sexta-feira, 5 de abril de 2019

Livro: Tatuagem (Histórias de uma Geração na Estrada) / Joel Macedo - Por Luiz Domingues


No seu auge, o movimento hippie ganhara uma proporção tamanha, que deu a impressão que tornara-se inexorável a sua consolidação por completo. 

Sem conotação ideológica formal, mostrara-se fora de qualquer tipo de movimentação política a pender para a esquerda, embora alguns incautos tenham tentado impor-lhe a pecha, justamente por não engolir a ideia de fraternidade e compartilhamento total, não por imposição igualitária forçada, mas simplesmente por exercer na prática, um ideário de vida & comportamento muito próximo das ideias de Jesus Cristo e também de Siddartha Gautama, além de seguir muitos preceitos do hinduísmo brahmânico, via Krishna. 

E tudo isso, sem ter nada a ver com preceitos religiosos formais em torno de uma seita ou coisa que o valha, isto é, a ideia em construir um mundo utópico, versado por paz & amor, e fraternidade total entre os seres humanos, de uma forma espontânea. Que perdoem-me os que demonizam a palavra, “compartilhar”, ao atribuir-lhe conotação marxista sob uma interpretação superficial ou por influência mal intencionada de outrem, mas em essência, isso é o sentido mais puro da mensagem crística, ou pura Raja Yoga, no sentido Suddha, para quem estuda o esoterismo cristão na mais profunda interpretação dos ensinamentos de Jesus Cristo ou da tradição indiana, via Mahabharata. 

Quixotesco para a maioria e assustador para as autoridades governamentais sob qualquer orientação ideológica, inclusive as totalitárias esquerdistas, o que levou-se em conta ali foi aniquilar o sonho, não com a truculência declarada e/ou explícita, mas a minar por outros meios essa euforia jovem em torno da desobediência civil em escala geométrica, a usar meios sutis em termos de utilizar a mídia para formatar opinião pública em repúdio, a ridicularizar a contracultura por todos os meios e vilipendiar os excessos hedonistas e sim, mea culpa, houve muito abuso de uma grande parte da garotada que só embarcou no dito “desbunde”, por questões meramente egoístas. Dessa forma, não há como negar tal fato, e nem considero isso uma mácula por extensão, a diminuir o propósito do movimento como um todo.

Porém, enquanto durou, o sonho hippie foi intenso e proporcionou um imenso avanço, em muitas áreas. Questões como o vegetarianismo, ecologia sustentável, a crítica voraz ao consumo, reciclagem do lixo e materiais em geral, respeito aos animais; igualdade racial e também entre os gêneros, críticas às manipulações e ações de condicionamentos perpetradas por poderosas corporações e/ou governamentais e/ou religiosas e a contrapartida em torno de pensar-se em uma vida mais natural, além do apreço total pela arte & cultura, foram pilares naturais que vieram no bojo do movimento. 

Tão forte foi o seu legado, que muitas dessas questões, apesar das ações negativas criadas pelos seus detratores no afã para ridicularizá-las, floresceram, apesar da aridez gerada por tais inimigos desses ideais nas décadas que advieram ao processo de diluição do movimento. Não é preciso descrever que muitas dessas  pautas que eu citei acima, estão em voga nos dias atuais, a confirmar que, sim, os hippies tiveram razão em muitos aspectos, apesar da sua propalada ingenuidade quixotesca.

Portanto, vejo com alegria que nos dias atuais, ao chegarmos próximos dos anos vinte do século XXI, a contracultura hippie dos anos 1960, venha a ser revisitada com força, a buscar-se mais do que um entendimento do que foi aquele movimento espontâneo e libertário, mas a revisitá-lo com um sentido muito especial em termos de revitalização. 

Dentro desse contexto, não é à toa que temos observado o lançamento de diversas obras literárias, lançamento de documentários e relançamentos de filmes de época, (alguns esquecidos e devidamente recuperados), além da óbvia efeméride em torno do cinquentenário da realização do Festival de Woodstock, 1969/2019. Reviver o espírito sessentista, é muito mais que um mero lampejo nostálgico, mas faz-se mister como uma necessidade premente em termos de fortalecimento dos ideais. 

Nesses termos, quando vejo o jornalista, Bento Araújo, causar furor com os dois volumes de sua obra: “Lindo Sonho Delirante”, a exibir dois vastos compêndios sobre discos psicodélicos lançados no Brasil entre os anos 1960 e 1970, não surpreendo-me pelo interesse gerado, assim como o celebrado, Paulo Coelho, finalmente ao deixar o seu berço esplêndido, onde locupletou-se como uma espécie de “mago gourmet” da elite, e abordar enfim a sua visão sobre o furacão do desbunde, onde foi testemunha ocular ao lado de Raul Seixas (falo sobre o seu recente livro, chamado: “Hippie”), assim como também nos últimos estertores de sua vida, o filósofo, Luiz Carlos Maciel ter preparado um livro (ainda não editado), a defender a tese em que o filósofo alemão, Martin Heidegger, teve influência na formatação dos ideais hippies, tanto quanto Herbert Marcuse e também por deixar como epitáfio, uma série de vídeo-aulas com o seu “Anti-Curso” de filosofia e contracultura, enfim, são muitos os sinais.          

Informe-se sobre o curso póstumo de Luiz Carlos Maciel, através desse link abaixo:


E entre tais sinais significativos, um dos mais eloquentes pelos quais eu tive o prazer de ter contato direto, foi através do livro: “Tatuagem” (Histórias de Uma Geração na Estrada), de autoria do jornalista, escritor e tradutor: Joel Macedo. 

Autor do aclamado: “Albatroz”, outra obra seminal, a descrever a sua experiência dentro do epicentro da contracultura, Joel lançou “Tatuagem” em 1971, originariamente. Agora, em 2019, lança enfim a esperada segunda edição, com algum material adicional.

Para quem não sabe, mas precisa saber, Joel é um jornalista cultural com larga experiência no mercado e foi membro atuante do jornal alternativo, “Presença”, bem no início dos anos 1970 e posteriormente, foi da equipe de redação do jornal: “Rolling Stone”, em sua histórica edição brasileira, nos idos de 1972 e 1973. 

Mais que um jornalista muito bem informado e antenado, Joel foi uma testemunha da história contracultural, pois viveu na América do Norte e na Europa no auge do movimento, ao percorrer muitas trilhas usuais feitas pelos hippies da época, por diversos países, incluso as clássicas peregrinações realizadas pelos freaks por toda a Europa em direção ao Oriente Médio e Ásia, onde buscava-se a essência espiritual do movimento, notadamente em localidades como: Índia; Nepal e Tibet.

Diante dessa experiência de vida, inigualável, Joel acumulou histórias, vivências, muitas reflexões e por ter a qualidade de ser um jornalista arguto e igualmente possuir o talento de um escritor que redige com sentido poético, o seu estilo de redação é absolutamente cativante e rico em entrelinhas. 

Nesses termos, “Tatuagem” é muito mais que um bom livro de reminiscências acumuladas, mas na verdade trata-se de um painel multifacetado a mostrar-nos com muita fidedignidade, diversas nuances por ele observadas in loco, a proporcionar-nos a rara oportunidade para que possamos sentir o que ele sentiu, literalmente, em suas andanças pela América do Norte, Europa, África, Oriente Médio, Ásia e pelo próprio Brasil, pois o livro contém histórias sobre o Rio de Janeiro dos Hippies, na Praça General Osório em Ipanema etc. e tal.

Em meio a contos psicodélicos, um pouco de crônica e entrevistas que conduziu, Joel Macedo retratou diversos aspectos muito interessantes das suas observações colhidas dentro da efervescência época. 

É notável como o aspecto subliminar foi capturado de uma forma muito feliz. Por exemplo, em: “O Cossaco”, a sua percepção sobre os hippies britânicos a transitar pelos bairros de Londres, quando cita lugares “cool” da dita, “Swingin London”, sessentista, faz com que andemos juntos com ele e os personagens citados, por Portobello Road, Earl’s Court e outros pontos, porém, o mais emblemático aforismo, que não quis sair da minha mente, assim que o li, foi: “Be Gentle With People”, algo proferido por uma personagem. Forte, profético, mântrico... pois é, uma pérola em forma de chave para construir-se um mundo melhor, ou seja, ao que soa piegas para os insensíveis, eis uma das essências do que foi o movimento, ao decretar: “seja gentil com as pessoas”.

Em outras crônicas e pode-se afirmar que existe a formatação de mini contos, eis que Joel apresenta mais particularidades efervescentes. 

Por exemplo, o sentido mais libertário  em questão, quando em conversação com um freak, Joel perguntou-lhe sobre as preocupações prementes do cotidiano, a respeito da luta pela sobrevivência e garantia dos confortos básicos, como manter uma habitação, algo muito trivial em tese e a resposta foi sempre a mesma, repetidas vezes da parte do rapaz, ou seja: -“o que tem que pintar, pinta”. 

Parece simplória a resposta e certamente irresponsável, se analisada à luz dos parâmetros da sociedade ocidental tradicional, por denotar o sentido da loucura desmedida ou um completo sinal de indolência de quem simplesmente não quer trabalhar e “ganhar” dinheiro, mas revela no aspecto subliminar, uma completa confiança na providência natural, ao denotar que por mais tresloucado que pareça ser, o âmago desse pensamento é transcendental por excelência, ou seja, a questão pueril da vida não pode sobrepujar o nosso foco em buscar o sentido real da existência. 

Portanto, um pensamento profundo, que talvez o freak que o verbalizou, não tenha percebido a sua real magnitude, no calor da conversa, mas Joel foi arguto em captar e colocar no livro, com maestria.

Uma outra história impressionante, é a de uma garota paulistana que largou a sua boa vida materialista, proporcionada pela sua família abastada e mandou-se, como se diz por aí, munida de mochila para morar em Amsterdã, com o namorado Rocker, para viver cada dia como se fosse o último. 

Fato comum nesses anos sessenta, tanto que a música: “She’s Leaving Home” dos Beatles, trata com propriedade sobre o assunto, o fato é que muitas meninas abandonaram a vida burguesa para buscar a liberdade. Neste caso, o mergulho de cabeça nas drogas foi enfocado, e não há o que mascarar, ou seja, nem todo mundo buscou preceitos filosóficos ou espirituais, mas simplesmente entregou-se ao hedonismo puro e simples, não há como esconder-se que isso ocorreu para muitos e foi o caso dessa menina de São Paulo, que gostava de debochar da sociedade, ao enviar recados para o seu pai, a dar conta de suas loucuras vividas na capital holandesa.

E por falar em “Bad Trip”, tal assunto não é evitado, para edulcorar a narrativa somente em aspectos edificantes. Por exemplo, dois contos tratam do assunto. Em um deles, há uma manifestação existencialista explícita da parte de quem está completamente desacreditado de tudo e de todos, ao traçar um discurso que remete ao pensamento a versar entre algo entre as ideias de Jean Paul Sartre e Augusto dos Anjos, digamos assim, e em outro, uma vivência ruim revela-se na verdade uma experiência paranormal impressionante. 

De fato, a sensibilidade vibracional muda conforme o estado alterado de consciência. Carlos Castañeda, Ken Kesey e Tim Leary que o digam. 

É muita significativa uma entrevista que Joel fez com um Hippie, em 1968, nas ruas de San Francisco. Impressionante o sentido do raciocínio do rapaz ao imaginar o futuro como uno, sem divisões. E ainda a citar o filósofo, Herbert Marcuse, esse rapaz previu a falta de sentido revolucionário do movimento, pelo viés político, enquanto apenas revolucionário em torno dos costumes e pensamento, além de discorrer sobre a diferença entre os hippies e outros movimentos mais politizados e beligerantes, tais como o Black Panther. 

Desconcertante em sua lógica que soava ilógica aos seguidores dos parâmetros tradicionais, quando perguntado se deixara a sua casa, respondeu tacitamente: -“minha casa são as ruas da Califórnia”. 
Tal sentimento em torno do total desprendimento de regras, amplifica-se mais tarde em outro conto, quando em contato com hippies oriundos de diversos países, em pleno solo do Afeganistão, Joel ouviu de um outro hippie, uma bela dissertação sobre o planeta ser em tese, "a casa de todos". 

Portanto a demolir o conceito materialista sobre territórios, pátria e nacionalidades: “-sou um cidadão do Mundo”, foi a síntese do que esse freak elucubrou. 

Além disso, são muitas as passagens surpreendentes sobre o contato com a natureza, o ato de dormir a céu aberto, olhar e prestar atenção nas estrelas, no mar, nas árvores. 

E também o contato amistoso, certas vezes, com pessoas teoricamente contrárias ao movimento, ao estabelecer uma relação humana muito interessante, pelo aspecto do improvável (caso dos policiais espanhóis, e estes ainda sob a égide pesada do senhor Franco, ou seja, um representante muito antagônico aos ideais hippies).

Por fim, um capítulo tenso, vivido no Rio de Janeiro, em 1970, onde o contraditório foi testado a ferro e fogo. Não foi nada fácil falar em Paz & Amor para pessoas avessas a tais ditames. Esse capítulo provoca um nó na garganta, certamente e também surpreende ao fazer uma revelação que nem todo mundo sabe, mas foi um fato, a respeito da formatação do crime organizado em contato com pessoas politizadas, ao denotar um tiro no pé do sistema. E tal situação nada tem a ver com os Hippies, devo limpar a barra dos cabeludos...

O livro apresenta muitas citações a bandas de Rock notórias ou obscuras, músicas e artistas antenados da MPB mais hippie e fala também nas entrelinhas sobre usos e costumes, como por exemplo ao citar os famosos casacos feitos no Marrocos e não foi por acaso que o guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, os adorava e claro, o significado emblemático do uso de cabelos longos por parte dos rapazes, como um símbolo, que tornou-se epidêmico, praticamente a denotar ser algo iniciático.

Leitura obrigatória para quem simpatiza com o movimento Hippie, contracultura, Rock sessentista, Flower Power, pensamento libertário em favor do ideal fraternal e sobretudo, para quem busca menos materialismo e mais essência na vida, este livro só tem um defeito: é curto demais. 

Cabe acrescentar muito mais conteúdo e assim fica a minha torcida para uma eventual terceira edição aumentada ou o lançamento de mais volumes, o quanto antes. Este planeta precisa urgentemente de menos ganância materialista e mais sentido fraternal imaterial. Paz absoluta e amor, sem dúvida alguma.
A ilustração que compõe a capa do livro é sóbria, mas funcional ao trazer o emblema de uma bússola e a insinuação de um viajante a segui-la, com o Pico do Himalaia a vista. Mais que sinalizar o instrumento que aponta a direção ao viajante, é óbvia a alusão ao buscador da verdade de si mesmo, em sua jornada anterior à cata de respostas. 

Sobre a a ilustração, trata-se de um trabalho de Gabriel Fonseca. O trabalho de editoração e diagramação ficou por conta de Vitor Coelho e a revisão a cargo de Ana Karina. Assistência editorial de Julia Macedo. Lançado pela editora jMf (Joel Macedo & Família). 

Recomendo a leitura de “Tatuagem”, um impressionante relato sobre alguém que viveu e absorveu muito bem o que representou o desbunde contracultural dos anos 1960, com prolongamento até meados dos anos 1970, e cuja raiz gerou ramificações que atinge-nos nos dias atuais. Como o autor enfatiza em suas palestras e eu já tive o prazer de participar de sua explanação em uma delas, “resistir” é uma necessidade premente.           

“Tatuagem” pode ser adquirido diretamente com o autor, através de sua página específica no Facebook:

https://www.facebook.com/tatuagemhistoriasdeuma/

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Pedra - 5/4/2019 - Sexta-Feira - Sesc Belenzinho - Belenzinho - São Paulo / SP

Pedra

5 de abril de 2019 - Sexta-Feira - 21 Horas

Sesc Belenzinho

Rua Padre Adelino, 1000

Belenzinho

Estação Belém do Metrô

São Paulo / SP

Pedra :
Xando Zupo : Guitarra e Voz
Rodrigo Hid : Guitarra. Violões; Teclados e Voz
Ivan Scartezini : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo e Voz

Participação Especial :
Diogo Oliveira : intervenções gráficas simultâneas

quarta-feira, 20 de março de 2019

Livro: Negociação de Crises e Reféns / Cristiano Rocha Affonso da Costa - Por Luiz Domingues


No imaginário popular, toda a situação que envolve um ato de bandidagem, terrorismo & afins, principalmente a conter reféns, é uma pequena amostra de como tal situação limítrofe é passível de ocorrer em qualquer instante e certamente dispara-nos o sentimento imediato da solidariedade para quem está a sofrer, incluso os familiares de quem esteja envolvido no conflito. 

Além desse sentimento, advém a automática identificação com o sofrimento alheio, no mais previsível e humano dos sentimentos, ou seja, logo projetamos como seria estarmos a viver aquela situação, e assim a correr risco de morte iminente e nesse caso, é incomensurável o sentimento de angústia. Além do fato de que não importa a situação em que possamos estar inseridos, isto é, se vitimados diretamente ou se alguém de nossa família ou que pertença ao rol de amizades estiver a passar por tal conflito, a angústia gerada pela gravidade da situação, é a mesma.

Posto isso, em meu caso particular, como um entusiasta do cinema, desde criança assisti a vários filmes centrados nesse tipo de ocorrência policial ou no âmbito da geopolítica internacional a envolver atos de espionagem e intervenções militares, ou de agências de inteligência e portanto, achava e ainda acho bastante estimulante acompanhar o desenrolar das situações e pelo menos na ficção, sempre impressionei-me com a riqueza de detalhes nesse tipo de operação a ser resolvida da melhor maneira possível, ou seja, malfeitores capturados e reféns libertos, sãos e salvos.
Sendo assim, foi com muita satisfação que recebi em minhas mãos um livro técnico sobre o assunto, da parte do seu próprio autor. E o curioso foi que esse amigo eu conheci por circunstâncias muito diferentes, a envolver outro tipo de interesses em comum e embora eu saiba que ele seja um militar com alta patente, não poderia supor que fosse uma autoridade nesse assunto em específico e muito menos um escritor eloquente. 

Diante dessa agradável surpresa, assim que recebi o exemplar de sua obra, experimentei duas sensações primordiais: primeiramente, fiquei feliz e de pronto animei-me a ler, com muito gosto e ao mesmo tempo, elucubrei se eu teria a capacidade para entender um livro técnico a versar por um tema do qual sou um completo leigo. 
Qual seria a minha credencial para entender um livro dessa natureza? E de nada valeria a minha lembrança sobre ter visto alguns filmes a abordar tal tema, pois é evidente que a ficção não pode ser levada em consideração, em detrimento de um assunto tão complexo como esse, e sem exagero, eu até imaginei que mesmo para policiais, militares das forças armadas e agentes de órgãos de inteligência governamental de segurança, tal livro seria difícil e portanto passível para ser digerido por poucos, apenas circunscrito à nata desses profissionais super preparados.

Qual não foi a minha surpresa, no entanto, quando iniciei a leitura e constatei, que sim, o livro é muito bem embasado, escrito com todo o rigor técnico para atender as necessidades desses profissionais citados, mas foi escrito com uma linguagem coloquial, a garantir a plena acessibilidade para qualquer cidadão leigo no assunto, dessa forma, apesar de tratar-se de um livro direcionado para os profissionais sob alto nível, pode ser lido pelo cidadão comum e neste caso, serve como um excelente meio para entender-se como é minuciosa a ação de um negociador de conflito, para conduzir a situação ao melhor resultado possível, ou seja, não ceder aos meliantes, porém a garantir a integridade de todos os envolvidos, incluso os geradores do caos. 

Em suma, torna-se fascinante notar como neste livro, o autor explica com bastante propriedade todos os passos que o negociador precisa percorrer para desarmar os ânimos acirrados e conseguir libertar os reféns sãos e salvos e também garantir aos malfeitores que a sua vida e direito à defesa serão observadas, dentro dos parâmetros da lei, sem arbitrariedades. 

O nome do livro é: “Negociação de Crises e Reféns” com o seguinte subtítulo: “O Trabalho de Negociador no Gerenciamento de Eventos Críticos”, e o seu autor chama-se: Cristiano Rocha Affonso da Costa. 

Militar com alta patente no exército brasileiro, Cristiano tornou-se um estudioso sobre o tema e hoje é considerado um mestre no assunto, com um currículo farto, a arrolar muitos cursos ministrados para militares, agentes policiais e da inteligência e outros profissionais da área da segurança e justiça, com uma infinidade de palestras proferidas e treinamento para diversos grupos especializados para cobrir diversos eventos governamentais, cerimoniais e até no âmbito esportivo, caso da Copa do Mundo de 2014 e dos jogos Panamericanos e Olimpíadas do Rio, em 2007 e 2016, respectivamente, além de mega eventos de outra natureza.

Sobre a obra em si, foram muitos os pilares em que chamou-me a atenção. Como por exemplo, ao estabelecer um paralelo histórico que o autor arrolou, ao citar diversos conflitos históricos que foram amplamente divulgados e repercutidos pela imprensa, alguns deles que redundaram em fracasso. Neste caso, o objetivo foi mostrar como nesses erros, lições foram aprendidas e daí, houve um esmero da parte dos estudiosos para aprimorar as técnicas de negociação, aliadas aos avanços da tecnologia, para minimizar e se possível evitar a todo custo, que tais tragédias ocorressem novamente. 

Um exemplo clássico foi o ato terrorista durante a Olimpíada de Munique/Alemanha, em 1972, quando a delegação israelense foi duramente atacada e a observar muitas baixas dentro do alojamento dos atletas. Várias ações perpetradas por grupos terroristas na Europa, durante os anos setenta, também formam mencionadas (IRA, ETA, Baader Meinholf etc).

Outro exemplo que o autor citou e eu achei muito interessante, foi a repercussão negativa que a série de TV norte-americana e setentista, “S.W.A.T.” gerou nos meios de segurança, por passar uma imagem truculenta e deveras atabalhoada da ação policial em situações dessa natureza, ao disseminar a ideia de que seria correto resolver os conflitos sem ter muito (ou nenhum, na verdade), cuidado com as vítimas e apenas a visar exterminar os bandidos, ou seja, a ideia simplista em torno de eliminar um problema mediante a detonação de uma bomba, onde mata-se os malfeitores, mas vão também os inocentes e para em seguida dizer-se, laconicamente: sinto muito...

Segundo o autor, foi com o Departamento de Polícia de Nova York que tal estudo aprimorou-se, ainda na década de setenta e passou-se a considerar todas as variantes em casos assim tão complexos, inclusive a observar com carinho o campo da psicologia, psicanálise e a psiquiatria, onde novas luzes surgiram para os agentes de segurança, para melhor lidar-se com tais pessoas perturbadoras da ordem social. 

Cristiano cita diversas técnicas nesse sentido, tais como a famosa “Síndrome de Estocolmo”, o uso da técnica do "rapport", um expediente clássico do mundo da programação neurolinguística, a pirâmide de Abrahan Maslow e outras tantas, como a escuta analítica, primordial para o negociador entender exatamente o que passa pela mente de uma pessoa que forja uma situação a ameaçar inocentes, em sua ação criminosa. 

Um aforismo citado pelo autor fecha a questão nesse assunto, definitivamente: “Comunicação não é o que você fala, mas o que o outro entende”.

Entre as técnicas, ficou claro que o fator “tempo” é primordial por uma série de fatores, que são esmiuçados com bastante precisão e foi engraçado o contraponto de que a opinião pública, alimentada pela mídia, tende a achar que se houver demora para se resolver um conflito, é sinal de incompetência do negociador, quando na verdade, muitos fatores estratégicos estão em curso. Postulados como: “Mediação”, “Arbitragem” e “Negociação”, são muito valorizados pelo autor e após tomar-se ciência da sua vasta argumentação, fica claro o por que da sua ênfase em enumerá-los

E mais uma surpresa agradável, o autor cita muitos filmes, que abordam conflitos dessa monta e como os negociadores da ficção atuaram, com erros e acertos. 

Além de peças cinematográficas, a bibliografia consultada impressiona, a denotar que a pesquisa empreendida por Cristiano, foi imensa e daí, justifica-se plenamente o seu gabarito profissional nessa área. Aliás, mais um, pois eu sei que ele tem inúmeras qualificações em paralelo, em assuntos diversos e completamente diferentes, portanto, competência e cultura avantajada são seus atributos naturais.

Por fim, apesar de ser um livro técnico para profissionais de alto gabarito, reitero que trata-se de uma leitura em linguagem coloquial, portanto acessível para qualquer pessoa leiga e que, acrescenta informações importantes para todos, visto que ninguém está imune a estar no interior de uma agência bancária, lotérica ou qualquer outro estabelecimento e subitamente estar inserido em um conflito armado por conta de um assalto, algo rotineiro em nosso cotidiano, infelizmente, ou até sob ações terroristas, motivadas por grupos com objetivos políticos, radicais fundamentalistas religiosos, grupos racistas etc. 
Tomara que não, para qualquer pessoa, mas após ler esta obra, ajuda-me saber que a arte da negociação é muito complexa e se um dia eu passar por isso, reconfortar-me-á saber que um bom negociador, munido dessa técnica e treinamento proposto pelo Cristiano, estará a conduzir o processo para resolver o problema.

A apresentação gráfica do livro é muito sóbria e não poderia ser de outra forma, dado o seu caráter pedagógico. Ilustração e lay-out a cargo de Victoria Costa. Revisão por Carlos Augusto Rodrigues Lerina e foto do autor, na orelha do livro, por Saulo Adami. Foi lançado pela Matilda Produções, de Curitiba-PR, em 2016, e editado via Clube de Autores.


O autor disponibiliza um contato via e-mail:


Recomendo a leitura, pois como eu já salientei, na sociedade em que vivemos, toda a informação que visa o nosso bem estar como cidadão, é importante em linhas gerais e neste caso, saber como funciona o trabalho de um negociador pode ajudar-nos a ter tranquilidade, na medida do possível, caso um dia algo nesse sentido ocorra para nós ou a envolver algum ente querido. 

Entre os muitos aforismos ricos que o autor deixou ao longo dos capítulos, encerro esta resenha com um que sintetiza a obra, em minha percepção: “A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar” (Sun Tzu)