execução da bela canção: “Up on Cripple Creek”. Já mostra-se portanto um petardo, esse início, mas que não engane-se o leitor, pois o nível não muda, pois música após música, são detonadas muitas outras bombas de alto calibre, no bom sentido do termo, e não poderia ser de outra forma, vide a excelência observada na obra da The Band. A criatividade que essa banda teve em sua trajetória, foi das mais impressionantes da história do Rock, ao mostrar uma verdadeira usina de criação, em erupção permanente. Isso sem mencionar o fato de que os seus cinco componentes eram multi-instrumentistas, portanto, com tal versatilidade imensa que possuíam, a sua música sempre pautou-se pela possibilidade de apresentar sonoridades múltiplas. E mais um ponto: a gama de influências que os seus membros carregavam como bagagem musical, era enorme e assim, a banda sempre atuou a utilizar um leque aberto, multifacetado.
E assim, desfila sob a tela, algumas das suas muitas músicas maravilhosas, como: “Shape I’m In”, “It Makes no Difference”, “Stage Fright”, “The Night They Drove Old Dixie Down”, “Genetic Method”(apenas um trecho), “Chest Fever”(esta, com também apenas um trecho), “Ophelia” e “Skip the Wine”. 
Os promos produzidos separadamente em um estúdio de cinema (no complexo cinematográfico da MGM), e adicionados ao filme em sua edição final, foram filmados algum tempo depois, no decorrer de 1977. Trata-se da The Band a apresentar o bonito tema: “Theme From The Last Waltz”, especialmente composto para ilustrar o filme, “Evangeline”, com a participação da cantora diva do Folk/Country-Rock, Emmylou Harris, e a versão muito bonita de mais um clássico da The Band, a canção: “The Weight”, com o apoio do grupo vocal, “The Staples”.
 
Muitas outras músicas que foram executadas no concerto ao vivo, não entraram na edição final, ou por uma questão de metragem ou simplesmente por conta dos problemas técnicos que surgiram com algumas câmeras, conforme eu já havia mencionado. Caso da jam onde Stephen Stills participou e de uma outra jam, onde o baixista, Carl Raddle também esteve presente, além de Peter Cipriano e Cameron Swirka. 
Nos casos de “Evangeline” e “The Weight”, as suas versões ao vivo foram evitadas pois houve a intenção de inserir os tais promos especiais em destacado. Além dessas citadas, outras músicas que foram executadas no show, também ficaram de fora do filme oficial, casos de “Life is a Carnival”, “This Wheel’s on Fire”, “King Harvest” (Has Surely Come), “Rag Mama Rag”, além das releituras da banda para: “Georgia on My Mind” e “Greensleeves”.
 
Sobre os convidados, a escalação foi para tirar o fôlego, além dos artistas já citados anteriormente, Ronnie Hawkies e Bob Dylan, anote também: Dr. John, Neil Young, Joni Mitchell, Neil Diamond, Paul Butterfield, Muddy Waters, Eric Clapton, Van Morrison, Ringo Starr, Ron Wood e os artistas já mencionados que participaram, mas por força das circunstâncias, ficaram fora da edição definitiva do filme.
 
Houve também muitos poetas que declamaram poemas, mas apenas dois estão no filme a tratar-se de “Michael McClure e Lawrence Ferlinghetti. Ficaram de fora: Emmet Grogan, Bill “Sweet William” Fritsch, Diane Di Prima, Robert Duncan, Frank Reynolds e Lenore Kandel.
 
Muitos músicos de apoio de alguns artistas convidados, também participaram a atuar junto à The Band em tais números. Caso por exemplo do guitarrista de Muddy Waters, Bob Margolin, do baterista de Neil Diamond, Denis St. John e do pianista, Pinetop Perkins. Acrescente-se também que uma sessão de metais a conter músicos da pesada que costumavam tocar com Allen Toussaint, apoiaram a The Band em muitas músicas. Com essa roupagem grandiloquente, em uma canção épica da The Band, como: “The Nigth They Drove Old Dixie Down”, ficou difícil não conter as lágrimas, pois é mesmo para arrepiar.
Destaque-se ainda alguns momentos ponteados para ilustrar: o sensacional, Dr. John, em “Such a Night”, um de seus clássicos, esbanja categoria a defender a fina flor do Blues de New Orleans. Na apresentação de Neil Young, Joni Mitchell surge de surpresa, a cantar inicialmente atrás da coxia do teatro. Lembro-me bem, no cinema, tal cena gerava gritos de regozijo entre s Rockers, pela surpresa agradibilíssima em ter a maravilhosa, Joni, como o elemento surpresa para abrilhantar a apresentação de Neil Young, a cantar: “Helpless”, um grande clássico seu, em favor do incrível repertório do super grupo: "Crosby, Stills, Nash and Young". 
Muddy Waters a interpretar: “Mannish Boy”, é para tirar o fôlego. Pois trata-se da raiz mais genuína do Blues, ali defendida por uma lenda viva, portanto, o que dizer, depois disso? Van Morrison solta a sua garganta irlandesa privilegiada com muita propriedade em: “Caravan” e Eric Clapton mostra a sua categoria impressionante em: “Further on up The Road”. 
Neil Diamond faz uma apresentação sóbria, como era de sua característica (através da canção: “Dry Your Eyes”) e Paul Butterfield mostra o seu Blues elétrico com energia (“Mystery Train”).
Para fechar, entra Bob Dylan em cena. Temperamental por natureza, ele relutou muito em participar do concerto/filme e disco, não por desrespeito à The Band, grupo pelo qual ele mantinha carinho e consideração por ter sido a sua banda em jornadas heroicas por ambos cumpridas em conjunto, ao longo dos anos sessenta, no entanto, a sua preocupação não foi ofuscar os seus novos projetos que estavam a sair na mesma ocasião. 
Deu tudo certo, afinal de contas e o grande mito do Folk-Rock norte-americano, enfim tocou com a The Band, os temas: “Forever Young”, “Baby, Let me Follow You Down” e “I Shall Be Released”, este com a presença dos demais convidados a formar um super coro para encerrar o filme. 
Esta última canção, no entanto, apesar de ser um clássico de Dylan, também ficara famosa por conta da sua versão gravada pela própria, The Band, devidamente registrada em seu primeiro disco. Portanto, a ideia de ter o autor da música a cantá-la juntamente, foi ótima certamente, no entanto, a versão da The Band, que é cantada solo pelo pianista, Richard Manuel, foi bastante prejudicada no filme, pois de fato, ele, Manuel, inicia a cantá-la, mas dado o completo congestionamento de pessoas no palco, ofuscou-se a sua presença atrás do piano a cantá-la, isso sem deixar de mencionar que a edição privilegiou enquadrar a figura de Bob Dylan, portanto, a performance de Richard Manuel ficou secundária nas imagens. Essa foi inclusive mais uma das reclamações de Levon Helm, em relação ao filme e mais uma vez ele teve razão em reclamar. 
Falta mencionar que muitas outras músicas interpretadas por artistas convidados, ficaram fora do filme, porém, assim como as canções extras da The Band, tal material adicional não aproveitado no filme, constou do álbum triplo de vinil, lançado em 1978, e que nos anos oitenta ganhou versão em CD, como um disco duplo. 
Para encerrar, digo o óbvio, isto é: a The Band foi uma banda maravilhosa e esta despedida, ainda que tenha tornado-se polêmica em face das divergências internas entre os seus componentes, mostrou-se luxuosa enquanto formatada por um projeto a envolver um filme e um disco triplo ao vivo. Trata-se de um filme com uma fotografia deslumbrante, é grandioso pela circunstância emocional nele contida, contém um verdadeiro massacre sonoro em termos de repertório da banda e ainda detém o luxo extra de apresentar um desfile de estrelas especialmente convidadas, impressionante.
 
A crítica adorou o filme, ao considerá-lo com maior exemplo de um show filmado até então na história. De fato, se pensar-se nesse restrito ponto de vista da cinegrafia, eu não posso considerar que tenha sido um exagero da parte dos jornalistas que analisaram a obra no calor dos anos setenta. 
Bem, tal filme fez muito sucesso nas salas de cinema à época de seu lançamento. Em meu caso, eu tive a oportunidade em assisti-lo muitas vezes em 1978, assim que estreou no Brasil, quando pude encantar-me com esse documento. E mais um privilégio, para quem conheceu a cidade de São Paulo nos anos sessenta e setenta, essas sessões em que eu estive presente, foram devidamente assistidas no saudoso, Cine Bijou, que por anos, entre aquelas duas décadas, foi a sala de cinema mais Freak da cidade. Não recordo-me no entanto em vê-lo com constância na televisão, nos anos posteriores. Houve sim exibições em canais de TV a cabo, mais para os anos noventa, e claro, o filme foi providenciado para ser disponibilizado em formato VHS, posteriormente em DVD e Blu-ray. Aliás, a conter relançamentos anunciados com eventuais modificações sonoras e visuais, conforme a tecnologia avançou, e também em termos de Kits a apresentar produtos diferentes, como camisetas, bottoms e afins, como chamariz aos colecionadores.
Foi produzido por Robbie Robertson (isso explica muita coisa) e Jonathan Taplin, Direção a cargo do grande, Martin Scorsese. Lançamento em abril de 1978.

Na Internet, dada a sua restrição por ser um filme de um diretor renomado como, Martin Scorsese, é natural que fique difícil a sua exibição em caráter gratuito. Portanto, o leitor achará versões do filme no YouTube, mas que são constantemente retiradas do portal, por ordem judicial. É questão de procurar um postagem da parte de pessoas comuns, e ter a sorte para assistir em tempo, antes que um oficial de justiça bata na porta do YouTube com ordem para que o filme seja eliminado da grade gratuita.

* Refiro-me ao livro que escrevi e lancei em 2020: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" 

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", a estar alojada em seu volume III, com a sua leitura disponibilizada a partir da página 405.