Mostrando postagens com marcador Música Brasileira de Qualidade.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música Brasileira de Qualidade.. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de abril de 2019

CD Não Sou da Tribo / Davi Matz - Por Luiz Domingues


O sentido da boa música, expresso através de um artista influenciado por múltiplas tendências, é perfeitamente apresentado no álbum: “Não Sou da Tribo”, obra do multi-instrumentista; compositor e cantor, Davi Matz, um gaúcho nascido na cidade de Pelotas e radicado em Joaçaba, no oeste de Santa Catarina, há muitos anos. 

Jovem (ele tem apenas 31 anos de idade, neste momento de 2019), é no entanto muito experiente na música, visto ter começado a sua carreira ainda no início da adolescência. 

Da discoteca excelente de sua família, Davi cresceu a ouvir somente artistas bons, oriundos de diversos vertentes. De Simon & Garfunkel a Belchior, de Tarancón a Zé Geraldo, Milton Nascimento, Chico Buarque, Secos & Molhados e muito mais,
Matz pôs-se a formatar a sua musicalidade a ouvir música com qualidade indiscutível e concomitantemente a estudar muitos instrumentos. 

Posteriormente veio o contato com o Samba e logo a seguir, o Rock e a sua raiz primordial do Blues. Não demorou muito e tomou gosto pela Folk-Music, e entenda-se o Folk pela amplitude do termo, ou seja, a abranger a música étnica e folclórica de diversas partes do Brasil e logo a ultrapassar as fronteiras e abraçar a América Latina e a seguir, o planeta inteiro. 

Portanto, com essa riqueza toda a borbulhar em sua percepção cultural bem abrangente, aliado aos estudos em torno de muitos instrumentos musicais, somou-se o seu talento natural, e assim, a química explosiva a envolver tantos ingredientes bons, só poderia redundar em formar um artista preparado para dar o seu recado com qualidade e contundência.
O seu mais recente álbum, não é o primeiro de sua carreira (anteriormente, ele já havia lançado: “Contos de Algum Tempo e Lugar”, em 2013, além de ter sido componente do grupo: “Trigo”). 

Então, o seu novo trabalho, chama-se: “Não Sou da Tribo”, onde apresenta-nos uma coleção de canções bem melódicas, onde ele toca a maioria dos instrumentos de cordas e deixa apenas a bateria & percussão, além de outras pequenas intervenções para o convidado especial e também produtor de estúdio do disco, Artur Lunardi, atuar. Há igualmente a participação de mais dois músicos convidados, com menor participação, embora importantes, certamente, caso de Rodrigo Cerino e Ricardo Massucato.

O álbum traz em sua essência, uma docilidade, inclusive pelo teor das letras, a buscar na poesia um elo forte, no entanto, há uma maior acidez em alguns pontos, quando Matz usou um discurso mais incisivo ao tecer críticas em nível social, e aliás, o próprio título do álbum (e que dá nome a uma canção, igualmente), sugere tal teor, pois “Eu Não Sou da Tribo” remonta a uma reflexão sobre a crescente massificação que observamos sob diversos parâmetros na sociedade e mesmo em questões pueris, é muito assustador verificar o quanto a formação de opinião pode manipular as pessoas e nesses termos, eu concordo inteiramente com Matz e dessa forma, não ser um membro da tribo é a escolha mais saudável.

A respeito da capa, a ilustração é bonita em sua simplicidade. Um escaravelho repousado por um fundo de cor indefinida, entre o marrom claro e o âmbar e a conter duas faixas, com dizeres, feitas por uma máquina de escrever em fitas, com a presença de relevo, algo bem típico dos anos 1970, a nomear o disco e o nome do artista. 

O escaravelho, segundo a explicação que o próprio artista concedeu-me em uma conversa informal que tivemos, foi a sua opção para denotar a ideia de um inseto resistente, que mostra-se alheio em relação a histeria coletiva imposta à massa e ao mesmo tempo, mostra-se pacífico e discreto, sem propensão a incomodar os seres humanos ou quaisquer outros seres, ou seja, não foi a toa que tal criatura teve um significado cultural e místico importante na história do antigo Egito, por exemplo. 

O disco foi lançado apenas em formato virtual, inicialmente, mas o artista pretende lançá-lo em plataforma física, em breve. Sobre as canções, vale a pena destacar as seguintes observações:

Ouça abaixo, na íntegra, o álbum : "Não Sou da Tribo", enquanto continua a ler a resenha:
1) Gipsy Lady

Uma balada Bluesy, com um bom trabalho de cordas. Apresenta um certo teor Soft-Rock a lembrar levemente tal escola do início dos anos 1970. Matz fala sobre o amor nessa canção, mas com classe, sem recorrer a clichês e pieguices, ou seja, um grande mérito em meu entendimento.

2) Noites Quentes de Dezembro (Folk Song)

Essa canção traz um arranjo de cordas muito bom. São dedilhados a observar uma harmonia bem elaborada e a contar com intervenções a imprimir um colorido melódico deveras bonito, incluso com o violoncelo e alguns efeitos com vozes e gaita (executada por Artur Lunardi). Nesta faixa, o outro convidado, Ricardo Massucato, tocou o baixo.
3) O Blues de Uma Cidade 

Com bastante sentido acústico em seu início, a canção ganha uma roupagem mais elétrica em seu decorrer e lembrou-me bastante o som do grande, Luiz Melodia, com maior urbanidade e também pela letra com teor mais forte. Gostei do solo de guitarra e da boa condução do baixo & bateria. Sobre a letra, destaco um trecho, onde Matz denuncia a dispersão cultural dos tempos atuais:

“Escrevo uma canção e nenhuma tribo urbana me entende / Eu já não ligo / É aquela velha história, cada um no seu mundinho que se prende ao próprio umbigo”

4) Rock de Fim de Mundo

Eis um Rock com a roupagem clássica do gênero e a mostrar um vigor bem convincente. Matz mais uma vez tece críticas à manipulação imposta à população em geral, via redes sociais da internet. Um detalhe importante, nesta faixa, Matz tocou todos os instrumentos, incluso a bateria.

5) Forasteiro

Uma canção Folk muito bem engendrada, com ótima atuação de Matz a pilotar violões (inclusive o sempre bonito, Dobro, para fazer uso do slide), guitarra e violoncelo.
6) Não Sou da Tribo

Trata-se de um reggae, não exatamente clássico e aí há mais um mérito, pois é visível como Matz impôs o seu jeito para interpretar tal escola jamaicana. Com personalidade, imprimiu o seu estilo pessoal e certamente que isso é um diferencial importante. Rodrigo Cerino participa com apoio vocal. Gostei da linha do baixo, assim como as intervenções ao violino.

7) Vento e Vela

Eis mais uma boa canção Folk, com muito colorido proporcionado pelo arranjo, a valorizar bastante o trabalho das cordas. Há uma condução de percussão bastante enriquecedora da parte de Artur Lunardi, ao utilizar o Djemb, um instrumento muito peculiar da cultura afro.

8) Segredo

Gostei dessa canção, a apresentar um certo sabor dos anos sessenta. Destaco o uso de efeito a la caixa Leslie, na guitarra, o que sempre enriquece qualquer arranjo. A condução de baixo & bateria é bem simples, mas muito eficaz, a denotar uma verdade implícita, além de bons vocais de apoio. O timbre do baixo, com pouco sustain no apoio, reforçou a ideia de lembrar os anos 1960.
9) Oke Aro (Vem das Matas)

Talvez a canção com maior sentido étnico dentro deste álbum, a pensar-se no universo abrangente do que engloba as diversas matizes da música Folk, e assim, provavelmente algum musicólogo mais exigente insista em classificá-la como: “World Music”, mas não importa, visto que o que realmente interessa é salientar a sua beleza melódica. Mais uma vez o arranjo de cordas sobressai-se a valorizar a sua rica melodia, principalmente no inspirado uso do violoncelo.

10) Veranico

Eis aqui um Folk com forte teor country & western, dessa forma a mostrar-se vibrante, com ritmo contagiante, pronto para provocar a vontade do ouvinte em deixar a introspecção alcançada pela escuta das faixas anteriores e cair na dança, sem nenhum receio. Baixo acústico, em concomitância com a levada de bumbo e caixa a lembrar ou insinuar o som do "Washboard", mostra-se muito interessante. Trata-se na verdade de uma canção que só contém um defeito: é curta demais, pois quando acaba, deixa uma vontade implícita para ouvir-se mais, porém, ao pensar-se como estratégia mercadológica, também é uma boa ideia deixar o ouvinte com esse desejo recôndito.

11) Areia e Pampa

Um belo tema instrumental a mostrar uma beleza muito grande. Aqui, Matz mostra a sua criatividade ao violão, na verdade a usar mais de um no arranjo para esta faixa, em sobreposição. É uma canção com forte teor relaxante, para provocar no ouvinte, a possibilidade de voar, divagar, ir longe na sua própria epifania.

Gravado no estúdio JMS de Joaçaba-SC, teve produção de áudio da parte de Artur Lunardi

Capa (criação e lay-out): Davi Matz e Artur Lunardi
Davi Matz: Voz, Violões, Dobro, Violino & Viola, Violoncelo, Guitarra, Baixo e Bateria

Músicos convidados:
Artur Lunardi: Bateria, Percussão, Gaita, Guitarra, Efeitos e Backing Vocals

Ricardo Massucato: Baixo em “Noites Quentes de Dezembro (Folk Song)”

Rodrigo Cerino: Vocal em “Não Sou da Tribo”

O álbum está disponível também na plataforma One RPM:

https://www.onerpm.com/login/login

Para conhecer melhor o trabalho do artista, acesse o seu Canal de You Tube:



Eis aqui, um trabalho que eu recomendo. “Não Sou da Tribo” é um álbum que proporciona uma audição muito prazerosa pela qualidade de suas canções, traz poesia e momentos de reflexão interessantes, sem ser panfletário e/ou rancoroso e muito pelo contrário, faz a sua reflexão crítica da sociedade em alguns momentos, com classe, sem apelações. E por ser jovem, Davi Matz é um artista que ainda vai brilhar muito e ajudar-nos a construir uma nova Era na música brasileira, assim espero e acredito.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

EP For Export / Juliana Galdeano - Por Luiz Domingues



Juliana Galdeano, apesar de ser bem jovem, detém uma sólida formação musical, tendo estudado piano e teoria com afinco. A sua aproximação natural é com o Jazz, sob múltiplas vertentes (e inclua-se nesse rol, a Bossa Nova), mas neste trabalho, o EP “For Export”, ela investe em uma sonoridade Pop, a buscar um maior espaço midiático, naturalmente. 

Ao trabalhar com canções mediante apelo R’n’B, sob uma audição geral, mas a transitar pelo Folk com desenvoltura, igualmente, o EP “For Export” mostra uma roupagem moderna, com áudio bastante processado, que busca certamente um padrão para soar bem em pistas de dança de casas noturnas e de certa forma até a poder flertar com o público que acompanha e aprecia a música eletrônica.

No quesito letras, a temática investe forte em questões mais sutis sobre a relação homem/mulher, mas foge dos clichês e apelações, tão comuns nesse tipo de abordagem poética. E há uma outra questão importante, que é a opção pelo uso da língua inglesa em 99% do tempo, com um pequeno excerto em português, apenas. Com tal determinação, Juliana deixa claro que busca o mercado internacional, acima de tudo. 

E nos arranjos, apesar da robustez de sua base teórica, Juliana não abusou desse trunfo ao optar por um instrumental comedido, sem grandes voos instrumentais, e assim investir mais em um tipo de acompanhamento a valorizar o aspecto Pop das canções, ou seja, algo claramente deliberado de sua parte e coadunado com os seus objetivos artísticos. 

Sobre o conteúdo do disco, trata-se de um EP, a conter apenas cinco canções, sendo a última delas: “You Know What I Mean”, que foi lançada anteriormente como single (junto a uma outra canção, “Hope You Agree”). Então, o álbum traz uma boa coleção de composições, das quais falarei a seguir.

 
 “Danger !”, abre o disco e trata-se da peça mais “Techno” do álbum, com uso e abuso de muitas camadas de teclados sobrepostos e bateria eletrônica, ao dar a impressão do flerte com a música eletrônica (acrescente-se uma certa influência da Disco Music dos anos setenta e o Techno Pop dos anos oitenta, nessa receita), que citei parágrafos atrás. 

Gostei dos fraseados sob efeito de contra-solos de alguns sintetizadores, até agressivos pelos timbres usados, ao conferir uma certa dose de ousadia, eu diria. 

Achei a voz demasiada alta na mixagem final. Mesmo ao levar-se em conta que o objetivo é buscar o espectro Pop, como resultado prático, mesmo assim, creio que ficou além um pouco do aceitável, mesmo ao se pensar no velho padrão da MPB, onde produtores exageravam nesse quesito, principalmente no caso das cantoras, no afã de dar maior ganho para as vozes femininas.

“Ballad” é uma canção muito interessante, gostei muito da sua proposta sonora, embora tenha uma metragem bem curta, quase ao ponto de caracterizá-la como a uma vinheta. Há uma forte influência do Folk-Rock e como Juliana tem formação Jazzistica, em tese, ouso dizer que por associação, essa canção lembrou-me o trabalho da maravilhosa, Joni Mitchell, quando de seus flertes com o Jazz.

“Dyllan”, sob uma explicação ofertada em conversa informal que tive com a própria artista, contém um duplo sentido. Sim, tem a ver com a admiração que ela nutre pelo astro do Folk-Rock/Protest Song, norte-americano, Bob Dylan, mas também é uma homenagem a um cão de estimação que ela teve e que foi brutalmente assassinado, lastimavelmente (daí, “Dyllan” com dois “L”). É uma balada Pop bem construída, e denota na sua melodia, a emoção que Juliana soube passar na sua interpretação vocal.

"Jogos Perigosos” é a canção que tem trechos em português, a mesclar-se ao inglês, idioma usado de forma predominante no álbum. A sonoridade geral dos instrumentos, ao optar pelo som seco, sem muito tratamento no processamento geral, agradou-me bastante. Isso destoa do conceito Pop do bojo do disco, mas por isso mesmo, é interessante, pois denotou um diferencial. Gostei muito da voz, pelo fato de que Juliana mostra que além de ser uma tecladista de classe, é também uma cantora com bastante potencial. E o eco da grande, Carole King, também ressoa como influência nítida e muito bem vinda, certamente.

A faixa bônus, “You Know What I Mean”, é fortemente calcada no R’n’B moderno, mas no bom sentido do termo, ao lembrar o Jazz Pop de artistas como Nora Jones e Diana Krall, ou seja, Juliana Galdeano investe firme na sua vocação mais forte que é manter-se no tripé: pianista/cantora/compositora, tal como as suas colegas internacionais que citei. 

Gostei de alguns acentos mais sutilmente comprometidos com o Blues, ao lembrar o som de Nina Simone, mas claro, impressão pessoal minha, nem tenho certeza que Juliana possui tal influência em seu cabedal cultural.

Em suma, Juliana Galdeano mostra-se uma artista jovem, portanto com muita margem para o crescimento, além de ostentar bastante embasamento técnico e teórico, condição rara nos dias atuais e digno de enaltecimento, portanto. Além disso, apresenta criatividade, boas influências como compositora e dotes vocais muito interessantes. É também multi-instrumentista, pois tocou baixo nas faixas, além de pilotar piano e diversos sintetizadores. Demonstrou igualmente que tem potencial poético como letrista. Ao acrescentar ainda mais, ela assinou a produção gráfica de capa e encarte do disco.

Por falar nesse quesito da arte gráfica, achei a capa simples, contudo bem funcional, pois privilegiou a foto da artista, uma prática mercadológica antiga no mundo fonográfico, mas certeira para artistas novos que precisam “mostrar a cara e a coragem”, literalmente, em trabalhos iniciais. Todavia, não posou com uma foto convencional em estúdio fotográfico, mas sim a fazer uso de uma postura de sutil perfil, levemente inclinado e a mostrá-la com o olhar para cima, mediante o semblante leve, mas determinada, quando mira para o alto, muito provavelmente a sugerir uma intenção recôndita de percepção do futuro. Qual futuro? Fica a resposta a cargo de cada observador da foto. Eu penso que ela enxerga a projeção de sua própria carreira, que espero, seja ascendente. 

O encarte é bem funcional, com as letras das canções disponibilizadas (sempre cai bem quando o artista usa desse dispositivo), além de uma ficha técnica bem caprichada e também acho que em todo disco, deveria constar tais informações, com fartura de dados.

Juliana Galdeano já excursionou pelos Estados Unidos, ao ter se apresentado em um circuito de casas de espetáculos, muito interessantes, principalmente na costa leste daquele país, portanto, tal bagagem internacional muito rica que ostenta, engrandece a sua obra e muito contribui para a construção de uma carreira sólida, assim espero.


Gravado nos estúdios “Armazém” e Fillipe Sibioni’s Studio

Produção geral: Fillipe Sibione                  

Técnico de gravação; mixagem & masterização: Fillipe Sibione

Fotos: Daniela Schwery

Arte Gráfica: Juliana Galdeano

Juliana Galdeano: Voz; Teclados e Baixo

Músicos Convidados:

Bento: Guitarra e Bateria Eletrônica

Gabriela Gaspar: Violão e Guitarra

Alex Marques: Bateria

Henrique Polak: Bateria

Produção independente, lançado em 2017


Para ouvir o EP “For Export” na íntegra e conhecer melhor o trabalho de Juliana Galdeano, acesse:




Canal de You Tube:
https://www.youtube.com/user/julianagaldeano