terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Filme: Hedwig and The Angry Inch (Hedwig - Rock; Amor & Traição) - Por Luiz Domingues

Filme agraciado por uma quantidade enorme de prêmios obtidos em festivais de cinema (entre os quais, alguns bem significativos, casos de Sundance Filme Festival, Golden Globes e Berlin International Film Festival, a obra: “Hedwig and The Angry Inch” (no Brasil, conhecido por dois nomes: “Hedwig - Rock; Amor & Traição” ou “Hedwig - A Origem do Amor”), não teve o apelo popular muito grande, e por conseguinte ficou restrito aos circuitos alternativos de exibição. Isso talvez tenha ocorrido por tal película ter sido estigmatizada como uma peça dirigida a um público gay em princípio, quando na verdade, o filme não tem esse caráter panfletário que o limite a tornar-se uma peça de interesse para uma camada apenas da população, e assim ficar restrito a ser exibido em mostras cinematográficas temáticas, com tal teor. Na verdade, o filme tem sim a sua parcela forte a revelar-se nesse sentido, mas é também uma peça de arte interessante pelo seu desenvolvimento e sim, pode ser considerado um Rock Movie, visto que o Rock é a amálgama a sustentar a história desenvolvida pela sua principal personagem, Hedwig Robinson ou Hansel, pois este apresenta duas facetas.
A trama mostra um menino alemão, chamado: Hansel (interpretado quando criança, por Ben Mayer Goodman), que fora gerado como o fruto da união de uma moça alemã (personagem sem nome definido, interpretada por Alberta Watson), com um soldado norte-americano que estava a servir na base alemã no pós-Guerra (personagem também sem identificação, interpretado por Gene Pryz). O menino cresce em um Lar humilde e sem a referência paterna muito forte. Apenas criado pela mãe, na maior parte do tempo, a sua maior referência cultural em seus primeiros anos de vida, é a estação de rádio norte-americana, montada para entreter os soldados que serviam ali na Alemanha. Naturalmente o Rock'n' Roll alimentou os seus sonhos, mas outros dois fatores foram muito impactantes para determinar a sua formação. Em primeiro lugar, o fato de revelar desde cedo ser bastante efeminado e o segundo aspecto, a impressão forte que marcou a sua formação psicológica por conta de uma história baseada na mitologia grega, que a sua mãe narrou-lhe e pela qual ele pautou a sua vida, doravante.
Tratou-se do mito sobre o Deus grego, Zeus, que teria brutalizado a raça humana, por medo de que os homens pudessem suplantar o poder dos Deuses, ao rebelar-se. Ocorre, que segundo a mitologia, os humanos eram dotados de quatro pernas, quatro braços e duas cabeças, em sua concepção inicial e por conta dessa multiplicidade de membros e cérebros, tais humanos possuíam uma inteligência e força física tão grande quanto à dos Deuses e por conta dessa perspectiva, ao prever possíveis problemas a ocorrer em um futuro próximo, Zeus usou a sua força para decepar os homens e assim torná-los seres divididos ao meio, reduzidos à metade de suas potencialidades. Daí que o homem, doravante, limitado por não sentir-se completo, passou a sentir a saudade dessa unidade perdida e daí teria iniciado a divisão dos sexos e o mito posterior construído por Eros, o Deus do amor, em torno da eterna busca pela “outra metade” ou a decantada “alma gêmea”. 
Portanto, é em cima dessa incessante busca pela outra metade perdida, que as ações do menino, Hansel, são intensificadas, na medida em que ele assume o seu anseio transexual e sobretudo a alimentar em paralelo, o seu desejo em impor-se na sociedade como um artista e o Rock foi o seu veículo de expressão, doravante.
Antes porém, de cair na estrada e lutar por sua carreira musical e por conseguinte em sua tentativa para ser aceito na sociedade como a mulher que deseja ser, Hansel passa por uma experiência forte que deu-lhe a substância para criar a devida coragem para assumir tudo isso. Já adolescente, é seduzido por um soldado norte-americano que servia na mesma base onde o seu pai esteve e assim, é incentivado pelo seu namorado, o sargento Luther Robinson (interpretado por Maurice Dean Wint), para submeter-se a uma cirurgia para a troca de sexo. No entanto, a operação não é bem sucedida e apesar da frustração gerada, Hensel segue em frente e assume-se como uma transexual e cantora de Rock. Doravante, ele, ou ela, assume o nome artístico: Hedwig Robinson (interpretada pelo ator, John Cameron Mitchell, o próprio diretor e coautor do roteiro).
Já a morar nos Estados Unidos, Hedwig forma uma banda, e apresenta-se em um circuito obscuro, a atuar no patamar mais simples possível na cadeia da música profissional, entretanto, isso não a desanima, tampouco aos seus companheiros de banda. Para tanto, são muitas cenas dela, e da banda, a tocar em lanchonetes semi vazias e muitas vezes a mostrar a indignação de clientes nada acostumados a ouvir uma banda de Rock a apresentar-se e agravada a situação no sentido de conter a figura de um travesti desbocado a mexer com todo mundo, como forma para impor-se enquanto uma artista destemida que pretende ser.
A parte musical é interessante, ao mostrar neste ponto uma sonoridade moderna e compatível com a época do lançamento do filme (2001), mas a conter uma clara presença de referências antigas muito boas, em termos de Hard-Rock e principalmente o Glitter-Rock setentista. Ainda que o visual dos membros da banda e da própria vocalista travestida, remeta ao Hard-Rock oitentista, a sonoridade lembra em muitas canções, o Glam-Rock setentista, e claro que tal inspiração em David Bowie/Marc Bolan & contemporâneos dessa estética, é muito agradável.
A precariedade das apresentações é patente, a tocar em palcos minúsculos, no uso de equipamento de terceira linha e a usar recursos visuais paupérrimos, no entanto, é interessante notar o quanto essa dificuldade não esmorece Hedwig e assim, torna a personagem mais forte em torno de suas convicções pessoais. Uma projeção com um desenho animado, aparece e reforça a ideia do mito grego que tanto impressionara, Hedwig, em sua infância, o que traz o elemento lúdico à tona, todavia, muito mais que isso, a caracterizar a força motriz da personagem.
Outro elemento interessante do filme, é o suporte de uma narração a explicar o contexto geopolítico da Alemanha do Pós Guerra, o cenário da Guerra Fria e a queda do muro de Berlim como uma autêntica metáfora a reforçar o mito da divisão humana, narrado por Aristófanes, em meio à obra de Platão, “O Banquete” e que marcara a vida de Hensel/Hedwig.
Outras referências ao Rock, mostram-se muito boas. Em determinada fala, Hedwig cita Lou Reed (embora seja algo óbvio dado o seu homossexualidade, ao citar a frase: “Take a Walk on the Wild Side”, da música quase homônima de Reed. Em outra cena, Hedwig encontra-se bêbada em meio a uma montanha de pneus em uma espécie de ferro velho abandonado, e daí faz uma referência ao filme, “Tommy”, quando cita uma canção dessa Ópera Rock homônima: “Tommy, Can You Hear Me?” Outra frase de efeito é proferida quando se fala: “You 'Kant' Always Get What You Want”, a estabelecer um trocadilho que envolve diretamente a música dos Rolling Stones (“You Can’t Always Get What You Want”), e a figura do filósofo alemão, Immanuel Kant.
A parte humorística também é boa. Uma reminiscência de Hedwig mostra como este iniciara a sua carreira artística, mediante o apoio de uma banda constrangedora, formada por esposas de militares asiáticos. Absolutamente bizarro.
Claro, a porção homossexual da personagem também produz algumas situações, algumas em tom de escárnio e outras pautadas por maior dramaticidade em torno de tal questão. Certas letras de música que ela canta ao vivo, a exprimir a transformação de sexo, gera controvérsia em meio a um público não simpatizante da causa, digamos assim. 
Outro ponto, dá-se quando um membro de sua banda, que é um backing vocalista, e também bastante efeminado (falo sobre tal personagem e sobre quem o interpretou, com maiores detalhes, logo adiante), é duramente repreendido por Hedwig quando esta o flagra a colocar um sutiã para lavar em uma máquina de lavanderia pública, e tal ato gera um discurso bem feminino sobre como seria errado fazer isso para não estragar tal peça de vestuário.
Um ponto mais dramático vem a seguir, com a introdução de um novo personagem, na presença de Tommy “Gnosis” (interpretado por Michael Pitt). Menino jovem, com espírito Rocker e vontade para mergulhar na carreira artística, aos poucos ganha espaço e torna-se um bom músico e compositor. No entanto, Hedwig também aproveita a situação e ao acreditar ter achado a sua “metade”, tal qual o mito grego pelo qual baseara a sua busca, seduz o garoto e este não resiste ao assédio. No entanto, um golpe fortuito faz com que em uma oportunidade futura, Tommy afaste-se e forje uma carreira solo e pior ainda, a roubar, literalmente, as ideias de Hedwig. Tommy Gnsosis torna-se um super Rock Star e Hedwig fica para trás, na completa obscuridade de uma carreira sofrida, exercida em meio às dificuldades inerentes do patamar mais baixo da música.
Mais uma vez a metáfora da divisão é usada em torno do muro de Berlim, quando Hedwig, amargurada, canta que nascera de um lado da cidade dividida em duas, algo forte, politicamente a exprimir, naturalmente. Então, Hedwig toma uma atitude radical ao “desmontar-se” de sua identidade feminina em pleno palco. 
 
Hedwig visita Tommy Gnosis e uma insinuação de reconciliação é mostrada. Nesse ínterim, o backing vocalista, Yitzhak (interpretado por um atriz, Miriam Shor), toma o posto como vocalista principal da banda e mais que isso, assume o visual como mulher. O fato de ter sido uma atriz a interpretar um homem efeminado, ajudou a realçar a feminilidade da personagem e mais que isso, quando este assumiu-se como “mulher”, ficou fácil para Miriam passar essa ideia, por ser uma mulher de fato. O filme encerra-se com uma animação interessante.
Em suma, se os Rockers não tiveram acesso a este filme, por ele ter sido mais dirigido ao público gay em predomínio, é preciso desarmar-se de qualquer tipo de preconceito e assisti-lo, pois ele vale a pena enquanto documento Rocker interessante, com tantas referências boas e uma trilha a apresentar uma qualidade musical acima da média. O mesmo raciocínio em relação aos cinéfilos em geral, pois o filme mostra a sua substância boa, enquanto peça cinematográfica bem engendrada.
Mais alguns atores não citados anteriormente, merecem a menção, agora: Stephen Trask (a interpretar o guitarrista, Seszp e que foi o responsável também pela coautoria do roteiro, composição da maioria das músicas e direção musical, além de ter cantado algumas canções), Theodore Liscinski (como Juceb, também da banda), Rob Campbell (como Krystof, da banda), Michael Aronov (como Schlatke, da banda) e Andrea Martin (como Phyllis Steins), entre outros.
A direção e coautoria do roteiro, ficou com John Cameron Mitchell, que também acumulou a sua atuação como ator, a interpretar o / a protagonista, Hedwig Robinson. Por mérito, John ganhou muitos prêmios, pelas três atuações que teve nessa produção.

O filme não avançou muito na TV a cabo e muito menos na TV aberta, talvez por ser considerado um filme de arte, anti-comercial e sobretudo pelo seu apelo sexual. Existe em formato DVD, porém no YouTube não é encontrado em versão integral, mas apenas em fragmentos. A sua versão completa pode ser assistida, no entanto, no portal “OK.Ru”.

Esta resenha foi escrita para compor o livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" e está alojada em seu volume II, a partir da página 237.

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