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sábado, 30 de dezembro de 2023

Livro: "1961 - uma novela na era Kennedy"/Joel Macedo - Por Luiz Domingues

Esta resenha parte do pressuposto de que um novo livro escrito pelo jornalista e escritor, Joel Macedo, já pode ser considerado bom, mesmo antes que tenhamos o prazer de lê-lo. Trata-se de um exagero de minha parte porque sou fã do autor e da sua trajetória? De maneira alguma, ao se levar em conta que após ler a última palavra escrita e fechar a capa, do livro: "1961 - uma novela na era Kennedy", a excitação mental proporcionada pela leitura se mostrou tremenda no meu caso em particular, ao ponto de eu ficar absolutamente convencido de que o autor revelou mais uma faceta da sua arte literária, ao se provar também como um roteirista hábil, por usar as técnicas da construção de uma novela bem alinhavada (no qual até o folhetim clássico se fez presente de certa forma), para construir uma história boa sob o ponto de vista humano e acrescida com alto embasamento didático nas inúmeras entrelinhas planejadas por ele. E ao mesmo tempo a trabalhar com o aspecto da nobreza, no sentido do forte apelo a marcar firme posição em torno dos seus mais altos ideais pessoais de vida e dos quais eu compartilho, aliás.

Sob o ponto de vista da análise histórica e sociológica (com forte aprofundamento no aspecto cultural e filosófico, também), a tese formulada pelo autor defende a ideia de que o ano de 1961 foi emblemático para a consolidação de um estopim, no sentido de que teve o poder natural de se revelar como um catalisador de diversas vertentes de ideias represadas individualmente e portanto, prontas a provocar a grande explosão libertária sessentista.   

A construção das personagens e como elas transitam pelo arco narrativo se mostra muito interessante, no sentido de que o autor contemplou com muita assertividade as técnicas de redação ao ter criado uma história humana plausível a grosso modo e dramática ao ponto de garantir emoção o tempo todo em torno das personagens principais, em meio aos seus conflitos sócio-familiares e ao mesmo tempo, cada personagem representa através de suas respectivas personalidades, as diversas facetas pelas quais o autor quis colocar em discussão as suas convicções e dessa forma poder usá-las mediante uma força magnífica de expressão, para expor os seus sonhos e também os seus temores mais terríveis em relação às mazelas surgidas ao longo da história da humanidade como contraponto.

Indo além, nesta obra, Joel Macedo fez uma exposição riquíssima através da multiplicidade de informações que disponibilizou através de suas personagens, para apresentar aos leitores as diversas nuances do melhor do ideal fraternal através dos campos da filosofia, história, sociologia, espiritualidade, psicologia, psicanálise, ciências sociais, política, ideais libertários, arte engajada, cultura & contracultura e tudo isso a convergir para um único ideal superior, fruto dessa amálgama de tendências de pensamento e sensações que culminou com a formação do movimento hippie da década de sessenta.

Há um romantização heroica, é bem verdade, da personagem central, o filósofo Shimmon, que na história se apresenta como um professor universitário judeu alemão e de orientação progressista, perseguido pelo fascismo italiano dos anos vinte e inevitavelmente pelo nazismo alemão nos anos trinta, ao ponto dele haver amargado um longo período de cárcere e maus-tratos em um campo de concentração (Buchenwald). E a história deixa claro que nem pesou exatamente o fato dele ser judeu, mas sim por ser um intelectual progressista, para potencializar o seu martírio pessoal, o que é ressaltado na narrativa para dar vazão maior às ideias das quais ele professava com firme convicção.

No entanto, essa romantização da personagem é vital para a construção da história, no sentido de que tudo o que ele cita, faz todo o sentido e mais um ponto, este a se tratar de uma mera dedução minha como leitor e resenhista, deixo claro, quando ficou aguçado na minha percepção de que neste caso se trata do próprio alter ego do autor em ação, ao colocar para fora toda a sua cultura pessoal avassaladora em favor do seu grito libertário por um mundo melhor.

Essa tendência passou igualmente às demais personagens mais próximas que gravitaram em torno de Shimmon, pois todas também carregam uma forte carga de informações muito pertinentes ao raciocínio geral da obra e nessa medida, as afirmações que expressam em suas conexões pessoais, ao convergirem para um único ponto, são úteis para dar vazão à avalanche de referências propostas pelo autor. 

Há um quê de influência de texto dramatúrgico nesse sentido, quando uma amarração de personagens feitas dessa forma, tem o poder da síntese, que parece ocasional mas que não é, simplesmente assim. Isto é, na vida real, é muito difícil você agrupar cinco ou seis amigos que conhecem por pura coincidência a nata da classe artística e intelectual em seus respectivos círculos sociais e todos se  colocarem dispostos a compartilhar tais contatos com a absoluta normalidade, ao apresentar ou citar tais relações uns aos outros na mesa de um bar ou em meio a um jantar residencial, porém, esse recurso caiu como uma luva para o autor costurar todas as referências que desejou citar e dessa forma, foi muito feliz o recurso que usou, pois tornou lúdico fazer tantas citações incríveis a usar as personagens em diálogos e situações totalmente casuais, como se fosse algo muito natural. Portanto, a verossimilhança é irrelevante neste aspecto.

E certamente, assim evitou usar o recurso tradicional da bibliografia, mediante notas de rodapé (e acredite, são tantas informações preciosas disponibilizadas que o leitor fatalmente vai ler o romance e depois fazer buscas para conhecer a vida e obra de tantos artistas, intelectuais, e militantes citados). 

Mais um dado que é muito valoroso nesta obra de Joel Macedo e como já mencionei antes: nada do que é citado, foi a esmo. Toda essa gama de informações nesse sentido, converge para nos fazer crer que para que a contracultura explodisse, muitas obras e linhas de pensamento tiveram que ocorrer separadamente para depois poder precipitar uma canalização explosiva. É um fato, um rio possui muitos afluentes na sua somatória, até ficar enfim encorpado. E metáfora a parte, segundo Joel, o ponto que iniciou essa ebulição contracultural total, foi o ano de 1961.

Não vou cometer o pecado de contar a história, mesmo porque, o objetivo da resenha é realçar a qualidade da obra e deixar implícito o convite para que o leitor leia a obra na íntegra e descubra a sua complexidade por si só, todavia, cabe um resumo bem superficial para se entender a síntese dessa construção do romance. 

Nesses termos, revelo que Shimmon é um professor de filosofia, alemão de nascimento e judeu. Conviveu e trabalhou com grandes filósofos contemporâneos citados (Antonio Gramsci e Herbert Marcuse entre outros), que conheceu na vida acadêmica e se apaixonou por uma jovem de origem romena ligada ao psicanalista, Wilhelm Reich, quando ambos se envolveram no ousado projeto "Sex-Pol" perpetrado por esse estudioso. 

Nem é preciso acrescentar que com a chegada do chanceler Adolf Hitler ao poder na Alemanha em 1933, projetos como esse e outros tantos gerados por agentes intelectuais libertários (a escola de Bauhaus, por exemplo), foram duramente reprimidos e todos os intelectuais vislumbraram tempos muito sombrios em princípio, mas como sabemos, a escalada de horror do nazismo só piorou e assim, um casal de intelectuais avant-garde, ele, judeu e ela, uma romena de origem cigana, não teria esperança de sobreviver nesse ambiente altamente tóxico. 

A moça engravida e em seguida resolve seguir Wilhelm Reich em seu exílio forçado e assim ela deixa a filha recém-nascida com Shimmon. Este por sua vez abriga uma moça letoniana a cuidar sozinha de seu filho pequeno e quando o nazismo se tornara um inferno insuportável, ele resolve salvar a filha e o menino estoniano que criara por pouco tempo, ao designar a um casal de armênios tal tarefa, por vislumbrar que eles reuniam meios para fugir em segurança, imediatamente para os Estados Unidos. Ele mesmo sobrevive por milagre ao horror do campo de concentração e chega na América em 1961 para reencontrar os filhos, então já adultos formados e bem "americanizados" pelos bons e maus aspectos dessa aculturação yankee.

É em torno dessa chegada à Nova York de 1961, que ele enfrenta esse dilema triplo, ou seja: construir se possível, uma relação boa com esses filhos que não via desde 1938, sobreviver em um país novo e sobretudo, dar sentido motivacional à sua vida, agora no avançar da sua realidade sexagenária.

É nesse ponto que o autor construiu uma deliciosa licença poética que se torna frenética, aliás, no sentido de que Shimmon se adapta de uma maneira instantânea ao país e também à cidade de Nova York e absorto nessa atmosfera cosmopolita e recheada por ideias estimulantes e gente interessante demais (e aos montes por sinal), que ele encontra a motivação para se sentir produtivo, mesmo porque, por natural reciprocidade, as pessoas se encantam com a sua sabedoria mediante uma carga intelectual formatada solidamente como "schollar" europeu de enorme bagagem intelectual, ativista político e sobrevivente do horror nazista, e dessa maneira, um mundo novo de possibilidades se abre para ele. 

Esse é o âmago do romance, mas o leitor vai descobrir muito mais nas citações que são feitas ao borbotões, com uma carga de sapiência e ao mesmo tempo, sob a ação da deliciosa intenção libertária, que precipita uma certeira empolgação com a leitura, e a tendência é de se relevar algumas inverossimilhanças cometidas, pois haverá de entender que estas foram usadas de forma romântica, na verdade.

Nesse campo, por exemplo, Shimmon conhece Bob Dylan poucos momentos antes dele iniciar a sua trajetória de fama e eles se tornam tão amigos que chega-se ao ponto de descrever uma cena na qual Dylan teve a inspiração para compor o seu clássico: "Blowin' in the Wind" mediante uma conversa informal que teve com ele, Shimmon.

Por outro lado, o filósofo alemão encanta a então namorada de Dylan, Suze Rotolo, por ele ter sido amigo de Antonio Gramsci e ela, italiana de origem e ferrenha simpatizante dos partigianos, ter adquirido um sentimento de asco natural à figura de Benito Mussolini.

Por ênfase nessa amizade com Dylan, o autor focou esforços para descrever a incipiente, porém emocionante cena "Folk" de Nova York dessa época, com detalhes apaixonantes. Muitos outros artistas contemporâneos de Dylan e veteranos ultra valorosos do peso de um Woody Guthrie, são citados. Shimmon vai assistir diversas apresentações de artistas dessa vertente, com farta citação de casas noturnas, bares e restaurantes de Nova York, onde essa cena floresceu na cidade. Mas há também uma generosa citação das movimentações em torno das cenas do Jazz, da música caribenha, do Blues e do Rock'n' Roll em seus primórdios.

O mundo das artes plásticas, do cinema e até do "stand-up comedy", quando o comediante Lenny Bruce é citado (explosivo como ele só em seu humor de forte tendência sócio-política), são referências anotadas. E livros, sim, muitos autores e obras, das mais famosas a outras mais obscuras, porém muito valorosas como: "Stranger in a Strange Land", romance com teor "Sci-Fi" escrito por Robert A. Heinlein.

Shimmon arruma uma namorada bem mais jovem do que ele e nesse ponto da novela o elemento do racismo entra com tudo na narrativa, pois se trata de uma bela moça negra e artista, envolvida com a dança. Ela é ex-esposa de um militante que andou junto com Malcolm X, e nesse ponto o autor deixa claro que respeita, mas não se entusiasma com as ideias dos "Panteras Negras" e o islamismo adotado como força de expressão de seu ativismo político mais agressivo. 

Mas por outro lado, usa tal personagem da namorada negra (chamada como: Crisca), para falar do ballet e do teatro libertário do grupo, "Living Theatre" e ao dar brecha para introduzir na narrativa um notável ativista pelos direitos civis e extraordinário agente contra o racismo estrutural na formação sociopolítica e cultural dos Estados Unidos, ou seja, o pastor Martin Luther King. 

Ora, no desenrolar da história, Shimon foi amigo de Herbert Marcuse, conheceu Bob Dylan antes da fama e agora se tornou amigo de Martin Luther King, inclusive a receber convite para participar da famosa caravana "Freedom Riders", promovida por M.L. King com o intuito de pressionar o governo norte-americano a mudar algumas leis cruéis que só postergavam o segregacionismo vergonhoso naquela sociedade.

M.L. King também se impressiona pelo fato de que Shimmon fora companheiro de infortúnio no campo de concentração nazista do pastor protestante, Dietrich Bonhoeffer, este, martirizado apenas por ter se recusado a colocar o famigerado livro "Mein Kampf" no púlpito de sua igreja, no lugar da Bíblia, por ordem de um oficial nazista. 

Há igualmente a contradição entre os seus filhos, algo insinuado bem no início da obra ("como assim o papai vai se hospedar em um bairro de artistas boêmios e vagabundos como o Greenwich Village e também circular em um bairro de negros como Harlem?"), e tal conflito é mais esmiuçado no decorrer dos capítulos posteriores, pois a filha (que de fato era sua, biologicamente a falar), se mostra muito avançada para o seu tempo e não só entende o espírito libertário, como se apresenta fascinada pela história de vida do seu pai. Infelizmente, o filho postiço, no contraponto, se coloca como um orgulhoso cidadão norte-americano conservador e convicto de sua condição de se arvorar como um ser "superior", ante a sua crença como supremacista branco. Um duro golpe para uma alma progressista da parte de Shimmon.

A sua filha morava no famoso edifício Dakota, onde por anos moraram estrelas de cinema do porte de Boris Karloff, Lauren Baccall, Lilian Gish e Judy Garland (entre muitos outros), além do polêmico escritor e perseguido pelo fanático senador McCarthy, Truman Capote (anos depois ali nesse mesmo prédio foi filmado o clássico do cinema de terror: "O Bebê de Rosemary", do diretor Roman Polanski e posteriormente, John Lennon morou nesse mesmo endereço em boa parte dos anos setenta e morreu assassinado na sua porta em 1980). 

Em um animado jantar oferecido pela filha e sua namorada (nesse ponto, lembrei-me do filme: "The Children's Hour", "Infâmia" em português, com Shirley MacLaine e Audrey Hepburn, sob a direção do grande William Wyler, que retratou o tabu que era o lesbianismo na sociedade norte-americana de então e curiosamente lançado no ano de 1961), esta companheira de sua filha (Christine), uma psicanalista foi quem levou uma amiga para jantar, a feminista Betty Friedan, uma celebridade no campo do ativismo feminista.

É citado que Athina, companheira do amigo de Shimmon desde a Alemanha (Schumann), é amiga em comum de Crisca, a namorada de Shimmon e de uma artista plástica nipônica ligada à John Cage, uma tal de Yoko Ono e nesse ponto me ocorreu: esta menina grega, seria filha de um certo milionário (Onassis)?

Jack Kerouac, o genial escritor da beat generation, um autêntico "pé na estrada" e sem usar a pontuação para lhe amarrar em nada, só não foi jantar com essa turma em torno de Shimmon por ter tido outro compromisso previamente acertado para tal noite. Já no caso de Bob Dylan, além de prosear animadamente com todos, o então futuro astro tocou violão para entreter os partícipes dessa reunião formada por tanta gente talentosa e inteligente, sentada ali na mesma mesa.

Shimmon, um filósofo alemão, judeu convertido ao cristianismo de viés protestante, agora ganhou um grande propósito para a sua vida sexagenária. Mais do que um agente utilíssimo pela sua erudição, haveria de ser um farol de sabedoria a ajudar os seus pares idealistas na construção de um sonho de paz & amor que se insinuara naquele ano de 1961.

Mesmo com a guerra fria em curso, Vietnã atravessado na garganta, hostilidade aberta contra Cuba e que tais, o pior parecia ter passado, com o abominável nazi-fascismo derrotado, e ventos de esperança após os anos de chumbo do macartismo a dar sinal de arrefecimento. Kennedy, um político moderado na presidência norte-americana pareceu sinalizar tempos melhores e sobretudo, a movimentação artística efervescera com uma força avassaladora.

Isso fica claro no discurso proferido por Shimmon na mesa de jantar, quando ele evocou o ideal de Jesus Cristo em termos igualitários para todos e reforçado pelo libelo de esperança pela igualdade racial na voz de sua namorada, Crisca.

Ou seja, Joel Macedo deu o seu recado com propriedade.

Por fim, eu recomendo muito a leitura de "1961" - uma novela na era Kennedy, que agrada na sua trama como romance, sobretudo pelo cabedal imenso de citações das mais nobres e por atingir o seu objetivo maior com galhardia, isto é, ao propor uma reflexão profunda sobre a possibilidade de chegarmos enfim a algum dia no qual viveremos em um mundo verdadeiramente fraterno.

Sobre Joel Macedo:
Jornalista consagrado, foi um dos pioneiros da abordagem contracultural no Brasil, ao participar da publicação "Rolling Stone" em sua versão original brasileira do início dos anos setenta. Escritor de muitos livros de sucesso, é também um requisitado tradutor de obras de escritores internacionais e ativista cultural incansável. 

Para adquirir o livro, eis os contatos diretos com o autor:
Instagram:
@joelmacbird

email:
joelmacbird47@gmail.com

Capa (arte e lay-out): Gabriel Fonseca (inspirado na capa do LP Freewheelin' de Bob Dylan)
Diagramação e arte: Vitor Coelho
Revisão: Ana Clara Teixeira
Lançado em 2023, pela editora JMF

Leia também neste Blog, a resenha de uma outra obra do escritor Joel Macedo: "Tatuagem", que eu igualmente recomendo:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2019/04/livro-tatuagem-historias-de-uma-geracao.html

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Livro: Tatuagem (Histórias de uma Geração na Estrada) / Joel Macedo - Por Luiz Domingues


No seu auge, o movimento hippie ganhara uma proporção tamanha, que deu a impressão que tornara-se inexorável a sua consolidação por completo. 

Sem conotação ideológica formal, mostrara-se fora de qualquer tipo de movimentação política a pender para a esquerda, embora alguns incautos tenham tentado impor-lhe a pecha, justamente por não engolir a ideia de fraternidade e compartilhamento total, não por imposição igualitária forçada, mas simplesmente por exercer na prática, um ideário de vida & comportamento muito próximo das ideias de Jesus Cristo e também de Siddartha Gautama, além de seguir muitos preceitos do hinduísmo brahmânico, via Krishna. 

E tudo isso, sem ter nada a ver com preceitos religiosos formais em torno de uma seita ou coisa que o valha, isto é, a ideia em construir um mundo utópico, versado por paz & amor, e fraternidade total entre os seres humanos, de uma forma espontânea. Que perdoem-me os que demonizam a palavra, “compartilhar”, ao atribuir-lhe conotação marxista sob uma interpretação superficial ou por influência mal intencionada de outrem, mas em essência, isso é o sentido mais puro da mensagem crística, ou pura Raja Yoga, no sentido Suddha, para quem estuda o esoterismo cristão na mais profunda interpretação dos ensinamentos de Jesus Cristo ou da tradição indiana, via Mahabharata. 

Quixotesco para a maioria e assustador para as autoridades governamentais sob qualquer orientação ideológica, inclusive as totalitárias esquerdistas, o que levou-se em conta ali foi aniquilar o sonho, não com a truculência declarada e/ou explícita, mas a minar por outros meios essa euforia jovem em torno da desobediência civil em escala geométrica, a usar meios sutis em termos de utilizar a mídia para formatar opinião pública em repúdio, a ridicularizar a contracultura por todos os meios e vilipendiar os excessos hedonistas e sim, mea culpa, houve muito abuso de uma grande parte da garotada que só embarcou no dito “desbunde”, por questões meramente egoístas. Dessa forma, não há como negar tal fato, e nem considero isso uma mácula por extensão, a diminuir o propósito do movimento como um todo.

Porém, enquanto durou, o sonho hippie foi intenso e proporcionou um imenso avanço, em muitas áreas. Questões como o vegetarianismo, ecologia sustentável, a crítica voraz ao consumo, reciclagem do lixo e materiais em geral, respeito aos animais; igualdade racial e também entre os gêneros, críticas às manipulações e ações de condicionamentos perpetradas por poderosas corporações e/ou governamentais e/ou religiosas e a contrapartida em torno de pensar-se em uma vida mais natural, além do apreço total pela arte & cultura, foram pilares naturais que vieram no bojo do movimento. 

Tão forte foi o seu legado, que muitas dessas questões, apesar das ações negativas criadas pelos seus detratores no afã para ridicularizá-las, floresceram, apesar da aridez gerada por tais inimigos desses ideais nas décadas que advieram ao processo de diluição do movimento. Não é preciso descrever que muitas dessas  pautas que eu citei acima, estão em voga nos dias atuais, a confirmar que, sim, os hippies tiveram razão em muitos aspectos, apesar da sua propalada ingenuidade quixotesca.

Portanto, vejo com alegria que nos dias atuais, ao chegarmos próximos dos anos vinte do século XXI, a contracultura hippie dos anos 1960, venha a ser revisitada com força, a buscar-se mais do que um entendimento do que foi aquele movimento espontâneo e libertário, mas a revisitá-lo com um sentido muito especial em termos de revitalização. 

Dentro desse contexto, não é à toa que temos observado o lançamento de diversas obras literárias, lançamento de documentários e relançamentos de filmes de época, (alguns esquecidos e devidamente recuperados), além da óbvia efeméride em torno do cinquentenário da realização do Festival de Woodstock, 1969/2019. Reviver o espírito sessentista, é muito mais que um mero lampejo nostálgico, mas faz-se mister como uma necessidade premente em termos de fortalecimento dos ideais. 

Nesses termos, quando vejo o jornalista, Bento Araújo, causar furor com os dois volumes de sua obra: “Lindo Sonho Delirante”, a exibir dois vastos compêndios sobre discos psicodélicos lançados no Brasil entre os anos 1960 e 1970, não surpreendo-me pelo interesse gerado, assim como o celebrado, Paulo Coelho, finalmente ao deixar o seu berço esplêndido, onde locupletou-se como uma espécie de “mago gourmet” da elite, e abordar enfim a sua visão sobre o furacão do desbunde, onde foi testemunha ocular ao lado de Raul Seixas (falo sobre o seu recente livro, chamado: “Hippie”), assim como também nos últimos estertores de sua vida, o filósofo, Luiz Carlos Maciel ter preparado um livro (ainda não editado), a defender a tese em que o filósofo alemão, Martin Heidegger, teve influência na formatação dos ideais hippies, tanto quanto Herbert Marcuse e também por deixar como epitáfio, uma série de vídeo-aulas com o seu “Anti-Curso” de filosofia e contracultura, enfim, são muitos os sinais.          

Informe-se sobre o curso póstumo de Luiz Carlos Maciel, através desse link abaixo:


E entre tais sinais significativos, um dos mais eloquentes pelos quais eu tive o prazer de ter contato direto, foi através do livro: “Tatuagem” (Histórias de Uma Geração na Estrada), de autoria do jornalista, escritor e tradutor: Joel Macedo. 

Autor do aclamado: “Albatroz”, outra obra seminal, a descrever a sua experiência dentro do epicentro da contracultura, Joel lançou “Tatuagem” em 1971, originariamente. Agora, em 2019, lança enfim a esperada segunda edição, com algum material adicional.

Para quem não sabe, mas precisa saber, Joel é um jornalista cultural com larga experiência no mercado e foi membro atuante do jornal alternativo, “Presença”, bem no início dos anos 1970 e posteriormente, foi da equipe de redação do jornal: “Rolling Stone”, em sua histórica edição brasileira, nos idos de 1972 e 1973. 

Mais que um jornalista muito bem informado e antenado, Joel foi uma testemunha da história contracultural, pois viveu na América do Norte e na Europa no auge do movimento, ao percorrer muitas trilhas usuais feitas pelos hippies da época, por diversos países, incluso as clássicas peregrinações realizadas pelos freaks por toda a Europa em direção ao Oriente Médio e Ásia, onde buscava-se a essência espiritual do movimento, notadamente em localidades como: Índia; Nepal e Tibet.

Diante dessa experiência de vida, inigualável, Joel acumulou histórias, vivências, muitas reflexões e por ter a qualidade de ser um jornalista arguto e igualmente possuir o talento de um escritor que redige com sentido poético, o seu estilo de redação é absolutamente cativante e rico em entrelinhas. 

Nesses termos, “Tatuagem” é muito mais que um bom livro de reminiscências acumuladas, mas na verdade trata-se de um painel multifacetado a mostrar-nos com muita fidedignidade, diversas nuances por ele observadas in loco, a proporcionar-nos a rara oportunidade para que possamos sentir o que ele sentiu, literalmente, em suas andanças pela América do Norte, Europa, África, Oriente Médio, Ásia e pelo próprio Brasil, pois o livro contém histórias sobre o Rio de Janeiro dos Hippies, na Praça General Osório em Ipanema etc. e tal.

Em meio a contos psicodélicos, um pouco de crônica e entrevistas que conduziu, Joel Macedo retratou diversos aspectos muito interessantes das suas observações colhidas dentro da efervescência época. 

É notável como o aspecto subliminar foi capturado de uma forma muito feliz. Por exemplo, em: “O Cossaco”, a sua percepção sobre os hippies britânicos a transitar pelos bairros de Londres, quando cita lugares “cool” da dita, “Swingin London”, sessentista, faz com que andemos juntos com ele e os personagens citados, por Portobello Road, Earl’s Court e outros pontos, porém, o mais emblemático aforismo, que não quis sair da minha mente, assim que o li, foi: “Be Gentle With People”, algo proferido por uma personagem. Forte, profético, mântrico... pois é, uma pérola em forma de chave para construir-se um mundo melhor, ou seja, ao que soa piegas para os insensíveis, eis uma das essências do que foi o movimento, ao decretar: “seja gentil com as pessoas”.

Em outras crônicas e pode-se afirmar que existe a formatação de mini contos, eis que Joel apresenta mais particularidades efervescentes. 

Por exemplo, o sentido mais libertário  em questão, quando em conversação com um freak, Joel perguntou-lhe sobre as preocupações prementes do cotidiano, a respeito da luta pela sobrevivência e garantia dos confortos básicos, como manter uma habitação, algo muito trivial em tese e a resposta foi sempre a mesma, repetidas vezes da parte do rapaz, ou seja: -“o que tem que pintar, pinta”. 

Parece simplória a resposta e certamente irresponsável, se analisada à luz dos parâmetros da sociedade ocidental tradicional, por denotar o sentido da loucura desmedida ou um completo sinal de indolência de quem simplesmente não quer trabalhar e “ganhar” dinheiro, mas revela no aspecto subliminar, uma completa confiança na providência natural, ao denotar que por mais tresloucado que pareça ser, o âmago desse pensamento é transcendental por excelência, ou seja, a questão pueril da vida não pode sobrepujar o nosso foco em buscar o sentido real da existência. 

Portanto, um pensamento profundo, que talvez o freak que o verbalizou, não tenha percebido a sua real magnitude, no calor da conversa, mas Joel foi arguto em captar e colocar no livro, com maestria.

Uma outra história impressionante, é a de uma garota paulistana que largou a sua boa vida materialista, proporcionada pela sua família abastada e mandou-se, como se diz por aí, munida de mochila para morar em Amsterdã, com o namorado Rocker, para viver cada dia como se fosse o último. 

Fato comum nesses anos sessenta, tanto que a música: “She’s Leaving Home” dos Beatles, trata com propriedade sobre o assunto, o fato é que muitas meninas abandonaram a vida burguesa para buscar a liberdade. Neste caso, o mergulho de cabeça nas drogas foi enfocado, e não há o que mascarar, ou seja, nem todo mundo buscou preceitos filosóficos ou espirituais, mas simplesmente entregou-se ao hedonismo puro e simples, não há como esconder-se que isso ocorreu para muitos e foi o caso dessa menina de São Paulo, que gostava de debochar da sociedade, ao enviar recados para o seu pai, a dar conta de suas loucuras vividas na capital holandesa.

E por falar em “Bad Trip”, tal assunto não é evitado, para edulcorar a narrativa somente em aspectos edificantes. Por exemplo, dois contos tratam do assunto. Em um deles, há uma manifestação existencialista explícita da parte de quem está completamente desacreditado de tudo e de todos, ao traçar um discurso que remete ao pensamento a versar entre algo entre as ideias de Jean Paul Sartre e Augusto dos Anjos, digamos assim, e em outro, uma vivência ruim revela-se na verdade uma experiência paranormal impressionante. 

De fato, a sensibilidade vibracional muda conforme o estado alterado de consciência. Carlos Castañeda, Ken Kesey e Tim Leary que o digam. 

É muita significativa uma entrevista que Joel fez com um Hippie, em 1968, nas ruas de San Francisco. Impressionante o sentido do raciocínio do rapaz ao imaginar o futuro como uno, sem divisões. E ainda a citar o filósofo, Herbert Marcuse, esse rapaz previu a falta de sentido revolucionário do movimento, pelo viés político, enquanto apenas revolucionário em torno dos costumes e pensamento, além de discorrer sobre a diferença entre os hippies e outros movimentos mais politizados e beligerantes, tais como o Black Panther. 

Desconcertante em sua lógica que soava ilógica aos seguidores dos parâmetros tradicionais, quando perguntado se deixara a sua casa, respondeu tacitamente: -“minha casa são as ruas da Califórnia”. 
Tal sentimento em torno do total desprendimento de regras, amplifica-se mais tarde em outro conto, quando em contato com hippies oriundos de diversos países, em pleno solo do Afeganistão, Joel ouviu de um outro hippie, uma bela dissertação sobre o planeta ser em tese, "a casa de todos". 

Portanto a demolir o conceito materialista sobre territórios, pátria e nacionalidades: “-sou um cidadão do Mundo”, foi a síntese do que esse freak elucubrou. 

Além disso, são muitas as passagens surpreendentes sobre o contato com a natureza, o ato de dormir a céu aberto, olhar e prestar atenção nas estrelas, no mar, nas árvores. 

E também o contato amistoso, certas vezes, com pessoas teoricamente contrárias ao movimento, ao estabelecer uma relação humana muito interessante, pelo aspecto do improvável (caso dos policiais espanhóis, e estes ainda sob a égide pesada do senhor Franco, ou seja, um representante muito antagônico aos ideais hippies).

Por fim, um capítulo tenso, vivido no Rio de Janeiro, em 1970, onde o contraditório foi testado a ferro e fogo. Não foi nada fácil falar em Paz & Amor para pessoas avessas a tais ditames. Esse capítulo provoca um nó na garganta, certamente e também surpreende ao fazer uma revelação que nem todo mundo sabe, mas foi um fato, a respeito da formatação do crime organizado em contato com pessoas politizadas, ao denotar um tiro no pé do sistema. E tal situação nada tem a ver com os Hippies, devo limpar a barra dos cabeludos...

O livro apresenta muitas citações a bandas de Rock notórias ou obscuras, músicas e artistas antenados da MPB mais hippie e fala também nas entrelinhas sobre usos e costumes, como por exemplo ao citar os famosos casacos feitos no Marrocos e não foi por acaso que o guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, os adorava e claro, o significado emblemático do uso de cabelos longos por parte dos rapazes, como um símbolo, que tornou-se epidêmico, praticamente a denotar ser algo iniciático.

Leitura obrigatória para quem simpatiza com o movimento Hippie, contracultura, Rock sessentista, Flower Power, pensamento libertário em favor do ideal fraternal e sobretudo, para quem busca menos materialismo e mais essência na vida, este livro só tem um defeito: é curto demais. 

Cabe acrescentar muito mais conteúdo e assim fica a minha torcida para uma eventual terceira edição aumentada ou o lançamento de mais volumes, o quanto antes. Este planeta precisa urgentemente de menos ganância materialista e mais sentido fraternal imaterial. Paz absoluta e amor, sem dúvida alguma.
A ilustração que compõe a capa do livro é sóbria, mas funcional ao trazer o emblema de uma bússola e a insinuação de um viajante a segui-la, com o Pico do Himalaia a vista. Mais que sinalizar o instrumento que aponta a direção ao viajante, é óbvia a alusão ao buscador da verdade de si mesmo, em sua jornada anterior à cata de respostas. 

Sobre a a ilustração, trata-se de um trabalho de Gabriel Fonseca. O trabalho de editoração e diagramação ficou por conta de Vitor Coelho e a revisão a cargo de Ana Karina. Assistência editorial de Julia Macedo. Lançado pela editora jMf (Joel Macedo & Família). 

Recomendo a leitura de “Tatuagem”, um impressionante relato sobre alguém que viveu e absorveu muito bem o que representou o desbunde contracultural dos anos 1960, com prolongamento até meados dos anos 1970, e cuja raiz gerou ramificações que atinge-nos nos dias atuais. Como o autor enfatiza em suas palestras e eu já tive o prazer de participar de sua explanação em uma delas, “resistir” é uma necessidade premente.           

“Tatuagem” pode ser adquirido diretamente com o autor, através de sua página específica no Facebook:

https://www.facebook.com/tatuagemhistoriasdeuma/