Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste meu primeiro Blog, reúno a minha produção geral e divulgo as minhas atividades musicais. Não escrevo apenas sobre música, é preciso salientar ao leitor, pois abordo diversos assuntos variados. Como músico, iniciei a minha carreira em 1976, e já toquei em diversas bandas. Atualmente, estou a trabalhar com Os Kurandeiros.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Teatro Lira Paulistana, As Paredes que Suavam... - Por Luiz Domingues
Para a atual geração, parece um conceito exótico sair de casa para comparecer a um teatro e prestigiar um artista desconhecido que executará músicas de sua própria autoria, por noventa minutos, ou mais. Como fruto do descaso generalizado, ao longo de anos a fio em torno da produção cultural, infelizmente formou-se uma geração desinteressada por artistas genuínos e passiva diante das manipulações maquiavélicas da parte dos "marketeiros" que trabalham nos bastidores da música mainstream. Por isso, é muito oportuno relembrarmos de um Teatro que manteve-se em plena atividade por quase sete anos, com as portas abertas para artistas desconhecidos; sem parentes importantes; sem dinheiro no bolso e muitos, vindos do interior, como dizia o velho Belchior.
Foi o Teatro Lira Paulistana, localizado no coração do bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Fundado em outubro de 1979, tornou-se rapidamente um espaço importantíssimo para a produção musical de novos talentos paulistas / paulistanos e também para diversos artistas de outras partes do Brasil, que ali enxergaram a chance para apresentar-se em São Paulo e tentar a sorte na carreira.
Tratava-se de um porão minúsculo, que foi adaptado criativamente como um micro pocket-Teatro, com três arquibancadas praticamente em cima do pequeno palco, além de espaços úteis otimizados para o funcionamento de uma pequena bomboniére e venda de discos e merchandising referentes aos artistas que ali apresentaram-se. Apesar das suas dimensões minúsculas, tudo foi ajeitado de uma forma harmônica, com bilheteria colocada ao final da escada de acesso; o camarim atrás da arquibancada da lateral esquerda, e a entrada em cena para os artistas, por aquele mesmo lado.
Com P.A.(sistema de som), e iluminação compatíveis e muito dignos, os artistas tiveram ao seu dispor, uma excelente infraestrutura adequada às dimensões, logicamente.
Wilson Souto Jr.; Riba de Castro; Fernando Alexandre, e Chico Pardal cuidavam do simpático espaço e desde o início, as suas portas abriram-se democraticamente a uma safra formada por novos artistas que culminou em formar um movimento, uma autêntica cena que ficou conhecida na imprensa especializada como : "Vanguarda Paulista".
O Teatro Lira Paulistana teve então, um papel preponderante como agente aglutinador, sem dúvida, mas houve também a explosão natural de artistas talentosos, tais como : Arrigo Barnabé; Itamar Assumpção; Premeditando o Breque; Grupo Rumo; Língua de Trapo; Grupo Um etc. Mais tarde, de 1982 em diante, o Rock brasileiro oitentista achou no Lira Paulistana, também um espaço maravilhoso para expandir-se.
Ira; Titãs; Ultraje a Rigor; Capital Inicial; Legião Urbana; Os Inocentes; Cólera, e Laura Finocchiaro, entre inúmeros outros artistas egressos da cena do Punk e Pós-Punk, começaram ali a sua trajetória de sucesso. Um pouco adiante, o pessoal do Hard-Rock e do Heavy-Metal, também descobriu no Lira Paulistana, o seu palco ideal e permanente. A Chave do Sol; Harppia; Dorsal Atlântica; Platina, e outras tantas, apresentaram-se ali com grande sucesso de público. Tornou-se muito comum as filas dobrarem a esquina da Rua Teodoro Sampaio com a Avenida Henrique Schaumann, ao observar-se a bilheteria esgotada, tamanho o sucesso dos artistas emergentes que ali apresentavam-se. Memorável portanto, esse momento cultural da cidade onde houve um público muito interessado em acompanhar artistas que, salvo as honrosas exceções, não foram exatamente famosos no mainstream (pelo menos nessa etapa da carreira, ao considerar-se que alguns emergiram a seguir).
Eu, Luiz Domingues, tenho também uma relação afetiva com essa memória. No palco do Lira Paulistana, toquei muitas vezes com duas bandas onde fui membro : Língua de Trapo e A Chave do Sol. Com o Língua de Trapo, apresentei-me por trinta e oito vezes, entre 1983 e 1984, durante a turnê : "Sem Indiretas". Foram alguns shows avulsos e duas temporadas de quarta a domingo, com sessão dupla aos domingos e até algumas sessões "malditas" de sábado.
Como tratou-se da minha segunda passagem pela banda (anteriormente eu havia sido membro da fundação da banda, de 1979 até 1981), logo que fui fazer o meu primeiro show ali, os membros mais antigos que já conheciam o Teatro, advertiram-me : -"você vai ver as paredes suar"... e de fato, quando o teatro lotava, as paredes pingavam, literalmente, por conta do vapor produzido pela ação da respiração coletiva. E com A Chave do Sol, apresentei-me por doze vezes, entre 1984 e 1985.
A Chave do Sol no Lira Paulistana em um show de 1985
Em meio a essas apresentações d'A Chave do Sol, trago na lembrança os shows de lançamento de dois discos dessa banda, respectivamente em 1984 e 1985. Com direito a intervenções teatralizadas com o apoio de atores convidados e texto hermético de autoria do poeta, Julio Revoredo, em ambas as ocasiões, fizemos apresentações performáticas que surpreendeu público e críticos.
Infelizmente, esse ciclo do Teatro Lira Paulistana encerrou-se quando o Sr. Janio Quadros assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo, em 1986, quando através de um de seus tresloucados atos, eis que o exótico alcaide mandou fechar o espaço, ao alegando falta de segurança para o público.
Não tratou-se de nada que não pudesse ser equacionado com bom senso, mas a intransigência foi grande do prefeito temperamental e com ideias bem ultrapassadas sobre gestão pública. Surgiu nas ruas da cidade, os ônibus vermelhos com dois andares, a imitar Londres sob um ato prosaico digno de um Jeca Tatu, e fechou-se o Lira Paulistana, baluarte do artista autoral e sem recursos. Em suma, a cidade de São Paulo perdeu duas vezes. Recentemente (2012), lançou-se um bom documentário para narrar a história e as lembranças pitorescas do velho Teatro Lira Paulistana.
Sem dúvida é uma oportunidade boa para conhecer a sua trajetória importantíssima para a cultura de São Paulo e do Brasil, e acima de tudo, reivindicar : precisamos de um novo (ou mais de um !), Lira Paulistana e dessa forma, poder abrir-se espaço para os artistas autorais sem recursos conseguir divulgar o seu trabalho, e principalmente, refazer o hábito do paulistano sair de casa, não para frequentar as famigeradas baladas hedonistas, onde a música é um mero pano de fundo para embalar as bebedeiras, mas para absorver arte protagonista, como nos velhos tempos. Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, republicada posteriormente no Blog Pedro da Veiga, e no Blog Combate Rock, do Portal do Jornal da Tarde de São Paulo, as três publicações, em 2012.
sábado, 18 de agosto de 2012
Filme: Mrs. Brown, You've Got a Lovely Daughter (Senhora Brown, A Senhora tem uma Bela Filha) - Por Luiz Domingues
O cantor, Cliff Richard, muito bem acompanhado do ótimo grupo, "The Shadows", já havia protagonizado alguns filmes, desde o final dos anos cinquenta (dois deles, "Expresso Bongo" e "The Young Ones", contém as suas respectivas resenhas neste blog), no ambiente do Rock britânico. Na metade dos anos sessenta, o super grupo, The Beatles, já havia lançado dois filmes igualmente, com grande sucesso. Foi quando o grupo, Herman's Hermits, também anunciou a sua participação em um filme longa metragem, a tratar-se de "Hold on", lançado em 1966, com relativo sucesso. Algum tempo depois, a banda aventurou-se em mais uma participação em um filme longa-metragem. Registre-se que o Herman's Hermits também participara de um filme norte-americano, chamado: "When the Boys Meet the Girls", em 1965, porém com participação mais modesta, apenas a tocar e cantar em uma pequena aparição.
A história que motivou o roteiro desse novo filme que tal grupo participou, foi na verdade baseado em uma canção de seu repertório, chamada: "Mrs. Brown, You've Got a Lovely Daughter". Tal canção com forte teor Pop, foi escrita por Trevor Peacock, anteriormente e foi regravada por vários artistas, porém, foi a versão gravada pela banda britânica, Herman's Hermits, que conferiu-lhe maior notoriedade.
O Herman's Hermits foi uma banda que notabilizou-se no mercado musical britânico dos anos sessenta, a trilhar o caminho do estilo dito: "bubblegum" (termo que designava bandas Pop, especializadas em canções simples, dotadas de um apelo comercial muito forte, graças principalmente aos refrães que "grudavam na cabeça, como chiclete", daí o sentido da designação em inglês).
Acostumados a lidar com esse público infantojuvenil, essa banda construiu a sua carreira nesse estilo.
Não foi uma banda ruim, em via de regra, mas se o Rock britânico dos anos sessenta fosse o futebol, eu diria que o Herman's Hermits pertenceu à terceira divisão, e apenas obteve remotas chances de um dia subir à segunda, sendo que na primeira, então, nem em sonhos, conseguiria chegar um dia.
Em 1968, a psicodelia lisérgica estava sob alta voga na Inglaterra, mas o grupo Herman's Hermits continuou no seu estilo, sem grandes mudanças, a não ser no visual, ao mudar o figurino de seus integrantes, no sentido de que passassem a usar peças ligeiramente mais coloridas e a observar os cabelos um pouco mais compridos, para cada membro da banda, individualmente, contudo, quanto à estética sonora propriamente dita, a banda permaneceu a centrar os seus esforços no estilo "Bubblegum" bem simples.
Dessa forma, ao adquirir fama e seguir os passos dos Beatles e Elvis Presley e do já citado, Cliff Richard & The Shadows, o grupo também expandiu a sua divulgação através do veículo cinematográfico, e sendo assim, a sua regravação da canção: "Mrs. Brown, You've Got a Lovely Daughter", tornou-se mote para a produção de um longa-metragem.
Bem, a ideia seria fazer com que a história fluísse com a banda a cantar muitas músicas de seu repertório, incluso a faixa título do filme, e logicamente seguir a linha dos filmes de Elvis Presley. Dessa forma, a fazer com que os componentes do grupo ao atuar como atores, passassem por situações a envolver ação, a enfrentar pequenos conflitos domésticos e naturalmente tocar & cantar as suas músicas, além é claro dos inevitáveis flertes com as garotas bonitas e possíveis conflitos beligerantes com rapazes a interpretar vilões mal-intencionados & afins.
O problema foi que a história não ajudou muito, visto que o seu mote foi montado em torno de uma premissa bastante ingênua. Então, sem uma melhor substância, nota-se que houve um esforço generalizado a envolver o diretor, os componentes da banda e a produção em geral, a dar o seu máximo, no entanto, a história é bem fraca e por conta disso, este filme não é notável, embora tenha sido produzido em uma época de ouro da história do Rock inglês.
O filme seguiu o mote proposto pela letra da canção, a traçar uma história singela, onde o quinteto britânico vê-se às voltas com uma cadela da raça Greyhound (esse animal é considerado na história, como uma outra "filha" da senhora Brown, daí a ter essa brincadeira dúbia no título do filme). Os rapazes resolvem inseri-la no mundo das corridas de cães, que aliás, são super populares na Inglaterra. No entanto, a senhora Brown não colabora financeiramente com a ideia e os rapazes passam a economizar os cachets dos shows que realizam, para bancar essa ida da cadela às corridas de cães.
Uma artimanha prosaica é utilizada para "incentivar" o animal em questão, para que ela possa render mais nas corridas, e nesse aspecto, nem em filmes de bichinhos da Disney, um roteirista pensaria em algo tão tolo, infelizmente. Não revelarei do que se trata, pois quero que o leitor assista o filme para saber e chegar à sua conclusão sobre a artimanha em questão. E quando o fizer, lembre-se que eu avisei que foi uma ideia bastante prosaica.
Os componentes do Herman's Hermits (Peter Noone, Keith Hopwood, Derek Leckenby, Karl Green e Barry Whitwam) usam os seus nomes verdadeiros, com exceção do vocalista, Peter Noone, interpreta: "Herman Tulley", ou seja, o nome do personagem mostra-se como um trocadilho engraçado, a envolver o próprio nome da banda. Quanto aos demais membros da banda, eles usam poortanto, os seus primeiros nomes, sem um sobrenome, nem fictício, tampouco o real de cada um. Dessa forma, o guitarrista, Keith Hopwood interpreta: Keith, o guitarrista, Dereck Leckeny é Derek, o baixista, Karl Green, interpreta, Karl e o baterista, Barry Whitwam, é simplesmente, Barry.
Para levar tal cadela para a corrida de cães, os rapazes enfrentam confusões no percurso entre as cidades de Manchester e Londres. Isso vale dizer que se defrontam com vilões malvados, engatam romance com belas garotas e claro, tocam e cantam.
A corrida finalmente acontece e nesse ínterim, Herman Tulley (quem mais senão o vocalista, Peter Noone, a fazer as vezes do galã mais improvável?), apaixona-se pela bela, Judy Brown (interpretada por Sarah Caldwell), a filha de fato da senhora Brown, ou seja, a confirmar a brincadeira dúbia e tola a dar nome ao filme, sobre a filha de fato, ou uma cadela no sentido figurado da maternidade afetiva por um animal. E isso tudo, apesar de que outra garota amava-o (Herman Tulley), a tratar-se de Tulip (interpretada por Sheila White). Para resumir, a história chega a um final feliz, inclusive para a cadela. Em suma, é ingênuo em demasia, não há segunda intenção mais aprofundada, nem mesmo por acidente de percurso, portanto a revelar-se rasa como história, mesmo.
Bem, a parte musical é o melhor do filme, sem dúvida, ao lado da beleza das garotas que assediam os membros do Herman's Hermits, incluso as personagens de Tulip e Judy. São nove canções executadas ao longo do filme, incluso a clássica: "There's a Kind of Hush", provavelmente o maior sucesso da carreira dessa banda e inegavelmente, uma bela canção. Ouve-se outras músicas tais como: "It's Nice to Be Out in the Morning", "The World is for the Young", "Holliday Inn", "Daisy Day Part 1", "Daisy Day Part 2", "ooh She's is Done it Again", "Lemon and Lime" e "The Most Beautiful Thing in my Life".
A filha bonita da senhora Brown, desta vez a humana em questão (a senhora, é interpretada por Mona Washburn), é Judy Brown (Sarah Caldwell), ou seja, obviamente a beldade da película e não por acaso, nessa época, essa atriz era casada com o roteirista desse filme, Thaddeus Vane..
Trata-se de um filme leve, onde o meu conselho é assistir sem criar-se nenhuma expectativa em relação a nada. Portanto, esqueça que não é um super filme; não leve em consideração que o Herman's Hermits não foi uma grande banda do primeiro escalão do Rock sessentista britânico e assim, de forma descompromissada, o filme passa tranquilo, como diversão.
Claro, mesmo com essas ressalvas, as canções são boas na exata proporção da simplicidade do Heramn's Hermits, é evidente, contém imagens preciosas da cidade de Manchester, Inglaterra, nos anos sessenta, além da boa fotografia gerada e se você for um fã de corridas de cães, terá um elemento extra para interessar-se.
Outros atoresque participaram do filme, são: Stanley Holloway (como GG Brown, o marido da senhora Brown), Marjorie rhodes (como "Grandma" Gloaria, a avó de Herman Tulley), Lance Percival (como Percy, o vagabundo), Drewey Henley (como Clive), Avis Munage (como a mãe de Tulip), John Sharp (como Oakshot), Tom Kempinsky (como Hobart), Nat Jackley (como o cantor do Pub), Billy Milton (como o proprietário da terra), Dermot Kelley (como um malfeitor), Hugh Futcher (como Swothard), Joan Hickson (como a proprietária da terra), Lynda Baron (como a senhorita Fisher), Annete Crosbie (uma empregada doméstica) e Rita Webb (uma mulher sem nome, que aparece no pub).
Nas salas de cinema, o desempenho desse filme foi apenas razoável, certamente auferido apenas a levar-se em conta o apelo da banda, do que baseado em um suposto atrativo que essa história tão fraca pudesse angariar a atenção das pessoas para comprar-se bilhetes.
A crítica foi bastante dura, e neste caso, acho que cruelmente típica a parte, não haveria meio para que esse filme despertasse algum elogio sob o ponto de vista cinematográfico. Eis uma opinião que transcrevo, para o leitor ter ideia do teor com a qual essa obra foi analisada à época: -"Neste filme, temos cinco eremitas bonitinhos a correr como macacos pela Inglaterra, a lidar com uma cadela em meio a corrida de cachorros e a tocar as suas músicas abissais"
Rapidamente o filme entrou no circuito de TV e ao longo dos anos, teve muitas reprises. Nos anos noventa, eu cheguei a vê-lo em mostras temáticas sobre o cinema britânico, em canais de TV a cabo, mas já havia assistido na TV aberta, muitos anos antes, durante o decorrer da década de setenta.
Escrito por Thaddeus Vane e baseado na canção gravada pelo grupo Herman's Hermits, mas cuja autoria, é na verdade de um compositor chamado, Trevor Peacock. Produção de Allen Klein (isso mesmo, o temido empresário norte-americano que tratava os seus negócios com mão de ferro e foi o último e controverso empresário dos Beatles, bem no tempo da dissolução dessa banda, por volta de 1969/1970). Direção de Saul Swinmer. Foi lançado em janeiro de 1968.
Na parte da trilha sonora, o crédito foi distribuído para três produtores musicais: Mickie Most, Ron Goodwin e John Paul Jones, ele mesmo, o baixista e tecladista do Led Zeppelin. É notório que além de tocar inúmeros outros instrumentos além dos que eu anunciei e que seriam os seus principais, John Paul Jones sempre foi arranjador e músico tarimbado de estúdio, onde realizou inúmeros trabalhos como músico, arranjador e produtor.
O filme foi lançado em versão VHS, DVD e também em formato Blu-ray. Na internet, nos dias presentes de 2012, é encontrado em fragmentos no YouTube. Todavia, no portal: UK.RU, a sua cópia é encontrada gratuita, na íntegra.
Resenha escrita para a Rádio/Blog do Juma, em 2012. Posteriormente, esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: Luz; Câmera & Rock'n' Roll" e é encontrada para a leitura em seu volume I, a partir da página 338.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Filme: The Buddy Holly Story (A História de Buddy Holly) - Por Luiz Domingues
Nesses termos, o filme em questão segue mais ou menos, a biografia do artista, ao não exagerar com alterações em nome da inteligibilidade cinematográfica, com as devidas 9ou melhor, indevidas), licenças poéticas, embora algumas cenas tenham gerado controvérsia entre os fãs desse grande artista.
Sobre o cinebiografado em questão, Charles Hardin Holley nasceu em 1936, na cidade de Lubbock, Texas. Logo foi apelidado como: "Buddy", e o "Holly", que adotou posteriormente como nome artístico, fazia trocadilho com seu sobrenome verdadeiro. A sua família era formada por músicos e dessa forma, desde pequeno recebeu aulas de violino, piano e violão.
Quando adolescente, Buddy (no filme, interpretado por Gary Busey), formou uma banda denominada: "The Crickets", com dos amigos, o baterista, Jesse Charles (interpretado por Don Straud) e o baixista Ray Bob Simmons (interpretado por Charles Martin Smith).
A sua primeira grande chance para ascender na carreira, ocorreu em uma noite em que conseguiu abrir um show de Bill Haley and His Comets, onde despertou a atenção de um produtor. No entanto, em Nashville, Buddy teve problemas com a perspectiva da rigidez espartana com a qual os artistas eram tratados em estúdio nessa época, pois a interferência era total no conteúdo artístico e eu até aproveito, na condição de músico, para esclarecer ao leitor que nada é mais frustrante para um artista do que um produtor a impingir modificações, até radicais ma sua obra, na hora em que grava-se um disco.
Então, ele conhece um diretor mais flexível (nem tanto assim, mas pelo menos mais razoável que o anterior), na persona de Ross Turner (interpretado por Conrad Janis), e que ajudou bastante para abrir-lhe as portas para a indústria fonográfica e consequente estouro na mídia mainstream, ao torná-lo um astro sob alcance nacional no âmbito dos Estados Unidos da América, e a seguir, rapidamente, em escala mundial.
O fato de ter tido uma formação musical mais rica sob o ponto de vista teórico e tocar vários instrumentos, deu-lhe um destaque em relação aos outros astros cinquentistas, pois a sua música mostrava-se mais rica, harmonicamente, em relação aos seus pares.
Dotado de um grande e criativo senso rítmico, Buddy tocava guitarra a utilizar uma base harmônica diferenciada e isso logicamente chamava a atenção, sem contar no quesito das letras que escrevia, campo onde muitas vezes surpreendeu a crítica e público ao fugir do trivial dos artistas contemporâneos seus.
Nos bastidores, Buddy fica encantado com a secretária pessoal do produtor, Ross Turner. Essa moça chama-se Maria Elena Santiago (interpretada por Maria Richwine). Apesar de uma relutância inicial por conta da resistência familiar, o casal é formado enfim, com o laço matrimonial.
Fato real, Buddy e a sua ótima banda, The Cricketts, é escalada para tocar ao vivo em um festival com vários artistas, no famoso Teatro Apollo, localizado no bairro do Harlem, em Nova York. é um grande momento do filme, e foi um fato marcante na vida de Buddy.
Ocorre que ali era essencialmente um reduto para artistas negros, a expressar várias vertentes musicais oriundas do Blues, a registrar-se o R'n'B, Soul Music, o Jazz e mesmo o Rock'n' Roll ainda tão recente: pois no contexto da América do Norte dessa época, ainda com graves problemas raciais, causou espécie inicialmente nos bastidores, que os quatro músicos fossem garotos brancos texanos.
O contratante sentiu-se lesado por ter contratado os artistas a achar que seria um grupo formado por rapazes negros. Em meio a tal situação irremediável, os rapazes entram em cena, com todos a temer por uma reação hostil da parte da plateia. Mas Buddy e os Cricketts arrebatam a plateia com seus Rocks, e certamente que foi uma das primeiras (senão a primeira), ocasião em que um artista branco foi bem aceito por uma plateia negra, a tocar Rock'n' Roll, visto que a perspectiva inversa já havia sido vencida, com o público branco a admirar os artistas negros.
No filme, no entanto, essa questão ficou dúbia a gerar reclamações da parte dos admiradores de Buddy, pois não retratou a verdade inteiramente. Em termos sócio/filosóficos e de uma forma subliminar, o Rock'n' Roll agiu como um grande conciliador na cisma racial, desde o começo de seu aparecimento, essa uma verdade histórica.
Um momento ruim e inesperado, advém, justamente quando Buddy ascendia vertiginosamente na carreira, pois os seus companheiros anunciaram estar insatisfeitos com toda a ênfase da mídia concentrar-se na figura de Buddy e eles assim sentiram-se diminuídos. Irredutíveis, Jesse e Ray Bob decidiram voltar para o Texas e negociam com Buddy para que ele deixe que eles continuem a usar o nome, "The Cricketts", o que curiosamente foi uma decisão de vida que garantiu-lhes o direito à continuidade artística, de acordo coma tragédia que sobreveio a seguir. Eis que Buddy seguiu com outros músicos a dar-lhe apoio em muitos shows marcados em meio a extensas turnês, que seguiram.
No entanto, eis que infelizmente ocorreu aquela fatídica noite, logo após um show realizado em Clear Lake, Iowa, quando sob intensa nevasca, a produção despachou os músicos de apoio e técnicos para viajar mediante o uso de um ônibus e na intenção de poupar os astros da turnê em conjunto (a registrar-se: Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper), estes seguiram com avião para a localidade onde haveria o próximo show da turnê, Moorhead, Minnesota, mas o pior aconteceu, com o acidente aéreo a ocorrer e ceifar muito precocemente a vida de três artistas, e neste caso do filme em questão, com a ênfase para Buddy Holly, naturalmente.
O final do filme talvez tenha sido uma licença poética, pois eu não tenho a confirmação da sua veracidade. Ocorreu que os membros dos Crickets procuram Maria, a esposa de Buddy que estava grávida, inclusive, e combinam com ela que fariam uma surpresa para Buddy, ao aparecer sem avisar no show a ser realizado na cidade de Moorhead, mas infelizmente esse show a ser realizado. Como cena melodramática, creio que tenha a sua validade, isso eu entendo, mas fica dúbio se realmente os membros dos Crickets em pessoa, estiveram envolvidos nesse episódio.
Buddy poderia ter tido uma longa carreira, com muito mais a acrescentar, se o avião que o transportava (no mesmo voo, estavam igualmente os astros cinquentistas : Ritchie Valens e Big Bopper, pois os três excursionavam juntos), não tivesse a infelicidade de nunca ter pousado em segurança em seu destino final, naquela madrugada de 3 de fevereiro de 1959. Tal acontecimento ficou tão marcante que passou a ser conhecido como "o dia em que o Rock morreu".
Apesar de seu desaparecimento precoce, Buddy influenciou inúmeros artistas ao redor do mundo e suas canções eternizaram-se. No ano de 1978, finalmente o cinema tomou uma iniciativa e produziu uma cinebiografia desse grande artista, denominada simplesmente: "The Buddy Holly Story". Tal grande astro cinquentista, imprimiu a sua marca indelével na história do Rock, ao influenciar explicitamente bandas sessentistas que surgiram bem depois de sua partida precoce, casos de "The Beatles" e "The Rolling Stones", por exemplo (Paul McCartney e Mick Jagger são fãs ardorosos de Buddy Holly).
Aliás, o nome, "The Beatles", que é um trocadilho com "Beetle"(besouro), é uma homenagem à banda de Holly, "The Crickets" ("Os Grilos"), e quanto aos Rolling Stones, um de seus primeiros sucessos dessa mega banda, foi: "Not Fade Away", música de autoria de Buddy Holly, que aliás, a banda costuma tocar até hoje (2012), em seus shows.
O filme, no entanto, gerou polêmica. Algumas licenças poéticas irritaram os fãs de Buddy Holly. Como por exemplo na sequência onde por um mal-entendido, ele fora apresentar-se no histórico Teatro Apollo, um verdadeiro templo da música negra norte-americana. No filme, Buddy aparece sendo hostilizado pela plateia predominantemente negra, mas na vida real, foi o contrário, pois apesar da estranheza em ver um artista branco a apresentar-se, a plateia o ovacionou, depois que deu-lhe a chance para mostrar o seu valor, com uma performance de extrema qualidade e energia.
Exatamente por tais lapsos da produção do filme, Paul McCartney indignou-se e bancou em contrapartida, a produção de um documentário denominado: "The Real Buddy Holly Story", lançado em 1985, com depoimentos dos membros dos Crickets e muitas pessoas que conheceram e conviveram com Buddy em seu cotidiano.
Por outro lado, o filme agradou pessoas não exigentes com a veracidade dos fatos, ao revelar a música maravilhosa desse grande astro do Rock dos anos cinquenta. Muitas canções marcantes da carreira de Buddy Holly, foram executadas no filme, aliás, as performances ao vivo são mesmo executadas pelos atores e os mais preciosistas não apreciaram essa opção do diretor.
De fato, não é um primor musical, mas como efeito dramático, passa tranquilamente. Claro que os Crickets verdadeiros, tocavam muito melhor, e a despeito desse fato inexorável, particularmente eu acho isso irrelevante para o desenvolvimento do filme. Músicas como "Peggy Sue", "Whole Lotta Shakin Goin' on", "Not Fade Away", "Well All Right", "Rave on", "Oh Boy", "Listen to me", "That'll be the Day", "It's so Easy" "Everyday", entre outras, estão no filme, para o deleite dos fãs de Buddy (incluo-me neste rol, com certeza).
Outros atores que participaram do filme: William Jordan (como Riley), Amy Johnson (como Cindy Lou), Dick O'Neill (como Sol Glitter), Fred Travalena (como Mancuso), Neva Paterson (como a senhora Holly, mãe de Buddy), Arch Johnson (como o senhor Holly, pai de Buddy), John Goff (como TJ), Gloria Irizarry (como a senhora Santiago, a sogra de Buddy), Jody Berry (como Sam), Richard Kennedy (como um pregador protestante), Jim Beach 9como Eddie Foster), Paul Mooney (como Sam Cooke), Freeman King (como o apresentador do Teatro Appolo), Barba Stumie (como Luther), Craig White (como King Curtis) e Jerry Zaremba (como Eddie Cohcran) este, também músico, contribuiu bastante na gravação da trilha sonora, entre outros.
A reação do público nas salas de cinema, foi muito boa, a ofertar uma bilheteria significativa. O filme alcançou o circuito de TV, ainda ao final dos anos setenta e teve inúmeras reprises. Lembro-me de tê-lo assistido pela primeira vez em exibição televisiva sob horário nobre, visto que o filme não teve restrições com horário, por não conter cenas impróprias para menores.
A crítica à época, realçou o fato de que o filme alcançou um resultado positivo em face do seu baixo orçamento e que certamente teve como grande mérito a atuação do ator, Gary Busey. Digno de nota, esse ator, além de realmente ter entregado-se ao papel de uma forma impressionante, fez um esforço pessoal muito grande para poder atuar, ao emagrecer muito, pois Buddy era muito magro, quase esquelético na verdade, e Gary, pelo contrário, a mostrar-se robusto.
Sobre a trilha sonora, a sua notória excelência rendeu-lhe o Oscar da categoria. Gary Busey foi nomeado, mas não levou a estatueta como melhor ator, no entanto, a nomeação foi o reconhecimento da sua ótima atuação, não tenho dúvida. Houve também a nomeação para melhor ator, no entanto, a nomeação foi o reconhecimento da sua ótima atuação, não tenho dúvida. Houve também a nomeação para melhor som, igualmente não vencido. Sobre o álbum com a trilha sonora, além desse repertório maravilhoso de Buddy Holly, ouve-se também o som de Sam Cooke, The Platters, Big Bopper etc.
Baseado no livro biográfico, "Buddy Holly: His Life and Music", escrito por John Goldrosen. Roteiro por Alan Swyer e Robert Glitter. Direção de Steve Rash. Foi lançado em maio de 1978.
Tal obra recebeu a sua versão em VHS, bem rapidamente. No formato em DVD, o seu lançamento foi em 1999. Algum tempo depois, saiu no mercado um kit a conter este filme e também o filme "La Bamba", ou seja, uma estratégia de marketing para vender os dois filmes em um mesmo pacote, justificado pelo fato desses dois artistas (Buddy Holly e Ritchie Valens), terem perecido no mesmo acidente aéreo, portanto, tais filmes tem em seu final, um desfecho em comum. Pelo aspecto ético, não creio ter sido uma boa ideia, no entanto, a revelar um oportunismo indevido pela sua morbidez implícita.
Na internet, o filme é facilmente encontrado no YouTube, nos dias atuais de 2012.
Resenha publicada inicialmente na Rádio / Blog do Juma, em 2012. Esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll. Encontra-se disponível para leitura em seu volume I, a partir da página 331.
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