Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste meu primeiro Blog, reúno a minha produção geral e divulgo as minhas atividades musicais. Não escrevo apenas sobre música, é preciso salientar ao leitor, pois abordo diversos assuntos variados. Como músico, iniciei a minha carreira em 1976, e já toquei em diversas bandas. Atualmente, estou a trabalhar com Os Kurandeiros.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
O Bondinho no Bonde da História - Por Luiz Domingues
Pois foi assim que no ano de 1972, surgiu a revista : "Bondinho", com matérias direcionadas a abordar o melhor da música; teatro; cinema; literatura etc. Patrocinada pela rede de supermercados. Pão de Açúcar, tinha como equipe jornalística, um corpo formado por profissionais como Hamilton de Almeida; Roberto Freire; Sérgio de Souza; Antonio Ventura e Victor Cervi, entre outros.
A curta duração da revista (treze edições, entre janeiro e maio de 1972), deveu-se evidentemente ao terreno arenoso em que o patrocinador colocou-se, pois em 1972, o clima no país estava pesado demais e os problemas enfrentados com a censura inviabilizaram o seu prosseguimento. Nesta curta duração, artistas do calibre de Chico Buarque; Maria Bethânia; José Celso Martinez; Walmor Chagas; Rogério Duprat; Gal Costa; Milton Nascimento; Mauro Rasi; Hermeto Paschoal, e Luiz Gonzaga foram entrevistados.
Chico Buarque foi bombástico, ao afirmar que estava cansado de enfrentar a censura e pensava em não gravar mais. Teceu várias considerações sobre Chico & Caetano e sugeriu que intrigas plantadas por agentes da repressão, tentaram jogar um artista contra o outro, para desestabilizá-los.
Uma das mais contundentes entrevistas, deu-se com o ator, Walmor Chagas. Sem medo do regime, falou sobre maconha; preconceito racial (naquela época, o povo brasileiro arvorava-se hipocritamente em não existir tal sentimento por aqui e que isso era coisa de norteamericanos...), censura (pegou pesado nesse item, ao deixar uma pergunta no ar : "por quê não podemos fazer uma peça teatral ou um filme sobre um opositor preso pelo regime" ?) e no ápice da afronta aos bons costumes, citou a tragédia grega de Édipo Rei. Nem preciso dizer, essa edição foi recolhida pelos agentes governamentais.
No seu rápido auge, o "Bondinho" chegou a ter quinhentos mil exemplares, algo inacreditável para a época e muito além da revistinha de gôndola de supermercado, que hipoteticamente serviria apenas para distrair as donas de casa, na fila do caixa do estabelecimento que a patrocinara.
Ana Maria Baiana, que notabilizar-se-ia como uma grande crítica de Rock e cinema, afirmou tempos depois, que graças ao "Bondinho", aprendeu a amar o Traffic, a banda chic de Steve Winwood; Jim Capaldi & Cia.
Das cinzas do "Bondinho", nasceu outro projeto ambicioso : a edição brasileira da revista Rolling Stone, em sua primeira encarnação brasileira, ainda no ano de 1972.
Um belo livro escrito por Sergio Cohn e Miguel Jost, conta toda essa trajetória e traz compiladas as entrevistas do "Bondinho", sob um verdadeiro resgate para a memória do jornalismo cultural brasileiro.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Sem Lenço, Nem Documento, Mas Com O Sol nas Bancas de Revistas - Por Luiz Domingues
Foram naquelas noites de outubro de 1967, que o mítico Festival de MPB da TV Record deu a devida abertura para que a explosão tropicalista empreendesse os seus primeiros sinais de vida, através de Gilberto Gil e Caetano Veloso, na sua vanguarda, principalmente.
Especificamente, Caetano Veloso, defendeu a música: "Alegria, Alegria", ao chocar puristas, retrógrados & ineptos de plantão, por evocar em sua letra, imagens que remetiam a uma nova ordem poética a expressar-se através de uma letra musical. Entre tantas colagens inspiradas pela Pop-Art, em um famoso trecho ele diz: "o Sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas...
Lançado em setembro de 1967, como uma experiência de Jornal-escola, através do jornalista, Reynaldo Jardim, teve como objetivo inicial, recrutar estudantes universitários dos cursos de ciências sociais, história, letras e comunicação.
Mas o que teria sido algo meramente estudantil, ganhou rapidamente uma proporção enorme, ao angariar simpatia de jornalistas tarimbados, escritores, músicos, cineastas, gente do meio teatral e claro, os universitários.
Evidentemente que a época efervescente fora muito propícia para tal ebulição consagradora. Com o endurecimento da política após os acontecimentos de 1964, guerra fria a pegar fogo (com o perdão do trocadilho infame), corrida espacial motivada por uma escalada política, movimento Hippie, Festivais de MPB a polemizar frente a posições políticas,; guerra do Vietnam... ufa... nada melhor que estar a viver na década de sessenta para fazer todo o sentido.
Gente de peso do jornalismo brasileiro, tornou-se colaborador. Heitor Carlos Cony, Ziraldo, Zuenir Ventura, Arnaldo Jabor etc. Além de Chico Buarque, Ruy Castro, Hugo Carvana, Bete Faria, Ítala Nandi e Gilberto Gil que também marcaram presença em suas páginas.
Para se ter uma ideia de sua ousadia editorial, quando a imprensa mainstream anunciou a morte de Che Guevara, "O Sol" colocou em sua manchete: "Che Guevara pode estar vivo". Dessa forma, lançou dúvida sobre o ocorrido, ou ironizou quem comemorara a perda?
Em seu auge, chegou a emplacar setenta mil exemplares diários, um número impressionante para uma publicação que deveria ter sido apenas um jornal laboratório para estudantes. Em suas páginas, "O Sol" tratou sobre cultura, política e atualidades, sobretudo.
Com a chegada do ano de 1968, o tempo mais difícil fez com que a veia libertária proporcionada pelos raios do Sol viesse a apagar-se, lamentavelmente.
De suas cinzas nasceu "O Pasquim", criado por ex-membros d'O Sol e certamente que tal novo veículo, de certa forma, deu continuidade à proposta.
Recomendo assisti-lo, pois é um documento raro sobre essa trajetória curta, porém marcante desse importante periódico alternativo.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2012.














