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terça-feira, 5 de junho de 2012

Filme: The Manchurian Candidate (Sob o Domínio do Mal) - Por Luiz Domingues

Não poderia ter havido um melhor momento para lançar esse filme, do que o final de 1962, em meio à tensão gerada pela crise dos mísseis em Cuba, momento em que o planeta segurou a respiração com a possibilidade da decantada guerra atômica ser deflagrada. Foi o auge da chamada "guerra fria" e mesmo ao suspirar sob apreensão por esse perigo iminente, havia espaço para ir ao cinema e assistir um bom thriller sobre... a guerra fria...
"The Manchurian Candidate" foi baseado no livro homônimo de Richard Condon e trouxe à tona uma intrigante trama de espionagem/sabotagem, focada na possibilidade da lavagem cerebral, como instrumento dessas ações, bem dentro da livre especulação baseada nas famigeradas teorias da conspiração.

Nessa história, um pelotão norte-americano é capturado pelos soviéticos, durante a guerra da Coréia e enviado à região da Manchúria, na China. 

Quando tais soldados voltam do conflito para a América do Norte, um sargento é condecorado por extrema bravura, Raymond Shaw (interpretado por Laurence Harvey). 

No entanto, o que o governo norte-americano não sabe, é que o pelotão todo fora submetido a experimentos de condicionamento cerebral, para que agissem em ações de sabotagem ordenadas por agentes inimigos infiltrados, dentro do território dos Estados Unidos. 

O capitão Bennett Marco (interpretado pelo cantor/ator, Frank Sinatra) que comandava aquele pelotão, passa a ter pesadelos terríveis e daí começa a se lembrar do ocorrido na China em termos de violação psicológica através do condicionamento pelo qual foram submetidos e assim comunica a sua suspeita às autoridades militares norte-americanas, que em princípio não o levam a sério.

Incomodado com a falta de apoio governamental, eis que ele resolve investigar sozinho, e a cada dia se convence de que tais soldados foram mesmo submetidos a uma dita "lavagem cerebral", principalmente quando descobre um aliado nessa suspeita, na figura do soldado, Allen Melvin (interpretado pelo ator, James Edwards), que também está a sofrer com tais pesadelos, que são na realidade, lembranças recônditas desse processo.  

Para piorar a situação, o sargento Raymond Shaw é filho de um senador com forte orientação conservadora, John Yerkes Iselin (interpretado pelo ator, James Gregory), e sua mãe, Eleanor Iselin (interpretado pela tarimbada atriz, Angela Lansbury), é uma agente secreta comunista, sendo ela em pessoa, a controladora mental do próprio filho, no curso da operação.

O objetivo é comandar o filho, para que ele assassine figuras-chave dos altos escalões do poder norte-americano, e para todos os efeitos, a se creditar os crimes a um ato de loucura ou crime comum quando feitas as devidas investigações policiais, sem que hajam suspeitas em torno da rede de espionagem inimiga, ali infiltrada.  

O comando para os dominados mentais poderem agir, é lhes mostrar uma carta de baralho, especificamente uma "Rainha de Ouros". Com esse código-chave, o comandado ativa no cérebro a obediência absoluta e determinado, o dominado mentalmente se torna um assassino frio a serviço dos inimigos.

O condicionamento cerebral engloba matar também qualquer possível testemunha, para não deixar rastros e a seguir, o próprio assassino se esquecer automaticamente de toda a ação, justamente para não levantar suspeitas, ao voltar a agir como um bom cidadão, entretido em uma vida comum no cotidiano, e nem mesmo ter consciência de seus atos para sair incólume em uma eventual investigação policial. 

Tudo começa a mudar quando Raymond passa a namorar, Jocelyn Jordan (interpretado pela atriz, Leslie Parrish), filha de outro senador e rival político de seu pai.

Em uma determinada festa a fantasia, Jocelyn comparece a trajar a fantasia de uma carta do baralho, justamente a "Dama de Ouros" e dispara o condicionamento cerebral em Raymond, que a mata, impulsionado pela ordem que o motivava a descartar possíveis testemunhas.  

Enquanto isso, Bennett Marco desvenda a chave hipnótica da "Rainha de Ouros" e começa a manipular Raymond, ao usar um baralho inteiramente formado por essa única carta.


Contudo, a mãe de Raymond descobre as ações de Bennett e o ameaça. A mais importante missão está por vir para o dominado Raymond e uma tensa sequência ocorre com Bennett a tentar impedir os planos dos inimigos. 

Na convenção partidária na qual o candidato à presidência dos Estados Unidos discursa, Raymond infiltra-se disfarçado como um padre católico, mas em um segundo, em que recobra parcialmente a sua consciência, suicida-se ao invés de cumprir as ordens que tinha, para assassiná-lo.


Por conta de um intrincado roteiro a envolver uma teia de relações e claro, a envolver a tensão típica de um filme centrado no tema da espionagem/geopolítica, é uma obra tensa, com excelente clima em torno do thriller psicológico, a conter muitas cenas de ação e sobretudo com a devida apreensão que o tema da guerra fria sempre imprimiu, principalmente no imaginário do cidadão médio norte-americano, assombrado com um ataque nuclear iminente e sempre estimulado a enfrentar inimigos por todos os lados.

Chama a atenção a atuação de Frank Sinatra, que sempre foi subestimado como ator, por conta da sua carreira de sucesso na música e assim ser acusado costumeiramente de usar o cinema como uma mera estratégia de propaganda pessoal para amealhar novos mercados a fim de vender mais discos. 

Tal afirmação sempre foi descabida, ao se levar em consideração que ele era um mega estrela da música há décadas nessa ocasião e certamente que não dependia desse tipo de expediente para vender mais álbuns do que já vendia sob uma proporção gigantesca para os padrões do mercado fonográfico da época.  

E mais um fato, não apenas neste filme, mas em outros nos quais atuou como ator, ele foi muito bem, com um padrão de interpretação muito acima do esperado para quem não se capacitara com afinco para tal carreira em específico, a provar que tinha um talento natural extra para exercer tal função em outro ramo da arte.

Portanto, aos invejosos de plantão ficou a constatação de que Sinatra foi um tremendo cantor e um bem razoável ator, a lhes restar como argumento negativo para denegri-lo, a sua suposta ligação com a máfia.

Resenha publicada na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, em sua edição n° 308, no ano de 2012.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Filme: Seconds (O Segundo Rosto) - Uma Nova Vida - Por Luiz Domingues

E se pudéssemos adquirir uma nova identidade no decorrer da vida, com fisionomia, documentos, atividade profissional e relacionamentos sociais completamente diferentes dos nossos? 

Pois foi nessa fantasia que o diretor John Frankenheimer baseou-se para criar: "Seconds", seu longa-metragem lançado em 1966.

A história começa com o personagem, Arthur Hamilton (interpretado pelo ator, John Randolph), um homem de meia-idade, rico, porém completamente insatisfeito com a sua vida. Tudo muda quando ele é abordado por um amigo que julgava falecido há tempos e que não obstante tal fato inusitado por si só, lhe propõe uma mudança radical de vida. Arthur é levado então a uma instalação secreta, laconicamente denominada como: "a empresa" .
Em meio a diversas pessoas com a mesma expectativa, Arthur é confinado com o intuito de se em preparar para uma mudança radical de vida.

Através de uma entrevista realizada por um misterioso homem chamado,  "Sr. Ruby", Arthur aceita as regras dessa mudança radical de vida, ao assumir o compromisso de se esquecer sem reservas de sua família e identidade antiga.

Um incêndio é forjado para que um cadáver de uma outra pessoa dada como indigente, seja colocado no local, e assim, tal farsa sirva para que Arthur Hamilton fosse declarado morto, oficialmente, ao se emitir um atestado de óbito e sua família aceitar a ideia. 

Enquanto isso, ele submete-se a uma radical cirurgia, na qual  é completamente rejuvenescido e com nova fisionomia, surge a sua nova personalidade, doravante como: Tony Wilson (personagem interpretado pelo ator, Rock Hudson). 

Tony Wilson tem uma nova vida. Agora ele vive como um artista plástico que mora em Malibu, Califórnia. Leva uma vida excitante como artista celebrado e namora, Salome Jens (Nora Marcus), uma mulher jovem e muito bonita.

Entretanto, aos poucos, o remorso por ter abandonado a sua vida verdadeira, começa a ecoar dentro de si. 

Em uma determinada festa em que está presente, ele se excede na bebida e fala sem reservas sobre a sua vida pregressa com estranhos, o que causa espécie e naturalmente as pessoas interpretem tal história absurda como parte do seu delírio alcoólico. 

Por conta de tal deslize, ele é advertido por agentes da "Empresa" e fica sob suspeita ante os rígidos protocolos exigidos. 

No entanto, por não suportar viver mais em meio à tal mentira, vai visitar a sua ex-esposa, ao alegar ser um amigo do falecido marido (ele mesmo), e após quebrar essa norma de sigilo, é recolhido às instalações da misteriosa organização, à força pelos seguranças de tal organização secreta.

Ele reencontra o amigo que o levara pela primeira vez a conhecer essa organização e ambos pleiteiam uma terceira identidade. O final, não é feliz, pois o destino de ambos, insubordinados, foi morrer para que seus cadáveres fossem usados como causa mortis de outros clientes que iriam "renascer". E certamente a caracterizar uma irônica metáfora sobre a sociedade que lhe impõe regras e não tolera insubordinação a punir severamente quem não a obedece.

O filme é sombrio, a evocar a aura de um pesadelo, certamente. Mediante esplêndida fotografia preto e branco, obra de James Wong Howe, e é reconhecido pelos críticos como uma película que usa o gênero "Sci-Fi" a se misturar ao "thriller" policial. Elementos dessas duas escolas, mesclam-se à psicodelia em voga na época, principalmente em cenas que evocam a lisergia e o hedonismo, além de uma certa dose de terror, via influência da produtora britânica Hammer e dos filmes do grande diretor norte-americano, Roger Corman, certamente.
A cena da cirurgia plástica de Arthur Hamilton/Tony Wilson (John Randolph/Rock Hudson) controu com tomadas de uma cirurgia de rinoplastia real, aproveitadas na edição final. John Frankenheimer realizou pessoalmente essas tomadas e segundo relatos, desmaiou na sala cirúrgica, ao não suportar presenciá-la. Outra curiosidade interessante, foi que "Seconds" trouxe em seu elenco, três atores que haviam sido banidos de Hollywood por conta da perseguição macarthista. Jeff Corey (Mr. Ruby); Will Geer (The Old Man) e John Randolph (Arthur Hamilton). Informalmente, Frankenheimer dizia que eles foram os "renascidos da vida real", ao justificar a metáfora do filme.

Em suma, se trata de um filme rico em metáforas e ao meu ver, se coloca muito além dos clichês habituais dos gêneros Sci-Fi, Thriller psicológico e os clássicos filmes a abordar a espionagem e organizações secretas, mediante o uso e abuso da teoria da conspiração. 
Buscar uma nova identidade, é na verdade, o sonho de muitas pessoas amarguradas e inconformadas com o rumo de sua existência pessoal, por inúmeros motivos e assim, objeto de uma profunda reflexão sobre quais medidas precisariam ser adotadas para promover as mudanças necessárias para se atingir um grau de satisfação.
 
Do ponto de vista cinematográfico, foi mais um filme com baixo orçamento, pelo qual John Frankenheimer teve que lidar em sua carreira e de novo, foi muito criativo. 
 
Por conta dessa sua característica, também, é que o admiro como diretor, pois ao preparar uma boa limonada com um bagaço de limão já anteriormente espremido, ele demonstrou mais uma vez o quanto foi criativo, portanto, sou um fã da sua filmografia, incluso este "Seconds" que eu considero um filme bastante instigante
Diz-se a boca pequena, que essa foi a melhor atuação da carreira de Rock Hudson, um ator muito contestado pelos críticos. De fato, acostumado a atuar em filmes românticos e comédias leves, ele se acostumara a interpretar personagens insossos, a usar apenas a sua boa aparência que lhe rendeu a fama como galã. Mas neste caso, ele imprimiu uma linha de interpretação muito densa e convenceu, principalmente nas cenas mais aterrorizantes.
Repensar sobre a vida que temos, as pessoas que nos cercam, as escolhas que fizemos e todas as consequências advindas desse enorme emaranhado de relações sociais é um convite que nos faz essa história, motivada através do mote do filme. Sonhar com uma mudança radical, o dito "começar de novo", uma nova oportunidade para fazer tudo diferente, "repaginar", enfim, chame como quiser a sua imersão, porém, o fato inexorável é que toda mudança tem que ser promovida de dentro para fora, portanto, não espere um agente da "empresa" te abordar com a proposta de uma mudança, mas mude, efetivamente, sem necessariamente deixar de ser o que é, se me permite este conselho. 
 
Creio que só por essa reflexão, o filme já merece ser visto, embora ele tenha seus atrativos cinematográficos, certamente, e convenhamos, nas mãos de John Frankenheimer, ele ganhou virtude sob esse ponto de vista, igualmente. 
                       O grande diretor, John Frankenheimer

Matéria publicada inicialmente na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, em sua edição de n° 301, no ano de 2011.

sábado, 21 de abril de 2012

Filme: The Train (O Trem) - Por Luiz Domingues

Entre tantas atrocidades perpetradas pelos nazistas durante a segunda Guerra Mundial, existe a denúncia por conta das pilhagens e demais crimes de natureza civil e nada a ver com a conduta ética de guerra, assegurada por tratados internacionais.  

Nesse cenário permeado por abusos, aliás múltiplos em termos de crimes comuns perpetrados ao se aproveitarem da situação caótica que toda guerra gera por conseguinte, muito se falou do roubo de obras de arte e foi nesse contexto que situou-se o filme: "The Train", lançado em 1964. 

A trama gira em torno dos momentos finais da ocupação imposta pelos nazistas na França, entretanto em seus momentos finais, no ano de 1944, quando já a antever a derrota, se iniciou um recuo. 

Nesse contexto histórico, é sabido que de fato, muitos comboios com trens foram usados para a retirada de tropas, armas e munição, mas sabe-se igualmente, que havia muito material roubado em meio à carga retirada das suas bases de ocupação, a caracterizar um crime de guerra. 

Dessa forma, o filme, "The Train", trata dessa temática, ou seja, ao retratar tal tipo de crime, dramaturgicamente através da obsessão de um personagem fictício a representar tal prática vergonhosa, na persona de um oficial nazista, o Coronel Von Waldhein, vivido pelo bom ator, Paul Scofield, em seu afã de conduzir um trem recheado com obras de arte, a escapulir o mais rápido possível da França e amealhar para si próprio tal tesouro de valor inestimável.

Na ficção, a curadora do museu "Jeu de Paume" faz o alerta do roubo ao entrar em contato rapidamente com a resistência francesa (quem mais poderia auxiliar em uma situação de estado de sítio imposto por uma nação inimiga?), e esta organização clandestina passa a elaborar diversas ações de sabotagem, ao visar retardar ao máximo essa partida do trem. 

Nesse momento, entra em cena a figura do chefe de estação ferroviária, Paul Labiche, protagonizado pelo grande astro, Burt Lancaster. Em princípio, esse personagem é um ferroviário rude e um pouco alheio à questão da guerra em si, no entanto, ele logo se inflama em favor da causa, ao testemunhar o fato de que o seu colega, o maquinista, Papa Boule (Michel Simon), fora executado brutalmente pelos soldados nazistas, após ser flagrado em um ato de sabotagem.

Com Labiche a assumir o comando da locomotiva, mais ações de sabotagem, arquitetadas pelos "maquis" da resistência francesa, transcorrem até o desfecho, até culminar em que as obras são recuperadas e o oficial nazista morre, após um confronto direto e eletrizante com Labiche (Lancaster), ao evocar cenas que movimentam bem a ação, para um filme de guerra, mas não ambientado exatamente no front de batalha e mais a se parecer com um filme com teor policial. 

Esta obra cinematográfica, segundo consta em sua história de produção, deveria ter sido conduzida por Arthur Penn, mas por conta de certos desentendimentos com os produtores, promoveu-se uma ruptura inevitável, após duas semanas com os trabalhos das filmagens em curso, apenas. 

Dessa forma, John Frankenheimer assumiu a direção. O nome de Arthur Penn é creditado como codiretor, mas o trabalho maior foi mesmo de John Frankenheimer.

Com fotografia em preto e branco, o contraste ajudou a realçar a aspereza do ambiente da estação ferroviária, a dramaticidade da situação e de certa forma a firmar um ponto de contradição com o objeto do roubo em si, com toda a beleza das obras de arte e sua profusão de cores, traços & expressão de alta inspiração e sensibilidade artística.

O fato de Burt Lancaster ter sido muito famoso como ator, também por seus atributos acrobáticos, o ajudou certamente a compor o personagem, que foi concebido no roteiro para ser retratado ao se pendurar literalmente na locomotiva, nos vagões e a protagonizar cenas de alta periculosidade não apenas nesse sentido da ambientação insalubre por natureza, mas sobretudo pelo jogo de caça que estabeleceu com os criminosos nazistas em meio às composições do bólido férreo. 

A história foi baseada em fatos reais, com a diferença de que na história oficial, o trem em questão nunca saiu dos arredores de Paris, pois a resistência francesa agiu rapidamente e promoveu ações de sabotagem, muito eficazes. No filme, o comboio ferroviários se põe a avançar, para realçar as ações de sabotagens com maior ênfase.

Ainda no elenco, ótimos atores e atrizes a serem mencionados: Jeanne Moreau, Suzanne Flon, Wolfgang Preiss, Albert Rémy, entre outros. 

Como um fã declarado do diretor John Frankenheimer que eu sou, gosto muito desse filme e o recomendo, naturalmente.

Resenha publicada anteriormente na Revista Eletrônica, Cinema Paradiso, em sua edição de número291, no ano de 2011