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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Filme: The Buddy Holly Story (A História de Buddy Holly) - Por Luiz Domingues

Cinebiografias de artistas, são sempre esperadas com ansiedade, seja lá qual for o seu ramo de expressão artística. No campo da música, são muitas as já lançadas e mais especificamente no mundo do Rock, igualmente isso já ocorreu em profusão. Neste caso, este filme trata da biografia de um dos artistas mais sensacionais do Rock'n' Roll, na década de cinquenta, a tratar-se de Buddy Holly. Tal filme foi roteirizado através da inspiração em um livro biográfico desse grande artista, chamado, "Buddy Holly: His Life and Music", escrito por John Goldrosen.

Nesses termos, o filme em questão segue mais ou menos, a biografia do artista, ao não exagerar com alterações em nome da inteligibilidade cinematográfica, com as devidas 9ou melhor, indevidas), licenças poéticas, embora algumas cenas tenham gerado controvérsia entre os fãs desse grande artista.
Sobre o cinebiografado em questão, Charles Hardin Holley nasceu em 1936, na cidade de Lubbock, Texas. Logo foi apelidado como: "Buddy", e o "Holly", que adotou posteriormente como nome artístico, fazia trocadilho com seu sobrenome verdadeiro. A sua família era formada por músicos e dessa forma, desde pequeno recebeu aulas de violino, piano e violão.
Quando adolescente, Buddy (no filme, interpretado por Gary Busey), formou uma banda denominada: "The Crickets", com dos amigos, o baterista, Jesse Charles (interpretado por Don Straud) e o baixista Ray Bob Simmons (interpretado por Charles Martin Smith).

A sua primeira grande chance para ascender na carreira, ocorreu em uma noite em que conseguiu abrir um show de Bill Haley and His Comets, onde despertou a atenção de um produtor. No entanto, em Nashville, Buddy teve problemas com a perspectiva da rigidez espartana com a qual os artistas eram tratados em estúdio nessa época, pois a interferência era total no conteúdo artístico e eu até aproveito, na condição de músico, para esclarecer ao leitor que nada é mais frustrante para um artista do que um produtor a impingir modificações, até radicais ma sua obra, na hora em que grava-se um disco.
Então, ele conhece um diretor mais flexível (nem tanto assim, mas pelo menos mais razoável que o anterior), na persona de Ross Turner (interpretado por Conrad Janis), e que ajudou bastante para abrir-lhe as portas para a indústria fonográfica e consequente estouro na mídia mainstream, ao torná-lo um astro sob alcance nacional no âmbito dos Estados Unidos da América, e a seguir, rapidamente, em escala mundial.

O fato de ter tido uma formação musical mais rica sob o ponto de vista teórico e tocar vários instrumentos, deu-lhe um destaque em relação aos outros astros cinquentistas, pois a sua música mostrava-se mais rica, harmonicamente, em relação aos seus pares.
Dotado de um grande e criativo senso rítmico, Buddy tocava guitarra a utilizar uma base harmônica diferenciada e isso logicamente chamava a atenção, sem contar no quesito das letras que escrevia, campo onde muitas vezes surpreendeu a crítica e público ao fugir do trivial dos artistas contemporâneos seus.

Nos bastidores, Buddy fica encantado com a secretária pessoal do produtor, Ross Turner. Essa moça chama-se Maria Elena Santiago (interpretada por Maria Richwine). Apesar de uma relutância inicial por conta da resistência familiar, o casal é formado enfim, com o laço matrimonial.

Fato real, Buddy e a sua ótima banda, The Cricketts, é escalada para tocar ao vivo em um festival com vários artistas, no famoso Teatro Apollo, localizado no bairro do Harlem, em Nova York. é um grande momento do filme, e foi um fato marcante na vida de Buddy.
Ocorre que ali era essencialmente um reduto para artistas negros, a expressar várias vertentes musicais oriundas do Blues, a registrar-se o R'n'B, Soul Music, o Jazz e mesmo o Rock'n' Roll ainda tão recente: pois no contexto da América  do Norte dessa época, ainda com graves problemas raciais, causou espécie inicialmente nos bastidores, que os quatro músicos fossem garotos brancos texanos.

O contratante sentiu-se lesado por ter contratado os artistas a achar que seria um grupo formado por rapazes negros. Em meio a tal situação irremediável, os rapazes entram em cena, com todos a temer por uma reação hostil da parte da plateia. Mas Buddy e os Cricketts arrebatam a plateia com seus Rocks, e certamente que foi uma das primeiras (senão a primeira), ocasião em que um artista branco foi bem aceito por uma plateia negra, a tocar Rock'n' Roll, visto que a perspectiva inversa já havia sido vencida, com o público branco a admirar os artistas negros.
No filme, no entanto, essa questão ficou dúbia a gerar reclamações da parte dos admiradores de Buddy, pois não retratou a verdade inteiramente. Em termos sócio/filosóficos e de uma forma subliminar, o Rock'n' Roll agiu como um grande conciliador na cisma racial, desde o começo de seu aparecimento, essa uma verdade histórica.

Um momento ruim e inesperado, advém, justamente quando Buddy ascendia vertiginosamente na carreira, pois os seus companheiros anunciaram estar insatisfeitos com toda a ênfase da mídia concentrar-se na figura de Buddy e eles assim sentiram-se diminuídos. Irredutíveis, Jesse e Ray Bob decidiram voltar para o Texas e negociam com Buddy para que ele deixe que eles continuem a usar o nome, "The Cricketts", o que curiosamente foi uma decisão de vida que garantiu-lhes o direito à continuidade artística, de acordo coma tragédia que sobreveio a seguir. Eis que Buddy seguiu com outros músicos a dar-lhe apoio em muitos shows marcados em meio a extensas turnês, que seguiram.
No entanto, eis que infelizmente ocorreu aquela fatídica noite, logo após um show realizado em Clear Lake, Iowa, quando sob intensa nevasca, a produção despachou os músicos de apoio e técnicos para viajar mediante o uso de um ônibus e na intenção de poupar os astros da turnê em conjunto (a registrar-se: Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper), estes seguiram com avião para a localidade  onde haveria o próximo show da turnê, Moorhead, Minnesota, mas o pior aconteceu, com o acidente aéreo a ocorrer e ceifar muito precocemente a vida de três artistas, e neste caso do filme em questão, com a ênfase para Buddy Holly, naturalmente.

O final do filme talvez tenha sido uma licença poética, pois eu não tenho a confirmação da sua veracidade. Ocorreu que os membros dos Crickets procuram Maria, a esposa de Buddy que estava grávida, inclusive, e combinam com ela que fariam uma surpresa para Buddy, ao aparecer sem avisar no show a ser realizado na cidade de Moorhead, mas infelizmente esse show a ser realizado. Como cena melodramática, creio que tenha a sua validade, isso eu entendo, mas fica dúbio se realmente os membros dos Crickets em pessoa, estiveram envolvidos nesse episódio.
Buddy poderia ter tido uma longa carreira, com muito mais a acrescentar, se o avião que o transportava (no mesmo voo, estavam igualmente os astros cinquentistas : Ritchie Valens e Big Bopper, pois os três excursionavam juntos), não tivesse a infelicidade de nunca ter pousado em segurança em seu destino final, naquela madrugada de 3 de fevereiro de 1959. Tal acontecimento ficou tão marcante que passou a ser conhecido como "o dia em que o Rock morreu".
Apesar de seu desaparecimento precoce, Buddy influenciou inúmeros artistas ao redor do mundo e suas canções eternizaram-se. No ano de 1978, finalmente o cinema tomou uma iniciativa e produziu uma cinebiografia desse grande artista, denominada simplesmente: "The Buddy Holly Story". Tal grande astro cinquentista, imprimiu a sua marca indelével na história do Rock, ao influenciar explicitamente bandas sessentistas que surgiram bem depois de sua partida precoce, casos de "The Beatles" e "The Rolling Stones", por exemplo (Paul McCartney e Mick Jagger são fãs ardorosos de Buddy Holly).
Aliás, o nome, "The Beatles", que é um trocadilho com "Beetle"(besouro), é uma homenagem à banda de Holly, "The Crickets" ("Os Grilos"), e quanto aos Rolling Stones, um de seus primeiros sucessos dessa mega banda, foi: "Not Fade Away", música de autoria de Buddy Holly, que aliás, a banda costuma tocar até hoje (2012), em seus shows.
O filme, no entanto, gerou polêmica. Algumas licenças poéticas irritaram os fãs de Buddy Holly. Como por exemplo na sequência onde por um mal-entendido, ele fora apresentar-se no histórico Teatro Apollo, um verdadeiro templo da música negra norte-americana. No filme, Buddy aparece sendo hostilizado pela plateia predominantemente negra, mas na vida real, foi o contrário, pois apesar da estranheza em ver um artista branco a apresentar-se, a plateia o ovacionou, depois que deu-lhe a chance para mostrar o seu valor, com uma performance de extrema qualidade e energia.  

Exatamente por tais lapsos da produção do filme, Paul McCartney indignou-se e bancou em contrapartida, a produção de um documentário denominado: "The Real Buddy Holly Story", lançado em 1985, com depoimentos dos membros dos Crickets e muitas pessoas que conheceram e conviveram com Buddy em seu cotidiano.
Por outro lado, o filme agradou pessoas não exigentes com a veracidade dos fatos, ao revelar a música maravilhosa desse grande astro do Rock dos anos cinquenta. Muitas canções marcantes da carreira de Buddy Holly, foram executadas no filme, aliás, as performances ao vivo são mesmo executadas pelos atores e os mais preciosistas não apreciaram essa opção do diretor.

De fato, não é um primor musical, mas como efeito dramático, passa tranquilamente. Claro que os Crickets verdadeiros, tocavam muito melhor, e a despeito desse fato inexorável, particularmente eu acho isso irrelevante para o desenvolvimento do filme. Músicas como  "Peggy Sue", "Whole Lotta Shakin Goin' on", "Not Fade Away", "Well All Right", "Rave on", "Oh Boy", "Listen to me", "That'll be the Day", "It's so Easy" "Everyday", entre outras, estão no filme, para o deleite dos fãs de Buddy (incluo-me neste rol, com certeza).

Outros atores que participaram do filme: William Jordan (como Riley), Amy Johnson (como Cindy Lou), Dick O'Neill (como Sol Glitter), Fred Travalena (como Mancuso), Neva Paterson (como a senhora Holly, mãe de Buddy), Arch Johnson (como o senhor Holly, pai de Buddy), John Goff (como TJ), Gloria Irizarry (como a senhora Santiago, a sogra de Buddy), Jody Berry (como Sam), Richard Kennedy (como um pregador protestante), Jim Beach 9como Eddie Foster), Paul Mooney (como Sam Cooke), Freeman King (como o apresentador do Teatro Appolo), Barba Stumie (como Luther), Craig White (como King Curtis) e Jerry Zaremba (como Eddie Cohcran) este, também músico, contribuiu bastante na gravação da trilha sonora, entre outros.
A reação do público nas salas de cinema, foi muito boa, a ofertar uma bilheteria significativa. O filme alcançou o circuito de TV, ainda ao final dos anos setenta  e teve inúmeras reprises. Lembro-me de tê-lo assistido pela primeira vez em exibição televisiva sob horário nobre, visto que o filme não teve restrições com horário, por não conter cenas impróprias para menores. 

A crítica à época, realçou o fato de que o filme alcançou um resultado positivo em face do seu baixo orçamento e que certamente teve como grande mérito a atuação do ator, Gary Busey. Digno de nota, esse ator, além de realmente ter entregado-se ao papel de uma forma impressionante, fez um esforço pessoal muito grande para poder atuar, ao emagrecer muito, pois Buddy era muito magro, quase esquelético na verdade, e Gary, pelo contrário, a mostrar-se robusto.

Sobre a trilha sonora, a sua notória excelência rendeu-lhe o Oscar da categoria. Gary Busey foi nomeado, mas não levou a estatueta como melhor ator, no entanto, a nomeação foi o reconhecimento da sua ótima atuação, não tenho dúvida. Houve também a nomeação para melhor ator, no entanto, a nomeação foi o reconhecimento da sua ótima atuação, não tenho dúvida. Houve também a nomeação para melhor som, igualmente não vencido. Sobre o álbum com a trilha sonora, além desse repertório maravilhoso de Buddy Holly, ouve-se também o som de Sam Cooke, The Platters, Big Bopper etc.
Baseado no livro biográfico, "Buddy Holly: His Life and Music", escrito por John Goldrosen. Roteiro por Alan Swyer e Robert Glitter. Direção de Steve Rash. Foi lançado em maio de 1978.

Tal obra recebeu a sua versão em VHS, bem rapidamente. No formato em DVD, o seu lançamento foi em 1999. Algum tempo depois, saiu no mercado um kit a conter este filme e também o filme "La Bamba", ou seja, uma estratégia de marketing para vender os dois filmes em um mesmo pacote, justificado pelo fato desses dois artistas (Buddy Holly e Ritchie Valens), terem perecido no mesmo acidente aéreo, portanto, tais filmes tem em seu final, um desfecho em comum. Pelo aspecto ético, não creio ter sido uma boa ideia, no entanto, a revelar um oportunismo indevido pela sua morbidez implícita.
Na internet, o filme é facilmente encontrado no YouTube, nos dias atuais de 2012.
Resenha publicada inicialmente na Rádio / Blog do Juma, em 2012. Esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll. Encontra-se disponível para leitura em seu volume I, a partir da página 331.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Filme: Great Balls of Fire! (A Fera do Rock) - Por Luiz Domingues

Em 1989, um lançamento cinematográfico fez grande sucesso, ao resgatar a biografia de um dos maiores nomes da história do Rock cinquentista, o pianista/cantor e compositor, Jerry Lee Lewis, também conhecido como: "The Killer". Personalidade controversa, Jerry Lee Lewis construiu a sua carreira sob dois pilares básicos: seu o talento musical inegável e os escândalos proporcionados pelo seu temperamento irascível.

Baseado na biografia escrita por Myra Lewis (em coautoria com Murray Silver, tal livro chama-se: "Great Balls of Fire: The Uncensored Story of Jerry Lee Lewis"), ou seja, a visão da esposa do próprio artista cinebiografado, o filme traça um panorama rápido sobre a infância e adolescência do astro, para focar a sua atenção mais na ascensão e decadência de sua carreira, e encerrar-se na retomada do prestígio artístico de Lewis, já perante uma nova geração de fãs, na década de sessenta.  

Interpretado pelo ator, Dennis Quaid, Jerry Lee Lewis é mostrado na infância e no início da adolescência, ao encantar-se pelos blues  praticados com exclusividades pelos artistas negros, ainda mal saído da infância e a perseguir esse jeito de tocar piano e cantar, cheio de swing do blues sulista, em sua interpretação.
Quando surgiu-lhe as primeiras oportunidades para gravar e consolidar-se como um artista autoral, o Rock'n' Roll começava a explodir na América, justamente ao estabelecer essa fusão entre o Blues praticados pelos artistas negros e o country & western da parte dos brancos interioranos, exatamente a especialidade de Jerry Lee Lewis. 

A sua completa irreverência para os padrões da década de cinquenta, enlouqueceu o público e rapidamente o catapultou à condição de um astro nacional (e também no âmbito internacional de uma forma imediata, logo a seguir), no mesmo patamar de artistas contemporâneos, tais como: Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins, Fats Domino, Gene Vincent, Bo Diddley, Roy Orbison, Bill Halley, Eddie Cochran e Buddy Holly, entre tantos outros.
Extremamente arrogante e excêntrico como pessoa, Jerry Lee Lewis chamou a atenção do público cinquentista, ainda não acostumado com um estilo de atuação tão histriônica em cena, pela sua performance tresloucada, ao costumar em cima do piano, tocar as teclas com os pés e até a atear fogo ao instrumento, um escândalo para a época.
Todavia, toda essa excentricidade escondia um conflito interno seu, muito enraizado. Por ser primo de um famoso pastor evangélico, Jimmy Swaggart (no filme, interpretado por Alec Baldwin), Lewis ficava a remoer-se internamente pelas advertências religiosas do estabelecidas pelo seu primo, que constantemente acusava-o em portar-se como um agente demoníaco, por ser um astro a trabalhar em favor de uma suposta música proscrita, ou seja, o Rock'n' Roll, etc. e tal. 

Tal fator pesava-lhe na consciência, tipicamente atormentado por valores puritanos, porém, o grande escândalo não foi esse, mas algo que ocorreu a posteriori, quando Lewis apaixonou-se pela filha de um outra primo (J.W. Brown, interpretado por John Doe, aliás, um parêntese para comentar, esse ator realmente tem esse nome? Pois no imaginário norte-americano, "John Doe" equivale ao "Zé Ninguém", em português), que aliás, era componente de sua banda de apoio, na condição de seu baixista.

Por conta da pouquíssima idade dessa menina, foi óbvio que tal determinação causou um constrangimento e tanto, quando ele anunciou o seu desejo de casar-se então com uma menina  a deter apenas treze anos de idade na ocasião, Myra Lewis (no filme, interpretada por Winona Ryder).

Após muita briga, finalmente o primo concordou em deixar a sua filha adolescente (na verdade, uma criança, ainda mais pelos padrões daquela época), casar-se com ele, mas sob a condição expressa de tentar manter sigilo sobre tal situação, pois isso certamente causaria uma comoção nacional, com impacto sobre a trajetória artística do próprio, Jerry Lee Lewis.  

Entretanto, com a carreira a explodir, a agenda mantinha-se bem cheia e sob franca expansão, eis que Lewis foi cumprir turnê pela Europa e assim que pisou no solo britânico, os jornalistas descobriram que aquela menina na comitiva, era na verdade a sua esposa. Com o escândalo publicado devidamente nos tabloides ingleses, ácidos por natureza, Jerry Lee Lewis foi execrado pelo público inglês e quando voltou à América do Norte, o escândalo estava consolidado, e como consequência inevitável, ele deparou-se com milhões de dedos puritanos a apontar para o seu nariz "pecador".


Lewis entrou posteriormente em um declínio acentuado em sua carreira, por conta desse escândalo, passou maus bocados, até reerguer-se e levar a carreira adiante por muitos anos. O filme termina aí nesse início de retomada da carreira, na década de sessenta.
A história, portanto, seguiu o script proposto no livro biográfico escrito por Myra Lewis e Murray Silver, a traçar um rápido panorama sobre a carreira de Lewis, no entanto a dar ênfase apenas ao início de sua ascensão e o declínio provocado pelo escândalo em torno do casamento não usual, digamos assim. Portanto, a realçar o ponto de vista da esposa, então uma menina com apenas treze anos de idade. 

Nesses termos, respeita-se a visão de Myra Lewis, logicamente e sem nenhuma intenção de minimizar o impacto que esse caso teve na época e decretar por conseguinte um enorme prejuízo à carreira de Jerry Lee Lewis, o fato é que sob o ponto de vista artístico, ele, Lewis, fez muito mais em sua carreira, antes e depois desse caso. Portanto, falta neste filme, um enfoque mais pormenorizado sobre a carreira dele, propriamente dita. Faltou, por exemplo, contextualizar mais a sua própria música dentro do panorama cinquentista.
Sim, pois é evidente que Jerry Lee Lewis foi um artista com uma relevância enorme naquele contexto, muito além do que o filme sugeriu de uma forma um tanto quanto superficial. Outra ausência, é a sua interação com outros astros da década de cinquenta (Elvis Presley aparece muito rapidamente), um fato que foi bastante notório ao interagir com muitos de seus pares, inclusive a participar de filmes que foram produzidos nessa década (alguns destes filmes constam com resenhas neste livro, inclusive).

Pouco se falou sobre os seus álbuns e singles, o que seria mais do que necessário em uma cinebiografia de um artista dessa importância histórica. Portanto, a ênfase deste filme foi declaradamente colocada na questão desse imbróglio gerado pelo casamento com Myra, sob circunstâncias não usuais. E nessa prerrogativa, mostrou-se um pouco da sua ascensão, o conflito  pessoal em torno da religião na relação conturbada com o seu primo que era pastor evangélico e um pouco além, sobre sua recuperação artística, após um hiato forçado.
Sobre a produção, é claro que foi bastante esmerada, disso não podemos reclamar. Com fotografia e direção de arte boa, figurinos bem condizentes com a recriação da época e a boa trilha sonora, naturalmente amparada nas ótimas canções de Jerry Lee Lewis.

O elenco escolhido tem qualidade, logicamente e no caso, Winona Ryder, mesmo sendo bem mais velha que Myra na ocasião, interpretou bem uma menina ingênua de treze anos. Verdade ou não, na vida real, a passagem em que ela já casada leva uma casa de bonecas consigo para brincar, é bastante significativa em simbolismo e mostra-se dúbia no sentido em que pode ser uma boa piada para alguns e para outros, talvez uma afronta, portanto, dá a dimensão do quanto essa relação foi controversa na época.

Já no caso do ator, Dennis Quaid, creio que ele já se mostrava como um bom profissional ao longo dos anos oitenta, portanto, não precisava provar nada para ninguém, consagrado que já estava. Sendo assim, este poderia ser um papel para ele reforçar ainda mais a sua boa imagem construída como ator e ele não foi inteiramente mal em minha opinião, entretanto, exagerou na composição do personagem, certamente. Mostra-se um tanto quanto caricata a sua interpretação ao defender o personagem de Jerry Lee Lewis.
A sua leitura sobre o histrionismo cênico do artista, talvez não tenha sido a mais correta, pois há um nítido excesso em seu gestual e também nas expressões faciais. Tudo bem, Lewis sempre se portou loucamente no palco, prestes a explodir em qualquer momento, no entanto, Quaid o retratou quase como um palhaço, no bom sentido do termo, mas a configurar exagero e mediante um certo vazio sob o ponto de vista da intensidade musical forçada. Em cenas mais amenas, ele compensou ao diminuir a sua carga dramática, todavia, nas cenas mais intensas a envolver brigas caseiras e principalmente em sua atuação como artista no palco, Quaid passou do ponto.

Outros atores que participaram do filme e não foram citados anteriormente: Stephen Tobolowski (como Jud Phillps), Lisa Blount (como Lois Brown), Joshua Sheffield (como Rusty Brown), Mojo Nixon (como James Van Eaton), Jimmie Vaughan (como Roland Janes), David R. Ferguson (como Jack Clement), robert Lesser (como o radialista, Alan Freed), Michael St. Gerard (como Elvis Presley), Lisa Jane Persky (como Babe), Peter Cook (como um repórter britânico). O verdadeiro Jerry Lee Lewis aparece ao final para tocar e cantar junto a Dennis Quaid, em uma cena divertida, certamente.
Nas salas de cinema, o filme fez uma boa figura. Bem divulgado, lotou as salas de cinema e certamente que angariou fãs jovens para Jerry Lee Lewis, que saíram do cinema entusiasmados pela música produzida de uma forma selvagem por ele, a conter Rock'n' Roll visceral e incandescente, se o leitor me permite uma metáfora em tom de galhofa.

A crítica recebeu bem o filme , apesar de maldizer os excessos da parte de Dennis Quaid. Reconheceram em sua maioria, que foi um retrato interessante sobre um artista cinquentista polêmico.
 
Para ilustrar esta resenha, eu creio que valha a pena acrescentar  uma passagem pessoal que eu tive, quando surgiu a oportunidade de conviver (no sentido amplo do termo, pois não o conheci pessoalmente), com o Jerry Lee Lewis verdadeiro e que ilustra bem a sua personalidade enquanto artista.

Bem, eu assisti um show real de Jerry Lee Lewis no ano de 1993, i em minha cidade, São Paulo. Foi em uma casa de espetáculos lotada por admiradores do "The Killer" (eu, incluso), todos sob a expectativa enorme em vê-lo, ainda que já a beirar os setenta anos de idade na ocasião.
Acima, foto de Jerry Lee Lewis a se apresentar no Palace, casa de shows em São Paulo, no ano de 1993

Ele entrou em cena sob grande estilo, com aquele visual típico de caipira do sul dos Estados Unidos, tocou demais, cantou, subiu no piano para arrancar gritos de fãs que o acompanhavam desde os anos cinquenta (sim, havia muitos fãs veteranos ali presentes) etc. e tal. 

Contudo, ele estava visivelmente bêbado e em um dado instante, eis que chutou o banquinho do piano e retirou-se do palco, sem esboçar proferir nenhuma satisfação ao público. A luz ambiente  da casa acendeu-se e um princípio de tumulto instaurou-se, pois afinal de contas havia transcorrido apenas quarenta e dois minutos de show... mas ele não voltou ao palco, ficou por isso mesmo, com várias pessoas a reclamar o dinheiro de volta na bilheteria, mas eu estava absolutamente feliz por ter visto, "The Killer", em ação e do jeito temperamental e imprevisível que ele sempre portou-se em sua carreira inteira.
O filme mostra isso, é claro. Os arroubos de arrogância, os chiliques e uma certa bipolaridade constante etc. 

O filme vale a pena por conter a sua música que é magnífica, certamente e a produção caprichada, principalmente em sua direção de arte, quesito esse que convenhamos, os norte-americanos raramente decepcionam os espectadores de seus filmes. É, portanto, diversão garantida para quem nunca viu e passa no mínimo, uma boa ideia sobre quem é Jerry Lee Lewis na história do Rock, ou seja, um grande ícone cinquentista! 

Falta comentar sobre o título em português, onde mais uma vez optou-se por inventar um título diferente para o filme, fora da sua tradução literal: "Grandes Bolas de Fogo", mas ao escolher "A Fera do Rock", a opção por um título empobrecido dessa monta foi muito ruim, pois certamente o inventor dessa proeza não levou em consideração que uma nova geração que uma nova geração que nunca ouvira falar sobre Jerry Lee Lewis, poderia deduzir com esse título, ser o artista em questão, alguém muito abaixo da grandeza real de Lewis e quiçá, pior ainda, cogitar a hipótese de tal filme retratar uma história fictícia. Escolha lastimável, portanto.
Sobre a sua trilha sonora, o material foi todo regravado especialmente para compor o áudio do filme. Produção boa, respeitou-se na medida do possível os padrões de áudio cinquentistas a preservar-se a fidedignidade temporal necessária.

Grandes clássicos de Jerry Lee Lewis são tocados e claro que é agradabilíssimo ouvir tais canções. Além da música homônima, "Great Balls of Fire", ouve-se também: "Whole Lotta Shake Goin On", "High School Confidential", "I'm on Fire", "Breathless", "Wild One", "That Luck Old Son" e outras.

Baseado no livro "Great Balls of Fire": The Uncensored Story of Jerry Lee Lewis", de Myra Lewis e Murray Silver. Roteiro escrito por Jack Baran e Jim McBride. Produção por conta de Adam Fields. Direção de Jim McBride. Foi lançado em junho de 1989.

Além do sucesso que obteve nas salas de cinema, este filme foi lançado rapidamente em versão VHS e tornou-se um imediato sucesso de vendas  e também de locação. Na TV, foi campeão de reprises e apesar do escândalo sobre o casamento, não houve restrição de horário para inclusive ser exibido em muitas sessões vespertinas. Lançado como DVD em 2003. Na internet, é encontrado com facilidade no YouTube, em versão na íntegra e gratuita, sem problemas 
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2012. Esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll". Encontra-se disponível em seu volume I, a partir da página 251.