domingo, 2 de janeiro de 2022

CD No Quarto de Som/Tony Babalu - Por Luiz Domingues

Quando se fala de um guitarrista do alto quilate de Tony Babalu, realmente eu penso que é desnecessário fazer uma apresentação mais detalhada sobre a sua carreira e obra, dada a constatação de que ele é um grande artista consolidado no meio artístico brasileiro.

Portanto, feito tal ressalva inicial, eu parto do pressuposto de que o meu leitor habitual sabe muito bem quem é, e sobretudo o que representa Tony Babalu na história do Rock brasileiro, da música brasileira em geral e no âmbito mais amplo da cultura nacional.

Para realçar tal premissa, eu tive o prazer de resenhar seus dois últimos discos e aproveito para deixar o link de tais resenhas para a releitura e assim proporcionar ao leitor a possibilidade de entrar no clima da obra do grande Tony Babalu, no avançar desta resenha em específico.

Leia no meu Blog 1 a resenha sobre o álbum “Live Sessions at Mosh:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2014/07/live-sessions-at-mosh-tony-babalu-por.html

Leia no meu Blog 1, a resenha sobre o álbum “Live Sessions II”:

http://luiz-domingues.blogspot.com/2017/09/tony-babalu-cd-live-sessions-ii-por.html

Tony Babalu em ação com a sua emblemática guitarra Fender Stratocaster. Foto: Karen Holtz

Eis então que veio a terrível pandemia de 2020 e o Tony Babalu, assim como todo mundo, precisou se preservar fisicamente ao adotar a reclusão estratégica em seu Lar, mas isso não o privou de continuar a criar e produzir novidades, e foi assim que ele lançou em julho de 2021, o CD “No Quarto de Som”.

Porém, antes de avançar sobre a resenha desse trabalho em específico, é preciso ressaltar que ele já havia lançado dois singles em 2020, sob a mesma perspectiva do confinamento, através das músicas: “2020” e "Lockdown”.

Acho oportuno falar um pouco desses temas lançados como singles, pois na prática, a circunstância pela qual tais peças foram compostas, gravadas e lançadas, possui em sua dinâmica toda a similaridade com o álbum que é o objeto central desta resenha e que foi lançado posteriormente.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=ekc3nPss-4M

2020” é um tema bastante incisivo como opção balançada, a buscar o sentido funky, mas com uma certa latinidade implícita. Neste caso, são notáveis as intervenções de teclados a insinuar o naipe de metais e a contar também com a inserção de percussão. E neste caso, mesmo que seja fruto de programação e não o fruto de instrumentos tocados por músicos de fato, a intenção do Babalu ficou demarcada e certamente mediante tal arranjo, ele teria buscado a excelência da parte de grandes músicos se pudesse optar por uma gravação orgânica tradicional.

E claro, as intervenções com guitarra e violão são excelentes.

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=FZJR90pkJSs

No caso de “Lockdown” a música já se inicia com o uso da fórmula de compasso em 6/8, e da forma como foi composta, induz o ouvinte à dança do começo ao final.

A sobreposição de violões e guitarras é muito rica e a execução mostra a firmeza de um diamante nos dedilhados precisos. 

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=FZJR90pkJSs&list=PLPrXphdNfPge5AzuBbtboVHKLYS2zKhOf

Esta música ganhou um belo clip de apoio, com imagens editadas pela produtora, Karen Holtz, a enriquecer sobremaneira a beleza musical proposta por Tony Babalu e principalmente a ofertar um alento para todos nós que passamos pelo momento difícil do confinamento.

Tony Babalu em momento ao vivo. Foto: Karen Holtz

O tempo avançou e eis que a pandemia teve novas ondas ainda piores e dessa forma, o ano de 2021 não pareceu apontar para o seu arrefecimento e pelo contrário, ficou ainda mais perigosa a sua ação virulenta.

Na contrapartida, Tony Babalu intensificou o seu esforço para produzir mais música de qualidade nessa prorrogação de um tempo muito difícil para todos nós e a extravasar a sua inesgotável inspiração, ele compôs mais material e desta feita, lançou um álbum com mais cinco temas muito fortes, ao qual intitulou como: “No Quarto de Som”, isto é, a se tratar da literal expressão de que trabalhou forte no seu quarto de música, existente em sua residência.

Mais uma vez a tocar guitarras e violões e programar os demais instrumentos (baixo, bateria, percussão e teclados), ele também operou sozinho a captura de gravação, a deixar apenas o processo da mixagem e masterização a cargo de outros profissionais, Marcelo Carezzato (este técnico já havia masterizado o single “2020” e mixado e masterizado, o outro single: “Lockdown”, citados acima) e Beto Carezzato.

Se para embalar os singles anteriores ele optara por capas bem simples, apenas a conter o seu nome e de cada respectiva canção anunciada, desta feita ele não fugiu muito da ideia de usar da parcimônia visual e apenas inovou ao usar uma foto para a capa e contracapa, a exibir o seu quarto de trabalho caseiro, com a presença de seus instrumentos, amplificador e demais equipamentos a postos para servi-lo a criar músicas bonitas, isto é, o cenário perfeito a denotar que o confinamento nesses termos para um compositor e instrumentista pode ser paradoxalmente, um pedaço do paraíso. A concepção gráfica foi de Marina Abramowicz e com fotos de Karen Holtz.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=5P2OC8z8wUg

Sobre as faixas, “Recomeço” começa com uma batida de samba bem clássica e com a introdução dos teclados, me fez lembrar o som Jazzy-brasuca de Sérgio Mendes. Frases pontilhadas de violões desenham a moldura e quando a guitarra entra, não dá para deixar de enaltecer o belo timbre da Fender Stratocaster, marca registrada do Tony Babalu e a sua linha de frases que é extraordinária, sempre com uma precisão absurda na execução e norteada pelo bom gosto.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=WJefkHhQcCc

Lara” tem uma levada Soft-Rock deliciosa. Parece que colocamos um disco dos bons do James Taylor na pick-up da vitrola, mas claro, com uma condução de guitarra e violões a la Tony Babalu, ou seja, privilégio que o velho Taylor nunca teve para abrilhantar os seus discos.

O tema transborda de sensibilidade a cada “bending” pela sua delicadeza ímpar. As partes com levada de violão intercaladas com pausas são ótimas, uma grande sacada.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=e2oBVrTXogk

Tropical Mood” tem um "groove" incrível. É caribenha no aspecto subliminar e parece iluminada pelo sol de tão límpida e agradável na sua audição. A conga é providencial para garantir o balanço, naturalmente, mas todo o sentido rítmico mais acentuado está baseado na base de violões e guitarra. Mais um belo solo advém, com fraseados muito melódicos e sobreposição rápida, porém certeira no solo duplo. 

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=lCPDJvph2eg

Vem a quarta faixa, chamada “Reflexo” e esta composição tem um apelo dramático, que a credencia facilmente a vir a se tornar tema de qualquer trilha para uma peça audiovisual, ou seja, cabe tanto para filme, quanto seriado, tamanha a sua expressividade.

E tal tema vem com mais um solo cheio de notas muito bem realçadas pelo aspecto rítmico, percutidas nas palhetadas com a extrema felicidade de quem toca muito e além do mais, sob extrema naturalidade.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=ZPK3IdfN8sI

Francisca” é bastante emocionante pela sua melodia muito bonita. Esta peça tem um sentido um tanto quanto rural na sua constituição e ao menos na minha percepção, soou-me como um entardecer no campo, tamanha a sua poesia implícita.

Lembrou-me também demais o trabalho de Egberto Gismonti pela riqueza musical e cultural implícita. Ela é uma música demasiada curta dentro do parâmetro da música instrumental em geral, no entanto, acho que essa economia proposta pelo Tony Babalu foi proposital, no sentido de que ele deliberadamente quis dar esse recado curto, a buscar a intensidade em contraste com a porção comedida. Claro, é uma mera impressão minha como ouvinte, mas eu preciso expressar o que sinto quando a escuto.

Então, é isso, “No Quarto de Som” mostrou o momento de um grande artista ante o confinamento e muito pelo contrário do que se poderia supor, o fato de ter sido uma obra a expressar o sentimento da angústia pelo confinamento e sobretudo, receio pelo destino da humanidade ante tal devastadora ação viral e letal, eis que Tony Babalu nos deu mais uma mostra de singeleza, bom gosto e alta inspiração, portanto, nos passou mais que um alento, mas a esperança de que esse momento tenebroso vivido pela humanidade, será vencido.

É óbvio que eu recomendo com toda a ênfase o CD “No Quarto de Som”, assim como os singles também citados nesta resenha. Tal álbum está disponível para a audição através de diversas plataformas musicais e que estão assinaladas abaixo.

Nestes trabalhos, Tony Babalu atuou sozinho, a tocar guitarra & violão e programar os demais instrumentos de maneira eletrônica. Ele mesmo operou a gravação em sua captura inicial e a mixagem & masterização ficou a cargo de Marcelo e Beto Carezzato (Carbonos Studio de São Paulo).

Capa e contracapa: Marina Abromowicz e fotos de Karen Holtz

Distribuição: Tratore

Gravadora: Amellis Records

Lançamento: julho de 2021

Para conhecer melhor o trabalho de Tony Babalu, acesse:

YouTube:

https://www.youtube.com/channel/UChJtAvqNkU2xIK_Zcf6KLhw

Spotify:

https://open.spotify.com/artist/4EqJdbKwoA8tjgHUP1qXKa

Deezer:

https://www.deezer.com/br/artist/5251751

Site oficial do artista:

https://www.tonybabalu.com/

Soundcloud:

https://soundcloud.com/tonybabalu/sets/no-quarto-de-som/s-XlJkwED1Z2H?fbclid=IwAR0WD8DjrgRovLTQ8TT4Ev8XHrPlLqPkZrCCZ5AwhWxGM4leQPW4qc3-n3s

Instagram:

https://www.instagram.com/tonybabalu/

Facebook:

https://www.facebook.com/tonybabalu1

Site da Tratore:

https://tratore.com.br/um_artista.php?id=6050

Contato direto com o artista:

contato@amellisrecords.com.br

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Filme: Get Crazy (Na Zorra do Rock) - Por Luiz Domingues

Este filme nasceu em torno de uma ideia interessante, no entanto, o tom proposto em torno da comédia, tratou por arrasar a intenção inicial que foi nobre, em tese. Pior ainda, a estética visual usada pela direção de arte, mediante o predomínio do conceito “kitsch”; extremo histrionismo adotado pela atuação dos atores profissionais e/ou amadores a atuar, o texto mal elaborado e direção equivocada, foram itens negativos que somados, depõe contra a obra. Pois então, sobra alguma coisa para ser considerada positiva? Sim, existe algo de bom neste filme, embora seja realçado sob uma proporção ínfima.
 
Primeiro ponto : algumas piadas são engraçadas, não todas, portanto, poder-se-ia ser levado em consideração o fato desta película ser considerada uma comédia escrachada e assim, diminuir-se-ia bastante qualquer grau de exigência dos críticos regulares de cinema e principalmente em relação ao público Rocker em suas expectativas mais detalhistas. Nesse aspecto, é preciso ser bastante paciente ao considerar também, que trata-se de uma produção concebida nos anos oitenta, portanto, pelo fato do Rock em si, vivia-se uma Era pautada pelo vilipêndio ideológico ao passado do próprio gênero. Já pelo fator cinematográfico propriamente dito, a expansão de um tipo de comédia nesses termos, ou seja, a privilegiar o pastelão exagerado, estava em alta voga, portanto, foi baseado em tais premissas que o filme foi produzido. Segundo aspecto: há uma trilha sonora que mesmo que não seja considerada espetacular, pelo menos minimamente preserva o filme do desastre total, ainda bem.
Qual teria sido então a nobre intenção que motivara a criação da obra, e que eu mencionei no início da resenha? Pois o diretor, Allan Arkush, detinha uma cultura Rocker/contracultural em sua formação pessoal e mais do que isso, fora um ex-funcionário do auditório Fillmore East, nos idos do final dos anos sessenta e início dos setenta. Como cineasta, também contabilizava o fato de ter iniciado a sua carreira como membro da equipe de produção do diretor, Roger Corman, este, um especialista em cinema de terror, mas que nos anos sessenta, tivera uma interessante incursão ao cinema contracultural, ou seja, lidar com Freaks, foi algo que Arkush acostumara-se desde a década de sessenta. Allan Arkush, portanto, teve como intenção ao propor filmar, “Get Crazy”, prestar uma homenagem aos auditórios Fillmore (East e West), capitaneados pelo grande empreendedor contracultural, Bill Graham. 
Que ótimo, tais teatros foram importantíssimos para a história da contracultura, principalmente para o Rock e demais vertentes musicais derivadas e paralelas, naqueles anos de ouro. Nada mais nobre, portanto, ao trazer à baila uma homenagem para essas casas que tanto contribuíram para a música, contracultura, Rock & afins. No entanto, infelizmente, eis que todos os fatores negativos que eu arrolei anteriormente somaram-se, e assim, com tal carga, ficou inviabilizado que a tal boa intenção do diretor, Allan Arkush, fosse honrada.
E a história, do que trata-se afinal de contas, o “Get Crazy?”Bem, o Teatro Saturn vai produzir um show de Rock com vários artistas para celebrar o Reveillon de 1982. No entanto, apesar de estar desde 1968, nas mãos de um abnegado curador, paira a ameaça dessa concessão ser encerrada e nesse ínterim, um mega investidor (e que seria um alienígena com péssimas intenções), oferece uma quantia irrecusável para comprar o teatro, quando o dono fica possesso pelo assédio e tem um ataque cardíaco. Eis que o sobrinho e virtual herdeiro desse maioral, não tem o mesmo apego ao estabelecimento e rapidamente mostra-se propenso a aceitar a oferta. Todavia, como ainda não poderia tomar sozinho tal decisão, fica combinado de que até a meia noite, portanto, antes do ano de 1983, iniciar-se oficialmente, esse sobrinho teria que fazer com que o seu combalido tio assinasse o contrato para celebrar a venda.
Nesse ínterim, a produção para o show de reveillon mostra a contratação dos artistas convidados e rende algumas boas piadas, se analisado pelo lado estrito do humor, entretanto, se a intenção foi homenagear a  instituição dos auditórios Fillmore, desaponta qualquer Rocker com uma mínima consciência de sua importância na vida real, pois tudo é tratado como se fosse um programa de humor popular da TV. Feita a ressalva, se o espectador não ofender-se, pode até rir como se estivesse a ver um programa humorístico sem compromisso com nada mais do que proferir-se asneiras a esmo.
 
O filme segue, com o sobrinho mal-intencionado que arquiteta uma sabotagem, ao mandar instalar uma bomba no auditório e através da tragédia, obter a sua sonhada vantagem. Bem, se fosse um episódio do desenho animado: “Corrida Maluca” e isso fosse a meta da maquiavélica dupla de malfeitores formada por Dick Vigarista & Muttley, creio que não incomodaria nenhuma criança até o limite dos sete anos de idade, todavia, usar isso como mote para um filme, mesmo sob a égide do humor escrachado, realmente foi algo bem forçado, convenhamos. 
Então, foi isso, a ação toda transcorre em torno desse dia 31 de dezembro de 1982, entre os preparativos para o show, as sinistras ações de sabotagem e as loucuras perpetradas por artistas temperamentais ou lunáticos contumazes.
 
E o elenco musical é bem dispare, pois apresenta desde um Bluesman tradicional (admito que é hilária a estupefação do artista ao descobrir que será acompanhado por uma banda temática, toda inspirada no judaísmo), uma banda a celebrar o Rock oitentista em voga, regida por todos os signos da New Wave, um cantor britânico desengonçado e a exibir uma espécie de Hard-Rock Pop oitentista, pleno em clichês, um punk completamente ensandecido a mostrar-se um revoltado em tempo integral, um conglomerado de Hippies anacrônicos, devidamente ridicularizados (ao seguir a praxe oitentista), e finalmente, um cantor/guitarrista solo que é temperamental e arredio, que devido ao trânsito, chega atrasado e faz a sua apresentação após o show ter sido encerrado.
Ainda a falar sobre essa parte musical, a parte do Bluesman é um dos pontos altos do show (e do filme, acredito), apesar do clima em tom de sátira, proposto em geral. Bem, tratou-se de Bill Henderson um cantor de respeito no mundo do Blues e do Jazz, e que interpretou, o cantor: “King of Blues” (inspirado em BB King?) . A despeito das piadas, a parte musical soa bem, pois dois blues de respeito são tocados, com as releituras de Blues clássicos de autoria de Muddy Waters e Willie Dixon, respectivamente.
 
Em relação ao grupo New Wave, todo modernoso, a cantora, “Nada”, foi interpretada por Lora Eastside, que de fato cantava no grupo oitentista, “Kid Creole and the Coconuts (este por sua vez foi um grande inspirador de Julio Barroso no Brasil, quando tal finado artista criou a sua: “Gang 90 e as Absurdettes”). No filme, tal grupo é um pastiche ao estilo de grupos reais em voga, tais como: B52’s; Go-Go’s; Bangles etc. 
E para piorar tudo, tal grupo recebe como convidado especial, o truculento punk a simular estar sob ataque epilético crônico, chamado como: “Piggy” e que foi interpretado por um vocalista punk de fato e que na vida real não tinha um comportamento muito diferente, na figura de Lee Ving, que atuava com a banda Punk, LA Fear... que medo...
Sobre os hippies, segundo consta na sinopse do filme, a intenção foi homenagear uma banda sessentista verdadeira, o “Strawberry Alarm Clock”. O líder da banda fictícia, foi interpretado por Howard Kaylan, ninguém menos que um dos vocalistas do bom grupo sessentista da vida real, “The Turtles” e também com passagem pelo “Mothers of Invention” de Frank Zappa. No filme, ele interpretou o seu personagem a seguir a caricatura proposta, como o “Hippie Stoned” a não falar nada inteligível, bem naquela perspectiva pela qual o do humorismo em geral, enxergava o movimento Hippie, vide o personagem, “Lingote”, criado por Chico Anysio.
Reggie Walker foi o tal cantor inglês fictício e aqui pareceu que a intenção da produção foi satirizar, Ozzy Osbourne. Sujeito um tanto quanto fora do prumo, digamos assim, foi interpretado pelo bom ator britânico, Malcolm McDowell, e em certas cenas a conter insinuações sexuais (orgias com groupies e a conversar com o seu próprio pênis, quando sob efeito de LSD), Malcolm pareceu ter ficado a vontade para dar continuidade à linha de interpretação em que concebera o personagem do Imperador Romano, Calígula, que ele havia recém lançado nas telas de cinema. 
Caricato, principalmente nas cenas do show ao vivo (ele cantou de fato, e com a sua voz bem desafinada, só aumentou a canastrice de sua interpretação), isso só reforçou a ideia de que esse filme buscou o humor, mas passou do ponto. Outra presença surpreendente, ocorreu com o baterista do The Doors na vida real, John Densmore, que interpretou o baterista da banda do cantor, Reggie e o seu personagem proporciona uma cena ridícula ao fazer um solo de bateria, e abusar da sua comicidade duvidosa. Designado como o personagem, “Toad” (sapo), é difícil acreditar que tenha sido ele mesmo a participar ali, ao considerar-se o quanto era sisudo ao atuar com o The Doors, na vida real. Tomara que tenha divertido-se, pelo menos, em filmar tal cena constrangedora.
E para fechar as considerações sobre a parte musical, Lou Reed interpretou o tal cantor/guitarrista solo e mal-humorado, chamado “Auden” (inspirado em Bob Dylan, mas convenhamos, muito mais nele mesmo, ora, ora). Reed, como “Auden” toca e canta sozinho, “Little Sister”. 
Bem, de confusão em confusão, a tal bomba culmina em explodir bem no colo do vilão mor, o teatro salva-se e o Hippie defendido por Howard Kaylan (designado como “Captain Cloud”), comanda um número final a envolver todos os demais artistas e o público junto, a cantar o clássico tema de reveillon nos Estados Unidos : “Aulde Lang Syne” e assim dar a boa vinda para o ano de 1983.
Quando o filme estreou nas salas de cinema, eu não fui vê-lo. Parece algo preconceituoso de minha parte, mas a julgar pelas críticas que eu havia lido na imprensa, à época, eu senti que tratava-se de uma bobagem que não mereceria ser paga para assistir-se. Só assisti quando entrou na grade da TV, bem depois e constatei que eu fizera bem em não ter gasto o meu dinheiro. Sei que muitas vezes as opiniões do críticos profissionais da grande imprensa não podem ser levadas à risca. Tem muita idiossincrasia a conspurcar as análises que deveriam ser isentas e técnicas, em tese, eu sei disso, porém, acho que desta vez eles avaliaram corretamente.
Tal obra saiu em formato VHS, ainda nos anos 1980, mas não consta que tenho sido lançado em formato DVD, posteriormente. Foi bastante exibido na grade das TV’s abertas nos anos oitenta, mas em horários mais avançados, pois a despeito de ser uma comédia baseada no besteirol total, as cenas a conter nudez e insinuar sexo e uso de drogas, impossibilitaria a exibição na “Sessão da Tarde”. 
 
Na TV fechada foi programada para ser exibido nos canais especializados em filmes humorísticos, e também é fácil para acessá-lo no YouTube.
Atores tarimbados participaram desta comédia. Além dos que já citei, vale acrescentar: Alen Garfield (Max Wolfe), Daniel Stern (Neil Allen), Gail Edwards (Willy Loman), Miles Chapin (Sammy Fox), Ed Begley Jr. (Colin Beverly, o vilão), Stacey Nelkin (Susie Allen), Clint Howard (Head Usher) e outros. Direção de Allan Arkush e lançado em agosto de 1983.
O diretor, Allan Arkush a cumprimentar um bizarro personagem do filme: Get Crazy
 
Para encerrar, há por destacar-se que uma tarja aparece ao final para agradecer a equipe de produção do auditório “Fillmore East”, que durante o período entre 1968 e 1971, proporcionara ao diretor, Allan Arkush, as boas memórias que este acumulou durante a sua convivência. Sei que passou muito tempo, mas Arkush ainda está vivo e deveria produzir um filme, ou no mínimo um documentário para honrar tal memória, visto que esse “Get Crazy” foi tudo, menos um tributo à altura do Fillmore East.
 
Esta resenha está publicada no livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll e está disponível para a leitura em seu volume II, a partir da página 174.