Antes de
falar detidamente sobre esse filme, é preciso esclarecer alguns pontos, para
que o leitor entenda bem a expectativa gerada em torno dessa obra. Em primeiro
lugar, por ser um filme que apresentou-se com a proposta de ser híbrido, ou
seja, a conter uma apresentação completa do Led Zeppelin, mesclado com
inserções dramatúrgicas, independente do que viria a ser a tal encenação a
conter possivelmente uma história e presença de atores, os fãs dessa banda,
ficaram eufóricos quando tomaram conhecimento da sua produção. O motivo é
óbvio, se ao se investigar a biografia do Led Zeppelin, o leitor constatar que
tal banda teve em sua trajetória, um controle férreo sobre a exibição pública
de imagens de seus shows ao vivo.
Peter Grant (o primeiro da esquerda para a direita, sentado) ao lado dos componentes do Led Zeppelin em foto de 1969, aproximadamente
A estratégia montada pelo seu empresário,
Peter Grant, mostrou-se implacável nesse sentido, pois a sua intenção sempre
foi forçar a situação para a que a banda detivesse os seus shows super lotados,
ao usar como forma de coação subliminar, a controlada parcimônia em torno da
imagem da banda, para assim suscitar a vontade da parte de seus fãs em assistir
a sua banda predileta, ao vivo. Com tal medida, Peter Grant garantiu que o Led
Zeppelin mantivesse por anos, a curiosidade viva entre os fãs da banda, para
que os shows ganhassem um aura a fomentar algo especial, uma oportunidade rara.
Foi uma aposta no mistério e a evitar a super exposição midiática, por
conseguinte. Ao contrário de outros artistas, que sucumbiram à tentação do mega
estrelato e daí a cometer o pecado do exagero e a deixar um perigoso campo
aberto para a sua própria implosão, motivada pelo enjoo gerado em seu próprio
público, mediante tanta exposição. Em suma, o Led Zeppelin, graças aos seu
obstinado empresário, Peter Grant, construíra a sua carreira no caminho
inverso, ao manter-se sem imagens de shows ao vivo e no máximo, a conter parcas
aparições em programas televisivos como material a ser desfrutado entre os seus
fãs.
O segundo
ponto a ser observado, dá-se com a constatação de que a ideia do filme em si,
foi pensada muitos anos antes do seu lançamento, exatamente dentro dessa
estratégia observada por Peter Grant, visto que ele era contra trabalhar a
imagem da banda em contínua profusão, mas um longa metragem em tom de
documentário para exibir um show ao vivo, poderia ser tolerado, desde que o
controle dessa produção estivesse cem por cento em suas mãos. E da parte dos
componentes da banda, estes preocuparam-se com as condições técnicas,
principalmente no tocante ao áudio. Por isso, eles também rejeitavam normalmente
aparições em estúdios de TV, e só aceitariam um documentário oficial de um
show, com um aparato de equipamento adequado.
Em 1970, o famoso show que a
banda fez no Royal Albert Hall de Londres, foi filmado com essa intenção
inicial. No entanto, os componentes não gostaram da qualidade sonora obtida em
tal filmagem e por conseguinte, vetou-se tal uso desse show para montar-se um
possível documentário. Bem, esse show de 1970, no Royal Abert Hall foi liberado
enfim, muitos anos depois para a exibição pública e de fato as imagens e o
áudio não colaboram, mas é um tesouro para qualquer fã, ver o Led Zeppelin em
ação nessa época, sob uma esplendorosa forma artística, a tocar canções de seus
três primeiros álbuns.
Por volta de
1973, a banda e Peter Grant, retomaram a ideia do filme e a aproveitar o braço
norte-americano da turnê de 1973, que divulgava o quinto álbum da banda, “Houses
of the Holy”, finalmente resolveu-se retomar o projeto. Para tanto, foi
contratado um diretor de cinema para assinar a produção, na figura de Joe
Massot.
Tal contato foi travado às vésperas das datas que a banda teria a
cumprir no Madison Square Garden, em Nova York, em julho desse ano, portanto,
feito a toque de caixa, no entanto, esse não foi o principal problema
encontrado para tal produção. Simplesmente, a equipe de filmagem contratada,
era inteiramente formada por técnicos britânicos e nos Estados Unidos, o
sindicato dos técnicos cinematográficos não permite que estrangeiros possam
trabalhar livremente, por uma questão de reserva de mercado. Portanto, uma
negociação cansativa e onerosa teve que ser feita às pressas, a envolver a ação
de advogados para costurar-se um acordo emergencial para que a equipe britânica
pudesse montar o seu equipamento e trabalhar com tranquilidade.
Uma outra
dificuldade surgiu já com as filmagens prontas, visto que a continuidade foi
comprometida inteiramente, pois dos três shows filmados (27, 28 e 29 de julho
de 1973), Jimmy Page e John Paul Jones não foram avisados e assim, usaram figurinos
diferentes em cada apresentação. Naturalmente a ideia seria capturar tudo e
fazer uma decupagem para escolher as melhores performances de cada canção, mas
com a ideia em parecer ter sido um único show e dessa maneira, com os figurinos
diferentes usados por Page e Jones em noites diferentes, isso ficou inviável.
A solução encontrada foi montar um palco semelhante no estúdio de cinema, Shepperton
em Londres e simular a apresentação registrada no Madison Square Garden, para
aproveitar novas tomadas. Já com essa falha das roupas trocadas indevidamente,
sanada e também a aproveitar para filmar cenas mais em “close up” a enfocar os
componentes, individualmente. Uma cena que é marcante nesse sentido, mostra um
ângulo, onde o baixista, John Paul Jones, toca bem próximo do baterista, John
Bonham e em determinados acentos rítmicos que deveriam fazer juntos na música, “Dazed
and Confused”, há um erro, quase imperceptível, mas que eles percebem prontamente,
é claro e riem entre si.
Como eu sou baixista e conheço muito bem esse tipo
de comunicação entre baixistas e bateristas, acho divertida a cena, visto que
isso ocorre com todo mundo que toca em uma banda de Rock e no caso deles, foi
tratado com muito bom humor, pois ambos riem da situação e rapidamente acertam
a parte musical, sem que ninguém perceba a pequena falha.
Mas ocorreu
um outro problema nessa filmagem em estúdio de cinema, visto que isso ocorreu
em outubro de 1974, e nesse ínterim, o baixista, John Paul Jones, havia cortado
o seu cabelo de uma forma radical. Então, a solução encontrada foi que ele
usasse uma peruca a simular o comprimento e corte de cabelo que ele usara em
julho de 1973, nas filmagens ao vivo.
Como se não bastassem esses problemas
estruturais, o diretor, Joe Massot, foi sumariamente despedido por Peter Grant,
pelo motivo óbvio do atraso dessa produção. Fica a dúvida no entanto, pois será
que a culpa por tal morosidade foi inteiramente da parte de Massot? Sim, visto
que o Led Zeppelin não parava de realizar turnês longas e nesse ínterim, estava
prestes a lançar um novo álbum e que revelar-se-ia duplo, Physical Graffiti,
portanto, a banda focara a sua atenção em trabalho de estúdio, naturalmente.
Independente da razão real por trás do atraso, seu ônus foi creditado
para Joe Massot e assim, Peter Grant contratou o diretor australiano, Peter
Clifton para concluir o trabalho. Por isso nos créditos, os dois aparecem como
codiretores, mas na realidade, eles não trabalharam juntos.
E Massot
ainda protagonizou um enorme problema para a produção, pois mesmo tendo
recebido um boa indenização por conta do seu afastamento, ele simplesmente
escondera os rolos com os celuloides originais e isso somente foi possível após
uma disputa judicial desagradável para que enfim o material bruto fosse
devolvido à Peter Grant.
Sobre as
cenas de bastidores do show, estas também não foram captadas na ambientação do
Madison Square Garden. Por exemplo, as imagens dos componentes da banda, Peter Grant e alguns roadies a
evadir-se da pista de um aeroporto, mediante o uso de limusines, foi filmado
por conta de um outro show da mesma turnê, mas em Pittsburgh, Pennsylvania. E
muitas cenas de camarins e nos bastidores a envolver fãs que tentavam burlar a
vigilância para entrar sem ingresso, foram feitas em um outro show realizado em
Baltimore, Maryland.
Aliás, cabe
salientar que as cenas em que Peter Grant fica enfurecido, por saber que a
produção local dos shows estava a dar margem para que vendedores de material
pirata da banda, estivessem ali a agir livremente, reflete muito a sua
personalidade no comando dos negócios da banda, pois ele foi implacável em
controlar cada detalhe a envolver a banda. Isso sem deixar de mencionar a
própria cena em que Grant atua a revelar uma fantasia pessoal sua, que é nada
mais, nada menos que uma mini história a retratá-lo como um gangster dos anos
vinte, do século passado, ao estilo, Al Capone. Há também o constrangedor
episódio a envolver o roubo do dinheiro da banda no hotel Drake, quando Peter
Grant foi levado à delegacia para depor.
Já que citei
as cenas dramatúrgicas do filme, é preciso esclarecer que não foram exatamente
cenas a envolver uma dramaturgia com atores profissionais e com a presença de
diálogos. Tais cenas foram construídas para expressar algumas facetas de cada
componente da banda e do seu empresário, Peter Grant, portanto, inseridas em
meio às músicas executadas no show. Portanto, não há diálogos, a não ser algumas
poucas intervenções sem nenhuma importância, como dizer-se “bom dia” para o
carteiro, no caso de Robert Plant ou a mostrar John Paul Jones a contar
histórias da carochinha para as suas filhas pequenas.
É evidente que tais
intervenções foram criadas a revelar aspectos da personalidade de cada um e sem
uma maior preocupação em expô-los a atuar como atores que não o eram,
certamente. Contudo, mesmo a respeitar a falta de habilidade de cada um, para
dar-lhes a liberdade para que exercessem uma espécie de jogo lúdico e assim, a
constituir-se como uma brincadeira, não cabe nenhuma crítica mais contundente e
por conseguinte, em linhas gerais, tais cenas podem ser consideradas
aceitáveis. Para
descrevê-las, prefiro comentar fora do contexto do filme, pois não configuram
em conjunto, uma história alinhavada, mas apenas registram-se como mini
retratos de cada um, inseridos em meio à performance a conter o show.
No caso
do empresário do Led Zeppelin, o lendário, Peter Grant, é dele a primeira
inserção individual e que abre o filme. Sem trilha sonora nesse instante,
mostra-o caracterizado como um gangster típico dos anos vinte / trinta do
século passado, ao lado de seus comparsas. Ele é o líder do bando e entre em um
belo carro de época, cercado por seus meliantes armados com metralhadoras. Eles
dirigem-se ao esconderijo de um grupo rival, que está a jogar um jogo de
tabuleiro que apresenta estranhas peças (cartas com suásticas, mini crânios e
outros artefatos anormais). Tais oponentes são gangsters oponentes, sem dúvida,
mas há figuras estranhas inclusas, como um lobisomem entre eles, por exemplo.
Os capangas de Peter Grant invadem o local e promovem uma chacina... ora, que
começo de filme mais surpreendente, a mostrar-se tão truculento, visto que a
ideia seria assistir-se um show do Led Zeppelin tão somente, no entanto, eis
que a personalidade de Peter Grant, foi exposta ali, mesmo que de uma forma
agressiva e a beirar o mau gosto, visto que ele era extremamente dominador e
atropelava a todos para fazer prevalecer o que considerava ser o melhor para a
banda. Portanto, baixo astral pela matança e postura criminosa por conseguinte,
a parte, creio que a cena que inicia o filme teve a sua razão de ser em termos simbólicos.
Em seguida,
vê-se um ambiente paradisíaco a mostrar a propriedade rural de Robert Plant,
onde ele e a sua esposa e o casal de filhos, brincam tranquilamente em meio à
natureza. A presença de um pequeno lago com pedras e pelo fato de seus filhos
estarem inteiramente nus a brincar ali, remete à capa do LP “Houses of The
Holy”, pois não por coincidência, são os filhos de Plant que foram retratados
nus a subir um monte nas cercanias de um castelo medieval, a ilustrar a capa
desse álbum.
Um mensageiro é retratado a pedalar a sua bicicleta por um
bucólico caminho até adentrar a propriedade da família Plant e entregar ao
patriarca, Robert, uma mensagem que a lê e prossegue e a interagir com a sua
prole.
John Bonham, por sua vez, mostra-se em seu cotidiano como uma
fazendeiro, a cuidar de vacas e arar a terra pessoalmente, ao manobrar um
trator.
John Paul Jones é mostrado também em seu ambiente familiar ao lado da
esposa e das suas três filhas, quando é mostrada então a cena em que lê
histórias infantis para as suas pequenas (que tem conexão com a sua parte
posterior no filme).
E finalmente, Jimmy Page, está enigmaticamente sentado no
gramado de sua mansão localizada na Escócia e que era público e notório,
pertencera ao pensador e pesquisador místico, Aleister Crowley. Para demarcar
bem a sua assumida porção mística, eis que a câmera aproxima-se de sua pessoa,
que estava de costas, e então ele vira-se repentinamente e os seus olhos
reluzem fortemente a emitir uma luz vermelha. Quando essa cena era exibida, as
pessoas costumavam gritar sob regozijo nas salas de cinema, a vibrar com a
conotação lisérgica ali expressa de uma forma implícita.
Eis que a mensagem
chega às mãos de John Paul Jones e ele diz: -“mas isso é amanhã”... tal frase
proferida por ele e por ter sido realçada pelo uso do efeito do eco (delay),
tornou-se um bordão para muitos fãs do Led Zeppelin, ao redor do mundo,
doravante, cabe registrar. E vale a reflexão igualmente ao pensar-se que é
óbvio que uma turnê de uma banda de primeira grandeza como foi o Led Zeppelin,
não era marcada e avisada aos seus membros, na véspera, mas o filme passou essa
ideia romântica de que cada um dos componentes da banda estivesse a cuidar de
seus afazeres domésticos e familiares e os shows eram comunicados assim,
mediante um telegrama e para cumprir-se logo no dia seguinte.
Como assim, se um estava a viver no País de Gales, outro na Escócia e os demais em pontos distantes entre
si na Inglaterra e no dia seguinte teriam que estar em um palco em Nova York,
sem ensaios, e sem nenhum planejamento prévio sobre a logística a ser usada?
Bem, tratou-se de uma licença poética bem distante da realidade, é óbvio. Nesse
momento, o tema instrumental, “Autumn Lake”, uma exótica peça Folk e que não
consta nos discos oficiais do Led Zeppelin, embala tais cenas.
Feito esse
preâmbulo romântico sobre como viviam e como costumavam encontrar-se para
trabalhar, eis que a cena a seguir, mostra a banda a descer de seu avião
fretado e devidamente adesivado para personalizá-lo. Após a saída da pista do
aeroporto (ao som da belíssima canção folk instrumental, “Brow-yr-Aur”),
mediante o uso de limusines, eis que a cena a mostrar o público no escuro e só
a ser percebido pelo murmurinho, pode não ser esteticamente uma cena
interessante pelo aspecto cinematográfico, mas a ansiedade do público ali
retratada sutilmente, através de seu ruído, é sensacional, pois revela a
atmosfera típica de um show de Rock da década de setenta. É uma sutileza muito
grande, eu sei, mas particularmente eu considero tal detalhe, como algo
memorável. Bem, o show inicia-se, finalmente, mas eu vou continuar a falar das
cenas dramatúrgicas por enquanto, para depois analisar o show em si.
Bem, a
próxima intervenção encenada vem com a fantasia de John Paul Jones a ser
mostrado como um cavalheiro do século XVIII a tocar em um espetacular órgão de
tubos, em uma igreja. A seguir, uma cena a mostrar homens mascarados a cavalgar
entre brumas, em um ambiente noturno que lembra um cemitério, mostra-se tensa.
Eis que eles ameaçam a esposa e as filhas de John Paul Jones e finalmente, um
deles desce do cavalo e aparece a abrir a porta da residência e quando então
ele retira a máscara do seu rosto, revela-se ser o próprio, John Paul Jones, ou
seja, a família alivia-se, com as filhas a recebê-lo com euforia. A letra da
canção traz pistas sobre essa representação de John Paul Jones como um
organista do século XVIII, que eventualmente poderia ser sombrio.
“Close the
door, put out the light
You know
they won't be home tonight
The snow
falls hard and don't you know?
The winds of
thor are blowing cold
They're
wearing steel that's bright and true
They carry
news that must get through”
E na
tradução em português :
“Feche as
portas, apague as luzes
Você sabe
que eles não estarão em casa esta noite
A neve cai
forte e você não sabe
Os ventos de
Thor estão soprando frio
Eles estão
vestindo aço que é brilhante e verdadeiro
Eles trazem
notícias que precisam ser entregues”
A terceira
intervenção com encenação, vem com Robert Plant em meio à fusão de duas canções
que o Led Zeppelin estabeleceu na montagem de seu set list nessa turnê: “The
Song Remains The Same” e “The Rain Song”, aliás, uma fusão semelhante à ordem
das canções no lado A do LP “Houses of The Holy”. Ou seja, como sugere a letra
da primeira canção, a evocar as conquistas territoriais e marítimas obtidas por
povos medievais, pois Plant está a bordo de um bote caracterizado e vestido
como um cavaleiro da Idade Média, quando recebe uma espada, supostamente
imantada, das mãos de um anjo ou qualquer outro Ser mitológico que o valha. Já
no avançar da belíssima balada, “The Rain Song”, ele cavalga para posteriormente
descansar em meio a um bosque. A cena onde apanha um cogumelo e o ingere, gerou
furor também nas salas de cinema, com gritos a ser escutados de uma forma
emblemática e creio não seja necessário explicar a motivação por tal reação
espontânea da parte dos Freaks que lotaram as salas de cinema. Logo as seguir,
Plant atinge os limites de um castelo medieval e mediante a ajuda de um falcão
amestrado que ataca os guardas, ele o invade, luta contra vários soldados para
enfim, resgatar uma bela donzela.
A quarta
intervenção, dá-se com a mística encenação de uma experiência mística da parte
de Jimmy Page. Seguidor das ideias do mago alquimista, Aleister Crowley, Page
atuou em uma fantasia a revelar muito bem os seus interesses pessoais em torno
de tais estudos, ao mostrar-se como alguém a escalar com dificuldade uma
montanha para encontrar em seu cume a figura de um ancião, um ermitão místico a
segurar um candelabro. Quando o encara, verifica-se que trata-se dele mesmo, a
denotar uma experiência vivencial forte e carregada por simbolismos íntimos e secretos.
Há uma sugestão de regressão da personagem a rejuvenescer ao ponto em voltar a
ser um feto, e posteriormente ocorrer o curso normal da vida a mostrar o
desenvolvimento natural de Page como bebê, até envelhecer novamente, ao ponto
em que torna-se o suposto bruxo senil. Simbolismo também para o Led Zeppelin em
si, visto quer a figura do bruxo a segurar a lanterna em mãos, é uma ilustração
contida na contracapa do LP Led Zeppelin IV (esse nome é um apelido, na verdade, pois o álbum é conhecido na prática como "Four Symbols", pois não há um título formal a designá-lo, mas somente quatro símbolos místicos a indicar os componentes da banda).
Toda essa cena misteriosa ocorre em meio à enorme performance da banda quando toca a canção, "Dazed and Confused", que normalmente era executada nos shows da banda com larga margem de improviso e neste caso, tal versão contém quase trinta minutos.
A última
intervenção mostra, John Bonham, e de uma forma bem mais modesta, pois não há
nenhuma cena a conter misticismo, aventura ou algo mais excitante enquanto
representação simbólica, pois apenas mostra-o a cumprir tarefas do cotidiano em
sua propriedade rural, mais uma vez, como no início do filme e inclui a sua
família.
Desta feita, causava furor a cena em que o seu filho, Jason Bonham,
então bem pequeno, mostrava muita habilidade a tocar bateria e realizar
malabarismos com as baquetas, e também isso gerava uma euforia nas salas de
cinema. De fato, Jason tornou-se anos depois um bom baterista e tocou em
algumas ocasiões em que o Led Zeppelin reagrupou-se em caráter excepcional após
o término das atividades da banda, para representar com honra o seu falecido
pai, no comando das baquetas da banda. Para arrematar, Bonham também é mostrado
a jogar bilhar e beber chopp, interagir com a esposa e na cena mais esfuziante,
a dirigir um carro preparado para a chamada “corrida de arrancada”, o popular,
“Dragstar”. Tal sequência de cenas a conter Bonham em seu cotidiano é mostrada
em meio ao seu solo de bateria, durante a execução da canção, “Moby Dick”.
Sobre o show
em si, a percepção é de uma banda fortemente sedimentada em suas raízes básicas
em torno de três pilares básicos, em termos de estilos musicais: Blues-Rock,
Hard-Rock e o Folk-Rock, ou seja, o núcleo duro da sonoridade desse grupo.
A
mística em torno de suas múltiplas tradições forjadas desde o início de sua
carreira, estão ali bem apresentadas, caso por exemplo da larga margem de
improvisação permitida em meio à sua
interpretação das canções e a conter um apelo místico subliminar no bojo da
obra, expresso em sutis facetas e não necessariamente musicais, que estão ali
para quem as enxergar. O carisma pessoal de cada componente, a destacar-se o
apelo sexual implícito na performance pessoal do vocalista, Robert Plant e
confirmado pelas diversas tomadas a revelar o estado de êxtase de muitas
mulheres na plateia que mal conseguem respirar ao vê-lo cantar (durante a
execução do lindo blues, “Since I’ve Been Loving You”, isso fica patente).
O
seu lado mais Hippie exacerba-se quando ele apanha dois cigarros de maconha que
alguém da plateia possivelmente arremessara-os como um oferecimento e ele,
Plant, limita-se a exibi-los para a plateia e sorrir, maliciosamente.
O retrato fiel de Jimmy Page é apresentado, como um guitarrista que extrapolou as fronteiras da
criação à guitarra, pois muito além de ter criado tantos sons memoráveis, ele imprimia
em sua performance pessoal uma liturgia própria. Como não se impressionar com o
uso de um arco de violino para tocar guitarra em algum momento do show, como
uma marca registrada sua e mais do que fazer algo tecnicamente mirabolante com
tal estranho artifício, o que realmente contava nesse ato foi a força do
simbolismo inerente que ele carrega.
John Bonham não foi um baterista comum,
longe disso e não falo apenas pelo aspecto técnico, mas pela sua presença ali
atrás, a mostrar-se vulcânica pela explosão sonora que ele conferia, tamanha a
expressividade com a qual atuava.
E John Paul Jones, teoricamente um músico
comedido, tímido no palco, a tocar em canto, de uma forma discreta, mas a
revelar-se o esteio do grupo, ao tocar baixo com uma precisão absurda e como
baixista que eu sou, posso assegurar ao leitor, as suas linhas melódicas são
belíssimas. E também por ser o multi-instrumentista da banda, ele tocava os
teclados com muita desenvoltura e neste show não houve a parte acústica que a
banda costumava inserir ao executar vários temas com sabor Folk-Rock, mas sim,
ele tocava vários instrumentos de cordas com maestria, igualmente.
Bem, sobre a
performance em si, há pequenas falhas, embora tenha sido o fruto de uma escolha
sob decupagem de três concertos inteiros. Particularmente, acho que são
pequenos erros cometidos e imperceptíveis ao público leigo e somente músicos,
técnicos, produtores muito minuciosos em trabalho de estúdio ou maestros muito
exigentes haverão por reparar e entre eles, poucos serão os que não relevarão
por mostrar-se exigentes e/ou intransigentes. Todo músico sabe e no caso de
músicos que militem no mundo do Rock, ainda mais, que no calor da adrenalina,
na empolgação ou muitas vezes por falta de algum recurso no monitor que o
atenda no palco, a performance do músico, pode ser prejudicada. Errar é humano,
claro que se releva.
Há declarações da parte dos componentes da banda, a dar
conta que não gostam da performance da banda nesse filme e consequente disco,
exatamente por considerar que não foi a melhor performance da banda. No
entanto, está longe de ser algo vergonhoso, mas talvez aquém do potencial real que
eles tinham.
Na música, “Rock’n
Roll”, que abre o show, percebe-se um certo vazio quando Page passa a solar e o
baixo, por não ter sido mixado mais em proeminência, fica sem o peso natural
para suprir a lacuna. Em “Black Dog”, Plant não canta com o mesmo arranjo do
disco, visto ser quase impossível cantar naquela altura tonal, sem correr o
risco da desafinação. Mas tudo bem, foi uma saída inteligente para cantá-la ao
vivo com segurança. “Since I’ve Been Loving You" soa estupenda. Não sei o que é melhor,
ali: a interpretação vocal hipnotizante da parte de Plant; os solos de
arrepiar de Page; os teclados magníficos de Jones ou a bateria pesada e precisa
de Bonham. A mesma mágica que essa canção produz ao ouvinte de sua versão de
estúdio, contida no LP Led Zeppelin III, verifica-se nesta versão ao vivo.
Em “No Quarter”,
é fantástica a intervenção dos teclados de Jones e o uso do gongo da parte de
Bonham, torna a interpretação grandiosa. “The Song Remains the Same” é executada
com uma energia incrível. A música que é vibrante por natureza, ao vivo
conseguiu ganhar ainda mais colorido.
E “The Rain Song” é um primor por ser
absolutamente magistral. É uma das melhores baladas do Led Zeppelin e quero crer,
da história do Rock. O apoio do mellotron, um teclado tipicamente setentista, é
para emocionar.
Já em “Dazed and Confused”, todo o ritual místico zeppelineano
cumpre-se com rigor. O início lúgubre com aquela frase de baixo em sentido
cromático descendente; a interpretação vocal e sobretudo pela performance de Page
com a sua liturgia clássica. O arco de violino e o theremim, o longo improviso,
a insinuação ao R’n’B; ao Jazz e ao Hard-Rock. Isso não é uma música, mas sim, uma
cerimônia completa.
“Stairway to
Heaven” é executada com bastante emoção. A despeito de ser uma das músicas mais
repetidas do mundo e muitas pessoas simplesmente não conseguir suportá-la mais,
pela simples questão da sua repetição ad nauseam, o fato é que ela é linda.
”Moby
Dick” é uma música que é sustentada por um tremendo Riff Hard-Rock e por ter
sido mote para o solo de bateria de Bonham. Outro ritual típico da banda, o
solo de Bonham é algo fora do comum, com todo o respeito aos grandes bateristas
que produzem solos muito técnicos, mas Bonham teve um diferencial, e foi algo
nato. “Heartbraeaker” contém um peso extraordinário e dignifica a sua condição
como um Blues-Rock vigoroso. E finalmente, “Whole Lotta Love”, outro clássico
da banda, com direito a um longo improviso e a inserção de “San Francisco” (Be
Sure To Were Flowers in Your Hair), de Scott McKenzie, fecha com chave de ouro
o concerto.
Sobre a
produção visual da banda no palco, ele mostra-se pobre, em linhas gerais, com uma
iluminação trivial e nenhum recurso especial, a não ser algumas explosões de
pólvora durante a execução da canção: “Whote Lotta Love”. O Led Zeppelin, ao
contrário de outras bandas, suas contemporâneas, nunca preocupou-se em usar um
aparato visual muito sofisticado. Portanto, o que se vê no filme, foi a média
normal em que a banda atuou em toda a sua carreira, com um palco sem cenários
luxuosos, mas apenas a conter os equipamentos básicos, e uma iluminação
simples.
Então, o
concerto de Rock proporcionado pelo grande Zepelim de chumbo, encerra-se. É
mostrado o público em êxtase e a banda evade-se do palco para imediatamente
dirigir-se ao estacionamento do complexo e mediante o apoio de muitas limusines,
dali retirar-se.
A personificação exata do que o Rock setentista foi em relação
ao cinema vinte/trintista, ou seja, a extrema idolatria dos artistas a
tornar-se no imaginário popular, como destacados da humanidade, e por isso não
recebem ninguém no camarim, mas costumavam sair suados do palco, direto para as
limusines, que certamente os levaria para as festas sem fim, em meio aos
excessos do Rock. E que o leitor acredite, eu não afirmo isso com um tom de
crítica, visto que a minha base pessoal afetiva com o Rock é pela escola sessenta/setentista, mas observo como algo realista a retratar tal década nas
entrelinhas.
Bem,
considere o leitor que o filme foi cogitado para sair em 1970, mas somente foi
posta em prática a sua produção em 1973, para finalmente ser lançado em 1976,
ou seja, quando o filme chegou aos cinemas, a banda já havia lançado o LP Physical Grafitti e na sequência
mais um álbum, “Presence”, portanto, estava em outro momento da carreira.
Portanto, “The Song Remais The Same” retrata um momento diferente da carreira
da banda e mesmo que na ordem cronológica da discografia, seja colocado como um
disco após o LP “Presence”, na realidade o seu teor artístico é marcado a mostrar
como a banda soava durante a realização da turnê do LP Houses of The Holy”, de
1973.
A crítica
foi bastante dura com o filme, pois tratou por tecer comentários desfavoráveis,
principalmente em relação às cenas dramatúrgicas, consideradas sem sentido.
Bem, não sou advogado da banda e nem de Peter Grant, mas creio que ficou bem
clara a intenção de apenas expressar em tais cenas, algum sentimento lúdico a
conter alguma nuance pessoal de cada elemento da banda, portanto, não acho
justo que seja levada em outros termos, qualquer análise. Sob o ponto de vista
estritamente musical, o filme cumpre a sua missão ao mostrar o Led Zeppelin em
ação e dessa forma, não creio ter havido por parte da banda, a pretensão em
produzir uma obra de arte cinematográfica.
No Brasil, o
filme somente estreou em setembro de 1977. Ou seja, com quase um ano de atraso.
Se para todo fã do Led Zeppelin já era duro lidar com as muitas restrições que
o seu empresário, Peter Grant, impunha, imagine aos fãs oriundos de países subdesenvolvidos,
como o Brasil, onde as condições nos anos setenta eram muito mais precárias em
termos de infraestrutura?
Pois então, somente os Rockers mais abonados tiveram
chance de possuir um raro material da banda e melhor ainda, assistir ao menos
um show, desde que fosse em algum país da Europa, Estados Unidos, Japão ou
Austrália, ou seja, o seleto grupo a formar o primeiro mundo e que mantinha
infraestrutura para fazer parte do circuito dos grandes shows de Rock. Nesses
termos, ainda a engatinhar nesse quesito e apesar de recentemente ter visto
passar por aqui os shows de artistas tais como: Santana, Alice Cooper, Jackson
Five, Rick Wakeman, Genesis e Joe Cocker, não havia nenhuma perspectiva para
que o Led Zeppelin aterrissasse na terra tupiniquim. Portanto, quando o filme
foi anunciado para entrar no circuito das salas de cinema, gerou-se um furor
absurdo entre os Rockers, Hippies & Freaks nativos.
Em meu caso pessoal,
lembro-me bem, um amigo meu que era baterista e com quem eu tocaria em uma
banda cover e diversos outros projetos ao final dos anos setenta (Alcides “Cido”
Trindade), disse-me de uma forma eufórica, que um contato seu que trabalhava na
gravadora Warner (que no Brasil distribuía os discos da gravadora, Atlantic,
onde o Led Zeppelin era artista exclusivo), forneceu-lhe três ingressos para a
avant-premiére do filme em uma famosa sala de cinema localizada na Rua Augusta,
em São Paulo. Ele iria com a sua namorada e o terceiro ingresso seria meu.
Claro que eu fiquei eufórico, entretanto a seguir, na véspera, ele comunicou-me
que recebera apenas dois ingressos, portanto, eu fui preterido, logicamente.
Segundo ele relatou-me, para essa exibição, foi contratado um equipamento
extra, um P.A. para show de Rock, com o intuito em fornecer ao filme, a carga
sonora de um show ao vivo e assim, dar ao espectador a sensação de estar a assistir
o Led Zeppelin ao vivo no palco.
Uma semana depois, começou a exibição aberta
ao público em geral, no início de setembro de 1977, e eu estive presente na
primeira sessão, acompanhado de um amigo, Wilton Rentero, que era guitarrista
da minha primeira banda, o “Boca do Céu” (cujo vocalista foi Laert “Sarrumor”, então
futuro vocalista e compositor do Língua de Trapo, banda essa que tornar-se-ia
muito famosa no Brasil nos anos oitenta e pela qual eu também fui componente).
Bem, eis que nessa sessão inaugural desta sala de cinema da Rua Augusta, eu fui
o segundo a comprar o bilhete de ingresso e Wilton, o terceiro. Havia apenas um
rapaz sentado na porta da bilheteria, quando chegamos mas em poucos minutos, um
verdadeiro enxame de Freaks aproximou-se e rapidamente tornou a fila,
gigantesca. Mediante um forte perfume de Patchouli, gerado pelos hippies ali
presentes, a euforia foi imensa em ver algo inacreditável e que a maioria ali
presente somente conhecia por fotografias de jornais e revistas e pelas capas
dos discos: O Led Zeppelin à nossa frente em uma tela grande de cinema, a
desfilar os seus clássicos e com direito à cenas que ali todos acharam lindas,
principalmente nos pontos chave a mostrar Page com os olhos vermelhos e a subir
a montanha para obter o seu encontro místico com o bruxo ancião (muitos diziam
em voz alta: -“é o Aleister Crowley”, e de certa forma, simbolicamente fora ele,
sim); Plant a ingerir um cogumelo, Jones a cavalgar sob brumas e Bonham a pilotar
um dragster. Ou seja, foi um êxtase, eu posso assegurar ao leitor.
Ainda a comentar
aspectos da minha impressão pessoal, devo destacar que aquele velho e infame
costume brasileiro de designar nomes em português, completamente desconectados
com a intenção literal do título em línguas estrangeiras, observou-se mais uma
vez e neste caso do filme do Led Zeppelin. “The Song Remains the Same”, em uma
tradução literal significa: "A canção permanece a mesma”, mas o sujeito que
trabalha na distribuição nacional resolveu chamar o filme como: “Rock é Rock
Mesmo”, ou seja, uma aberração.
Bem, acho que a intenção de sua parte deve ter
sido boa ao considerar que tal título atenderia os anseios do público “jovem”,
no entanto e convenhamos, revela-se um atentado à inteligência dos fãs do Led
Zeppelin. Paciência, o Brasil era ou é ainda, assim mesmo...
Bem, furor
nas salas de cinema, o filme logicamente tornou-se cultuado entre os fãs da banda
e gerou o álbum que é considerado então como único ao vivo na sua carreira. Foi
exibido na TV aberta, também com bastante frequência na TV a cabo e saiu em VHS
nos anos oitenta. Nos anos dois mil, ganhou a sua versão em DVD. Posteriormente,
uma nova versão remasterizada saiu em DVD a conter mais quatro músicas, “Celebration
Day”; “Misty Mountain Hop”; “The Ocean” e “Over the Hills and Far Away”. E
também a conter entrevistas de rádio e imagens inéditas sobre o caso do assalto
ao hotel Drake. É possível assisti-lo na íntegra no portal de filmes, “Internet
Archive”.
Colin
Rigdon, Derek Skildon e o grande astro Folk, Roy Harper (artista pelo qual o
Led Zeppelin homenageara no LP Led Zeppelin III, com a canção: “Hats Off To (Roy)
Harper”), contam como participantes do filme na ficha técnica, porém de forma
bem obscura, talvez tenham atuado como atores de apoio nas cena de John Paul
Jones e os cavaleiros mascarados ou nas de Robert Plant em meio aos soldados
medievais que enfrentou em batalha. Sinceramente, eu não tenho essa afirmação
com certeza.
Foi dirigido
por Joe Massot e finalizado por Peter Clifton. Lançado em outubro de 1976. A
engenharia de som ficou a cargo de Eddie Kramer, um ícone na história do Rock.
Destaca-se também que o seu release oficial foi escrito pelo então jovem
crítico de Rock, Cameron Crowe, nesta época a serviço da Revista Rolling Stone
e que tornou-se um amigo fraterno da banda. Cameron, muito anos depois,
tornou-se um celebrado diretor de cinema.
Em suma, esqueça a opinião de qualquer pessoa que arrole restrições ou ressalvas desabonadoras, pois é o Led Zeppelin no celuloide, portanto, é claro que vale a pena assistir!
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume I, com a leitura disponibilizada a partir da página 13.
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