Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste meu primeiro Blog, reúno a minha produção geral e divulgo as minhas atividades musicais. Não escrevo apenas sobre música, é preciso salientar ao leitor, pois abordo diversos assuntos variados. Como músico, iniciei a minha carreira em 1976, e já toquei em diversas bandas. Atualmente, estou a trabalhar com Os Kurandeiros.
sábado, 25 de agosto de 2012
Filme : The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray) - Por Luiz Domingues
Personalidade controversa que viveu na Inglaterra Vitoriana, Oscar Wilde, lançou em 1890, um romance que chocou a sociedade em sua época.
"The Picture of Dorian Gray" ("O Retrato de Dorian Gray", em português), contava uma história macabra, mas com nuances muitíssimo interessantes sobre transferências; subpersonalidades e outros aspectos usuais sob o âmbito dos estudos psicanalíticos. E certamente que a dose de hedonismo explícito, sob uma roupagem plena em sarcasmo e presunção, foi o fator que mais incomodou o público, naquele instante. Os diálogos criados por Wilde, são brilhantes, não há como negar-se, porém, apresentam-se carregados por uma carga de desprezo absoluto pela humanidade, que se por um lado torna-o intelectualmente atraente pela verborragia expressa sob prosódia e sobretudo pela acidez de raciocínio, entretanto, é também, paradoxalmente abominável em seus propósitos.
Muitos anos depois de lançado no mercado literário, o livro foi adaptado ao cinema. Em 1945, chegou às telas, então, "The Picture of Dorian Gray", dirigido por Albert Lewin. Eis a história :
Dorian Gray (interpretado por Hurd Hatfield), é um jovem rico e bastante afetado. Vive uma vida despreocupada em termos de responsabilidades pueris, e ao contrário, só a observar os prazeres. É um narcisista por excelência, e dessa forma, posa para um artista, ao visar imortalizar-se em um retrato.
O seu amigo, Lord Henry Wotton (vivido por George Sanders), é um aristocrata cínico e igualmente afetado pela soberba. É amigo em comum do pintor, Basil Hallward (interpretado por Lowell Gilmore). Dorian diz sob estupefação ao ver a arte final da pintura : -"eu ficarei velho; feio; horrível. Mas este retrato conservar-se-á eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que nesta tarde de junho"... mas, se fosse o contrário ? Se eu pudesse ser sempre moço enquanto o quadro envelhece ? Por isso, por esse milagre eu daria tudo. Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma" !
Fora um mero devaneio narcisista, mas o elemento macabro da história trataria em tornar essa afirmativa "mephistofeleana", uma verdade...
Através de uma andança por um bairro proletário de Londres, Dorian conhece a cantora de um cabaret de terceira categoria (Sybil Vane, interpretada por Angela Lansbury). Apaixona-se por ela, mas persuadido por Lord Wotton, a abandona covardemente, por temer "estragar" a sua vida fútil, ao trocá-la por uma paixão pueril.
A moça morre tragicamente por conta disso, e a vida segue, a não ser por um detalhe : um pequeno traço alterado no retrato, que Dorian, em princípio, não atribui ao seu ato marcado pelo egoísmo perverso. Contudo, esse traço na pintura também reflete-se em sua personalidade e ao mergulhar no hedonismo desenfreado, passa a cometer outros delitos e aí sim, nota que existe uma correlação de seus atos com o fato de permanecer sempre jovem, ao contrário do retrato, que degenera-se visivelmente.
Chega-se em um ponto, onde não é mais possível deixá-lo exposto em sua sala de estar, e assim, Dorian tranca o retrato no sótão de sua mansão, onde ninguém tem acesso, a não ser ele mesmo. Os anos vão passar. Lord Wotton envelheceu, mas Dorian permanece com a aparência de um jovem na faixa de vinte e dois anos, e a suspeita começa a provocar perturbação em seu círculo social.
Mediante o seu casamento marcado com Gladys Hallward (interpretada por : Donna Reed), que era apenas uma criança quando Dorian posou para seu tio, o artista plástico, Basil Hallward, a suspeita sobre a aparência imutável de Dorian torna-se ainda maior.
E como agravante, o fato dele recusar-se a exibir o retrato por anos, soma-se ao fato de infortunadamente ser avistado nas ruas de Londres pelo irmão da jovem cantora, Sybil Vane (interpretado por Richard Fraser), que o procura há anos, sedento por um sentimento de vingança.
Ao final, a farsa de Dorian é revelada, com o choque de um close assustador na pintura. A pintura, outrora galante, mostra agora um homem horrendo, transfigurado e a exibir a carga de seus atos perversos marcados sob um semblante hediondo a retratar a sua desumanidade.
Naturalmente, Oscar Wilde ao escrever essa obra, teve a influência de Goethe. A ideia de um pacto em torno da eterna juventude, veio da obra : "Fausto", evidentemente. No filme, só os momentos em que mostra-se o retrato, o diretor usou a fotografia colorida. No restante, predominou a fotografia em preto e branco.
Um recurso discutível por muitos críticos, que acharam-no piegas por supostamente usar o intuito apelativo para chocar as plateias de 1945.
Devemos notar que no cômputo geral, o filme sempre foi classificado dentro do gênero, "terror".
Particularmente, eu discordo desse conceito, ao considerar ser tal filme, um thriller com apuro metafórico, muito além do terror macabro, puro e simples.
A começar pela sofisticação dos diálogos. Mesmo ao achar a motivação arrogante, não posso deixar de reconhecer o valor dessa construção desse texto, pelo ponto de vista literário.
Também pelas sutilezas, é claro. Aspectos sutis e inerentes à subpersonalidade, desenvolve-se na pintura viva, em constante mutação. O retrato é um mosaico a representar o Ego de Dorian Gray, na verdade. Se pelo ponto de vista psicanalítico é muito interessante, na área das possibilidades propostas pela física quântica, mais ainda.
Em um campo de manipulação de energias eletromagnéticas, é muito confortável usar o artifício dessa transferência, de forma egoísta. Dessa forma, um dia a conta chega, via "boleto", mas enquanto não vem, um estrago é realizado, tal como Dorian o fez, ao usufruir egoisticamente desse artifício.
Hurd Hatfield, que interpretou Dorian Gray, nunca mais teve um papel significativo no cinema. Apesar de ter participado de produções grandes, como : "King of Kings"; "Boston Strangler"; e "El Cid", por exemplo, suas aparições foram secundárias.
Trabalhou bastante na TV, nos anos sessenta, como ator convidado de séries famosas ("Voyage to the Bottom of the Sea"; "The Wild Wild West"; "Murder : She Wrote" etc), mas a sua carreira nunca decolou de fato, após protagonizar : "The Picture of Dorian Gray".
A lenda urbana imputada-lhe, foi fatal, ao estigmatizá-lo como fadado ao fracasso, por ter vivido alguém que fez pacto com o "Diabo" na vida real. Entre amigos, ele ironizava, ao afirmar que mantinha o retrato guardado em sua casa, daí o azar na carreira...
Uma nova versão foi produzida em 2010. Já ouvi várias pessoas a comentar em fóruns de cinema pelas redes sociais, que acham a versão moderna melhor, por aproximar-se mais da obra de Oscar Wilde, no tocante ao aspecto macabro.
Lógico que tem muita tecnologia e atmosfera lúgubre que agrada a garotada "blockbuster", e acostumada aos vídeogames desde a mamadeira.
Respeito essa visão, mas fico mesmo com a versão de 1945, mais calcada em sutilezas; boa interpretação e texto impecável, em detrimento das pirotecnias da tecnologia moderna em prol dos sustos.
Para quem não assistiu ainda, recomendo, e recomendo que preste atenção nos diálogos, que são muito bem escritos.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Filme: All About Eve (A Malvada) - Por Luiz Domingues
O mote do filme "All About Eve" é o da motivação para se chegar em algum lugar na vida, basicamente. Trata dessa forma sobre a questão da aspiração, que é um sentimento legítimo por natureza, mas sob certos propósitos, a escalada que a pessoa se propõe a efetuar pode ser permeada por falcatruas e que prejudicam frontalmente outras pessoas, portanto, pode ser considerado bastante inadequada como ferramenta a ser usada.
Logo na primeira cena do filme, a atriz Eve Harrington está a receber um prêmio cobiçadíssimo (é considerada a melhor atriz do ano), e ao receber o seu prêmio, nota-se o desconforto de muitas pessoas insatisfeitas com o resultado dessa premiação. Os olhares de inveja misturam-se aos de rancor, desprezo, raiva e a despertar assim, uma atmosfera pesada.
Advém um "flashback" e essa "diva do teatro" está agora no passado. Ensopada por estar na chuva, mal-vestida e a exibir um semblante deveras sofrido, mais parece uma figura digna de dó, na porta de um teatro. Nesses termos, a história é apresentada através da trajetória dessa personagem humilde que admira uma atriz consagrada, no caso, Eve Harrington (interpretada por Anne Baxter), e a atriz bem-sucedida é Margo Channing (interpretada por Bette Davis).
Uma produtora da estrela do teatro, a tirou da rua onde amargava a ação da chuva e a introduziu no camarim onde a Diva acabava de despir-se de sua personagem e conversava com o seu diretor e o escritor da peça, que estava a encenar. Tímida e prosaica, Eve confessa ser obcecada por Margo e que a acompanha por toda a turnê. Sabe de cor todas as suas falas da peça e não faz mais nada da vida a não ser, idolatrar Margo.Mesmo sendo temperamental e sarcástica, Margo dá uma chance para a sua pobre fã obstinada e assim, Eve torna-se a sua assistente pessoal. Aos poucos, Eve, coloca-se a se envolver, a se desvencilhar de todo aquele seu jeito ingênuo e devocional.
E então, Eve passa a revelar a sua verdadeira intenção em uma determinada ocasião em que Margo adoece. pois ela a substitui no espetáculo, pois é atriz também, conhece todo a peça, sabe de cor as falas e é muito mais jovem e bonita...
Bingo! Eve encanta os produtores, recebe convites para atuar no cinema, passa a ganhar prêmios... o seu plano logrou êxito e seu talento de atriz fez-se por valer desde o início, quando por desfaçatez, interpretou uma pobre coitada, humilde e molhada na chuva, na porta do teatro.
Uma surpresa é guardada para o final, mas se você envolveu-se com o filme e prestou atenção nas entrelinhas, verá que não foi tão surpresa assim...
O filme versa sobre a inveja, a dissimulação, o interpretar no cotidiano, vestir máscaras para obter resultados, passar por cima das pessoas a todo custo etc. Em suma, fala sobre ambição desmedida.
Trata-se de uma produção muito sofisticada, com o uso e abuso de diálogos mordazes, alguns com requinte de crueldade, ao revelar os bastidores de um meio artístico ambiente onde a fogueira das vaidades nunca se apaga.
"All About Eve" está sem dúvida entre os mais significativos filmes da década de cinquenta, dado aliás que é muito relevante ao considerar-se que a década de cinquenta foi uma das melhores da safra norte-americana.
Venceu o Oscar de melhor filme, melhor ator coadjuvante (George Sanders), melhor diretor (Joseph L. Mankiewicz), melhor som e melhor figurino.
Fora as indicações nas quais não venceu, que foram muitas, incluso melhor atriz, com Bette Davis e Anne Baxter a concorrerem juntas, o que não deixou de ser irônico na vida real.
Resenha publicada inicialmente em uma comunidade "Joseph L. Mankiewicz" da extinta Rede Social, Orkut, sob um tópico sobre "All About Eve", aberto por eu mesmo, Luiz Domingues, no ano de 2010.






































