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sábado, 20 de outubro de 2012

Filme : The Wicker Man (O Homem de Palha) - Por Luiz Domingues


Com raízes na remota antiguidade, os ritos agrários a estimular a fertilidade foram sufocados sumariamente com o crescimento do cristianismo medieval, quando outorgou-lhe aura demoníaca, principalmente. Proscritos e perseguidos, os adeptos dessas antiquíssimas seitas baseadas em Deuses e Deusas da natureza, ou morreram nas fogueiras da Inquisição ou preservaram-se apenas pela observação do anonimato absoluto.
Entre os anos 1950 e 1970, a produtora britânica de filmes de terror e Sci-Fi, Hammer, entrou para a história do cinema com as suas produções, que conquistou fãs desses dois gêneros, no mundo todo.
Entre as suas estrelas mais luminosas, os atores, Christopher Lee e Peter Cushing, contribuíram decisivamente nesse processo em termos de popularização dessas produções da Hammer, principalmente em suas respectivas caracterizações como : Conde Drácula e o seu inimigo, o cientista, Van Helsing. Em 1973, a Hammer lançou uma curiosa história onde supostamente o enfoque seria o habitual terror de suas produções, contudo, neste caso fugiu de seu padrão.

Foi através de : "The Wicker Man" (O Homem de Palha", em português), um filme dirigido por Robin Hardy, e cujo mote foi o paganismo pré-cristão. Estrelado por Christopher Lee, apostou no mistério, quase com um elemento de novela policial, mesclado ao folclore britânico pré-cristão, com direito ao exotismo dos ritos pagãos e a observar bastante erotismo.
A história começa com a chegada de um policial a uma pequena ilha na Escócia (o sargento, Howie, interpretado por Edward Woodward). A sua missão é investigar o desaparecimento de uma garota, mediante uma queixa formalizada por envio de uma carta de um habitante da ilha. Assim que chega à remota e pacata localidade, começa o seu trabalho de investigação e dali em diante, choca-se com o que observa ao seu redor.
Isso porque no pequeno povoado, as pessoas demonstram abertamente não ter nenhuma ligação com o cristianismo tradicional e ele, um fervoroso religioso, fica boquiaberto com o que constata.
Para início de conversa, na escola fundamental, as crianças aprendem ritos pré-cristãos sobre a semeadura e colheita agrária, baseados na fertilidade sexual.
No pátio da escola, um totem pagão em forma de falo é venerado e as crianças estimuladas a adorá-lo como agente semeador. Canções pagãs a abordar práticas sexuais; orgias e que tais, são cantaroladas sem nenhum constrangimento e o pudico policial irrita-se profundamente.
Faz perguntas então aos moradores, aos comerciantes, todavia, ninguém fornece-lhe nenhuma informação relevante sobre a garota desaparecida, para aumentar o clima em tom do mistério.
Na estalagem onde hospedou-se, recebe uma insinuante "cantada", algo que considera inacreditável, da parte da filha do proprietário (Willow, interpretada por Britt Ekland), que o convida ao embate amoroso, ao bater-lhe à porta, inteiramente nua. A atriz, Britt Ekland, era uma das mais belas beldades do cinema europeu de sua época sendo ex-esposa do grande ator e comediante, Peters Sellers, e pouco tempo depois do lançamento desse filme, casar-se-ia com o vocalista de Rock, Rod Stewart.
Cabe aqui observar que a fleuma britânica é mesmo muito diferente da latina e uma cena assim soa invirossímel para nós, pois ninguém acreditaria que o sujeito resistiria à essa tentação. Enfim...
O sargento Howie conhece finalmente o homem mais poderoso da ilha, Lord Summerisle, cuja família deu nome à localidade. Interpretado pela estrela da Hammer, Christopher Lee, Summerisle é um homem culto e não disfarça os seus hábitos exóticos, a enaltecer a cultura local etc e tal.
O sargento descobre então que por conta de tal crença pagã, os seus seguidores costumam estabelecer o sacrifício humano de uma mulher virgem e que a colheita ruim deste ano, fo atribuída ao fato de não ter havido sacrifício anteriormente.
Claro, os habitantes e Lord Summerisle afirmam que o sacrifício é simbólico, ao descartar o sacrifício humano de fato, mas o policial Howie está cada vez mais convencido que são fanáticos de uma seita sanguinária e que promovem tais ritos, na realidade. Então, onde foi parar a garota desaparecida ? Paira a dúvida, pois se não houve sacrifício, e a colheita foi ruim por isso, ou a garota fugiu ou não era qualificada como virgem, e por isso sumiram com o seu corpo.
Todas essas informações desencontradas deixa-o mais confuso e o atordoa por um embate interior em torno dos seus sentimentos pessoais em tom de repúdio ao paganismo anti-cristão, praticado por essas pessoas. Ele presencia outras manifestações que deixa-o estupefato, como por exemplo, uma orgia perpetrada por garotas muito jovens em meio a um bosque, e também pelo deboche generalizado das pessoas em relação ao cristianismo tradicional.
Então, Lord Summerisle convoca os habitantes a participar da festa anual da fertilidade. O sargento Howie infiltra-se entre os habitantes locais, a usar uma fantasia e assim sai a desfilar pelas ruas, em meio às cantorias folclóricas.

Em um dado instante, é surpreendido facilmente, pois por não conhecer as tradições folclóricas da festa, deixa de fazer a sua parte no ritual, enquanto personagem participante, e é capturado.
A grande surpresa chega quando a garota supostamente desaparecida surge e demonstra com escárnio, que toda aquela situação fora uma armadilha para Howie.
Na condição de virgem (e pouco importa se é do gênero masculino), devido ao seu comportamento ultra comedido por conta da sua religiosidade contumaz, o sargento Howie é a presa perfeita que necessitavam. Ele é conduzido a uma enorme estátua construída com palha e fica aprisionado dentro dela, em uma espécie de jaula. Ele será enfim, o sacrifício humano que aquela comunidade ansiava...
Um diálogo tétrico é travado entre Howie e Lord Summerisle e diante da inevitável imolação, Howie reza e entoa cânticos cristãos em tom de resignação diante do sacrifício.

A estátua é incinerada enquanto os membros da comunidade cantam alegremente a sua vitória em ver a missão cumprida, para satisfazer a voracidade da sua Deusa da fertilidade, e com a certeza de que terão boa colheita no ano posterior...

O filme teve uma versão moderna de 2006, sob uma produção norteamericana e como geralmente ocorre, o remake tem mais recursos tecnológicos, mas o resultado é decepcionante.

De volta ao original de 1973, "The Wicker Man" traz essa discussão muito interessante sobre o paganismo, em uma época onde esse assunto ainda era um tabu. Traz o elemento folclórico muito forte, com a parte musical muito agradável no tocante ao folk britânico, excelente como sempre, e imprimiu-se o elemento terror, certamente, mas neste caso, a resultar em um grau de diferenciação muito grande em relação ao padrão tradicional da Hammer.
Infelizmente foi realizado nos momentos agonizantes da histórica produtora britânica, que fechou as portas em 1976, para voltar posteriormente anos depois  quando passou a dedicar-se à produções na TV e lançamentos no mercado de VHS e DVD.
Comenta-se que o próprio, Christopher Lee, considera esse filme, um dos melhores de sua carreira e tanto foi assim, que aceitou trabalhar com cachet reduzido, ao tomar conhecimento de que a verba seria pequena, pois entusiasmara-se com o roteiro.
Um belo filme, sem dúvida, e eu concordo com a opinião do velho Lee.