quarta-feira, 17 de abril de 2013

TV Record, Padrão de Excelência nas Décadas de 1950 e 1960 - Por Luiz Domingues

A TV Record de São Paulo, foi fundada oficialmente em 27 de setembro de 1953, e teve como o seu patrono, o empresário, Paulo Machado de Carvalho.
Foi a terceira emissora de TV criada na praça de São Paulo, para tornar-se a nova concorrente das duas emissoras já existentes na ocasião : TV Tupi (1950) e TV Paulista (1952). Entrou no mercado com muita determinação, ao desejar empreender uma atuação de TV com qualidade, com programação bastante eclética e apuro técnico de ótimo padrão, ao considerar-se os investimentos iniciais com equipamentos de ponta para os padrões da época, fora as instalações físicas das quais dispunha e pela contratação de técnicos e artistas com alto gabarito profissional. Se por um lado, a TV Tupi já estava sedimentada e apoiada pelo poder de fogo dos Diários Associados, controlados pelo empresário, Assis Chateaubriand, a outra concorrente, a TV Paulista, mantinha-se com parcos recursos, todavia, esforçava-se ao máximo, ao usar de muita criatividade e na base do improviso, tinha uma interessante grade, com boas atrações.
Portanto, a TV Record entrou no ar, sob uma certa pressão, por saber que precisava trabalhar firme, para vencer os seus concorrentes, e claro, isso fora o início de uma disputa sadia, para  engrandecer a TV brasileira, que nessa época, apenas engatinhava. No dia da sua inauguração, o primeiro programa exibido foi um musical, conduzido por Sandra Amaral e Hélio Ansaldo.
Talvez tenha sido um prenúncio do quanto a música seria bem tratada nessa emissora, nos anos vindouros.
Mas os esportes também revelar-se-iam muito importantes nessa emissora. Sem dúvida, por conta de uma pessoa dotada de espírito esportivo, Paulo Machado de Carvalho, como dono e mentor, não poderia ser diferente e para quem não sabe, ele seria, anos depois, o chefe da delegação brasileira nas vitoriosas campanhas realizadas nas Copas do Mundo de futebol, em 1958 e 1962, e a sua biografia já foi enfocada, em um outro texto de minha autoria, basta procurar no arquivo deste meu Blog.
Na primeira foto, José Geraldo de Almeida. Em relação à segunda, trata-se do grande locutor esportivo, Raul Tabajara, e esta foto foi um oferecimento de seu filho, Emílio, que gentilmente cedeu-me esse material de seu acervo familiar

Segundo consta na história da TV brasileira, a primeira "Mesa Redonda", protagonizada por jornalistas esportivos, para analisar o futebol, foi criada na TV Record, em 1954, com a liderança de José Geraldo de Almeida e Raul Tabajara.
Na linha infantil, os palhaços, Arrelia (interpretado pelo grande, Waldemar Seyssel), e Pimentinha (Walter Seyssel, sobrinho de Waldemar), colocaram o seu famoso :"Circo do Arrelia" no ar, para alegrar as crianças nas manhãs de domingo.
O humorista, Manoel de Nóbrega, trouxe o seu programa radiofônico, "Praça da Alegria", para conquistar um enorme sucesso na linha do humor popular.  

Ainda nos anos cinquenta e a atravessar pelos anos sessenta, tornou-se praxe da TV Record, apresentar artistas internacionais de destaque e transmitir ao vivo os seus shows. Esse padrão de qualidade musical tornou-se a marca registrada da simpática emissora e entre tantos astros, destacaram-se : Charles Aznavour; Louis Armstrong; Bill Halley and His Comets; Ray Charles; Nat King Cole; Marlene Dietrich, Sarah Vaughan etc.
Um programa que também fez história, foi o "Show do Dia 7", apresentado pelo jornalista, Blota Junior, e tratava-se de uma revista diversificada, a conter música; sketches de humor e teatro; entrevistas com personalidades e outras variedades, apresentado uma vez por mês, com pompa e circunstância, sempre no dia 7, em uma agenda móvel, a fim de privilegiar o número que a estação usava no dial televisivo, em São Paulo.

Houve época onde as manhãs de domingo mobilizavam a cidade inteira. Foi a fase da Grande Gincana Record, uma espécie de reality show pré-histórico, com equipes formadas pelos bairros da cidade, a enfrentar-se em torno de uma série de provas. Outro programa que mexia com os brios cívicos da criançada e adolescentes, foi o Festival de fanfarras escolares, onde os colégios públicos e particulares esmeravam-se para causar boa impressão, em desfiles transmitidos ao vivo, direto do Vale do Anhangabaú.

Um comunicador que veio do rádio, chamado : Abelardo Barbosa, iniciou uma bela trajetória quando estreou o seu programa : "A Hora do Chacrinha", na emissora paulista.
Outro programa infantil que teve enorme sucesso nos anos sessenta, foi "Pullman Jr.", obviamente patrocinado por essa indústria panificadora. A linha de desenhos animados estrangeiros, que a emissora exibia, foi a da melhor safra de sua época, ao popularizar em larga escala as produções dos estúdios Hanna-Barbera, norteamericano.
Com a condução da então mocinha, Cidinha Campos, e de Durval de Souza, esse programa durou dezesseis anos no ar, para encantar as crianças e formar uma geração de consumidores de pães e bolos e a inevitável mania para colecionar os talheres de plástico coloridos que vinham encartados nas suas respectivas embalagens (quem foi criança na década de sessenta, sabe do que falo...).

Tudo isso foi muito marcante, todavia, foi no campo da música que a Record teve os seus melhores momentos, nessas décadas de ouro de sua história. Muitos programas sensacionais foram criados e entraram para a história, não só da televisão brasileira, mas da música, igualmente.
Por exemplo, "O Fino da Bossa", onde a nata da MPB apresentou-se e como se não bastasse tais aparições sensacionais, o casal de apresentadores foi formado por Elis Regina e Jair Rodrigues.

E muitos outros programas surgiram : "Essa Noite se Improvisa"; "Alianças para o Sucesso"; "Caras e Coroas"; "Guerra é Guerra"; "Show em Si... Monal"; "Corte Rayol Show", "A Hora do Bolinha" etc. Outro programa, a centrar o foco na Velha Guarda da MPB, chamou-se : "Bossaudade". Com Elizete Cardoso e Ciro Monteiro como apresentadores, foi um espaço muito importante para artistas veteranos, ao atingir um público mais velho.
E o contraponto foi um estouro, ao gerar-se até um movimento estético / comportamental. Para extrapolar as expectativas mais otimistas de seus produtores, a "Jovem Guarda" tornou-se um fenômeno, que trouxe um glamour enorme e abriu o caminho para outras plataformas de receitas possíveis, quando o incipiente marketing começou a ser exercido como agente agregador.
Como se não bastasse esse frenesi nas ditas "jovens tardes de domingo", a TV Record mergulhou forte no universo dos festivais de MPB.
A repercussão histórica de seus festivais, revelou ao grande público, artistas que instantaneamente tornaram-se ídolos da nova MPB, e tal sucesso retumbante inspirou outras emissoras a criar os seus respectivos festivais, e quem ganhou com isso, foi a música popular brasileira.  

No campo da polêmica, a TV Record criou o sinistro, "Quem Tem Medo da Verdade" (?), para combater o "Pinga-Fogo", da concorrente, TV Tupi.
Extremamente tenso e polêmico, tal programa teve o objetivo em sabatinar personalidades de diversas áreas da sociedade, mas geralmente ao centrar os seus esforços em artistas populares, sob uma fórmula de inquisição agressiva. Entrou para a história, como uma espécie de julgamento moral, muito pesado, portanto polêmico. Artistas tais como : "Zé do Caixão"; Grande Otelo; Roberto Carlos, e outras personalidades, foram "julgadas" sob um clima tenso, e até mal educado, para causar um desconforto, mas que agradava o público, exatamente por isso.

Na linha de filmes e séries internacionais, a Record chegou em um ponto em que deteve as melhores opções do mercado.


A grades, vespertina e noturna, foram recheadas das melhores produções internacionais, e houve um momento onde a TV Record inovou, ao trazer atores internacionais para entrevistas, a fim de promover séries de sucesso. Causou furor, por exemplo, quando o ator, Jonathan Harris, que interpretava o sensacional, "Dr. Smith", da série, "Lost in Space" ("Perdidos no Espaço"), sentou-se no famoso sofá da entrevistadora, Hebe Camargo, e conheceu nessa ocasião, o seu dublador brasileiro, o saudoso e genial ator, Borges de Barros.
Outro programa na linha do humorismo e que entrou para a história, foi : "A Família Trapo". Tal atração seguiu a linha de uma encenação teatral ao vivo, ao mostrar a vida de uma família completamente maluca. Com texto escrito por Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega, foi hilário e marcou época.
No campo da dramaturgia, a Record também teve atuação de destaque, embora nunca tenha sido o seu carro chefe. Entre pequenas produções ao estilo "sitcom", encenações teatrais adaptadas e novelas, propriamente ditas, a TV Record teve a sua colaboração, também.

Contudo, os anos de ouro da TV Record estavam por encerrar-se. Vítima de um incêndio |(jamais explicado adequadamente, inclusive), a TV Record obteve um prejuízo muito além do financeiro.
O início dos anos setenta marcou os primeiros anos em termos de dificuldade financeira e decadência artística. Com a ascensão meteórica da TV Globo, e a sedimentação da TV Bandeirantes, a TV Record já não conseguia manter o padrão de excelência dos anos anteriores e modestamente, pôs-se a cair. Já sem a possibilidade para manter uma grade de programas musicais com aquela qualidade de outrora, já não conseguia manter um departamento de jornalismo e esportes competitivo. Tampouco conseguia comprar as melhores séries e desenhos animados internacionais e a sua dramaturgia não pôde mais acompanhar o nível da TV Globo, e nem mesmo da TV Tupi.
Arrastou-se, portanto e assim viveu com lampejos de criatividade, para contentar-se em ser a quarta, às vezes quinta emissora no ranking de audiência, ao perder muitas vezes para emissoras com menor porte como a TV Gazeta, e também para a estatal, TV Cultura. Nos anos oitenta, boatos sobre sua precariedade financeira deram a entender que a empresa poderia fechar as suas portas em qualquer instante. Sem saída, a família, Machado de Carvalho, não teve outra alternativa, portanto, no início dos anos noventa, teve que vender a emissora para um grupo religioso que a domina desde então. Entretanto, os anos de ouro da emissora ficaram mesmo nas décadas de 1950 e 1960, sob a condução de Paulo Machado de Carvalho, sem dúvida, como emissora laica, sem vínculos religiosos.

Resta-me acrescentar que eu tenho algumas ligações pessoais com a TV Record. Em 1970, eu tinha dez de idade e o meu pai conheceu uma pessoa envolvida na produção de shows e dramaturgia da TV Record. Segundo essa senhora, a emissora estava a procurar crianças da minha faixa etária, para participar do programa do ator / cantor / comediante, Moacyr Franco.
Foi ao final do ano de 1970, e lá fui eu participar do programa : "Moacyr Franco Show," gravado no palco do Teatro Paramount. Eu participaria de um sketche de humor, onde ele, Moacyr interpretava um de seus personagens famosos, o mendigo ("hey, você aí : me dá um dinheiro aí"...). Um grupo de crianças precisava interpretar os seus muitos filhos, e a atuação revelou-se bem simples, com as crianças apenas a precisar fingir euforia, ao receber presentes de natal do pai, e depois ficarem tristes, quando o dono da loja retirava-lhes os respectivos embrulhos, por alegar que o pai não poderia pagar por eles.
Foi na verdade uma sketch bem "chaplineana", pois o elemento da tristeza pela dificuldade sócio / financeira, fez-se presente, para emocionar, ou pelo menos, tentar provocar tal reação ao telespectador e também ao espectador ao vivo no teatro, durante a gravação do programa. Nessa atuação, eu estive acompanhado de um primo meu, pois o meu pai culminou em providenciar uma vaga para mais um menino. O pessoal da produção gostou de nós dois, como "atores", e convidou-nos para atuar em mais uma edição do programa, na semana seguinte. O meu primo adoeceu, e perdeu a chance, mas eu fui.
Desta feita, participaríamos de um número musical. A ideia foi cantar junto com o Moacyr Franco, em volta de um piano.  A canção, só fomos aprender quinze minutos antes do programa iniciar-se. Foi uma balada melodramática com sabor bem popularesco, ao estilo do Moacyr (reconheço que ele canta bem, mas o seu espectro sempre foi o popularesco, na base do forte apelo às camadas mais simples da população).
Foi muito constrangedor para a maioria das crianças, meninos e meninas perdidos (eu incluso), sem saber o que fazer diante de uma canção que não conhecíamos. Mas, a contrapartida foi que eu adorei conhecer os bastidores do teatro, com a coxia cheia de figurantes; dançarinas e técnicos em frenesi; ao parecer uma balbúrdia, com tudo sendo improvisado longe dos olhos da plateia. Apesar dessa atuação apagada (confesso, sem conhecer a música, fingi estar a cantar na maior parte do tempo e mal consegui sorrir para os meus pais que estavam alojados em um camarote bem perto do palco, tamanho o meu constrangimento...), recebi o convite para fazer um teste, para atuar como ator mirim em uma novela que entraria no ar, em 1971.


Seria uma adaptação do texto : "O Príncipe e o Mendigo", e os então jovens atores, Kadu Moliterno e Nádia Lippi, seriam os protagonistas. Cheguei a receber um script para decorar, mas desisti da empreitada, pois atuar como ator, definitivamente não seria a minha vocação, nem que eu desejasse isso e além do mais, nunca foi o caso.

Muitos anos depois, eu tive novos contatos com a TV Record, entretanto, por atuar na minha área, a música. Entre 1984 e 1986, participei de programas, ao atuar com duas bandas onde eu fui componente naquela década : A Chave do Sol e Língua de Trapo.
Lembro-me de atuações em programas femininos vespertinos, ao empreender as indefectíveis "dublagens" e uma atuação especial, em um programa chamado : "Frente Jovem", gravado no Palácio das Convenções do Anhembi, onde A Chave do Sol atuou junto aos Engenheiros do Hawaí; Hanoi-Hanoi, e pasmem... Menudo...todavia, essa história eu conto posteriormente, na plataforma correta (está publicada com detalhes nos meus Blogs 2 e 3). Em suma, a TV Record teve a sua importância fundamental na história da TV brasileira e fez muito pela cultura, em seus anos de ouro.


Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Pedra - Dia 17 de abril - Quarta-Feira - 21:00 h. - Bourbon Street




Pedra & Suman Brothers

Dia 17 de abril de 2013

Quarta-Feira

21:00 h.

Festa da Revista Blues'n Jazz

Bourbon Street

Rua dos Chanés, 127

Moema

São Paulo / SP

Cadastre-se no Site da Revista Blues'n Jazz e obtenha 50 % de desconto no valor da entrada !!

www.bluesnjazz.com.br

Pedra :

Xando Zupo - Guitarra e Voz
Rodrigo Hid - Guitarra, Voz, Teclados e Violões
Ivan Scartezini - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo e Voz

terça-feira, 9 de abril de 2013

Paul Robeson, Um Homem Notável, Todavia Esquecido - Por Luiz Domingues


Não resta dúvida de que na cultura norteamericana centrada entre os anos cinquenta e sessenta, surgiram grandes ícones negros, principalmente nos esportes e nas artes. Para que houvesse um Cassius Clay, muitos pugilistas brilharam antes e na mesma proporção, quando talentos dramatúrgicos como Harry Belafonte e Sidney Poitier explodiram nas telas de cinema, certamente foi fundamental que houvesse existido antes, Paul Robeson. Quem ?

Pois é, se nem na América do Norte, onde a cultura popular costuma preservar os seus ídolos, ele é muito lembrado, imagine se no Brasil alguém ouviu falar desse artista ? Quem foi Paul Robeson, afinal de contas ?

Nascido em 1898, Paul LeRoy Bustill Robeson era descendente de Igbos, uma tribo nigeriana. Sim, os seus antepassados chegaram na América do Norte sob a condição de escravos. O seu pai, foi um pastor presbiteriano, e a sua mãe falecera quando ele tinha apenas seis anos de idade.

Ao contrariar o script social sob extremo segregacionismo desses primeiros anos de século XX, Paul conseguiu concluir os seus estudos da High School (o ensino médio, no padrão norteamericano), e foi aceito em uma grande universidade, quando foi registrado como o terceiro homem negro na história, a frequentar e concluir um curso universitário. Formou-se advogado pela Universidade de Columbia, uma das maiores universidades norteamericanas e do mundo. Paralelamente, destacara-se também nos esportes e assim, rapidamente tornou-se o destaque do time de futebol americano da Universidade.

Esse destaque foi tão grande que após formado, tornou-se um jogador de futebol americano, profissional, ao disputar a principal Liga do país, e com o destaque em ser um grande craque nesse esporte. Jogou nas equipes do Akron Pros e Milwaukee Badgers. Não satisfeito em ser craque no futebol americano profissional, também jogou basquete, e foi técnico dessa outra modalidade esportiva. Contudo, havia também a verve artística dentro dele...
Cantor; ator e escritor de enorme talento nas três atividades, Paul Robeson destacou-se por ser um ator extraordinário, que rapidamente saltou das montagens amadoras para os palcos da Broadway.
Por atuar em diversas montagens, chamou muito a atenção, a sua interpretação para o personagem, Otelo, de Shakespeare. Com atuação muito elogiada, foi parar na Inglaterra, onde impressionou nos palcos de Londres, ao interpretar Shakespeare para o público natal da terra desse autor genial. E logo notou-se também a sua voz extraordinária, que foi explorada ao atuar em montagens musicais, quando o seu potencial vocal foi exaltado.
Com voz no registro barítono; afinação perfeita e emissão estrondosa, Paul Robeson brilhou em musicais, como por exemplo : Porgy e Bess, de Ira Gershwin. Não demorou e o cinema o convocou, primeiramente para atuar em : "O Imperador Jones", onde gerou muita polêmica o fato de seu personagem assassinar um homem branco na história.  


Já em "Magnólia - Barco das Ilusões" ("Showboat"), uma adaptação do musical encenado com sucesso nos palcos da Broadway, a sua interpretação visceral do clássico do Blues, "Old Man River", arrebatou multidões nas salas de cinema. De voltando à Inglaterra, viveu por lá alguns anos e protagonizou mais de dez filmes com produção britânica.

Retornou então aos Estados Unidos, quando aproveitou a sua fama como artista e ex-atleta bem sucedido, ao perceber que poderia ser mais incisivo ao expressar as suas fortes opiniões políticas e protestar contra o vergonhoso segregacionismo contra os negros na sociedade. Contudo, em um ambiente hostil, ao final dos anos quarenta e início dos cinquenta, ainda não havia nenhum indício de que tal situação mudaria no país, para promover o fim de tais diferenças sociais, e assim tornar igualitários os direitos civis para as pessoas negras.

Concomitantemente, foi nessa época que floresceu o pesado  "Macartismo", liderado pelo arbitrário senador, Joseph McCarthy. Com métodos inspirados certamente em exemplos autoritários, McCarthy passava por cima dos direitos civis, ao ignorar a constituição e dessa forma, exercer toda a pressão para forjar falsas confissões e afins.
Ao perseguir artistas e intelectuais, principalmente, McCarthy viu em Paul Robeson, um prato suculento para a sua voracidade brutal. Homem negro; artista e intelectualizado; culto e cultuado, a falar em direitos iguais entre brancos e negros, ele tornou-se um dos alvos de sua particular caça às bruxas.
Bastante atacado e perseguido, Paul Robeson viu a sua carreira declinar, graças à perseguição, e em um momento onde a carreira musical havia tornado-se o carro chefe de suas atividades, a emendar sucessos e grande vendagem de discos, decorrente disso.
Contudo, somente em 1958, ele pode retomar a sua carreira, ao livrar-se da perseguição do obstinado, McCarthy, porém, nessa altura, Robeson havia perdido terreno artístico, e já estava em fase de debilidade adquirida devido aos seus problemas de saúde. A sua última aparição pública ocorreu em 1965, e nos seus últimos tempos, ele preferiu aposentar-se, e veio a falecer em 1976.
Paul Robeson foi um artista dotado de uma versatilidade incrível; atleta profissional de alto nível; um advogado culto e um ativista político de muita coragem, em uma época onde defender ideais de igualdade, fora muito perigoso na América do Norte. Ele certamente abriu caminho para que muitos outros talentos pudessem brilhar depois dele e caiu em um inacreditável esquecimento, descabido ao meu ver.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Wesley Duke Lee, Um Artista Além de Seu Tempo - Por Luiz Domingues


Wesley Duke Lee foi filho de pai norteamericano e mãe brasileira, e esta, filha de portugueses. Nascido ma cidade de São Paulo, no ano de 1931, e batizado com nome de "gringo", como tantos aqui nascidos, oriundos de colônias estrangeiras na cidade. Com o desenho a constar no seu DNA (seu pai fora um exímio desenhista, e o avô, idem), desde pequeno demonstrara talento nato e dessa forma, foi participar de um curso livre de desenho, promovido pelo MASP (Museu de Arte de São Paulo), em 1951, ainda na sede antiga da Rua Sete de Abril, no centro da cidade. 
Já no ano seguinte, foi em busca de suas raízes yankees, ao deslocar-se para Nova York, onde estudou no Parson's Scholl of Design, e também no American Institute of Graphics Arts. Quando retornou ao Brasil, em 1960, Wesley já trazia como bagagem a influência recebida pelos primórdios da Pop Art, onde acompanhou diversos artistas dessa escola, de perto, tais como : Robert Rauschenberg; Jasper Johns e Cy Twombly, entre outros.

Em uma de suas primeiras manifestações nesse sentido, criou um dos primeiros "Happenings" de São Paulo, chamado : "O Grande Espetáculo das Artes". Logo a seguir, fundou com outros artistas plásticos, a "Rex Gallery & Sons", com a proposta de ser algo mais que uma galeria de arte tradicional, mas aberta à performances e criação de manifestos de vanguarda. 
Após um período vivido em Paris, onde estudou na "Academie de La Grande Chaumière", de volta à São Paulo, Wesley fundou o "Movimento Artístico Realismo Mágico", com alguns feitos computados no seu portfólio, como por exemplo, montar uma instalação na Bienal de Veneza. Quando o regime autoritário instaurou-se no Brasil, em 1964, Wesley foi preso, mas solto a seguir, continuou a criar obras muito críticas sobre a ditadura, para irritar os militares.
Foi voluntário em uma experiência ousada para a época, onde em uma clínica em São Paulo, tomava doses de LSD e pintava. Dessa experiência nasceram os seus trabalhos chamados como : "Lisérgica ! e "Da Formação de um Povo", onde criticava duramente o regime político em voga. Ainda nos anos sessenta, Wesley participou no MAC-USP, de um projeto denominado : "Phases", para seguir tal movimento que viera de Paris, e que teoricamente constituir-se-ia de uma fase nova do surrealismo.

Nos anos oitenta, Wesley voltou à América e ao buscar uma nova tendência, procurou no centro da empresa, Xerox, incorporar a sua arte às máquinas, quando trabalhou com copiadoras Polaroid, e nos incipientes computadores pessoais, a buscar novas alternativas nas artes gráficas. Já nessa época, consagrado e veterano, dizia-se influenciado pelo Dadaismo; Pop Art e publicidade. Em seus trabalhos, ele sempre deu importância à crítica sociopolítica, mas também gostava do erotismo.
Ao chegar em uma idade mais avançada, Wesley viu-se acometido pelo Mal de Alzheimer. Em 2006, realizou então, a sua última exposição individual em São Paulo.
Wesley deixou-nos em 2010, vítima de uma insuficiência respiratória. Talento brasuca; paulistano, com sangue Yankee e luso, Wesley Duke Lee deixou-nos um legado versado pela criatividade; senso crítico e apuro na busca de novas tendências, sem nunca abandonar as raízes, todavia.

Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mente Humana Sem Limites - Por Luiz Domingues




Há muito tempo a ciência vem a empreender estudos sobre o funcionamento da mente humana. Seja nos aspectos cerebrais e neurológicos, seja através do campo da paranormalidade, o fato é que avanços significativos são alcançados nas mais diversas pesquisas em curso, em inúmeras universidades importantes do mundo.
Não faz muito tempo, a USP, Universidade de São Paulo, anunciou avanços significativos no campo da comunicação telepática, ao envolver macacos. Uma experiência incrível nesse sentido, foi feita em conjunto com uma universidade chinesa. Mais recentemente, a Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, anunciou avanços nessa área, com a possibilidade de revolucionar o uso de próteses para pessoas com dificuldades de locomoção e manipulação de objetos, pelo uso dos membros superiores.
Ao usar a força do pensamento, uma mulher tetraplégica conseguiu comandar braços mecânicos, para desenvolver uma série de tarefas manuais, com um aproveitamento espetacular. Segundo os resultados de tal pesquisa, a mulher conseguiu usar os seus braços mecânicos com a desenvoltura de membros naturais, com articulações perfeitas, a mexer braços; punhos; dedos e dessa forma, para conseguir agarrar e manipular diversos objetos.
Para que tal ação concretizasse-se, os neurocientistas realizaram uma cirurgia para a implantação de eletrodos, conectados ao córtex. Após essa fase cirúrgica, houve um período sob treinamento com treze semanas, mas segundo os cientistas, após dois dias apenas, a voluntária já conseguiu movimentar o braço mecânico. Outra incrível constatação, deu-se quando perceberam que o braço mecânico não precisava estar acoplado ao corpo da voluntária, necessariamente.
Mesmo à distância, a voluntária conseguia emitir comandos mentais e o braço mecânico pode obedecê-la prontamente. O grande diferencial, segundo os cientistas, deve-se ao fato de usar-se o algoritmo de um computador tradicional, porém, ao mimetizá-lo ao padrão cerebral humano. Essa pesquisa revoluciona a questão do uso de próteses muito eficientemente para as pessoas com dificuldades motoras, sem dúvida, mas os cientistas querem mais e agora estão a buscar meios para que tais próteses tenham a devida sensibilidade ao calor e frio, ao visar aproximá-las ao máximo da natureza humana.

Enquanto as pesquisas com células-tronco ainda sofrem com a burocracia e os preconceitos de pessoas comprometidas com paradigmas pseudo éticos, ao menos nesse campo das próteses, avança-se, ao dar esperança para acreditar-se em dias melhores para as pessoas que necessitam desse tipo de apoio. E comemoramos sobretudo, esse tipo de progresso no estudo da potencialidade mental do ser humano, pois sabemos que esse estrato é ilimitado e assim, trata-se de mera questão de tempo para avanços ainda maiores vir à tona, com a comprovação científica de sua realidade.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013