sábado, 11 de julho de 2015

CD Stringbreaker & The Stuffbreakers/Sringbreaker & The Stuffbreakers - Por Luiz Domingues

Chegou às minhas mãos o CD de um jovem guitarrista paulistano, a revelar o eu trabalho mais recente em estúdio, e por conta de tal descoberta, a me despertar a atenção, de imediato. 
 
Trata-se de Stringbreaker & the Stuffbreakers, trabalho de Guilherme Spilack, guitarrista técnico, criativo e influenciado pelas melhores referências do Rock Clássico.
Ao lado do baixista, Robinho Tavares e do baterista, Sergio Ciccone, Spilack gravou um disco com dez temas instrumentais, sob agradável audição para ouvidos como os meus, mega simpáticos às sonoridades de cunho sessenta-setentistas. A despeito dessa ótima prerrogativa em prol do Classic Rock, nem sempre foi essa a orientação de Spilack, entretanto.
A sua escola primordial fora o Heavy-Metal, quando ele atuou com a banda "Reviolence" a atuar nesse mundo metálico, além de participações em bandas tributo do Iron Maiden e da carreira solo do vocalista britânico, Bruce Dickinson. 
 
Entretanto, ao demonstrar ecletismo, Spilack nos mostra neste trabalho que enfoco, um outro lado seu, plenamente identificado com a sonoridade clássica das décadas de sessenta e setenta. Nas dez faixas do disco, o "groove" que apresenta é muito grande. 
 
A sua guitarra sai do lugar-comum em torno do virtuosismo puro e simples (e típico de guitarristas de Heavy-Metal, a mostrar via de regra a técnica em sentido desconectado com o sentido cultural em si), mas ao contrário de outros colegas de sua geração, ele segue a trabalhar a favor da música, com sentido e propósito.
Outro ponto forte é a noção melódica excelente, para produzir solos que ficam na memória, com poder semelhante ao de refrães memorizados e cantados por todos, tamanho o seu poder de identificação imediata. E assim configura-se o trabalho, faixa por faixa, onde Spilack e os seus companheiros envolvem o ouvinte, para prender-lhe a atenção, e isso tem um mérito extraordinário ao  considerar-se constituir-se de um trabalho de música instrumental, onde a tendência natural é agradar apenas uma faixa restrita de pessoas e invariavelmente formada por músicos em sua maioria.

Sobre as influências que eu detectei e claro que se leva em conta a minha percepção pessoal e idiossincrática em via de regra, são as melhores possíveis na minha avaliação. Nesse sentido, eu sempre ouço música, mesmo que seja moderníssima e a buscar a inovação absoluta, a imaginar alguma influência antiga, nem que seja subliminar e inconsciente da parte do artista que a concebeu. 
A minha base de influências no Rock, fica mesmo entre as décadas  de cinquenta e setenta, portanto, tudo o que falarei a seguir, segue tal percepção de minha parte. 
 
Por exemplo, em: “Groove Party”, Spilack & Cia. conseguiram fazer com que o Southern Rock soasse forte, com o som dos Allman Brothers Band a lhe fornecer as cartas na mesa desse poker sonoro.

 “Mad Middle Pickup” fez-me pensar em como seria Johnny Winter e Joe Walsh a tocarem juntos... Spilack teve essa proeza ao demonstrar na prática, tal efeito explosivo.
Se mostra absolutamente adorável o Blues roots de: “Travel at the Southern Lands”.

“75’S spring”, mostrou o lado "funkeado" do Jazz-Rock mais sólido, ao reverenciar Jeff Beck e de fato, a primavera de 1975, foi pródiga e embalada por tais petardos desse grande mestre.
Jimi Hendrix aparece em manifestação mediúnica, digamos assim, na inspiração para a música: “Grooveria Paulistana”

“Doida” é puro Led Zeppelin, com Jimmy Page a indicar o caminho para Spilack, mediante uma luminária acesa, montanha acima.

O Folk britânico e europeu de uma maneira mais abrangente, mostra a sua face em “Rainy Afternoon in Gonçalves”. Neste caso, Guilherme também tira o chapéu para Roy Harper, com certeza!
Um blues denso ao extremo, a evocar Jimi Hendrix em seus momentos mais soturnos, nos é brindado em “The Inspiration Blues”.
 
Gosto do sabor Pop, quase imperceptível, mas muito bem colocado de um violão batido na faixa: “Under Two Color Sky”. Marca registrada de um mestre carismático como Peter Frampton, e que Spilack soube explorar com galhardia.

A faixa escolhida por Guilherme Spilack para encerrar o CD, foi estratégica. “Taking Road Back Home” é um tema grandiloquente, com um solo dramático e que muito fez com que eu me recordasse do saudoso Mick Ronson.
O áudio do CD é bastante agradável, a respeitar a intenção do artista em buscar timbragens vintage, mas com a inerente modernidade da era digital. 
 
Sobre a capa, a achei simples, mas bastante criativa em seu lay-out, obra assinada por Débora Born. As fotos são de Renato Ciccone.

Abaixo, ouça uma amostragem do álbum postada no YouTube:
Spilack em pessoa cuidou da produção toda, incluso o áudio, ao operar em seu estúdio particular (SpilackTAG Estúdio), com exceção da captura de bateria, feita em um estúdio diferente, o Estúdio Tool Box 68. 
 
Em suma, um trabalho muito inspirado, que nos oferta a esperança que o Rock possa trilhar caminhos melhores doravante, com jovens a buscar beberem em fontes nobres, novamente.
E uma ótima nova, que eu soube através do próprio Guilherme: a sua intenção é que o Stuffbreakers seja uma banda doravante, para seguir carreira e portanto, ele não trata esse trabalho como solo. Melhor ainda, em suma. 
 
Cabe registrar que eu fiz uso abusivamente de citações a estabelecer associação de ideias com inúmeros artistas do passado na história do Rock, mas neste caso, além de saber que o artista em si concorda com a minha linha de raciocínio, a minha intenção foi enaltecer a boa fonte em que o jovem Guilherme Spilack busca inspiração, mas em essência, é óbvio que ele tem a sua própria identidade como artista e aliás, esse talento é notório. 
 
Jovens talentosos como Guilherme Spilack (e seus companheiros), nos traz de volta essa empolgação de se acreditar que dias melhores virão para quem ama o Rock, verdadeiramente.  
Para conhecer melhor esse trabalho, contato na página do Facebook:
https://www.facebook.com/StringBreakerRock  

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Kim Kehl & Os Kurandeiros - 11/7/2015 - Sábado / 21:00 h. - Casa Amarela - Osasco / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros

Dia 11 de julho de 2015 - Sábado - 21:00 Horas

Casa Amarela

Rua Mário Menin, 90

Centro

Osasco - SP

KK & K :
Kim Kehl - Guitarra e Voz
Carlinhos Machado - Bateria e Voz
Luiz Domingues - Baixo

domingo, 21 de junho de 2015

A Força Realista; Rude & Poética de Carolina de Jesus - Por Luiz Domingues



Pode haver poesia em torno da questão da fome ? Por mais absurdo que isso possa parecer, a resposta é sim, e Carolina de Jesus, provou isso. Nos últimos anos, a estética forjada em torno das favelas & mazelas dominou a produção cinematografia brasileira, e de certa forma respingou também sobre o mundo televisivo. Isso sem contar a questão da música popularesca que arrebatou a difusão midiática, com respingos em outras áreas, sob a égide do Hip Hop.
Porém, o foco cultural sob a ótica das camadas mais carentes da população, não começou nos anos 2000, como algumas pessoas possam imaginar. De volta ao tempo, a literatura já havia dado recados contundentes sobre tal realidade social brasileira, desde o século XIX. Nesses termos, “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é só um exemplo.

No campo do cinema, um filme como, “Cinco Vezes Favela”, já havia abordado a questão, muitas décadas antes de “Cidade de Deus” e “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, tornarem-se populares, pela ação dos formadores de opinião. Todavia, um caso extraordinário ocorreu ao final dos anos cinquenta; início dos sessenta, e que causou muita estupefação na opinião pública nacional. Tratou-se da revelação de que uma mulher negra; semianalfabeta, favelada; e naquela atualidade, a prover o seu sustento familiar mediante a ação em catar objetos no lixo, pudesse ser uma escritora com enorme qualidade e fibra.
Essa mulher foi Carolina de Jesus... 

Uma pessoa dotada de uma origem muito simples, Carolina nasceu em Sacramento / MG, no ano de 1914. Na segunda metade dos anos trinta, migrou para a capital de São Paulo, em busca de melhores condições de sobrevivência. Ao chegar em São Paulo, ela não teve outra escolha, a não ser sobreviver como catadora de lixo.
Com personalidade forte, e uma certa agressividade adquirida pelos traumas advindos da infância, por conta dessa dificuldade sempre teve iniciativa própria, ao recusar esperar a benevolência alheia e assim, com as próprias mãos, construiu o seu barraco em uma favela paulistana. Por viver em meio à um ambiente extremamente hostil, colocou em mente que não valeria a pena casar-se, pois cansara de ver as suas vizinhas maltratadas por maridos ebrios e invariavelmente cafajestes; machistas e agressivos. Ela teve três filhos, cada um com um pai diferente, e apesar da época em questão, e notadamente com padrões morais bem mais intransigentes em relação aos tempos atuais, isso aparentemente nunca a incomodou.
E não foi para menos... o que pode incomodar mais a vida de uma mãe de família humilde, do que a miséria absoluta em que vivia, e que a impelia a lutar como uma leoa, diariamente, para trazer para casa alguma migalha que fosse, para alimentar os seus filhos ? Apesar de ter estudado apenas os dois anos iniciais do antigo curso primário, e portanto saber tão somente os rudimentos da língua portuguesa, Carolina de Jesus gostava de ler e escrever.
Simultaneamente às bugigangas que catava no lixo para poder sobreviver, ela também acostumou-se a resgatar fragmentos de jornais; revistas e livros, não só como única oportunidade para poder ler algo nas horas de folga, como para reutilizar o papel para poder escrever. Por anos, escreveu um diário, com muitos erros gramaticais e ortográficos, mas mal sabia ela, com uma fluidez e lucidez, extraordinárias.
Seu diário mostrava de uma maneira hiper realista, o cotidiano duríssimo de sua vida; de seus filhos, e de sua vizinhança tão sofrida quanto. Porém, eis que em um dia qualquer de 1958, um golpe fortuito mudou a sua vida, completamente.
Um jornalista famoso fora designado para cobrir uma matéria sobre cotidiano, cuja pauta era a inauguração de um parque infantil público, localizado no bairro do Canindé, às margens do Rio Tietê. Chamou-lhe a atenção o fato de que uma mulher simples estava aos berros a expulsar adolescentes mal intencionados, que já mostravam-se dispostos a vandalizar e impor terror à criançada que queria usar os brinquedos disponibilizados pelo poder público. O jornalista em questão foi Audálio Dantas, e uma frase que a mulher proferiu, o instigou : -“saiam, ou eu vou colocar vocês no meu livro”...
Quando Audálio Abordou-a, quis saber exatamente o quis dizer com “livro”. Daí, ele acompanhou-a à sua casa, e ficou estarrecido diante daqueles maços de papéis manuscritos...


Encantado com o teor do texto, Audálio imediatamente tornou-se o editor daquele diário impressionante, que foi lançado em agosto de 1960, como livro, ao receber o nome de : “Quarto de Despejo”.
Ao antecipar em anos a história de vida de muitos jovens que saem das favelas para a fama, via arte ou futebol, Carolina de Jesus tornou-se uma celebridade, ao culminar em aparecer em reportagens publicadas em jornais & revistas e também a receber convites para entrevistas em programas de Rádio & TV. A sua desconcertante sinceridade e coragem, encantou o público, mas também trouxe-lhe problemas. Segundo dados oficiais, a tiragem inicial de “Quarto de Despejo”, vendeu dez mil exemplares em uma semana (há controvérsia sobre essa informação, e há os que afirmam que teria vendido a quantidade de trinta mil unidades, em três dias).
Mesmo ao considerar o menor número, devemos deduzir que tal feito foi extraordinário para um país pouco afeito à produção literária, ainda mais para os padrões de 1960 ! Ela ganhou dinheiro como nunca sonhara na vida, e também angariou a malévola  atenção da parte de inimigos invejosos.
Em entrevistas, Carolina queixava-se de que muitas pessoas chamavam-na como : “pernóstica”, além de sofrer assédio com pedidos de empréstimos financeiros pessoais, e até pedidos de casamento. Não era a sua função, claro, mas Audálio compadeceu-se da situação de Carolina, e além de editor da obra, eis que tornou-se uma espécie de “agente” pessoal dela, ao tentar protegê-la de tal fama repentina, mas a própria, Carolina não entendeu tal propósito e assim, ambos chegaram a romper relações algum tempo depois.
Ao ir muito além, uma versão em inglês do seu livro foi lançada, e na América, o livro entrou para a lista dos Best Sellers.
Audálio optou por manter a grafia original da autora, e ao conter os erros gramaticais e ortográficos, outorgou-lhe uma aura de autenticidade em torno da obra, que só fez aumentar a força da sua narrativa. Estava ali a realidade nua e crua de uma mulher sofrida, que levantava cedo todo dia, disposta a sacrificar-se  em trabalhar, sem nenhum constrangimento pela atividade insalubre, mas obcecada em alimentar a sua família.
O livro impressiona por esse e muitos outros aspectos. O ambiente tenso da favela; a violência doméstica na vizinhança (onde Carolina convenceu-se que manter um marido “oficial”, não valia a pena); o choque do preconceito sócio-racial, uma realidade que era comum à todas as pessoas que viviam naquela condição. A sua amargura diante de uma vida rude, reflete-se na obra, de uma forma fortíssima. 
Eis dois exemplos pinçados, entre tantos :


-“Hoje não temos nada para comer. Convidei meus filhos para suicidar-se, mas fiquei com dó... estão cheios de vida, e quem vive, precisa comer”...


-“Não há coisa pior na vida do que a própria vida”.


Sobre o título de seu livro, “Quarto de Despejo”, a sua explicação sobre tal escolha, foi que considerava a existência da favela, como um quarto de despejo da cidade, ou seja, como a sociedade mais abastada fazia para livrar-se do que lhe era indesejado.
Quando o seu primeiro livro estourou, e ela tornou-se uma celebridade, claro que ganhou dinheiro e deixou a favela, para melhorar a sua condição pessoal. Todavia, não sem antes sofrer muito, pois teve que suportar a incompreensão de sua vizinhança na favela. Muitos vizinhos xingavam-na; a sua casa passou a ser apedrejada, e seus filhos perseguidos. Queriam que ela repartisse o dinheiro advindo dos royalties do livro, sob a alegação que ela ganhara dinheiro à custa em revelar a vida deles mesmos. A cada entrevista que saía publicada em jornal e revista, repercutia no sentido em que os seus vizinhos enfureciam-se ainda mais, para aumentar as hostilidades.  
Posteriormente em entrevistas, ela revelou com muita sinceridade, que estava desapontada com a ascensão social, pois verificara que aspectos humanos negativos, tais como a inveja e a maledicência, repetiam-se na classe média, ou até mesmo amplificavam-se, em relação aos conflitos que ela teve no ambiente carente de uma favela. Carolina citava sempre um caso particular que ocorrera-lhe, quando em certa ocasião conseguira adquirir um porco para reforçar a refeição da família, e para abatê-lo (e logicamente a provocar um grande barulho por parte do pobre animal, na iminência de seu martírio), atraiu a atenção da vizinhança faminta que a pressionou a dividir a carne, em um ato de solidariedade forjada sob coação. A sua comparação com a vida na classe média, seria portanto que sob tal nova condição, as pessoas rondavam-na como urubus, a pedir-lhe dinheiro e propor negócios descabidos. Carolina ainda lançaria outros livros, posteriormente : “Casa de Alvenaria”; “Pedaços de Fome”, e “Provérbios”.
Outro, póstumo, ainda seria lançado : “Diário de Bitita”. Existe textos ainda não lançados, que a qualquer momento poderão vir à tona. Estima-se que ela deixou cerca de cinquenta cadernos manuscritos, com sete romances; sessenta crônicas; cem poemas; quatro peças de teatro e doze letras, supostamente compostas para musicar marchas carnavalescas. Um documentário produzido pela alemã, Christa Gottmann, retratou a ambientação da favela, com a participação de Carolina em pessoa. 
A extraordinária atriz, Ruth de Souza, interpretou-a no teatro, através de uma produção baseada no livro, "Quarto de Despejo", em 1961, com diversas remontagens a posteriori. E também participou de uma dramaturgia para a TV, em um "Caso Especial", da TV Globo, em 1983. Dois curta-metragens foram produzidos mais tarde : "Carolina", de Jessica Queiroz,  e "Vidas de Carolina", de Jefferson De.
Carolina Maria de Jesus faleceu em 13 de fevereiro de 1977, na cidade de São Paulo. O seu legado para a literatura nacional é imenso; a sua coragem e sinceridade, admiráveis e sobretudo, o seu talento para retratar a realidade duríssima de uma sociedade que mostra-se implacável e insensível, foi notável. Deixo abaixo, uma última frase dela, e que espelha bem o espírito que norteou a sua obra :


-“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados”...