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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Anos de Desbunde : Quando a MPB era Hippie e Sensacional - Por Luiz Domingues




Naquele turbilhão de acontecimentos que ocorreu no campo da cultura e com consequências na área sócio / comportamental, entre as décadas de sessenta e setenta, a música popular brasileira também sofreu forte influência de tais acontecimentos gerados em âmbito internacional. Após décadas sem produzir grandes novidades estéticas, o grande diferencial na MPB houvera sido a explosão da Bossa Nova ao final dos anos cinquenta, e a música internacional parecia não incomodá-la, por não haver a grosso modo, uma convivência pacífica entre as duas correntes.
Mesmo por que, no caso da Bossa Nova, a raiz comum a conter o Jazz como parâmetro, principalmente no tocante à composição e arranjos, e assim privilegiar o uso de harmonia sofisticada, fazia com que a estrutura instrumental de ambos os estilos, fosse bem parecida. Com exceção de artistas que usavam o violão como acompanhamento, foi comum na Bossa Nova, a utilização de uma formação a conter um trio de instrumentistas mediante piano; baixo acústico & bateria, para acompanhar cantores dessa escola estética, a repetir portanto, o formato do combo clássico do Jazz Stand. Todavia, houve um momento em que a nova música Pop, que vinha principalmente da Inglaterra, começou a incomodar os adeptos da MPB tradicional.
Garotos cabeludos e “barulhentos” a tentar reproduzir o som de artistas negros americanos, e com raízes no Blues, entraram com força no imaginário popular, a assustar os tradicionalistas com tantas mudanças, e dessa forma a forçá-los a reagir e diga-se, da pior maneira possível. Sob uma demonstração de incompreensão e ranço reacionário inadmissível por parte de alguns que nem tinham perfil para portar-se dessa forma ingrata, eis que organizaram então uma vergonhosa : “Marcha contra a Guitarra Elétrica”, como forma para supostamente "proteger” a pureza da MPB.
Como artistas a conter qualidade inquestionável, puderam participar de uma jornada lastimável dessa monta ? Não cabe julgamento, tampouco execração pública, no sentido de que todos estamos sujeitos a errar. Faz parte da vida, em qualquer área, a possibilidade para dar-se um passo errado e no cômputo geral, sábio é aquele que aproveita o momento de adversidade para crescer em cima de sua coragem em ter tentado, e humildade vir a reconhecer a sua falha. Mas para efeito de história, essa tal “marcha” pode ser considerada um divisor de águas na MPB, que passaria por mudanças drásticas, doravante. Logo na metade da década, ainda no calor da marcha reacionária e corporativista, começou a surgir festivais universitários de MPB, e logo, a ideia foi absorvida pela emissoras de televisão.
Nem preciso alongar-me nesse parágrafo para exprimir o quanto os festivais da TV Record de São Paulo, foram importantes para a MPB. E dentro deles, a grande capacidade de transformação da MPB, já estava em curso, com jovens a incorporar diversos elementos do Rock internacional.
Guitarras; baixo elétrico e teclados eletrônicos entraram com tudo, ao subir ao palco para interagir com os instrumentos tradicionais e até de orquestras que costumavam acompanhar cantores da velha guarda, e a usar smokings como figurino de palco, e mediante a observação daquelas vozes impostadas e no abuso do gestual formal.
Nessa altura, a Jovem Guarda já dava as cartas nas “jovens tardes de domingo”, e a consequente aceitação de cabeludos com guitarras na TV, tornara-se inevitável. Mas a despeito de parecer algo revolucionário, a Jovem Guarda não era Rocker 100%, e nem MPB em sua essência. Influenciada sim, pelo Pop Bubblegum internacional, via British Invasion, a sua amálgama brasileira no entanto, flertava fortemente com o brega dos bairros suburbanos das grandes cidades, e sem muito quilate artístico para sustentar-se como estética a entrar para a história, a não ser pelo hype midiático.
Portanto, salvo raras e boas exceções, não foi da Jovem Guarda que a MPB achou um novo rumo, apesar desse movimento conter artistas como Roberto Carlos, por exemplo, ao torná-los mega populares (e para corroborar a minha tese, a carreira do Roberto, no pós anos sessenta, enveredou para o “romântico popular”, um eufemismo para a música popularesca, é um fato.)
Por isso, a grande mudança começou para valer mesmo, dentro da explosão dos festivais, onde artistas antenados na modernidade e sobretudo isentos de qualquer ranço reacionário, trouxeram o que havia de mais sensacional no Rock; Black Music; Jazz, e experimentalismo em geral, para a nova MPB que construiu-se ali.
Outro ponto importantíssimo ocorreu ao final da década de sessenta e início dos anos setenta, quando a Black Music fez-se presente na MPB, com muita força.
Além de uma safra sensacional de novos artistas surgidos nessa cena Black, com Tim Maia como o principal “síndico desse condomínio”, é claro, alguns outros artistas aproximaram-se dessa estética, baseada no melhor d Soul Music / R'n'B, com bastante inspiração. Foi o caso de Marcos Valle, outrora artista consagrado na cena do Samba-Jazz, cujo repertório base até então, privilegiava o samba em várias vertentes, mas que depois de conhecer a Soul Music, abriu um novo horizonte na sua carreira, sem dúvida, inclusive a abrir-se até para o Rock, nos anos setenta, através de sua própria interpretação como cantor e pianista, além de cantoras de quilate como Elis Regina e Claudia, por exemplo.

 
E até o Roberto Carlos flertou (e muito bem), com a Black Music. 
Para quem é historiador da música, sabe bem que existiu um hiato na carreira dele, Roberto Carlos, que é muito interessante entre a fase da Jovem Guarda e o mergulho no romântico / brega que ele adotou a posteriori, onde ele teve um momento "Soul Music", muito bom, com o apoio do Erasmo Carlos e Tim Maia, sobretudo, e que certamente já transitavam por essa estética, anteriormente.


Outra vertente que explodiu no início dos anos setenta, foi a de artistas que eram acintosamente influenciados por correntes do Rock internacional, como a Psicodelia sessentista e o Rock Progressivo dos anos setenta. Nesse aspecto, a proximidade histórica do Rock Progressivo com a música Folk europeia, naturalmente fez com que artistas de diferentes regiões do Brasil, estabelecessem a mesma associação. Fato explicável com propriedade por qualquer musicólogo, a música folclórica, seja lá de qual nação represente, contém uma raiz comum, e é base primordial da música erudita. Como o Rock Progressivo bebe na fonte da música erudita, sempre coaduna-se com o Folk, de uma maneira harmônica.
Isso explica portanto, a extrema felicidade com a qual os compositores mineiros, egressos do movimento que entrou para a história como : “Clube da Esquina”, entraram com tudo no mercado setentista, ao apresentar a música Folk das montanhas mineiras, com sonoridade de Rock Progressivo e inquestionável quilate artístico.
O mesmo raciocínio dá-se com alguns artistas nordestinos. A junção de suas raízes folclóricas multifacetadas com o Rock, abriu caminho para uma série de artistas geniais, que uniram a psicodelia hippie; lisérgica & ufológica, ao som do agreste. No meio da década de setenta, uma safra de artistas anteriormente relegados ao quase anonimato do underground, finalmente veio à tona, graças a um festival que tentou resgatar a aura dos festivais sessentistas. Foi o Festival “Abertura”, da Rede Globo, realizado em 1975, e que se não conseguiu o mesmo glamour que pretendia repetir de 1967, ao menos teve o mérito em colocar no mercado, artistas performáticos na crista da onda.
De minha parte, acrescento agora a minha impressão pessoal de época, visto que nos anos setenta eu era adolescente e já acompanhava com total interesse tal cena artística, e nessa época, e nem eu, tampouco os meus amigos, fazíamos distinção entre o Rock e a MPB. A nossa visão era de que as duas escolas caminhavam juntas, ideológica e esteticamente a falar, ao diferenciar-se apenas em por uma questão de formato, mas como falam os franceses, “Vive La diference” !



A essência era Hippie, mesmo para artistas que não coadunavam-se abertamente em tal conceito.
Se o Walter Franco falava pausadamente em que : “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”, isso era devidamente completado por Gilberto Gil, ao  dizer : “Se Oriente rapaz, pela constelação”...
“Viva a Sociedade Alternativa”, poderia ter sido cantado pelo Country Joe McDonald em Woodstock, ou ser palavra de ordem para enaltecer a “Nutopia”do John Lennon...

Com os “cabelos ao vento, gente jovem colorida”, não queremos repetir os erros dos "nossos pais". O negócio é tomar um “táxi para uma estação lunar”, "amiúde, Avohai", ele diz que mora na baleia por vontade própria...
E quem sabe ir para o interior, para instalar-se em uma “Casa no Campo, com meus discos, meus livros e nada mais”, porque “não dá para confiar em quem tem mais de trinta anos”...


Dá para fazer uma série de outras associações, mas a amálgama é sempre a raiz Hippie, com os seus ideais em torno do conceito da fraternidade; igualdade; amor à arte; liberdade; além de forte apelo espiritualista, com consequentes ligações com a ecologia; ambientalismo; sustentabilidade; anticonsumo; pacifismo, e uma série de outros temas correlatos.
Uma frase da Gal Costa, publicada recentemente (2014), deu a letra : -“A MPB era legal nos anos setenta quando virou Hippie”. Claro, Gal era "le-gal", "to-tal" e "fa-tal"...


De fato, a considerar-sendo que naquela época, as novidades internacionais sempre chegavam com bastante atraso no Brasil, não é surpreendente constatar que o Flower Power que entrara em declínio no Pós-1969, chegasse no Brasil, alguns anos depois.


Nesse contexto, a explosão Hippie no Brasil foi no início dos anos setenta, e causou esse impacto na MPB, sem dúvida. Citei poucos artistas e obras nesta matéria, propositalmente, porque esse tema, além de fascinante, gera múltiplos desdobramentos. Portanto, para não tornar-se um ensaio gigantesco, encerro por aqui, mas voltarei ao tema em matérias futuras, por que é um assunto vasto.
Por enquanto, deixo a constatação : a MPB quando era Hippie e "desbundada", era sensacional !
Matéria escrita inicialmente para a revista impressa Gatos & Alfaces, nº 5, de abril de 2015

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Tropicália : Pão, Circo e Desbunde - Por Luiz Domingues

 
"Eu oriento o movimento, eu organizo o carnaval"...

A turbulência política que o Brasil viveu na metade dos anos sessenta, polarizou a música popular brasileira entre os estudantes universitários.

A rapaziada simpática à ideologia da esquerda, fechou com a ideia de que somente possuía valor a produção musical 100 % engajada na questão ideológica e sendo assim, deu muitas vaias em quem não compactuara com tais conceitos, no auge dos festivais de MPB, principalmente os realizados pela TV Record de São Paulo. Detestavam o que consideravam sub-arte imperialista e americanizada, a Jovem Guarda, por exemplo, e também a MPB Velha Guarda, alheia aos temas políticos em sua temática.
Mas o mundo não girava apenas em torno de quem torcia pelo comunismo ou capitalismo e alheia à essa polarização da guerra fria, a contracultura estava a todo o vapor com o movimento Hippie a explodir; luta em torno dos direitos civis na América do Norte; feminismo e a arte POP, entre tantas outras manifestações simultâneas, que deram margem para novos paradigmas, muito além da luta de classes. E nessa efervescência total, para fazer uso da oportunidade dos Festivais da TV Record, foi que surgiu para o grande público, um grupo de artistas antenados nessa vanguarda estética.
Caetano Veloso; Gilberto Gil; Tom Zé; Gal Costa; Os Mutantes; Torquato Neto; Rogério Duprat; Capinan; Nara Leão, e outros que posteriormente aderiram, formavam a comissão de frente desse novo movimento, que foi batizado como : "Tropicalista". Qual foi o seu mote ? Tudo...
Ao resgatar o conceito de Osvald de Andrade, em relação à "antropofagia", os tropicalistas propuseram digerir todas as influências modernas e antigas e regurgitá-las, sem pudores. Com a sólida base da MPB, via Bossa Nova, através de artistas como Nara Leão e Caetano Veloso, principalmente e as influências nordestinas de Gilberto Gil, uniu-se nessa mistura, o Rock como jamais outros artistas da MPB haviam ousado experimentar de uma forma aberta, quando encontraram-se com os argentinos do Beat Boys e os paulistanos d'Os Mutantes.
Nesse sublime encontro da queixada de burro com o violão super brasileiro, porém a empreender harmonizações jazzísticas sofisticadas, acrescentou-se a banda de Rock, com a distorção da guitarra; o baixo elétrico e a bateria com pegada forte e estamos a falar de Rock lisérgico sessentista, ou Acid Rock, para ser mais específico. Isso sem contar o acréscimo avantgarde das orquestrações de Rogério Duprat, ao outorgar o toque de experimentalismo, que Tom Zé também traria, com a sua desinibição total para chocar, sem receios.
Vestidos como Hippies, coloridíssimos e a ostentar longas cabeleiras, estavam coadunados com San Francisco e Londres de 1967, em uma condição de igualdade inédita para os padrões de Pindorama. E mais uma marca registrada : o resgate da velha MPB, a misturar-se com toda a modernidade, sem nenhuma discriminação, muito pelo contrário, em tom de exaltação.
No caso de ter gravado a canção : "Coração Materno", do cantor da velha guarda, Vicente Celestino, por exemplo, Caetano queria "complexicar os critérios críticos", conforme costuma dizer, para romper o conceito do que é "bom ou ruim" na MPB, em opiniões formatadas e paradigmatizadas.
O LP coletivo, "Tropicália ou Panis Et Circencis" é um exemplo de toda essa manifestação efervescente, onde Chacrinha e Andy Warhol foram tratados com a devida igualdade. Jimi Hendrix; The Beatles; João Gilberto e Jackson do Pandeiro, pululavam juntos na panela antropofágica, com a clássica imagem de Carmem Miranda a usar um cesto de frutas à cabeça, que poderia ser tranquilamente considerada uma Hippie de Haight-Ashbury, com um LP do Silvio Caldas debaixo do braço...
Em 1968, os Tropicalistas foram parar na TV. Com um programa semanal na TV Tupi, promoveram uma verdadeira loucura sonora / visual / estética e comportamental que foi demais para os senhores censores a serviço do regime totalitário. Pressionada, a TV Tupi teve que tirar do ar aquele bando de doidos para total azar de quem estava antenado nessa vibração libertária.
E como toda essa loucura foi demais para a época que o Brasil atravessava, a repressão tratou em livrar-se de seus dois principais articuladores, quando convidou Caetano e Gil a sair do país, em um dos atos mais tristes cometidos contra a cultura. O movimento dispersou-se, mas o espírito libertário, não, com todos os envolvidos a continuar a produzir, e seguir em frente em suas respectivas carreiras.
Apesar do exílio, Caetano e Gil continuaram com tudo e em 1972, mesmo com o Brasil ainda a viver um tempo muito difícil na política, eles voltaram ao país, com força total. Além de Gal Costa e Tom Zé, que acharam o seu espaço na música mainstream, igualmente com Os Mutantes, que alcançaram uma carreira vitoriosa, etc.
Pode-se atribuir ao movimento tropicalista, um elo a estabelecer-se como uma continuidade lógica do conceito, além do LP "Tropicália ou Panis Et Circensis", assim como os primeiros trabalhos individuais de Caetano; Gil; Gal e Tom Zé e certamente os dois primeiros Lp's dos Mutantes.
Recentemente, sob a direção de Marcelo Machado, foi produzido o documentário : "Tropicália", com entrevistas de diversos personagens do movimento, mais imagens inéditas da época. O cinema tem sido generoso e multiplicam-se documentários interessantes sobre a produção artística e cultural dos anos sessenta e setenta. Hora de prestigiarmos essa produção audiovisual que resgata o tesouro artístico nacional. E certamente é o caso desse ótimo documentário.
Afinal de contas, "quem não se comunica, se estrumbica", como dizia o velho guerreiro, balançando a pança...  aquele abraço !
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, e posteriormente republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012