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sábado, 9 de abril de 2016

Zé do Caixão Também Assustou nos Quadrinhos - Por Luiz Domingues




Em 1968, o cineasta, José Mojica Marins estava consolidado como cineasta, e a sua fama pessoal como diretor e produtor de cinema confundia-se totalmente com o seu personagem, Zé do Caixão. Por viver um momento midiático total, pois além do barulho pró e contra que os seus filmes faziam desde 1963, quando do estouro de seu filme, “À Meia Noite Levarei Tua Alma”, Mojica estava na boca do povo, a participar cada vez mais de programas de TV, e isso motivou a sua ida para tal veículo, com direito a um programa próprio, nas noites de quinta, quando as suas pequenas histórias macabras, em formato de curta metragem, passaram a ser exibidas.
Sob um efeito dominó, surgiu a oportunidade para intensificar a sua atuação, e assim, uma adaptação do personagem, Zé do Caixão, foi concebida também para chegar às bancas de jornais e revistas, na forma de uma revista em quadrinhos. Gibis a explorar o mote do terror não foi novidade no mundo dos Comics / HQ. Na verdade já era uma tradição em vários países, notadamente nos Estados Unidos, onde o mercado editorial desse segmento detinha uma estrutura industrial, há décadas.
E até no Brasil já havia tal nicho dedicado às publicações com histórias macabras, caso da revista, "A Cripta", por exemplo.

Não por coincidência, os produtores da revista, "A Cripta", estavam envolvidos com José Mojica Marins na produção do programa de TV, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”,  e do filme longa-metragem, homônimo lançado em 1968. O roteirista Rubens Francisco Lucchetti e o desenhista, Nico Rosso tiveram a percepção genial de que Mojica / Zé do Caixão estava na crista da onda, e dessa maneira, certos de que a revista em quadrinhos seria um estouro, portanto, rapidamente convenceram os mandatários da editora Prelúdio, a investir na produção.
                  Rubens Francisco Lucchetti, um artista genial

Lucchetti era um ótimo profissional, com a desenvoltura de um roteirista experiente para histórias em quadrinhos; cinema & TV, e Rossi, um excelente desenhista, sendo assim, somado ao fato da editora Prelúdio também ter o seu padrão de qualidade reconhecido no mercado editorial brasileiro, o sucesso dessa produção estava praticamente assegurado.
Mais do que ter qualidade, a produção do gibi trouxe ousadia estética. Isso por que ao fugir ao padrão tradicional, fotos dos personagens em ação, foram incorporadas, a misturar o conceito de uma história em quadrinhos tradicional com o formato de uma fotonovela.
Para tanto, procuraram a participação do fotógrafo oficial de Mojica, Luiz Fidélis Barreira que cedeu muito material que detinha em seu acervo, mas mesmo assim, sessões extras de fotos, foram realizadas especialmente para atender as necessidades da revista. Sobre o mote, Lucchetti e Rossi estavam habituados a lançar histórias de terror mais centradas no universo clássico do gênero. Tratava-se de histórias sobre vampiros; lobisomens; espíritos e afins, mas ambientados naquela tradição europeia típica de sabor gótico, a evocar uma aristocracia decadente, com castelos medievais assombrados e abandonados; histórias com bruxas medievais em florestas; seres elementais e / ou diabólicos a denotar a inspiração na fonte do paganismo pré-cristão etc.
Ao associar-se com Mojica / Zé do Caixão, um outro universo abriu-se, para acrescentar um tipo de terror com elementos diferentes, a conter alguma brasilidade até, por esbarrar em tradições folclóricas caboclas; indígenas & afrobrasileiras. Um outro elemento diferenciado, e típico dos filmes do Zé do Caixão, foi o da exploração do sadismo, via torturas e taras sexuais macabras, uma tendência que o cinema de horror norteamericano e europeu só veio a explorar com muita contundência, décadas depois.
Nesse sentido, Mojica também mostrara o seu diferencial, e não foi à toa que o seu cinema despertara a atenção de críticos e outros cineastas, caso de Glauber Rocha, por exemplo, que o considerava um gênio. Com produção gráfica sob bastante qualidade, o gibi teve o seu primeiro número a ser distribuído às bancas brasileiras, em janeiro de 1969.
Batizado com o nome do filme e também do programa de TV, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, fez obteve sucesso naquele instante e controvérsia também, pois se não houvesse o forte elemento erótico nas suas entrelinhas e tivesse apostado no terror tradicional tão somente, talvez não incomodasse os moralistas de plantão. Apesar do aparente sucesso todo que recebeu, a revista não teve grande longevidade. Após o lançamento do número seis, em junho de 1969, extinguiu-se. E não foi por falta de interesse do público consumidor, diga-se de passagem. Após alguns anos, outras produções em torno das publicações "HQ" a envolver o personagem, Zé do Caixão, surgiriam, mas certamente não tão bem acabadas como foi “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, em 1969.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016

sábado, 6 de junho de 2015

A Incrível História do Flama - Por Luiz Domingues


A evolução das histórias em quadrinhos no Brasil, vem de longa data, por remontar ao século XIX, através de diversas publicações ocorridas através de jornais. Não demorou nada, e personagens genuinamente brasileiros, já eram publicados em meio aos internacionais, e ainda que a sofrer o habitual preconceito que o brasileiro nutre pelos seus próprios valores, colocaram-se a lutar bravamente pela sobrevivência e a evoluir.
Nesse panorama, são vários os exemplos de personagens brasileiros criados, entre os quais : “Chiquinho”; “Reco-Reco”; “Bolão”, “Azeitona”; “Pão Duro”; “Tutu”; “Titi & Totó”; “Juca Pato”; “O Amigo da Onça”, e já nos anos sessenta do século vinte, “A Turma da Mônica”. Outros vieram depois, certamente, mas eu parei aí no início dos anos sessenta propositalmente.
“Audaz, o Demolidor”, salvo equívoco de minha parte, teria sido o primeiro personagem com característica de Super-Herói, criado ainda nos anos trinta. Por volta de 1953, a rádio Nacional do Rio de Janeiro, lançou um personagem destemido, chamado : “Jerônimo, o Herói do Sertão”, naturalmente para ser explorado inicialmente no formato de uma radionovela.
Tal formato era tradicionalmente requisitado para retratar dramas adultos, sendo o embrião do que viria a tornar-se em seguida, as telenovelas, com as quais lidamos (ou aguentamos, seria mais conveniente dizer), há quase sessenta anos. Porém, a destoar do romantismo padrão, “Jerônimo, o Herói do Sertão” foi uma aposta ousada de mudança de paradigma, e fatalmente atraiu a atenção do público infantojuvenil, já antenado nas histórias em quadrinhos internacionais, mas também nos seriados exibidos no cinema, com heróis os mais diversos, tais como : Flash Gordon; Superman; Fantasma; Mandrake; Spirit; Batman; Zorro; Tarzan; Dick Tracy e Capitão Marvel, entre outros.
O ator, Mário Lago, envolvido com a locução radiofônica de Jerônimo, nos anos cinquenta

“Jerônimo” foi um estouro de audiência, e rapidamente tornou-se uma referência como herói brasileiro e sertanejo,  adaptado à nossa realidade cultural, por conseguinte. No Nordeste, a Rádio Jornal do Comércio do Recife, retransmitia a produção da Rádio Nacional do Rio, e tratava por espalhá-la pelas rádios regionais dos outros estados vizinhos, a garantir-lhe uma audiência maciça.
E não foi diferente na cidade de Campina Grande, interior do  estado da Paraíba, onde tal fato despertou a atenção de um jovem diretor da Rádio Borborema, chamado : Deodato Borges, que concebeu a ideia em criar um personagem inédito, e lançá-lo no formato de radionovela diária, ao visar concorrer e roubar a audiência que Jerônimo monopolizava entre o público campinense infantojuvenil da época. Com essa determinação, Deodato foi ágil, e muito competente, por ter criado um novo personagem e o seu universo completo; com personagens de apoio, e ao escrever a toque de caixa, inúmeras histórias.
Estava criado : “As Aventuras do Flama”, um super herói brasileiro; paraibano, e cujo objetivo de vida, foi zelar pelo bem estar da comunidade, a intervir sempre que preciso, para coibir ações criminosas de qualquer espécie. Com o material redigido em mãos, ele convocou alguns colegas da emissora, e com ele mesmo a emprestar a sua voz e interpretação ao personagem, tratou em colocar no ar, em 1961, o primeiro episódio do “Flama”.
Na apresentação do herói, a locução contava que o “Flama” testemunhara o assassinato a sangue frio de seus pais na infância, e aos prantos, jurou dedicar a sua vida à caça de todos os bandidos aos quais pudesse capturar, e tirar da circulação social. Desde então, ele estudara todas as técnicas de lutas marciais possíveis e imagináveis; desenvolveu o seu físico ao ponto em obter uma força acima do padrão normal, e tornou-se um expert em ciências.
Bem, em princípio, o autor não quis extrapolar com a criação de explicações exageradas sobre super poderes ao estilo dos heróis internacionais, e mais comedido, atribui-lhe força física além de um homem normal, mas sem nada sobrenatural, e explicável ao ponto de ser apenas fruto de seus esforços mediante o apreço ao condicionamento físico; fisiculturismo; musculação etc. A sua habilidade na luta corporal contra malfeitores, fora por conta de dominar um repertório vasto de técnicas de diversas lutas que estudara, e a vaga ideia de ser um expert em ciências, o elemento que conferiu-lhe subsídios tecnológicos mais avançados para usar como um fator de inteligência. Os personagens de apoio eram : Zico e Bolão (dois amigos prosaicos); Eliana (noiva do Flama), e o comissário Laurence, a autoridade policial super sensata, ao estilo do comissário Gordon, do Batman.
Ao ouvir uma rara locução preservada atualmente, através de um "podcasting" na Internet, encantei-me com o formato coloquial típico da época. Ao comparar-se com o que ouvimos hoje em dia pelas ruas, o coloquial da época era muito sofisticado ! Apesar de não ter sido realizado por atores profissionais, todos os envolvidos na produção, incluso o próprio, Deodato Borges, que interpretava o “Flama” na radionovela, mostravam-se bem desenvoltos. Quando foi ao ar, tornou-se um sucesso mastodôntico em Campina Grande, para deixar a equipe da pequena emissora, boquiaberta, pois não apenas enfrentara, mas estava a vencer a atração da concorrência, “Jerônimo, o Herói do Sertão”.
Inicialmente executado de segunda a sexta, às 13:00 Horas, com cerca de vinte e cinco minutos de duração, cada episódio, teve que empreender uma mudança em seu horário habitual, pois as diretorias de diversas escolas da cidade, reclamaram do fato de que as crianças e adolescentes estavam a chegar atrasados às aulas, por conta da verdadeira febre que “O Flama” estava a causar em Campina Grande. Aos sábados, os rádio-atores promoviam uma execução aberta ao público, direto do auditório da emissora, que fervilhava.
Logo surgiu a ideia em criar-se um fã-clube bem organizado, para distribuir souvenirs do herói, e também instituiu-se a criação de uma carteirinha para sócios, e dessa forma, foi muito difícil uma criança ou adolescente de Campina Grande que ali viveu nessa época, que não a tivesse no bolso, vinte e quatro horas por dia.


Em 1963, a Editora Globo lançou a versão em História em Quadrinhos de “Jerônimo, o Herói do Sertão”, e Deodato Borges foi tão ágil quanto o “Flama” e tratou por desenhar os traços do herói. Rapidamente agilizou igualmente, a produção da versão em HQ de seu herói, com as bênçãos da Rádio Borborema, e apoio imprescindível do Diário de Borborema, jornal local e pertencente ao mesmo grupo da Rádio, que o auxiliou na parte gráfica.
Foi uma loucura total, mas o espírito empreendedor de Deodato Borges concretizou inteiramente o seu intento. Dessa forma, em uma cidade interiorana da Paraíba, no início dos anos sessenta, houve uma publicação a enfocar um Super Herói genuinamente brasileiro, e com o adendo de que nessa altura, já consagrado pelo público local, graças à radionovela.
Mesmo ao não possuir fama sob alcance nacional, e por não ter sobrevida como deveria ter tido, a revista do “Flama” entrou para a história da HQ brasileira, sem dúvida alguma. Nessa primeira abordagem, os traços do Flama lembravam a velha escola da HQ norteamericana.
Ao fazer uso de um uniforme parecido com o do Flash Gordon, e a conter os traços fisionômicos parecidos com o Spirit (além de uma certa aura do Mandrake), nesse aspecto visual não havia tanta identidade tipicamente brasileira, tampouco nordestina, para regionalizá-lo. 

Deodato continuou a sua vida como radialista; produtor e desenhista, tendo feito vários trabalhos muito bonitos, e o seu DNA para os quadrinhos seguiu adiante, pois o seu filho, Deodato Borges Jr., ganhou o mundo e a fama internacional, ao tornar-se um dos maiores desenhistas do planeta.
Sob o nome americanizado como : "Mike" Deodato Jr., ele trabalha para a Marvel, DC e outras companhias internacionais de alto nível, no mercado dos Comics.
Mike já desenhou oficialmente personagens tais como : Thor; Hulk; Os Vingadores, e por bastante tempo, a heroína, Electra, além de uma infinidade de outros personagens.
Claro, dentro do conceito “review”, Mike Deodato redesenhou o personagem do “Flama”, ao modernizá-lo e assim adaptá-lo ao padrão Marvel / DC, e dessa forma, “O Flama” atual mostra-se no padrão de um super herói clássico internacional, tanto pelo uniforme, quanto porte físico e postura / atitude.
Mike é muito respeitado no universo da HQ, e soube valorizar a incrível e histórica criação de seu pai.
Em dezembro de 2014, tivemos no Brasil, em São Paulo, uma edição local da Feira Comic Con, que é uma das maiores, senão a maior feira do universo Comics / Sci-Fi Series & Movies do mundo. Tal evento causou furor, com fãs a acotovelar-se para entrar e apreciar a versão brasileira, recheada com muitas atrações sensacionais. O grande, Deodato Borges, estava confirmado como palestrante, e onde seria homenageado pela sua relevante contribuição à HQ brasileira pela criação do seu incrível personagem, “O Flama”. Infelizmente, alguns meses antes, em agosto, foi vencido por um câncer renal, aos oitenta anos de idade, e assim, deixou-nos.
Teria sido magnífico se ele pudesse ter sido homenageado em vida, em plena Comic Con, mas não foi possível, infelizmente. “O Flama” há em sobreviver com essa repaginada que o ótimo, Mike Deodato Junior deu-lhe, e ainda que tenha perdido um pouco de sua ingenuidade adorável, que caracterizou-lhe na Paraíba de 1961-1963, tenho certeza de que irá dar cabo de muitos bandidos no futuro, para fazer com que a criançada e os adolescentes vibrem.
O Blog do Deodato Borges ainda está no ar, e tomara que o mantenham. Lá, contém histórias muito boas contadas por ele em pessoa, através de diversas crônicas.


O link é:


http://deodatoborges.blogspot.com.br/


Fica aqui a minha admiração pela criação, e espírito empreendedor de Deodato Borges.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2015.

sábado, 19 de outubro de 2013

Ebal, Fábrica de Sonhos - Por Luiz Domingues



Que as histórias em quadrinhos tem uma tradição muito antiga, não resta dúvida. Por embalar a imaginação das crianças e adolescentes, há muitas décadas, as suas mais remotas origens remontam à Idade Média, mediante as histórias sobre cavalaria, mescladas às lendas do folclore etc. No Brasil, um dos primeiros registros que se tem notícia sobre um desenho dessa natureza, deu-se em 1837, quando uma charge criada pelo autor, Manuel de Araújo Porto-Alegre foi apresentada sob o formato de uma litografia.

Angelo Agostini lançaria uma revista com charges e caricaturas, em 1869, e criou personagens tais como : "Nhô Quim", e "Zé Caipora", ou seja, bem brasileiros, e através deles, criticou com veemência a política do segundo Império, de Pedro II. 


Já no século XX, em 1905, surgiu a revista : "Tico-Tico", que popularizou-se com as suas charges, onde destacou-se o cartunista, J. Carlos, que foi o primeiro desenhista brasileiro a trabalhar com um personagem Disney, o Mickey Mouse. O cartunista paulista, Belmonte, tornou-se uma celebridade através dos seus cartoons; charges, e certamente por conta do genial personagem que inventou : "Juca Pato".

Mas ainda não havia no país um grande catalisador que pudesse conciliar essa produção nacional em termos de charges & cartoons, com o movimento de comics, que já era fortíssimo nos Estados Unidos e Europa, a contar com inúmeras publicações; heróis e sagas bem escritas.



Foi nesse contexto, que um jovem empreendedor surgiu no mercado editorial brasileiro, chamado : Adolfo Aizen. No início dos anos trinta, Adolfo Aizen fundou uma pequena editora chamada, "Grande Consórcio de Suplementos Nacionais".

Nessa empreitada, Aizen lançou algumas revistas tais como : "Suplementos Juvenil; "O Mirim" e "O Lobinho" (uma coletânea com histórias, onde foi lançado pela primeira vez no Brasil, heróis internacionais da magnitude de Batman; Superman; The Flash; e Falcão da Noite). No ano de 1945, Aizen fundou uma outra editora, que recebeu o nome de Editora Brasil-América Ltda., que passou a ser conhecida no mercado editorial, e entre seus admiradores, como "Ebal", a sua sigla. Em meio a uma parceria com a Editora Abril, propriedade da família Civita, que estava baseada na Argentina, nessa época, a Ebal lançou personagens Disney, cuja licença pertencia a Abril Cultural.

Com a abertura no Brasil da editora, "Primavera" (mais tarde, "Abril"), Victor Civita, monopolizou a franquia Disney, ao tornar-se doravante a grande rival da Ebal, por décadas, e esta foi forçada a adotar um outro rumo. Em princípio, a Ebal publicou muitos "books" com aventuras; clássicos da literatura adaptados aos quadrinhos, e sagas com heróis selvagens ao estilo de "Sheena, a Rainha das Selvas", e "Tabu", entre outros.

No entanto, o grande trunfo de Aizen esteve mesmo com os super-heróis, e entre eles, o Superman foi um carro chefe da Ebal, de 1947, até 1983, quando a Ebal perdera as suas forças e cedeu os seus direitos à Abril Cultural. Convenhamos, manter um super-herói dessa importância no elenco, por quase quarenta anos, por si só já deveria ser digno de nota, mas a Ebal fez muito mais que isso, na sua história editorial. Muitas histórias sobre detetives, na mais clássica tradição da literatura e cinema "noir", como por exemplo na figura de "Dick Tracy", fizeram enorme sucesso no Brasil.

Flash Gordon", o grande herói Sci-Fi dos anos trinta; "Fantasma", o enigmático misto de herói e entidade imortal; "O Príncipe Valente", "Zorro", "Tarzan"(que dispensa apresentações), etc . Outro filão muito importante que a Ebal trabalhou, foi o dos quadrinhos com heróis ambientados no cenário do velho oeste.

Nesse segmento do Western, a Ebal lançou personagens como : "Bufalo Bill"; "Cisco Kid"; Cheyenne"; "Nevada Kid" e outros.

Com o advento das séries de TV, a Ebal acompanhou o mercado norteamericano, e lançou gibis baseados em tais atrações televisivas, tais como "Gunsmoke"; "Terra de Gigantes"; Os Invasores"; "Bonanza", e outros. Nos anos cinquenta e sessenta, transcorreu o auge da companhia criada pelo grande, Adolfo Aizen, e nesses termos os números por tal empresa, revelaram-se sob um impressionante porte no mundo editorial brasileiro em geral.

A Ebal chegou a vender milhões de revistas. Algumas delas, com tiragens de mais de cento e cinquenta mil exemplares distribuídos nas bancas de revistas, brasileiras. Houve época onde chegou a manter quarenta títulos simultâneos em seu catálogo, e para quem conhece o mercado editorial de revistas, sabe bem que é um número impressionante.

Quando firmou exclusividade com a gigante dos quadrinhos, a DC Comics (Batman e Superman, além de outros personagens nesse elenco fantástico), a Ebal já estava consolidada como a maior editora de histórias em quadrinhos do Brasil, e a sua concorrente, na verdade não a atrapalhava e vice-versa, pois a Editora Abril dedicava-se ao Universo Disney, praticamente, ou seja, mantinha-se fechada em um outro nicho de público, completamente diferente, e Maurício de Souza, uma eventual terceira força no mercado, ainda era um iniciante, com a tira da "Turma da Mônica" a dar os seus primeiros passos no jornal Folha de São Paulo, e longe de ser também um editor de peso no mercado, fator que só conquistou muitos anos depois. Não contente em lançar os heróis da DC no mercado brasileiro, a Ebal passou a trabalhar também com a outra gigante americana, a Marvel Comics, ao tornar-se ainda mais poderosa.


Para quem já dominava o mercado com Batman; Superman, e toda a Liga da Justiça da DC, agora a Ebal passara a trazer na manga : Hulk; Capitão América; Thor; Homem de Ferro; Quarteto Fantástico; Homem Aranha; Namor, e todos os Vingadores do Universo Marvel.


Particularmente, a minha história com a Ebal começou aí, em 1967, quando tal editora lançou no mercado os gibis dos cinco principais heróis Marvel, sob um esforço de marketing em conjunto com a fábrica de brinquedos Atma, e a rede de postos de gasolina, Shell.

Concomitante ao lançamento dos desenhos animados (ou "desanimados", como alguns gostam de enfatizar, pois foram concebidos com o mínimo de movimento, para justamente simular os quadrinhos dos gibis), na TV, essa campanha conjugada fez muito sucesso na época.

O plano "diabólico", arquitetado pelos marqueteiros brasileiros, previu que a cada abastecimento de gasolina (não lembro-me qual teria sido a quantidade mínima, mas creio que tratou-se de vinte litros), nos postos Shell, o motorista ganhava um boneco de plástico de um herói Marvel.


Em 1967, o meu pai foi mais um, entre milhões de pais, que foi atormentado por seus respectivos pequenos pedintes, a esforçar-se em evitar abastecer o tanque do carro da família, em postos cuja bandeira não fosse da Shell...

E claro, tente explicar que um boneco só, é o suficiente para um pequeno colecionador Marvel, e você vai verificar que essa informação "não tem registro", como diria o nosso querido Robot de "Lost in Space"...

Nesse lançamento de 1967, a Ebal lançou de cada Super-Herói, a reprodução da sua origem, em edições muito bonitas.


Na década de setenta, a Ebal seguiu firme na dianteira desse nicho. Porém, nos anos oitenta, infelizmente a editora mais querida dos fãs de quadrinhos, pôs-se a perder o seu fôlego.

Muitos itens de seu portfólio de atrações foram vendidos paulatinamente para a editora Abril; Maurício de Souza já estava consolidado no mercado; e pequenas editoras novas surgiram no mercado, para dividir a atenção do público consumidor. Concomitantemente, o crescente aumento dos então "modernos" vídeo-games, e a subsequente inclusão social na internet não diminuiu o interesse pelos quadrinhos, mas começou a minar a sua plataforma tradicional, impressa.

Reservadamente, Aizen confidenciava aos seus pares, que estava desanimado com tais perspectivas e nesse embalo, a Ebal, infelizmente perdeu terreno. no mercado. No ano de 1991, Aizen faleceu, mas a Ebal tentou prosseguir com a condução dos filhos dele. Aliás, Paulo Adolfo e Naumin Aizen, já comandavam junto com seu pai, a empresa há muitos anos, com a participação também de Fernando Albagli. A Ebal ainda publicaria algumas edições de luxo do personagem, Príncipe Valente, e investiu também em um nicho moderno, o dos mangás japoneses, mas em 1995, fechou as portas, definitivamente, para encerrar uma história muito bonita no mercado editorial brasileiro.

O histórico edifício / sede, localizado no bairro de São Cristovão, no Rio de Janeiro, ainda abriga a gráfica que servia à Ebal. Mas hoje em dia, tal oficina realiza apenas serviços particulares de pequena monta para os comerciantes e moradores do bairro. 

Recentemente (2013), eu li comentários na Internet, preocupados com a especulação imobiliária no bairro de São Cristovão, a defender a ideia do tombamento do edifício, e assim tentar preservar o seu melhor aproveitamento cultural para a comunidade (embora atualmente, a velha gráfica divida o espaço com uma escola).

Indico duas fontes de consulta para quem quiser esmiuçar ainda mais a história da Ebal : existe um Blog na Internet, conduzido por um abnegado historiador da Ebal, chamado Oscar, que é completíssimo. Chama-se "Guia Ebal", e nele, o fã encontra informações sobre todos os lançamentos da editora, comentados e ricamente ilustrados.

O link é :  http://guiaebal.com/

Outra dica que deixo, existe um livro escrito por um pesquisador chamado, Gonçalo Junior, chamado : " A Guerra dos Gibis".

Nele, Gonçalo conta a história dos quadrinhos no Brasil, e a atuação de Adolfo Aizen e sua Ebal, tem um grande destaque.

Código do livro para consulta : ISBN 8535905820

Sou fã da Ebal, e agradeço ao senhor Adolfo Aizen, por toda alegria que proporcionou à milhares de crianças e adolescentes, por décadas, incluso eu mesmo.