Sempre existiu alguma pessoa que exagerou no volume do Hi-Fi caseiro, para causar incômodo na vizinhança.
Claro, não trata-se de uma regra geral, mas mesmo em proporção muito menor, sempre houve a figura do vizinho petulante que pouco a importar-se com os demais, gostava de colocar o volume sob um patamar acima do aceitável e assim obrigar todos a ouvir as suas músicas prediletas.
Em uma segunda fase dessa mobilidade de tecnologia de áudio, tornou-se uma tendência entre os norteamericanos, andar, literalmente, com rádio / gravadores mastodônticos alojados sobre os ombros, cena usual em filmes norteamericanos policiais da década de setenta, principalmente os versados pela estética do "Blaxpoitation".
Na década de oitenta, o Walk-Man tornou-se companheiro dos yuppies e cocotas em geral, durante as caminhadas pelas ruas, porém com a devida discrição em ser usados com fones e dessa forma, teoricamente, não incomodar ninguém. Com a entrada da telefonia celular e consequente e rápida sofisticação de tais aparelhos, outra possibilidade abriu-se, com o advento dos aplicativos e daí, começou a Era marcada pela vontade para fotografar; filmar e ouvir música, o tempo todo pelas ruas.
O que deveria ter sido uma distração lúdica, veio a tornar-se um tormento generalizado em lugares públicos.
Em lugares públicos fechados; meios de transporte e praticamente em toda a parte, o silêncio tornou-se raro e a mistura de sons e zoeira provocada por muitas pessoas ao abusar do volume, tornaram o ato de sair às ruas, um momento neurótico a mais no ambiente urbano, já para lá de poluído e tenso.
Em recente pesquisa realizada pelo Metrô de São Paulo, os números são alarmantes, pois a somatória de centenas de pessoas a ouvir música com volume alto, chega em um patamar de decibéis absurdo, para causar danos à audição, além do aspecto do elemento psicológico altamente nocivo, decorrente de tal costume.
Segundo relatos, há ocorrências de discussões entre passageiros, por conta do volume abusivo e até "batalhas sonoras", perpetradas por gangues, pasmem...
O que há de concreto, é que o Metrô de São Paulo abriu marcação pesada sobre pessoas que abusam desse artifício, o mesmo a acontecer em diversos estabelecimentos comerciais, que buscam coibir tal abuso. Uma determinação é certa : em uma sociedade plural como a em que vivemos, existem pessoas oriundas de diversas camadas sociais e com estrato cultural diferenciado, a conviver juntas.
Nesse caso, o bom senso aconselha a observar-se a regra em estabelecermos a nossa liberdade, até o limite onde começa a do vizinho.
Isso vale para todas as circunstâncias da vida, não só para a emissão de ruídos.
Portanto, para quem não abre mão de ouvir a sua música predileta em um volume ensurdecedor, é de bom alvitre, que use portanto, o bom e velho fone de ouvido...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste meu primeiro Blog, reúno a minha produção geral e divulgo as minhas atividades musicais. Não escrevo apenas sobre música, é preciso salientar ao leitor, pois abordo diversos assuntos variados. Como músico, iniciei a minha carreira em 1976, e já toquei em diversas bandas. Atualmente, estou a trabalhar com Os Kurandeiros.
terça-feira, 12 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
Belmonte, o Caricaturista que irritou Goebbels - Por Luiz Domingues
O Brasil mantém uma tradição em revelar grandes caricaturistas; desenhistas e chargistas, desde muito tempo. São inúmeros os grandes artistas que atuaram / atuam nesse ramo que mistura a arte com o jornalismo, a envolver a crítica de costumes, denúncia sociopolítica e tudo regado à fina ironia de seus criativos criadores.
Um desses artistas geniais foi sem dúvida, Belmonte. Nascido Benedito Carneiro Bastos Barreto, na cidade de São Paulo, em 1896, e apelidado como, "Belmonte", foi um rapaz de origem humilde e muito tímido. Com talento nato para o desenho, Belmonte teve chance em de ter desenhos seus publicados em revistas como, "Rio Branco" e "Miscellânea", e graças a tal notoriedade inicial, recebeu convites para desenhar para revistas maiores, tais como "Don Quixote" e "Zig-Zag".
Estudou para ingressar na faculdade de medicina, e no dia de seu exame para a admissão, foi remar no lago do Parque da Aclimação (localizado no bairro homônimo da zona sul de São Paulo) e o que pareceu ser uma sandice de sua parte, na verdade foi uma tomada de decisão : ele queria mesmo era trabalhar com o jornalismo. Em 1921, Belmonte foi contratado para fazer ilustrações para um jornal novo que surgia em São Paulo, denominado "Folha da Noite", que foi o embrião primordial da atual, "Folha de São Paulo".
Já consagrado nas páginas desse periódico, criou então um personagem que cairia no gosto popular. Tratou-se de "Juca Pato", um personagem construído como um homem conformado com as falcatruas dos poderosos, notadamente dos políticos.
Por ser um homem tímido e avesso às reivindicações, aceitava tudo passivamente e dessa forma, Belmonte criou duas características muito marcantes para o personagem : 1) ele era careca, pois perdera os cabelos de tanto "tomar na cabeça" e 2) o seu bordão era : "podia ser pior"... dessa forma, Juca Pato foi a representação do povo, constantemente vítima das manobras dos poderosos. Belmonte denunciava as falcatruas e deliciava os seus leitores com essa sarcástica forma de protesto velado. Incomum para aquela época, o personagem fez tanto sucesso, que gerou diversas ações de marketing. "Juca Pato", tornou-se uma autêntica febre, ao ser retratado em estampas de cadernos escolares; xícaras; papel de balas e confeitos; embalagem de água sanitária e até foi tema de marchinha de carnaval. Um bar foi aberto em São Paulo, com o nome, "Juca Pato" e tornou-se instantaneamente um ponto de encontros para jornalistas; artistas e intelectuais.
Belmonte também tornou-se ilustrador de livros. A sua colaboração nos livros de Monteiro Lobato, são notáveis, além de ilustrações para outros escritores, Eça de Queiroz entre eles, com as ilustrações de seu clássico, "O Primo Basílio", que fez muito sucesso. Com a a introdução da ditadura de Getúlio Vargas, Belmonte foi muito perseguido e vigiado de perto pelo "DIP", o famigerado órgão repressivo a serviço da espionagem daquela ditadura.
Quando o nazismo ascendeu e estourou a II Guerra Mundial, Belmonte centrou as suas baterias contra o nazi-fascismo que assolara a Europa. Em 1945, às vésperas da queda definitiva do nazismo, o terrível Ministro da Propaganda e braço direito de Hitler, Joseph Goebbels, fez um discurso inflamado pela Rádio de Berlim, a atacar violentamente Belmonte. Por incrível que pareça, em uma época permeada pela divulgação primitiva, as caricaturas de Belmonte a ironizar o nazismo, haviam corrido o mundo e chegaram às mãos da cúpula nazista, para irritá-los, profundamente.
Em tal discurso, Goebbels disse ser essa propaganda uma ação perpetrada pelos aliados para fazer lavagem cerebral anti-nazismo e que pior, o artista Belmonte, seria um corrupto por ter prestado-se à esse serviço, a troco de dinheiro...
Também hábil com as letras, Belmonte lançou livros de contos e crônicas. Em 1935, por exemplo, lançara : "Ideias de João Ninguém" e alguns trabalhos no campo da história, como : "No Tempo dos Bandeirantes"; "Brasil de Outrora" e "Costumes da América Latina". Eu, Luiz Domingues, conheci o trabalho de Belmonte em 1968, quando o meu avô materno mostrou-me o livro "No Tempo dos Bandeirantes" e uma coletânea de charges da "Folha da Noite", que ele possuía desde os anos quarenta.
Gostei imensamente desses trabalhos e o meu avô que era um entusiasta de Belmonte, encantou-se com o meu interesse infantil e incentivou-me, ao contar-me histórias sobre "Juca Pato" e também sobre o próprio, Belmonte e a sua luta contra o nazismo. "Juca Pato", aliás, tornou-se o nome de um prêmio tradicional, conferido pela União Brasileira de Escritores, aos melhores do ano. Existe desde 1962, ao tratar-se de uma premiação importante no meio literário brasileiro.
Belmonte faleceu em São Paulo, em 1947, vítima da tuberculose. E ao contrário do que Goebbels insinuou, morreu com parcos recursos, ao não deixar nenhuma herança para a sua viúva e um casal de filhos. Revela-se esquecido nos dias atuais, contudo, é um grande nome da caricatura / charge / ilustração, e por tal trabalho magnífico que realizou, merece sempre a reverência.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2013
quarta-feira, 6 de março de 2013
Kircher, o Inquieto Experimentador - Por Luiz Domingues
Acaba de ser lançado um interessante livro, "A Man of Misconcenceptions : The Life of an eccentric in an age of Change ("Um Homem de equívocos : A Vida de um excêntrico em uma Era de Mudanças").
Trata-se da biografia de um homem chamado : Athanasius Kircher, um padre jesuíta de origem alemã, que viveu no século XVII. Desde criança, Athanasius Kircher demonstrara possuir interesse por diversos assuntos e assim, enveredou por estudos sobre matemática; filosofia; biologia; acústica; magnetismo;, astronomia e outras matérias.
Mesmo depois de ordenado padre, os seus estudos prosseguiram com muito entusiasmo e ainda muito jovem, já tinha diversos trabalhos concluídos sobre assuntos variados e mais que isso, ao revelar-se um autêntico cientista portanto em contraste com a sua condição sacerdotal (em tese, pela mentalidade opressora da Igreja à época), fez muitos experimentos e criou inventos. Nessa biografia recém lançada nas livrarias, são inúmeras as curiosas peças por ele inventadas. Muitas são absolutamente geniais; outras são surpreendentes pois anteciparam os rudimentos de outras que seriam inventadas definitivamente depois, por outros inventores e algumas são exóticas ao extremo.
Por conta das invenções absurdas, Kircher culminou em ser injustiçado por muito tempo, isso porque foi ridicularizado e claro, ganhou a fama de ter sido um lunático incorrigível. Kircher fez muitos estudos por exemplo, sobre o aperfeiçoamento de microscópios e telescópios, que influenciaram outros pesquisadores, decisivamente.
Nesse campo, criou um objeto que denominou como : "lanterna mágica". Nele, conseguia de forma ainda que primitiva, criar a ilusão de movimentos em ilustrações. Esse invento rudimentar foi sem dúvida o precursor remoto do projetor cinematográfico, que só viria a ser criado ao final do século XIX, de fato.
Portanto, é inacreditável que Kircher tenha pensado em algo assim, em pleno século XVII. No campo do magnetismo, Kircher fez muitos estudos. Obcecado por conhecer a fonte de magnetismo do planeta, chegou a aventurar-se em um perigosíssimo rapel, dentro do vulcão Vesúvio, na Itália.
Um invento seu entrou para o anedotário e hoje em dia causa repulsa aos defensores de animais (aliás, com toda a razão) : Kircher concebeu um piano que não possuía cordas. O músico usaria um teclado normalmente, mas o som obtido pelo bater das teclas, seria produzido pelo gemido extraído de gatos vivos, cujos respectivos rabos eram puxados, conforme a tecla fosse acionada. Todavia, não foi apenas com excentricidades que Kircher contribuiu com a música. Ele fez também estudos de acústica e amplificação de sons, que muito ajudou a desenvolver a engenharia, para desenvolver e muito a música, naturalmente.
No campo da biologia, fez inúmeros estudos e relacionou a peste bubônica à micro-organismos encontrados em cadáveres. Estudou línguas do extremo oriente, ao realizar estudos morfológicos comparativos.
Segundo consta em sua biografia, Kircher teria deixado quarenta e quatro livros, com os seus estudos. No livro recém lançado, com a sua biografia, uma observação final chamou-me a atenção : o autor, John Glassie, declarou que a despeito dos acertos, as inúmeras experiências fracassadas, também deram enorme contribuição à ciência.
Sim, grande verdade da ciência, o princípio de tentativa e erro é ainda o melhor método, desde o tempo da invenção da roda. Admirável a vida e obra de Athanasius Kircher, apesar da crueldade com a qual lidou com os nossos amigos felinos...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013
Trata-se da biografia de um homem chamado : Athanasius Kircher, um padre jesuíta de origem alemã, que viveu no século XVII. Desde criança, Athanasius Kircher demonstrara possuir interesse por diversos assuntos e assim, enveredou por estudos sobre matemática; filosofia; biologia; acústica; magnetismo;, astronomia e outras matérias.
Mesmo depois de ordenado padre, os seus estudos prosseguiram com muito entusiasmo e ainda muito jovem, já tinha diversos trabalhos concluídos sobre assuntos variados e mais que isso, ao revelar-se um autêntico cientista portanto em contraste com a sua condição sacerdotal (em tese, pela mentalidade opressora da Igreja à época), fez muitos experimentos e criou inventos. Nessa biografia recém lançada nas livrarias, são inúmeras as curiosas peças por ele inventadas. Muitas são absolutamente geniais; outras são surpreendentes pois anteciparam os rudimentos de outras que seriam inventadas definitivamente depois, por outros inventores e algumas são exóticas ao extremo.
Por conta das invenções absurdas, Kircher culminou em ser injustiçado por muito tempo, isso porque foi ridicularizado e claro, ganhou a fama de ter sido um lunático incorrigível. Kircher fez muitos estudos por exemplo, sobre o aperfeiçoamento de microscópios e telescópios, que influenciaram outros pesquisadores, decisivamente.
Nesse campo, criou um objeto que denominou como : "lanterna mágica". Nele, conseguia de forma ainda que primitiva, criar a ilusão de movimentos em ilustrações. Esse invento rudimentar foi sem dúvida o precursor remoto do projetor cinematográfico, que só viria a ser criado ao final do século XIX, de fato.
Portanto, é inacreditável que Kircher tenha pensado em algo assim, em pleno século XVII. No campo do magnetismo, Kircher fez muitos estudos. Obcecado por conhecer a fonte de magnetismo do planeta, chegou a aventurar-se em um perigosíssimo rapel, dentro do vulcão Vesúvio, na Itália.
Um invento seu entrou para o anedotário e hoje em dia causa repulsa aos defensores de animais (aliás, com toda a razão) : Kircher concebeu um piano que não possuía cordas. O músico usaria um teclado normalmente, mas o som obtido pelo bater das teclas, seria produzido pelo gemido extraído de gatos vivos, cujos respectivos rabos eram puxados, conforme a tecla fosse acionada. Todavia, não foi apenas com excentricidades que Kircher contribuiu com a música. Ele fez também estudos de acústica e amplificação de sons, que muito ajudou a desenvolver a engenharia, para desenvolver e muito a música, naturalmente.
No campo da biologia, fez inúmeros estudos e relacionou a peste bubônica à micro-organismos encontrados em cadáveres. Estudou línguas do extremo oriente, ao realizar estudos morfológicos comparativos.
Segundo consta em sua biografia, Kircher teria deixado quarenta e quatro livros, com os seus estudos. No livro recém lançado, com a sua biografia, uma observação final chamou-me a atenção : o autor, John Glassie, declarou que a despeito dos acertos, as inúmeras experiências fracassadas, também deram enorme contribuição à ciência.
Sim, grande verdade da ciência, o princípio de tentativa e erro é ainda o melhor método, desde o tempo da invenção da roda. Admirável a vida e obra de Athanasius Kircher, apesar da crueldade com a qual lidou com os nossos amigos felinos...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 6 de março de 2013 - Quarta-feira - 21:30 h. - Magnólia Villa Bar - Lapa - São Paulo / SP
Kim Kehl & Os Kurandeiros
Dia 6 de março de 2013
Quarta-Feira - 21:30 h.
Magnólia Villa Bar
Rua Marco Aurélio, 884
Lapa
São Paulo - SP
KK & K :
Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Nelson Ferraresso - Teclados
Phil Rendeiro - Guitarra e Voz
Luiz Domingues - Baixo
Participação Especial : Alexandre Rioli - Teclados
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Nelson Ferraresso,
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Quarta Blues
sexta-feira, 1 de março de 2013
Filme : Pressure Point (Tormentos D'Alma) - Por Luiz Domingues
Sidney Poitier é mais que um ator sensacional, pois mesmo no início de sua carreira, ele já demonstrou isso claramente. É também extremamente corajoso, pois enfrentou papéis muito espinhosos por ser um ator negro, em meio a uma época onde a luta pelos direitos civis na América do Norte, esquentara.
E não foram poucos os filmes em que ele estrelou, ao mexer firme na ferida do preconceito racial, entre o final dos anos cinquenta, até a metade dos anos setenta, sempre com enorme dignidade artística e no tocante aos nobres ideais de justiça e igualdade entre os homens.
Em "Pressure Point" ("Tormentos D'alma"), Sidney deu mais uma contribuição contundente nesse sentido. O filme começa em um ponto do futuro, onde um jovem psiquiatra que atua em uma instituição prisional, consulta o seu colega veterano, para queixar-se sobre um jovem interno e infrator, incorrigível, segundo ele.
Peter Falk (que ficaria famoso anos depois ao interpretar o genial e mal ajambrado, inspetor Columbo, na série homônima de TV), interpreta esse jovem psiquiatra e o veterano é interpretado por Sidney Poitier, que começa a aconselhar o jovem colega e lembra-se de um intrigante caso que teve em início de carreira, vinte anos antes. O flashback conduz-nos a 1942, com o Dr. em questão ao ter que cuidar de um prisioneiro muito perturbado, interpretado pelo cantor / ator, Bobby Darin. O prisioneiro é um homem branco, com vinte e nove anos de idade e que fora preso por crime de sedição (atentados contra a estabilidade sócio-política de um país). O seu crime foi envolver-se com simpatizantes do nazismo e por atuar em ações pró-nazismo, às vezes, com pequenos atos de sabotagem, incluso entre as suas ações criminosas. No primeiro encontro entre o prisioneiro e o doutor, a reação do prisioneiro já dá mostras do que seriam as sessões, pois a sua gargalhada sarcástica ao deparar-se com um psiquiatra negro, diz tudo, em tese. Mesmo assim, o jovem psiquiatra não abala-se e com muita paciência contorna a situação, ao tentar trazer o prisioneiro para a sessão, propriamente dita. Um diálogo tenso e pleno de mordacidade é travado entre ambos, mas o psiquiatra mantém a sua postura terapêutica com tom de sobriedade. Sob uma primeira avaliação, é recomendado que o paciente / prisioneiro fique confinado, para evitar o convívio com outros detentos. Na cela, o prisioneiro tem surtos. Em uma impressionante tomada, vê a si próprio como um minúsculo homem pendurado nas bordas do ralo de uma pia, a pedir socorro à si próprio, mas o seu impulso psicótico é abrir a torneira e jogar o homenzinho pelo ralo abaixo. Passa então a ter convívio com outros detentos, mas as brigas são inevitáveis, por saber-se que ele é um nazista convicto. Em nova sessão, o Dr. começa a ganhar-lhe a confiança e na base da maiêutica, arranca-lhe informações sobre a sua infância. Em suas lembranças, o prisioneiro diz ser o responsável pelo sofrimento de um casamento falido. Por sua causa, graças a gravidez indesejada de sua mãe, e que odiava o pai por ser truculento; bêbado e o detestar por ter gerado esse casamento forçado. Seu pai, um açougueiro, sempre lhe vem à mente, em meio a pedaços cadavéricos de carne de bois e facões ameaçadores. Em um momento contraditório de seu discurso, o prisioneiro diz achar que os negros, mostram-se como um povo forte. Isso chama a atenção do Dr., que indaga-o sobre essa opinião, ao que ele responde-lhe : -"não tenho nada contra os negros, só desejo que eles voltem para a África". Uma resposta pela tangente, mas obviamente carregada pelo ódio implícito. Para ir além, diz odiar apenas os judeus, por "fingir-se de brancos e dessa forma, ser mais difícil detectá-los pelas ruas". Em outras sessões, ele consegue descrever fantasias do passado, onde criara um amigo imaginário, que fora um menino mudo e que servia apenas como uma espécie de saco de pancadas para ações de bullying de sua parte. Em outros delírios, via-se como um "soberano" com o poder da vida e da morte, ao oprimir outros meninos e até os seus pais. Na vida real, tornara-se líder de uma gang infantojuvenil formada por vândalos, ao promover arruaças e provocar prejuízos pela vizinhança. São impressionantes as cenas desses delírios oníricos, pois fundem-se à cena de ambos (prisioneiro e psiquiatra), no consultório, sem efeitos especiais, apenas com os atores das duas cenas a dividir o mesmo espaço cênico, como se fosse uma atuação em um palco de teatro. Isso gerou uma atmosfera sufocante, com uma carga dramática incrível. Certamente teve o dedo do produtor, Stanley Kramer em uma ideia dessas, pelo fato dele também ser um diretor com experiência no teatro, ou seja, deu a sua contribuição decisiva ao filme, nessas concepções. O prisioneiro demonstra incomum inteligência lógica e torna-se caixa do açougue de seu pai, onde não erra o troco para os fregueses. Mas sob um surto, por ver o pai a cortar aqueles pedaços de carne, briga e foge, para cair na vida, como diz-se popularmente. O Dr. queixa-se ao diretor do presídio, por não estar a conseguir cuidar desse caso, mas o diretor é incisivo : "enfrentei muita gente para bancar um psiquiatra negro neste presídio, não desaponte-me"... sem dúvida, que o racismo estava por todas as partes na América do Norte, até implicitamente em pessoas que julgavam não ser preconceituosas. Questão de conceito... ou preconceito... Ao seguir nas sessões, o prisioneiro conta passagens de sua juventude, como um pequeno criminoso e arruaceiro que revelou-se. O Dr. impressiona-se com a forma com a qual conta-lhe tais passagens, ao dar mostras de uma frieza que incomoda-o. Há algo além dos distúrbios psicológicos nesse paciente, algo que não entende, mas intriga-lhe, por considerar ser algum fator sombrio. De volta às reminiscências, o prisioneiro conta-lhe sobre uma fase onde resolveu sobreviver honestamente, ao vender maçãs pelas ruas. Em determinado dias de trabalho, ele conheceu uma garota que demonstrou interessar-se por ele. Era uma moça bonita e gentil, que comprou todas as suas maçãs com segunda intenção, e pediu-lhe para que ele as carregasse para ela, até a sua residência. Pediu-lhe a seguir que ele entrasse na casa, e o prisioneiro sentiu o ambiente de um lar bem estruturado e impressionou-se como um aspecto que nunca experimentara em sua vida. Sob um salto de tempo, o prisioneiro aparece a bater na porta, e nota-se que faz uso de sua melhor vestimenta, todavia, inapropriada para sair com uma garota oriunda de uma família burguesa. Eis que ele quando ele ouve o pai dela, aos gritos, dizer à sua filha, que a proibia em sair com um "mendigo". A seguir, vê na porta, um símbolo judaico, a denotar a origem daquela família.
Corte para o prisioneiro absorto em uma reunião organizada por nazistas, em um pequeno salão pobre de um bairro proletário. O discurso do palestrante hipnotiza-o. O homem fala que a América do Norte está oprimida por conta dos judeus que dominam os bancos; a política e toda a infraestrutura do país. Eles seriam os responsáveis diretos pela grande depressão de 1929, porém, uma luz vinda da Europa, trazia-lhes a esperança de uma América melhor...
Os olhos do prisioneiro parecem hipnotizados, com essas palavras que calaram fundo em sua personalidade recalcada e dessa maneira, alguém a dizer-lhe que tudo era culpa de um grupo de pessoas, deu-lhe a ferramenta para expurgar o seu ódio, contra um alvo fixo, finalmente um inimigo visível, portanto. De tal salão mequetrefe, esse grupo radical começa a crescer e assim angariar apoio e dinheiro. O movimento nazista dentro da América do Norte, causou repercussão, ao atacar sinagogas; lojas de comerciantes judeus; ações contra negros etc. Ao narrar as suas lembranças ao doutor, o prisioneiro empolga-se e diz : -"você tem o poder, e poder gera o medo e o medo gera o ódio"...
Em uma dessas ações de sabotagem, o prisioneiro foi pego e diagnosticado como um doente mental. Durante a realização das sessões, ele deixa claro que ainda sente-se em plena missão nazista, mesmo preso, e que a sua meta seria "doutrinar" pessoas brancas ali, para conduzi-las à causa. Fala então uma verdade assustadora para o doutor, ao fazê-lo enxergar que esse foi o medo que o psiquiatra tinha, e não soube detectar : o fato dele ser um doutor a cuidar de um doente branco, não significava que os negros tinham condições de igualdade na sociedade. -"nem em mil anos , vocês terão o poder"... diz o prisioneiro. É um verdadeiro soco no estômago que o filme desferiu em pleno ano de 1962, o que foi extraordinário para a tomada de consciência a respeito dos direitos civis, nos anos sessenta. Além de tocar-lhe pessoalmente como homem negro que é, o Dr. enxergou nesse momento o ponto para desvendar o caso e poder curar o seu paciente / prisioneiro. O homem que ele costumava ver na pia, a cair pelo ralo, era o seu pai e a vontade de matá-lo mostrava-se enorme, mas ele fraquejava e morria, quando abria a torneira e empurrava a si próprio, ralo abaixo. A seguir, aparentemente, o prisioneiro cura-se ao aceitar tal diagnóstico, que o livraria do trauma. Passa então a dormir regularmente, sem ser atormentado por aqueles surtos delirantes. Então, os diretores da prisão forma-se um consenso em conceder-se a sua liberdade condicional, mas o doutor nega um laudo a autorizar, por alegar que apesar da melhora apresentada pelo paciente, isso não significara a alta definitiva do tratamento e o prisioneiro ainda mantinha um grau de periculosidade para com a sociedade, por ser nazista convicto e nutrir ódio declarado aos negros e judeus. Os diretores irritam-se com tal parecer do psiquiatra e pressionam o doutor, que mostra-se irredutível em seu diagnóstico. Em uma última sessão, médico e paciente travam um diálogo ríspido e o prisioneiro mostra daí, a sua verdadeira face nazista, corroída por ódio racial. O Dr. mostra-se ofendido e o desafia para uma briga corporal. Entretanto, tratou-se na verdade de uma estratégia terapêutica, e depois do prisioneiro ter amansado, o Dr. reitera que ele ainda precisa de terapia e portanto, estava mesmo a negar-lhe a condicional. Sob uma entrevista incomum, o prisioneiro e os diretores da prisão, pressionam o doutor pelo laudo. Os diretores, leigos no campo da psiquiatria, deixam-se levar pelo aparente equilíbrio do prisioneiro, mas o doutor sabe que é apenas a dissimulação criada por uma mente doentia, ainda que com elevado grau de capacidade em termos de raciocínio lógico. O médico sente-se dessa forma, desprestigiado pelos diretores e resolve pedir demissão como psiquiatra da prisão, ao verificar que os diretores do presídio passariam por cima de sua decisão profissional. Cinicamente, o prisioneiro visita-o em seu consultório, para dizer-lhe que enganara a todos e assim, deu mostras de que teria fingido o tempo todo. Dissimulado, diz : -"em quem você acha que eles acreditariam ? Em um homem branco e doente que recuperou-se, ou em um negro" ? O doutor explode ao proferir um discurso duro. É um ponto crucial do filme, onde fica claro o posicionamento da obra, em prol dos direitos civis, e claramente tratar-se de um libelo contra o preconceito racial na América do Norte. Nesse ponto, o filme volta ao início, com o doutor envelhecido e pensativo, após narrar esse dilacerante caso profissional ocorrido em seu início de carreira. O jovem psiquiatra que o procurara com lamentos, está cabisbaixo e impressionado com o relato. O motivo pelo qual reclamava e alegava não saber lidar com o seu paciente, ficara pequeno diante dessa experiência pessoal vivida pelo doutor mais velho... Ao apanhar o prontuário de seu paciente, dá mostras que não desistirá do caso e ao sair do gabinete, diz ao veterano doutor : -"já sei como resolverei esse caso... vou pintar-me como um negro"... em uma clara reverência ao colega com tal característica racial. A resposta do experiente doutor é : -"não desaponte-me como um homem branco"... claramente a ironizar a barbaridade racista que ele mesmo ouvira quando jovem, emitida pela boca do diretor do presídio !
Bobby Darin foi um cantor Pop com sucesso, surgido para o grande público, ao final dos anos cinquenta.
Com talento para atuar como ator, pôs-se a seguir o caminho de outros cantores extraordinários que caminharam por essa mesma trilha, tais como Frank Sinatra e Elvis Presley. Em "Pressure Point", Darin foi corajoso ao aceitar protagonizar um papel forte e mostrou qualidades. Ele teve muitos sucessos na música ("Splish Splash", por exemplo) e a sua biografia pessoal é dramática, pois nascera com um grave problema cardíaco e desde pequeno, a sua mãe o incentivara a viver cada dia como se fosse o último.
Dessa forma, aprendeu a tocar vários instrumentos musicais; tornou-se um cantor / compositor dotado de sucesso; casou-se com uma atriz famosa (Sandra Dee), e quando já ele consagrara-se muito famoso como cantor e ator, viu-se em meio a um escândalo público, quando familiares seus revelaram-lhe que a sua irmã mais velha, era na verdade a sua verdadeira mãe, e não a avó que ele acreditara ser a sua mãe. Em uma época marcada por padrões morais conservadores, isso causou-lhe um enorme constrangimento, que praticamente destruiu a sua carreira.
E quanto a Sidney Poitier, como eu afirmei no início desta resenha, trata-se de um dos mais extraordinários atores da safra cinqenta / setentista. A sua filmografia é tão sensacional e vitoriosa, que cabe uma matéria, a focar exclusivamente em tal assunto.
"Pressure Point" é um filme realizado mediante parcos recursos de produção. Filmado em preto e branco, com cenários simples, destaca-se pela qualidade do texto, bem fundamentando, a destacar um assunto explosivo para a época. Tirante a mão firme do diretor, Hubert Cornfield, e a produção do grande, Stanley Kramer (e além dos dois atores protagonistas, é claro), eu destaco também a bela trilha sonora, com temas jazzísticos muito intensos, ao fornecer um clima lúgubre, que causa calafrios e portanto, serve muito bem para imprimir uma carga dramática ideal para o desenvolvimento da obra.
Obra muito interessante e que traz um painel esclarecedor sob o estrato do ódio racial, elemento execrável que ainda hoje em dia (2013), não podemos comemorar que esteja erradicado do planeta.


Notou o leitor, que em nenhum momento da resenha, eu citei os nomes dos personagens ? Pois é... neste filme, a proposta foi em não gerar-se nomes para nenhum personagem e espero que essa estranheza da obra, tenha também causado um efeito aqui no texto, para o leitor, instigar-se a assistir o filme !
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