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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Filme: Rainbow Bridge - Por Luiz Domingues

Este filme entrou para o imaginário dos Rockers, Freaks & Hippies, mas sobretudo entre os fãs do guitarrista norte-americano, Jimi Hendrix, como uma peça importante a registrar um momento da história desse artista, do Rock e da contracultura, no entanto, mesmo que haja em seu bojo, alguns pontos positivos, no cômputo geral é uma obra que foi construída em torno de um improviso muito grande, a denotar amadorismo sob o ponto de vista cinematográfico e igualmente por demonstrar muitos equívocos no âmbito em torno de uma visão cultural mais ampla, ou melhor, contracultural. Em certos aspectos, tal precariedade estrutural e sobretudo em termos de um roteiro confuso (isso na melhor das hipóteses, pois na prática, mais revela a ausência de um roteiro minimamente organizado), serviu como uma espécie de "antipropaganda" do ideário hippie. 
É possível até comparar-se com um filme brasileiro em moldes semelhantes, chamado, “Geração Bendita”, se bem que no caso da película tupiniquim, o nível apresentado (pasmem!), é muitíssimo pior, e assim, não posso chegar a outra conclusão. E além do mais, “Geração Bendita” não contém uma performance ao vivo de Jimi Hendrix, portanto, precariedade à parte, “Rainbow Bridge” é muito melhor. 
Bem, este filme foi um tentativa livre de improvisar uma história muito simples, a envolver apenas uma personagem solitária e através da sua percepção, traçar um painel sobre o que envolvia o imaginário da juventude Hippie na América do Norte, capturado no momento de 1970. 
Portanto, ao melhor estilo: “uma ideia na cabeça e um câmera na mão”, a intenção foi essa, literalmente, em acompanhar a andança dessa moça, cuja personagem nem mesmo recebeu um nome na ficção, interpretada por Pat Hartley. Registre-se que não há nenhuma influência detectável em termos de Nouvelle Vague francesa neste película, portanto, a citação que eu fiz a sugerir um estilo a la Jean-Luc Godard, foi uma mera lembrança a esmo de minha parte. 
Pat, a protagonista, trabalha como uma modelo, supostamente, e que vive em Nova York, mas está em San Diego, na Califórnia, apenas em trânsito, pois o seu objetivo é sair dali para Maui, Havaí, onde deseja visitar um centro místico envolvido com meditação e outras práticas místicas. É nesse aspecto que o filme tenta justificar o seu mote, pois, tudo gira em torno das andanças dessa moça, a mostrar as pessoas que ela encontra pelo caminho e também as situações onde insere-se. 
 
Nesses termos, a garota encontra pelas ruas, muitos Hippies, Freaks e uma gama de pessoas comuns que reagem com a esperada estupefação sobre tal movimentação da parte de pessoas que propunham-se a adotar um tipo de modo de vida bastante alternativo, muito diferente de seu espectro normal, ditado por valores conservadores. Nesses termos, são muitas cenas a acompanhar a trajetória andança dessa moça em meio a tal viagem que realiza, por diversos logradouros públicos, onde ela passeia a bordo do transporte público e bastante a pé, para interagir com uma indisfarçável alegria, que é mostrada em seu semblante. 
Tal energia, que é visível por emanar de sua pessoa, talvez seja a grande chave a explicar a intenção dos produtores deste filme, ao resolver produzi-lo. Explico: pois foi em torno dessa sutil euforia que estava impregnada no ar, que os responsáveis por este filme possivelmente entusiasmaram-se em produzir tal obra, no afã de passar ao público essa realidade que existiu naqueles últimos anos da década de sessenta e início dos anos posteriores, a formar-se a década de setenta. Tal tentativa para eternizar em celuloide tal modo de vida libertária da parte das pessoas que realizaram de fato o “Drop Out”, foi certamente válido e nobre, eu diria, enquanto empreendimento cultural para preservar fatos históricos, portanto de inteiro interesse da humanidade, no sentido mais amplo e ousado dessa premissa. 
 
No entanto, se a intenção do filme foi ótima enquanto mote, na prática, por conta dos seus equívocos gerenciais, o resultado deixou a desejar por muitos aspectos, e inclusive em seu aspecto mais sutil ao desejar mostrar a euforia inerente ao movimento Hippie em prol em propor-se um modo de vida alternativo, desassociado do grande sistema opressor em torno da sociedade de consumo. 
Nesses termos, a personagem vê-se em meio a uma série de pessoas que nem sempre mostram a tal euforia natural que impregnara-se no ar tal qual uma polinização, e a concatenar a mesma percepção do movimento, e assim, o seu comportamento e mentalidade trata por depor contra os nobres ideais filosóficos em torno dessas ideias libertárias e assim, com o perdão pelo clichê, portam-se com libertinagem, na busca efêmera pelos prazeres hedonistas. 
 
Bem, esse foi um dos deméritos a explicar a derrocada dos ideais, certamente, contudo, é patente neste filme que a intenção não foi fazer esse contraponto, como se fosse uma peça documental com cunho jornalístico a dar espaço para o contraditório. Neste caso, é bem óbvio que tratou-se de uma filmagem feita em aberto, sem um roteiro pré-estabelecido, portanto, apenas preocupado em seguir a personagem livremente e capturar o que ocorresse ao seu redor.
É nessa predisposição (em que pese a alegria estampada no rosto da moça, ao deparar-se com todos os tipos de freaks), que as cenas mostradas contém falas desconexas com citações esotéricas e ufológicas proferidas a esmo por muitos desses participantes. Sim, tais tópicos eram ícones culturais importantes no espectro de muitos hippies, mas como são mostrados, sem nenhuma seriedade ou profundidade, apenas reforça os preconceitos todos estimulados pelos detratores, ao jogar o movimento na vala comum em torno da ideia de ter sido apenas formado por um grupamento de drogados a esmo. 
Bem, nem todas as falas foram tresloucadas, houve interessantes cenas a mostrar grupo com freaks a praticar meditação e Tai Chi Chuan em meio a natureza e isso é bastante salutar, assim como muitas cenas a exibir jovens a praticar esportes, o surf em predomínio, afinal de contas, a natureza de Maui foi propícia, assim como as caminhadas em meio a bosques, e em ambientes vulcânicos.
E o melhor do filme ocorre, quando os jovens são mostrados a caminhar para uma ambientação em campo aberto e ali vai ocorrer um show de Jimi Hendrix. Ora, que sensacional, toda a precariedade em torno da ausência de uma história consistente, haveria por ser redimida com tal apresentação. Todavia, isso não cumpriu-se em cem por cento e eu comentarei a seguir.
 
É preciso esclarecer de antemão, que o próprio, Hendrix, relutou bastante em participar do filme. Consta que nessa época ele estava bastante incomodado com o rumo de sua carreira e não animara-se nem um pouco com o projeto. A ideia inicial seria contar com as músicas de Hendrix apenas para compor a trilha sonora, mas no calor dos acontecimentos, a predisposição inicial evoluiu para que houvesse a filmagem de um show ao vivo com ele, Jimi Hendrix (e a sua banda, “Experience”, naturalmente), porém tudo foi muito nebuloso nessa produção, pois o improviso para montar-se tal cena a simular um festival, foi total. 
 
O que verifica na tela é uma ambientação muito bonita em termos de natureza, isso é um fato, mas o palco montado é simples ao extremo e pequeno para abrigar um show da dimensão de uma estrela desse porte. E o equipamento disponibilizado, mostrou-se apenas razoável, mas deu para cumprir o mínimo necessário. Antes da apresentação de Jimi Hendrix, houve a performance de um trio Folk Rock, com um rapaz a tocar violão e duas moças. Esse trio vocal não é mencionado na ficha técnica, mas o seu som mostra-se bem agradável. Quase não há imagens dos três jovens freaks em ação no palco, a não ser ao final da canção, muito rapidamente, portanto, o áudio dessa performance apenas serve como “bg” para ilustrar as imagens das pessoas a aproximar-se do local do show. Um grupo de adeptos da seita indiana, “Hare Krishna” também comandou a entonação do mantra, “Aum”, alguns momentos antes do show.
Sobre a performance de Jimi Hendrix, a despeito de ser de fato a melhor parte de um filme tão caótico, nem assim é algo para ser comemorado, exatamente. A performance de Hendrix, a tocar com o grande baterista, Mitch Mitchell e o bom baixista, Billy Cox, não é ruim, aliás, pode ser considerada boa. No entanto, por falta de uma melhor estrutura profissional, alguns fatores pesaram muito para tornar tal filmagem, precária: o fato cabal de ter sido uma apresentação única, revelou-se uma temeridade, visto que qualquer falha que ocorresse, do artista ou da equipe de filmagem, inviabilizaria o material de pronto, visto que sem outras opções de filmagem, inexistiria a possibilidade para se montar as melhores performances para cada música. 
Além disso tudo, por uma questão de economia, a filmagem desse show foi feita com a luz do dia, para economizar-se com a questão da iluminação do show e também da filmagem em apoio, no entanto, mesmo assim, o bom senso em uma filmagem, manda usar-se sim um equipamento de iluminação adequado para a luz do dia, com rebatedores de luz; uso de filtros especiais e tudo mais, portanto, a impressão que fica, é a de uma filmagem amadora, ao estilo de uma filmagem caseira de um piquenique familiar com a fotografia opaca por falta de melhores recursos.    
 
Sobre a performance de Hendrix, apesar dessa apresentação ter ocorrido no dia 30 de julho de 1970, ou seja, menos de dois meses antes de seu falecimento, para quem o viu ali no calor do show e da filmagem, e não o conhecesse pessoalmente, não poderia imaginar que a sua saúde estava fragilizada por conta dos seus excessos cometidos em relação ao consumo de drogas. No filme, ele parece em boa forma e sua performance é muito boa, dentro da normalidade com a qual sempre atuou.
O mesmo ocorre com os seus companheiros, com Mitch Mitchell sempre a apresentar-se daquela forma exuberante e Billy Cox, embora fosse um bom músico, a mostrar-se comedido em sua performance cênica, mas dentro da normalidade, visto que ele nunca teve uma postura Rocker, exatamente. Na parte musical, o som do seu baixo Fender Jazz Bass, soa muito bem, a deixar a impressão que ali no palco devia estar com peso e timbre, incríveis, mas graças aos problemas verificados no áudio que foi colocado no filme, a sonoridade não é das melhores.
Por conta desses problemas técnicos apresentados, é uma grande pena, mas o show de Jimi Hendrix só contém dezessete minutos de duração e pior ainda, com todas as músicas cortadas na edição, pois foi a única solução encontrada para viabilizar as imagens do show neste filme. Em suma, se toda a publicidade do filme foi calculada para valorizar-se a presença de Jimi Hendrix como atração máxima, desaponta assistir um show tão curto e totalmente picotado pela edição. Paciência, foi o que ocorreu e dadas as circunstâncias dramáticas que ocorreram cerca de cinquenta dias depois da filmagem ter sido feita, tornou-se um documento importante da carreira de Jimi Hendrix e da história do Rock sessentista.
Outro dado a desabonar esta obra, deu-se em relação à sua trilha sonora. Quando o LP saiu, em cerca de outubro de 1971, Hendrix já havia nos deixado há mais de um ano (ele falecera em setembro de 1970), e este álbum não contém a performance ao vivo mostrada no filme, mas trata-se na verdade de uma coletânea montada com performances de estúdio, gravadas como Jam-session em sessões ocorridas entre 1968 e 1970. Tais canções foram usadas como BG no filme, é bem verdade, mas mesmo assim, a grosso modo tratou-se de uma picaretagem tremenda, em tese, da parte da gravadora. 
 
A despeito do embuste duplo, perpetrado por conta da gravadora e da produção do filme, os fãs não reclamaram, pois ainda em meio à comoção recente causada pela perda do astro, um disco com material gravado em estúdio e a revelar jam-sessions tornou-se um adendo à discografia para os colecionadores. Mas que fique bem claro, o disco com a trilha sonora do filme, não tem nada a ver com as músicas tocadas ao vivo na película, ou seja, foi uma atitude tresloucada da parte de quem autorizou essa falcatrua fonográfica.
 
Em sua estreia no cinema, em outubro de 1971, a metragem do filme foi em torno de cento e vinte e três minutos de duração. Quando o filme saiu em outras versões, foi reduzido para um pouco além dos sessenta minutos. Há versões alternativas portanto, que correm, como piratas no mercado, a conter metragens diferentes. A diferença na metragem maior é que contém mais músicas do show de Hendrix, no entanto, na mesma disposição em picotar-se as performances, a evitar exibir-se as falhas. E mais cenas dispersas da personagem de Pat a interagir com toda a sorte de malucos, no bom e mau sentido do termo, por todos os cantos.
Sobre as canções de Hendrix, no show que aparece no filme, são executadas as músicas: “Hey, Baby”, “In From The Storm”, “Foxy Lady”, “Hear My Train a Comin”, “Voodoo Chile” (Slight Return), “Purple Haze” e “Star Splangled Banner”. Como material usado como BG ao longo do filme, acrescenta-se: “Ezy Rider”, “Dolly Dagger”, “Bleeding Heart”, “Pali Gap”, “Look Over Younder”, “Room Full of Mirrors”, ou seja, o material oriundo de jam-sessions gravadas em estúdio, entre 1968 e 1970, com exceção da versão de “Hear Me a Train Coming”, não do filme, mas do LP, que foi retirada de um show ao vivo gravado em maio de 1970, no teatro da Universidade da Califórnia, Berkeley. Algumas fotos dessa performance ao vivo em Maui para a filmagem do filme, foram usadas logo a seguir para ilustrar a capa interna do LP “Cry of Love”, que Jimi Hendrix gravava em 1970, e que ele não chegou a ver lançado, pois o disco somente saiu para a venda em março de 1971, a mostrar-se póstumo.
 
Por falar nisso, Jimi Hendrix não chegou a assistir o filme montado, igualmente, visto que veio a falecer em 18 de setembro de 1970, e o filme apenas ficou pronto em meados de 1971, para ser lançado em outubro do referido ano. Por uma ironia do destino, esta performance em Maui, foi o seu antepenúltimo show em vida, pois dessa data de 30 de julho de 1970, quando filmou o show para compor o filme “Rainbow Bridge”, em diante, ele cumpriu mais um show na América e o derradeiro aconteceu no festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, poucos dias antes de passar mal e falecer em Londres.
Ainda a destacar-se, há o uso e abuso de lentes e filtros a buscar distorções e também a visar proporcionar o estouro das cores, e assim potencializar o efeito psicodélico de algumas cenas. Talvez seja essa pirotecnia cinematográfica a sua ação em termos de maior acerto, visto que no cômputo geral, o filme mostra-se extremamente pobre como peça cinematográfica. Ainda a falar sobre a ação, destacam-se muitas ocorrências que soam até engraçadas, em face do seu caráter bizarro, como por exemplo a presença de adeptos da ufologia que afirmam ser venusianos, ou seja, seres oriundos do planeta Vênus, segundo acreditavam no auge de seu delírio, mas tudo perfeitamente compreensível, se pensarmos no tipo de substâncias alucinógenas bastante apreciadas por tais pessoas nessa ocasião.
Há a observação da natureza, que é incrível, mas também exótica, principalmente no tocante aos fortes ventos, um fenômeno normal naquela ilha do oceano Pacífico. Tanto foi assim, que a personagem de Pat, é mostrada quase a flutuar em determinadas cenas, quando na companhia de um freak, ambos lutam para não ser carregados pela ventania. Isso também observa-se durante o show de Hendrix, visto que os microfones usados estão revestidos com grossas camadas de espuma, para tentar inibir os ruídos inerentes da ação do vento. O local que Pat visita em Maui, chamou-se: Ocult Research Meditation Center, que na prática, fica dúbio se realmente existiu ou foi inventado como uma fantasia para o filme, pois não há registro oficial de sua existência nos dias atuais. Portanto, se existiu na realidade, foi algo muito obscuro, ao ponto de não ter sido registrado oficialmente.
 
Há uma crítica ao governo Nixon, embutida, mas sutil, quando em cenas rápidas, são mostradas barracas a vender drogas e em uma delas exibe-se uma placa de identificação onde lê-se: “Nixon Point”. E também em uma cena em San Diego, quando Pat vê-se perto de um grupo de recrutas alistados pelo exército para servir na guerra do Vietnã, a receber instruções duras da parte de um sargento e ao invés de ouvir-se a sua voz de comando, escuta-se latidos. E mais uma ocorrência truculenta, ocorre em uma abordagem policial bastante agressiva pela qual Pat é submetida e em decorrência dessa arbitrariedade, ela é presa, mas logo a seguir, vê-se a personagem a deixar as dependências da delegacia, sob a luz do dia, a denotar que dormira no cárcere. 
Fora disso, não tem mais nada em termos de protestos, mas pelo contrário, apenas cenas a conter ações em torno de esportes em meio à natureza e muitos rituais orientais em tom de espiritualidade, seja em sessões coletivas de meditação, a entoar-se mantras ou com jovens freaks a reunir-se na esperança de manter algum tipo de contato ufológico. Claro, a personagem, Pat é vista na plateia a dançar durante a apresentação de Jimi Hendrix, no entanto, ela não interage com o guitarrista ou com a sua banda, em momento algum.
 
É óbvio que a crítica conservadora atacou com todas as suas forças tal obra. Chega a ser engraçado, no entanto, a beligerante verbalização cometida em alguns casos. Um crítico afirmou: -“é um filme tão viciado, pseudomístico e a conter hippies narcisistas, que a única esperança para salvá-lo do desastre total, foi inserir Jimi Hendrix em seu bojo”. Ora, a despeito de todo o veneno conservador contido em sua observação, eu não posso deixar de concordar com ele, sob uma análise técnica e honesta. Um outro jornalista disse: -“uma peça a vomitar um ridículo balbuciar sob a ação de ácido lisérgico, pseudomístico e descompromissado com a verdade”. Infelizmente, preconceitos a parte, esse rapaz também não errou em sua avaliação. Outro pegou ainda mais pesado, ao acusar o diretor do filme de “explorar o cadáver de Jimi Hendrix para salvar o seu bolso”. E mais uma vez, não posso achar que a opinião desse jornalista, tenha sido descabida.
Sobre mais pessoas relacionadas como parte do elenco, creio que não valha a pena arrolar tais nomes, pois tratou-se de pessoas comuns e não atores a participar e principalmente pelo fato de que tais pessoas não atuaram, mas apenas interagiram como pessoas comuns em um documentário ou em reportagens jornalísticas de rua. Roteiro de Charles Bacis e neste caso, eu tenho curiosidade de ler o seu manuscrito com tal roteiro em forma de rascunho ou a página datilografada, que passou a limpo e que receio, não deve ter chegado à metade de uma folha sulfite, dada a insipidez do seu trabalho. Produção de Michael Jeffery e Barry De Prendergast. Direção de Chuck Wein. Lançado em outubro de 1971.
No cinema, ficou restrito ao circuito de cineclubes e pequenas salas a exibir filmes alternativos. Na TV aberta, as exibições foram poucas e escondidas em sessões exibidas às madrugadas, ao estilo “Sessão Coruja”. Na TV a cabo, foi exibido apenas muito sazonalmente, via mostras sobre Jimi Hendrix, algo muito específico. Saiu em VHS e DVD e aí existe uma confusão, sobre qual versão, a super editada com pouco mais de uma hora de duração ou a mais robusta, com cerca de cento e vinte minutos. Na Internet, por incrível que pareça, é difícil achar-se tal peça em uma versão na íntegra e gratuita. No YouTube, há fragmentos disponíveis, apenas, portanto, o leitor interessado que ainda não assistiu, deverá gastar um certo tempo para pesquisar em portais alternativos. 
 
Esta resenha foi preparada para compor o livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a sua leitura está disponibilizada a partir da página 419.

domingo, 15 de março de 2026

Filme: The Girl Can't Help It (Sabes o que Quero) - Por Luiz Domingues

Este é um caso excepcional, pois trata de um filme que não foi concebido para ser um Rock Movie, propriamente dito, mas ao envolver diversos artistas sensacionais do universo do Rock cinquentista, inicialmente apenas como uma “escada” para servir às sketches propostas como piadas, eis que abriu um inesperado campo e tornou tal filme um dos melhores Rock Movies da história, por incrível que pareça. Mais do que isso, este filme precipitou um impensável arranjo involuntário que seria crucial para a história do Rock, portanto, é considerado nos dias atuais, uma importante peça, também por tal detalhe. Falo sobre o filme: “The Girl Can’t Help It”, que em português recebeu o malicioso título: “Sabes o que Quero”.
 
Cabe destacar que a tradição brasileira de estabelecer títulos completamente fora da tradução literal do original em línguas estrangeiras, gerou ao longo dos tempos, aberrações as mais diversas. A alegação da parte dos “gênios” do marketing que estabelecem tais mudanças desde os primórdios do cinema mudo para alimentar a exibição nacional, sempre pautou-se pela ideia de que seria importante adaptar os títulos em torno do mote de cada filme, para promover assim o melhor entendimento da parte do público brasileiro, quando ocorressem expressões idiomáticas, gírias ou ditados culturais muito específicos em outras culturas e que seriam portanto incompreensíveis ao nosso entendimento. 
Mera balela, a julgar que seríamos tão provincianos assim ao ponto de ignorar completamente as diferenças culturais, tendo em vista que o Brasil é basicamente um país que recebeu imigração de povos do mundo inteiro, portanto, com tantas colônias estrangeiras aqui estabelecidas, nada causa tanta estranheza, em tese, mesmo que sejamos um povo colonizado por europeus, em nosso caso, pelos portugueses como cultura colonial predominante. 

Ao falar sobre esse filme em específico, a minha explanação sobre essa questão de invenção de nomes aleatórios, passa por tal aberração e há uma explicação para tal. Quem inventou o título: ”sabes o que quero”, quando teve essa ideia, quis certamente enfatizar os aspectos maliciosos, machistas e sexistas contidos no texto do filme e vou além, pois a inspiração para o nome inventado tem forte influência das antigas chanchadas brasileiras dos anos cinquenta, notadamente filmes com referência direta ao antigo teatro de revista, vedetes & rebolados, ou seja, a se tratar de fitas a envolver artistas com estilo de humor debochado, tais como Dercy Gonçalves e Zé Trindade, principalmente. Portanto, remete sim ao estilo de uma comédia norte-americana típica da década de cinquenta, a buscar o elemento erótico como mote, porém dentro de um abordagem com limites, naturalmente, muito longe da falta de decoro e da cafajestagem que supostamente o responsável pela elaboração do título em português para o público brasileiro, considerou, talvez baseado em suas convicções pessoais.
Postas tais considerações iniciais, eu avanço para explicar mais um detalhe do ponto de vista cinematográfico. Tal tipo de abordagem humorística, no cinema norte-americano (falo sobre comédias românticas), remontava tranquilamente aos anos trinta e quarenta, ou seja, fora bem explorada em algumas obras assinadas por diretores do quilate de Ernest Lubitsch, Frank Capra, Charles Vidor e outros. Porém, tal gênero das comédias românticas evoluiu e enfim, ganhou um ar mais apimentado nos anos cinquenta, quando Marilyn Monroe foi protagonista de vários filmes a explorar o humor em torno da sua beleza descomunal e o inerente machismo gerado, como “Gentleman Prefer Blondies” (de Howard Hawks), “How To Marry a Millionaire” (de Nunally Johnson) e outras, mas principalmente com a ótima comédia dirigida por Billy Wilder, “The Seven Year Itch”, a mais apimentada até então, em 1955. 
Nesse sentido de explorar a sua beleza (Marilyn), com um tipo de roteiro cem por cento baseado no furor gerado pela tensão sexual que ela provocava naturalmente entre os homens, chegou-se ao clímax no cinema cinquentista. Nesse filme em específico, que teve um mote muito próximo das sketches do humor televisivo, Marilyn interpreta uma mulher sexy, mas absolutamente ingênua, que provoca os sonhos de um vizinho que viu-se livre da esposa e dos filhos por alguns dias (as tais “coceiras dos sete anos de casamento”, a designar uma fase onde os homens voltariam a sonhar com outras mulheres, além da esposa), e assim, as piadas desenvolvem-se em meio à malícia que só existe na mente do rapaz, pois ela, a personagem defendida por Marilyn, gera tais situações sensuais, completamente desprovida de qualquer insinuação erótica, daí a graça das piadas. Bem, o ator que atuou com Marilyn em tal filme, foi Tom Ewell.
Pois um ano depois, em 1956, eis que sob a batuta do diretor, Frank Tashlin, o bom ator e comediante, Tom Ewell novamente foi convocado para estrelar uma comédia nos mesmos moldes, a explorar a tensão sexual, porém deste vez com uma concorrente de Marilyn, a exuberante, Jayne Mansfield
Tão linda quanto, voluptuosa, loura e acostumada a interpretar o papel da garota ingênua, porém sexy e que derretia os corações dos homens por anda passava, foi uma escolha perfeita para a história. A estrutura da comédia, foi praticamente a mesma adotada em filmes similares, principalmente os estrelados por Marilyn Monroe, mas neste caso, a história conteve o diferencial de ambientar-se no mundo da música e foi nesse ponto, que a opção de se aproveitar a recente euforia gerada pelo Rock’n’ Roll, no início da segunda metade da década de cinquenta, transformou este filme em algo muito maior que uma comédia tradicional da época, mas a revelar-se um dos maiores Rock movies daquela década.
Senão vejamos: a história baseia-se na história de um mafioso que explora máquinas de jogos de azar ao estilo caça níqueis espalhadas por centenas de estabelecimentos comerciais norte-americanos. Esse sujeito chama-se: Marty “Fats” Murdock (interpretado por Edmund O’Brien, aliás, um ator que já era bem experiente na ocasião e curiosamente não muito afeito a comédias, porém normalmente escalado para filmes de guerra, westerns e tramas de espionagem).
Pois esse tal Murdock é bastante temperamental, daquele tipo que não aceita desculpas ou negativas e quer ser satisfeito o tempo todo e com rapidez. Ele tem uma namorada que é belíssima e por onde passa, encanta os homens, chamada: Jerri Jordan (interpretada por Jayne Mansfield). Murdock inventa que a sua namorada precisa cantar e assim tornar-se uma estrela da música, porém, sem aptidão e nem mesmo desejo algum pessoal nesse sentido, ela frustra os planos do mafioso. Pois então, ele contrata um produtor musical que é considerado competente no mercado, todavia é também um ébrio contumaz, na figura de Tom Miller (interpretado por Tom Ewell). 
 
Neste caso, a sua contratação teve duas motivações básicas: ele era considerado o responsável pelo sucesso da cantora real, Julie London (a interpretar a si mesma em pequena participação no filme), e também por ser conhecido por não misturar o lado pessoal com o profissional e por não ter tido nenhum envolvimento amoroso com Julie, portanto, uma condição sine qua non para Murdock não alimentar ciúmes em relação à Jerri. Cabe destacar que Julie London, na vida real, além de ter sido uma boa cantora, foi atriz, também, e a sua atuação neste filme é sui generis, conforme comentarei a seguir. 
Murdock tem um capanga próximo, apelidado como “mousie” (interpretado por Henry Jones, um ator também experiente, com participação em diversos filmes no seu currículo, além de muitas participações em seriados de TV), que fica a observar a movimentação toda de Tom. “Mousie” (trocadilho com "mouse"), Tom & Jerri, logicamente foram nomes a sugerir uma brincadeira com o famoso desenho animado com tais personagens.
Daí em diante, Tom passa a conviver com Jerri e claro que encanta-se com a sua beleza e apelo sexy, irresistível. Nesses ponto, várias cenas abrem espaço para piadas incessantes sobre como ela enlouquece os homens, bem naquele tipo de humorismo sexista e machista de antigamente, em torno da “mulher dotada de pouca inteligência, porém boazuda”. Mote detestável a parte, por rebaixar a mulher ao posto de um mero objeto sexual, não posso negar que enquanto piadas, são engraçadas. Como por exemplo, cenas em que ela anda pelas ruas (ao som da canção: “The Girl Can’t Help It” interpretada pelo grande, Little Richard), e assim provoca acidentes absurdos, tal como o homem que carrega cubos de gelo e os derrete com o calor do corpo ao ver Jerri passar. O leiteiro que provoca a ebulição do leite dentro das garrafas que carrega ou o senhor idoso que ao mirar o corpo escultural da beldade, tem as lentes dos seus óculos, rachadas, instantaneamente.
Tom fica íntimo de Jerri e descobre no cotidiano que ela não quer cantar de forma alguma e o seu sonho é ser uma dedicada dona de casa, bem no espírito da mulher “bela, recatada e do lar”, perfeita ao ideário do modo de vida norte-americano. Ele comunica isso à Murdock e o mafioso não aceita tal diagnóstico. Então, Tom aluga um estúdio de ensaio e ao piano, propõe alguns exercícios vocais para aquecer a voz de Jerri, mas ela desafina de uma forma tão absurda que chega a espatifar uma lâmpada. 
Convencido de que ela não tem a mínima condição para pleitear ser uma cantora, no entanto, isso não demove Murdock de seu plano e neste caso, gera-se mais uma piada, desta feita a desdenhar do Rock, pois Murdock considera que a voz horrorosa da bela moça, seria perfeita para que ela gravasse uma música que ele mesmo teria composto quando fora presidiário, a tratar-se de um Rock (“Rock Around The Rock Pile”, que vem a ser uma paródia debochada de “Rock Around the Clock”, de Bill Haley and His Comets). Pois então, Tom Miller grava a canção absurda de Murdock e ela, Jerri, grava a sua participação apenas com gritos guturais horripilantes, a imitar uma sirene de prisão e certamente com tal atuação desastrosa, antecipou em mais de uma década as performances costumeiras da parte de Yoko Ono, sem dúvida. É bem engraçada a cena em que Jerri grava em estúdio a sua participação deprimente para essa canção. 
 
Uma vez em Chicago, Tom procura um rapaz apelidado como “Wheeler” (interpretado por John Emery), um desafeto de Murdock em meio às rivalidades entre grupos mafiosos distintos, e esse rival mantém um esquema de controle de máquinas jukebox espalhadas por muitas lanchonetes e estabelecimentos semelhantes ao longo da América do Norte inteira. Pois tão importante quanto tocar nas emissoras de rádio, foi manter os discos de artistas disponíveis em máquinas jukebox, na América cinquentista. Portanto, essa constatação mercadológica e tipicamente cinquentista, é muito interessante no filme, a mostrar os bastidores do show business da época. 
 
Wheeler mostra-se propenso a fechar contrato, pois gosta da música em questão, no entanto, descobre que o seu compositor foi Murdock, o seu inimigo-mor e cancela tudo. Nesse ínterim, Murdock contra-ataca e através de um emissário seu, sabota os negócios de Wheeler, para que ninguém mais compre as suas máquinas de jukebox. A confusão instaura-se, inclusive com as tais máquinas a serem destruídas e arremessadas às ruas em cenas violentas, mas com o devido tom da comédia. Wheeler mostra-se enfurecido e com os seus capangas a apoiá-lo, jura vingança, a anunciar que eliminará Murdock. 
O espião de Murdock, “Mousie”, já havia descoberto que Tom e Jerri estavam apaixonados um pelo outro, mas ao invés de delatá-los ao patrão, simpatizara com ambos e omite a sua descoberta. Nesse ínterim, haverá um grande show de Rock’n’ Roll em um teatro, transmitido pela TV, onde Jerri fará a sua estreia como cantora. De forma surpreendente, Murdock confessa para o seu assistente, “Mousie”, que não gostava mais de Jerri e que não pretendia casar-se com ela. Ora, foi a dica milagrosa para o filme alcançar o seu final feliz. Nos mesmos bastidores em cena paralela, Jerri declara-se à Tom e conta mais uma verdade: ela fingira ser desafinada pois não pretendia manter uma carreira como cantora. Então, ela sobe ao palco e canta bem, para provar ao Tom, que falava a verdade. 
Quando todos encontram-se na coxia, Jerri confessa à Murdock que está apaixonada por Tom e este surpreende à todos ao oferecer-se para ser padrinho do casal, algo que seria bastante irreal para um mafioso na vida real, mas engraçado para a comédia, é claro. Simultaneamente, Wheeler e os seus capangas aparecem para alvejar Murdock, mas eis que Tom o empurra para o palco e ele canta o seu número, a inibir a ação de Wheeler e os seus bandidos. Tom e Jerri beijam-se e tudo acaba muito bem!
 
Enfim, uma típica comédia com apelo sensual dos anos cinquenta, bem dirigida, munida de um ótimo elenco e com produção muito boa. Então por quê é considerado um Rock movie tão elogiado, se na verdade, pareceu ser uma comédia feita com outros propósitos? Bem, a resposta é que além da música título (que é sensacional), a ideia de inserir o Rock como um pano de fundo, proporcionou participações espetaculares ao longo do filme e então, tanto quanto as boas risadas que o filme proporciona e sim, Edmond O’Brien, Heny Jones e sobretudo, Tom Ewell, estiveram muito bem em suas atuações pessoais e também a considerar que a beleza sensual de Jayne Mansfield é para tirar o fôlego de qualquer um, a participação de muitos astros do Rock cinquentistas, é um verdadeiro desfile, a enriquecer este filme de uma forma absurda. 
Posso supor que à época, ninguém ligado a tal produção, e nem mesmo o tarimbado diretor, Frank Tashlin, deduziu que isso aconteceria, pois alguns desses artistas musicais eram apenas emergentes no calor de 1956, quando do lançamento desse filme, no entanto, com o decorrer do tempo, contar com as presenças de tantos artistas que tornaram-se lendas do Rock, fez com que esse filme transformasse-se em algo muito além de uma boa comédia, todavia um verdadeiro marco e sim, para ganhar a importância extra por haver tornado-se um dos maiores Rock movies da década de cinquenta e quiçá de todos os tempos.
 
Como surgem as participações desses astros? De forma esparsa, pois como já afirmei, à época, possivelmente foram tratados como um ato secundário para o filme, a mostrá-los como artistas emergentes de um modismo que em sua concepção (falo sobre o estilo do Rock’n’ Roll), seria algo a retratar o panorama da ocasião, mas absolutamente passageiro, como uma tendência pop, no sentido efêmero do termo. 

Ninguém em 1956, nem mesmo o “Colonel” Tom Parker (o astuto empresário de Elvis Presley), poderia afirmar categoricamente que o Rock transformar-se-ia em uma instituição sólida a atravessar décadas e gerações, eu acredito. Portanto, se assim foi concebido como filme e eu acredito nessa premissa, ou seja, como algo meramente ocasional, pode-se afirmar que “The Girl Can’t Help It” foi um filme que ganhou o bilhete premiado de loteria, por pura ação da sorte.
Na cena em que Tom e Jerri alugam uma sala de estúdio para ensaiar, quem está a ensaiar em uma outra sala no mesmo complexo? Pois é para arrepiar ver a figura sensacional de Gene Vincent, acompanhado por sua selvagem banda Rockabilly (His Blue Caps), a executar: “Be Bop a Lula”. Em uma aparição de TV, eis Eddie Cochran em ação, com a sua guitarra e a típica mise-en-scène que o marcou, ou seja, é para emocionar. 
E assim, números ocorridos em shows de casas noturnas, ocorrem também. Little Richard aparece a cantar e tocar ao vivo em um número sensacional. Fats Domino canta um R’n’B belíssimo. O super classudo quinteto vocal R’n’B, “The Platters”, canta o seu mega sucesso, “You Never, Never Know”. Eddie Fontaine, Teddy Randazzo and the Three Chuckles, Abbey Lincoln, Johnnie Ollen, Nino Tempo e “The Treniers”, reforçam o time. Em suma, é um luxo para esse filme.
No caso da cantora Julie London, a sua aparição, como eu havia comentado sem explicar com mais detalhes anteriormente, foi muito interessante. Em uma cena em que o personagem de Tom Miller (Tom Ewell), chega em sua residência chateado e embriagado, ele resolve colocar um LP da cantora na vitrola para reforçar a sua nostalgia, visto que na ficção dessa história, ele houvera sido o seu produtor. Então, eis que a voz bonita de Julie ressoa a interpretar o belíssimo blues, “Cry me a River” (a interpretação de Joe Cocker para essa canção seria visceral para esse mesmo tema em 1970), neste caso com um arranjo jazzy, lindo, a exibir a ação de uma guitarra muito bem executada, mediante o uso de belos acordes e fraseados bem digitados. 
No entanto, como Tom mostra-se bêbado, ele enxerga a cantora a materializar-se enquanto ouve a música, em diversos pontos da sua casa, para enfim desaparecer ao descer uma escada e logicamente a coincidir com o final da canção, quando a agulha da vitrola encerra a sua ação no LP. É portanto uma aparição fantasmagórica da cantora, fruto de um delírio da parte de Tom, por conta da sua embriagues.
Cabe destacar que o filme ainda teve a presença do maestro e trompetista, Ray Anthony, que conduziu a orquestra na gravação da música de Murdock, da qual Jerri apenas berrou a imitar uma sirene (e que também aparece ao final no tal show). E da atriz, Juanita Moore, que interpretou, Hilda.
 
Frank Tashlin, foi um diretor, roteirista e produtor de cinema com uma lista interminável de filmes em seu currículo. Egresso dos anos trinta, quando ele dirigiu “The Girl Can’t Help It, já era um veterano e bem sucedido diretor. Em sua carreira, trabalhou com vários gêneros, embora seja geralmente lembrado pelas comédias, e no caso, ele dirigiu várias que alcançaram o sucesso popular, como filmes da dupla formada por Dean Martin e Jerry Lewis e posteriormente em muitos filmes apenas com Jerry Lewis, assim como voltaria a trabalhar com Jayne Mansfield, ainda na década de cinquenta, como em “Will Success Spoil Rock Hunter” (?), em 1957, novamente a explorar a sensualidade dessa bela atriz.
“The Girl Can’t Help It” não recebeu grandes elogios da crítica especializada à época. As participações dos astros do Rock não eram nem consideradas importantes nesta altura, conforme eu já contextualizei e a trama em si não despertou nenhuma simpatia enquanto comédia, principalmente pelo fato da atuação de Jayne Mansfield ter sido considerada uma mera imitação do tipo de apelo sexual que Marilyn Monroe costumava provocar em seus filmes. Ao analisar friamente, não é algo descabido, visto que nem Marilyn, tampouco Jayne ou outras tantas atrizes que atuaram a usar desse artifício, foram artistas preparadas para atuar com um padrão de interpretação “Shakesperiano”. Entretanto, documento histórico para o Rock, à parte, se analisado como um filme regular, é uma comédia boa, portanto, a tratar-se de um tipo de obra despojada de outra intenção artística superior, é injusta a crítica mais exigente ao seu respeito, em meu entendimento.
Nas bilheterias, o seu desempenho foi apenas razoável na ocasião, visto que a concorrência era enorme em termos de comédias, o seu nicho de atuação mais determinado. Mesmo que o Rock não tenha sido a principal motivação do filme na sua divulgação inicial, tal percepção aumentou pelo efeito dos boatos. Portanto, foi neste contexto que o filme propiciou algo inacreditável, visto que John Lennon teria revelado, já depois de famoso, que a motivação pelo Rock já o encantara anteriormente, mas quando o filme estreou na Inglaterra em 1957, o seu impacto através de uma tela grande, determinou fortemente a sua vontade de tornar-se verdadeiramente um músico de Rock, visto que ele mostrou-se inteiramente arrebatado ao assistir diversos ídolos seus em ação, pela primeira vez e ao deparar-se com a imagem de tais astros em carne e osso, convenceu-se que também poderia trilhar tal caminho. 

Por conta desse filme, John esforçou-se para formar a sua primeira banda, “The Quarrymen”, ou seja, a semente mais remota dos Beatles. Paul McCartney narrou tal história também ao longo do documentário, “Anthology”, quando comentou sobre o impacto que ele também recebeu por conta em ter visto esse filme. 
Há o registro ainda de que quando os Beatles estavam a gravar a canção, “Birthday”, que faria parte do LP duplo, White Album”, em 1968, eles interromperam a sessão de gravação pois estava anunciada a reprise do filme em um canal da TV britânica e assim, os quatro componentes preferiram estabelecer um pausa no trabalho, somente para assistir mais uma vez essa comédia, que adoravam. Em suma, se esse filme foi assim tão determinante como inspiração para que a vida desses garotos de Liverpool modificasse-se ao ponto de culminar com a criação dos Beatles, creio que está patente a sua importância na história.
Escrito por Frank Tashlin e Herbert Baker. Produção e direção a cargo de Frank Tashlin, igualmente. Lançado em dezembro de 1956. É óbvio que esse filme teve inúmeras reprises em canais de TV aberta ao longo do planeta, incluso o Brasil, onde eu tive o prazer de assistir pela primeira vez nos anos sessenta, em pleno usufruto de minha infância que foi muito enriquecida pela visão de grandes filmes, ainda bem. Nos anos oitenta, tal filme ganhou a sua versão em fita VHS, passeou em canais de TV a cabo a partir dessa época e posteriormente foi disponibilizado em formato DVD. Está no YouTube sob versão integral para ser visto gratuitamente, e se o leitor ainda não teve esse prazer, a minha recomendação é para que o faça em breve, pois é um documento maravilhoso e sim, Jane Mansfield, está eternizada em sua beleza inacreditável.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" através do seu volume III e a leitura pode ser feita a partir da página 393.