Mostrando postagens com marcador Canal 9 de São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Canal 9 de São Paulo. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de setembro de 2014

TV Excelsior, Adorável e Odiada - Por Luiz Domingues




Em um ambiente ainda a mostrar-se inicial para a TV brasileira, as principais emissoras em São Paulo, e que brigavam pela audiência, foram as emissoras : TV Tupi e a TV Record, com a TV Paulista a apresentar uma situação mais modesta, ao amealhar poucos pontos das duas líderes e a TV Cultura, a atravessar a sua fase como uma entidade particular (só ressurgiria como uma emissora estatal em 1969), também em condições mais modestas em termos de  investimentos. Nesse cenário, o empresário e radialista, Victor Costa detinha a concessão para abrir mais um canal na cidade, visto que já era dono da TV Paulista.




Nesse processo para abrir um novo canal, ele não entrou sozinho em tal aventura, mas teve apoio de empresários bem sucedidos e para sorte do público, com mentalidade progressista, interessados em fazer dessa emissora, uma difusora de cultura, sob um patamar acima do popular, e assim privilegiar a observação da arte de qualidade a ser difundida.



Victor Costa teve, portanto, o respaldo de empresários como José Luis Moura e Mário Wallace Simonsen, ambos cafeicultores de Santos / SP, que estavam empenhados nessa ideia para fazer da nova emissora, uma difusora de programação seleta, sem grande preocupação em atender pressões para agradar ao máximo a audiência, portanto, sem o intuito em ser popularesca.
Com apoio do jornalista João de Scantimburgo e de Ortiz Monteiro, deputado federal à época, montaram a estrutura inicial para a TV Excelsior de São Paulo entrar no ar. Inicialmente, a antena da nova emissora foi colocada na Rua da Consolação, esquina com a Avenida Paulista e os estúdios foram montados na Avenida Adolfo Pinheiro, no Brooklin, bairro da zona sul de São Paulo. Logo foi possível alugara-se o Teatro Cultura Artística, no centro da cidade e ali usaram-no para as produções de auditório, programas que fizeram grande sucesso em sua grade.
O empresário, Simonsen, era dono da Pan Air do Brasil, e nessa histórica companhia aérea brasileira, ele havia implantado uma política interna de remuneração muito acima dos padrões de mercado, ao instituir um ambiente muito bom, onde os seus funcionários trabalhavam com uma improvavel motivação extra, por sentir orgulho da empresa, pelas ótimas condições que recebiam. Tal mentalidade mais participativa, com valores humanistas embutidos, assemelhara-se à práticas muito progressistas dentro do mundo corporativista capitalista e foi obviamente algo avantgarde para os padrões do final dos anos cinquenta e início dos sessenta.
Tal mentalidade foi levada para a emissora, mas seria um fator a mais para a sua derrocada tempos depois, não pelos fatores econômicos em si, mas por perseguições de cunho ideológica. Simonsen adquiriu a parte de Victor Costa e a emissora voava em céu de brigadeiro, como a Pan Air, para agradar ao público com a sua programação de qualidade, nos primeiros anos da década de sessenta. E que qualidade...

Bibi Ferreira mantinha o seu “Brasil 60”, um musical sensacional que nos anos posteriores avançou a acompanhar a cronologia : “Brasil 61”, “Brasil 62” etc.
Sempre a buscar a novidade, em 1962, a Excelsior  tentou transmitir em cores (Programa Moacyr Franco Show), no sistema NTSC que não deu certo no Brasil. O sistema em cores somente seria implantado dez anos depois, em 1972, quando vingou oficialmente no Brasil, com o sistema Pal-M, de tecnologia germânica, todavia, a Excelsior não existiria mais para usufruir dessa nova tecnologia da transmissão. 

Ainda em 1962, a TV Excelsior inaugurou novas instalações em complexo localizado na Vila Guilherme, na zona norte de São Paulo, e que posteriormente foi comprado por Silvio Santos para abrigar a sua TVS / SBT, e hoje em dia ali funciona um mega templo de uma denominação evangélica.
Em 1963, inaugurou-se a sua filial no Rio de Janeiro, ao usar como auditório, o antigo cinema Astória no bairro de Ipanema, na zona sul carioca, e logo de início a apresentar um musical vistoso : “O Rio é o Show”, com a presença de grandes nomes da MPB de então. Ao contrário da TV Tupi, que demorou a planificar-se como uma Rede com alcance nacional (havia até um clima hostil e de rivalidade entre a Tupi de São Paulo e a do Rio, ao tratar-se mutuamente como inimigas e concorrentes), a Excelsior tratou logo em expandir-se e depois do Rio, chegou à Belo Horizonte e outras capitais, como uma rede unida e coesa.
Ainda a falar da grade de programação, a TV Excelsior primou pelo acervo de filmes e séries de qualidade. As suas sessões de cinema com a exibição de clássicos, foi sempre notável.
No campo das séries, foi através da Excelsior / Rio, que “Star Trek” – “Jornada nas Estrelas, chegou ao Brasil em 1966, por exemplo.
Outros musicais incríveis a destacar-se : “Dois na Bossa”e “O Brasil Canta no Rio” com a nata da MPB a apresentar-se ali, como por exemplo, Elis Regina; Eliana Pittman e Jorge Benjor (na época, Jorge Ben), e outros tantos talentos em início de carreira, além de gente já consagrada como, Os Cariocas, e muito mais artistas de alto quilate.
A emissora investiu também nos programas humorísticos de auditório, onde “Times Square” destacou-se e de fato, marcou época. Quando a Jovem Guarda explodiu na TV Record de São Paulo, a TV Excelsior também abriu espaço para a dita “música jovem”, com Os Incríveis a comandaro um programa (Programa “Os Incríveis”), e Ronnie Von, outro (“Assim Caminha a Juventude”).
No campo do jornalismo, a TV Excelsior também esforçou-se para manter uma cobertura moderna e muito eficaz. O “Jornal de Vanguarda” é um exemplo que marcou época, já a antecipar o modelo de jornalismo que nortearia o futuro imediato, na década posterior, de setenta. Apesar de parecer incoerente com a proposta inicial em manter-se em um padrão cultural elevado, em termos de difusão cultural dentro dessa emissora, é fato que a TV Excelsior aventurou-se na dramaturgia, com novelas, também, esbarrou no aspecto mais popular. E por um bom tempo, tal emissora concorreu com a TV Tupi, que liderava a audiência nesse quesito em específico, ao lançar novelas, igualmente e em alguns casos, muitas entraram para a história do gênero, caso de “Redenção”, que está registrada como a novela de maior duração na história desse gênero, no Brasil, com mais de dois anos de exibição e um número absurdo de capítulos, 596 para ser preciso.
“A Pequena Orfã”; “ A Muralha”; “Sangue do meu Sangue”; “Os Fantoches”, entre outras, são exemplos de sucessos da Excelsior, além de “2-5499”, considerada a primeira telenovela com exibição diária, na TV brasileira, fato ocorrido em 1963. Muitos atores que eram funcionários da TV Excelsior migraram para o elenco da TV Globo, assim que a Excelsior fechou as suas portas. Tarcísio Meira; Francisco Cuoco; Glória Menezes; e Regina Duarte, entre muitos outros, eram atores & atrizes do time da Excelsior. Ivani Ribeiro, uma autora histórica, por exemplo, escreveu diversas novelas para a TV Excelsior.
Outro fator que deixou saudade foram as vinhetas musicais, ao antecipar em muitos anos tal ação da parte de outras emissoras, que somente a partir das décadas posteriores usariam tal recurso em larga profusão. Se a Excelsior foi uma emissora adorável, com nobres princípios e querida do público, mas por qu?e fechou as suas portas então ?
Pois o empresário, Simonsen, detinha ideais democráticos; legalistas e liberais e quando o regime autoritário instaurou-se em 1964, ele tornou-se um desafeto natural das autoridades de então. A sua empresa aérea, Pan Air, foi defenestrada, até fechar as suas portas e a TV Excelsior não teve outro tratamento por parte do governo. A censura foi implacável para prejudicar a programação da TV Excelsior, ao causar-lhe um grande prejuízo. Os incêndios de suas instalações em 1969, foram considerados muito suspeitos e as ações da repressão para prejudicar a emissora, mostraram-se  acintosas e vergonhosas.
Em repúdio, a emissora não editava as partes censuradas e deixava a imagem de seus mascotes, o menino, “Paulinho”, e a menina, “Ritinha”, com mordaças em suas respectivas bocas, a escancarar a arbitrariedade imposta pela perseguição, e isso irritava profundamente os governantes. O golpe fatal deu-se em 1970, quando a emissora já estava totalmente sucateada e nem pertencia mais à Simonsen, que vendera a sua massa falida ao grupo Folha de S.Paulo.
Por meio de uma manobra financeira, o governo exigiu que uma dívida tributária pesada fosse paga em poucos dias, para estrangular de vez a emissora. Sem chances para levantar 170 milhões de cruzeiros em poucos dias e sob uma ação deliberadamente agressiva com outros propósitos, os agentes da derrocada conseguiram lograr êxito, e eliminaram a TV Excelsior do mercado. Em 1º de outubro de 1970, o jornalista, Ferreira Neto, entrou de forma afoita no estúdio, ao interromper a exibição de um programa humorístico que acontecia ao vivo (“Adélia e suas Trapalhadas”), e aos prantos, afirmou que as autoridades haviam decretado o fim da emissora !
Mal teve tempo para terminar o seu depoimento dramático e a emissora saiu do ar, pois funcionários do “Dentel”(Departamento nacional de telecomunicações”, órgão estratégico do governo para controlar as emissoras de Rádio e TV), já encontravam-se na central técnica da Excelsior, para cortar o sinal da emissora. 

Recentemente um processo foi iniciado na justiça e existe uma perspectiva em que a concessão para a TV Excelsior voltar a operar seja revista. Não conheço os meandros desse processo, portanto não posso adiantar nada sobre o caso em termos jurídicos e sobretudo financeiros, de uma operação desse porte.
A única notícia que eu posso repassar, como simples telespectador que assistiu muito a TV Excelsior na década de sessenta, é que sob um momento tétrico em que vivemos no campo cultural, onde a subcultura de massa dominou todos os espaços das TV’s abertas e já contaminou a TV fechada, por incrível que pareça, uma TV Excelsior de volta ao mercado, com aquela mentalidade que manteve há cinquenta anos atrás, seria um oásis em meio à essa glorificação do subsolo da anticultura, como temos observado nos últimos anos. Mero sonho, pois tal perspectiva é apenas uma pálida possibilidade e tem sido constantemente ironizada em editoriais de algumas emissoras que sobreviveram à derrocada da Excelsior, ao sinalizar por outro lado que uma possível volta da velha Excelsior,  incomodá-lo-iam. Fica essa reflexão para o leitor : mesmo com quase trinta anos passados do regime autoritário ter findado-see assim confirmada a volta ao estado democrático de direito, a Excelsior ainda incomoda os retrógrados ? Isso explica muita coisa no âmbito cultural atual...
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2014.