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sábado, 12 de janeiro de 2013

Livro : Retratos Inesquecíveis - Por Luiz Domingues

Quando vemos no cinema, livros ou na mídia em geral, histórias a envolver relatos sobre órfãos, geralmente reagimos com consternação. Comovemo-nos, emocionamo-nos e sobretudo, solidarizamo-nos com os envolvidos, porém, a manter uma barreira regulamentar, como a estabelecer uma divisória clara.
Isso não é uma regra geral, ainda bem, e existe no mundo inúmeras pessoas absolutamente altruístas que divide o seu amor de forma visceral, em prol de crianças que não tiveram a sorte em ter um lar estruturado, com papai e mamãe carinhosos; irmãozinhos e vovós adoráveis. Nesse caso, quando deparamo-nos com essas pessoas, cujo prazer na vida é doar amor, de forma equânime entre diversas crianças, sem nenhum laço sanguíneo que una-os, percebemos claramente o quanto é relativo o conceito de amor, para variar conforme fatores culturais, tão somente. Posto isso, digo que chegou às minhas mãos um livro autobiográfico, escrito por uma amiga chamada, Elizabete Rodrigues Lima.


O nome da obra é "Retratos Inesquecíveis", onde ela, a autora, narra com muita poesia e também uma certa pungência, sobre a sua criação, dentro de uma instituição de abrigo à crianças órfãos, na cidade de Lins, interior de São Paulo. Tal livro, muito bem escrito e documentado, impressionou-me positivamente, por vários aspectos.

Em primeiro lugar, a reflexão imediata que provocou-me, foi no sentido para repensar alguns conceitos referentes à orfandade. Com um relato desses, percebemos claramente que aquele conceito de que órfão sucinta pena, pode ser muito equivocado. É claro que o ideal seria que todo mundo, sem exceção, nascesse em um lar estruturado, com a criação sendo feita sob o teto e o amor de uma família biológica tradicional. Não trata-se portanto em discordar desse conceito social.

Contudo, tirante as instituições mal administradas e / ou mal intencionadas, acredito que em sua maioria, as instituições que abrigam tais crianças carentes, tem o objetivo sério e caridoso, principalmente se levarmos em conta que a maioria é administrada por grupos religiosos, com objetivos morais concatenados com a ética espiritual. Existe inúmeras instituições católicas e protestantes, mas é destacada a ação dos espíritas Kardecistas nessa área, pois a caridade é um pilar básico da doutrina e exercê-la é ponto pacífico entre os seus seguidores. E foi o caso de Elizabete, que teve a sorte por ter sido conduzida à uma instituição espírita, denominada : "Lar Antonio de Pádua", localizada na cidade de Lins, noroeste do Estado de São Paulo.
 

Logo no início da narrativa, Elizabete deixa claro que há um mito geral arraigado, ao dar conta de que todas as crianças conduzidas à tais instituições, não tem pais ou parentes próximos. Isso não é verdade, na medida em que muitas crianças são conduzidas à tais estabelecimentos, por outros diferentes motivos. Por exemplo, muitas crianças são levadas pela total impossibilidade de suas famílias biológicas poder arcar com o seu sustento; outras tantas por conta de ausências decorrentes de internações e /ou encarceramentos de pais e responsáveis, e muitas são "filhas da prostituição", como eufemisticamente a autora colocou. Outro ponto, foi o do relato carinhoso de Elizabete ao referir-se às pessoas que administravam o Lar que a abrigou.


É com minha emoção que escreve diversas passagens sobre uma funcionária muito amorosa, chamada : Dinah, a quem as crianças, Elisabete incluso, chamavam carinhosamente como : mãe Dinah. Através dessas passagens, onde descreve diversas facetas ocorridas por muitos anos e envolvendo a mãe Dinah, Elisabete deixa claro que naquele lar, teve todo o amor necessário à sua formação. E com muita capacidade narrativa, ela descreve muitas lembranças, da tenra idade ao fim da adolescência, onde como regra da casa, aos completar dezoito, as crianças precisavam sair, mas amparadas mesmo assim, com o estudo fundamental concluído, e encaminhadas para prosseguir os estudos em faculdades e preparadas para a vida social adulta, plena.

Com riqueza de detalhes, Elizabete traz em suas reminiscências, muitos aspectos : a rotina da instituição; as lembranças das amigas; as brincadeiras das amigas; algumas travessuras; os primeiros contatos com a socialização fora da casa; doenças infantis; tarefas, o aprendizado de preceitos sociais etc. E segue adiante, ao cumprir um apanhado da transição para a adolescência, mediante as suas atribuições inerentes, tais como a descoberta da sexualidade, interesse pela escolha de uma profissão etc. E um fato que considerei pungente : com a proximidade da data limite para a saída do Lar, a preocupação em ter que deixar a casa e a família que tanto amava.


Com isso, ficou claro a mensagem da obra, a exprimir que nem todo órfão é um carente em potencial, e que o amor não precisa ser exercido necessariamente entre pessoas unidas pelo vínculo biológico, tão somente. Finalmente, o último ponto positivo ao meu ver, foi a riqueza de detalhes, tanto nas lembranças descritas, quanto na farta documentação de fotos; manuscritos e impressos guardados com muito carinho por ela e publicados no livro.
Elisabete Rodrigues Lima é uma pessoa feliz e grata pela criação que teve. Fora do Lar Antonio de Pádua, trabalhou; casou-se e teve dois filhos. Fica a dica para o sr. Oceano Vieira de Melo, famoso produtor de filmes com teor Kardecista, para que preste atenção e  com carinho no livro : "Retratos Inesquecíveis", que na minha opinião, rende um bom e emocionante filme sobre o amor imaterial. Hoje, Bete é uma avó muito orgulhosa e passa aos seus, o amor que teve da mãe Dinah, e também de outras pessoas com as quais conviveu e recebeu muito carinho, como os "tios" Gil e Aurora Moura, e tantos outros citados no livro.


Da maneira como Elisabete estruturou a sua autobiografia, parece um roteiro pronto para o cinema.

Para contato direto com a autora, aquisição da obra e /ou sugestões, contato pela página do livro "Retratos Inesquecíveis", no Facebook :