quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Filme: Down of Us (Beyond The Doors) - Por Luiz Domingues


Que a euforia gerada pela escalada geométrica que a contracultura alcançou na América do Norte nos anos sessenta, tenha incomodado e muito as autoridades, sobre tal fato não resta dúvida. Há fundamento sim, para imaginar que o governo estudou o fenômeno com atenção, ao colocar as suas agências de inteligência em campo para dissecar o movimento Hippie e os seus agentes, não apenas em termos de pessoas comuns, mas identificadas como possíveis lideranças ou no mínimo, militantes, como também muitos artistas que ajudaram decisivamente a propagar os ideais e por consequência, influenciar decisivamente uma enorme parcela da juventude dessa época. Posto isso, é preciso deixar claro que sob contrapartida, há também a possibilidade da enorme quantidade de boatos inerentes, prosperar, em termos de teoria da conspiração e nesse campo, a imaginação fértil das pessoas, costuma voar longe, ao criar literalmente, qualquer fantasia.
 
Bem, nesses termos, os boatos a dar conta que uma conspiração fora formulada por agentes governamentais norte-americanos para assassinar artistas proeminentes que atuaram nos anos sessenta, correu durante os anos setenta e é sobre essa teoria, que trata o filme, “Down of Us”, também conhecido como “Beyond The Doors”, lançado em 1984. 
 
Antes de avançar sobre a resenha do filme em si, devo esclarecer ao leitor, que eu não sou signatário dessa teoria, embora reconheça que a preocupação das autoridades foi muito grande ao final dos anos sessenta, principalmente quando notou que a contracultura crescera em demasia, ao ponto de gerar protestos contra a guerra do Vietnã e assim, suscitar a possibilidade da desobediência civil, com milhares de jovens a rasgar certificados de convocação militar para servir as forças armadas em tal conflito, simplesmente por colocarem-se como pacifistas contumazes e enxergar o mundo e a vida, além dos objetivos geopolíticos da nação e que invariavelmente versava sobre interesses econômicos. 
No entanto, daí a considerar que as mortes de Jimi Hendrix; Janis Joplin e Jim Morrison, não foram acidentais por conta dos efeitos decorrentes do abuso das drogas alucinógenas, como foi divulgado oficialmente, no entanto a revelar-se como assassinatos planejados e executados por agências de inteligência governamentais, creio que trata-se de um delírio.
 
Sobre o filme em si, é preciso deixar claro que ele foi concebido com um baixíssimo orçamento. Portanto, é perfeitamente compreensível que o seu aparato visual seja fraco ao extremo. E as falhas estruturais apresentadas, são muitas, conforme repercutirei a seguir.
A história começa em alguma localidade rural do estado de Maryland, em 1984, quando um grupo de caçadores de patos está empenhado em uma caçada e subitamente, um dos homens é assassinado a sangue frio, e este se chama: Alex Stanley (interpretado por Sandy Kenyon). 
 
Um comentário aleatório dá conta que através desse homem abatido, o Rock’n’ Roll estaria morto. Uma tarja com os dizeres: “Assassinato é uma forma extrema de censura”, assinada por George Bernard Shaw, aparece para tentar ofertar uma credibilidade ao mote do filme. A cena corta para a família desse homem, que está enlutada. A esposa desse senhor, Mrs. Stanley (interpretada por Toni Sawyer), está abalada e relata ao filho, Frank Stanley (interpretado por Steven Tice) e para a sua esposa, Ellen (interpretada por Jennifer Wilde), que a morte do pai pode não ter sido acidental em tal caçada. 
 
O filho do senhor assassinado, fica muito interessado em desvendar a verdade e passa a procurar por documentos que o seu pai mantinha bem guardados e daí vem o inevitável flashback que conduz o espectador para o ano de 1968, em meio a uma apresentação de Jimi Hendrix.
 
Incrível, é para animar, não é mesmo? Todavia, infelizmente, assim que a imagem dessa encenação de um show de Jimi Hendrix, em pleno ano de 1968, surge na tela, a decepção é enorme. Apesar de eu já haver justificado tais falhas pela ausência de uma verba melhor, mesmo assim, ao considerar-se ter sido uma produção norte-americana, é praticamente impossível desculpar a precariedade com a qual tal cena (e isso repetiu-se em outras partes do filme, com o mesmo personagem de Hendrix, assim como em relação à Janis Joplin e Jim Morrison à frente do The Doors), gera pela sua fragilidade. 
 
Bem, é muito decepcionante produzir-se uma cena com tanta pobreza visual e plena por anacronismos insuportáveis. O ator que interpretou, Jimi Hendrix (Gregory Allen Chapman), era até um tanto quanto parecido fisicamente com a personagem real de Jimi Hendrix, mas daí a produção considerar ter sido isso o suficiente, foi no mínimo, um lapso lastimável. O figurino do ator, parece ter sido concebido por alguém que fez uma pesquisa superficial sobre a moda dos anos sessenta, ao parecer um trabalho feito para ser encenado por alunos da quinta série, no teatro de final de ano da escola, ou seja, a pesquisa empreendida deve ter limitado-se a perguntar à mãe de um aluno: -“como era a moda dos anos sessenta?"
 
E piora ainda mais, quando observa-se o visual dos companheiros de banda. Ora, supõe-se que seria a encenação de um show regular do combo, Jimi Hendrix Experience, pois dessa forma, ficou ridícula a completa descaracterização de Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria). Não houve nenhuma preocupação de se apresentar atores parecidos fisicamente com ambos e o figurino então, nem roupas de brechó, supostamente sessentistas, foram providenciadas e assim, os atores aparecem a denunciar estar mesmo em 1984, época da produção deste filme, ao denotar usar o seu vestuário pessoal do cotidiano. 
 
E tem mais, pois além de não tocar-se nenhuma música do repertório oficial de Hendrix, pela obviedade desta produção não ter reunido nenhuma condição de adquirir os seus devidos direitos autorais, pecou-se igualmente na produção do áudio. Tirante o personagem de Hendrix que usou uma guitarra Fender Stratocaster, os demais aparecem em cena a ostentar instrumentos modernos dos anos oitenta e os timbres observados nessa produção de áudio, denunciam mais ainda ser algo completamente anacrônico, sem nenhum pudor em ferir a fidedignidade da história. É evidente que se não houve preocupação com os atores no palco a simular um show, imagine na plateia e nos bastidores, então. Pessoas a aparentar estar exatamente no tempo da filmagem, 1984 e não em 1968, como sugeriu-se a ação temporal da película, denunciam a precariedade absoluta da produção.
O mesmo ocorre quando se mostra Janis Joplin em ação durante um show. A personagem está bem mal produzida, a parecer ter comprado algumas plumas coloridas no comércio popular da Rua 25 de março em São Paulo, para poder participar de um baile à fantasia temático sobre os anos sessenta, mas evidentemente, sem nenhuma noção mais apurada sobre o Rock dessa década e sobretudo pelo visual de Janis Joplin, exagerado, certamente, mas nada a ver com uma fantasia barata para ser usada no carnaval e comprada a esmo. 
 
E a banda mostra-se muito mal caracterizada. Pela época abordada, Janis deveria estar a apresentar-se com a sua segunda banda na carreira, a Kozmic Blues e a caracterização dos músicos dessa banda, é péssima pela ausência completa de similaridade física com os músicos originais, figurino equivocado e também pelos instrumentos e equipamentos não condizentes com a época, Ela canta um blues, que lembra vagamente em sua sonoridade, o som de Janis Joplin, mas o resultado final é muito aquém da realidade.
 
O filme sugere um avanço para o dia 14 de setembro de 1968, e doravante mostra-se a figura de Jim Morrison (interpretado por Bryan Wolf), o lendário vocalista da banda, “The Doors”, desmaiado sob uma cama, enquanto uma mulher, possivelmente uma groupie, está a assistir o noticiário da TV, inteiramente nua. Intercala-se com uma cena de um show do The Doors e as mesmas observações que eu fiz em relação à encenação do Jimi Hendrix Experience e sobre a Kozmic Blues de Janis Joplin, cabem literalmente neste caso, igualmente. 
É um horror a recriação desse simulacro de The Doors, tanto na aparência dos atores, quanto no uso de instrumentos e equipamentos e também pela sonoridade ouvida. Igualmente pela ausência de uma canção genuína dessa banda, naturalmente cerceada pelo impedimento legal em torno dos direitos autorais, portanto, o que ouve-se é uma banda qualquer a tocar alguma coisa que lembra vagamente o estilo do The Doors; com músicos a usar instrumentos & equipamentos anacrônicos, trajados de uma forma completamente incompatível com a banda em sua época e com atores que não parecem-se em nada, fisionomicamente, com Krieger (guitarra), Desmond (bateria) & Manzarek (teclados), os companheiros de Morrison.
 
Mais uma menção ao avanço do tempo e agora, em 5 de novembro de 1968, Hendrix está a gravar em um estúdio, quando é bruscamente interrompido por um comitê a representar o grupo ativista político, “Black Panthers”. A cena, no entanto, é patética, a lembrar cenas da novela adolescente, “Malhação” da Rede Globo, tamanha a sua insipidez dramática, visto que a ideia fora mostrar a dura repreensão que Hendrix de fato recebeu da parte de tal grupo ativista negro, por supostamente ser um artista comprometido com a cultura dos “brancos”, não engajado portanto na causa negra. Porém, do jeito que ali foi ventilada tal passagem em sua biografia, ficou algo patético.
 
Paralelamente, mostram-se cenas com agentes da inteligência a iniciar uma investigação sobre artistas ligados ao Rock e a movimentação dos jovens em torno do movimento, a revelar a preocupação do governo com tal tipo de influência perigosa, em sua avaliação, em contraposição aos seus anseios em prol da manutenção do status quo do sistema. Isso de fato ocorreu, no entanto, não exatamente da maneira pela qual o filme mostrou (creio que não, em minha opinião, digamos, mais legalista e sonhadora), pois na prática, nada pode ser descartado quando o que está em jogo é a disputa pelo poder neste mundo, eu sei. Nesse ínterim, mostra-se Richard Nixon, e a insinuar-se estar o presidente muito preocupado com o avanço da suposta "pauta" Hippie etc.
Jim Morrison é mostrado a criar conflitos por conta de seu temperamento incontrolável no palco, a provocar as garotas da plateia com insinuações sexuais e a xingar policiais. E claro que torna-se uma figura odiada pela corporação em geral. Em um show do The Doors realizado em 1º de março de 1969, na cidade de Miami (isso foi verdade), ele faz um strip-tease ao vivo no palco, para enlouquecer as suas fãs e os policiais, sob dois pontos de vista antagônicos. Ele é preso, ainda no palco.
 
Em um clube noturno, Hendrix, Morrison e Janis Joplin são duramente criticados por uma trupe de atores que faz imitações deles próprios no palco do estabelecimento e ficam todos, muito indignados. Isso ocorreu de fato, algum dia ou foi uma fantasia desse roteiro (aliás, mais uma)?
 
O filme avança para 23 de março de 1970, e daí vê-se uma reunião de agentes da inteligência norte-americana. A seguir, surge uma cena caseira, onde o filho do agente Alex Stanley, Frank Stanley, então adolescente, ouve um disco de Rock em alto volume e o seu pai enlouquece ao invadir o quarto do rapaz, para quebrar o disco e aos gritos, proibi-lo em escutar mais esse tipo de música dentro de sua casa. Bem, neste caso, algo coerente com a sua mentalidade reacionária. E para mostrar que não estão a brincar, agentes da força repressiva, matam um homem, sem nenhum pudor, no cerco de suas ações para atingir os Rock Stars.
 
A cena de Hendrix  atuar no Festival de Woodstock é medonha. O ator esforçou-se, reconheço, pois deve ter existido o vídeo oficial do festival para recriar a performance o melhor possível, porém, mediante uma produção tacanha, realmente ficou difícil, pois entre outras coisas, por força das circunstâncias, o enquadramento ficou no ator, quase que exclusivamente e assim reduziu-se a cena para algo intimista, em contrapartida ao tamanho real desse festival na história, portanto a exigir o oposto, no sentido da amplitude.
 
Uma sessão de fotos de Hendrix com duas modelos nuas, não avança pois o astro passa mal, decorrente de seus abusos com as drogas. Uma cena em uma casa noturna mostra uma lamentável falha anacrônica, ao mostrar-se sob o áudio de um som Pop e pasteurizado, apesar de parecer ser um Blues-Rock, na essência. Janis Joplin em outra cena, mostra-se melancólica ao proferir a famosa frase que lhe é atribuída: -“eu faço amor com vinte e cinco mil pessoas nos shows e depois vou para a casa dormir sozinha”.
 
Jimi Hendrix, está bem mal, no camarim de um outro show seu e duas garotas o abordam a propor-lhe fazer o molde de seu pênis em gesso e isso de fato ocorreu na vida real, pois ele e outros astros também foram procurados com tal proposta inusitada da parte das moças e desse esforço incomum, resultou-se o lançamento de um livro a exibir o aparelho reprodutivo de muitos Rock Stars, lançado no início dos anos setenta. 
 
Mais uma cena de show mostra-se lamentável, quando nem se respeitou o fato histórico de que em 1970, o baixista, Noel Redding não estava mais na banda e sim, Billy Cox, ou seja um homem negro. Portanto, a falta de uma verba mais avantajada, não exime a produção de um erro assim, pois não geraria um grande ônus a mais no orçamento ao se contratar um ator negro para filmar tal cena. Tosco por tosco, José Mojica Marins não teria nenhum pudor em recrutar uma pessoa na rua, a esmo, sem nenhuma qualificação para filmar uma cena na qual ele considerasse o tipo físico mais importante que a técnica como ator profissional. Portanto, tomara que tenham aprendido tal lição básica, observada no cotidiano da produção cinematográfica.

Aí chega a enfim a parte mais fantasiosa do filme e com a agravante de ter sido feita sob uma produção paupérrima, lastimo muito que cenas assim, que em outras circunstâncias seriam muito mais convincentes, tenham sido concebidas como se fosse algo amador, inacreditável para o padrão habitual do cinema norte-americano. 
 
Bem, agentes rondam o apartamento onde Jimi Hendrix e a sua nova namorada, a pintora alemã, Monika Dannemann (não mencionada e com a atriz que a interpretou, nem creditada no filme), estavam hospedados em Londres, no dia 18 de setembro de 1970. 
 
O telefone está grampeado (como assim, a Scotland Yard cooperou também?), e quando a moça sai para comprar alguma mercadoria na rua, um agente entra no quarto e coloca diversos barbitúricos goela abaixo de Hendrix, que já mostrava-se bem dopado. Quando a moça chega e o vê desacordado, desespera-se e chama uma ambulância, mas o que ela não suspeita, é que a ambulância que chega para efetuar o socorro, faz parte do esquema. Portanto, o filme abusa do absurdo, pois Hendrix ainda respira, mas os agentes disfarçados como médicos e enfermeiros, o sufocam dentro do carro, para completar o serviço. Menos um Hippie para incomodar o sistema... excuse me, while I kiss the sky...
 
Cenas na TV a mostrar hippies a dançar nus em logradouros públicos, chocam os conservadores e certamente instiga-lhes a tomar providências para acelerar o processo para aniquilar os ídolos desses tresloucados. Nixon discursa na TV e certamente que as barbaridades cometidas no Vietnã não tem a mesma repulsa da parte da opinião pública, uma marca da época, igualmente. 
 
Janis Joplin está a gravar um novo álbum e o filme a mostra com a devida pobreza visual e sonora, uma constante nesta produção. Ela grava um trecho de uma das últimas músicas que faltam para encerrar o álbum. Um produtor de estúdio, a alerta de que ainda faltam duas para encerrar a gravação, nos próximos dias. Ela vai para a sua casa, mas antes disso, o agente, Stanley, invade a sua residência e aplica injeções em algumas frutas, a conter veneno letal. Ela entra, prepara um cocktail de frutas e ao beber, morre intoxicada. Em suma, uma bizarrice sem tamanho. E potencializado pela cena ridícula de alguém a aplicar injeções com veneno nas frutas, francamente... try, just a little bit harder...
 
Bem, o agente ainda volta à cena do crime e recolhe as frutas contaminadas para eliminar as provas e isso mostra-se ridículo, como complemento e ainda piora a sensação, pois sob tal direção de arte e figurinos, nem esconde-se ser uma ambientação oitentista, principalmente em sequências em externas, onde nenhum cuidado foi tomado para que parecesse estar a ocorrer em 3 de outubro de 1970, pois na realidade, é bem 1984, no panorama geral ali retratado.
 
Por ocasião de um show do The Doors, Morrison é flagrado no camarim a fazer sexo com um a garota bem nova. Ele chega ao palco e provoca ainda mais os policiais, para deixar o clima mais tenso. O agente Stanley assiste, e nem esforça-se para não deixar passar a ideia de que seja um detetive ou coisa que o valha. 
 
Cenas com a figura asquerosa de Charles Manson e membros de sua gangue formada por fanáticos catatônicos, a falar em depoimentos na TV, são mostradas para associar a contracultura à barbaridade por eles cometida contra a atriz, Sharon Tate. Isso de fato aconteceu na mídia nessa época, no mundo inteiro. Morrison mostra-se debilitado, pois tosse com constância, ao denotar estar a caminhar para uma tuberculose. Ele anuncia que vai morar em Paris. 
 
Logo a seguir, vê-se a cena de um policial francês a noticiar a morte do artista norte-americano e a caracterização do agente é caricata. Sempre naquela predisposição de estigmatizar o cidadão europeu com um paradigma clichê para cada nacionalidade, o francês em questão segue a cartilha padrão do cinema norte-americano, ao enxergar o cidadão francês médio, como se todos fossem iguais ao inspetor Closeau, ou seja, alguém completamente inapto, mas que nem percebe a sua própria condição pessoal, a revelar-se patética. 
 
Um comentário irônico diz que Morrison estará bem acompanhado de Honoré de Balzac, Oscar Wilde e outros grandes artistas em sua última morada. Enfim, a ação do agente assassino foi facilitada, pois segundo o filme, Morrison morrera em decorrência de uma overdose, ao dispensar o seu assassinato. Missão cumprida... this is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end...
 
Flashforward e agora de fato em 1984, Frank Stanley está convencido que o seu pai fora assassinado por revelar-se uma queima de arquivo. Ele sai a campo para tentar desvendar a trama pela qual o seu pai envolvera-se. Em sua investigação, descobre uma pista na Espanha, onde interroga alguns monges. Ele é conduzido até um cemitério usado por tais religiosos e então o monge decano informa-lhe que um cantor norte-americano ali viveu recluso e que veio a falecer em 1974. Delírio total, pois na verdade, Morrison morrera em seu apartamento em Paris, em 3 de julho de 1971 e foi devidamente enterrado no cemitério de Père-Lachaise, na capital francesa.
 
O filme encerra-se com um diálogo com alto teor conspiratório, transcrito na tela, e que supostamente fora travado em uma entrevista real na TV britânica:

Reporter TV British: -“Did you give your approval na intelligence
program that contemplated clearly ilegal acts?” 
(reporter TV Britânica: -“Você deu a sua aprovação em 
um programa de inteligência que contemplou atos claramente 
ilegais?”
Nixon: -“When the presidente does it, that means it is not ilegal”... 
(Nixon: -"Quando o presidente faz isso, isso significa que não 
é ilegal"...)
Reporter: -“Would not this rationate also permit a presidente to 
order murder?"(repórter: -"Não seria este raciocínio 
também permitir que um presidente ordenasse um assassinato"?
Nixon: -“There are degrees... nuances... which are difficult to explain... the deciding line would be the president’s judgement”. (Nixon: -"Existem graus ... nuances ... que são difíceis de explicar ... a linha decisiva seria o julgamento do presidente".

Bem, a despeito dessa declaração forte, supostamente proferida por Nixon em 1977, em uma entrevista concedida para a TV britânica e cuja veracidade nem é confirmada, creio que neste caso, esta lenda urbana defendida pela produção deste filme, não tem nenhuma comprovação. Como já disse, astros do Rock sessentista e diversos ativistas, foram de fatos monitorados e vide o caso de John Lennon que inclusive foi bastante incomodado pelo governo Nixon, ao negar-lhe o “Green Card”, por anos a fio, durante os anos setenta. No entanto, acreditar em tramas maquiavélicas a envolver assassinatos, aí foi longe demais em minha avaliação. Ou seria eu um completo ingênuo por acreditar na justiça, na legalidade e na isenção de agentes governamentais? Bem, fica a avaliação sobre a trama desse filme conter algum cabimento ou não, para cada espectador. 
 
Sobre a produção, creio que já expus amplamente a minha opinião sobre a sua pobreza constrangedora. Só posso deduzir uma hipótese: o diretor quis bancar a tal ideia a todo custo por conta de suas convicções pessoais e ao não captar recursos para uma produção melhor, tocou o projeto em frente com os parcos recursos disponíveis. Paciência.
 
Como peça cinematográfica, entra para a história como uma película exótica a defender uma tese muito fantasiosa e retratar três astros de primeira grandeza na história do Rock, de uma maneira muito aquém da biografia desse trio. Foi escrito e dirigido por Larry Buchaman, e aliás, cabe dizer que este diretor construiu uma longa carreira a lançar filmes de terror e Sci-Fi, com baixo orçamento, portanto, ele normalmente não se constrangeu por receber críticas desdenhosas por conta de seus filmes anteriores, absolutamente toscos, no chamado patamar da classe "Z" de qualidade. 
 
E já houvera cometido um filme com forte insinuação baseada na teoria da conspiração, vinte anos antes (1964), quando lançou uma história livre sobre o suposto assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, o cidadão, Lee Harvey Osvald em "The Trial of Lee Harvey Osvald", pois através de um delírio, ambos, Kennedy e Lee Osvald, sobrevivem, quando na verdade, os dois foram assassinados.

Fracasso total, massacrado pela mídia e odiado por Rockers, por conta de uma caracterização muito ruim de Hendrix; Joplin & Morrison, creio que é difícil encontrar algum mérito além de haver tornado-se nos dias atuais, uma exótica peça cinematográfica. Tal filme passou na TV aberta, sem maior alarde, ainda nos anos oitenta. Eu não encontrei registro de que haja a cópia em formato DVD para a comercialização e na internet, está disponível em no YouTube.

Resenha escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através de seu volume III, a partir da página 115.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Filme: Nowhere Boy (O Garoto de Liverpool) - Por Luiz Domingues

Eis aqui mais um filme a retratar a biografia de John Lennon e desta feita, a centrar as suas forças no período crítico de sua adolescência e início da juventude (entre 1955 a 1960), a envolver os seus múltiplos problemas familiares e o início de suas atividades musicais, incluso a semente primordial que gerou os Beatles.
 
O primeiro aspecto a ser realçado, é que não se trata do primeiro filme a enfocar esse ponto da biografia do Lennon (e dos Beatles por extensão), no entanto, surpreende pela abordagem que buscou a profundidade nos meandros que levaram John Lennon a desenvolver a sua personalidade e por conseguinte, como um elemento decisivo a moldar muito do trabalho futuro que os Beatles construiriam. Outro aspecto, tal aprofundamento na abordagem mostrou-se rico enquanto elemento para incrementar a história e consequentemente, a dramaturgia, portanto, o filme revela-se interessante por ter ganho tal substância dramática. 
Como expressão da verdade, no entanto, certamente que é preciso guardar muitas ressalvas, pois as inevitáveis licenças poéticas foram usadas para dar uma melhor fluidez cinematográfica, o que é uma fórmula do cinema e em via de regra, nenhuma cinebiografia (de qualquer personalidade, aliás, não apenas sobre astros da música), é 100 % fidedigna e nem mesmo comprometida com a necessidade de retratar a verdade, inteiramente. E nem sempre é por uma questão maledicente, mas simplesmente por conta do roteirista e/ou diretor (produtores e editores também influem), considerar que algumas modificações na narrativa são mais convenientes ao bom andamento do filme. Isso sem contar os vetos da parte de um escritor (e a maioria das cinebiografias ou “biopic” como falam os norte-americanos, são baseadas em livros biográficos), que publicou certas nuances, mas considera que determinados detalhes são irrelevantes para ser mencionadas em um filme que tende a condensar a obra, ou mesmo do próprio biografado (se ainda estiver vivo e a usufruir de sua plena faculdade mental, naturalmente) e/ou da parte dos seus familiares que desejam evitar certas revelações que possam denegrir o biografado.
Posto isso, este filme, além de realçar a questão da mãe de Lennon, Julia, também mergulhou fundo na relação dele, John Lennon, com os seus tios, responsáveis pela sua criação, como se fosse um filho deles e a sua reaproximação com a sua mãe de fato, na adolescência. 
 
Essa é a parte mais interessante desta dramaturgia, pois mostra aspectos que foram apenas mencionados levemente em outros filmes análogos ou nem mesmo citados. Por exemplo, a relação de Lennon com o seu tio, George Smith (interpretado por David Threlfall), que em outros filmes não é nem esboçada, pois este falecera com John ainda a possuir apenas quatorze anos de idade, nesta película tem um bom espaço, ao mostrar o quanto o tio George supriu parcialmente a figura paterna que o pai verdadeiro e ausente desde sempre, deixou de cumprir. 
Com a morte do tio, veio à tona a necessidade da sua tia, Mary Elizabeth “Mimi” Smith (interpretada pela boa atriz britânica, Kristin Scott Thomas), revelar a verdade sobre John não ter sido criado pelos pais, mas por ela e o seu marido. A licença poética fez com que essa conversa surgisse no cemitério, ainda a sofrer a perda do tio, para dar o devido efeito melodramático ao filme, ao configurar-se como um clichê, mas tudo bem, tal recurso piegas é suportável para o espectador.
Então, John Lennon (interpretado por Aaron Johnson), revolta-se com a história da rejeição. A sua mãe, Julia Lennon (interpretada por Anne-Marie Duff), alegara não ter condições de criar o filho, por ser muito jovem na ocasião e sobretudo pelo fato do pai da criança, Freddie Lennon (interpretado por Colin Tierney), não ter preocupado-se com o seu nascimento, em princípio. Quando John atingiu cerca de quatro anos de idade, houve uma súbita reaproximação de seu pai, mas este propôs levar o menino para morar consigo, na Nova Zelândia e obviamente que Julia recusou a ideia. Lennon, por sua vez, escolheu ficar com a mãe, mesmo a opinar com uma idade onde o discernimento fora inexistente de sua parte, é claro. Bem, daí em diante, Julia alegou não poder cuidar do menino e o deixou para ser criado pela sua irmã mais velha, Mimi e pelo cunhado, George.
Revoltado com essa constatação, Lennon deseja uma reaproximação com a mãe, Julia, e a procura. Ela vive com outro homem e tem duas filhas pequenas, meias-irmãs que Lennon mal sabia que possuía. É preciso abrir um parêntese aqui, para ressaltar que este filme baseou o seu roteiro em um livro escrito por Julia Baird (interpretada pela então atriz mirim, Angélica Jopling), que vem a ser uma das meias-irmãs de Lennon. Isso explica certamente a abordagem a dar a devida importância a uma narrativa que em outros filmes é obscurecida ou simplesmente ignorada, sobre a pessoa de Julia Lennon e ainda mais sobre as duas filhas que ela teve com outro homem e que são meias-irmãs de John.
E dentro dessa perspectiva diferente, é mostrado que Julia não criara John por falta de recursos, e que agora, melhor estabelecida, a viver com um homem e ter duas filhas, deseja restabelecer um convívio com ele. Em algum momento do filme, John chega a morar com Julia (e a sua segunda família), e dessa forma, uma parte interessante é abordada com maior atenção, ao tratar-se de uma importante nuance da sua biografia: foi Julia que o ensinou a tocar banjo, e que abriu o caminho, posteriormente para ele dominar o violão e partir para a guitarra. 
 
Tal detalhe é mencionado em todas as biografias publicadas e cinebiografias em paralelo a este filme, porém, sempre de uma forma apressada e às vezes até subliminar. Todavia, neste filme tal nuance é mostrada em várias cenas, inclusive em uma delas que chama a atenção ao acelerar a imagem de Julia e John a praticar aos instrumentos, para sugerir a passagem de alguns dias, quiçá, semanas ali sugeridas e demonstrar assim o quanto ele evoluiu rapidamente para tornar-se um músico. 
E sobre Julia em si, é interessante o enfoque a mostrar que ela possuía uma atitude libertária de certa forma, embora fique explícito que a pender para a um certo exagero histriônico, por ser jovem ainda e nesse ponto, porta-se muito mais como se fosse uma irmã mais velha, do que mãe de John. 
Na biografia oficial, insinua-se que esse tal espírito livre de Julia fora na verdade uma marca a apontar para uma outra faceta mais pesada, digamos, mas aqui, baseado no que a sua filha escreveu no livro, e  que deu origem ao filme (o livro de Julia Baird chama-se: “Imagine This: Grow up With My Brother, John Lennon”), ela foi retratada como alguém que gostava de aproveitar a vida livremente, sem precisar arcar com as responsabilidades da vida adulta. Tudo bem, não vou contestar a visão da irmã de Lennon sobre a sua própria mãe.
Situações protagonizadas pela conturbada vida escolar de John, são mostradas. Pequenas estripulias cometidas com os seus amigos bagunceiros; repreensão da parte dos professores e do diretor da escola, pelo fato de John manter consigo material pornográfico em meio ao seu material escolar etc. 
 
Mostra-se também a parte que mais importa aos fãs, que é o início primordial da formação do grupo: “The Quarrymen”, um rústico combo semiacústico a tentar reproduzir o Rock’n’ Roll norte-americano que os enlouquecia e mais a parecer-se com um grupo de “skiffle” (que foi um ritmo derivado do Rock, e mais rústico, muito praticado na Inglaterra, naquela época). 
Eis que um amigo de escola apresenta Paul McCartney à John, em meio a um ensaio do grupo que este pretendia montar. Lennon trata McCartney com bastante desconfiança e arrogância, inicialmente, mas rende-se à evidência que o garoto franzino e canhoto, tocava bem, aliás, bem melhor do que ele e também tinha um ótimo dote vocal. É bem verdade que a reprodução de uma passagem importante da biografia dos Beatles, quando essa banda preliminar apresentou-se pela primeira vez em uma feira de parque ao ar livre, em Liverpool, ficou perfeita, tendo em vista que não existe nenhuma filmagem, e apenas uma foto guardada dessa ocasião em que Lennon; McCartney e Harrison, na companhia de outros garotos não destacados, nem sonhavam em ser músicos profissionais, quanto mais famosos mundialmente. 
Mérito do filme, tal reprodução foi bastante caprichada, tendo em vista as parcas referências que a produção dispunha para poder compor a cena com tal fidedignidade.
 
Nesse ínterim, a Tia Mimi, que era austera e muito diferente de sua irmã, Julia, imbuída de sua autoridade moral por ter de fato criado o seu sobrinho, John, quis retomar as rédeas sobre a formação do rapaz e através de uma atitude dura, some com o violão do rapaz, para tentar sabotar a sua investida na música.
Uma cena bastante emblemática, porém claramente forçada para realçar a dramaticidade, mostra John embriagado a tentar entrar no "Cavern Club" e os seguranças da casa, não permitir isso. Bem, nem preciso explicar, eu creio, o que essa casa noturna localizada na cidade de Liverpool, representou para a carreira dos Beatles, não é? 
 
Emocionalmente transtornado, ele naturalmente ficara enlouquecido com a atitude de sua tia e sem recursos, procura a sua mãe, Julia, para pedir-lhe o dinheiro necessário para que ele pudesse resgatar o instrumento em uma loja de penhores. Ele resgata o violão e afronta a sua tia com bastante arrogância. Tia Mimi arrepende-se e compra uma guitarra de segunda mão para John, a seguir.
Mimi e Julia reconciliam-se e a vida esboçou ficar ótima para John, no âmbito familiar, mas uma tragédia aconteceu, quando Julia foi atropelada em uma rua de Liverpool. John ficou muito traumatizado com tal perda que para ele fora mais uma, entre outras tantas, na verdade. No velório de Julia, os amigos da banda vão prestar apoio, e John, muito revoltado, hostiliza-os, inclusive a agredir fisicamente, Paul McCartney (interpretado por Thomas Brodie-Sangster). Quando o filme foi lançado, McCartney declarou que isso nunca ocorreu na realidade, porém, considerou engraçado assistir um ator a interpretá-lo e ser socado. Mais uma licença poética forçada, mas ainda bem, Paul levou tal mentira no bom humor.
O então padrasto de John, entrega-lhe uma carta escrita por Julia, algo que eu não posso afirmar ter sido um fato verídico ou mais uma licença poética. The Quarrymen grava uma demo tape rudimentar e uma passagem de tempo já mostra John um pouco mais amadurecido e a comunicar que vai viajar para Hamburgo, na Alemanha, com a banda, agora a chamar-se: “The Beatles”, totalmente eletrificada, para cumprir uma temporada sob contrato. Ouve-se a canção, “Mother”, que Lennon lançaria em carreira solo em 1970, no background. Finito...
Filme bem produzido, tem essa qualidade de ter mostrado diversas nuances da adolescência de John, pouco ou jamais abordadas, tanto em filmes, quanto documentários. 
 
A parte musical é boa, igualmente. Existe no filme, o som do The Quarrymen, reproduzido por uma banda chamada: “Johnson and The Nowhere Boys”. 
 
A inclusão do áudio original da canção, “Mother”, foi importante para pontuar a intenção de se mostrar a relação de Lennon com a sua mãe (e esta canção diz tudo, literalmente). Tal cessão foi uma gentileza de Yoko Ono por tê-la liberado, visto que a questão dos direitos autorais/fonograma e edição, é sempre muito complicada. Penso que essa restrição é tão mesquinha que deveria ser abolida, ao menos em questões como essa, ou seja. ao alimentar o áudio de um filme que enaltece a personalidade do próprio artista. 
E outro mérito, na trilha sonora, a participação de grandes astros cinquentistas, revela-se sensacional. Elvis Presley, Chuck Berry, Gene Vincent, Eddie Cochran, Screamin’ Jay Hawkins, Big Mama Thornton, Bill Halley and His Comets, Jerry Lee Lewis, Buddy Holy, Little Richard, Fats Domino e tantos outros, enfim, uma seleção ao padrão de um “Dream Team”.
 
A atriz, Kristin Scott Thomas, teve um atuação muito boa ao interpretar a Tia Mimi. É um verniz a mais para qualificar o filme. Outros atores não citados anteriormente: Sam Bell (como George Harrison), Josh Botton (como Pete Shotton) e outros.
 
Citei o livro de Julia Baird, meia-irmã de John Lennon como inspiração básica para a composição deste filme, mas na prática isso não recebeu crédito oficial. Para todos os efeitos, teria sido uma livre criação de Matt Greenhalgh, através de seu roteiro. 
 
Foi dirigido por Sam-Taylor Wood, uma estreante na ocasião, mas que foi muito bem em sua primeira investida cinematográfica. Sam ficaria muito famosa anos depois, por dirigir o filme que transformou-se em um mega sucesso com teor erótico: “Fifty Shades of Grey” (“Cinquenta Tons de Cinza”).
O filme recebeu prêmios no âmbito britânico, fez um bom sucesso na bilheteria, passou com um certo alarde nos canais da TV a cabo e é benquisto entre os fãs dos Beatles e de John Lennon em específico. Está disponível em cópia DVD e para assistir-se na Internet, encontra-se disponível na íntegra, apenas no portal, Vimeo.
 
Esta resenha faz parte do livro "Luz, Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume II, a partir da página 310.