sábado, 30 de maio de 2026

Filme: The Last Waltz (O Último Concerto de Rock) - Por Luiz Domingues

Em tese, esta resenha não caberia neste livro *, por não ser exatamente o caso de um Rock Movie, portanto, assim como muitos outros trabalhos excelentes que eu aprecio muito, caberia mais adequadamente em outro tipo de enfoque, ou seja, se fosse arrolado como um documentário ou mesmo como um exemplo de filmagem de um show ao vivo, pura e simplesmente. Talvez no futuro eu invista em um livro nesses moldes e de fato, a quantidade de documentários importantes é impressionante na história do Rock e se o leque abrir-se a abranger outras vertentes correlatas e a contracultura de uma forma ampla, torna-se um volume gigantesco a justificar uma enciclopédia, praticamente. No entanto, embora esteja justificada a ressalva, eis que eu relaciono esta obra neste livro*, como um Rock Movie, por conta de haver um élan nesse sentido.
O primeiro ponto a corroborar tal tese, é o fato de que esse projeto foi assinado por um diretor de cinema a ostentar uma grandeza dentro do panorama cinematográfico norte-americano, mas certamente também sob âmbito mundial, a tratar-se de Martin Scorsese. Esse ítalo-americano construiu ao longo dos anos uma prestigiada cinematografia irretocável e também notabilizou-se por envolver-se diretamente com a música, por conta dos inúmeros trabalhos em que trabalhou em termos de documentários, filmagens de shows ao vivo e até cinebiografias, isso sem contar ter coordenado o ousado e muito bonito trabalho em torno do projeto: “The Blues”, uma obra múltipla a conter diversos filmes, lançados como um pacote a narrar a história do Blues, desde as suas raízes africanas, na visão de diversos diretores importantes por ele convidados, incluso com um dos filmes naturalmente sob a sua direção. Falo tudo isso a envolver o que ele já havia feito antes e depois do lançamento de “The Last Waltz”, naturalmente.
O segundo ponto, foi que apesar de ser em tese um show filmado em data única desta banda maravilhosa, chamada, “The Band”, e a ser intercalado com pequenas entrevistas que Scorsese conduziu com os seus componentes, portanto a caracterizar a película praticamente como a um documentário, a aura adquirida pelas circunstâncias, tornou esta peça algo mais que um documentário, pois a sua resolução ficou luxuosa pela abordagem e a carga emocional que adquiriu, sobreveio para conferir-lhe um outro patamar, certamente.
 
Esclarecido esse ponto inicial sobre esta obra poder ser considerada um filme e não um documentário (em termos românticos, eu sei, pois não se trata de um critério técnico aceitável, em tese), é preciso agora falar um pouco sobre as circunstâncias que envolveram tal empreendimento. A questão, é que este concerto da “The Band”, marcou a sua despedida dos palcos, visto que a banda anunciara o término das suas atividades, daí o show em si e a sua filmagem por conseguinte, a revestir-se de uma comoção muito grande. Ainda a repercutir essa decisão do grupo de encerrar a sua carreira, há muita controvérsia, no entanto. 
Como um fato concreto, a história registra que o pianista/baterista e cantor, Richard Manuel, sofrera um acidente náutico por volta do início de 1976, e por conta da sua recuperação lenta, tal debilidade de sua parte haveria por prejudicar a agenda do grupo, doravante. Mediante tal perspectiva, inclusive de não haver mais possibilidade da banda apresentar-se ao vivo e apenas manter-se reunida para gravar discos em estúdio (tal qual o grupo britânico, The Beatles, havia conduzido a sua carreira desde 1966, quando não mais apresentou-se ao vivo, até 1970, quando da sua dissolução). 
Isso despertara o sentimento ruim para o guitarrista, Robbie Robertson, que então tomou a dianteira e anunciou um concerto de despedida e com direito à produção de um filme a registrar esse momento do adeus. 
A controvérsia, no entanto, veio de seus colegas, pois os demais não consideraram a hipótese de parar com os shows ao vivo, ao imaginar que a convalescença de Richard Manuel não seria crônica como Robbie aventara de uma forma pessimista, e assim, seria um hiato breve e perfeitamente contornável na opinião de todos, incluso na opinião do próprio acidentado, Manuel. 
Portanto, encerrar as atividades do grupo tampouco seria algo a ser cogitado pelos demais. Dessa forma, o que é mais crível, seria imaginar-se que sim, havia um desgaste interno na banda, decorrente do cansaço acumulado após muitos anos de atividade, o que seria normal. Registre-se que tal banda lançara o seu primeiro disco, em 1968 (“Music From Big Pink”), mas estava na estrada desde muito tempo antes disso (cerca de 1958), portanto, o convívio entre os seus cinco componentes remontava ao final dos anos cinquenta, como banda de apoio do cantor Country/Rockabilly, Ronnie “Hawks” Hawkins (nessa época, adotavam o nome: “The Hawks”), com quem atuaram até por volta de 1964, e posteriormente, o grupo foi banda de apoio de Bob Dylan por um bom tempo, antes de finalmente buscar o seu caminho autoral (e genial), com o lançamento do seu primeiro e sensacional disco acima citado.
 
Por conta dessa vontade pessoal de Robbie para fechar a história do grupo, se deixa a ressalva de que a versão a dar crédito aos demais, em torno de que a opinião formada em contrário, resultaria em um placar a registrar uma goleada pela não dissolução (4 x 1 pela continuidade da banda), portanto, o fato do único voto contrário ter vencido e ter sido imposto aos demais, gera uma estranheza. É difícil cravar uma opinião sem o devido conhecimento da verdade, no entanto, deduz-se que Robertson estava saturado e desejava livrar-se do convívio com os seus companheiros e assim forçou o final da banda, como uma maneira para perpetuar a boa imagem do grupo, com chave de ouro. 
Nesses termos, o seu planejamento foi bom, ao pensar na imagem da banda a fechar a sua história com pompa e circunstância, no entanto, se este não foi o desejo dos demais, o correto teria sido Robertson anunciar a sua saída do grupo para buscar a sua carreira solo; formar uma nova banda ou até ingressar em outra banda já sedimentada, e a banda por sua vez, a prosseguir a carreira normalmente, com a entrada de um novo guitarrista em sua formação. Aliás, isso culminou a ocorrer a posteriori, com uma volta da banda, com outra formação, nos anos oitenta.
Para agravar a impressão de que esse final forçado da parte de Robertson não agradara aos demais, houve tempos depois do lançamento do filme, declarações de outros membros a afirmar que Robertson manipulou Scorsese para dar a entender que ele, Robertson, seria o líder e os demais componentes, menos importantes na história do grupo. De fato, ao assistir-se o filme, fica a impressão de que Robertson teve muito maior espaço nos depoimentos e a sua postura blasé, observada em suas falas, denota uma empáfia, o que seria um indício de que os demais membros teriam tido razão em nutrir um sentimento ruim sobre tal episódio.
Bem, se falei sobre tais bastidores tão amargos, mas no início enalteci tanto o filme, ficou dúbia a minha opinião? Absolutamente não, pois a despeito de eu ter feito as devidas ressalvas necessárias, tenho em mente que esse filme é maravilhoso, emocionante e sim, dignifica o bojo da obra dessa banda que não foi apenas uma banda, mas “a” banda, ou seja, The Band.
Qual foi a ideia então? Filmar-se tal concerto realizado na famosa casa de espetáculos, “Winterland”, em San Francisco, na Califórnia, em 25 de novembro de 1976, sob os auspícios do grande, Bill Graham, um dos produtores musicais mais famosos entre os anos sessenta e setenta, com centenas, quiçá milhares de shows em seu currículo como realizador. 
Perfeito, uma casa maravilhosa para encenar tal despedida. Parte do cenário da Ópera, “La Traviatta”, que estava a ser apresentada na cidade, nessa época, foi alugado e assim, a parte visual do palco, ficou luxuosa para ser apresentada no filme, incluso com a colocação de lustres portentosos e assim, transformou o Winterland, que era um salão com decoração rústica, em um palácio europeu (estou a exagerar, certamente, mas ficou bonito isso é um fato). 
 
Na planificação inicial, seria uma película a ser filmada em 16 milímetros, porém Scorsese não economizou e decidiu filmar em 35 milímetros e com muito mais câmeras disponibilizadas para a captura, a reforçar a ideia de que não foi um documentário, mas verdadeiramente um filme que ele praticou. Para dirigir a parte musical do show, o produtor, John Simon, acostumado a trabalhar com a banda, esteve à frente dessa função. Portanto, com Scorsese, Graham e Simon em suas funções, todos muito competentes e no caso de Simon e Graham, bastante acostumados a lidar com a banda, não poderia haver outro resultado que não fosse um grande filme.
Scorsese convocou cinegrafistas renomados para a função, acostumados a lidar com grande obras cinematográficas e além disso, fez um minucioso trabalho de pesquisa, ao buscar entender a temática de cada letra das canções do repertório da The Band que seriam executadas, além das canções defendidas pelos muitos convidados escalados para abrilhantar o concerto. No entanto, o imponderável poderia ocorrer e de fato ocorreu, pois essa planificação para dar ênfase em detalhes a envolver cada canção, veio abaixo, na medida em que algumas câmeras falharam e assim, a edição posterior ficou prejudicada nesses termos. 
 
E mais um detalhe e este por minha observação como um adendo, a gravação de um show, seja com o objetivo de lançar-se um disco ao vivo ou a filmar-se, fica muito limitada se é feita com tomada única a valer, mediante um único espetáculo. 
O correto nesse caso, é filmar uma grande parte, senão a totalidade de shows ocorridos em uma turnê e aí, mediante uma decupagem, que é lenta, certamente, escolhe-se as melhores performances de cada canção para compor um disco ou um filme. No caso de um filme, há a questão da continuidade em mostrar-se os artistas em palcos diferentes e no uso de figurino igualmente diferentes, mas para um disco ao vivo, é o ideal gravar-se muitos shows para depois escolher as melhores performances. Neste caso, com uma opção única, é claro que mesmo a contar com músicos maravilhosos, a possibilidade de ter havido erros crassos, seria mínima, mas normalmente são muitos os riscos que todo músico enfrenta em uma apresentação, a despeito da sua condição técnica pessoal e mesmo do grupo com quem toca, estar muito bem ensaiado. Portanto, houve a possibilidade do risco e de fato, pequenas falhas são exibidas, mas tudo absolutamente contornado de primeira e até com simpatia, eu diria.
 
Nesse caso, como músico, muito agrade-me ver imagens de grandes ídolos que eu tenho na música, de uma forma mais próxima da realidade de qualquer músico em cima do palco, humanizados, pode-se afirmar. O que ocorre ali em cima do palco? Todo mundo que toca, sabe que monitores podem falhar e assim ao cantar, e na impossibilidade de se ouvir a sua própria voz com nitidez, desafinar é algo possível; amplificadores podem falhar, uma tarraxa de um instrumento de cordas, pode ceder e eventualmente uma ou mais cordas, desafinar, um dedo pode esbarrar em uma tecla indesejada e o acorde executado em um teclado, soar com uma desagradável dissonância harmônica, as peças da bateria saem do lugar o tempo todo, a atrapalhar a performance de qualquer baterista, enfim, muitas ocorrências são absolutamente normais na vida de qualquer músico.
 
No filme, pequenos erros são notados, mas como eu já observei, são facilmente corrigidos e geralmente com brincadeiras entre os músicos e quem for músico, haverá por saber que essa tolerância em tom de brincadeira acontece normalmente entre os colegas, a não ser em casos excepcionais onde tal situação vem a ocorrer com artistas muito temperamentais que não portam-se de forma solidária com os colegas em cima do palco, quando estes erram e na medida inversa, não costuma admitir os seus erros, quando isso acontece (isso também ocorre, infelizmente). 
Bem, tirante pequenas desafinações vocais, erros de passagens de uma parte de uma música para outra, perpetrado por algum músico (algo quase imperceptível), e a correia da guitarra de Eric Clapton, que falhou e no meio de um solo, quase que o instrumento escapa das suas mãos (mas ele pede socorro à Robbie, que entra a solar sem pestanejar e Eric sorri, com aquele típico sorriso de músico que repercute as falhas que ocorrem, com os colegas em sua volta), tudo ocorreu bem.
Além do show, existe uma boa quantidade de cenas a conter depoimentos, alguns individuais e outros fornecidos em duplas, trios ou com a banda inteira presente na conversação. E há também a inserção de três filmagens extras, a conter a banda em situação diferente, tratados como três “promos” de luxo. Sobre os depoimentos, a edição final do filme também foi objeto de críticas da parte de alguns membros insatisfeitos, que manifestaram o seu desagrado ao fato de que Garth Hudson (teclados e saxofone), teve pouquíssimo destaque em falas individuais e que Robbie Robertson, ao contrário, praticamente monopolizou as falas e como já disse, em atitude blasé, muitas vezes, ao denotar menosprezar a própria banda. 
Ele chega a afirmar que que estava exausto em excursionar com a banda por dezesseis anos e que não conseguia conceber exercer isso até completar vinte anos. A declaração em si não tem nada demais, pois sabe-se bem que os conflitos internos dentro de uma banda acumulam-se muito rapidamente e assim, esgotar-se a paciência por conta desse fator, é algo trivial, mas o jeito com o qual ele expressou tal sentimento, realmente não foi dos mais elegantes, eu preciso salientar e concordar com os demais que reclamaram da postura do colega. E neste caso, quem mais protestou, foi Levon Helm (bateria, mandolin e voz).
Outro ponto interessante, dá-se quando Scorsese é escoltado por Rick Danko (baixo, violino e voz), ao andar pelos corredores do estúdio, "Shangri-la", que era de fato uma propriedade da banda, mas nesta ocasião, Danko gravava um álbum solo, homônimo (“Rick Danko”, que seria lançado em 1977).
Sobre os artistas convidados, a ideia inicial seria contar apenas com Ronnie Hawkins e Bob Dylan, pelo fato de ambos ter uma história umbilical com a The Band. No entanto, eis que a lista aumentou e muita gente extraordinária foi acrescida, inclusive artistas britânicos. Por força das intempéries técnicas, alguns foram prejudicados, com a sua inclusão no filme, a revelar-se bastante limitada (casos de Ringo Starr e Ronnie Wood), e pior ainda para Stephen Stills, cuja participação em uma Jam ocorrida ao vivo, foi inteiramente perdida na filmagem, portanto, foi como se ele não houvesse participado da celebração.
 
Bem, a melhor parte, é claro, mostra-se em relação à música magnífica apresentada e nesse caso, insatisfações à parte da parte de Helm, Manuel, Danko e Hudson, em relação ao que Robertson idealizou com tal projeto, a atropelar as opiniões dos colegas, o resultado final como filme, é sensacional. E não haveria como não ser, com a história da The Band ali representada e ainda a conter o luxo máximo de conter participações especiais de artistas de primeira grandeza, à altura da The Band e cada um deles a deter uma ligação emotiva com essa grande banda.
Nessas condições, o filme inicia-se com um jogo de bilhar, a mostrar um momento de descontração nos bastidores da banda, e que logo descobriu-se, não estava bom o clima, na realidade. A banda é mostrada a tocar, “Don’t Do It”, mas que na realidade, teria sido um “encore” ou como estamos acostumados a dizer no Brasil, um pedido de “bis” da parte da plateia para que um artista toque uma ou mais músicas, após o término de uma apresentação. 
 
A seguir, é muita bonita a cena a filmar a fila formada pelos fãs à porta do Winterland, a espera pela abertura de suas portas. Tornou-se significativo, pois foi nessa casa que a The Band realizara o seu primeiro show oficial como uma banda autoral e tal espaço em si, também continha a sua história fortíssima para Rock e a contracultura em geral, graças aos esforços empreendidos pelo senhor, Bill Graham, um empreendedor cultural de primeira linha. 
Após um depoimento de Robbie Robertson, o show volta a ser enfocado, desta feita a mostrar mais ou menos o começo de fato, com a execução da bela canção: “Up on Cripple Creek”. Já mostra-se portanto um petardo, esse início, mas que não engane-se o leitor, pois o nível não muda, pois música após música, são detonadas muitas outras bombas de alto calibre, no bom sentido do termo, e não poderia ser de outra forma, vide a excelência observada na obra da The Band. A criatividade que essa banda teve em sua trajetória, foi das mais impressionantes da história do Rock, ao mostrar uma verdadeira usina de criação, em erupção permanente. Isso sem mencionar o fato de que os seus cinco componentes eram multi-instrumentistas, portanto, com tal versatilidade imensa que possuíam, a sua música sempre pautou-se pela possibilidade de apresentar sonoridades múltiplas. E mais um ponto: a gama de influências que os seus membros carregavam como bagagem musical, era enorme e assim, a banda sempre atuou a utilizar um leque aberto, multifacetado.
E assim, desfila sob a tela, algumas das suas muitas músicas maravilhosas, como: “Shape I’m In”, “It Makes no Difference”, “Stage Fright”, “The Night They Drove Old Dixie Down”, “Genetic Method”(apenas um trecho), “Chest Fever”(esta, com também apenas um trecho), “Ophelia” e “Skip the Wine”. 
Os promos produzidos separadamente em um estúdio de cinema (no complexo cinematográfico da MGM), e adicionados ao filme em sua edição final, foram filmados algum tempo depois, no decorrer de 1977. Trata-se da The Band a apresentar o bonito tema: “Theme From The Last Waltz”, especialmente composto para ilustrar o filme, “Evangeline”, com a participação da cantora diva do Folk/Country-Rock, Emmylou Harris, e a versão muito bonita de mais um clássico da The Band, a canção: “The Weight”, com o apoio do grupo vocal, “The Staples”.
 
Muitas outras músicas que foram executadas no concerto ao vivo, não entraram na edição final, ou por uma questão de metragem ou simplesmente por conta dos problemas técnicos que surgiram com algumas câmeras, conforme eu já havia mencionado. Caso da jam onde Stephen Stills participou e de uma outra jam, onde o baixista, Carl Raddle também esteve presente, além de Peter Cipriano e Cameron Swirka. 
Nos casos de “Evangeline” e “The Weight”, as suas versões ao vivo foram evitadas pois houve a intenção de inserir os tais promos especiais em destacado. Além dessas citadas, outras músicas que foram executadas no show, também ficaram de fora do filme oficial, casos de “Life is a Carnival”, “This Wheel’s on Fire”, “King Harvest” (Has Surely Come), “Rag Mama Rag”, além das releituras da banda para: “Georgia on My Mind” e “Greensleeves”.
 
Sobre os convidados, a escalação foi para tirar o fôlego, além dos artistas já citados anteriormente, Ronnie Hawkies e Bob Dylan, anote também: Dr. John, Neil Young, Joni Mitchell, Neil Diamond, Paul Butterfield, Muddy Waters, Eric Clapton, Van Morrison, Ringo Starr, Ron Wood e os artistas já mencionados que participaram, mas por força das circunstâncias, ficaram fora da edição definitiva do filme.
 
Houve também muitos poetas que declamaram poemas, mas apenas dois estão no filme a tratar-se de “Michael McClure e Lawrence Ferlinghetti. Ficaram de fora: Emmet Grogan, Bill “Sweet William” Fritsch, Diane Di Prima, Robert Duncan, Frank Reynolds e Lenore Kandel.
 
Muitos músicos de apoio de alguns artistas convidados, também participaram a atuar junto à The Band em tais números. Caso por exemplo do guitarrista de Muddy Waters, Bob Margolin, do baterista de Neil Diamond, Denis St. John e do pianista, Pinetop Perkins. Acrescente-se também que uma sessão de metais a conter músicos da pesada que costumavam tocar com Allen Toussaint, apoiaram a The Band em muitas músicas. Com essa roupagem grandiloquente, em uma canção épica da The Band, como: “The Nigth They Drove Old Dixie Down”, ficou difícil não conter as lágrimas, pois é mesmo para arrepiar.
Destaque-se ainda alguns momentos ponteados para ilustrar: o sensacional, Dr. John, em “Such a Night”, um de seus clássicos, esbanja categoria a defender a fina flor do Blues de New Orleans. Na apresentação de Neil Young, Joni Mitchell surge de surpresa, a cantar inicialmente atrás da coxia do teatro. Lembro-me bem, no cinema, tal cena gerava gritos de regozijo entre s Rockers, pela surpresa agradibilíssima em ter a maravilhosa, Joni, como o elemento surpresa para abrilhantar a apresentação de Neil Young, a cantar: “Helpless”, um grande clássico seu, em favor do incrível repertório do super grupo: "Crosby, Stills, Nash and Young". 
Muddy Waters a interpretar: “Mannish Boy”, é para tirar o fôlego. Pois trata-se da raiz mais genuína do Blues, ali defendida por uma lenda viva, portanto, o que dizer, depois disso? Van Morrison solta a sua garganta irlandesa privilegiada com muita propriedade em: “Caravan” e Eric Clapton mostra a sua categoria impressionante em: “Further on up The Road”. 
Neil Diamond faz uma apresentação sóbria, como era de sua característica (através da canção: “Dry Your Eyes”) e Paul Butterfield mostra o seu Blues elétrico com energia (“Mystery Train”).
Para fechar, entra Bob Dylan em cena. Temperamental por natureza, ele relutou muito em participar do concerto/filme e disco, não por desrespeito à The Band, grupo pelo qual ele mantinha carinho e consideração por ter sido a sua banda em jornadas heroicas por ambos cumpridas em conjunto, ao longo dos anos sessenta, no entanto, a sua preocupação não foi ofuscar os seus novos projetos que estavam a sair na mesma ocasião. 
Deu tudo certo, afinal de contas e o grande mito do Folk-Rock norte-americano, enfim tocou com a The Band, os temas: “Forever Young”, “Baby, Let me Follow You Down” e “I Shall Be Released”, este com a presença dos demais convidados a formar um super coro para encerrar o filme. 
Esta última canção, no entanto, apesar de ser um clássico de Dylan, também ficara famosa por conta da sua versão gravada pela própria, The Band, devidamente registrada em seu primeiro disco. Portanto, a ideia de ter o autor da música a cantá-la juntamente, foi ótima certamente, no entanto, a versão da The Band, que é cantada solo pelo pianista, Richard Manuel, foi bastante prejudicada no filme, pois de fato, ele, Manuel, inicia a cantá-la, mas dado o completo congestionamento de pessoas no palco, ofuscou-se a sua presença atrás do piano a cantá-la, isso sem deixar de mencionar que a edição privilegiou enquadrar a figura de Bob Dylan, portanto, a performance de Richard Manuel ficou secundária nas imagens. Essa foi inclusive mais uma das reclamações de Levon Helm, em relação ao filme e mais uma vez ele teve razão em reclamar. 
Falta mencionar que muitas outras músicas interpretadas por artistas convidados, ficaram fora do filme, porém, assim como as canções extras da The Band, tal material adicional não aproveitado no filme, constou do álbum triplo de vinil, lançado em 1978, e que nos anos oitenta ganhou versão em CD, como um disco duplo. 
Para encerrar, digo o óbvio, isto é: a The Band foi uma banda maravilhosa e esta despedida, ainda que tenha tornado-se polêmica em face das divergências internas entre os seus componentes, mostrou-se luxuosa enquanto formatada por um projeto a envolver um filme e um disco triplo ao vivo. Trata-se de um filme com uma fotografia deslumbrante, é grandioso pela circunstância emocional nele contida, contém um verdadeiro massacre sonoro em termos de repertório da banda e ainda detém o luxo extra de apresentar um desfile de estrelas especialmente convidadas, impressionante.
 
A crítica adorou o filme, ao considerá-lo com maior exemplo de um show filmado até então na história. De fato, se pensar-se nesse restrito ponto de vista da cinegrafia, eu não posso considerar que tenha sido um exagero da parte dos jornalistas que analisaram a obra no calor dos anos setenta. 
Bem, tal filme fez muito sucesso nas salas de cinema à época de seu lançamento. Em meu caso, eu tive a oportunidade em assisti-lo muitas vezes em 1978, assim que estreou no Brasil, quando pude encantar-me com esse documento. E mais um privilégio, para quem conheceu a cidade de São Paulo nos anos sessenta e setenta, essas sessões em que eu estive presente, foram devidamente assistidas no saudoso, Cine Bijou, que por anos, entre aquelas duas décadas, foi a sala de cinema mais Freak da cidade. Não recordo-me no entanto em vê-lo com constância na televisão, nos anos posteriores. Houve sim exibições em canais de TV a cabo, mais para os anos noventa, e claro, o filme foi providenciado para ser disponibilizado em formato VHS, posteriormente em DVD e Blu-ray. Aliás, a conter relançamentos anunciados com eventuais modificações sonoras e visuais, conforme a tecnologia avançou, e também em termos de Kits a apresentar produtos diferentes, como camisetas, bottoms e afins, como chamariz aos colecionadores.
Foi produzido por Robbie Robertson (isso explica muita coisa) e Jonathan Taplin, Direção a cargo do grande, Martin Scorsese. Lançamento em abril de 1978.

Na Internet, dada a sua restrição por ser um filme de um diretor renomado como, Martin Scorsese, é natural que fique difícil a sua exibição em caráter gratuito. Portanto, o leitor achará versões do filme no YouTube, mas que são constantemente retiradas do portal, por ordem judicial. É questão de procurar um postagem da parte de pessoas comuns, e ter a sorte para assistir em tempo, antes que um oficial de justiça bata na porta do YouTube com ordem para que o filme seja eliminado da grade gratuita.

* Refiro-me ao livro que escrevi e lancei em 2020: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" 

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", a estar alojada em seu volume III, com a sua leitura disponibilizada a partir da página 405.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Livro: "Versos Dissidentes & Poemas Veganos"/Willba Dissidente - Por Luiz Domingues

Após o sucesso de sua obra anterior, “Poemas Dissidentes”, o poeta, ativista cultural, radialista, sociólogo e professor, Willba Dissidente lançou mais um livro de poemas nos mesmos moldes, ou seja, a abordar muitas das questões apresentadas na obra anterior, porém, a acrescentar uma carga explícita de inconformismo com diversas nuances que assolam a sociedade, e nesse caso em específico, a defender com veemência a causa animal, o ambientalismo e os direitos sociais.

Falo a respeito do livro “Versos Dissidentes & Poemas Veganos”, segunda obra assinada por tal artista.

O nome do primeiro poema deste novo livro é a chave para entender os propósitos mais nobres do autor, ou seja: “eu escrevo para mudar o mundo” é um testemunho de fé, acima de tudo.

O estilo literário é o do ultrarromantismo, escola típica de meados do século XIX, que muito inspira a abordagem poética do autor e que aliás, ele se valeu novamente, no sentido de que a sua obra anterior também foi norteada por tal inspiração.

Sociólogo por formação, as mazelas de uma sociedade cruel e despótica o incomodam sobremaneira e não é para menos, pois o inconformismo do autor com a desigualdade e a opressão que sustenta o feudalismo disfarçado por uma denominação mais moderna, até os dias atuais, é de fato, desumano.

E por falar em humanidade, a causa animal tem forte presença nos poemas contidos nesse livro. É até implícita a questão, pois faz parte da composição do próprio título da obra, quando ele explicita a sua ode ao veganismo.

De fato, há uma boa quantidade de poemas versados por esse tema e o autor não economiza no seu teor denunciante da crueldade inadmissível, a respaldar hábitos arraigados que remontam à barbárie.

E há o coração Rocker do autor, a vislumbrar através de sua poesia, o universo grandioso do que o Rock representa além da música. Isso fica explícito ao notar-se claramente a paixão embutida a cada poema, a cada referência estabelecida, isto é, a denotar que Willba não apenas “gosta de Rock”, todavia, o sente na sua alma.

Outros aspectos são levantados pelo autor nesta obra, igualmente. Os contos góticos de terror, a literatura fantástica e o amor romantizado (aliás, a se tratar de algo inerente ao estilo poético do ultrarromantismo), ou seja, são tópicos que também ajudam a formar o cabedal de influências que compõe a poesia criada pelo autor.

Aproveito para ressaltar e agradecer a existência de um belo poema inspirado em uma banda da qual fui componente nos anos 1980. Ao citar versos de diversas canções que a nossa extinta banda, “A Chave do Sol”, cantou a exprimir o humanismo como um estandarte a demarcar princípios, o poema vai além da sua beleza estética, ode e homenagem, mas denota que Willba nos entendeu e mais do que isso, se uniu a nós nessa mesma determinação de buscar o melhor para a humanidade. Assim como Willba que escreve para melhorar o mundo, a nossa velha banda pensava igual, ou seja, compúnhamos, tocávamos e cantávamos com o mesmo propósito, por isso, Willba, mais do que se identificar com a nossa obra musical, demonstra que vibra igual, e assim, juntamo-nos todos pelo mesmo ideal. Viva a humanidade! Viva o Rock como forma de se expressar tais ideais!

A ufologia também é um assunto recorrente para o autor. E assim, ele toca no assunto, pois na qualidade de morador da famosa cidade sul-mineira de Varginha, sabe bem o quanto tal assunto é recorrente por toda a cidade.  

Coloco uma pequena amostra abaixo de alguns versos contidos no decorrer da obra:

Eu me sinto feliz, por não me conformar,

Pois quem se conforma, não mais transforma

Que a autoridade arbitrária seja erradicada,

Em pobreza criança alguma criada,

Que toda a diversidade seja preservada,

E toda a discriminação devidamente rechaçada

Sobre a arte de capa, a opção do artista responsável por ela, Silvio Andrade, foi pela fusão das faces de vários animais em meio à natureza e assim, a expressar o principal mote da obra, em torno da ecologia e sobretudo, a clamar pelo respeito aos direitos dos animais.

O mesmo artista fez ilustrações muito significativas para as páginas internas da obra, ou seja, a cada poema há uma bela figura de apoio, ligada diretamente ao seu respectivo tema.    

Trata-se de uma obra forte pelas convicções expressas, bela pela prosódia bem elaborada e essencial para quem acredita que seja possível se criar uma sociedade justa, na qual os valores humanistas sejam colocados na prática.

Agradeço pela menção do meu Blog 1 na lista de colaboradores reconhecidos pelo autor, em relação à resenha que escrevi sobre o seu livro anterior, “Poemas Dissidentes”.

Livro: Versos Dissidentes & Poemas Veganos

Autor: Willba Dissidente

Revisão gramatical & ortográfica, editoração e produção geral: Willba Dissidente

Gravação de audiolivro: Rafael Lourenço (New Democracy) no Braia Studios

Arte de capa e contracapa (técnica de óleo): Silvio Andrade (Estúdio Six Tatoo)

Arte de ilustrações internas (técnica de nanquim e também ferramentas virtuais): Silvio Andrade (Estúdio Six Tatoo)  

Lançamento em 2025

Para conhecer a minha resenha para o livro anterior de Willba Dissidente, “Poemas Dissidentes”, acesse o link abaixo:

https://luiz-domingues.blogspot.com/2025/03/livro-poemas-dissidenteswillba.html

Eis abaixo o QR code para acessar a versão e-book da obra:

Eis abaixo o QR code para acessar a versão audiolivro da obra:

Para conhecer mais sobre o trabalho de Willba Dissidente, acesse:

Blog Rock Dissidente:
https://rockdissidente.blogspot.com/

Facebook:
https://www.facebook.com/RockDissidemte

Instagram:
https://www.instagram.com/rock_dissidente/

YouTube:
https://www.youtube.com/@WillbaDissidente

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Livro: "O Plástico Retangular Amarelo"/Paulo Sá - Por Luiz Domingues

Paulo Sá é um grande compositor e instrumentista, com relevante destaque no meio musical paulistano e brasileiro. Ele mantém há anos a banda “Confraria Fusa” a se apresentar, tendo o CD “De Suma Importância” devidamente lançado na praça. Musicalmente a falar, as suas influências são em torno do Rock, Blues e Jazz, a grosso modo, mas certamente a abranger outros estilos no bojo, eclético que o é.

Eu já tive o prazer de escrever uma resenha sobre o CD que citei acima e basta acionar o link abaixo para ser direcionado a esse texto.

https://luiz-domingues.blogspot.com/2021/08/cd-de-suma-importanciaconfraria-fusa.html

                               O escritor e músico, Paulo Sá

Mas ele é também um ativista cultural da pesada ao manter um belo site de cultura, denominado: “Palavras & Sons” e que trata de música, literatura, cinema e outras formas de arte, com bastante profundidade. Eu já tive o prazer de colaborar com esse site tão formidável, por muitas vezes, ao apresentar muitas resenhas sobre filmes clássicos dos primórdios do século XX, inclusive.

Para acessar o site “Palavras & Sons, use o link abaixo:

https://paulosanet.com.br/

E sim, Paulo Sá tem mais uma faceta artística admirável a ser enaltecida, como escritor. Influenciado por muitas escolas literárias, ele também se mostra eclético nas letras, e assim, ante uma força criativa bastante admirável, nos mostra uma das suas facetas na literatura ao lançar o seu romance, “O Plástico Retangular Amarelo”, uma bela obra a conter diversos elementos amalgamados, portanto a se mostrar diversificada sob muitos aspectos.

Em primeiro lugar, a questão da ambientação urbana é fascinante nessa obra e principalmente para quem mora em uma metrópole, especificamente em São Paulo, haverá de se encantar com as referências que são distribuídas fartamente ao longo da narrativa. Não é fácil para um escritor usar tal recurso de usar o ambiente como um elemento vivo da história, sem cometer excessos e nesse caso, fiquei bastante impressionado como Paulo Sá não apenas utilizou a cidade com bastante ênfase, mas a estabelecer uma fluidez na medida certa, a tornar tal prerrogativa substancial, e ao mesmo tempo, a manter-se longe dos clichês inerentes da parte de outros autores que geralmente abusam nesse mesmo sentido.

Um segundo ponto que me chamou a atenção é que o elemento da literatura (e do cinema, igualmente), clássico em torno do estilo “noir” está mais do que presente na obra, pois, sim, se trata de um romance policial, mas os clichês típicos não são apresentados de uma maneira acintosa. Eu sei que muitos autores desse estilo usam tais elementos até como forma de homenagem charmosa ao estilo, a evocar as imagens soturnas de detetives a usar jaquetas de gabardine, escritórios decadentes do centro velho da cidade e enfumaçados pelo uso ostensivo do hábito tabagista para evocar os anos quarenta do século passado, “femmes fatales” irresistíveis e extremamente perigosas no convívio e tudo mais, e particularmente, eu adoro essa atmosfera clichê em torno de histórias intrincadas e destrinchadas por detetives particulares astutos, mas Paulo Sá não enveredou por essa tentação tão lógica e assim, escreveu de uma forma sutil, na qual quem gosta de literatura “noir”, vai identificar estar dentro do estilo, porém, a usar uma construção narrativa diferenciada.

Mesmo porque, a história é tratada no tempo contemporâneo e assim, por estar dentro de uma realidade similar à que vivemos na atualidade, a atmosfera tem essa característica diferente de forma natural.

Outro ponto positivo se dá na estrutura da história, mediante o seu arco e apresentação das personagens. Ao mostrar o personagem central da trama não como um detetive, mas como um jovem jornalista que chega ao âmago do caso em questão, tal personagem se mostra inexperiente na profissão, tampouco devidamente vocacionado para trabalhar especificamente nessa editoria de um jornal de massa, e assim, o autor mostrou também os meandros do jornalismo clássico impresso, no qual essa perspectiva é real, ou seja, jovens recém-formados são geralmente destacados para trabalhar com editorias das quais não mantém nenhuma afinidade pessoal, e assim, a história do personagem Victor, é bem fidedigna ao que ocorre dentro das redações dos jornalões tradicionais e ao mesmo tempo, o autor aproveitou esse enfoque para realçar a surpresa que o jovem repórter teve ao se deparar com um crime hediondo e nesse caso, a estupefação que ele sente, é a do próprio leitor que se identifica com tal percepção do rapaz, que também, não estava acostumado a lidar com uma questão tão barra pesada.

Nesse aspecto, tal narrativa mostra uma influência interessante de Paulo Sá, a unir as crônicas de Rubem Fonseca, com os contos e sobretudo a dramaturgia densa de Plínio Marcos e posso acrescentar nessa receita, a urbanidade rude de Marcos Rey. Portanto, há uma dose subliminar de “mundo cão” para garantir a densidade dramática.

O tema é pesado, eu sei, mas a leitura prende o leitor, ao ponto de que assim que começa a ler, se mostre ansioso para ir até o fim e assim conhecer o desfecho, portanto, o autor logrou pleno êxito na sua empreitada.  

Um outro fator bastante interessante que eu notei, se dá no uso de diversas camadas que são apresentadas para que o leitor mergulhe no âmago da história, ou seja, o autor apresenta núcleos com personagens aparentemente dispares entre si, que ajudam a compor um mosaico rico que o faz ter várias pistas sobre as motivações em si, para que o crime em questão fosse sacramentado.  

A sua prosódia é excelente, o livro é muito bem escrito, os arcos são bem concatenados e mesmo quando a história fica mais pesada, o assunto é tratado com cuidado, pois a ideia não é chocar, buscar o sensacionalismo, mas sim, tratar do tema policial pelo prisma da realidade crua pela qual a vivemos nos grandes centros urbanos.

Sem cometer “spoilers”, no entanto, a dar uma breve sinopse ao leitor desta resenha, esclareço que o livro trata da história de Victor, que como eu já disse anteriormente, é um jovem jornalista recém-formado nessa profissão e a deter dupla graduação, pois, também é especializado em Comércio Exterior e sendo assim, ele sonha escrever sobre o assunto em algum órgão de imprensa de primeira grandeza.

Mas a realidade é outra e através de um amigo, fica a saber que existe uma vaga em um jornal de grande porte (o fictício, “Folha Matinal”), mas para cobrir o caderno “cidades” para tratar do cotidiano da grande cidade e mais especificamente, das páginas policiais.

Sem meios para escolher outra editoria mais confortável e a precisar muito do emprego, ele aceita o cargo, e assim, logo no primeiro caso que vai cobrir, se depara com algo escabroso, que ao longo da história vai sendo revelado ao leitor. Paro por aqui, quero que o leitor tome contato com a obra e descubra por si só. 

O único “spoiler” que eu posso fornecer, nem é algo tão crucial que tire a surpresa contida através da leitura em si, mas posso dizer que o título do livro é uma sutil referência ao universo da investigação policial. Portanto, foi uma ideia que reputo ter sido genial da parte do autor.  

Sobre a produção da obra, propriamente dita, achei a capa e contracapa, muito criativa. A conter uma enigmática referência ao tema central da história, porém, com muita elegância. Tons de amarelo e preto predominam a compor uma agradável simetria visual.

Sobre a diagramação e projeto gráfico como um todo, também gostei muito da sua agradável resolução.

Paulo Sá é autor igualmente dos livros: “O Prisioneiro do Vidro”, a retratar uma jornada impressionante em torno da síndrome do pânico e “Cordões de Celofane”, um livro de poemas. As suas obras podem ser adquiridas pela Amazon e Kindle. Ele também já participou de publicações em coletâneas com outros autores, com poesias e contos.

Ficha técnica:

O Plástico Retangular Amarelo

Autor: Paulo Sá

Projeto gráfico, diagramação e capa: Elaine Aparecida de Oliveira

Segunda orelha assinada pela mentora literária e escritora, Juliana Franck

Revisão gramatical e ortográfica: Mag Reim

Um lançamento da Elo3 Design Editorial


Para conhecer melhor o trabalho literário e também musical de Paulo Sá, encontre-o nas seguintes plataformas: 

Facebook:

https://www.facebook.com/paulosa20/

Site Palavras & Sons:

https://paulosanet.com.br/

Canal do YouTube da banda “Confraria Fusa”:

https://www.youtube.com/user/confrariafusaoficial/videos

Contato direto com o autor:

entretexto@uol.com.br  

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Livro: "Mil frases de famosos e quase famosos"/Laert Falci (com participações de Denise Falci e Laert Sarrumor) - Por Luiz Domingues

Uma frase pode ter muitas nuances quando é lida a esmo, fora de qualquer contexto, desprovida de compromisso com um texto, formalmente a se falar, como aforismo, lema, slogan, impropério e até desabafo. Na verdade, uma frase solta ao vento pode se revestir de qualquer significado, a expressar diversas nuances que passam pela mente de uma pessoa e até mesmo se proferida sem se pensar em nada, como mero improviso a expressar interjeição de momento.

Há livros de aforismos interessantíssimos nas prateleiras das livrarias e bibliotecas, é uma realidade da literatura, mas geralmente são aforismos oriundos de um mesmo autor, a exercitar o seu poder de síntese para expressar ideias e sentimentos.

Entretanto, no livro “Mil frases de famosos” (e quase famosos), o exercício ganhou uma aura inusitada, quase a nos fazer recordar dos velhos almanaques e curiosidades que fizeram sucesso nos tempos de outrora, seções de revistas de variedades a conter colunas dessa característica e revistas para se ler sem compromisso algum, como mero passatempo em meio às leituras digestivas, como apregoava aquela antiga revista norte-americana, no entanto a apresentar muitos diferenciais. 

A se tratar de uma compilação a conter exatamente mil frases proferidas por diversas personalidades e subpersonalidades, esse livro despertou-me uma reflexão interessante acerca de diversos aspectos.

Primeiro que o autor (com apoio de uma coautora e “pitacos” pontuais da parte de um terceiro colaborador), arrolou essa enorme lista de frases a buscar fontes diversas e isso chamou a minha atenção por si só, no sentido de que denotou ter trabalhado com uma percepção de 360° ao seu redor, ou seja, um grande mérito na minha opinião.

O segundo aspecto, foi que a gigantesca diversidade apresentada pelas pessoas que citou, tratou por montar um mosaico surreal de pensamentos. De grandes artistas a subcelebridades inusitadas, políticos de enorme respeitabilidade aos mais rasteiros e fisiológicos, dos intelectuais renomados a pessoas incultas, foi montado um painel pleno de disparidades, ao ponto de despertar contradições interessantíssimas, no sentido de levar o leitor a concluir que é muito difícil viver em sociedade e ao mesmo tempo, tal diferença brutal de mentalidade entre as pessoas, tem o seu lado belo, também.

O terceiro ponto que eu notei, foi que a obra foi lançada em 2001, mas claramente denotou que veio a ser construída nos anos noventa, portanto, quando a li em 2026, foi impressionante me deparar com a incrível cristalização de conceitos que estabeleceram o pensamento de uma época e o quão se desintegrou inteiramente certos preceitos, que para tais pessoas, eram afirmados com o poder da certeza, mas que na verdade, rapidamente esfacelaram-se ante a sua insipidez.

Muitas dessas personalidades falaram de uma forma séria e convicta a discorrer sobre diversos tópicos no calor de seu tempo, e hoje em dia, tais projeções se mostram risíveis, principalmente da parte de certos políticos que provaram que não enxergavam nem um palmo adiante do nariz.

Fiquei impressionado também com o poder da paixão idiossincrática observada em colocações feitas por certos jornalistas, principalmente do campo esportivo, a escancarar as suas predileções e paixões, acima da análise isenta que deveria permear a sua forma de atuação nesse meio.

Quase na mesma linha, preconceitos destilados na forma de veneno, provam que a sociedade avança silenciosamente, pois o que era lugar-comum na mentalidade de muita gente, tempos atrás, provoca arrepios se lidos e/ou ouvidos nos dias atuais. Tive essa sensação ao ler muitas frases absurdas proferidas por pessoas com a maior naturalidade em tempos de outrora.

Há uma boa quantidade de frases acometidas pela futilidade abissal, principalmente da parte das subcelebridades, que em tese nem deveriam se expressar para o bem da humanidade, porém, visto por outro lado, é objeto de pura galhofa, certamente. 

E sim, muitas frases belas, em tom poético, outras a expressar pensamentos nobres sob o poder de síntese do aforismo em si, além do bom humor inerente de muitas outras. Aliás, tive que interromper muitas vezes a leitura para esgotar a minha vontade de gargalhar e somente depois de sentir o meu fígado perfeitamente desopilado, poder voltar a ler com foco.

No cômputo geral, o livro surpreendeu-me positivamente, ao oferecer uma gama de sensações bem variadas através de sua leitura.

Deixo abaixo algumas poucas frases arroladas no bojo da obra. Descrevo apenas cinco delas, como uma mera amostra, em meio a mil frases contidas no livro, portanto, fica a minha dica para que leitor deste blog busque a leitura completa do livro, pois tenho a certeza de que vai ter muitas surpresas. Veja abaixo:

“Gostaria de viver como um homem pobre, porém com muito dinheiro” (Pablo Picasso)

Essa do Picasso me fez lembrar do Paul McCartney, que no auge da “Beatlemania” teria dito que “gostaria de ter muito dinheiro para não ter que fazer nada e também para o caso de querer fazer algo”.

“Tenho ânsia de ser o autor do mais puro, do mais simples. Meu sonho é chegar a essa perfeição, de ser o autor de uma “ciranda, cirandinha”, uma coisa que se perca no meio do povo” (Dorival Caymmi)

Nesse caso, Caymmi foi fundo ao buscar a beleza da simplicidade absoluta e sua inerente grandiosidade. 

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente de viver” (Leila Diniz)

Que pena que um acidente aéreo lhe furtou a oportunidade de viver muito mais do que ela viveu e certamente a nos fazer falta.

“Estão fazendo a mesma novela há 20 anos. Os atores interpretam os mesmos papéis e o telespectador chora a mesma lágrima” (Lima Duarte)

Assertividade máxima da parte desse pioneiro da teledramaturgia e eu aumentaria esse número que ele citou, pois o folhetim se repete há pelo menos 70 anos!

“O governador vota aqui. Esta seção é simplesmente um luxo!” (Athaíde Patreze)  

Para quem acha que a cafonice máxima, advinda do colunismo social havia se esgotado com Ibrahim Sued, eis que amargamos Patreze, o homem do microfone dourado.  

Sobre o autor, Laert Falci, ele foi um intelectual com formação no direito e nas letras. Escreveu outros livros: “Mar sereno, feliz viagem" com tal título inspirado abertamente na obra do compositor erudito, Felix Mendelssohn), “Poezyas pra boi dormir” (esses dois iniciais, de poesias), “Os Degraus de Alice” (crônicas, em parceria com sua irmã, Denise Falci), além de haver participado de antologias de poesias ao dividir espaço com outros autores). 

Ele e Denise eram filhos de Lily Falci, grande pianista e primos da poetisa Cecilia Bossi e no caso do Laert, pai do meu querido amigo, o vocalista, compositor, ator, dublador, radialista/jornalista e cartunista, Laert Sarrumor, do Língua de Trapo. Laert, pai, nos deixou em 2018.

Está explicado o talento compartilhado pelo DNA de uma família formada por artistas tão criativos.

Laert Sarrumor a gravar. Click de Moacir Barbosa de Lima ("Moah")/Produtora Bicho Raro

Laert Sarrumor deixou algumas frases de sua autoria no bojo da obra e escreveu a apresentação. Denise Falci, sua tia, também colaborou com diversas frases.

Denise Falci foi professora de literatura portuguesa e brasileira, autora de outros livros além do já citado em parceria com seu irmão e membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Os livros de sua autoria, isoladamente, são: “De Kéryma a Maranathá” e “Kairós”. Era foi freira da ordem Salesiana e nos deixou em 2004.

Sobre a apresentação gráfica da obra, eu gostei bastante das ilustrações de apoio contidas nas suas páginas internas. Com tom satírico, reforçaram bem em pontos estratégicos da obra. Criação de Clayton Ribeiro e Leandro Franco, com as caricaturas da capa a cargo de Clayton.

Gostei do tom de cor usado na capa e contracapa a transmitir leveza, lay-out esse de criação dos irmãos Hermano, Rubenal e Leonardo, e sim, deliberadamente calculada tal arte para estabelecer um elo com os livros lançados pelo Laert Sarrumor, pela sua motivação visual bem parecida e nesse caso, penso que foi uma decisão acertada da Navegar Editora, pelo ponto de vista do marketing. Aliás, cabe destacar que tal similaridade estratégica também se deu na escolha do título da obra, pois ao enfatizar o fato de haver ‘mil” frases (e essa conta bate, de fato), a conexão com as mil piadas encontradas nos livros escritos pelo Laert, filho, o Sarrumor.  

A preparação do texto foi feita por Angela Bugelli e a revisão gramatical foi realizada pelos próprios autores, Laert e Denise Falci. Diagramação por Marcelo Silva Calixto com apoio de digitação de Juliana de Oliveira. Fotos dos autores nas respectivas orelhas do livro, por Júlia Tanaka. Editor: Rubenal Hermano Santos.

Um lançamento da Navegar Editora em 2001.

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