sexta-feira, 30 de junho de 2023

Filme: Roadie - Por Luiz Domingues

Este filme é assumidamente uma comédia, entretanto, em alguns momentos, apresenta uma substância interessante, ao propor subliminarmente algo além da arte de fazer graça, pois a despeito de ser uma peça humorística, mostra uma verdade inquestionável dentro da estrutura gigantesca que move o dito, “Show Business”. Qual verdade?  Bem, a resposta é óbvia em torno de que sem a presença dos trabalhadores que compõe a equipe técnica a fornecer o suporte para os artistas, simplesmente não existiria a possibilidade para as apresentações ao vivo se concretizarem com a devida qualidade. Ou a trocar em miúdos, e como o próprio filme alardeou como a sua frase promocional, quando do seu lançamento: “bands make it Rock, but roadies make it roll” (“bandas produzem Rock, mas roadies fazem-no rolar”). Claro que tal frase em inglês tem uma outra conotação bem mais certeira em sua intenção assertiva, mas em português, dá para ter a compreensão do que se afirma. Em suma, o papel dos roadies, é muito importante na cadeia de atividades que é formada para um artista apresentar-se ao vivo e sem tal profissional, ficaria impossível cumprir tal tarefa com a devida segurança para o artista exercer a sua arte e também a proporcionar qualidade para o público.

Para quem não sabe, é preciso esclarecer que a palavra “roadie”, é um anglicismo que foi adotada por todo mundo como um jargão do meio musical, a designar o trabalhador dos bastidores de um show, e a atender não apenas artistas ligados ao Rock, mas da música em geral. Tal trabalhador é responsável por montar e desmontar o palco, cuidar dos equipamentos, e dar suporte aos músicos durante toda a apresentação, ao resolver possíveis panes ocorridas em meio ao espetáculo, afinar instrumentos, ajudar na troca de instrumentos etc. Em uma equipe bem profissional, o “roadie” não carrega os instrumentos para tirar e guardar em caminhões e/ou vans, pois tal tarefa é feita pelos “carriers”, os carregadores. 

O roadie, seria um profissional mais especializado, pronto para atender as demandas mais técnicas do artista no palco e geralmente com conhecimento de tecnologia e luthieria, ou seja, preparados para cuidar tecnicamente de equipamentos e instrumentos avariados em meio às turnês. Lógico, quando a verba é mais curta, a produção do artista contrata roadies que disponham-se a também atuar como carriers, pois tudo depende do orçamento do qual o contratante contém.

Esclarecido o que faz um “roadie”, é preciso também comentar sobre o significado do termo. Tal neologismo é uma corruptela da palavra inglesa, “Road”, que significa “estrada”. Portanto, “roadie” poderia ser entendido com “estradeiro” e nesses termos, a designar o ajudante que acompanha o artista em suas turnês, daí a ideia da estrada, a sugerir o artista a viajar para cumprir shows em diversas cidades e a caracterizar dessa forma, uma turnê.
 
Então, sobre o filme, tenho a dizer que ele apresenta um bom número de inserções musicais com artistas famosos, no entanto, por constituir-se de uma comédia, a ênfase é nítida nas piadas, gags & afins, em detrimento de assistir-se os artistas em ação, porém, isso acaba por ocorrer em algumas situações, de shows em pequenas casas noturnas a grandes shows ocorridos em festivais e arenas renomadas. A história é simples e mostra-se inverossímil em via de regra, mas funciona perfeitamente para dar vazão ao desenvolvimento do filme, portanto, não cabe uma avaliação mais rigorosa, visto tratar-se de uma intenção humorística, no cômputo geral e assim, não haveria razão nenhuma para se estabelecer uma avaliação mais criteriosa em termos de seriedade. Humor é para rir, somente isso e nada mais, em tese.
Travis W. Redfish (interpretado pelo cantor, Meat Loaf), é um rapaz simples do interior. Caipira assumido, tem uma vida prosaica como caminhoneiro, a fazer entregas de cerveja pelo interior do Texas, ao lado do seu amigo, B.B. Muldoon (interpretado por Gailard Sartain). 
O negócio é gerido pelo seu pai, uma figura deveras estrambótica, chamada: Corpus C. Redfish (interpretado por Art Carney), ao mostrar-se como uma espécie de sujeito tresloucado que vive em função de uma série de geringonças engraçadas, construídas com material reciclável em via de regra, como se estes fossem aparelhos eletrodomésticos e também completamente viciado em assistir TV, inclusive com vários aparelhos ligados em canais diferentes, o dia inteiro. 
Existe ainda a figura de uma irmã tão excêntrica quanto o pai, Alice Poo (Rhonda Bates). Pois então, Travis sai com o seu sócio, B.B. Muldoon para fazer uma entrega e a vida para ambos é divertida no caminhão, na medida em que adoram estar a rodar, enquanto escutam Country Music no rádio do bólido, pelas estradas completamente desertas, e em meio ao calor forte que faz no Texas, costumeiramente. E assim, a rir das bobagens que falam o tempo todo, sobretudo. Nesse aspecto, o filme também caberia na designação de um “road movie”, pois muito da sua ação é cumprida em cenas literalmente filmadas em estradas.
Eis que tudo muda, quando ambos avistam um “motor home” (no Brasil, mais conhecido como “trailer”), parado na estrada, aparentemente quebrado, com pessoas a sinalizar no sentido de pedir ajuda. Travis e B.B. atendem o pedido naquele típico espírito solidário que existe entre os caminhoneiros.  Os rapazes do “motor home”, alegam ser roadies do artista orientado pelo Country-Rock, Hank Williams Junior, e também de sua banda, The Bama Band, e que estariam atrasados para chegar em uma cidade onde o seu patrão apresentar-se-ia.
Travis não sabe nem o que significa ser ‘roadie”, mas ao avistar a figura de Lola Bouilliabase (interpretada por Kaki Hunter), fica encantado pela moça. Ela insinua-se para ele e declara ser uma “groupie”, sem nenhum pudor, mas Travis nem sabe o que isso significa exatamente, em princípio. 
 
Bem, algo inesperado ocorre para os membros dessa equipe de roadies (Joe Spano, como “Ace”; Richard Marion como George e Sonny Carl Davis, como “Bird”), quando Travis conserta o carro com um expediente a usar objetos inusitados e ao ver que ele seria uma figura a fazer o carro andar com essa simplicidade total, o convidam a dirigir o motor home até ao seu destino. Encantado com Lola, ele aceita na hora o convite, praticamente apenas por tal motivação.
Quando chegam ao local, uma casa noturna bem típica, como uma espelunca interiorana sulista, são duramente recepcionados por fãs de Hank Willian Junior, por estar atrasados e assim, a montagem do palco do artista, postergar a hora do show ocorrer. Pior ainda, o promotor do espetáculo, um sujeito rude (Mohammed Johnson, interpretado por Don Cornelius), os recebe com bastante aspereza e sob ameaças, exige a montagem do palco em um prazo absurdo.
Maus profissionais por natureza, os rapazes ficam apreensivos em não cumprir a tarefa, e por conta da sua inoperância precipitar-se em ser despedidos sumariamente, mas Travis, que nunca montou um palco na vida, o faz sozinho, com uma tremenda rapidez e eficiência, inclusive ao usar de expedientes completamente inusitados para solucionar pendências de última hora, ao demonstrar que essa sua qualidade para improvisar soluções, era nata. O promotor do show, logo percebe o talento de Travis para ser um ‘quebra galho” ou “pau para toda a obra” como se diz no jargão popular e sem pestanejar, o contrata para ser o “Road Manager”, ou seja, o gerente geral dos roadies e responsável pela logística do artista, isto é, a comandar todo o trabalho estrutural e logicamente ganhar muito mais que os demais. 
Isso desperta os sentimento de inveja em princípio entre os outros rapazes, mas como o filme é uma comédia, isso não é retratado de uma forma corrosiva. Pelo contrário, Travis, por seu jeito simples e amigável, torna-se querido por todos, rapidamente. Nos bastidores, Travis observa que Lola ficara muito entusiasmada ao abordar o grande, Roy Orbinson (ele mesmo no filme), que ali encontra-se para atuar como convidado de Hank. 
Ela oferece-se como groupie para Roy, e Travis demonstra sentir ciúmes. Então ocorre o show de Hank Willians Junior com a sua, The Bama Band e a sonoridade Country-Rock do trabalho desse artista, que é filho de um grande astro da Country Music, Hank Willians (este mais raiz, digamos assim), mostra-se muito agradável. 
Infelizmente o foco não é a música em si e assim, enquanto o artista apresenta-se, muitas gags ocorrem, com direito a confusões geradas por mal-entendidos e a culminar em uma briga típica de salão sulista, com a pancadaria a generalizar-se, embora muitos mantenham-se alheios e a banda a tocar normalmente e com os seus componentes a limitar-se em desviar de garrafas arremessadas. A briga generalizada só encerra-se quando Roy Orbinson e Hank Willian Junior rapidamente cantam em duo: “Eyes of Texas”, canção folclórica que é uma espécie de hino das universidades de Austin e El Paso, e motivo de orgulho em todo o estado. Portanto, naturalmente gera-se a comoção no ambiente.

Uma briga em particular a envolver Travis, por conta de um outro acidente casual, mostra ele e o seu oponente a portar-se como touros em uma arena a duelar. Travis desfere uma cabeçada certeira no seu oponente que desmaia, nocauteado (bem, a insinuação da chifrada tal qual um touro não é muito sutil, mas gera graça, ao menos para o público infantil). No entanto, Travis fica desnorteado e o seu amigo, B.B. alega aos demais que isso ocorre de vez em quando com Travis, ao travar o cérebro (Brain Locked). Tal avaria teria ocorrido quando Travis serviu na guerra (Vietnã, deduzo), e só contava com um antídoto: a ingestão de uma quantidade absurda de cerveja, isto é, a piada popularesca absoluta, que em termos de Brasil, fez a fama do comediante, Mussum, aliás, com tal mote baseado em termos de enaltecimento do alcoolismo. 
Desorientado, Travis parece estar sob a ação de alguma droga alucinógena, ao formular frases sem sentido. Ele entra então com Lola na limusine do empresário, Mohammed e dirige como um louco, ao despertar a perseguição policial inevitável. É engraçado, certamente, embora tal sequência mostre-se como um clichê em centenas, quiçá milhares de filmes, inclusive baseados no humor e para ficar no plano musical, é muito parecida com “The Blues Brothers”, onde a dupla protagonista fica o filme inteiro a fugir da polícia, com tomadas de carros a colidir, voar sob altura inimaginável, submergir, explodir etc. 
 
Em “Roadie”, esse expediente é mais comedido, mas ocorreu, enfim. Bem, para dar vazão à gag, eis que no ato final dessa fuga, a limusine entra direto no compartimento de um avião de carga e os personagens vão parar em Los Angeles, com carro e tudo, onde o empresário queria ir e apesar da loucura toda, Travis é ainda mais elogiado pela sua eficiência em promover essa ida a tal cidade californiana, em tempo recorde.
Uma vez em Los Angeles e enaltecido pelo promotor do show, Travis parece ter se adaptado rapidamente ao mundo do Rock’n‘ Roll, mas ao mesmo tempo, ainda mantém a sua ingenuidade interiorana. Cada vez mais obcecado pela groupie, Lola, fica chocado quando esta revela-lhe ter apenas dezesseis anos de idade, ao fazê-lo recuar em seu ímpeto, visto que em qualquer lugar do mundo, mas principalmente nos Estados Unidos, essa idade para uma moça é muito perigosa, aliás, não para a moça exatamente, mas para qualquer rapaz que aventure-se em querer namorar uma menina com tal idade. No filme usa-se a expressão: “sixteen, jail” (dezesseis, cadeia), para definir bem o perigo.
Muitas piadas boas são apresentadas (mérito do roteiro), nesse instante e também citações ao Rock, pois menciona-se com apoio de um figurante sósia, a presença do astro, Peter Frampton, a estar hospedado no mesmo hotel. Uma confusão envolve Travis & Lola, que inocentes, levam roupas sujas para lavar em uma lavanderia pública, mas não sabem que a embalagem do sabão em pó que pegaram no camarim, na verdade estava repleta com outro tipo de pó, que seria distribuído nos bastidores do show em L.A. 
 
Agentes da polícia estão no encalço e os seguem, com a informação sobre o pacote e assim prontos a dar o flagrante, mas através de uma trapalhada, tudo torna-se cômico, pois uma senhora idosa que estava na lavanderia, erra ao pegar o pacote deles e ao perceber que aquilo era na verdade, cocaína, resolve levar a droga para a sua casa e deixa o outro pacote, que era dela e conter sabão em pó verdadeiro e assim, frustra inteiramente a tentativa de flagrante da parte dos policiais. Mais hilário ainda, foi a maneira com qual a “gag” foi construída, pois os policiais anunciam a abordagem, apontam armas, revistam o casal e eles nem percebem a situação, entretidos em uma briga particular por algum motivo fútil.
De volta ao camarim da casa noturna onde o show ocorrerá, a empresária de uma banda cujos integrantes estão paramentados e maquiados bem à moda da então moderna vertente "New Wave", está muito nervosa e afirma que consta no contrato que a banda só entrará no palco se a droga for disponibilizada aos seus componentes, em referência ao tal pacote de sabão em pó, indevidamente trocado na lavanderia por Travis & Lola. Sem entender nada do que afirmam, pois o casal nem percebera a situação, são acusados por ter criado a celeuma. Ainda sem entender nada, mas a tomar a iniciativa, Travis parte para cima e coloca medo nos músicos e na produtora da banda, ao obriga-los a tocar. Hilário, ele coloca os músicos no palco na base da pancada e eles saem a tocar com muito medo do brutamontes. Mais engraçado ainda, Travis apanha o microfone sem querer e conversa com Lola, à distância. Ela também apanha um microfone e o diálogo deles sincroniza-se com a música que a banda está a tocar, a produzir uma boa piada, sem dúvida. Não há menção oficial sobre a banda que atuou nessa cena.
Surge a próxima etapa da turnê e agora, o show ocorrerá em um festival montado em uma área rural em alguma localidade do estado do Idaho. Ao chegar lá, no entanto, o empresário Mohammed, é interpelado por uma oficial de justiça, amparada por dezenas de policiais, com a ordem judicial expressa de se cortar a energia elétrica para o espetáculo, sob a alegação de que seria uma medida para economizar energia. Mohammed não tem dúvidas, ao chamar Travis para achar uma solução inusitada, ao já conhecer a capacidade dele para tais feitos, tal como o detetive MacGyver, do seriado de TV, famoso. 
 
Muito bem, em meio a uma fazenda, Travis pede para que os roadies busquem no pasto a maior quantidade possível de esterco e daí, mediante a sua combustão a alimentar um moinho e tudo devidamente ligado em um dínamo improvisado e com o apoio de todas as baterias de carros e caminhões disponíveis, juntas... bingo!
Está garantida a energia para prover o festival. Ocorre o show da banda "Blondie", que também era da cena New Wave norte-americana, com a sua famosa vocalista, Debbie Harry, ou a blondie de fato, a angariar a atenção, sem dúvida alguma. Confesso, gostava muito mais dela em sua banda anterior, “The Wind in the Willows”, nos anos sessenta, mas paciência, foi com a Blondie que ela ficou mais famosa. Nesse ínterim, Travis e Lola estão em embate psicológico e cada um a preocupar-se em produzir ciúmes no outro. Lola entra em todos os camarins de motor home possíveis e Travis parece ter despertado a atenção de Debbie Harry, ninguém menos.
Travis e Debbie ficam próximos e em um bar, assistem a apresentação de Asleep the Wheel, uma banda bem tradicional no meio da Country Music e mediante mais um arsenal de piadas, eis que Lola enquadra Debbie Harry e Travis sai atrás dela. O casal vai parar em Nova York e Lola revela para Travis que ainda é virgem, apesar de ser uma groupie, a configurar a mais engraçada piada do filme, muito provavelmente, e que o seu sonho é perder a virgindade com Alice Cooper. 
Travis, alheio ao mundo do Rock, fica estupefato ao imaginar ser Alice, uma mulher, mas daí vem a explicação sobre o nome artístico do senhor, Vincent Furnier. É óbvio que Travis fica furioso com essa constatação da obsessão de Lola e assim, por birra, leva-a aos bastidores do Madison Square Garden, onde Alice Cooper fará um show naquela noite, e ao invadir as dependências da arena, coloca Lola na frente para assistir o soundcheck. Alice Cooper aparece sem a sua costumeira indumentária & maquiagem e a portar-se como uma pessoa normal, para a surpresa de alguns. Uma microfonia infernal irrompe no palco e mesmo assim, Travis intima Alice Cooper a jantar com Lola e ele, para agradar a sua paquera. Alice descobre que o rapaz é Travis Redfish e nesta altura, a sua fama como roadie já o transformara em alguém famoso no meio.
Imediatamente, Alice exige que Travis trabalhe com ele e não deixe nada de errado ocorrer no show e na contrapartida, aceita jantar com o casal, onde aparece paramentado como a personagem cênica de Alice Cooper, de fato e em tal cena, muitas piadas boas são usadas, inclusive com Alice a auto satirizar-se. Travis cria uma engenhoca bem ao seu estilo, para garantir que o show não falhe e dá para ver um pedaço do show de Alice, quando ele canta a canção, “Pain” (durante o soundcheck ele cantara um trecho da música: “Only Women Bleed”, especialmente para Lola).  Não é nem de longe um bom momento da carreira de Alice, mas destaca-se a presença do guitarrista escocês, Davey Johnstone em sua banda, devidamente licenciado por Elton John, com quem tocava há anos e neste caso, de fato, Davey tocou com Alice em sua turnê de 1980.
Travis fica a saber que a sua irmã vai casar-se com o seu velho amigo, B.B. e decide apanhar o seu caminhão e não perder a cerimônia no Texas. Ele lança um ultimato à Lola, mas ela vacila, ao sugerir que desejava ir junto, mas o seu sonho de dormir com Alice Cooper estava muito perto de concretizar-se, e então Travis parte aborrecido, mas chega em seu rancho a tempo para presenciar a cerimônia, com direito a muitas ocorrências cômicas, certamente, como por exemplo, o noivo de sua irmã desmaiar embriagado, bem na hora de beijar a noiva. 
 
Lola liga inesperadamente e diz estar no ponto de ônibus da cidade, pois viera imediatamente atrás. Então ela afirma que não dormiu com Alice Cooper e a virgindade será perdida com Travis, a caracterizar um final digno de novela. Apesar disso, ainda bem que não tratou-se de novela e sim, a cena final é hilária, com o casal a ser surpreendido na estrada por um disco voador e os extraterrestres a abduzi-los, no entanto, a intenção dos alienígenas é boa, pois a nave estava com uma falha e eles desejavam que Travis a consertasse com as suas criativas invenções para fazer funcionar qualquer coisa, mediante recursos inacreditáveis. Final Sci-Fi para uma comédia Rock Movie, com sabor Road Movie, igualmente, e a tratar de Roadies, para fechar o trocadilho.
Comédia boa, a risada é garantida. Bons atores e bons números musicais, embora entrecortados e também por não configurar ter sido a ênfase da história, mas notoriamente o pano de fundo. Falou-se sobre a profissão de “roadie” de uma forma superficial, mas certamente divertida e com a presença de alguns astros musicais, a agregar bastante valor, sendo assim, trata-se de um bom filme, no cômputo geral.

A trilha sonora, aliás, é muito boa, com a presença de músicas de Jerry Lee Lewis, Cheap Trick, Utopia, Stephen Bishop & Yvone Elliman, Teddy Pendergrass, Roy Orbinson & Emmylou Harris, Pat Benatar, Joe Ely Band, Styx, Alice Cooper, Blondie, Hank Willian Junior, B-52’s, Sue Saad and the Next, Asleep the Whells, Alvin Crow e Adolf Hofner and His Texas, e com alguns destes artistas citados a participar do filme, em aparições, como já foi comentado.

Foi dirigido por Alan Rudolph e lançado em junho de 1980. Teve um desempenho apenas razoável na bilheteria das salas de cinema e também amargou críticas duras por parte dos jornalistas tradicionais, pelo fato de ter sido considerado uma comédia popularesca. Passeou bastante pela TV aberta e paga, até que em 2013, foi lançado enfim em formato DVD/Blue Ray. Não é fácil para achá-lo em portais de filmes, a não ser em certas redes que cobram a manutenção de um cadastro burocrático. Gratuitamente, só existe fragmentos desse filme no YouTube.

Esta resenha faz parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 95.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Filme: The Young Ones - Por Luiz Domingues

Esse foi o terceiro filme em que o cantor Pop britânico, Cliff Richard, participou como ator protagonista, a reforçar a ideia que Cliff fora mesmo uma aposta velada dos britânicos, em relação ao que Elvis Presley representou para os norte-americanos. E veja bem, não estou a insinuar uma comparação direta entre os dois, tanto no desempenho musical, quanto na performance cinematográfica, como atores. 
 
Mesmo por que, Cliff pode não ter tido a mesmo performance nos dois quesitos e muito menos ter amealhado nem a metade da fama que Elvis angariou, no entanto, tornou-se um artista bastante valoroso, como cantor, em uma carreira sólida e muito longeva, visto que em 2019, ano em que escrevi esta resenha, ele ainda mantinha a sua carreira em atividade, mesmo sendo na prática, um homem idoso, nos dias atuais. E na sua atuação como ator, se não foi brilhante, certamente que não desapontou, pois fez vários filmes com uma performance bastante aceitável.
Sobre este filme, “The Young Ones”, a história foi abertamente inspirada em musical norte-americano lançado em 1939, chamado: “Babes in Arms” (com a presença dos atores, Mickey Rooney e Judy Garland, nos principais papéis). Mas não se trata de um remake assumido. Por ter sido inspirado no musical norte-americano citado, creio que uma americanização foi sutilmente sugerida nessa produção, principalmente na condução do musical em si e em torno das coreografias, além de certos maneirismos típicos do cinema norte-americano, notados em alguns clichês na condução da direção e também sobre a montagem do filme. Todavia, não em cem por cento, visto que certos ícones britânicos sobressaem, a começar com a óbvia presença do sotaque expresso através dos diálogos dos atores, logicamente, além de cenas a conter externas, com as ruas de Londres como cenário.
O mote é singelo e a condução do roteiro mantém essa simplicidade ingênua em torno de conceitos que soam tolos, certamente, nos dias atuais, no entanto, passados quase sessenta anos (1961-2019), é óbvio que tudo é relevado e o filme ganha o registro como um item devidamente histórico e a tolerância para se compreender o contexto de um padrão sociocultural inteiramente diferente ao que vivemos nos dias atuais.
Bem, a história é a seguinte: existe um clube localizado no West Ends, na cidade de Londres, onde um grupo de jovens reúne-se com assiduidade para dançar e apreciar performances de cantores e bandas de Rock (“Simpkins Youth Club”). Um rapaz que é membro dessa confraria, é também um cantor e costuma apresentar-se no palco desse salão rústico. Trata-se de Nicky (interpretado por Cliff Richard), que não deixa transparecer aos seus amigos, que na verdade ele é o herdeiro de um empresário poderoso do ramo da construção civil.
Para tornar dramática a sua situação, o seu pai (Hamilton Black, interpretado por Robert Morley), planeja derrubar justamente o pequeno clube no qual o seu filho costuma encontrar-se com os amigos e logicamente, além de gerar uma revolta generalizada entre os jovens frequentadores, coloca o rapaz, Nicky, sob uma situação muito desconfortável perante os seus colegas. Ele não é nenhum rebelde a confrontar o seu pai e nem mesmo há sinal de um conflito mínimo que seja, pois para todos os efeitos, Nicholas Black, é um bom menino e que está a ser preparado para assumir a empresa e aliás, já possui um elegante gabinete instalado no seu edifício sede.
 
A mesma situação que Nicky vive com os seus amigos, ocorre igualmente com o seu pai, pois o seu progenitor nem imagina que o bom rapaz burguês tem pretensões a tornar-se um artista musical e claro que essa situação denota uma situação explosiva que vai fornecer a devida dose dramática à história.
Surge a ideia então de se organizar um show com vistas a se arrecadar dinheiro para tentar salvar o imóvel onde funciona o clube, “Simpkins Youth Club”. Eles precisam juntar a quantia de mil e quinhentas libras, que era uma soma alta no câmbio da ocasião, para salvar o seu espaço e não vai ser nada fácil conseguir tal montante. Nesse ínterim, muitos números musicais são apresentados e mais que isso (e aí entre a clara "americanização" da obra), pois não são apenas apresentações de artistas com plateia a assistir, mas também a ação de diálogos cantados pelos atores e coreografados fartamente, a caracterizar um típico musical a moda antiga. 
Então, se há o lado mais Rock’n’ Roll principalmente nas apresentações de Nicky/Cliff Richard, acompanhado da espetacular banda, “The Shadows”, nas partes mais dramatúrgicas e cantadas, a linha musical é bem tradicional em torno de canções sob uma roupagem instrumental orquestrada. 
Trata-se de uma maneira geral de um cancioneiro bem comedido e antiquado, mas de forma alguma poderia ser considerado ruim. Muito pelo contrário, são boas canções e em alguns casos, até ótimas. E a coreografia que é bastante caprichada, é bem parecida com o filme norte-americano, “West Side Story”, curiosamente lançado na mesma época, portanto a denotar que os produtores de “The Young Ones”, buscaram a orientação "yankee" mais moderna para compor um filme nos mesmos moldes e praticamente de uma forma simultânea.
Uma estrela é sugerida para fazer alguns números como par romântico de Nicky, nesse show que os jovens pretendem organizar. Inicialmente, a sua namorada, Toni (interpretada por Carole Gray), cumpriria tal função. 
Então, eis que surge cheia de soberba, a figura de Dorinda Morell (interpretada por Sonya Cordeau). A cena em que ela faz um ensaio com Nicky e a namorada do galã, Toni, assiste ao fundo do salão, denota bem o grau de ingenuidade antiga que não existe mais neste mundo, visto que o olhar dela, Toni, para o seu namorado abraçado com a cantora profissional, denota uma forma romântica do sentimento de ciúmes e ainda chega ao ponto de culminar com uma lágrima furtiva (como se dizia no mundo da ópera), a escorrer vagarosamente pelo seu rosto. E dá margem para que ela saia do salão e cante uma canção melancólica, sentada na calçada enquanto lastima a situação que lhe gerou um infortúnio amoroso.
Más notícias chegam via telegrama (outra marca indelével da época), e os jovens desanimam, pois a demolição do seu espaço cultural é iminente. No entanto, alguém surge com uma ideia aparentemente vaga, mas que rapidamente é aceita pela coletividade jovem. Dessa forma, eis que procuram um espaço alternativo para o tal show poder se realizar. Sob uma investigação que empreendem em campo, encontram um velho teatro que está abandonado. 
 
Eles o invadem e constatam que está muito sujo, com equipamentos em mal estado de conservação. No entanto, enquanto exploram as dependências do velho teatro, verificam que o sistema de iluminação está a funcionar. Portanto, mediante uma boa limpeza e alguns consertos pontuais, o teatro poderia ser usado novamente. 
 
Todavia, não dá tempo para mostrar tal mutirão de arrumação e limpeza, visto que no mesmo instante, ao melhor estilo de um musical tradicional, simplesmente muitos números são encenados pelos jovens, sob uma tremenda licença poética, visto que são várias sketchs apresentadas, com intensa troca de figurino e com o palco bem iluminado, como se o teatro estivesse impecável. Neste momento do filme, o elemento musical fica ainda mais acentuado, pois nesse pout-pourri, a coreografia tem também um forte apoio do elemento do humor, a configurar um clássico espetáculo ao estilo “vaudeville”.
Mais adiante, como se fosse um recuo na narrativa, são mostradas cenas de aulas de dança para os jovens que formaram tal trupe, além de outras cenas a mostrar o mutirão de fato para preparar o teatro. Conclusão: as cenas musicais anteriores foram inseridas como uma epifania. Tudo bem, em uma narrativa em formato musical, cabe qualquer quebra da estrutura lógica dentro da cronologia da história e mais que isso, o aspecto lúdico abre campo para qualquer inserção fora da realidade.
E por falar em loucura absoluta, os jovens tem uma ideia, ainda mais inusitada, para divulgar o espetáculo: Nicky grava uma canção romântica, acompanhado do grupo, The Shadows (que por muitos anos, de fato o acompanhou na vida real embora tivesse também uma sólida carreira como grupo instrumental, inclusive muito celebrada na história do Rock), de uma forma super precária, mas o suficiente para dar vazão ao plano arquitetado pelos jovens. Então, de uma forma engraçada, porém totalmente inverossímil, preparam uma espécie de rádio amador que é infiltrado em uma falsa barraca simplória, a vender frutas, tomates & afins, que é posicionada estrategicamente em um ponto de uma feira livre de rua. Mediante tal geringonça, o sinal da TV estatal, BBC, a Rede de TV e rádio mais poderosa do mundo, é invadido (pasmem...), e a música gravada por Nicky, atinge milhares de lares na capital britânica. 
O delírio segue, pois não obstante uma rádio pirata arcaica empreender tal proeza nada crível, a reação do público a encantar-se com a canção e o cantor, de uma forma arrebatadora, é ainda mais inacreditável. Até o pai de Nicky escuta e mostra-se encantado com a balada cantada pelo seu filho. Bem, a seguir, mostra-se outro fato inacreditável, com a canção de Nicky a ganhar as manchetes dos principais jornais de Londres, no dia seguinte e daí gerar-se uma enorme expectativa para o show. 
 
A parte mais humorística do filme dá-se com a barraca de frutas camuflada, pois pessoas comuns, donas de casa em predomínio, param para fazer as suas compras e os jovens não sabem nem o valor dos produtos, pois a sua intenção era outra ali. Até um policial interessa-se em comprar um cacho de bananas e por ignorar o preço a ser cobrado, um dos rapazes simplesmente entrega o produto gratuitamente, para o “officer”. 
A confusão está gerada, pois o pai de Nicky espanta-se ao saber que a gravação dessa canção possivelmente acarretará em um lucro colossal, com a perspectiva de um milhão de cópias do disco a ser vendidas. No entanto, a BBC não gostou nem um pouco da invasão, ao colocar a Scotland Yard no encalço dos responsáveis por tal ato. O pai de Nicky encontra-se com a cantora, Dorinda Morell e encanta-se com ela, ao gerar mais confusão ainda, certamente.
Concomitantemente, alguns dos jovens do grupo, articulam um plano em paralelo para sequestrar, Hamilton Black, o pai de Nicky.
O show começa e um espetacular número com o The Shadows é visto. Música instrumental de primeira qualidade, que fez a fama dessa banda, é um dos melhores momentos do filme, sem dúvida. No entanto, a plateia, que lotou inteiramente o teatro, quer mesmo é assistir a performance do cantor, Nicky. Impaciente com a demora, pressiona os apresentadores, inclusive ao chegar em um grau de insatisfação grande, para arremessar objetos no palco a atingir o apresentador. O plano dos outros rapazes para sequestrar Hamilton está em ação e o Rolls Royce imponente do magnata é interceptado no trânsito, para que o senhor Hamilton Black, seja sequestrado. 
Ninguém deseja machucá-lo, apenas tramam para que ele não vá ao teatro, acompanhado de agentes da Scotland Yard, com o intuito de cancelar o show, como temiam. No entanto, Nicky, que está no encalço, acode o seu pai e ambos brigam com os demais rapazes, em uma cena a lembrar as lutas coreografadas do antigo “telecatch” da TV. 
 
O pai muda de posição e chega com o seu filho ao teatro. Nicky entra em cena rapidamente e acompanhado do The Shadows, canta enfim a balada, “Living Doll”, para gerar suspiros entre os seus fãs, aliás, predominantemente formada por garotas bem jovens, a antecipar a gritaria da Beatlemania. Hamilton chega ao clube que desejava demolir e o seu filho assume ser Nicky, o cantor: -“from now on, I’m Nicky”...
Hilário, sob outro número bem coreografado, Nicky, em meio a muitos bailarinos e a sua namorada, Toni, traz o seu pai para entrar em cena juntamente. Sem jeito algum para enfrentar uma plateia, ele logicamente reluta na coxia do teatro, no entanto, eis que resolve atender aos apelos de seu filho e adentra o palco, para cantar e até apresentar uma coreografia leve, condizente com o seu corpanzil nada atlético, mas o suficiente para angariar a simpatia da plateia. O coração capitalista do senhor empreendedor, amolece e a casa de shows não será mais demolida, segundo anuncia. Final mais do que feliz, portanto.
Em suma, uma história bem simples; municiada por boa música, e a conter coreografias muito caprichadas. Existe até efeitos bem avançados para a época, vide a cena em que Nicky e a sua namorada cantam pelas ruas desertas de Londres, em plena madrugada e a simular uma inspiração no filme norte-americano, “Singing in the Rain”, quando em um dado momento, voam, literalmente, a usar um sistema de cordas invisíveis, efeito não usual para a época e hoje em dia largamente difundido em filmes de ação, notadamente em produções a envolver super-heróis da Marvel. E também na coreografia em si, percebe-se muitas ideias bem modernas para a época, portanto, um ponto positivo.
E claro, na porção mais Rock’n‘ Roll do filme, os números são muito bons, com Cliff Richard, muito jovem e a dar conta do recado, sem deixar de mencionar o suporte instrumental de uma banda histórica como foi o The Shadows. Aliás, conta-se que a ideia inicial da produção foi incluir os músicos dessa banda, como atores a defender personagens e interagir com diálogos na trama, mas detectou-se a falta de traquejo dos rapazes para a atuação dramática e assim escalou-se atores profissionais para cumprir a tarefa. Convenhamos, foi melhor assim.
 
Por falar em atores, eis alguns não citados anteriormente: Teddy Green (como Chris), Richard O’Sullivan (como Ernest), Annette Robertson (como Barbara), Melvyn Hayes (como Jimmy), Sean Sullivan (como Eddie), Harold Scott (como Dench), Gerald Harpper (como Watts), Robertson Hare (chauffeur) e Rita Web (a senhora, dona de casa na cena da feira livre).
 
Carole Gray, quando canta, na verdade só filmou a dublar, pois os seus dotes vocais não eram bons o suficiente para tal função. A verdadeira voz que foi emprestada para ela cantar, foi gravada por Grazina Frame, que aliás, também era atriz e emprestou a sua voz para outra atriz (Lauri Peters), em outro filme de Cliff Richard, chamado: “Summer Holiday”, lançado em 1963. 
 
As cenas realizadas no teatro, que no filme foi chamado como “Countess Theatre”, na verdade, tal locação foi efetuada no: “Finsbury Park Empire Theatre”. 
 
Nos anos 1980, esse filme inspirou um seriado na TV britânica, com o mesmo título e mais recentemente, em 2007, e com remontagem em 2013, tal musical foi encenado no teatro. Outra curiosidade, nos Estados Unidos, o filme foi lançado com outro nome: “Wonderful to Be Young“, em 1962.

Foi escrito por Richard Myers e Ronald Cass. Coreografia por Herbert Ross. A maioria das canções foi composta por Stanley Black e Ronald Cass, mas outros compositores contribuíram, igualmente. Dirigido por Sidney J. Furie. Foi lançado em dezembro de 1961, com muito sucesso na bilheteria das salas de cinema no Reino Unido e também em outros países. Passou bastante na TV aberta, com muitas reprises nos anos sessenta e até a metade dos setenta, pelo menos. Está disponível com cópia em DVD (ao menos em 2019, quando escrevi esta resenha), mas por outro lado, é bem difícil para ser achado em portais de filmes na Internet. 

Esta resenha faz parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume III e está disponível para a leitura através da página 87.