domingo, 5 de fevereiro de 2012

Lixo Musical Deriva do Lixo Educacional - Por Luiz Domingues

Você liga o rádio e quase todas as estações estão a executar música de baixa qualidade. Na programação das TV's abertas, o fenômeno repete-se e agora espalha-se também pelos canais pagos, sob a justificativa de que uma nova classe C, emergente, surgiu e começou a acessar esse tipo de serviço (e que fique muito claro que eu sou a favor da inclusão social e ascensão das classes menos favorecidas às melhores condições sócio-econômicas, não é esse o ponto que crítico, aliás, muito longe disso). 
 
Então, por ser uma luta inglória e que fatiga, acostuma-se com a ideia de que isso é tendência normal, já que a audiência é que dita a grade de tais veículos. 
 
Agora, analisemos: o que tem em comum os veículos de comunicação neste país? Quase todas as emissoras radiofônicas estão nas mãos de políticos, ou seja, os mesmos que pouco ou nada nada fazem, seja no legislativo ou executivo, para melhorar as condições da educação e cultura no Brasil. Coincidência?
O fato de termos um nível educacional péssimo e baixíssimos investimentos na cultura, naturalmente gera uma consequência e dela aproveitam-se, pois ao usar a ignorância como desculpa, difundem essa subcultura musical, ad nauseam em suas estações, ao causar esse estrago conhecido e a encher os seus bolsos com essa venda de uma arte muito discutível. 
 
Sendo assim, como esperar que esse panorama melhore? Choramingar espaços para artistas injustiçados que a despeito de seu talento e qualidade, nunca irão tocar nas rádios e que jamais aparecerão em programas de populares de TV, é perda de tempo.


Porquê abririam espaço para artistas que o povo "não quer ver” ? A desculpa mercadológica está na ponta da língua...
 
E por se tratar de empresas comerciais que visam lucros, como podemos exigir que tirem de sua programação o material duvidoso que exibem, para colocar artistas com proposta "antipopular", que lhes proporcione a diminuição da audiência e consequentemente, os façam perder patrocinadores? O povo quer "pão e circo”... isso parece ser um preceito bem antigo que eles não ousam mudar, não é?
Então, surge a ideia de se criar fomentos para estimular a cultura e através de isenção de impostos, empresas podem patrocinar artistas de todos os ramos e vertentes. Esse tipo de dispositivo é genial, em tese. 
 
Em países como a Suécia, por exemplo, esse tipo de Lei funciona muito bem. Uma banda de Rock iniciante, por exemplo, pode usar desse incentivo fiscal para fazer um show bem produzido, com equipamento, estrutura e divulgação profissionais. Então não é a lei Rouanet que esteja errada, aliás, ela ajuda muito e em nada onera os cofres públicos, a despeito das mentiras deslavadas que opositores espalham sobre o seu funcionamento, para confundir a população.
 
Então, de volta ao problema da difusão, a questão da baixíssima qualidade da música que se veicula, que é massacrantemente difundida ao povo, é na verdade fruto de um esquema comercial, do qual todos saímos a perder, até os "marqueteiros" que lucram com esse material ruim, pois um dia haverão de sofrer com as consequências de tais atos por eles perpetrados, em algum aspecto futuro, que seja consequência desse desmando educacional e cultural fomentado por eles mesmos.
Como esperar que um cidadão desassistido, possa gostar de ouvir ou produzir arte sob um nível superior, se seu cérebro não se desenvolveu, graças à subnutrição que grassa, violência, miséria e analfabetismo? 
 
E dá-lhe, música ruim, alimentada com o nível das suas letras a conter insinuações de baixo calão que invariavelmente é o que ele consegue entender e se identificar por analogia. 
 
Por isso, não critico artistas que praticam tais gêneros popularescos pois esses artistas estão na defesa de seu sonho de se tornarem ricos e famosos através da música e esse sonho é válido como meta pessoal de cada um. 
 
Os grandes vilões desse estrato de baixo nível, são os que exploram a miséria educacional e cultural deste país e que invariavelmente
A bolacha vende mais por que é mais fresquinha ou está sempre fresquinha por que vende mais? Esse bordão publicitário que fez muito sucesso décadas atrás, parece se encaixar nessa questão.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica em 2011 e reproduzida no Blog Pedro da Veiga, no mesmo ano.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Teatro e Cinema : The Rocky Horror Show - Por Luiz Domingues


Na primeira metade da década de setenta, Londres borbulhava entre várias vertentes do Rock, simultâneas, que explodiam pela cidade.

Hard-Rock, Progressive Rock e Glitter-Rock estavam entre as mais populares. E por tratar-se de Glitter (ou Glam Rock), David Bowie fora o supremo Deus a instaurar a androginia, misturada ao conceito do Sci-Fi. Bingo !
Essa mistura do Rock com a androginia e sob fortes referências de velhos filmes de ficção científica e terror das décadas de 1930 e 1950 (principalmente), fez com que o autor / diretor australiano, Jim Sharman criasse o bizarro musical, "The Rocky Horror Show", em parceria com o ator britânico, Richard O'Brien, que compôs as músicas.

A estreia na Inglaterra deu-se no Royal Court Theatre Upstairs em 19 de junho de 1973, mas logo mudou-se para um espaço mais badalado, o Chelsea Classic Cinema. Até 1980, somaram-se, 2960 apresentações. Na Broadway, em New York, a estreia foi em 10 de março de 1975. A sinopse do espetáculo misturou essas mencionadas referências do cinema de terror e ficção científica, com o erotismo andrógino da estética do Glam Rock britânico, sob uma colcha de retalhos muito excêntrico.


Trata-se da história de dois jovens cientistas, recém casados (Janet Weiss e Brad Majors ), que a caminho de sua lua-de-mel, passam dificuldades por uma estradinha sob forte tempestade. Eis que avistam um castelo e resolvem pedir socorro, ao alegar precisar usar o telefone...

Todos os clichês dos velhos filmes são usados, mas sob a égide do Glitter Rock, onde um cientista enlouquecido (Dr. Frank-N-Furter ), proprietário do local, é um travesti, e seu mordomo e a governanta, são igualmente lânguidos e macabros (Riff Raff e Magenta ). Ele estava com uma experiência m curso, que revelava-se estar a dar vida a um homem (Rocky Horror), tal como o Dr. Frankenstein o fizera n literatura e nos filmes, e no castelo, o clima é o de um cabaré berlinense, dos anos vinte.

Para salvar o casal, aparece o Dr. Everett Von Scott (clara referência ao Dr. Van Helsing, de Dracula). Mas Frank-N-Furter já havia seduzido o casal de incautos noivos, com seus joguetes sexuais.

Ao final, Frank-N-Furter, Riff Raff e Magenta revelam ser alienígenas do planeta, "Transilvânia", da galáxia "Transsexual" e que a dança, "Double Feature", seria na verdade uma dança de acasalamento de seu planeta. Apesar dessa mistura de conceitos malucos, o espetáculo agrada aos fãs do glitter Rock, além de homenagear singelamente, os clássicos do cinema de horror e ficção científica. O filme foi lançado em 1975, e foi dirigido pelo seu mesmo criador e diretor no teatro, Jim Sharman. O co-autor, Richard O'Brien interpretou o mordomo, Riff Raff e o casal de incautos cientistas, foi interpretado por Susan Sarandon e Barry Bostwick. Tim Curry interpretou o cientista alienígena e transsexuxal Frank-N-Furter, Patricia Quinn como Magenta e Jonathan Adams fez Everett Von Scott, além de Peter Himwood que fez a criatura "Rocky Horror". O personagem "Eddie"que é assassinado pelo cientista travesti e servido como prato no jantar (dá-lhe, Zé do Caixão !), foi feito no filme, pelo ator / cantor Meat Loaf. 

No Brasil, a primeira montagem foi histórica. O ator, Rubens Corrêa dirigiu o espetáculo que apresentou, Eduardo Conde como o cientista / travesti, Frank-N-Furter, e nos papeis do casal, Wolf Maia e Diana Strella. Lucélia Santos fez Magela e pasmem...Tom Zé, ele mesmo... interpretou o mordomo, Riff Raff. O narrador maluco foi feito por Nildo Parente. A estreia foi no Rio de Janeiro em janeiro de 1975. Eduardo Conde teve que deixar a montagem tempos depois, por problemas de saúde e foi substituído por Edy Star. A peça foi montada em São Paulo no mesmo ano, com Paulo Villaça, Antonio Biasi e Lucia Turnbull, a substituir alguns atores da 1ª montagem, que saíram. A adaptação musical ficou a cargo de Zé Rodrix, Jorge Mautner e Kao Hossman. A Som Livre lançou o LP com a trilha sonora cantada pelo elenco brasileiro, mas esse disco nunca mais foi relançado.

No tocante ao estilo musical, o Glitter Rock comanda do início ao final. Dessa forma, referências ao Rock'n'Roll cinquentista clássico, são visíveis. Com muito piano Boogie Woogie, parece que estamos a ouvir um bom disco do Mott the Hoople, com atores e dançarinos a encenar um filme de Sci-Fi. Como curiosidades, cito que Mick Jagger ligou para Jim Sharman, e ofereceu-se para interpretar Frank-N-Furter, mas este preferiu contratar o ator, Tim Curry. E o castelo do filme, fora um cenário da produtora inglesa, "Hammer", famosa companhia de filmes de terror e Sci-Fi, que teve o seu apgeu entre as décadas de 1950 a /1970. Para quem aprecia cinema clássico de terror e Sci-Fi, a letra da música, "Science Fiction, Double Feature", dá uma ideia dessas citações. Separei algumas frases soltas, não a letra inteira:

"Michael Rennie was ill the day the Earth Stood Still"... ao citar o filme, "O Dia em que a Terra Parou", de 1951 e onde o ator, Michael Rennie interpretou o alienígena, Klaatu.

"And Flash Gordon was there in Silver underwear"... o grande Flash Gordon, que saiu dos quadrinhos para o cinema dos anos trinta !

"Claude Rains was the invisible man"... referência ao filme, "O Homem Invisível" de 1933, e dirigido por James Whale, com o famoso ator, Claude Rains, no papel principal.

"Far from Wray and King Kong"... Fay Wray interpretou a "mocinha", no clássico King Kong, de 1933.

"It came from outer space"... sci-fi clássico da década de cinquenta, dirigido por Jack Arnold.

"Dr. X will build a creature... o grande mistério do Dr. X de 1932 e dirigido por Michael Curtiz (Casablanca) onde o personagem, "Doutor X", fabricou a criatura chamada : "The Full Moon Strangler".

"See androids fighting Brad and Janet, Anne Francis stars in Forbidden Planet"... ao referir-se ao filme, "Forbidden Planet" de 1956, dirigido por Fred M. Wilcox, e onde a atriz, Anne Francis, interpretou "Altaira "Alta" Morbius".


"I Knew Leo G. Carroll was over a barrel, when Tarantula took to the hills"... Leo G. Carroll foi um ator britânico que atuou em vários filmes do gênero, Sci-Fi e trabalhou também em seis filmes de Alfred Hitchcock.

"Tarantula" é um filme Sci-Fi de 1955, e dirigido por Jack Arnold.
"Dana Andrews said prunes, gave him the runes"... Dana Andrews foi um ator com carreira prolífica em Hollwood, e em 1957, atuou no filme, "Curse of the Demon" que foi baseado no conto chamado : "Casting the Runes".

"Said George Pal to his bride and when world collide"... George Pal foi um diretor que trabalhou com o gênero Sci-Fi e realismo fantástico em sua filmografia.

Aqui, a referência foi o filme,  "When world collide"("O Fim do Mundo", em português ), do diretor Rudolph Maté.

"I Wanna go to the late-night double feature picture by RKO"... a RKO foi uma das principais companhias de cinema norteamericanas e que produziu inúmeros clássicos desse gênero de filmes. 

Em síntese, trata-se de uma homenagem tresloucada, mas muito divertida.
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011.

Posteriormente, esta resenha foi revista e aumentada, para ser publicada no livro: "Luz; Câmera & Rock'n'Roll", em seu volume I, a partir da página 60.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 3/2/2012 - Sexta-Feira / 23 h. - Loola Paloosa - Santo André/SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 3 de fevereiro

Sexta-Feira

23:00 h

Loola Palooza

Rua Padre Manoel de Paiva, 120

Santo André / SP

Festa da Kaz TV e Portal Orra Meu

A Farra da Copa - Por Luiz Domingues

Exatamente o que esperávamos está a acontecer, ou seja, o Brasil assiste atônito a bagunça generalizada jogada ao léu, permeada pelas suspeitas em torno da organização da próxima Copa do Mundo de futebol. Primeiro aspecto: a quem interessa levantar tantas suspeitas?
 










 
Por outro lado, independente do governo que estiver no comando da administração, alguém ainda em sã consciência surpreende-se com o atraso das obras públicas, e as sabotagens inerentes que surgem sorrateiramente?
Sob o ponto de vista racional da praticidade, qual o sentido de se construir estádios faraônicos, aonde serão disputadas duas ou três partidas e que depois serão alçados à condição de verdadeiros elefantes brancos? Sim, nesse aspecto as reclamações procedem, pois, há casos de praças que terão esses estádios e sequer possuem equipes na segunda divisão do campeonato brasileiro.  
 
Diante de tal realidade, eles sustentar-se-ão posteriormente com shows musicais apenas em suas dependências? Concentrações religiosas? Festas sazonais como a chegada do Papai Noel mediante helicóptero na véspera do Natal? Jogos "caça-níqueis" da seleção brasileira (aliás, esta a cada dia com menor prestígio entre os torcedores). É isso o que os defensores da construção dessas arenas usam como desculpa para justificar tais gastos? 
 
Esse é um ponto de vista a ser escutado, mas na contrapartida, se pensarmos que a construção civil gera milhares de empregos diretos e indiretos, não é uma mera movimentação da roda da economia a gerar divisas e não gastos "inúteis" como vociferam os detratores?  É bom lembrar que nos anos trinta do século vinte, o presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt, entre outras medidas, criou empregos para a construção civil e ao ser indagado sobre a suposta falta de serviço a ser executado para justificar a contratação de trabalhadores naquele instante por conta da união, foi enfático ao dizer: "se não houver nada a fazer, que escavem buracos e os tampem depois". 
 
Ora, a roda da economia sobrevive quando efetivamente gira e para tal, as pessoas precisam de emprego e salário para que, consequentemente, possam gastar os seus rendimentos e movimentar por conseguinte a indústria, comércio e agricultura. É o óbvio ululante, mas tal conceito certamente não atende as expectativas de quem só enxerga a possibilidade do acúmulo, a alimentar o mercado financeiro em torno do conceito egoísta em torno do ideário perverso de que "dinheiro faz dinheiro", por si só.
 
É bem verdade, em contrapartida, a pensar nos aspectos negativos sobre a Copa,  que as obras estruturais suscitem dúvidas. Apenas em Belo Horizonte há indícios de que algo está em curso para melhorar o transporte público.  Prefiro não mencionar a situação dos nossos ridículos aeroportos, pois o desconforto é objeto diário das reportagens da mídia, com filas imensas, cancelamentos de voos, atrasos, o vergonhoso uso do "overbooking" com usuários a perderem a cabeça e com isso, ao desejarem irem às vias de fato, contra os pobres funcionários das horríveis companhias aéreas nacionais.
Nesse aspecto do atraso da infraestrutura, o caso mais emblemático parece ser mesmo o da cidade de São Paulo. Com um estádio como o Morumbi mesmo a carecer apenas de algumas reformas estruturais, qual o sentido de se construir um novo estádio da estaca zero? Todo o processo de boicote acintoso perpetrado pela Fifa, com exigências descabidas, foi uma vergonhosa campanha velada para descartar o estádio do São Paulo Futebol Clube, mediante óbvios interesses de terceiros. Como agravante, o governo estadual está a anunciar a chegada de uma nova estação de Metrô, próxima ao estádio e para breve, o que facilitaria ainda mais a sua viabilidade.  
 
Trata-se da linha n° 4, na qual algumas estações já estão em funcionamento. É a linha mais moderna do Metrô, com tecnologia de primeiríssimo mundo. Portanto, o que justifica essa sabotagem ao Morumbi, por parte da Fifa e com as bênçãos da CBF? A última bomba em relação ao estádio do Corinthians foi deflagrada pelo prefeito, Gilberto Kassab na semana passada (escrito em 2011). 
De uma forma vergonhosa para a municipalidade, anunciou-se um pacote milionário com isenção fiscal para facilitar a vida de um clube privado e por conseguinte, da comissão organizadora da Copa.
Dessa forma, os cofres da prefeitura deixarão de arrecadar cerca de 420 milhões de reais em impostos, como IPTU e ISS. Naturalmente, os cidadãos paulistanos estão muito "contentes" por saber dessa atitude e assim, empreendimentos "fúteis" como escolas, hospitais, iluminação pública, conservação de ruas, avenidas e coleta de lixo, podem ficar em segundo plano para que um clube privado tenha o seu estádio particular com isenções fiscais e a Copa, tenha o seu palco adequado, segundo os rigores técnicos da Fifa em sua famosa carta de encargos aos organizadores locais.

Em tempo, o São Paulo FC anunciou que irá reformar o seu estádio com financiamento privado e a Sociedade Esportiva Palmeiras, que também está a reformar o seu estádio e cuja localização fica entre bairros nobres e servidos por estações de Metrô, conta igualmente com recursos privados. Portanto, esse filme já vimos no Rio de Janeiro por ocasião dos Jogos Panamericanos, e agora... não há nenhuma surpresa, não é mesmo?
 
Essa é a argumentação maior dos opositores e tirante alguns pontos nos quais eu reconheço que haja uma certa razão pontual, o fato é que gostem ou não, o evento provoca gastos para a sua realização, é evidente, no entanto, traz divisas ao país e na hora de se lidar com dinheiro, quem, em sã consciência, gasta uma fortuna sem ter a garantia que no mínimo vai recuperar o que investiu? Pois muito além disso, nesse cálculo há a garantia, sim, de que o lucro colossal é certo.   

Matéria publicada inicialmente no Blog Pedro da Veiga, em 2011.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Teatro e Cinema : Godspell (Godspell, a Esperança !) - Por Luiz Domingues

         

"Godspell", ou "Godspell, a Esperança", como foi batizado no Brasil, foi mais um filme oriundo de uma peça teatral musical e neste caso, a tratar-se de uma outra adaptação do texto bíblico, como sustentáculo para narrar-se uma história. Se em "Jesus Christ Superstar", a ideia foi romancear e musicar a "paixão de Jesus Cristo", desta feita a ideia foi mais ou menos parecida, mas a retroagir um pouco antes dos acontecimentos que culminaram com o martírio do profeta ou messias, a depender da visão de cada pessoa e conforme os seus ditames religiosos. E por ser um filme derivado de uma montagem teatral, logicamente que a motivação para chegar às telas fora baseada no sucesso obtido nos palcos, assim como houvera ocorrido com outras peças que foram adaptadas para o cinema, casos de "Jesus Christ Superstar", já citado e também nos casos de "Rocky Horror Picture Show" e "Hair" (este por sinal, somente ganharia as telas, algum tempo depois, em 1979). Para falar sobre o filme, é preciso retroagir à concepção da peça teatral, portanto.

Stephen Schwartz fora um jovem universitário ao final da década de sessenta, quando resolveu elaborar a sua tese de doutorado na universidade, na forma de um libreto, típico texto de sustentação para uma Ópera, inspirado nas parábolas de Jesus Cristo, segundo o evangelho de São Mateus. Ao associar-se com o compositor, John Michael Tebelak, ambos criaram as canções do musical : "Godspell".

A concepção do musical mirou diretamente nas parábolas de Jesus (algumas também extraídas do Evangelho, segundo São Lucas, para completar-se), e dá pequena ênfase à paixão de Cristo, ao contrário de "Jesus Christ Superstar", e assim com tal tipo de visão, agradar mais ao público protestante, daí o sucesso maior nos Estados Unidos. A ideia original seria fazer um musical sob uma roupagem Pop e a seguir ligeiramente a estética Hippie, mas nem tanto quanto Jesus Christ Superstar, no entanto. 

A concepção em mesclar tal determinação às tradições do Teatro Clown, também provou ser algo providencial para imprimir uma marca personalizada ao musical. As canções dividem-se entre o Pop urbano; Folk, Vaudeville; Burlesco e o Gospel, em via de regra. A primeira apresentação dessa encenação, foi amadorística, no entanto, ao ter sido realizada por alunos da Carnegie Mellon University, em 1970, mas logo em seguida foi montada no circuito of-Broadway (La Mama Experimental Theatre Club), ao estrear em fevereiro de 1971.

Dali para chegar à Broadway, foi bem rápido e logo seus direitos foram vendidos para o cinema. Paul Shaffer, o exímio tecladista, famoso por atuar no programa de entrevistas (talk show), de David Letterman, foi o tecladista da banda original, nessa montagem inicial na Broadway. 

Pela estrutura do libreto original, a história girou em torno de uma trupe de teatro que seguiu um chamado divino para encenar essas passagens de Jesus através de suas parábolas. Jesus foi retratado como um Clown / Hippie com referências Pop bem acentuadas, tais como a camiseta com a estampa a ostentar o logotipo do Superman que usa em seu figurino básico e com seus apóstolos a acompanhar essa estética, semelhante. Sobre a referência ao Superman, é clara a intenção em sugerir a aura de um Super-Herói para Jesus e entenda-se tal sugestão sob múltiplas conotações. A mais famosa canção do espetáculo, "Day by Day", tornou-se um enorme sucesso Pop, e assim chegou ao n° 13 do Hit Parade da Billboard, que tratava-se de um índice a medir a repercussão de vendagem de discos com bastante precisão e portanto, um termômetro da indústria fonográfica norteamericana.

E tal canção obteve regravações, como por exemplo a famosa e espetacular versão lançada do quinteto soul / R'n'B, The Fifth Dimension (que gravara canções do musical "Hair", também, anos antes), a cantora britânica, Cilla Black e outros.
No cinema, o filme foi lançado em março de 1973, sob a direção de David Greene ("Inherit the Wind", "Bella Mafia" etc), e com a produção de Edgar Lansbury (irmão da atriz, Angela Lansbury, veterana egressa dos anos 1930 / 1940). 

Quanto ao roteiro, logo na primeira cena, pessoas comuns ouvem o chamado de um João Baptista em versão Hippie, e largam os seus afazeres para submeter-se a um batizado dentro de um 
chafariz em praça pública. Eis que surge a figura de Jesus e após o batismo, inicia a sua pregação, em forma de cantorias e mediante coreografias bem elaboradas, para reforçar com ênfase a dramaticidade contida em tais músicas, aliás, muito bem compostas e arranjadas para essa peça.

Dali em diante, ao ter como locação real a cidade de New York, completamente vazia, sem pessoas como se fosse um cenário pós-apocalíptico, tornou-se portanto o cenário para a atuação dessa trupe com artistas mambembes. Para quem conhece bem a "Big Apple", é muito estimulante verificar diversos pontos tradicionais da cidade, como locação natural do filme.

Chama muito a atenção a cena filmada a partir de uma tomada colhida mediante o uso de um helicóptero, onde uma coreografia foi realizada sob o teto do World Trade Center, pouco antes de sua inauguração oficial. É uma cena de tirar o fôlego pela visão panorâmica e a mostrar-se altíssima da cidade, e infelizmente ganhou uma dramaticidade não imaginada em 1973, quando nem no pior pesadelo, alguém pudesse imaginar que as duas torres que compunham tal complexo, ruiriam em 2001, por conta de atos de terrorismo, que são públicos e notórios.


O ator canadense, Victor Garber, interpretou Jesus, no filme, e ele fora um egresso do elenco canadense que encenara tal montagem no teatro. O ator, David Haskel, cumpriu um  papel duplo, ao interpretar as personagens de João Baptista e Judas Iscariotes. Garber tornou-se um ator mais famoso pelos trabalhos que desenvolveu na TV, posteriormente, no entanto, sem grande destaque dramatúrgico. É um rosto conhecido certamente, porém a atuar em papéis secundários nos seriados, e como por exemplo, o seu último trabalho mais significativo foi como, "Jack Bristow", pai da protagonista, "Sidney Bristow" (interpretada por Jennifer Garner), no seriado "Alias" de 2001, e seriado este a tratar-se do primeiro grande sucesso do produtor, JJ Abrams, o criador das séries : Lost e Fringe. 

Ainda a citar o elenco de "Godspell", em sua versão cinematográfica, destacam-se : Katie Hanley (como Katie, a garçonete da lanchonete); Merrell Kackson (como Merrell, o vendedor de roupas); Joanne Jonas (como Joanne, a bailarina); Robin Lamont (como Gilmer, a modelo); Jeffrey Mylett (como Jeffrey, o taxista); Jerry Sroka (como Jerry, o manobrista do estacionamento), e Lynne Thigpen (como Lynne, a estudante).

Sobre a trilha sonora, há o registro de que a versão do teatro foi mais arranjada de uma forma tradicional, a observar o elemento lírico nas partes vocais e assim, a seguir o padrão convencional de um musical encenado em teatro. Portanto, é atribuída à trilha do filme, um tipo de sonoridade mais Pop Rock em perfeita harmonia com a Black Music. O que vale dizer que essa sonoridade produzida em 1973, não poderia soar mais agradavelmente para quem,meu caso, tem predileção sonora por estéticas existentes entre as décadas de cinquenta a setenta. Portanto, o que predomina em termos de estilos desenvolvidos em tal repertório, é uma boa amálgama de canções versadas pelo Rock'n' Roll; R'n'B; Soul Music; Country-Rock; Vaudeville; Blues e Folk Music, em linhas gerais, portanto, a tratar-se de uma gama de influências múltiplas a apontar para uma riqueza musical muito grande.
A crítica falou bem da película à época de seu lançamento. é óbvio que muitos jornalistas observaram a semelhança com o outro musical concorrente e com raiz bíblica, caso de "Jesus Christ Superstar", e certamente que a base em termos de texto, é a mesma, no entanto, as duas propostas dramatúrgicas mostraram diferenciações entre si. Menos exuberante, musicalmente, do que "Jesus Christ Superstar", "Godspell" não pode ser menosprezado no entanto, pois contém algumas músicas notáveis em sua constituição. Bem, a versão para o cinema foi escrita por David Greene em parceria com John Michael Tebelak, o autor da peça teatral. Produzido por Edgar Lansbury, teve a direção de David Greene.
Ainda nos anos setenta, esse filme entrou com força na grade da TV aberta, incluso no Brasil, ocasião que eu tive para ver e rever muitas vezes, em madrugadas memoráveis em torno da famosa : "Sessão Coruja". Passou também com boa constância nos canais temáticos da TV a cabo, e geralmente relacionado para ser exibido em mostras sobre filmes com motivação Rocker / contracultural / libertária. Saiu nos anos 1980, a sua versão em VHS e posteriormente nos formatos, DVD e Blu-Ray. Já figurou em grades de portais de filmes na Internet e atualmente (2012), consta em alguns portais de filmes.

Cabe acrescentar algumas informações sobre a montagem teatral feita no Brasil. Pois então,  o ator / produtor, Altair Lima, que produziu e encenou "Hair", comprou também os direitos dessa outra peça, e montou "Godspell", igualmente em São Paulo, no ano de 1973, a contar com o ator, Antonio Fagundes, a interpretar Jesus, e sua então esposa, Clarice Abujamra, a assinar a coreografia. A montagem no Rio de Janeiro foi em 1974, no Circo Botafogo, com Zezé Motta; Wolf Maia; Lucélia Santos e Kadu Moliterno, entre outros profissionais.

A minha lembrança pessoal com a encenação teatral de Godspell, foi tímida na época, pois limitou-se ao assistir um resumo da encenação na TV, em um programa extremamente cafona, exibido na extinta, TV Tupi, chamado : "Clube dos Artistas". Após a exibição, a preocupação dos apresentadores, Ayrton e Lolita Rodrigues fora questionar Fagundes e os demais atores, sobre imbecilidades a respeito de seu figurino, que chamou-lhes a atenção pelo exotismo, muito mais que a estabelecer algum comentário mais pertinente ao texto ou sobre a música usada como veículo para expressar tal história...
E assisti tal filme pela primeira vez na TV, em uma madrugada, ainda nos anos setenta, no bom tempo em que a TV brasileira mantinha uma grade de cinema com muita qualidade. Mas sobre essa questão da TV exibir cinema de qualidade nessa época, é assunto para outra matéria, certamente, pois é cabível esmiuçar tal assunto.

Godspell não tem o soco no estômago que "Hair" proporcionava, nem a mesma contundência de "Jesus Christ Superstar", mas trata-se de um bom musical, com canções notáveis como, "Day by Day", "Prepare Ye the Way of the Lord", "God Save the People", "All for the Best", e para não dizer que não provocou nenhuma controvérsia, a música, "Turn bacK, O Man" gerou protestos da parte de religiosos mais fundamentalistas, que não conformaram-se com a ideia de Jesus estar nessa cena da peça / filme, dentro de um Cabaré, e ser assediado por uma prostituta. Curiosamente, é uma de minhas canções prediletas de Godspell, com a sua estética Vaudeville, a conter um ótimo piano swingado e lânguido, ao melhor estilo do Blues de New Orleans, bem naquele clima de um saloon do velho oeste norteamericano.

Recomendo assisti-lo, certamente e creio que o filme, mesmo envelhecido para os dias atuais, ainda consiga manter uma relevância pela força da mensagem; criatividade observada em seu roteiro e o uso da estética escolhida, a valorizar o sabor dos anos setenta. Além é claro, da qualidade das canções, que revela-se, inquestionável.
Matéria publicada inicialmente no Blog do Juma em 2011, e republicada no Blog Pedro da Veiga, no mesmo ano. 
Posteriormente, essa resenha foi revista e aumentada, para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock1n1 Roll", a partir da página 53.