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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Filme: The Boat That Rocked (Os Piratas do Rock) - Por Luiz Domingues



Para quem acompanha a história do Rock, se houve um lugar a ser considerado a sua Meca, nos anos sessenta, essa localidade foi a cidade de Londres. E não foi à toa que em 1966, a capital britânica recebeu a alcunha de “Swingin’ London”, como a estigmatizá-la como o lugar mais glamorizado do mundo para traduzir a euforia que a explosão do Rock gerava no planeta nessa ocasião.


Contudo, por uma ironia máxima, o chamado "desbunde" da Contracultura ocorrida na Europa, deu-se em uma das sociedades mais tradicionais e arredias a mudanças comportamentais, portanto, naturalmente que tal contraste gerou reações. Em suma, se a moda fora ir à Portobello Road para comprar roupas incríveis, deixar o cabelo crescer e frequentar os inúmeros clubes de Rock que fervilhavam pela cidade (do Marquee ao Ufo Club), por outro lado, a mais tradicional emissora de rádio do Reino Unido e uma das, senão a maior emissora do planeta, a tradicionalíssima, BBC (British Broadcasting Company), não pareceu entusiasmada com essa euforia do Rock e do Pop que veio em ebulição desde 1963, pelo menos. 

Nem mesmo comoveu-se pelo fato de que os britânicos haviam conquistado a supremacia mundial no Rock. Fato notório, nessa ocasião, a cada dez artistas mundialmente reconhecidos em todo o planeta, pelo menos sete eram oriundos do Reino Unido, portanto, uma predominância absurda. Assim sendo, a estabelecer uma autêntica contradição, a realidade foi que a sisuda emissora dedicava cerca de duas horas de sua programação apenas para o Rock e ao Pop, a frustrar milhões de ouvintes.

Sob tal situação adversa aos anseios da juventude britânica, muitas emissoras piratas começaram a surgir, com a proposta de tocar Rock, vinte e quatro horas por dia, mas através de uma sociedade tão tradicional como a do Reino Unido, claro que as autoridades não gostaram nem um pouco da ideia de aturar tanto estímulo à sua juventude, ao ponto de entusiasmar-se com aqueles cabeludos todos, e por conta dessa predisposição, esforços foram empreendidos para fechar todas as emissoras clandestinas.

Uma saída criativa para as rádios piratas, foi montar estúdios a operar a bordo de navios ancorados fora do mar territorial britânico, onde juridicamente a pensar-se, tais emissoras clandestinas não podiam ser cerceadas pelo governo de Sua Majestade. E foi então o que ocorreu com certa profusão (estima-se que no seu auge, na década de sessenta, cerca de trezentas emissoras clandestinas operavam no dial do Reino Unido). 

Pois é justamente sobre isso, exatamente, que trata o filme: “The Boat That Rocked” (também conhecido como, "Pirate Radio" e em português, “Os Piratas do Rock”), com a história de uma estação montada dentro de um antigo navio pesqueiro, munida com uma tripulação formada por um time de Disque Jóqueis muito descontraídos, com espírito totalmente Rock’n' Roll.

São muitos personagens e cada um tem o seu destaque ao longo da trama, portanto, oficialmente não existe um personagem protagonista que sobressaia-se nitidamente, embora possa afirmar-se que Carl (interpretado por Tom Sturridge), o adolescente que chega ao barco para passar uns tempos com o seu padrinho, o diretor da emissora, Quentin (Bill Nighy), possa ser um catalisador de todos os outros personagens. Ele, Carl, não é exatamente um Rocker propriamente dito em um primeiro instante, mas ao chegar nesse verdadeiro hospício Freak e flutuante sobre a água marítima, claro que rapidamente tratou por na vibração coletiva ali reinante, ou seja, a participar da "onda", com o perdão do trocadilho, ao adaptar-se aos loucos de plantão, ali presentes.

Ali, o espírito do Rock, a traduzir-se em liberdade total, faz do rádio/ barco uma referência para cerca de vinte e cinco milhões de britânicos que a escutam o dia inteiro. Portanto, as ações realizadas no navio, a mostrar as loucuras perpetradas pelos locutores da emissora, mesclam-se o tempo todo com a reação de ouvintes de diferentes matizes sociais e a sua devida representação da repercussão que isso causa-lhes, em terra firme. E claro, o contraponto da reação, com o personagem do ministro de Sua Majestade para assuntos de difusão cultural, ao ser intimidado pelo Primeiro Ministro a dar cabo das rádios piratas. O choque entre a Swingin’ London ultra "desbundada" e a alta cúpula ministerial da Rainha gera os inevitáveis clichês inerentes entre “libertários e caretas”, mas mesmo ao caracterizar-se como piadas óbvias (que o Monty Phyton já havia esgotado nos anos setenta), ainda funcionam e arrancam gargalhadas do espectador. 

O implacável ministro que odeia o Rock, é interpretado por Kenneth Branagh, um ator bastante experiente no cinema britânico e que compôs o seu personagem com sobriedade, ao fazer com que trejeitos óbvios em torno do clichê do “choque de gerações” presumivelmente causariam, não ficassem cansativos, mesmo que não fossem nada inovadores. Então, o implacável ministro monta uma força tarefa para eliminar as rádios piratas do mapa do Reino Unido, primeiramente a usar todas as brechas jurídicas possíveis para cercear o seu poder de difusão e influência cultural. 

Contudo, ao longo do filme, ele percebe que pela via legal não havia como eliminá-las, sendo assim, cogita a sabotagem à margem da Lei, como forma de ação. Bem, "guerra é guerra" como muitos pensam e na hora que não há meios para impor a sua vontade pela velada lisura, via brecha jurídica, vai na brutalidade, mesmo...


Uma medida, por exemplo, ocorre ao impor-se sanções pesadas a empresas que investissem na emissora que protagoniza o filme. Todavia, astutamente, a rádio abre-se para patrocínios internacionais e com os quais as leis britânicas não poderiam interferir. Os governantes tentam então, uma abordagem truculenta através da Marinha Real, mas ardilosamente os locutores Rockers surpreendem as autoridades ao despistá-los no mar, para sair do quadrante em que estavam, sem deixar vestígios.

Então, uma fatalidade ocorre em uma noite onde enfrentam o mar turbulento, com o barco a apresentar o seu eixo avariado e dessa forma, ele começa a submergir, rapidamente. A embarcação não possui botes salva vidas, suficientes (Titanic, de novo ?), e mesmo avisado sobre a situação, o ministro faz menção de que não vai acionar a ajuda humanitária da Marinha Real, claramente ao desejar que todos morram, em um momento que confunde o espectador, visto ter ido além da piada de humor negro, mas a propor a amargura explícita, via crime, mesmo.

Todos vão morrer, é inevitável, com o barco a afundar, mas subitamente a ajuda chega... eis que surgem milhares de embarcações particulares, de todos os tipos e tamanhos, a ser conduzidas por fãs da emissora que mobilizaram-se para salvar os seus ídolos, os locutores. É clichê, eu sei, mas a cena emociona. Em meio às manifestações de júbilo pela salvação de todos os tripulantes, a metáfora é evidente, mas muito bonita : tentam destruir a força do Rock, mas não conseguem... o personagem, Quentin, a bradar: “Rock’n' Roll”, a bordo de uma embarcação de apoio, diz tudo para sintetizar o filme. Fim da história, a mensagem é essa no cômputo final, mas cabe acrescentar algumas observações, ainda. 

Apesar de haver um clima de libertinagem em muitas cenas, isso não depõe contra a obra, exatamente, tampouco denigre a imagem do Rock ou dos Rockers. São na verdade, mais para ser encaradas como "gags" de humor, do que algum tipo de ode à baderna.

Nesse aspecto, são muitas cenas com piadas boas, eu admito, mas faço a ressalva de que há um excesso na metragem e aliás, a crítica observou esse detalhe, com veemência e nesse aspecto, eu tenho que concordar com a opinião geral. Com pouco mais de duas horas de exibição, de fato, poderia ter havido uma edição mais enxuta. O diretor e o editor devem ter conversado muito a respeito dos eventuais cortes e posso imaginar que acharam essencial manter tantas cenas que consideraram hilárias em suas avaliações particulares, mas sinceramente, fecho com os críticos que reclamaram dos excessos. “Menos é mais”, este clichê fica por minha conta. Tanto foi assim, que a edição norte-americana teve mais de vinte minutos suprimidos, não só pelo excesso, mas para coibir piadas consideradas britânicas demais para o paladar dos yankees.

Eu posso arrolar algumas cenas que eu considerei interessantes:

Em meio a toda liberdade que os locutores tinham para falar o que quisessem ao microfone e eles exageravam mesmo, logo no começo do filme, o diretor da rádio, Quentin, só pede que não falem o palavrão: “Fuck” (“Foda”), pois perseguidos pelas autoridades como eram, constantemente, isso poderia dar-lhes uma brecha jurídica para tirar a emissora do ar. Ora, que diferença essa palavra faria em meio às barbaridades com insinuações sexuais que eles verbalizavam o tempo todo ?


Um frase pronunciada pelo ministro, em reunião de cúpula, é para pensar-se: -“esta é a grande vantagem de ser do governo, se você não gostar de uma coisa, cria-se uma Lei que a torna ilegal”.


São Rockers malucos, mas em alto mar sentem as necessidades de qualquer marujo... uma sexta-feira sim, outra não, um barco cheio de garotas vem a bordo para uma festinha toda especial ali promovida... no cotidiano, não é permitida a presença de mulheres, para não desviar o foco da rapaziada, a não ser a cozinheira da tripulação, Felicity (interpretada por Katherine Parkinson - na foto acima, a segurar um cartaz com os dizeres : "I Love You" ), mas ela é lésbica assumida e não quer nada com os rapazes ali. 

Com a chegada do sobrinho de Quentin ao barco, Carl é descoberto como virgem por todos. Esforços são feitos para o rapaz sair dessa situação, ao render cenas engraçadas, embora sexistas, naturalmente. Quando parece que vai conseguir o seu intento, ao conhecer a sobrinha de seu padrinho, a bela Marianne (interpretada por Talulah Riley), o tempo que ele gasta para ir buscar um preservativo na cabine de um amigo, foi suficiente para a moça pular na cama de outro rapaz... bem... sixties, amor livre... sabe como é (foi)... 


O assessor do ministro tem o sugestivo sobrenome de “Twatt”, que no inglês britânico é um termo chulo e causa constrangimento pela rudeza, quando empregado publicamente.


Veja a comparação de um "still" do filme, a conter a cena citada sobre a nudez das garotas e a capa do LP "Electric Ladyland" de Jimi Hendrix Experience, de 1968

Uma promoção a envolver fãs, que ganham o direito a passar um dia no navio, causa uma balbúrdia e tanto. Em uma das confusões geradas, um dos locutores é flagrado com muitas garotas, todos nus em uma sala reservada. Na hora do flagrante, a configuração das pessoas no enquadramento, é quase idêntica à capa do LP “Electric Ladyland”, do Jimi Hendrix, a estabelecer uma clara menção em forma de homenagem ao álbum. 
 

Um dos locutores diz ter apaixonado-se por uma fã que conhecera no dia da promoção e ambos combinam casar-se. Essa seria a única condição para permitir-se a presença de uma mulher no navio, ou seja, como esposa. Tal anúncio é feito no ar e fãs de todo o Reino Unido encantam-se com a novidade, ao tornar-se uma comoção nacional o tal enlace matrimonial. 

A cerimônia é feita a bordo, a moça é lindíssima (Eleonore, interpretada por January Jones), e o locutor está enlouquecido de tão apaixonado que ficou, mas na hora da “Noite de Núpcias”, ela anuncia que vai dormir na cabine de outro locutor, (o “flamboyant”, Gavin, interpretado por Rhys Ifans), pois era dele que ela gostava realmente e tudo fora um plano para poder ficar juntos, pois Gavin não queria casar-se, no entanto, se ela estivesse casada com outro colega, oficialmente adquiria o direito para ficar a bordo. 

Nem parece uma piada, todavia, um dramalhão de novela mexicana ao ler assim, mas o fato é que essa história paralela é muito engraçada, principalmente pela atuação do personagem do noivo ultrajado, Simon (interpretado por Chris O’Downd). A sua reação facial ante a desfaçatez da noiva inescrupulosa, é hilária. E a sua situação posterior, ao mostrar-se magoado é engraçada também, ao ter que trabalhar horas depois e a notícia de seu casamento ter sido desfeito após apenas dezessete horas, e daí, conter como uma explicação emitida no ar, aos ouvintes, a alegação das ditas “incompatibilidades musicais”, ou seja, uma desculpa recorrente em releases elaborados por assessores de imprensa de gravadoras para explicar as eventuais saídas de componentes de bandas famosas, na vida real. E o personagem a cantar junto com o disco, o Power Blues, “Stay With Me, Baby”, é significativa para o humor da situação, mesmo sendo uma música lindíssima, de fato.


Outra piada boa, ocorre quando o governo dá um ultimato e exige que a rádio saia do ar voluntariamente à meia noite de um determinado dia estipulado por eles. No horário estipulado, os locutores fingem consternação em ter que sair do ar por ordens do governo e faz-se silêncio no momento em o horário chega. Em sua residência, o ministro está sintonizado na rádio, a comemorar com a sua família e o assessor “Twatt”, quando é óbvio que não fora a real intenção dos radialistas e sob um ato de suprema provocação, colocam no ar a música: “Let’s Spend the Night Togheter”, dos Rolling Stones e de fato, “Vamos passar a noite juntos” não foi o que o ministro desejou ouvir...

Bem, daí em diante, o jovem Carl recebe a visita de sua mãe a bordo, Charlotte (interpretada pela experiente atriz, Emma Thompson), e logo descobre que a sua ida ao barco teve a intenção da parte dela, que ele conhecesse enfim o seu pai biológico. Tudo o leva a crer que trata-se de Quentin, o diretor, mas na verdade é Bob (interpretado por Ralph Rowe), um hippie doido e taciturno, típico fã do grupo de Rock, Grateful Dead. E também ocorre que Carl perde a virgindade com a gata ultra sixties, Marianne, que volta ao navio com tal finalidade, arrependida por ter frustrado o rapaz em uma ocasião anterior. 

Sobre a cena do barco a afundar, existem vários desdobramentos, com piadas boas, eu sei, mas o lado poético também é bonito. Observar a resistência dos locutores para manter a transmissão até os estertores da tragédia e os discos a boiar, tornou a cena, plasticamente bela. E nesse contexto, Carl e Bob também a boiar juntos após ter reconhecido-se como pai e filho, ao som da linda canção: "Father and Son" do Cat Stevens, deixou a cena bastante bonita.

O último a salvar-se foi o locutor conhecido como: “O Conde” (“The Count”), a tratar-se do único norte-americano entre os britânicos da tripulação, interpretado pelo saudoso, Phillip Seymour Hoffman (na 1ª foto acima, a usar fone de ouvido), um bom ator, ainda jovem, que deixou-nos precocemente na vida real. Ele e Bill Nighy (a interpretar Quentin e retratado na foto acima com óculos vermelhos), fizeram outros filmes com motivação Rocker, anteriormente. Phillip interpretou o personagem real, Lester Bangs, famoso crítico de Rock norte-americano, no filme: “Almost Famous” de 2001, e Bill, interpretou o vocalista da banda de Rock setentista, Strange Fruit no filme inglês, “Still Crazy”, de 1998. Ambos eram do ramo, portanto, quando compuseram os seus personagens para este filme.

Mais alguns atores a destacar-se: Will Adamsdale (como John "The News" Mayford), Nick Frost (como "Doctor" Dave), Don Brooke (como Kevin "The Thick"), Rhys Darby (como Angus "The Nut" Nutsford), Tom Wisdow (como Mark "Midnight"), Ralph Brow (como "Smooth" Bo Silver), Ike Hamilton (como Harold), Sinnead Matthews (como Miss "C"), Stephen Moore (como o primeiro ministro britãnico), e outros. 


O que dizer sobre a trilha sonora? Sendo a história de uma rádio pirata britânica a atuar em 1966, só posso afirmar que se ouve ao longo do filme algo verdadeiramente esplêndido, sem exceção. Para muitos, fica sempre a impressão de que poderiam incluir “tal e tal” som de alguma banda que ficou a faltar, porque a profusão sessentista do Rock e Pop britânico foi absurda. Posso até concordar com isso, mas aí, eu incorreria no erro que cometeram os seus produtores, em esticar demasiadamente a película e mesmo que raramente eu concorde com os críticos, desta vez eu tendo a fechar com eles, como já havia dito anteriormente. 

Pela música em si, digo que se eu ficar um mês a ouvir British Rock sessentista por vinte e quatro horas ao dia, ao término do período, além de querer prorrogação do prazo, estarei com uma boa lista elaborada em mãos, a conter uma outra infinidade de músicas que sentira falta e desejei acrescentar. 

Mas daí a prolongar o filme só para dar vazão à essa sanha pela boa música, para obrigatoriamente ter que preenchê-lo com mais piadas, eu não cometeria tal ato de jeito nenhum... portanto, as mais de quarenta canções que tocam nessa trilha do filme, são maravilhosas e significativas para retratar a excelência musical da época. Fica a ressalva contudo, de que não toca-se nada dos Beatles, pelo óbvio motivo da dificuldade de liberação dos direitos autorais do repertório dessa banda, que foi gigantesca para o Rock britânico sessentista e quiçá, a colocar-se como a maior de todas. 

A despeito da grandeza magnânima dos Rolling Stones, The Who, Cream, The Kinks e tantas outras que foram representadas na trilha do filme.

Contém igualmente um pouco de material oriundo de artistas norte-americanos, não é uma seleção só para apreço dos “Mods” entusiastas da “Union Jack”. E não é exclusivamente Rock, embora este gênero predomine. Tem um pouco de Black Music norte-americana, certamente e que aliás, era muito admirada pelo público inglês, tanto que os Beatles não lançaram um disco em 1966, chamado: “Rubber Soul”, à toa.


Outro fator e que não incomodou-me inteiramente, mas soa como falha pelo anacronismo, ocorreu no sentido de que muitas músicas pós-1966, constam da trilha. Se o filme é ambientado em 1966, a escolha do repertório deveria ser mais criterioso nesse aspecto a colocar-se só músicas desse ano para trás em sua trilha, no entanto, eis que soam algumas peças de anos vindouros, até de 1971, meio longínquo e futurista, portanto... tudo bem, não serei intransigente e vou considerar que foi licença poética da produção, e muito provavelmente com o contexto das letras de tais canções a mostrar-se convenientes para cada cena em que foram usadas. 


Nesses termos, ouve-se o som de alguns monstros do Rock, Soul & R'n'B sessentistas, entre os quais: The Rolling Stones, The Kinks, The Turtles, Jimi Hendrix, Procol Harum, Box Tops, The Beach Boys, The Who, The Seekers, Dusty Springfield, The Easybeats, Martha Reeves and the Vandellas, Smokey Robinson and the Miracles, Herp Alpert and the Tijuana Brass, Tommy James and the Shondells, Jeff Beck Group, The Troggs, The Hollies, The Tremeloes, Chris Andrews, Paul Jones, Skeeter Davis, Cream, Otis Redding, The Supremes, The Bystanders, Cat Stevens, the Moody Blues, Lorraine Ellison, The McCoys e The Isley Brothers. 

Em síntese, trata-se de um autêntico massacre sonoro. Acrescenta-se e a tratar-se de uma inclusão completamente fora de cronologia, David Bowie com uma canção sua de 1983, "Let's Dance" e sobre a cantora, Duffy, que é uma artista dos anos 2000, na verdade, eu preciso mencionar uma particularidade sobre a sua participação nesta trilha.  

Todas as versões das canções são originais, com exceção do blues, “Stay With Me, Baby”, que tem uma versão moderna, gravada pela cantora pop, Duffy. Essa canção, além de ser linda e icônica dos anos sessenta, foi regravada inúmeras vezes por grandes cantores. A versão original é de Lorraine Ellison, muito boa, embora com um arranjo um tanto quanto formal. Janis Joplin também a cantou e tudo na voz da pérola do Texas, ficava maravilhoso, mas muita gente elege a versão do ótimo cantor/guitarrista britânico, Terry Reid, como a mais visceral (e é mesmo de arrepiar). Acrescento que Bette Midler, quando interpretou a cantora fictícia, “The Rose”, no filme homônimo de 1980, também brilhou com essa canção.

Nesta versão da jovem “Duffy”, a produção musical do filme teve a preocupação em regravá-la com os instrumentos a apresentar timbres sessentistas adoráveis, portanto parabéns aos responsáveis por isso. Além desse requinte, a garota cantou bem, embora o seu estilo pessoal (a cometer exagero em trejeitos vocais, ao arrastar as sílabas, e assim a  produzir trinados), incomode muitos ouvintes. Sei que muitos a chamam como, “Bode”, por sua voz emitir tais ruídos que parecem os que esse animal produz. Particularmente, isso não incomoda-me, acho que a menina canta bem, mas fica registrada essa curiosidade.

Nas salas de cinema, o filme não foi muito bem, no entanto. O resultado na bilheteria decepcionou os seus produtores. A crítica ressaltou o resgate de uma história inspirada m fatos reais, mas não apreciou o excesso de metregem, como eu também já mencionei anteriormente. 

No Brasil, também não houve um resultado bom, ao ter ficado pouco tempo em cartaz. Algumas opiniões dos críticos, na época:-"confuso, mas com alguns momentos mágicos". -"Tocante, sincero, mas sem coerência". Bem, nessa síntese entre boas e más impressões, acho que eu tendo a concordar em linhas gerais. 

Escrito por Richard Curtis. Produção de Tim Bevan, Eric Fellner e Hillary Bevan Jones. Direção de Richard Curtis. Foi lançado em 2009.

Esse filme foi exibido moderadamente em canais de TV a cabo e sinceramente, desconheço que tenha chegado às emissoras abertas. É facilmente achado em versões sob formato DVD/Blu-Ray e existe cópia dublada para assisti-lo na íntegra, via Youtube.

Em suma, revela-se um filme com boas piadas, mesmo sendo um pouco longo; com bons atores do cinema inglês contemporâneo em ação e o bom reforço do norte-americano, Phillip Seymour Duncan; boa direção (Richard Curtis), embora tenha para si o leve pecado por ter esticado o filme em demasia. Muito boa direção de arte & figurinos, para retratar  com dignidade a maravilhosa fase do Rock inglês em 1966 e uma trilha sonora avassaladora. "The  Boat That Rocked" ("Os Piratas do Rock"), tem mais méritos que deméritos, e eu recomendo-o, como um bom representante da vertente, Rock & Cinema.

Esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll". Está disponível para a leitura através do seu volume I,  partir da página 393.

 


terça-feira, 6 de março de 2012

Filme : Still Crazy (Ainda Muito Loucos) - Uma Chama Imortal... - Por Luiz Domingues



Imagine uma banda de Rock setentista, daquelas tantas que nessa época apresentavam em seu trabalho, a qualidade técnica, como um modus operandi talento inconteste e a viver um bom momento na carreira, no auge daquela década de 1970. Imagine que esteja a um degrau, apenas, para deslanchar na carreira, e mesmo ao lidar com os seus problemas internos, eis que tal grupo perde o bonde da história, por um mero acidente meteorológico. Pois bem, essa é a história da banda fictícia, "Strange Fruit", retratada no ótimo longa-metragem, "Still Crazy", batizado como: "Ainda Muito Loucos", na versão brasileira.
A ideia do filme, foi dessa forma, traçar paralelos distintos, com a banda a viver esse momento bom na carreira ao longo dos anos setenta, e sobretudo, como deu-se a sua incrível derrocada nessa fase, contudo, principalmente a exibir a sua tentativa em reestruturar-se ao final da década de noventa, portanto a enfrentar outros problemas diferentes sob um outro contexto. Essa visão sobre como os seus membros, envelhecidos e desatualizados do mercado (que passara por mudanças estéticas reiteradas vezes ao longo dos anos), é o grande mote do filme, e digo antecipadamente, que essa meta foi atingida com muitos méritos, nesta película.
Ao pensar-se que no mundo do Rock, música Pop em geral (e sobretudo em termos das estratégias adotadas por empresários, indústria fonográfica e agentes midiáticos), é regido por um tipo de funcionamento volátil e devidamente calculado para ser proposital, por motivações escusas, é preciso salientar isso, esse filme mostra com muita propriedade essa dramática situação vivida por um tipo de artista que vê-se completamente desatualizado no cenário, mas que por outro lado, revela-se absolutamente isento de culpa nesse processo. Pois é nessa prerrogativa que o filme alinhavou o seu roteiro e assim, ao longo da história, mostra-se muitas nuances a explicar muito bem essa situação.
Nessas condições, não há nada de errado em sua música, pois muito pelo contrário, o seu valor artístico é irrefutável. O que ocorre então, é que há uma crueldade institucional na maneira com a qual a música em geral é manipulada para ser usada como um mero joguete comercial e daí a questão da arte ser tratada sempre com desdém da parte de quem apenas a enxerga como um produto de alto consumo perecível.
Dessa forma, explicado o seu caráter institucional, passo a narrar o filme em sua história. A trama começa com o "Strange Fruit" a tocar em 1977, no Wisbech Rock Festival, no Reino Unido. No momento em que a banda vai iniciar a sua apresentação, está a ameaçar-se a incidência de uma grande tempestade e sob um momento marcado pelo extremo azar, algo inusitado ocorre, na forma de um raio que atinge o palco e provoca curto-circuito em todo o equipamento da banda, com a apresentação ainda em seu início. Furiosos, os artistas saem do palco e a banda encerra as suas atividades, pois, com o perdão pela metáfora, aquilo fora a gota d'água a marcar a frustração por ter perdido a sua grande chance na carreira. Claro, denota-se que uma série de problemas pregressos estiveram em processo de acumulação continua e não foi por tal intempérie tão somente que a banda chegou em seu rompimento.

Corte brusco, e agora, vinte anos depois, o ambiente é o do final dos anos noventa. O tecladista do Strange Fruit (Tony Costello, interpretado por Stephen Rea), sobrevive como um vendedor de preservativos, vendidos para abastecer lojas de conveniência instaladas em postos de gasolina. Eis que ele é reconhecido fortuitamente por um dos organizadores do lendário festival, onde o Strange Fruit vivera o seu infortúnio nos anos setenta, e este produtor lhe diz que vai acontecer uma nova edição do tal festival, e por causa dessa oportunidade, gostaria que o Strange Fruit participasse, novamente, e se possível, com a sua formação clássica, que apresentara-se na edição dos anos setenta. 

Essa proposta completamente inesperada acende uma luz na mente do veterano tecladista, e daí, ele passa então a rastrear os antigos companheiros, para promover uma reunião da banda, em princípio, apenas para a realização dessa apresentação sazonal. Isso é mostrado a realçar que o tecladista, Costello, envergonhar-se em ter sido flagrado a vender preservativos para sobreviver e ao tentar disfarçar a sua má condição financeira atual e sobretudo pela completa distância que ele mantém da música profissional, há anos, por motivos alheios à sua vontade, já é uma realidade dura para quem chegou perto de solidificar uma carreira artística e perdera o bonde da história.
O baixista, Les Wickers (interpretado por Jimmy Nail), agora é um pai de família e trabalha como recatado carpinteiro. A princípio, ao ser abordado, ele resiste à ideia de voltar a atuar com a banda, no entanto, em seu íntimo, ele percebe que poderia ser a chance de um resgate. É bonita a cena dele pensativo, enquanto abre o case (estojo) de seu baixo, e cujo instrumento, ele não toca há muitos anos. Curiosamente, o instrumento fora guardado no sótão da casa, bem longe de sua vista, a denotar que o simples olhar para ele, machucava-lhe em termos sentimentais.
Logo a seguir, aparece a figura de Karen Knowles (interpretada por Juliet Aubrey), ex-namorada de Brian (o guitarrista da banda e que era irmão de Keith Lovell, o primeiro vocalista, e este morrera por excesso com as drogas ainda no início dos anos setenta). Agora, a trabalhar como gerente de um grande hotel, Karen percebe a oportunidade surgida em meio a uma eventual volta das atividades da banda e insere-se no contexto, como produtora dessa nova fase que poderia advir para o grupo. 
O próximo a ser encontrado, é o baterista, David "Beano" Baggot (interpretado por Timothy Spall, muito conhecido por suas participações nos filmes a retratar a saga do aprendiz de bruxo, nos filmes de Harry Potter). Ele agora cuida de uma pequena propriedade rural, mas vive atormentado, pois deve uma fortuna ao fisco britânico e por causa dessa falha de sua parte, teme a presença de uma estranha mulher que ronda a sua propriedade e que ele julga ser uma funcionária, fiscal da Receita Real. Então, Beano, não pensa duas vezes, portanto, para largar suas ferramentas rurais e voltar a comandar as baquetas do Strange Fruit. Ao final do filme, a identidade da tal mulher que persegue Beano revela-se finalmente e adianto, é algo hilário.
E o vocalista, Ray Simms (interpretando por Bill Nighy, famoso por ser o vampiro líder da trilogia: "Underground"), vive basicamente do aluguel de sua mansão (comprada na época do auge do Strange Fruit, a constituir-se em um típico excesso da parte de um Rock Star britânico setentista), que é alugada esporadicamente para festas particulares. Além de ser a única forma de renda com a qual ele pode contar, é também, veladamente, a maneira que encontrara para manter a aparência, ao tentar viver e portar-se como um Rock Star, e mediante tal postura irreal, dizer à todos, que está a gravar um disco solo, há anos, que na verdade não passa de uma mentira, ou em seu íntimo, uma mera vontade, apenas um sonho impossível, naquele momento. Como os integrantes já agrupados não conseguem encontrar o guitarrista da formação original, Brian Lovell, pois descobrem que ele se mudara para os Estados Unidos e doara todos os seus bens para a caridade, eles presumem que possivelmente Brian, estivesse morto.
O último elemento a ser encontrado, é o ex-roadie da banda, Hughie (interpretado pelo ator/comediante e músico, Billy Connoly), que torna-se um funcionário multifacetado na volta do Strange Fruit, ao assumir as funções como roadie, road manager e técnico de som. Com a ausência do mítico guitarrista, Brian Lovell, o vocalista, Ray Simms assume a guitarra, mas logo no primeiro ensaio, percebem que ele está enferrujado, a tocar mal e sem condições portanto, para suprir a função. Resolve-se então colocar um músico jovem para ocupar a vaga, e após vários testes, contratam o novato, Lucas Shand (interpretado por Hans Matheson). 

Daí, sucedem-se cenas tragicômicas a abordar a volta do Strange Fruit aos palcos, portanto, a constituir-se da parte mais interessante do filme, no tocante a mostrar a banda a enfrentar uma cena artística completamente diferente da sua realidade vivida nos anos setenta. O choque em ter que começar do patamar zero, como uma condição sine qua non a preparar a banda para o festival, talvez seja a melhor parte do filme. E assim, , é mostrado que eles tocam em espeluncas vazias; são maltratados por tribos modernas que os rejeitam como veteranos setentistas, são desdenhados por bandas "hypadas" e horrorosas, dessas que arvoram-se em torno de conceitos esdrúxulos e vazios  que não duram até o próximo verão. 

Por exemplo, no tocante ao fator em que não saber tocar um instrumento musical decentemente é valorizado como um trunfo em torno da suposta "atitude", amparado por discutíveis  estéticas modernas ou "modernosas", no sentido pejorativo do termo. Como se não bastassem as adversidades externas, há margem igualmente para que explodam ressentimentos antigos entre os membros, portanto, um substrato para alimentar a trama com conflitos etc.explodem ressentimentos antigos entre os membros etc. Além disso, também se acumulam pequenas vitórias, e como membros de uma boa banda setentista que são, culminam por interpretar tais fenômenos como "sinais" místicos que os levam para frente. Fãs jovens que nem eram nascidos nos anos setenta, aparecem para venerá-los e isso serve como estímulo para animar os veteranos músicos.
Sob uma virada da história, descobrem que o antigo guitarrista, Brian Lovell (interpretado por Bruce Robinson), não estava morto, mas recluso em uma clínica para recuperação de viciados em drogas. E ao final, a banda toca enfim no grande festival para uma plateia imensa e o guitarrista, Brian Lovell, aparece de surpresa para reunir-se com a banda, que se torna então um sexteto bem encorpado.
O diretor Brian Gibson (que assinou obras tais como: "Billion Dollar Bubble"; "Poltergeist II"; "Tina" etc), soube explorar em diversas sketches bem alinhavadas, um panorama divertido e comovente sobre uma banda veterana, a lutar para vencer adversidades anacrônicas, e sobretudo, frustrações pessoais alimentadas por homens de meia-idade, amargurados pelo fracasso pregresso. Além desse contraponto entre o drama e a comédia, o filme contém cenas belíssimas, plasticamente, também. 

Uma lembrança da banda ainda jovem, como se fosse um "promo" da época, remete ao Pink Floyd, da fase Syd Barrett. É linda a atmosfera psicodélica, nela contida.

Uma outra cena tragicômica é protagonizada pelo vocalista do Strange Fruit, deprimido por estar a completar cinquenta anos de idade, e após drogar-se, e sair pelas ruas para caminhar a esmo, em uma rua sob o frio intenso do inverno europeu, e nem perceber que mediante as suas pesadas botas de plataforma, tenha furado a camada de gelo de um lago e assim, sob um acidente patético, quase morre afogado. 

Por ocasião do lançamento do filme, em 1998, o ator, Bill Nighy, que interpretou o vocalista (Ray Simms), chegou a declarar que  inspirou-se no vocalista, David Coverdale, para compor o seu personagem. Rumores não confirmados, deram conta de que a banda Strange Fruit foi inspirada no Uriah Heep, banda britânica que foi fundada em 1968, e atravessa décadas em plena atividade (até os dias atuais, inclusive, 2012), incólume aos modismos, sem esmorecer. Outra cena emblemática, dá-se em meio a uma coletiva de imprensa, quando os jornalistas ali presentes, demonstram estar a buscar uma linha de perguntas desdenhosas para menosprezar a banda, por ser veterana e supostamente inapta a atuar em tal novo panorama do Rock. É forte a intervenção do jovem guitarrista, Luke Shand, que inconformado com aqueça linha capciosa ali adotada pela imprensa, faz um duro discurso a exortar os jornalistas a respeitar os seus colegas veteranos, a lembrar-lhes a trajetória pregressa admirável que eles possuíam.
É interessante e sintomático que o jovem em questão, demonstrou deter tal noção e a denotar que se orgulhava em estar a atuar nessa banda ao lado de ´músicos experientes, cujo valor ele sabia que eles possuíam. É a velha questão dos jornalistas tendenciosos; os caçadores de "hypes" que se portam sempre dispostos a arranhar a reputação alheia, por pura vaidade.


Ao longo do filme, várias referências Rockers são evocadas. Membros do Strange Fruit citam bandas setentistas com quem teriam tocado em ocasiões ocorridas naquela década. A trilha sonora é muito boa e o som do Strange Fruit, situa-se entre o psicodélico quase no limiar do Prog-Rock (lembra nesse aspecto, o trabalho de bandas como o "Procol Harum"; "The Move"; Atomic Rooster" etc), e o Hard Rock bem melódico do "Uriah Heep"; "Lucifer's Friend", "Bad Company" etc. 

É uma boa produção, inclusive na ambientação de shows ao vivo; fotografia, direção de arte, figurinos e muito bom elenco, formado por atores oriundos da boa safra britânica, dos anos noventa. É um bom filme para rir, com as boas piadas contidas no roteiro, mas também para emocionar-se, pois a parte do drama é igualmente bem desenvolvida. E serve para pensar nessa bobagem que certos jornalistas e críticos insistem em fomentar sobre o caráter "datado" deste ou daquele artista. Pois eis que eu aproveito esta resenha para afirmar que música é atemporal e só um quesito importa para conceder-lhe a imortalidade: se a obra, toca-lhe o coração! Pois se isso não acontece, ela perece, simples assim.

Sobre o elenco, ainda menciono as participações de: Rachel Stirling (como Clares Knowles), Helena Bergström (como Astrid Simms), Alphonsia Emmanuel (como Camille), Phil Daniels (como Neil Gaydon), Zoe Ball (como ela mesma e essa moça é uma personalidade da comunicação televisiva no Reino Unido), Frances Barber (como "Lady in Black"), Lee Williams (como Keith Lowell), e outros.
A trilha sonora, como eu já mencionei, é muito boa. Tanto que o CD a conter o repertório usado como a música do Strange Fruit, teve uma repercussão interessante, ao ponto de haver quem pensasse que tal banda fosse verdadeira. Destacam-se as canções: "The Flame Still Burns", "All Over the World", "Dirt Town", "Black Moon", "Scream Freedom", "Dangerous Things", "What Might Have Been" e "Stealin".
A crítica falou bem sobre o filme, em linhas gerais. Destacou-se a questão da sua boa exposição da temática proposta, conceito do qual eu concordo. Alguns jornalistas, no entanto, ao encarar o filme como uma mera comédia, compararam-no a outros filmes mais centrados nessa predisposição cômica para retratar os meandros de um grupo de Rock, tais como: "This is Spinal Tap" e "The Rutles". Por não tratar-se de uma comédia propriamente dita, como esses dois citados, mas a conter algumas pitadas (boas, por sinal), eu creio que a comparação é indevida, pois a intenção de "Still Crazy" não foi trilhar o caminho da comédia de uma forma deliberada, mas simplesmente buscar-se conter uma dose de humor inserida em seu contexto. Em seu âmago, o filme é muito mais um drama, a conter muitos predicados nesse sentido.
Foi destacada, igualmente, a boa atuação do ator, Bill Nighy, e nesse sentido, eu concordo, pois ele teve uma performance muito boa, de fato. De volta a citar a cena em que ele quase morre em um acidente lamentável, por ter sentido-se deprimido em atingir a idade cinquentenária, deu-lhe a oportunidade para brilhar, visto que a sua expressão em~não conseguir conter a sua frustração por ter atingido tal idade cronológica, revelou toda a questão da pressão exercida em atribuir ao Rock, a primazia de ser exercido por jovens, tão somente. No entanto, ao considerar que o Rock nasceu oficialmente nos anos cinquenta, é óbvio que enquanto instituição cultural, envelheceu com o passar do tempo e assim, tal como o Blues e o Jazz, também tornou-se passivo em ser exercido por pessoas mais velhas e não apenas pelos jovens, sob o ponto de vista cronológico. Talvez seja mais uma mensagem subliminar exercida por esse filme, portanto. Questão meramente paradigmática, se ninguém incomodar-se em assistir/ouvir um bluesman ou um jazzer, que seja um octogenário a apresentar-se e muito pelo contrário, existir nesse caso, claramente uma admiração explícita pela longevidade física de tais artistas, eu não vejo por que os artistas que militam no Rock, ou Rockers, simplesmente, também não possam envelhecer a atuar, criar e continuar a contribuir com o seu talento, até onde a sua saúde física e mental permitir-lhes.
Escrito por Dick Clemente e Ian La Frenais. Produzido por Amanda Marnot e dirigido por Brian Gibson. Foi lançado em outubro de 2008. Há por considerar-se que o ambiente no Reino Unido, por conta de seu lançamento foi favorável, visto que o movimento "Brit Pop", que existira em boa parte dos anos noventa, pautara-se por uma boa vontade em resgatar-se a sonoridade do Rock sessentista em essência, portanto, ao contrário da década de oitenta, em que o niilismo proposto pelas estéticas oriundas do Pós-Punk, ostentou, como pauta a hostilidade às estéticas sessenta/ setentistas, nessa fase dos anos noventa, houve uma simpatia explícita a pairar no ar. Não é o caso específico da proposta deste filme, pois o som do Strange Fruit diz respeito aos anos setenta, em tese, no entanto, como a atmosfera simpática aos anos sessenta tende a estender-se naturalmente à década posterior, por uma questão de lógica, creio que em seu bojo, foi um bom momento para que "Still Crazy" fosse lançado.
O filme teve uma boa figura nas salas de cinema, com uma bilheteria bastante razoável, à época de seu lançamento. Passou bastante, já no ano posterior, em canais de TV a cabo, e foi rapidamente lançado em formato DVD e com a sua trilha a cumprir uma boa figura como CD, como eu já havia mencionado. Em termos de Internet, é possível ser encontrado para assistir-se em portais tais como: Filmaffinity, TrackTV, Apple TV e outros. No YouTube, atualmente (2012), está mais difícil achá-lo na íntegra, porém, apenas em fragmentos.
Gosto muito desse filme, pois o assisti em uma época em que a sua mensagem reforçou muito a minha vontade de seguir a acreditar em minhas convicções pessoais dentro de meus esforços para prosseguir em minha carreira como músico. Foi um alento importante para que eu reafirmasse portanto, os meus ideais e mais do que isso, resgatasse a energia que eu tinha nos anos setenta, quando iniciei os meus esforços para tornar-me um músico e sobretudo um Rocker, completamente arrebatado pela força mágica do Rock das décadas de 1960 e 1970. Esse filme tem essa energia embutida e, portanto, para quem comunga dos ideais, eu recomendo que o assista.
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

Posteriormente, esta resenha foi revista e aumentada para ser publicada no livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume I, a partir da página 118.