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sábado, 7 de maio de 2016

Lixo e (é) Atraso - Por Luiz Domingues




Não quero parecer implicante, mas eu tenho uma impressão pessoal sobre uma sociedade que tolera a sujeira generalizada. Refiro-me à sujeira propriamente dita, mas claro que a minha tese tende a corroborar a ideia de que a sujeira das ruas tem conexão direta com a sujeira moral que permeia a estrutura sociopolítica e econômica de uma nação. 
Senão vejamos: ao falar sobre os países de primeiro mundo, salvo exceções pontuais (sim, eu sei que existem bairros pobres em Londres; Paris; Milão; Nova York e Los Angeles, para ficarmos em poucos exemplos), que contém habitações precárias e sujeira pelas ruas, becos fétidos e violência urbana perpetrada por gangues), a grosso modo, o padrão de limpeza nas ruas é exemplar. O cidadão comum de um país de primeiro mundo nasce em uma sociedade que há décadas, e às vezes, séculos, educa os seus filhos com valores básicos de convivência social e que entre outras coisas, ensina noções básicas, como por exemplo, de que jogar papel de bala na rua, é errado e daí a ausência de lixo nas ruas.
De tanto bater nessa tecla, chega-se em um ponto onde nem é preciso mais ensinar às novas gerações, pois cria-se na alma ou no DNA como queiram, a verdadeira naturalidade lidar como algo bizarro, jogar lixo na calçada. E nem é preciso citar apenas as super potências. Países inexpressivos no jogo da Geopolítica mundial, sem força militar alguma, mas com alto padrão civilizatório, vivem essa realidade com toda a tranquilidade.
O leitor consegue imaginar as ruas de cidades das cidades da Finlândia, com entulho jogado sobre as calçadas ? Acha plausível que na Suécia, as pessoas considerem normal caminhar a pisar em embalagens de produtos consumidos, os mais variados e geralmente a tratar-se de embalagens de itens comestíveis, com os  resíduos orgânicos a atrair insetos e ratos ? Pois é, isso não acontece e a limpeza extrema vai além do asseio necessário e óbvio, mas reflete-se em vários outros aspectos, muitos deles sutis.
A limpeza denota valores. Sujeira e descaso são faces de uma mesma moeda, esse é um ponto. Ao ir além, quando eu jogo lixo na rua, sou desrespeitoso com a urbe e sobretudo com o semelhante. E se tenho essa predisposição em não importar-me com o mal-estar alheio, conduzo esse valor para a vida, ao agir assim em outros tantos aspectos.
Quando uma chuva forte cai e os bueiros entopem, todos ficam alarmados com o desconforto generalizado. Pior que o transtorno, são as perdas humanas (a estender-se aos animais domésticos, é claro); prejuízo material desolador (principalmente aos mais humildes que pouco tem e vivem sujeitos a perder tudo que conquistam com muita dificuldade, a cada chuva que cai, a estabelecer um moto perpétuo dos mais cruéis). Não é possível eximir a culpa das autoridades do poder executivo que pecam pela sistemática má administração pública, sem dúvida, mas é claro que a culpa também é do próprio povo, que nem esboça associar a prática selvagem em jogar lixo nas ruas, com o drama das enchentes. Em suma : vivemos  em uma sociedade ainda atrelada a valores da Idade Média ou pior ainda, da Antiguidade. A exagerar, mas infelizmente sendo realista, em muitos casos, o nosso padrão de sociedade chega a ser pré-histórico. 
E o que dizer de pessoas que mesmo diante de uma lixeira pública a ignoram retumbantemente e não ficam ruborizadas em jogar dejetos no chão ? Pior ainda, o que pensar sobre a questão do vandalismo, onde pessoas acham engraçado (eu já vi até quem defenda a “legitimidade”de tal ato), em destruir lixeiras ? Ato político legítimo enquanto protesto ? Não existe outra forma republicana do cidadão expressar a sua insatisfação com os poderes públicos ? 
Já tivemos lampejos de civilidade e os perdemos. Como é possível  regredir ? Pois é, é possível, sim. Em décadas passadas, tais valores eram mais observados pelas gerações anteriores. A limpeza nas ruas era mais acentuada, inclusive em cidades grandes e onde é mais difícil para o poder público dar conta da varrição das ruas. E certamente havia uma postura mais colaborativa da parte das pessoas. 
No início dos anos setenta, uma campanha de conscientização foi criada na mídia e até um personagem infantil foi criado para disseminar a ideia de que seria errado jogar lixo nas ruas. Quem viveu a época, há por recordar-se da figura do “Sujismundo”, um personagem  prosaico, e que personificava o incauto que praticava atos de falta de cidadania, condenáveis. O objetivo claro foi impressionar as crianças, para formar uma consciência a surtir efeito sob um médio / longo prazo. Todavia, apesar do personagem haver tornado-se popular lá no longínquo anos de 1972, o efeito prático não logrou êxito e a situação da falta de educação popular só piorou, após o decorrer de muitos nos anos e décadas posteriores. 
Ao falar sobre o aspecto psicológico, a limpeza traz a sensação de ordem, e diante de uma ambientação agradável, as pessoas tendem a raciocinar de uma forma clara, mais criativa e mais solidária, no sentido em querer estender o bem-estar que sentem aos seus entes queridos e tal ação tende a ser viral, por certamente espalhar o bem estar generalizado. Ao contrário, em um ambiente de limpeza extrema, a ausência de fatores deprimentes que denotem decadência desoladora, estimula as pessoas a compartilhar as suas ideias em benefício mútuo e não presas em instintos selvagens de sobrevivência que prendam-nos às cavernas pré-históricas. 
Sendo assim, é inevitável não associarmos o atraso do Brasil à mentalidade do povo que ainda não chegou em um grau de padrão civilizado, onde nem seja necessário uma campanha de marketing na mídia, para o cidadão comum não praticar atos abomináveis de falta de higiene nas ruas. E veja que só estou a falar sobre o arremesso de lixo em locais públicos e nem mencionei a vergonha nacional que é convivermos com pessoas (muitas !), que acham “normal” descarregar as suas necessidades fisiológicas pelas ruas. 
E um outro fator : não há diferença, tecnicamente a falar, entre jogar um papel de bala ou um sofá velho na rua, ao pensar sobre o aspecto da imoralidade em que reveste-se o ato. Contudo, não há como não associar a tragédia das enchentes nas cidades brasileiras com o fato consumado que esse povo joga tudo na rua ! Como pode não haver enchente com as pessoas a agir como se a urbe fosse uma enorme lata de lixo ? Basta xingar as autoridades a cada tragédia ? Sim, eles também tem culpa pela inércia, pela falta de vontade política etc. No entanto, isso por acaso não é culpa nossa também a cada nuvem preta que aparece no céu, não seria uma tragédia anunciada ? 
Povo imundo merece chafurdar, não é mesmo ? Sendo assim, não sairemos desse chiqueiro, enquanto não mudarmos a nossa postura pessoal, nesse quesito. De nada adiante a troca quadrienal de poder executivo, pois mesmo que haja boa vontade política do mandatário da vez, sem a profunda mudança de mentalidade do cidadão comum, nada mudará. Para o Brasil subir alguns degraus e poder arvorar-se em ser um país eminentemente emergente e pleiteante a frequentar o seleto grupo de nações do primeiro mundo, é necessário que o povo mude a sua postura em muitos aspectos e um deles é do asseio, ao passar a enxergar, mas sobretudo, ao tratar a cidade onde habitamos, como uma extensão de nosso próprio Lar. 
Manter o sentimento de carinho pelo nosso Lar, precisa alargar-se ao ponto de sentir como “nosso Lar”, a cidade inteira e por conseguinte, o estado e a união. Somente assim o Brasil poderá ser considerado um país que sonha, um dia, ser do componente do dito “primeiro mundo”. Fora disso, é no imaginário do mundo civilizado, apenas uma republiqueta das bananas e cujo povo costuma jogar as cascas na rua. E quem escorrega nas cascas, somos nós mesmos...   
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2016

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Lixo nas Ruas, Reflexo de Um Povo - Por Luiz Domingues



Um dos piores costumes que assolam o Brasil, praticamente desde a sua fundação é a mentalidade inacreditável das pessoas em jogar lixo pelas ruas. Sempre que vejo um cidadão a livrar-se de qualquer objeto que tenha a mão, simplesmente ao jogá-lo sobre a calçada ou na rua, fico a perguntar-me como pode achar normal uma barbaridade desse porte ?
Muitos usam a cômoda desculpa de que o poder público não providencia lixeiras suficientes ou simplesmente não cuida das poucas disponíveis, que estão quase sempre a transbordar, imundas e com o lixo excedente espalhado pelo chão. Sim, muitas vezes isso acontece e acrescento o fato de que a varrição das vias públicas deixa muito a desejar, pelas autoridades municipais.
Todavia, ainda penso que se o cidadão não encontra uma lixeira próxima para depositar o seu lixo, em algum momento vai encontrar uma disponível; utilizar esse serviço em um estabelecimento comercial ou mesmo carregar até a sua própria residência (por quê não ?), para dispensá-lo no seu lixo doméstico. A desculpa esfarrapada de que um reles papel de bala, por menor que seja, não está a causar um dano ambiental, é inadmissível, certamente.
No Brasil, é comum jogar de tudo nas ruas. E eu questiono : essas pessoas que agem dessa forma, fazem o mesmo dentro de suas residências ? A resposta é : dificilmente, por mais relapsas que sejam, duvido que consigam conviver em um ambiente desse nível (claro, existem as exceções, casos patológicos que vemos em reportagens sobre pessoas que acumulam lixo etc). Fora desse patamar de distúrbio sócio / mental, só posso atribuir esse comportamento à absoluta falta de educação. E dentro desse parâmetro, é óbvia a relação de descaso das pessoas com as cidades em que vivem, ao estabelecer uma relação antissocial depreciativa da Res Pública.
O cidadão que adota tal conduta certamente considera a cidade como um território de ninguém, onde exime-se de qualquer responsabilidade perante ela, por considerar que não faz parte de sua moradia.  Ledo engano ! Em um país de primeiro mundo, o cidadão aprende desde pequeno que a sua cidade é na verdade, a sua casa, como extensão viva do seu Lar e portanto, adquire uma relação de amor; respeito, e zelo para com ela.
No início dos anos setenta , houve uma tentativa de campanha educacional nesse sentido. Publicitários criaram o personagem de desenho animado, "Sugismundo". Com peças divertidas na TV e em tiras de quadrinhos, estimulavam as pessoas a mudar esse paradigma de descaso. Mas como foi efêmera a abordagem, caiu no esquecimento e os brasileiros de uma forma geral continuaram a pautar as suas vidas por esse patamar de absoluto descaso com a higiene pública.
Particularmente eu sou contra medidas arbitrárias e ditatoriais por parte das autoridades. Mas alguém tem alguma ideia melhor para mudar a mentalidade desse povo, que não seja pelo caminho árduo das proibições, penalizações e outras medidas invasivas e antipáticas ?
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambos em 2012