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domingo, 18 de agosto de 2013

Livro : O Inventário de Lides - Por Luiz Domingues

A trajetória de uma vida, esmiuçada através de uma série de correspondências, pode dar margem à várias interpretações,
conforme cada leitor as enxergar. A questão do contexto em que tais cartas foram escritas; seja pelo fator, época, seja pela circunstância geográfica, influencia de uma maneira geral, certamente.


As entrelinhas dessas missivas, são inúmeras : o que a pessoa quis realmente expressar em determinado momento; as suas motivações etc. Contudo, a carga emocional envolvida, quando essa comunicação é feita entre entes queridos, assume uma proporção ainda maior, pois lida-se daí, com questões emocionais complexas, oriundas das mais remotas conexões do DNA humano.

Em "O Inventário de Lides", a escritora, Rosa Maria Custodio, esmiuçou décadas de correspondência entre ela, e a sua própria mãe, a senhora, Lides Anna Dorigon Custódio. Ao ultrapassar qualquer barreira de uma obra meramente nostálgica, e sob o interesse restrito à sua própria família, como em princípio, um livro dessa natureza pudesse fazer um leitor desatento supor, Rosa Maria Custodio soube tecer uma teia envolvente, onde através dessas cartas, muitas revelações interessantes foram descritas.

No prefácio, há uma didática explicação da autora, sobre como organizou o material que encontrara na residência de sua mãe, então recém falecida, no ano de 2001. Com a ajuda de uma de suas irmãs, Rosa percebeu que aquele calhamaço a conter cartas guardadas, mostrava-se como um um tesouro, e que deveria vir à tona, como um relato vivo. Daí em diante, sim, Rosa Maria seguiu a ordem cronológica, e através de um preâmbulo, mostrou a origem de sua família, no Rio Grande do Sul, ao constituir-se de descendentes de imigrantes italianos, que aqui chegaram ao final do século XIX.

Nesse início, um quadro rápido dessa família ítalo-brasileira, é mostrado, para trazer a reboque, ricas informações sobre tal período da história, e como a imigração italiana foi importante naquele estado. A narrativa evolui até o casamento de Lides, e a formação da nova família, de onde Rosa Maria, e seus irmãos, foram os frutos naturais. A infância e adolescência de Rosa Maria são contadas, todavia com o devido cuidado em situar sempre o ponto de vista que mostra sua mãe, Dona Lides, como uma mulher sacrificada, como uma dona de casa à beira da exaustão, ao deparar-se com a obrigação de criar tantos filhos, em meio às dificuldades sócio-financeiras da família, e principalmente, em face da presença de um marido não muito participativo, e compreensivo.


Os anos difíceis, vividos na remota cidade de Campo Belo do Sul, em Santa Catarina, onde o pai arrumara uma colocação para trabalhar, são contados, até a volta à Farroupilha, no Rio Grande do Sul, terra de origem da família.


Rosa Maria cresceu tímida, sem muitas possibilidades para poder  socializar-se, porque ainda na tenra infância, precisara ajudar a mãe nas tarefas domésticas, e sobretudo na criação dos irmãos menores. Somente ao final da adolescência, Rosa Maria buscou a sua independência, e em um ato de ousadia raro para a época, perante os padrões conservadores da família, inscreveu-se em um curso de preparação da Varig (a então maior companhia de aviação do Brasil), para a formação de comissárias de bordo.

Curso difícil, e que demandava pré-requisitos, representou esforço; coragem e muita força de vontade por parte dela. Todavia, Rosa Maria já tinha uma determinação interna, bem fundamentada. Não queria repetir o padrão de sua mãe, ao abdicar de seus sonhos, para dedicar-se exclusivamente à criação de filhos, e manutenção de uma casa. Não tratava-se de uma rebeldia, absolutamente. Apenas ela ambicionou ser independente, e assim possuir a sua solidez financeira; quiçá poder absorver novas culturas, e ajudar a sua família, sem dúvida, principalmente a sua mãe, Dona Lides, que nessa altura, já demonstrava um cansaço muito grande, gerado pela vida sofrida.


Rosa Maria conseguiu a admissão no curso, e daí em diante, é que as cartas trocadas entre ela e sua mãe, tomam o contorno mais interessante da obra, pois revelam diferentes matizes na relação entre mãe e filha.



Rosa teve que ir morar no Rio de Janeiro, como base de sua nova profissão, e dessa forma, mostra-nos um painel claro de seu crescimento como pessoa, de uma forma vertiginosa, através de um verdadeiro paralelo com a sua carreira, como aeromoça. O contraste das cartas, é o descobrir a cada correspondência, o sofrimento e a amargura de sua mãe, acumulados ao longo de décadas.

Por ajudar financeiramente, Rosa Maria percebeu que isso só não bastava, e nesse sentido, ela fez tudo para suprir emocionalmente a sua mãe e irmãos menores. O que mais impressiona na narrativa, contudo, não são esses detalhes, mas sim, a carga emocional decorrente das revelações de ambas as partes, com mãe e filha a conhecer-se, de fato, através da correspondência trocada, ao longo de muitos anos.

Ao ler o livro, muitas vezes lembrei-me do filme : "Nunca te vi, sempre te amei" ("84 Charing Cross Road", no original em inglês), onde um casal apaixona-se à distância (ela, uma escritora norteamericana, e ele, um dono de livraria, britânico), pela troca de correspondências, mas apenas conseguem conhecerem-se pessoalmente, muitos anos depois, já envelhecidos. Nesse caso do filme, tratou-se de uma relação amorosa, homem / mulher, mas a semelhança que enxerguei, foi na nuance dos personagens conhecerem-se profundamente, através dessa troca de missivas.

Portanto, nesse aspecto, acho que Rosa Maria e Lides culminaram em conhecerem-se mesmo, como mãe e filha, quando curiosamente deixaram de viver sob o mesmo teto, e nesse caso, a distância as aproximou, ainda que isso seja paradoxal, em princípio.

Muito estudiosa, Rosa Maria nunca acomodou-se na carreira como comissária de bordo. Pelo contrário, por aproveitar o fato de possuir tal oportunidade para conhecer várias culturas, estudou muito, e quando aposentou-se da aviação, tornou-se jornalista; escritora; poetisa; psicoterapeuta, e com graduação também em Estudos Sociais; Literatura Brasileira; pós-graduação em Língua Portuguesa, e psicoterapia analítica de grupo. Hoje em dia, integra a API (Associação Paulista de Imprensa); MPN (Movimento Poético Nacional), e ocupa a cadeira n° 30 da ACL (associação Cristã de Letras), além da BIOgraph (associação Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica), e do MMV (Movimento Mulheres de Verdade).

Creio que a autora usou todas as ferramentas das suas múltiplas graduações, para escrever o livro, "O Inventário de Lides", e tal bagagem abrangente, conferiu-lhe a oportunidade em fazer de tal obra, um objeto de interesse do leitor em geral, muito além de seus entes queridos, e que amaram a saudosa, Dona Lides. Por tal feito extraordinário, eu a parabenizo por tal realização !