quarta-feira, 11 de abril de 2012

Filme: Grace of My Heart (Voz do Meu Coração) - Por Luiz Domingues

Ao final da década de quarenta, a revista Billboard cunhou o rótulo: "Rhythm and Blues", ou  também conhecido pela abreviatura, "R'n'B', para designar um novo derivado do Blues, que havia fundido-se a variados estilos jazzisticos, tais como o Jump Blues; Swing, e Hard Bop. Algum tempo depois, no avançar dos anos cinquenta, o R'n'B tornara-se extremamente popular na América do Norte, ao alçar, para assim adquirir o seu quinhão de estrelato, grupos vocais negros em predominância, dotados com extrema qualidade musical. 

Entretanto, ao final da década de cinquenta, sob uma Era pré-Beatles e pré-Folk (observo esse aspecto pela evidente explosão da vertente baseada nas ditas, "Protest Songs", no caso da Folk Music), as gravadoras mantinham ainda o hábito em contratar compositores fixos, para alimentar tais grupos com material a ser gravado, pois a imensa maioria dos seus intérpretes nem sonhavam em compor as suas próprias canções. Inúmeros compositores talentosos começaram as suas carreiras nessas condições, ao final dos anos cinquenta, casos de Carole King e Gerry Goffin, que formavam um casal de compositores profissionais, contratados por uma gravadora.

É nesse contexto que acontece a história do filme: "Grace of My Heart") no Brasil, batizado como: "A Voz do Meu Coração", a designar um conceito adulterado da intenção do título em inglês, embora haja uma certa proximidade léxica em sua intenção), assinado pela diretora, Allison Anders, lançado em 1996. 

Assim como a película, "The Rose" (de 1979), que nunca explicitou ser a biografia de Janis Joplin, de fato, "Grace of My Heart" também não autoproclamou-se a biografia oficial da compositora/cantora e pianista, Carole King, no entanto, as semelhanças e insinuações com o vida e obra dessa grande artista, não dão margem para dúvida de que na verdade,foi essa a sua intenção.

Dessa forma, a história narrada não oferece outra hipótese a não ser pensar-se na biografia de Carole King, desde o seu surgimento como uma compositora contratada
 para alimentar diversos intérpretes mantidos por uma gravadora, a trabalhar no famoso, "Brill Building". Este a tratar-se de um edifício localizado em Nova York, onde muitos compositores trabalhavam para fornecer criação à indústria fonográfica, mas que sobretudo, foi muito mais um conceito do que a designar um espaço físico propriamente dito, visto que acostumou-se a dizer que havia um "estilo Brill Building" dentro do R'n'B comercial e praticado mais ou menos entre 1958, quando Elvis Presley sinalizou a primeira mudança em seu direcionamento artístico, às vésperas de seu alistamento militar e a estender-se mais ou menos até meados de 1964, quando a "British Invasion" comandada pelos Beatles, arrebatou a América do Norte.

A personagem, Edna Buxton (ILLeana Douglas), que é uma garota rica, e virtual herdeira de um império industrial criado por seu pai, contudo, embora houvesse essa expectativa familiar em relação ao seu futuro, ela sonha em ser cantora. Edna participa de um teste para ser cantora de uma gravadora e passa, mas logo a seguir, os dirigentes da companhia percebem que ela também possui talento como compositora e pianista. 

Então, o produtor, Joel Milner (interpretado por John Turturro), a contrata e daí em diante, a sua carreira passa a subir, como compositora de sucesso a sustentar o repertório para grupos vocais, sobretudo femininos, orientados pelo gênero "R'n'B" e cantores solo. Por uma sugestão de Joel Milner, Edna adota doravante um novo nome artístico como: "Denise Waverly".


Denise envolve-se emocionalmente com outro compositor, Howard Laszatt (Eic Stoltz), e ambos vão trabalhar juntos. Após alguns sucessos conquistados por ambos, no âmbito pessoal, as coisas vão mal, pois o casamento rui, em face da infidelidade contumaz da parte de seu marido, Howard, e ela vai embora do Lar. 

Os tempos mudam e ao chegar a metade dos anos sessenta, a "British Invasion", aquela safra composta por bandas de Rock oriundas do Reino Unido, praticamente sepulta a figura tradicional do compositor de aluguel nas gravadoras norte-americanas. Pois com o sucesso dos Beatles e de outras bandas inglesas, e a seguir com as norte-americanas, a nova ordem no mercado fonográfico passou a ser o próprio compositor lançar-se como intérprete, a tocar e cantar as suas próprias músicas. O mesmo fenômeno estava a acontecer com os artistas egressos da música Folk norte-americana, com Bob Dylan e Joan Baez, em sua comissão de frente. 

Denise conhece então o compositor e vocalista de uma banda orientada pela vertente da Surf-Music, muito famosa, que envolta na lisergia do emergente movimento Hippie, deseja produzi-la, como uma artista solo, ao usar todo o experimentalismo típico dessa Era. Eles envolvem-se a formar um casal e decidem ir morar juntos em uma comunidade Hippie. 

Todavia, esse rapaz, Jay Phillips (interpretado por Matt Dillon), faz uso sem parcimônia de drogas alucinógenas, e sob um momento marcado pela insanidade, eis que entra no alucinadamente no mar a caminhar e delirar, a caminhar e delirar e o inevitável ocorre, ao afogar-se. 

No entanto, isso não caracterizou um suicídio, propriamente dito 9ao estilo da história contida nas várias versões cinematográficas do filme: "A Star is Born"), mas na verdade, fora um ato de loucura, mesmo, pura e simples.

Abalada com essa perda, e com três filhos para criar, ela reencontra o seu primeiro produtor, Joel Milner, e finalmente lança o seu primeiro álbum solo, no início dos anos setenta, a conter lindas canções, sob a força de letras expressivas; e sob uma interpretação, notável... o LP em questão, recebe o seguinte título : "Grace of My Heart", o nome do próprio filme, e então, torna-se inevitável não associá-lo ao LP "Tapestry", obra de Carole King na vida real, lançado em 1971, como o seu debut como artista solo e considerado uma pequena obra-prima.
Fica a ressalva no entanto, que "Tapestry" é geralmente reverenciado como uma obra-prima e debut, e sim, é uma obra-prima, mas não foi o primeiro disco solo de Carole King, na vida real, visto que um ano antes, em 1970, ela havia lançado, "Writer", sem o devido êxito, que alcançaria com todos os méritos por "Tapestry".




O importante, foi que este filme, independente ou não de assumir a sua inspiração na biografia de Carole King, montou uma história muito boa ao revelar bem o painel musical a envolver essa questão da indústria fonográfica norte-americana centrado em tal riquíssimo período da história, a envolver o panorama do R'n' B, a música Pop, a Folk Music e o Rock.

Mostrou a derrocada dessa predisposição em torno dos compositores de aluguel, mas a abrir uma nova perspectiva para tais profissionais, visto que muitos partiram para carreiras artísticas, a buscar espaço como cantores e instrumentistas, igualmente, caso da própria, Carole King, mas a revelas outros nomes importantes nesse bojo, como Neil Sedaka, Connie Francis e Neil Diamond (pode-se incluir Burt Bacharach e Leon Russell nessa lista), entre outros.
O filme mostrou o avançar da psicodelia na América e o início de uma Era de ouro na música Pop, com a solidificação de uma nova tendência ao final da década de sessenta, em torno da corrente conhecida como "Soft-Rock", que avançou adiante a solidificar-se nos anos setenta, cujo um dos seus principais ícones, foi e sempre será, Carole King. Isso sem deixar de mencionar as citações a outros artistas e tendências musicais expressas, a demonstrar conter em seu roteiro, uma riqueza de informações muito grande. 
Pelo ponto de vista cinematográfico, trata-se de uma produção agradável ao extremo, com ótima direção de arte, figurinos, fotografia caprichada, um bom elenco para dar vazão ao bom roteiro, diálogos interessantes e sobretudo, uma trilha sonora de primeira qualidade. C reio que por tudo isso, esse filme torna-se uma opção ótima para o leitor aprofundar os seus conhecimentos sobre o panorama da música Pop em geral, em um período dos mais inspirados da história.

Sobre as coincidências com a biografia oficial de Carole King estas são muitas, de fato. A começar pelo LP "Tapestry", que eu citei acima e marcou a grande transição na vida dessa artista.Que Carole King fora reconhecida como uma compositora excelente, ninguém discordava até então, mas quando o LP Tapestry explodiu, ficou claro que a sua assumida nova condição como cantora e pianista, solidificou-se. Realmente, carole King e o seu primeiro marido, Gerry Goffin, trabalharam juntos no edifício Brill, de Nova York, em meio a diversas outras duplas formadas por compositores que ocupavam os estúdios de ensaio e criação onde trabalhavam arduamente para compor as canções encomendadas, em expediente comercial.

Para corroborar a inspiração em fatos reais, o personagem, Joel Milner (John Turturro), foi baseado em dois produtores famosíssimos dessa fase ocorrido no período entre os anos cinquenta, e os setenta: Phill Spector e Don Kirshner. Spector e Kirschner, seguramente bateram ponto ali. Spector teve dúzias de hiper sucessos em sua carreira e trabalhou com os Beatles em sua fase final, sob um clima tenso e foi o produtor do LP "Imagine", uma grande obra da carreira solo de John Lennon. No imaginário de qualquer Rocker setentista, o nome de Don Kirschner remete ao seu clássico programa de TV, "Don Kirschner's Rock Concert", onde dúzias de bandas sessenta-setentistas apresentaram-se e cujas imagens alimentaram programas brasileiros na mesma década de setenta, tais como o: "TV2 Pop Show" (posteriormente conhecido como "Som Pop"), "Sábado Som", "Rock Concert" etc. Artistas como: The Shirelles; Everly Brothers e outros grupos de R'n'B, reais, foram retratados através dos grupos fictícios, mostrados no filme. 

O personagem defendido pelo ator, Matt Dillon (John Phillips), foi claramente inspirado na personalidade do baixista/cantor/pianista e compositor, Brian Wilson, membro do sensacional grupo, "The Beach Boys". Brian está vivo nos dias atuais (2012), apesar de apresentar nítidas sequelas em decorrência do seu abuso em prol de drogas pesadas usadas em demasia, no entanto, o seu irmão, Dennis Wilson (que foi baterista dos Beach Boys), realmente faleceu por conta de um afogamento. Neste caso, a licença poética em ter feito com que o personagem  caminhasse placidamente em direção ao mar, foi uma clara referência ao filme : "A Star is Born" ("Nasce uma Estrela"), aliás, este é um filme que teve três versões no cinema até aqui: 1937, 1954 e 1976.


Neste citado filme, quando o personagem, Norman Mainer, deprimido pelo sucesso de sua mulher, que é uma atriz em profundo momento de ostracismo, faz com que sem outra alternativa para enfrentar o seu próprio orgulho ferido, ele resolva cometer o suicídio ao entrar a caminhar passivamente no mar, para não voltar mais. Não pareceu ser o mesmo caso aqui nesta representação, pela sutileza em denotar ter sido por um motivo aleatório e claramente a mostrar falta de controle mental ante os efeitos das drogas alucinógenas. É claro, a comparação com as biografias dos irmãos Wilson, Brian e Dennis, é uma mera especulação da minha parte.

E finalmente, o filme encerrar-se com o surpreendente lançamento do Lp "Grace of My Haert", certamente uma alusão ao grande "tapestry", já citado. Nessa predisposição, a intenção foi ótima a mostrar a nova "Denise/Edna", a alcançar o tão sonhado reconhecimento e assim, tal qual Carole King, o talento sempre existiu, desde 1958, mas somente agora o grande público finalmente tomou conhecimento dessa realidade. "It's Too Late, baby", Carole, ou melhor, Denise, finalmente chegou para consolidar-se no mercado musical.
Sobre a trilha sonora de "Grace of My Heart", é evidente que ela se mostra espetacular. Com a supervisão de Burt Bacharah e Elvis Costello, e reforçado por canções de outros atores, Joni Mitchell, incluso, trata-se de um desfile de canções com um padrão de excelência melódica e harmônica, muito grande. Sofisticadas, mas sem perder o sentido Pop, é bom deixar claro, são agradáveis parta ouvir-se e cantarolar, mas elegantes em sua resolução em face dos seus arranjos. Entre muitas canções, cito algumas que valem muito a pena: My Secret Love Miss Lily Banquett,
Born to Love This Boy, Juned Groovin' on You, God Give me Strenght, How can I Get Through to You, Hey There, A Boat on the Sea, Man From Mars (esta composta por Joni Mitchell), e muitas outras, ou seja, um repertório classe "A", sem ressalvas.

Illeana Douglas é muito boa atriz, mas não canta, portanto, a sua voz foi dublada, com o talento vocal de Kristen Vigard a dar o suporte nesse sentido, em todas as canções que a personagem, "Denise Waverly", cantou.

Produção a cargo de Ruth Cahrny, Daniel Hassid e um certo... Martin Scorsese, este último a tratar-se de um ítalo-americano que definitivamente gosta e conhece a história da música Pop, entre as décadas de cinquenta e setenta, como ninguém. Roteiro e direção sob a responsabilidade de Allison Anders. Foi lançado em setembro de 1996.
A reação do filme nas bilheterias foi boa, a película gerou uma reação positiva por retratar um argumento com tantas referências diretamente extraídas da história da boa música norte-americana, e dessa forma, realmente só poderia agradar, pelo menos a maioria das pessoas que reconhecem esse esforço empreendido por tal produção.

Já da parte da crítica, a reação não foi unânime. Sim, muitos jornalistas reconheceram as muitas virtudes apresentadas por este filme, no entanto, opiniões em contrário também foram manifestadas. Um certo crítico reclamou da falta de sincronia labial da atriz, Illeana Douglas, nas partes em que dublou a voz da cantora, Kristen Vigard. Um outro sujeito reclamou sobre a fluidez quebrada nos diálogos, a ressentir-se de melhoras ideias.

Enfim, é difícil contentar a todos, porém fica a ressalva de que tem crítico que interpreta mal a sua função. Apenas buscar defeitos na obra alheia, mediante o uso de uma lente de aumento como ferramenta, não é exatamente a função do nobre autor de uma análise. Em determinados casos, as críticas são tão impiedosas e desprovidas de coerência, que implicitamente fica a dedução que em seu íntimo, o analisador de uma obra artística, e geralmente os que opinam com essa predisposição negativa, estão a serviço de grandes empresas midiáticas, nutrem internamente a presunção de que criariam certamente melhor que os autores das obras que analisam.
Sobre o elenco, além dos atores citados, destacam-se também outros intérpretes de peso, por exemplo, Bridget Fonda (como Kelly Porter), a interpretar uma cantora lésbica, mas absolutamente reprimida em sua sexualidade não declarada, e inspirada diretamente na cantora e compositora, Lesley Gore, coautora da canção: "My Secrett Love Miss Lily Banquett". Lesley, que interagiu com toda a cena cinquenta/sessentista oriunda do Brill Building, declarou à época do filme, que não gostou da maneira como foi retratada, ainda que veladamente. E mais: Pasty Kensit (como Cherryl Steed), Bruce Davison (como John Murray), Jennifer Leig Warren (como Doris Shelley), Chris Isaac (como Matthew Lewis), David Clennon (como Dr. Jonesy Jones) e outros. Vale a pena destacar que o famoso ator, Peter Fonda (pai de Bridget Fonda, por sinal), cumpriu uma participação  oculta, ao gravar uma locução para dar voz a um "guru", chamado Dave.

Esse filme teve várias exibições na TV a cabo e na rede de canais abertos, também, ao longo dos anos noventa e início dos anos dois mil. O disco com a sua trilha sonora, elogiadíssima e não seria para menos, vendeu em formatos, VHS e DVD e atualmente, via internet, é encontrada no YouTube, em versão integral e gratuita, com facilidade. eu gosto desse filme, por ele ter acompanhado, mesmo que veladamente, três fases importantes da carreira de Carole King, e também por conter ótimos atores envolvidos, boa direção de arte e sobretudo, ótimas canções.

Recomendo ao leitor, pois retrata uma época rica da história da música norte-americana, e naturalmente a abranger em seu alcance e influência sob âmbito mundial.
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011. Posteriormente, esta resenha foi revista e aumentada para integrar-se ao livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através de seu volume I, a partir da página, 166.


domingo, 8 de abril de 2012

Baú com Novidades - Por Luiz Domingues

Com o sugestivo nome : "O Início; o Fim e o Meio", foi exibido no Rio de Janeiro no último dia 17 de outubro de 2011, a avant première da cinebiografia de Raul Seixas, que promete ser o documento mais bem acabado sobre o artista.
Dirigido por Walter Carvalho ("Janela da Alma"; "Cazuza"), o filme tem o mérito em elucidar pontos obscuros da carreira de Raul Seixas, ao avançar além das obviedades. Um desses pontos é o acréscimo de imagens raras, como por exemplo do Festival de Saquarema de 1976, onde o jornalista, Nelson Motta, foi um dos organizadores e o concebera para ser uma espécie de "Woodstock" tupiniquim. 

Assuntos espinhosos (e evitados por anos), vem à baila, como por exemplo a parceria com Paulo Coelho e a inevitável questão da ligação de ambos com as ideias do bruxo britânico, Aleister Crowley e sua Thelema, além da questão das drogas etc. Cenas do filme caseiro realizado em Super-8, na época, e denominado "Contatos Imediatos do Quarto Grau", estão inseridas. Outro trunfo, foi o de conter entrevistas com as suas filhas e ex-esposas, fato raro em qualquer outro documentário ou reportagem pregressa, tamanho o embate jurídico que travam entre si, pelo espólio cultural do Raulzito. Segundo Walter Carvalho, o copião original chegou a acumular quatrocentas horas preenchidas com material filmado, a conter depoimentos colhidos da parte de noventa pessoas.

Falta sentida foi o episódio de 1982, onde o Raul foi levado à uma Delegacia de Polícia, acusado de ser impostor dele mesmo (há relatos de que seu cabelo e barba foram puxados violentamente por policiais incautos, que acreditavam ser postiços), fato ocorrido em um show realizado no município de Caieiras, na Grande São Paulo, e que representa uma das histórias mais folclóricas a respeito da sua carreira. Embora sentida no filme, essa ausência culmina em ser complementada pela existência do curta metragem : "Tanta Estrela Por Aí", de Tadeu Knudesen (1993), onde Rita Lee, sob uma caracterização hilária, rivaliza com Julie Andrews em Victor / Victoria, ao interpretar a pessoa do Raul ao ser confundido com um impostor. 


Filmar e editar, certamente foi a parte mais fácil da produção para o cineasta, Walter Carvalho, pois difícil mesmo foi a negociação jurídica para satisfazer as três filhas e cinco esposas do Raul, imbróglio que consumiu um ano e meio ! Alheios a tais dificuldades com os conflitos familiares dos Seixas, o público Rocker do Brasil, agradece à produção, e torce para que esse filão das cinebiografias musicais prospere e preencha lacunas históricas, para começar a quebrar o paradigma de que o Brasil não preserva a sua memória artística e cultural.

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2011. 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Ocupação dos Insatisfeitos - Por Luiz Domingues

Que as redes sociais da internet ganharam um papel mobilizador sem precedentes na história, não resta nenhuma dúvida. Tal como uma epidemia incontrolável, insuflaram-se diversas nações árabes recentemente, a promover a derrocada de alguns tiranos e assim possibilitar ventos de liberdade inimagináveis para povos oprimidos por regimes ditatoriais fechados, e invariavelmente amparados por fundamentalismo religioso, essa foi a versão que a mídia oficializou, mas naturalmente que há controvérsia .

Mas não parou por aí essa avalanche com manifestações. Questão mais recente é o fenômeno do: "Occupy Wall Street".

Insatisfeitos pela demora em ver soluções concretas para o fim da crise econômica, milhares de pessoas marcharam sobre o famoso quadrilátero nova-iorquino, templo da especulação e local em que a palavra "Greed" (ganância) é pronunciada como uma verdade absoluta (não é à toa que o personagem, Gordon Gekko, interpretado pelo ator, Michael Douglas, usava esse bordão como um verdadeiro mantra: "Greed is Good", ganância é boa... em meio ao filme: "Wall Street" de Oliver Stone). 

E como epidemia, espalhou-se por diversas capitais mundiais, em uma demonstração clara de que o capitalismo que se esgota nos seus anseios como um sistema altamente predatório e baseado na segregação mais injusta.

Recentemente eu li uma entrevista de um sociólogo, publicada no jornal, Folha de São Paulo, a alertar para uma bolha socioeconômica que está a se inflar rapidamente pela China. Segundo a sua visão nada imparcial, seria a bolha do consumismo desenfreado e motivado pela ascensão econômica, daquele milenar país asiático. A preocupação é que estoure, pois segundo palavras desse estudioso, não há equilíbrio financeiro que segure as expectativas geradas por mais de um bilhão de pessoas que desejam viver como norte-americanos e europeus, mas tem recursos naturais, muito menores, ao gerar um colapso que nem o dinheiro consertaria. 

Como diria o autor, Leo Huberman, em seu clássico: "História da Riqueza do Homem", a culpa é da cupidez de lucros. ou a trocar em miúdos, os capitalistas escancaram que são exclusivistas por natureza e querem que os comunistas só dividam a miséria entre si. 

Ironias à parte, é preciso ficarmos atentos aos próximos acontecimentos, pois da mesma forma que várias nações árabes foram induzidas a insuflaram-se e estimuladas a derrubaram ditadores tidos como déspotas, o movimento "Occupy Wall Street" sinaliza ser bem mais autêntico em seus anseios, ao contrário do que certos órgãos de imprensa tentam nos fazer crer, ao acusar-lhe de ser meramente uma manifestação isolada da parte de baderneiros e decididamente ingênuos que sonham com um mundo mais solidário. 

A verdade é que a insatisfação com o sistema está no limite do tolerável e a ideia de que a "ganância é boa", parece estar a ficar fora do esquadro do século XXI, tal como tantas outras ideias que ficaram para trás, registradas nos livros de história.

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

domingo, 1 de abril de 2012

Filme: Sweetwater, A True Rock History (Sweetwater, na Estrada do Rock) - Por Luiz Domingues


Imagine a sensação de um grupo emergente ao entrar no palco do festival de Woodstock, em agosto de 1969, e ser a primeira banda a apresentar-se, diante de quinhentas mil pessoas, quando a previsão inicial dos produtores, estimara que haveria em comportar um público sob proporção muito menor. Foi o que aconteceu de fato, com a banda californiana, "Sweetwater", que subiu ao palco do festival, logo após a performance acústica de Richie Havens. E por um enorme infortúnio, essa performance não entrou no filme que cobriu o festival, ao extrair-lhe, por conseguinte, a sua  oportunidade em alcançar a fama em escala mundial. Foi o que aconteceu na vida real com essa ótima banda orientada pelo Folk-Rock psicodélico, com pitadas jazzísticas e eruditas no bojo de suas influências.

Muitos anos depois (em 1999, para ser preciso), o canal de  TV, VH1 resolveu investir no filão de filmes biográficos sobre artistas do Rock e a história trágica do Sweetwater foi escolhida para ser a primeira produção dessa safra de cinebiografias, que a emissora batizou como: "Movies That Rock". E assim iniciou-se pela história dessa banda, ao batizar o filme com o seguinte título: "Sweetwater, a True Rock Story" (no Brasil, foi nomeado como: "Sweetwater, na Estrada do Rock").
Para ilustrar melhor, cabe trazer a informação que o Sweewater foi formado em 1967, pelo tecladista, Alex Del Zoppo e pelo baixista, Fred Herrera. Ambos foram  os recrutadores portanto dos outros membros que foram incorporados a posteriori. Incluso a então muito jovem vocalista, Nanci Nevins, e com o talento nato e impressionante dessa jovem cantora, a banda atingiu um outro nível, a sair das pequenas apresentações em casas noturnas obscuras e festivais de pequena monta, para um patamar muito maior, ao ser convidada para abrir shows de artistas  já bem alocados no mercado na década de sessenta, e entre entre eles, estrelas de primeira grandeza, tais como: Jimi Hendrix, The Doors, Cream, The Grateful Dead, The Who, Frank Zappa and The Mothers of Invention, Jefferson Airplane, Chicago, Spirit, The Beach Boys, Janis Joplin, Chuck Berry, Santana, Steve Miller Band e outros tantos artistas de peso. Ora, com uma lista dessas a reforçar o seu meteórico currículo, logo surgiu a oportunidade para a gravação de um álbum, o sensacional LP "Sweetwater", lançado em 1968. 
Quando surgiu o convite para o Sweetwater participar do festival de Woodstock, no ano seguinte, 1969, certamente que os seus membros aceitaram de pronto, no entanto, a real dimensão do que esse festival tornar-se-ia, foi inimaginável até para os seus organizadores , antes da sua concretização, então, nenhum membro do Sweetwater dimensionou com exatidão que aquela oportunidade seria excepcional para consagrar a banda em âmbito mundial, se a sua imagem fizesse parte do filme oficial que seria feito do evento e lançado posteriormente.

A banda começou a perceber tal grandiosidade, quando teve dificuldades para chegar ao local, graças ao congestionamento monstruoso que se avistou na estrada que lhe dava o acesso. E daí, ao mirar a multidão impressionante ali já presente, através da visão aérea mediante o passeio de helicóptero, os membros do Sweetwater ficaram muito surpreendidos. Quando esses músicos aproximaram-se do palco, o guru indiano, Swami Satchidananda pronunciava as últimas em tom cerimonial para garantir as boas vindas ao festival.

A banda subiu ao palco sob estupefação ante a multidão inacreditável ali presente, e deu o seu bom recado. Entretanto, um revés completamente aleatório ocorreu, visto que alguns meses depois da participação da banda no Festival de Woodstock, a ótima vocalista, Nanci Nevens, sofreu um terrível acidente automobilístico que a deixou hospitalizada por meses no decorrer do ano de 1970. Nesse ínterim, os responsáveis pela edição do documentário sobre o festival, decidiram não incluir imagens do Sweetwater, ao alegar que o futuro da banda se tornara incerto com a convalescença da sua vocalista.

Para agravar a situação, Nanci, apesar da melhora bastante significativa do seu estado clínico geral, foi vítima de algo inacreditável que lhe ocorreu, pois as suas cordas vocais ficaram muito danificadas com os ferimentos recebidos por conta do acidente, então, a sua continuidade como cantora, ficou seriamente ameaçada.
Uma triste história, portanto, e que de fato prejudicou a banda e a carreira de Nanci em específico. Ela voltou a cantar apesar da dificuldade, embora tenha demorado muito para voltar à ativa, dadas as circunstâncias de seu longo tratamento. Mas a banda, resolvera prosseguir sem ela, bem antes da sua recuperação e fracassou em sua tentativa, portanto, houve a configuração de uma mágoa entre todos os envolvidos, para piorar ainda mais a situação. Em suma, uma história real, dramática e que só foi obter um certo final feliz, muitos anos depois. Nesses termos, a produção do canal musical VH1, foi muito feliz em sua escolha inicial para o projeto, "Movies That Rock", ao trazer à tona e à baila, essa fantástica história sobre o Sweetwater
Sobre o filme, propriamente dito, ele abre-se baseado nos tempos (então) modernos (final dos anos 1990), através de uma sugestão de pauta para um programa jornalístico: o que teria acontecido com a banda que esteve em Woodstock e não ficou famosa? Sob uma autêntica metalinguagem a ser observada pela própria função do filme e do papel da VH1 em termos de difusão cultural, portanto, a produção usou esse recurso com muita felicidade. 

A jornalista investigativa, Cami Carlson (interpretada por Kelli Williams), sai a campo para tentar achar o paradeiro dos membros do Sweetwater e principalmente da sua ótima vocalista, Nanci Nevens.

A jovem jornalista, encontra o tecladista, Alex Del Zoppo (interpretado, quando mais velho, por Frederick Forrest e este a mostrar-se como um ator veterano e que já atuara em um outro Rock Movie, anteriormente, "The Rose", em 1979).

Muito bem, Alex está a trabalhar como empreiteiro, e mostra-se contrariado, com a abordagem da parte da repórter investigativa, por guardar mágoas sobre o passado e por causa dessa contrariedade inicial, demora a aceitar a entrevista. Por recusar-se a falar sobre o fim da banda, ele prefere comentar apenas sobre o seu início. Começa então o flashback que remete o espectador aos anos sessenta. 

Dessa forma, toda a história real é contada sem grandes mudanças em face à realidade, um ponto interessante a ser observado, visto que o normal em cinebiografias é usar e abusar das licenças poéticas a praticar distorções na história  verdadeira. 

Então, é muito bonita a sequência de cenas a apresentar o começo das atividades da banda, marcado por apresentações insípidas; o momento  em que conhecem, Nanci Nevens (interpretada quando jovem, pela bela atriz, Amy Jo Johnson), que ainda por ser menor de idade na época, teve problemas estruturais para apresentar-se em casas noturnas e sobretudo pela resistência de sua mãe, que mostrara-se frontalmente contra a sua filha estar a envolver-se com aquele bando de hippies cabeludos etc. e tal.

Os primeiros ensaios, shows, as primeiras oportunidades que surgem então, com o Sweetwater a abrir grandes nomes do Rock sessentista, como Grateful Dead, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, The Doors, Cream, Spirit, e outros tantos, incluso Janis Joplin (e tudo isso foi verdade). E aí surge o convite mastodôntico para a banda participar do Festival de Woodstock, o que provocaria a sua chegada ao mega estrelato internacional, sem dúvida.

Contudo, um lamentável acidente automobilístico, deixou Nanci Nevins em situação de saúde, periclitante e uma das sequelas (um irônico golpe do revés, por sinal), foi que ela ficou sem voz por um longo período e então, ao verificar que a banda passava por esse hiato, os produtores do filme oficial do festival, suprimiram o Sweetwater da edição final, ao provocar com que perdesse o bonde da história. Daí, o filme retrata os momentos difíceis vividos por Nanci Nevins, em sua lenta recuperação, e a frustrada tentativa para seguir uma carreira solo, muitos anos depois. 

Ela só gravou um disco solo em 1975, cujo resultado prático foi insípido. Isso sem deixar de mencionar a decepção que teve ao verificar que não teve o devido apoio de seus companheiros de banda, que praticamente a abandonaram, mais preocupados em não perder oportunidades do que em esperar pela devida recuperação física da sua cantoria. 

De volta ao presente (final dos anos noventa), a repórter consegue convencer a agora madura, Nanci Nevins (interpretada quando mais velha, pela atriz/cantora Michelle Phillips), nesta fase da vida a ganhar a vida como uma professora, a prestar um depoimento e após muita resistência, propiciar que ela pudesse reconciliar-se com os seus velhos companheiros. Apenas nesse detalhe, houve uma ligeira licença poética, pois a história foi adocicada visto que na vida real, o Sweetwater reuniu-se de fato, oficialmente para participar do festival de Woodstock de 1994, comemorativo aos vinte e cinco anos da edição do festival original de 1969. E a banda embalou nessa volta, ao manter a sua existência até hoje em dia (2012), inclusive por ter lançado alguns trabalhos novos, nesse ínterim.

Os componentes do Sweetwater, verdadeiro, na avant-première do filme que retratou a sua história
 
A atriz, Amy Jo Johnson, cantou com sua voz os números do Sweetwater, no filme, pois é cantora na vida real. E a escolha de Michelle Phillips, para interpretar, Nanci Nevins, quando mais velha, também foi uma grande ideia da parte da produção desse telemovie da VH1, pois ela foi um ícone sessentista como cantora, ao ter sido componente do grupo, "The Mamas and the Papas" e assim, foi contemporânea da Nanci Nevins, verdadeira. 

O filme teve uma audiência extraordinária, ao bater o recorde da emissora e assim proporcionar para toda uma nova geração, a possibilidade em interessar-se pelo trabalho da banda sessentista. 

Revela-se muito boa a produção deste telemovie, com figurino, direção de arte, e ambientação sessentista fidedigna. Bem, eu sei que é praxe no padrão do cinema norte-americano, e assim não houve novidade nesse aspecto, mas devo salientar que a despeito do padrão de excelência que verifica-se normalmente nas produções norte-americanas, há para destacar-se o fato que a direção de arte em filmes de época, é primorosa, sempre, e mesmo por ser um "telemovie", ou seja, uma produção mais modesta, feita especialmente para a TV, neste caso, ficou muito caprichado. Ou seja, não basta comprar figurino no brechó, pois retratar com fidedignidade a aparência de uma época, é algo bem mais trabalhoso pelas minúcias a serem observadas. 

Sobre a trilha sonora, claro que ela se mostra sensacional, com o som do Sweetwater, pleno por elementos Folk-Rock, misturados a um sofisticado groove jazzístico e pincelados por doses maciças de psicodelia, além do uso de bastante percussão, que conferiu-lhe, elementos latinoamericanos/caribenhos. E o fato exótico por apresentar um violoncelista como membro fixo da banda, oferecia também ao Sweetwater, uma certa pitada da música erudita ao trabalho. Músicas clássicas do repertório do Sweetwater, tais como: "Motherless Child", "What's Wrong", "In a Rainbow", e "Why oh Why", entre outras, abrilhantam o filme. 

Recomendo ao leitor, que o assista e também pesquisar sobre o Sweetwater, real, posteriormente. O filme é adorável por tudo o que comentei anteriormente, e embora trate-se de uma história que teve um momento trágico e deveras melancólico, como drama real na história da banda e particularmente na vida da cantora, Nanci Nevens, a verdade, é que a docilidade da música do Sweetwater suplanta a tragédia ocorrida. 

Ainda a repercutir sobre o elenco do filme, é bom destacar que a atriz, Amy Jo Johnson, também já era cantora e compositora nessa época e depois de sua atuação neste filme, prosseguiu em carreira dupla, a atuar como atriz e também no mundo da música, a lançar discos periodicamente. Para o público mais infantojuvenil, ela era reconhecida como a personagem, Kimberly Anne Hart, a popular: "Power Ranger Rosa", do famoso seriado, "Power Rangers".

Na época do lançamento deste filme, a sua imagem estava associada a um papel mais maduro em um seriado popular da TV, no entanto, como: Julie Emrick, da série "Felicity". Outra curiosidade interessante: uma figura ligada a uma das vertentes oriundas da estética Pós-Punk britânica, o cantor, Adam Ant, interpreta o papel do produtor musical, Todd Bradham.

Ainda a destacar-se no elenco, entre os não citados anteriormente: Kurt Max Runte (como o tecladista, Alex Del Zoppo, quando jovem), John Payne (como J.D.Simon), Zak Santiago (como Jorge Alan), Robert Moloney (como Fred Herrera, o baixista, quando jovem), Michele Beaudoin (como Rita Spiridakis), Michael Rawlin (como Ira Rawlins), Trevor Roberts (como Ian malorowitz), Babs Chula (como rita Spiridakis, mais velha), Ingrid Tesch (como Mary Nevens, a irmã de Nanci), Nanci Movens (como mrs. Nevins,  a mãe de Nanci Nevens), Peter Williamns (como Albert Moore, o flautista da banda, quando jovem), John Burgess Murrray (como August Burns, o violoncelista da banda, quando jovem), Terry David Mulligan (como Fred Herrera, mais velho), e outros. Curioso, o ator que interpretou o percussionista do Sweetwater, Elpidio Pete Cobian, nem recebeu crédito na ficha técnica.

A recepção da crítica foi ótima, ao levar-se em consideração diversos tópicos que eu salientei anteriormente, ou seja, a extrema felicidade em buscar uma história perdida, por  conter uma surpreendente boa produção, mesmo a tratar-se de um telemovie, por recrutar atores veteranos e consagrados como Frederick Forrest e Michelle Phillips e no caso de Michelle, a acrescentar-se ter sido ela, uma musa do Rock sessentista e contemporânea da Nanci Neves real; pela ótima trilha sonora, a ressaltar-se que a atriz/cantora, Amy Jo Johnson, realmente regravou quase todas as canções do Sweetwater, com desenvoltura e também pelo fato do canal musical, VH1 ter iniciado essa ótima saga de filmes com motivação Rocker, a linha: "Movies That Rock", uma iniciativa muito salutar.
Nas cenas da banda a tocar em Woodstock, é claro que a recriação em estúdio buscou os enquadramentos pequenos e completou-se a edição com cenas reais, oriundas do documentário oficial desse festival.

De novo a ressaltar a trilha sonora, além das canções do Sweetwater que foram regravadas e com um trabalho de produção muito bom a salvaguardar os timbres de época no quesito do áudio, é preciso revelar uma curiosidade estranha. Por incrível que pareça, sobre o momento em que Nanci Nevens lança o seu álbum solo, após recuperar a sua voz, seria natural ouvir-se alguma canção desse disco ("Nancy Nevens", de 1975), mas a gravadora/editora, proprietária dessa obra, não liberou os fonogramas para serem usados no filme.
A solução foi improvisar com uma canção composta pela atriz, Amy Jo Johnson, para não frustrar inteiramente a expectativa gerada por tal cena. E o som de Tommy James & The Shondells, o clássico, "Crimson and Clover", também enriquece o filme em algum momento como background, além de uma canção da cantora Pop, Leah Andreone, a pontuar um momento mais moderno da dramatização. E ao final, quando é dramatizado um show da banda reunida com os membros mais envelhecidos, Michelle Phillips a interpretar, Nanci Nevens, empresta a sua bela voz para cantar, verdadeiramente.

Em suma, um filme que tem uma história triste em sua armação básica, mas que se visto por um outro ângulo, é bonito por oferecer o devido resgate de uma banda que ficou muito obscurecida na história e acima de tudo, independente de não ter alcançado um grande reconhecimento público, mostrava-se muito boa pela sua qualidade artística. Além de mostrar que a mágoa pessoal foi superada e a banda ganhou uma sobrevida muito longeva, até, apesar do avançar da idade cronológica de seus principais componentes.

Escrito por Victoria Wosniak, foi dirigido por Lorraine Senna. Lançado em agosto de 1999, logicamente como uma sessão de gala no canal VH1. Espalhou-se por canais de TV a cabo, em diversos países do mundo, incluso o Brasil, bem rapidamente, com muitas reprises verificadas nos primeiros tempos dos anos 2000. Também de uma forma imediata, foi anunciado o lançamento em formato VHS, inicialmente, visto que a transição para o DVD, veio algum tempo depois. Na Internet, atualmente (2012), o filme é encontrado com facilidade no YouTube, em versão integral e gratuita. 

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, em 2011. Posteriormente, esta resenha foi revista e ampliada, para ser incluída no livro: "Luz; Câmera & Rock'n'Roll", em seu volume I, a partir da página, 157.