quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Dia 10/4/2014 - Quinta-Feira / 20:00 h. - Sesc Piracicaba


Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada

Dia 10 de abril de 2014

Quinta-Feira - 20:00 h.

Show : Na Selva do Improvável

Sesc Piracicaba

Rua Ipiranga, 155 - Centro 



Piracicaba - SP

Entrada Gratuita - Ingressos disponibilizados uma hora antes do espetáculo

Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada:

Ciro Pessoa : Vocal e Textos
Isabela Johansen : Vocal
Kim Kehl : Guitarra e Vocal
Carlinhos Machado : Bateria e Vocal
Luiz Domingues : Baixo e Vocal

domingo, 6 de abril de 2014

Escolas Vocacionais, uma experiência incrível jogada no lixo... - Por Luiz Domingues

Que o Brasil esboça estar a melhorar sob o ponto de vista econômico, não resta dúvida, apesar das panes geradas pela má administração pública e do câncer crônico da corrupção vergonhosa, uma marca registrada pela índole moldada a partir de preceitos culturais errôneos e arraigados, há décadas, quiçá, séculos. No entanto, mesmo ao analisar-se apenas os aspectos positivos do crescimento do país, sempre esbarramos em algumas questões básicas que atravancam o progresso e o deslanchar do país para o grupo privilegiado que forma o primeiro mundo, enfim.

Um fator nesse sentido, versa pela falta de investimentos pesados e concretos em infraestrutura. Por décadas, isso foi postergado, e como o povo mostrava-se conformado com a eterna situação estagnada pelo subdesenvolvimento, vivíamos resignados com essa situação terceiro mundista em torno do atraso vergonhoso. Agora que o país parece estar a angariar uma maior visibilidade, sobreveio a vergonha da parte de quem despertou para a realidade, ao deparar-se com os piores aeroportos; portos; estradas; logística operacional e tudo isso amarrado com o mais horripilante esquema burocrático do planeta, onde nada funciona, por conta de uma máquina emperrada. O outro ponto crucial desse gargalo que atravanca o Brasil, é o do setor educacional.

Com baixos investimentos na infraestrutura escolar, como pleitear-se um real crescimento ? Se os professores não tem incentivo algum para exercer a sua profissão, não há idealismo que os segure minimamente motivados para dar o seu máximo. E o professor geralmente é um abnegado, que enxerga a profissão com paixão, e normalmente recebe em troca, uma remuneração vergonhosa; péssimas condições de trabalho, instalações a cair aos pedaços; material sucateado e nenhuma segurança no trabalho, aliás, cada vez mais insalubre por motivos amplamente conhecidos de todos e fartamente reportado pela mídia.

Então, é sempre recorrente o assunto em conversas travadas entre as pessoas que discutem o futuro do Brasil, ao culminar com um consenso : o Brasil só vai melhorar, verdadeiramente, quando houver investimento maciço na educação. Fato. Todavia, não podemos deixar em enaltecer a ação de muita gente que já contribuiu decisivamente para a questão educacional no Brasil. Gilberto Freyre é uma lembrança óbvia, mas pode-se arrolar diversos nomes de pedagogos com enorme valor, que a despeito da má vontade oficial em seguir as suas metas, ofertaram-nos a sua contribuição valiosa para melhorar tal panorama. Entre tais ideias a buscar um real avanço educacional, uma experiência fantástica foi feita no Brasil, nos anos sessenta, por exemplo.

Tratou-se de uma linha pedagógica progressista, milhas além da educação oficial e antiquada que era praticada no país até então. Essa pedagogia fora desenvolvida por uma professora chamada : Maria Nilde Mascellani, que a colocou em prática, de uma forma experimental através da experiência exercida em uma escola estadual na cidade de Socorro, no interior de São Paulo, em 1959.

Tal metodologia impressionou o secretário de educação estadual à época, que autorizou a extensão da experiência à outras escolas em outras cidades interioranas e na capital. Dessa maneira, foi implementada de uma maneira experimental em algumas escolas no estado de São Paulo, a partir de 1962.

Tais alunos que passaram por tal experiência educacional, foram alunos do antigo curso ginasial (hoje corresponde ao "fundamental II"), oriundos de algumas escolas estaduais do estado de São Paulo. Uma delas, localizou-se na capital (o famoso, "Oswaldo Aranha", localizado no bairro do Brooklin, na zona sul da capital paulista), e outras escolas distribuídas em algumas cidades interioranas a destacar-se : Batatais; Americana; Barretos; Rio Claro e em São Caetano do Sul, na região do ABC. Como funcioram os ditos ginásios vocacionais ?

Em primeiro lugar, foi determinado encerrar-se o arcaico regime em prol da separação por gênero. Meninos e meninas passaram a estudar em classes mistas, a quebrar um padrão pseudomoral idiotizante, que ainda remetia ao século dezenove, e certamente baseado em parâmetros advindos de seu código de conduta vitoriano a observar um recato massacrante. Outro aspecto libertário, deu-se em  não ensinar matérias tradicionais mediante o programa baseado com uma maçante teoria pesada. Todo o conteúdo técnico que os alunos deveriam absorver, passou a ser proposto a levar em consideração os anseios dos próprios alunos, ao estabelecer um consenso comunitário. Os alunos escolhiam os temas ligados à disciplinas tradicionais, tais como a matemática; geografia; história; português e ciências, de uma forma livre.

Os professores não adotaram mais a postura sisuda como mestres inquestionáveis e severos, mas ao contrário, ao adotar uma postura mais nobre, como mestres dispostos a passar os seus conhecimentos para pupilos queridos, ao criar-se uma troca prazerosa e não ditatorial, sob uma hierarquia inquestionável, de cima para baixo. Há relatos obtidos de ex-alunos das escolas vocacionais, ao dar conta sobre o clima de amizade e admiração que fora criado entre professores e alunos. Estudavam juntos e brincavam também, ao participar das oficinas artísticas propostas e das práticas esportivas.

A ideia foi manter um padrão de educação onde a capacidade de criação do aluno fosse estimulada ao máximo. Mais que fazê-los decorar fórmulas e nomes de personagens históricos, apenas para "passar nas provas", como era (é) o método tradicional, o objetivo foi estimular o aluno a ser livre; crítico e criativo. Para tanto, todo o enfoque foi proposto em torno dos estudos sociais e as especializações saiam desse tronco comum. Fazia sentido, pois de onde vivemos ?  Não é uma sociedade ?

Pois foi a maneira mais inteligente para educar-se as crianças e adolescentes, ao estimulá-las a sentir-se como parte atuante desse núcleo e portanto corresponsáveis pela manutenção e melhoria de tal estrutura, e assim, contribuir para a construção de um futuro cada vez melhor, para todos. Nessa dinâmica, estudavam psicologia; antropologia; história; geografia;, sociologia; filosofia, e outras matérias, como ramos da vida em sociedade, e entendimento do homem em seu habitat.

Grupos eram organizados pelos professores, mas com total autonomia dos alunos para escolher as suas pesquisas. Há relatos de saídas em campo, com o objetivo em observar-se a vida no entorno da escola; nos bairros, a mapear-se tudo o que eles, alunos, considerassem interessante e a posteriori, discutir tais observações na sala de aulas. Onde vivemos ?  Não é em cidades ?

Como funcionam, como é a vida das pessoas pelos bairros ? O que produzem, o que reivindicam os seus moradores ? O que pode fazer o poder público para melhorar o pequeno problema localizado no bairro ? Qual o papel do cidadão comum, nessa equação ? Como é a gestão pública, como é usado o dinheiro dos impostos cobrados, como é a logística da "rés pública" ?

Tudo o que observaram nesses estudos de campo, foi objeto de discussão na sala de aulas e daí, produziam estudos por escrito, com o status de verdadeiros ensaios e não os maçantes trabalhos escolares propostos até então, a constituir-se de uma prática meramente fruto da cópia literal de textos extraídos de livros em bibliotecas, como era de praxe no sistema educacional antiquado.  Pois é... na escola vocacional, os alunos foram estimulados a notar que na sociedade, quem constrói tudo, somos nós. Para fazer uma Brasil pujante e tão bom quanto qualquer nação civilizada de primeiro mundo, a atitude e o senso crítico individual faz a diferença.

Os alunos controlavam a cantina da escola. Eles mesmo cuidavam de sua administração e isso fazia parte de seus estudos em torno da matemática; finanças; contabilidade e administração. O dinheiro arrecadado era usado para financiar os projetos de campo. Essa foi a proposta da escola vocacional, entretanto, forças retrógradas não pensavam assim.

Quando o regime autoritário pós 1964, endureceu mais ainda, a partir da instauração do AI-5, em dezembro de 1968, ideias progressistas ficaram ameaçadas e assim, em 1969, as escolas vocacionais foram extintas pelo governo estadual paulista, subserviente ao comando federal. A experiência avantgarde dessa pedagogia, foi execrada. Não foi surpreendente, aliás isso foi esperado. Na história, situação semelhantes já havia ocorrido. Por exemplo, quanto os nazistas fecharam a escola Bauhaus, na Alemanha, assim que tomaram o poder em 1933.

Gente que pensa incomoda pessoas com tendências autoritárias, que através da sua mentalidade rígida, tem no controle absoluto, não suporta ideias novas que ameacem o seu conservadorismo. Alguns professores foram perseguidos, infelizmente. A própria professora, Maria Nilde Mascellani foi detida sob alegação de "sovietizar a juventude, ao fazer uso de métodos pedagógicos suspeitos".

As escolas vocacionais foram consideradas "subversivas" pelo governo autoritário. Há uma informação de que professores de escolas tradicionais, não praticantes dessa metodologia, oriundas de Americana, no interior de São Paulo, denunciaram a escola vocacional que ali existia, às autoridades, ao alegar que ali formava-se jovens corrompidos. Houve uma intervenção truculenta até, com professores a ser presos na cozinha da escola por um determinado tempo.

De nada adiantou os protestos veementes de pais de alunos ao exprimir desejar a normalização da escola vocacional, não apenas da cidade de Americana, mas igualmente de todas as outras que sucumbiram ao vilipêndio da parte de seus detratores  Extinto portanto, em 1969, o projeto da escola vocacional deixou uma lacuna na história pedagógica brasileira.

Recentemente, um ex-aluno que tornou-se profissional da área dos audiovisuais, produziu um documentário belíssimo, ao resgatar essa história, inclusive a conter raras imagens captadas na época, ali no calor dos anos sessenta, e assim mostrar um pouco como fora estimulante possuir-se um sistema educacional que respeitava o aluno e o estimulava a ser criativo; crítico, pensante...


O cineasta Toni Venturi lançou : "Vocacional, Uma Aventura Humana", que é um documento muito sensível, ao demonstrar o que foi essa experiência educacional belíssima.

 Eis abaixo, o trailer do documentário no You Tube, pois infelizmente por motivos de direito autoral advindo da produtora da peça audiovisual, a sua postagem completa não foi autorizada.


Todavia, o documentário já foi exibido em vários canais educacionais alojados na grade da TV a cabo, e sempre está a ser exibido em mostras cinematográficas por aí, basta ficar atento à programação de tais estabelecimentos culturais...

Para encerrar, devo observar que o Brasil tem solução, sim. Um dia, libertaremo-nos das amarras exercidas por pessoas que não tem interesse que a educação seja melhorada e priorizada. Quem são eles, se aparentemente não vivemos mais massacrados por um regime comandado por retrógrados ? Façamos como os professores da escola vocacional, que estimulavam os seus alunos, e nesse caso, que reflitamos...

E outro fator importante a ser mencionado : quando ocorreu essa experiência em algumas escolas estaduais paulistas ? Entre 1962 e 1969.


Já pensou em estar na escola vocacional nessa época, e ser possível experimentar essa proposta educacional incrível e com The Beatles soando no ar ? Foi a década da libertação, sem dúvida...


De fato, nessa ocasião, eu morei no bairro vizinho ao Brooklin em 1968, chamado, Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. Eu cursei o primeiro ano do curso primário, em uma escola estadual tradicional naquela época, mas ouvia as conversas dos adolescentes mais velhos e o sonho de todo mundo fora cursar o ginasial no Oswaldo Aranha, que vivia essa experiência. Privilegiados esses que passaram por lá, até o sonho acabar, esmagado por forças retrógradas que preferem normalmente impingir pesadelos à sociedade...
Matéria publicada anteriormente no Blog Planet Polêmica, em 2014. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Germano Mathias : O Grande Príncipe da Malandragem no Samba Paulista - Por Luiz Domingues

Se o samba sempre foi associado ao Rio de Janeiro sob uma primeira instância e à Bahia através de uma segunda leitura, não pode-se afirmar que em São Paulo não houvesse guarida para tal estilo musical. Pelo contrário, muitos artistas genuinamente paulistas, marcaram na história do samba e nem precisamos recorrer à uma enciclopédia para lembrarmo-nos de imediato, dos Demônios da Garoa, aliás, considerado pelo Guinness, o conjunto musical mais antigo do mundo em plena atividade, ao bater vários grupos formados em torno das vertentes da Soul Music & R'n'B da música negra norteamericana que ostentam tal característica em termos de longevidade e sobre os próprios Rolling Stones, em relação ao Rock.

Adoniran Barbosa é uma outra referência básica e lógica, sendo natural a sua associação intimamente ligada aos Demônios da Garoa, como o grupo que tornou-se o seu principal intérprete. Outros exemplos pululam facilmente mediante uma uma pesquisa básica e claro, salta-nos aos olhos a figura de Germano Mathias.

Se no Rio, uma figura carismática como Moreira da Silva, representara a malandragem romântica da noite boêmia, com o seu chamado "samba de breque", em São Paulo surgiu alguém nessas características, entretanto ao construir a sua identidade própria, ultra paulistano até a medula, e esse artista é Germano Mathias.

Paulistano do bairro do Pari, Germano Mathias surgiu no mundo artístico nos anos cinquenta, e logo mostrou-se a destoar do padrão visual em torno de cantores a apresentar-se trajados com "smoking", que apareciam nos programas de TV de então, com as suas vozes impostadas, e a exagerar no gestual melodramático & afins. Germano mostrava-se simplório na maneira em apresenta-se, sem nenhuma preocupação em mostrar-se apresentável aos parâmetros da classe média burguesa, e pelo contrário, ao fazer uso de vestimentas simples, ao mostrar-se como um homem comum do povo, ou seja, uma novidade para os padrões da época.

Musicalmente, o seu samba revelava-se como o popular ouvido pelas ruas, com letras a exprimir o cotidiano do trabalhador. as suas dificuldades & agruras, e também sobre a felicidade expressa nas pequenas coisas da vida e claro, a relação homem / mulher vista por esse viés do homem simples do povo, coloquial e muito realista. Claro, fãs de Adoniran Barbosa; Demônios da Garoa; Jackson do Pandeiro; Zé Keti; Moreira da Silva e outros artistas populares desse espectro, naturalmente interessaram-se e passaram a acompanhar o trabalho de Germano no decorrer de sua carreira.

Característica musical típica de seu samba, foi a forma sincopada para cantar. Sem grandes explicações da teoria musical para não entediar ninguém, apenas digo que a "síncope" é um recurso rítmico, onde o acento no tempo forte é modificado, com um sutil prolongamento.

É bem verdade que não foi Germano Mathias quem inventou esse estilo. Cantar sincopadamente fora a marca registrada de Cyro Monteiro, outro grande nome da MPB da velha guarda, mas Germano o fazia como recurso extra em sua malandragem típica.

Dos anos cinquenta em diante, Germano prosseguiu a produzir bastante. Discos como : "Em Continência ao Samba", "Hoje é Batucada", "Ginga no Asfalto", "Samba de Branco", "O Catedrático do Samba" e "Samba é Comigo Mesmo", proporcionou-lhe uma carreira de respeito.

Ele permaneceu por um tempo em recuo sabático, sem gravar, e nesse ponto, caiu um pouco no esquecimento do público, após 1974, e dessa forma, somentó voltou a lançar um novo trabalho em 1997, infelizmente. 

Tornou-se igualmente, uma personalidade celebrada em programas ao estilo "Mesa Redonda de Futebol" na TV, pois sempre levou a sua irreverência a tais programas, para amenizar o clima tenso que sempre é gerado pelas polêmicas, naturais ou as "armadas"e típicas desse tipo de atração esportiva. 

Em 1984, tive o prazer em dividir o camarim de um teatro com ele e outros artistas. Tratou-se dos bastidores de um programa de TV que iniciava então as suas atividades, chamado : "Perdidos na Noite".

Na verdade, foi um programa derivado de uma atração que já existia no Rádio e que agora começava uma carreira televisiva. No rádio, chamava-se : "Balancê" e era veiculado pela Rádio Excelsior / Globo de São Paulo. Tratava-se de um programa anárquico, por intercalar matérias sobre futebol (as chamadas "sonoras", com os boletins a reportar o cotidiano dos clubes), e atrações artísticas, geralmente a apresentar músicos a lançar os seus respectivos discos ou a divulgar os seus shows e atores de teatro a divulgar as suas peças em cartaz. Eu participei várias vezes desse programa (mais de dez, segundo os meus registros), com o Língua de Trapo e também com A Chave do Sol, dois grupos em que fui componente. O seu apresentador era um rapaz robusto, ex-repórter de campo de transmissões esportivas, chamado : Fausto Silva...

Nesse dia em específico, eu estava com o Língua de Trapo e nós dividimos o camarim com as outras atrações da noite : Germano Mathias; Martinha (sim, aquela da Jovem Guarda); o quarteto Pop-brega "Genghis Khan"; a banda de Rock Ultraje a Rigor; e o então jogador do Corinthians, Biro-Biro. Nem preciso dizer o quanto foi divertida essa mistura improvável...

Germano interagiu fortemente com o Laert Sarrumor, ao contar piadas em uma animada roda de conversa, ao mostrar-se muito simpático e confirmou a imagem que tínhamos dele : um artista sem nenhuma afetação ou estrelismo, ou seja, um homem autêntico e simples do povo.

Mal típico do Brasil, o esquecimento do público é cruel com os artistas; a arte e a cultura como um todo. Pois tirante uma aparição na "Virada Cultural" de São Paulo, em 2010, ele anda sumido da mídia e dos grandes shows.


Se fosse nos Estados Unidos, uma artista popular da importância de Germano Mathias seria reverenciado para sempre. Guardadas as devidas proporções, Germano Mathias é para o samba, o que Chuck Berry o é para o Rock'n Roll. Aqui, o descaso revolta. 

Pois eis que leio uma matéria no jornal, ao dar conta que uma das últimas apresentações ao vivo do malandro, foi através de um improvisado show realizado em um colégio, onde ele teria trocado o seu merecido cachet por uma bolsa de estudos para o seu neto. Tremenda atitude nobre dele como artista e avô, contudo, ao mesmo tempo, que tristeza para o Brasil, ver uma situação dessas, onde um grande artista, que tanto contribuiu para a cultura, esteja em dificuldades financeiras, às vésperas de completar oitenta anos de idade (ele é de junho de 1934).

É assim que o Brasil trata seus artistas e isso precisa mudar ! Germano Mathias é um tremendo malandro do bem. A sua malandragem boêmia é romântica e inofensiva ao comparar-se a certas manifestações de subcultura que grassam por aí, hoje em dia. Trata-se de um poeta popular e muito inspirado, grande figura humana e um tremendo contador de"causos".

Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2014.

sábado, 29 de março de 2014

TV 2 Pop Show / Som Pop - Por Luiz Domingues

Em 1974, a Rede Globo lançou o programa : "Sábado Som", ao causar um grande furor, por este oferecer a farta exibição de tapes a conter apresentações ao vivo dos melhores nomes do Rock internacional dos anos sessenta e setenta, no frescor de sua contemporaneidade. Por conter uma audiência esmagadora em rede nacional, este tratou por obscurecer um outro programa que tivera os mesmos moldes, contudo, por ter sido uma produção bem mais modesta, da TV Cultura de São Paulo, e que na verdade, já estava no ar, bem antes. Dessa forma, estrutura & hype à parte, teve o mesmo valor, artística e culturalmente a falar. Refiro-me ao programa : "TV 2 Pop Show", que foi exibido pela TV Cultura de São Paulo, com retransmissão para diversas as TV's Educativas da maioria dos estados brasileiros.

O começo dessa produção, foi bastante ocasional e reforça assim, o conceito de que se por um lado houve um caráter prosaico na TV brasileira (apesar de que este veículo já existisse há mais de vinte anos nessa ocasião, início dos anos setenta), por outro, há por destacar-se a criatividade e a obstinação de profissionais muito dedicados, que pode proporcionar a sua existência. Foi o caso de um funcionário da TV Cultura, que fortuitamente interessou-se em usar trechos de apresentações ao vivo de tapes a conter apresentações com artistas internacionais, mediante um tipo de  edição a conter animações muito simples, mas eficazes para a época, e visar assim, ocupar uma lacuna na programação.

O funcionário, em questão, chamava-se Luiz Fernando Maglioca, que ingressara naquela estação estatal, em 1969, como estagiário e recém formado da ECA (escola de Comunicações e artes, da Universidade de São Paulo, USP). A TV Cultura mantivera em seus primórdios, uma imagem sisuda na área da música, ao passar a imagem de apenas preocupar-se em difundir a música erudita.

Uma única aproximação com o público mais jovem, havia ocorrido em 1969, através do programa : "Jovem Urgente", que arregimentara alguns artistas ligados ao Rock Brasileiro de então, entre os quais, Os Mutantes e Novos Baianos, por exemplo, e que foi conduzido pelo psiquiatra, Paulo Gaudêncio, sob um formato parecido com o que Serginho Groismann promove há anos, atualmente, no entanto, sem a mesma estrutura, e muito mais contido, certamente.

Nele, o psiquiatra propunha discussões sobre temas ousados para a época, tais como a gravidez na adolescência; virgindade; homossexualismo; música e rebeldia etc. Claro, este durou muito pouco, pois irritara profundamente os agentes governamentais, e ainda mais em uma TV estatal com o governador daquele ocasião a compactuar com o regime de então no país.

Somente no avançar dos anos setenta, surgiu essa nova oportunidade, enfim, todavia como já salientei, de uma forma ocasional. Portanto, esse tapa-buraco dentro da programação regular da TV Cultura, sem nome definido ainda, causou espanto, mas simultaneamente, gerou uma reação inesperada para a diretoria da emissora, pois uma semana depois, naquele horário em que passara as inesperadas performances musicais com artistas como Joe Cocker; Rita Coolidge, e Carole King, entre outros, telefonemas bombardearam a TV Cultura, com telespectadores a desejar saber por quê o "programa" não fora ao ar, novamente.

Então, ficou claro que um interessante caminho novo estava a abrir-se, ao fazer com que nascesse então, a ideia de aquela iniciativa tornar-se-ia de fato, um programa oficial na grade daquela emissora. Essa primeira exibição fortuita foi ao ar no sábado, dia 14 de abril de 1972, portanto, dois anos antes da TV Globo lançar o seu, "Sábado Som". Ao receber o nome de : "TV 2 Pop Show", mostrou basicamente músicas extraídas de documentários, recortadas, e alguns "promos" (a encarnação anterior dos chamados, vídeoclips).

Com o tempo, o programa ganhou mais sofisticação. Sem um apresentador formal, usava locução em "off" e foi montado a instituir diversos quadros, para dissertar sobre álbuns recém lançados, mediante a exibição de suas respectivas capas. O "Sábado Som" atropelou-o, literalmente, a partir de 1974, mas sem abalar-se, o "TV 2 Pop Show" prosseguiu e pôs-se a a melhorar sempre em uma escalada contínua.

Já na metade dos anos setenta, mantinha uma audiência significativa, que outorgou-lhe a resistência que o "Sábado Som" da Globo não teve; sobreviveu ao "Rock Concert", que a própria Globo lançou em 1977, e aos similares da TV Bandeirantes, como "Balanço" e "In Concert".

Ainda nos anos setenta, passou a exibir quadros ditos "especiais", onde apresentava blocos dedicados à uma banda em específico, quando intercalava as performances musicais de tais artistas, com as suas respectivas informações biográficas; curiosidades e discografia.

Sob uma mudança de título, ao buscar uma repaginação, passou a ser conhecido como : "Som Pop", e com esse nome, atravessou os anos oitenta, pra vir a ser uma das principais, senão a maior referência de Rock e música Pop em geral, na TV brasileira.


Especiais produzidos pelo próprio programa, foi uma grande novidade no início da década de oitenta. Lembro-me bem em ver bandas setentistas brasileiras como o Made in Brazil e a Patrulha do Espaço, a tocar ao vivo no teatro Franco Zampari, de propriedade da TV Cultura, em especiais que ocuparam o espaço integral daquela atração, fator esse que em meu caso como músico, particularmente, eu considerava uma oportunidade incrível para o fomento do Rock nacional. Na metade dos anos oitenta, um novo apresentador ocupou a ancoragem do programa. Com Paulinho "Heavy" Toledo (vocalista da banda Inox, na ocasião), no comando, a programação pendeu mais para o som pesado, ao mudar um pouco o direcionamento observado imediatamente anterior, quando o Pop oitentista dominava as atenções.

Uma nova troca de apresentadores e Kid Vinil puxou de novo a corda para o Pop, e com o verniz do Pós-Punk e derivados, na sua na orientação estética. Com a chegada dos anos noventa, o velho Som Pop mostrava-se cansado e não suportou a concorrência da MTV, uma estação inteiramente dedicada à música e dessa forma, pôs-se a perder a sua energia, até sair de cena. Particularmente, acho que o TV 2 Pop Show / Som Pop, foi muito importante, em vários aspectos.

Em uma época onde a informação foi cerceada por motivações políticas, e os meios mostraram-se escassos pelas dificuldades tecnológicas inerentes da ocasião, é claro que um programa dessa natureza foi um oásis para os Rockers locais. Outro aspecto importante, dá margem à curiosa constatação de que existiu sobre um paradoxo, pois ao mesmo tempo que fora produzido por uma rede estatal, podemos analisar que o fato de não ter havido a mesma pressão por audiência e inerente captura de recursos publicitários que existem nas Redes de TV sob apelo comercial, também esteve sob o fogo cruzado dos interesses políticos, visto que principalmente nos anos setenta, um programa deliberadamente "jovem", incomodava os setores retrógrados do então regime autoritário. Nesse caso, mais um ponto para tal atração, pois teve uma longevidade impressionante (dezesseis anos no ar !), e marcou história na TV e no mundo musical.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2014