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sábado, 13 de junho de 2015

O Dia em que o Mestre do Suspense quase disse: "Alô, Doçura"... - Por Luiz Domingues


No início dos anos sessenta, a atriz paulistana, Eva Wilma, apesar de bem jovem ainda, já era muito reverenciada pelo seu talento. Ela mantinha um currículo enorme a arrolar realizações no campo do teatro, cinema e TV, além de participações na dança e na publicidade. 
 
Filha de pai alemão, com mãe argentina (mas descendente de pais judeus ucranianos), Eva tinha bastante bagagem cultural já de nascença, quando descobriu ainda menina, o sonho de ser uma bailarina.
Estudou, se desenvolveu e teve bastante apoio dos pais, incluso com aulas de música, ao aprender a tocar violão e piano. Eva perseverou e foi agraciada com a inclusão no balé do IV Centenário de São Paulo, uma honraria que poucas bailarinas de sua tenra idade, poderiam sonhar realizar.
Entretanto, a sua paixão natural pela dança lhe abriu uma outra porta na vida, pois convidada para atuar no teatro, quando descobriu então a sua vocação maior, ao se tornar uma atriz muito talentosa.
 
Estudiosa e compenetrada, ela foi fundo nesse mergulho visceral na sua profissionalização, ao se embrenhar entre as melhores companhias teatrais de São Paulo e daí, foi um passo natural ir atuar também no cinema e na TV. 
 
Claro, o veículo da TV, mesmo ainda emergente nos anos cinquenta, lhe proporcionou a fama mais abrangente.
Popular por ser atriz de uma "sitcom" que estourou no gosto popular do povo (Alô, Doçura”, que aliás  já foi objeto de uma matéria minha em específico, para o Site/Blog Orra Meu”, e devidamente republicada aqui em meu Blog 1, portanto, basta procurar no arquivo deste Blog ), foi natural estabelecer uma longa carreira na dramaturgia das novelas.
Alguns anos depois, quando já havia feito também, dezenove filmes no cinema brasileiro (e alguns verdadeiramente sensacionais, caso de "São Paulo S/A", por exemplo), uma oportunidade surpreendente, até para uma atriz de seu gabarito, lhe ocorreu. 
 
Convidada a participar de um intercâmbio nos Estados Unidos, patrocinado pela embaixada norte-americana no Brasil, Eva se dirigiu a Los Angeles, Califórnia, no ano de 1969, acompanhada de outros atores brasileiros.
Através de uma visita que fez aos estúdios da Universal, ela teve uma surpresa quando almoçava no refeitório dessa companhia. 
 
Ocorreu que um produtor cinematográfico a abordou e já com a informação de que todos naquela mesa eram atores brasileiros em visita ao estúdio e a participarem de um intercâmbio de teatro, eis que esse funcionário lhe perguntou se ela aceitaria fazer um teste de fotos, pois ele trabalhava na produção do próximo filme do grande diretor britânico, Alfred Hitchcock e o “mestre do suspense” estava justamente a procurar uma atriz latino-americana para compor o elenco dessa nova produção.
Consagrada no Brasil, com extensa obra, Eva não se deslumbrou necessariamente, mas claro que receber um convite desses ali, inesperadamente não fora uma má ideia entretanto, pelo contrário, a possibilidade de participar de uma obra de um dos maiores diretores da história do cinema, no mínimo seria uma experiência profissional ímpar. 
 
Sem maiores ponderações, portanto, Eva aceitou o convite. Foi preciso passar pelo crivo da aparência, para que então se submetesse a um teste com Hitchcock em pessoa e Eva aceitou de pronto o desafio.
Eva fez algumas fotos promocionais ali mesmo, em um estúdio fotográfico da empresa e pouco tempo depois, foi informada que Hitchcock a aprovara e a produção marcou assim um teste de atuação formal.
Hitchcock detinha três obsessões como diretor de cinema, que foi uma atribuição sua, pública e notória:
1) Ele gostava de filmar histórias policiais.

2) Adorava abordar histórias com fundo a conter a teoria da conspiração, mediante tramas perpetradas por organizações secretas a arquitetar tramoias para derrubar governos e ideologias.

3) Era obcecado por mulheres louras.

Sob um primeiro momento de sua carreira, ele fez vários filmes a abordar os meandros do nazismo a se infiltrarem na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas com o passar do tempo e o nazismo derrotado, ele centrou então as suas baterias na Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, para criar assim, muitos filmes a envolver tal temática.
O próximo filme que realizaria, seria novamente a abordar a Guerra Fria, e por isso, ele precisava escolher uma atriz latino-americana para interpretar uma cubana, que não seria a protagonista da história, mas teria um papel importante na trama. 
 
Então, em meio a uma manhã fria e bem cedo, Eva chegou ao estúdio ocupado por Hitchcock e sua entourage, nas dependências da Universal Pictures. Ela não apreciou de pronto a caracterização que a equipe de maquiagem e figurino lhe proporcionou, mas que fora uma exigência para o papel designado pelo mestre Al: com incômodos dentes e seios postiços, naturalmente que isso lhe causou um desconforto.
Então, finalmente chegou o momento para conhecer o grande mito do cinema e aí, mesmo sendo já uma atriz tarimbada, premiada, super competente e experiente, ela ficou naturalmente nervosa e claro que foi uma reação perfeitamente compreensível. 
 
Quando chegou ao estúdio, haviam cinquenta técnicos aproximadamente da equipe em prontidão para iniciar o teste, e claro que isso lhe intimidou ainda mais.
Sob uma entrada triunfal, Hitchcock chegou sob aplausos da sua equipe técnica, em uma demonstração de respeito, mas que também poderia ser interpretada como algo muito perturbador, é claro, pelo aspecto de uma indisfarçável subserviência, quiçá a conter uma dominação doentia do diretor em relação aos seus subordinados. 
 
Eva era bem experiente em set de filmagem de cinema e de TV, mas ao observar aquele homem frio, fleumático, e absurdamente famoso, claro que teve calafrios, ao suar.
Hitchcock pegou em sua mão e sentiu que estava gelada. Então  lhe perguntou se ela estava nervosa, ao que a atriz brasileira lhe respondeu que, sim. 

Al lhe falou que aquilo era uma grande brincadeira e quem quisesse levar a vida a sério deveria escolher outra profissão. Ao ir além, ele disse que falara isso reiteradamente para Grace Kelly, Kim Novak, Tippi Hedren, Ingrid Bergman... bem, se a intenção foi tranquilizar a jovem atriz brasileira, a julgar pela prosódia escolhida, deve ter tido efeito contrário, ainda mais intimidador. 
 
Dois testes tradicionais, a repetir falas do script, foram realizados, mas Al quis um terceiro teste mais pessoal, como se fosse uma entrevista de emprego, face a face com ele. Ao dar o comando clássico bordão, “light, camera... action”, Al deu início à entrevista.
Ao começar suavemente, mediante perguntas amenas, do tipo: como vai (?) sente-se bem (?), o diretor se pôs a aumentar o tom da conversa, para se tornar agressivo, paulatinamente. 
 
A sua intenção se tornara clara ao provocar, causar irritação na atriz e em um dado momento, ela explodiu, por não suportar mais os dardos mentais lançados pelo mestre. Em princípio, Eva alegou que não conseguia raciocinar com a mesma rapidez em uma língua estrangeira, ao que o mestre lhe retrucou que continuasse a se expressar em português, então.
Bingo... Al queria vê-la como reagia quando nervosa, ao falar através de uma língua latina e quando se deu por satisfeito, gritou “cut”, para encerrar o teste. 
 
Dias depois, Eva recebeu o comunicado que não fora escolhida, pois uma atriz alemã chamada, Karin Dor, fora contratada para o papel.
Claro que Eva se chateou, pois tal oportunidade poderia ter aberto portas internacionais e ela reunia condições para construir uma carreira fora do Brasil, como boa atriz que era (é). 
 
Todavia, inteligente e bem resolvida que era (é), a não concretização dessa oportunidade também não lhe causou dano algum e assim, de volta ao Brasil, o teatro, a TV e o cinema continuaram a contar com o seu talento, aliás, até hoje, ainda bem para a cultura nacional. 
 
O filme em questão foi: “Topaz” (“Topázio”).
Como eu já disse anteriormente, foi mais um filme de Hitchcock a centrar as suas baterias em uma trama mirabolante, em meio à Guerra Fria, e neste caso, a inclusão da personagem cubana foi importante para a história. 
 
Mas daí a contratar uma atriz alemã para interpretar uma mulher cubana, em detrimento de não haver contratado Eva, foi estranho em princípio. Mas foi um fato também, que a atriz em questão era morena e não detinha o padrão típico do biotipo germânico.
Voluptuosa, Karin tinha mais aparência latina que a própria Eva, que filha de pai alemão e mãe argentina com origem ucraniana, mais se parecia com uma moça europeia, do que latino-americana. 
 
Além disso, houve a intercessão do fator de maior peso: Karin Dor já houvera sido uma "Bond Girl" em 1967, quando atuara em um dos filmes da franquia da saga do agente secreto britânico, James Bond-007 (no filme: "You Only Live Twice" - "Com 007, só se vive duas vezes"). Quero crer que tenha sido essa a razão maior para a sua contratação.

Eva sempre brinca nas entrevistas que concede, ao tocar nessa passagem de sua vida, que o seu consolo foi que o filme não entrou na lista dos melhores trabalhos do mestre, e pelo contrário, é considerado por muitos, uma obra menor em sua filmografia.
Particularmente, eu tendo a concordar com essa opinião generalizada, mas em termos, pois faço a ressalva de que “Topázio” é demonizado em demasia, porque embora realmente não reúna condições para se comparar às melhores obras de sua filmografia, está longe de ser um filme ruim.
Ao ir além, ao se comparar com 99% do que observamos na produção cinematográfica de alguns anos para cá, "Topázio" é um filme espetacular. 
 
Assim foi essa curiosa passagem de uma grande atriz brasileira, pelas mãos de Alfred Hitchcock, ou seja, o dia em que o mestre do suspense quase falou...”alô, doçura”....
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2015

terça-feira, 24 de julho de 2012

Filme : The Omega Man (A Última Esperança da Terra) - Por Luiz Domingues


Durante décadas, o imaginário do povo norteamericano foi atormentado pelo pesadelo nuclear iminente, como clímax possível ante o desfecho da guerra fria. A ideia de um ataque massivo do inimigo vermelho, a aniquilar o american-way-of-life tornou-se um manancial importante para os produtores de cinema, que valeu-se dessa paranoia para lançar inúmeros filmes com esse mote.

E foi a pensar nisso que o produtor, Walter Seltzer, propôs modificações no roteiro que adaptava, baseado no livro : "I Am Legend", lançado em 1954, cujo autor foi um escritor chamado : Richard Matheson. Sendo assim, Seltzer pediu ao casal de roteiristas, William e Joyce Corrington, que mudasse-se a ideia original do livro, onde a humanidade é dizimada por causa de um vírus misterioso, para uma contaminação bacteriológica gerada por uma eventual terceira Guerra Mundial.


O livro já inspirara uma versão cinematográfica produzida em 1964, estrelada por Vincent Price, mas com outro título ("The Last Man on Earth"), mas tempos depois, gerou uma nova versão em 1971, que chamou-se : "The Omega Man" ("A Última Esperança da Terra", em português) e mais ainda, no futuro, 2007, uma nova versão surgiria ("I Am Legend"), com Will Smith, e a atriz brasileira, Alice Braga, como protagonistas. No filme de 1971, Charlton Heston interpreta o cientista / médico e coronel do exército, Robert Neville.
A ação dessa segunda versão que eu comento, passa-se em 1977, sob um futurismo breve (visto que foi lançado em 1971), onde o cenário é o de um mundo que foi devastado pela guerra nuclear que teria sido deflagrada em 1975. Neville pesquisava uma vacina para coibir os efeitos devastadores da radiação, quando sob uma emergência, injeta em si próprio o experimento, através de uma atitude desesperada.

Para a sua sorte, a vacina logra êxito e ele sobreviveu de uma forma saudável, e assim, tornou-se imune aos efeitos da radiação. Vive então em uma Los Angeles devastada, entre cadáveres, solitariamente até certo ponto, pois logo percebe que um dos efeitos da radiação foi criar uma degeneração em alguns humanos sobreviventes. Por alterar-lhes o metabolismo de forma radical, tornaram-se criaturas sombrias, com forte dose de fotofobia e alterações psíquicas acentuadas, ao transformá-los em fanáticos.

Formam uma seita fundamentalista, autodenominada : "A Família", e o seu principal objetivo passa a ser perseguir o coronel Neville, ao responsabilizá-lo por ser o último baluarte de uma cultura decadente que destruiu o mundo graças ao seu egoísmo e mediante a sua tecnologia, principalmente em favor da beligerância (bem, o que não deixa de ter um fundo de verdade...). Neville transforma o seu apartamento em um autêntico "bunker", super equipado e no período noturno, protege-se dos ataques dos membros da "família", sem nenhum pudor, ao metralhá-los à queima roupa, tranquilamente de sua sacada.
Durante o dia, Neville anda pelas ruas de Los Angeles, completamente vazia e entrega-se ao consumo, de uma forma bizarra. Entra e sai de lojas a pegar o que deseja, inclusive produtos fúteis, em uma clara crítica subliminar ao consumismo desenfreado (é para isso que criamos uma "civilização " ?). É muito interessante o grau de sarcasmo de suas falas, nitidamente inspiradas nas histórias em quadrinhos de certos de super-heróis da Marvel e DC Comics (Spider Man; Deadpool etc). Quando entra em uma concessionária de automóveis, por exemplo, dialoga com o cadáver do vendedor, como se ele estivesse vivo e ironiza o suposto preço do automóvel caro que toma posse, sem cerimônia.

Outra cena muito significativa, é quando resolve entrar em uma sala de cinema e ele mesmo assume o projetor, para exibir o documentário : "Woodstock", para a sua presença solitária na plateia. Por demonstrar tê-lo visto muitas vezes, sabe as falas de Country Joe McDonald, de cor e ironiza o sonho hippie de um mundo fraterno, diante da devastação nuclear em que vive. Em uma dessas andanças, percebe algo a mover-se em uma loja de roupas e atônito, percebe ser uma mulher não infectada pela radiação, mas ela foge assustada.
Pouco tempo depois, vacila e é emboscado por membros da "Família". Capturado, é sumariamente conduzido a ser submetido a um tribunal sumário e abjeto, quando é sentenciado à morte pelo líder da seita, um ex-âncora da televisão, chamado : Mathias (interpretado por Anthony Zerbe). Essa cena também é emblemática, pois muito induz-nos a lembrarmo-nos dos infames tribunais medievais da inquisição. Quando vai ser martirizado no campo de um estádio de futebol norteamericano, dois humanos não infectados o salvam de uma forma espetacular. Uma dessas pessoas, é a mulher que ele vira na loja. Trata-se de Lisa (interpretada por Rosalind Cash). Sim, havia humanos ainda saudáveis, mas estes mostravam-se bem desconfiados de Neville, em uma primeira instância.

Entretanto, eles logo acertam-se e não demora muito para que Neville passe a interessar-se por Lisa, afinal de contas ninguém é de ferro e esse negócio de escassez de opções... bem, estava justificado o momento romântico do filme, mas isso causou celeuma nos Estados Unidos à época, por um único detalhe : Lisa era uma mulher negra. Salvo o beijo que o capitão Kirk deu na tenente Uhura, em um episódio de Star Trek e que fora um escândalo, no cinema, era algo ainda mais escandaloso. Lisa revela que existe uma comunidade de humanos não infectados a viver fora de Los Angeles que fora formada por crianças e adolescentes, praticamente.

Somente Lisa e um rapaz estão entre eles, e curiosamente esse adulto é um hippie, que fora aluno de Neville na Universidade e possuía conhecimentos sobre vacinas (no filme, ele é identificado apenas como "dutch"/ holandês, e foi interpretado por Paul Koslo). Mas o irmão adolescente de Lisa (Ritchie, interpretado por Eric Laneuville), está infectado e ela teme que ele torne-se um mutante igual aos membros da "Família" e sendo assim, Neville propõe-se a aplicar a vacina experimental nesse rapaz.

Neville consegue reverter o processo e o garoto cura-se, mas sob um ímpeto juvenil em torno da ingenuidade, o rapaz resolve procurar o líder da "Família", Mathias, para tentar convencê-lo de que Neville tem a cura para toda a comunidade de mutantes. Claro, Mathias interpreta isso como uma afronta e executa o garoto. Em uma virada da história, Lisa infecta-se e torna-se uma mutante, repentinamente.

Dessa forma, através dela, que está fora de si, arma-se uma emboscada dentro do apartamento / bunker de Neville. As cenas finais são bastante angustiantes e cheias de simbolismo, pois evocam o martírio de Neville quase como o de um Messias moderno, arauto do bem contra o mal.

Em meio a lutas, Neville consegue salvar a vacina que seu pupilo, "Dutch", aplicará às crianças e também reverterá o processo de Lisa. Neville está morto, dentro de uma fonte em frente ao seu apartamento e com os braços abertos, ao parecer crucificado. O seu sangue derramado tornou a água turva e rubra. E o golpe de misericórdia fora uma lança arremessada por um dos membros da "Família" (qualquer semelhança com uma história que você já ouviu por aí, não é mera coincidência...).

Alguns críticos foram impiedosos, ao considerar essa resolução piegas, por essa suposta conotação cristã de um ser magnânimo em que sacrifica-se para salvar a humanidade. Particularmente, acho que foi uma tremenda má vontade da parte desses profissionais, que talvez desejassem um final mais feliz. Certamente que agradar-lhes-ia o desfecho de um famoso Sci-fi dos anos oitenta, onde a Los Angeles do futuro seria um mundo desolador; decadente e infecto, habitado por robots com aspecto punk, mas eu não raciocino assim, pois prefiro mil vezes a esperança hippie de um mundo fraterno.

Gosto bastante desse filme por muitos aspectos. A ideia de viver solitariamente foi um mote e tanto. Geralmente essa ideia é retratada em filmes sobre naufrágios (Robinson Crusoé é a primeira lembrança óbvia nesse sentido). Neste caso, a saga do homem solitário a viver em uma cidade grande e tentar viver a vida como se nada tivesse ocorrido, ultrapassa o clichê do náufrago em uma ilha inóspita a construir ocas com bambus e vegetação tropical.
O grau de sarcasmo com o qual o personagem, Neville lida com isso, faz-me lembrar dos diálogos do Homem-Aranha nas revistas em quadrinhos, onde ele não limita-se a enfrentar os seus inimigos na base da truculência, mas principalmente através da verborragia plena em ironia fina e deboche. E gosto sim do conceito da esperança, pois a minha estética é a da beleza e não da feiura, por isso sou assumidamente um entusiasta do Flower Power sessentista.

"The Omega Man", foi dirigido por Boris Sagal, e possui todos esses elementos, ao mostrar-se um filme que prende a atenção do espectador, até o final.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Filme: Phantom of the Paradise (O Fantasma do Paraíso) - Por Luiz Domingues

Sob uma soma de influências, a abranger da literatura ao cinema clássico, Brian de Palma realizou um dos filmes mais loucos com o mote do Rock, ao alinhavar tais referências múltiplas, ao lançar em 1974: "Phantom of the Paradise" (O Fantasma do Paraíso).

Fracasso retumbante de crítica e de público à época (com exceção da cidade de Winnipeg, Canadá, onde ficou em cartaz por mais de um ano e vendeu mais de vinte mil cópias do LP, com a trilha sonora, algo deveras estranho enquanto fenômeno isolado), o filme paulatinamente ganhou status como "cult movie", à medida que envelheceu, por agradar Rockers em geral; fãs de literatura e cinéfilos, tamanha a profusão de referências misturadas desses ramos, em seu enredo. 
                          O grande diretor, Brian De Palma

É preciso situar o leitor em torno dessa miscelânea criada pelo diretor britânico, Alfred Hitchcock, Brian ficaria famoso por seguir a linha de seu ídolo, no sentido de filmar histórias a conter mistério, quase no limiar do terror e com forte conotação política em torno de crimes espetaculares, geralmente a envolver ação da parte de serial killers etc. 

Tanto foi assim, que Brian foi estigmatizado por alguns críticos como o "novo Hitchcock". No entanto, antes de adquirir tal fama em ser supostamente um seguidor da tradição do velho mestre (com a devida ressalva de que em 1968, o seu filme, "Murder a la Mod", foi fortemente influenciado por Hitchcock e a misturar-se com os ecos da Nouvelle Vague francesa, via Jean-Luc Godard e em 1973, "Sisters", outro filme seu, também apontara para esse caminho).

De Palma também filmara com uma certa influência da contracultura que explodia nas ruas, vide o caso de "Greetings", filme que lançou em 1968, a conter críticas à Guerra do Vietnã, em tom de comédia e também com "Hi, Mom", de 1970 (uma sequência direta de "Greetings", onde  em meio à trama, o cinema alternativo e sobretudo o teatro experimental, muito em voga no bojo da movimentação contracultural da época, foi mostrado em cenas muito interessantes e fortes, em tom de denúncia e repúdio ao racismo. Em síntese, Brian teve em mente desde sempre o seu caminho como diretor, bem delineado, mas a contracultura de uma maneira ampla, também o influenciara de certa forma.
Sobre "Phantom of the Paradise", propriamente dito, além da inspiração explícita em "Faust" de Goethe e "The Phantom of the Opera", de Gaston Leroux, acrescente-se também a clara inclusão do conceito de "The Pictures of Dorian Gray", de Oscar Wilde para fechar  a tríplice lista de romances da literatura que misturados e devidamente embalados por uma história desenvolvida em torno da indústria fonográfica (e a reboque a trazer o universo  da música Pop e as suas múltiplas ramificações a envolver as manipulações perpetradas pelo show business), gerou esse filme, que poderia  ser considerado, tamanha a sua multiplicidade de informações, um autêntico "Frankenstein", no sentido que foi montado a partir de muitas partes distintas entre si.

Caminho perigoso para um diretor que vinha a construir uma boa reputação, o fato foi que Brian arriscou e mesmo que o resultado imediato em termos de repercussão tenha apontado para um fracasso, na verdade, ele logo recuperar-se-ia quando lançou "Obsession", ao voltar para a sua linha em torno do Thriller psicológico/policialesco ou "filme de suspense" como muitas pessoas costumavam rotular tal gênero, mas sobretudo, alcançaria a consagração com "Carrie", logo a seguir. 

E mais um dado, se imediatamente, "Phantom of the Paradise" apontara para um fracasso, com a passagem do tempo, tal obra ganhou uma outra conotação, ao tornar-se um filme cultuado, portanto, o demérito reverteu-se em mérito, aliás, mais um em sua filmografia bem avaliada.

Bem, como Brian de Palma desenvolveu essa mistura de referências da literatura, visto que ele também foi o roteirista deste filme? Eis a história então: Winslow Leach (interpretado por William Finley) é um jovem compositor que vislumbra uma chance para ascender na carreira, ao ser abordado por um executivo da gravadora: "Death Records", cujo dono é o enigmático, "Swan" (interpretado pelo ator e cantor, Paul Williams), que o convida a levar seu material à sede da gravadora.
Uma vez em suas dependências, Winslow tem as suas partituras roubadas sumariamente e é escorraçado do edifício. Revoltado, ele invade o teatro onde estão a ser realizados os testes para cantores a suprir o elenco de um espetáculo, patrocinado por Swan e verifica que a sua música indevidamente surrupiada, será usada sem cerimônia e para piorar o seu infortúnio, ele apaixona-se pela principal candidata, a cantora, Phenix (Jessica Harper).  

Ao perceber a presença de Winslow no teatro, asseclas de Swan capturam-no e plantam provas falsas para incriminá-lo, como se ele fosse um traficante de drogas. Ele é preso e sentenciado a cumprir prisão perpétua na temível penitenciária "Sing-Sing", onde é submetido à um programa subsidiado pela própria fundação Swan e tem seus dentes arrancados brutalmente, ao obrigá-lo a usar uma horrível dentadura com dentes de aço

Conformado com o seu destino, ouve através do rádio, na prisão, o anúncio de que a banda, "Juicy Fruits", culminou em lançar um álbum com as suas músicas e então, enlouquecido por essa infâmia, ele foge da prisão para cometer um ato de loucura, ao tentar sabotar a fábrica de discos. Mas um terrível acidente ocorre, para deformá-lo completamente, além de provocar a dramática destruição das suas cordas vocais, arruinadas irremediavelmente, pela força brutal de uma pesada prensa ardente, a esmagar e incinerar o seu rosto

Dado como morto pela imprensa, Winslow sobrevive a preambular pela rede de esgoto da cidade e assume, por conseguinte um visual aterrorizante, mediante o uso de uma capa e máscara a conter feições de um pássaro. Eis que ele sabota o carro da banda, "Juicy Fruit", com uma bomba e Swan descobre a sua identidade.

O perverso Swan monta então um ardil, onde convence Winslow, agora conhecido como: "The Phantom", a parar com o seu plano de vingança e o contrata como compositor e arranjador. The Phantom faz então um contrato assinado mediante o uso de sangue com Swan e exige a presença da cantora, Phenix, a sua paixão secreta, como principal cantora no espetáculo de inauguração do teatro.

Mas Swan rompe o contrato, e coloca no seu lugar um ridículo cantor glam ("Beef", interpretado por Gerrit Graham), sem a menor condição para ser levado a sério, no lugar da cantora. 

Sem saber disso, The Phantom conclui a obra "Fausto" e os asseclas de Swan mais uma vez roubam as suas partituras e trancam-no no estúdio, com o objetivo de que ele morra ali, por inanição.

Mais uma vez traído, The Phantom enlouquece e consegue escapar, quando a seguir, passa a assombrar o teatro. Então ele aborda "Beef" durante o seu banho, para ameaçá-lo, caso Phenix não seja efetivada como cantora titular do espetáculo. E no dia da estreia, contrariado, assassina o vocalista "Beef", ao eletrocutá-lo com uma placa de neon, diante do público que fica extasiado, por julgar ser um efeito pirotécnico proposital do show.


Swan seduz Phenix e The Phantom, desolado, tenta o suicídio com um punhal, mas não morre. Swan diz-lhe cinicamente que o contrato assinado anteriormente, obriga-o a viver eternamente a não ser que ele, Swan, morra primeiro, mas faz a ressalva de que ele jamais morrerá, pois também está sob contrato de vida eterna, via pacto demoníaco, ou seja, desesperado, The Phantom descobre que Swan fizera pacto com o Diabo e jamais morreria e nem mesmo, envelheceria. Então, descobre que a única maneira para destruir Swan, seria arruinar um vídeotape que servia de contrato entre Swan e o Diabo. 

Swan e Phenix vão casar-se durante o espetáculo e The Phantom destrói todas as fitas com rapidez, pois sabe que Swan planeja matar Phenix para apoderar-se de sua voz.

Enfraquecido pela queima dos filmes, Swan tem a sua aparência envelhecida rapidamente e The Phantom aproveita para golpeá-lo de uma forma mortal, mas o seu destino também é morrer, pois o seu contrato também fora rompido. A bela cantora, Phenix, desespera-se, em meio ao frenesi do público, que atônito, confunde a ação dos crimes reais como se fossem efeitos cênicos do show e assim delira. E a tragédia marca com bastante movimentação o fim do filme.

Bem, as referências que o diretor Brian de Palma usou para compor esse roteiro tão esfuziante, foram inúmeras, a beber da literatura e do próprio cinema clássico. "Fausto/Mefistófeles", com o pacto de riqueza a vender a alma para o Diabo), "O Fantasma da Ópera", de Gaston Leroux (o compositor deformado e roubado que vinga-se a assombrar os bastidores de um espetáculo operístico), "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde (o pacto de juventude e beleza eterna com o Diabo, ao transferir a decrepitude à uma imagem, no caso deste filme, ao invés de um quadro, os vídeotapes), "O Gabinete do Dr. Caligari" (os membros da banda "Undead", vestidos como o "Sonâmbulo", do filme expressionista alemão), "Frankenstein" (após a eletrocussão, pedaços do cantor "Beef" espalhados, são reagrupados e formam um Ser disforme), e "Psycho!" (a cena do então enlouquecido, The Phantom a ameaçar o cantor "Beef", remete ao filme de Alfred Hitchcock). 

A trilha sonora foi composta por Paul Williams, que mantinha uma carreira interessante no espectro da música Pop em geral, com influências fartas no campo da Country Music e Folk-Rock. Embora Willians não possa ser credenciado como nenhum gênio da música, a sua carreira pode ser considerada como algo bastante razoável ao ter atingido uma relativa fama como compositor e cantor e no caso de sua atuação como ator, Willians chamava a atenção pela sua aparência, a notar-se a sua baixa estatura e para alguns críticos, ele seria uma espécie de "novo James Cagney" (mas cabeludo, certamente), por observar-se tal traço fisionômico similar entre ambos, mas sinceramente, fica apenas anotado que pela semelhança física, pois Cagney foi certamente muito mais ator do que Willians, em minha opinião.

Outra curiosidade que merece destaque, Sissy Spacek, ainda não famosa como atriz, trabalhou com figurinista, pois era namorada de Jack Fist, produtor adjunto de Brian de Palma, Sissy, no entanto, estouraria logo a seguir nas mãos do próprio, Brian De Palma, como a paranormal: "Carrie". 

A cena onde Winslow/The Phantom é deformado pela ação de uma prensa fonográfica, foi perigosíssima em sua concepção e Brian fez de tudo para filmá-la em tomada única, a minimizar um grande risco para o ator, William Finley. Consta nos anais dessa produção, que a máquina, mesmo com todas as medidas de segurança adotadas, simplesmente poderia não obedecer a limitação imposta, tamanha a sua força e neste caso, Finley sentiu muito medo de filmar nessas condições e de fato, um princípio de pânico foi instaurado no set de filmagem quando ficou claro que o acidente seria inevitável durante a tomada, a culminar com o óbito do ator, mas a produção agiu rápido e evitou a tragédia. 

Mais um dado estimulante para os Rockers em geral, dá-se com a cena onde The Phantom trabalha em um estúdio cercado por teclados e equipamentos. Eis que ela foi filmada no The Record Plant, um estúdio verdadeiro e onde inúmeros artistas importantes da história do Rock, gravaram (John Lennon, Elton John, David Bowie, Elvis Presley, The Who, CSNY, Frank Zappa, Queen, Aerosmith etc).

As cenas de Teatro, foram filmadas no Teatro Majestic, de Dallas, Texas. Segundo consta na história desse filme, a sua produção disparou um alarme usado para agrupar gado e todas as pessoas que entraram no teatro a esmo, motivadas por esse barulho ensurdecedor, foram convidadas a participar como extras. 

Tal obra demorou, mas tornou-se cultuada entre cinéfilos & Rockers, como algo bastante histriônico e típico dos anos setenta, em termos de exageros cênicos. Apesar da salada incrível de referências que Brian De Palma misturou, "Phantom of the Paradise" é um filme interessante e com boas canções na trilha. Se não dá para ser levado a sério, é ao menos, diversão certa!
A bilheteria desse filme foi um fiasco na ocasião, com a já citada exceção surpreendente observada na cidade de Winnipeg, no Canadá, onde foi muito bem, inclusive a motivar a venda de mais de vinte mil cópias do LP a conter a sua trilha sonora, somente nessa simpática localidade, que aliás, é a terra natal de uma ótima banda de Rock canadense, o The Guess Who, autor dos grandes sucessos, "American Woman", "Share the Land" e "These Eyes", nos anos sessenta e de onde derivou uma outra grande banda nos anos setenta: Bachman Turner Overdrive, ou "BTO", como ficou apelidada entre os seus fãs, dos quais eu incluo-me.
A crítica, no entanto, não foi inteiramente negativa, pois nem todo mundo arrasou o filme, como seria esperado. No entanto, os mais impiedosos classificaram a obra como uma peça simplesmente "infantil" e no sentido pejorativo do termo.

Uma última curiosidade sobre este filme, o fato da gravadora ficticia controlada por "Swan", chamar-se "Swan Song Enterprises", teve que ser suprimido do filme pelo fato de chocar-se com a real, ""Swan's Song", gravadora criada particularmente para atender aos interesses do Led Zeppelin. Naturalmente que o empresário dessa super banda britânica, Peter Grant, não aceitaria a menção, ao considerar-se a maneira com a qual ele geria os interesses do grupo, com a dita "mão de ferro", mesmo que fosse necessária ao filme tal denominação por conta do vilão da história deter o apelido: "Swan" ("cisne " em português).  Mesmo assim, essa determinação não foi inteiramente obedecida, pois por força das filmagens já concluídas, não foi possível retirar todas as menções a tal gravadora fictícia, que é observado em algumas cenas.
Sobre a música apresentada no filme, a trilha mostra-se agradável. A conter Pop Rock em essência, traz em seu bojo a boa influência do Coutntry-Rock, com baladas boas em seu esteio, uma generosa dose de Folk-Rock e até insinuações ao Hard-Rock em certos momentos. A canção "Special to Me", chama a atenção (cantada por Phenix/ Jessica Harper), durante a sua audição inicial como candidata a cantora no musical que Swan vai produzir e como baixista que sou, não posso deixar de observar que o som do Fender Jazz Bass que o baixista nessa gravação usou, é magnífico, assim como a boa linha que ele criou. Destacam-se também os temas  mais grandiloquentes atribuídos às composições de Winslow/The Phantom, como teor operístico e a esbarrar no Rock Progressivo, por conseguinte. O tema do musical: "Beauty and the Beast" ("A Bela e a Fera"), também foi utilizado, mas naturalmente com um arranjo especial a personalizá-lo para este filme.


Alguns atores não citados que participaram: George Memoli (como George Philbin e o sobrenome "Philbin", que atuou na versão clássica de "The Phantom of the Opera", de 1925), Peter Elblind, Archie Hahn & Jeffrey Comanor, não receberam os nomes das suas personagens, mas foram os cantores do grupo de Rock fictício, "The Juicy Fruits". Nota-se que ao longo do filme, eles reaparecem em outras ocasiões, a compor outras duas bandas: "The Beach Bums" e "The Undead".

E mais: Mary Margaret Amato (como groupie de "Swan"), Jennifer Ashley (como outra groupie), Janet Baldwin (mais uma groupie), Janus Blythe (outra groupie), Katherine Mastellos (mais uma groupie), Robin Mattson (outra groupie), Keith Allison (cantor Country), Troy Haskins (como o juiz) e outros.

Produzido por Edward R. Pressman. Escrito e dirigido por Brian De Palma. Foi lançado em outubro de 1974. No Brasil, o fracasso comercial também foi observado e eu recordo-me que certos críticos brasileiros chegaram a afirmar que este filme ao misturar tantas referências, tornou-se apenas confuso para justificar uma fábula histriônica sobre o Rock. Enfim, o filme teve curta carreira no circuito comercial tradicional e rapidamente foi realojado em salas alternativas de cine clubes, onde eu aliás, pude assistir, durante uma noite de sábado, mais uma, em que passei nos anos setenta, sentado em uma poltrona do saudoso Cine Bijou, onde invariavelmente a programação a privilegiar o cinema de arte em geral e produção contracultural, em específico, sempre brindou os cinéfilos Rockers, freaks e hippies da pauliceia. Em seguida, o filme teve exibições na TV aberta e também com fartura de reprises em canais de TV a cabo.

Demorou bastante e somente na década de noventa chegou ao mercado a sua versão em formato de fita VHS. Mais tarde ainda, nos anos dois mil, enfim adquiriu a sua versão em imagens digitais, através de um DVD e posterior Blu-Ray. Na internet, na atualidade (2019), será encontrado na íntegra, em portais como Archive e Amazon, mas no YouTube, receio que serão encontrados apenas fragmentos.

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2012. Esta resenha foi posteriormente revista e aumentada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", disponibilizada em seu volume I, a partir da página 204