Nos tempos atuais, com tanta
tecnologia disponível, o papel do rádio na transmissão esportiva, notadamente o
futebol, diminuiu drasticamente por motivos óbvios. No entanto, ainda resiste
bravamente, mantendo sua estrutura básica que remonta há décadas. Em sua estrutura clássica, como é uma
transmissão radiofônica de um jogo de futebol ? Começa em média uma hora antes
da partida em si, trazendo análises sobre o momento de cada equipe; bastidores;
especulações e repercussão de diversas pessoas envolvidas em geral. Aí vem a
partida em si, com espaço para análise do primeiro tempo no intervalo por parte
do comentarista; segundo tempo e mais uma hora de pós jogo repercutindo o
resultado e as ocorrências, com a inevitável discussão das jogadas polêmicas,
reclamações dos dois times e entrevistas.
No tocante à equipe, o time base de
uma locução de futebol vai de : locutor oficial; comentarista e dois repórteres
de campo, mais a equipe técnica, que varia conforme a sofisticação de cada
emissora, naturalmente.
Por décadas, a transmissão radiofônica
de uma partida de futebol era a mais eficaz forma de acompanhar-se os jogos
para quem não podia estar in loco nos estádios, principalmente quando seu time
do coração jogava fora de sua cidade sede, mas tornou-se tão importante aos
ouvidos dos torcedores, que passou a ser prática usual levar radinhos de pilha
para os estádios, com muita gente assistindo os jogos com os aparelhinhos
colados à orelha. O prazer de ver ao vivo, mas escutando a transmissão de seus
locutores prediletos, criou seus paradigmas próprios, como por exemplo a
discordância com a opinião dos comentaristas, um clássico entre torcedores que
sempre estigmatizam os comentaristas como torcedores de equipes rivais à sua e
por conseguinte, achando que perseguem seu time do coração com comentários
sempre desdenhosos (implicância a parte, isso também existe, devo observar com
tristeza...).
O radinho nos estádios criou outros
hábitos. É clássica por exemplo a antecipação de informações vitais para os
torcedores nas arquibancadas, ganhando em velocidade do placar eletrônico e o
serviço de som do estádio. Um gol de um time num outro jogo que favoreça ou
atrapalhe o seu time no campeonato em curso, quando anunciado na transmissão
esportiva, causa frisson na arquibancada, gerando berros de pessoas anunciando
a novidade e tornando a comoção ou o lamento, epidêmico na arquibancada.
E certamente que os locutores;
comentaristas e repórteres de campo tornaram-se mega famosos nesse universo e
principalmente os locutores, foram tornando-se celebridades, motivando-os a
criar bordões personalizados, realçando isso como seu cartão de visitas.
Décadas atrás, muitos locutores
tornaram-se míticos. Era uma fase romântica do radialismo esportivo onde
figuras como Mário Vianna no Rio de Janeiro usando vozeirão impostado falava
“Gol Legal”, quando considerava que não havia dúvida alguma sobre a jogada e
“Ilegal”, quando considerava irregular por algum motivo (e no caso dele, como
ex-árbitro, era rigoroso nessa interpretação). No meu imaginário mais usual
como paulistano, uma figura como Fiori Gigliotti, parecia um poeta narrando uma
partida. Quando o jogo terminava, seu bordão era “Fecham-se as cortinas e
termina o espetáculo”, dando-lhe aura teatral, certamente. E nos momentos
finais de clássicos ou jogos decisivos e com placar apertado para um ou outro
time, sua locução tornava-se empolgante. Falava como se fosse uma batalha épica
da mitologia grega, fazendo de um simples jogo de bola, algo grandiloquente.
Imagino quantos garotos de dez anos de idade ouvindo a transmissão, com os
nervos à flor da pele pelo seu time do coração, emocionavam-se, eu incluso,
ouvindo aquela linha de narração...
Mas o tempo foi passando e a
tecnologia foi tratando de trazer novas formas de acompanhar-se as partidas e
mais que isso, chegamos a um ponto onde o torcedor tem opções 24 h por dia para
seguir, com informações sendo atualizadas por segundo sobre seu time e os
adversários. Para assistir os jogos, fora a TV, tem
os canais a cabo, o sistema Pay-Per-View, a telefonia móvel; o You Tube, as
redes sociais com torcedores comentando on line numa velocidade
estonteante. Apesar de tudo isso, a
transmissão radiofônica tradicional existe e não dá sinais de que vá cair em
desuso tão cedo, apesar de todas as modernidades.
Todavia, fruto de todas essas
modificações, a transmissão radiofônica já não é a mesma. Talvez levando em
conta que poucas pessoas não estejam vendo o jogo com imagens em algum
dispositivo, os locutores modernos tornarem-se muito preguiçosos. Já não fazem
questão de narrar com a rapidez que era a marca registrada do rádio e fazem até
longos interlúdios absolutamente irritantes, quando julgam que o jogo não está
emocionante, abrindo campo para brincadeiras internas entre os componentes de
sua equipe, absolutamente inadmissíveis em desrespeito ao ouvinte. Isso sem
contar o desdém que explicitam contra jogadores que cometeram jogadas com pouca
técnica, fazendo comentários muito deselegantes e aí cabe observar também que
fora a grosseria com o profissional da bola, quando tomam tal iniciativa, esquecem-se de
que o ouvinte, atônito, não está querendo deduzir pelos seus gracejos, que uma
jogada ruim acabou de acontecer, tampouco saber da opinião pessoal do narrador,
mas que simplesmente o testemunhal que espera desse tipo de profissional, seja
cumprido a risca, só isso.
Caro Luiz
ResponderExcluirEstamos assistindo os estertores de uma era....
O fim das rádios como as conhecemos, com locutores, disc-jóqueis, programação interessante e etc........
Assim como as pessoas não mais leem jornais ou revistas ou mesmo livros impressos, que não dialogam pessoalmente e vivem em um mundo contemporâneo-futurista de bolhas de conforto e comodismo.
O que me leva a lembrar de um diálogo que tivemos aqui mesmo, sobre os jovens não terem paciência para escutar uma música inteira, não tem e não sabem o que é esse prazer.
No final das contas nos sobra uma assepsia sem sentido, uma generalização das emoções rasas e da idiotização.
Bem vindo ao admirável mundo novo.
Olá, Gil !
ExcluirVerdade, minha crônica está focada no mundo da locução esportiva, mas abrindo o leque como você fez, tem toda a razão e se formos pensar no jornalismo, na parte musical e outros setores da atuação do rádio, tudo decaiu, certamente. Indo além, como você disse, o mundo do jornalismo tradicional impresso, ainda mais. Quem hoje em dia entre a molecada teria paciência de ler os pesados cadernos de cultura dos jornais grandes aos domingos. Aquelas matérias enormes contendo resenhas de livros, filmes e discos, crítica teatral e de artes plásticas, ensaios sobre literatura e filosofia...foi-se o tempo, infelizmente em que os jovens interessavam-se por cultura de uma maneira geral e o resultado está aí, com o nível cada vez mais baixo,ao observarmos os formandos, "doutores" saindo das universidades completamente analfabetos, incapazes de elaborar uma redação que antigamente uma criança de sete anos conseguiria redigir com certa facilidade...aonde vamos chegar é bem lógico, isto é, o completo colapso da civilização e aí, só aí, haverá uma lenta reação da parte de gente como nós que fica indignada com esse estado de coisas e reagirá. Portanto, deduzindo que estamos quase no fundo do poço,já é na verdade o que estamos fazendo.
Grato por fazer isso com a contundência de seus ótimos comentários. A sensação de haver gente disposta a mudar as coisas é ótima e só anima-me a prosseguir, também.
Não quero esse não admirável mundo novo...devolvam-me o velho sob os aspectos culturais e podemos então prosseguir usando dessa tecnologia fantástica dos dias atuais, mas sem Big Brother da TV, por favor !!
Abração !!