Mostrando postagens com marcador Cidade de São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cidade de São Paulo. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de outubro de 2016

Ode Aos Bairros de São Paulo Onde Morei - Por Luiz Domingues



Dos cumes montanhosos da Vila Pompeia, onde houve época em que cada quarteirão mantinha uma banda de Rock a pulsar...
Aos estados norte-americanos do Brooklin e as suas ruas de paralelepípedos...
Avista-se ao longe não a estrela de Belém, mas do Belém, o 
Belenzinho romântico que ainda existe nas imediações da Rua Herval. 
O caráter prosaico de uma Vila Olímpia que não existe mais, a não ser o barulho do motor dos aviões que ainda ali ressoa...
A Mooca italianíssima de tantas tradições...
A Moema antes da verticalização generalizada, do tempo dos sobradões opulentos;
O Cambuci das fábricas e das sirenes dos operários...
O Tatuapé das ruas com nomes de santos católicos, do progresso acentuado, que hoje em dia, quase deixa-o irreconhecível...
A Aclimação do bucolismo e do alpinismo forçoso, dos orientais a fazer Tai Chi Chuan no Parque homônimo, todo dia, bem cedinho...
A Vila Mariana estratégica e aberta para a cidade inteira, dos brechós e cafés moderninhos, dos artistas famosos a andar pelas ruas, das escolas de cinema e teatro...
Cada bairro em que morei, uma gama de experiências, uma São Paulo diferente, várias cidades dentro de uma megalópole...

E tem muito mais... muito mais...

Descubro-a a cada dia,

São Paulo...

segunda-feira, 14 de março de 2016

Parque da Aclimação - Por Luiz Domingues




Em meados do século XIX, um dos caminhos que conduzia os tropeiros vindos do interior do estado, rumo ao porto de Santos, passava por um caminho tortuoso e montanhoso entre o centro de São Paulo e o bairro do Ipiranga, para acessar o caminho do mar. Um fazendeiro chamado, Carlos Botelho, comprou um loteamento nessa área em 1892, e como ele havia morado em Paris, onde formara-se como médico, trouxe a ideia em usar o seu loteamento como um parque ao estilo dos inúmeros que conhecera na capital francesa. Ao batizá-lo como : “Jardin D’Acclimatation”, baseado em um determinado parque existente em Paris, tal nome, posteriormente foi aportuguesado para “Jardim da Aclimação” e mais do que pensar em um parque para a convivência e bem estar, dos moradores do bairro, ele também pensou em montar um zoológico particular.
Dr. Carlos Botelho, retratado em uma pintura assinada pelo artista plástico, Benedito Calixto 

Tal zoológico foi o primeiro da história da cidade de São Paulo, e ao ir além, foi a primeira sede da Sociedade Hípica Paulista (que posteriormente mudou-se para a sua sede própria no subdistrito de Monções, no bairro do Brooklin), e conteve também um complexo com laboratórios de pesquisas para produtos agropecuários. Naturalmente que a sua área era muito maior em relação à que abriga o atual Parque da Aclimação e tirante as suas atividades científicas, havia equipamentos de recreação (salão de bailes; rink de patinação e salão de jogos), e era aberto ao público em geral com a cobrança de um ingresso no valor de 300 réis.
Ao final dos anos trinta, a família Botelho já havia vendido vários lotes de seus inúmeros terrenos no entorno do Parque, e apresentava dificuldades em manter o Parque, e dessa forma, o então prefeito, Prestes Maia, propôs que a prefeitura comprasse o parque, com tal negócio a oficializar-se em janeiro de 1939, pela quantia fechada em torno de 2850 contos de réis. Daí em diante, o parque alternou momentos sob bons cuidados, com fases de completo abandono por parte do poder público.
  O controverso prefeito de São Paulo em 1955, William Salém

Somente em 1955, a mando de William Salem, que assumira a prefeitura provisoriamente (através de uma manobra tresloucada e que fora perpetrada pelo ex-prefeito Janio Quadros, que eleito governador do estado e a contar como o seu vice na prefeitura, e também eleito vice governador, José Porfírio da Paz, abriu-se o  caminho para que Salém, presidente da Câmara Municipal e terceiro na sucessão, comandasse a cidade de São Paulo por um curto período de menos de seis meses). No entanto, curiosamente, Salém cumpriu ações positivas em seu curto mandato "tampão" e entre elas, ao fazer uma grande reforma no Parque, e por construir a sua famosa concha acústica, próxima ao grande lago.
Logo a seguir, em 1956, criou o campo de futebol com dimensão no padrão profissional e a contar com uma pequena arquibancada. Tal equipamento é considerado oficialmente um estádio da Prefeitura (embora dotado de uma capacidade diminuta), tanto quanto o Pacaembu.
Nos anos 1960, infelizmente os prefeitos que exerceram mandatos nessa década, deixaram o parque de lado e os registros jornalísticos da época dão conta de que o parque ficou imundo, mal cuidado e perigoso, por ser habitado por mendigos e malfeitores. Uma reportagem publicada em 1969, no jornal : “O Estado de São Paulo”, chegou a cravar a advertência de que o Parque devia ser evitado pelos moradores do bairro, tamanha a sua insalubridade e periculosidade. Há relatos também sobre carros desgovernados que foram parar no topo de árvores frondosas, a despencar de uma avenida lateral, com características sinuosas, e no alto de um declive, daí a queda em precipício de tais bólidos.
Somente em 1972, sob a administração do prefeito, Figueiredo Ferraz, uma nova reforma foi feita e que mantém as linhas gerais que o Parque apresenta até os dias atuais e inclusive ao haver providenciado a colocação de grades e estabelecer o fechamento da visitação em determinado horário para o uso ao público em geral e a evitar a frequência suspeita de pedintes; meliantes & afins.


A concha acústica passou a ser usada com bastante sucesso. Shows musicais sob várias vertentes; festas folclóricas; aulas abertas de educação física; gincanas escolares; grupos de praticantes de artes marciais, enfim, ali já aconteceu de tudo.
Foi histórico o show dos Mutantes que ali ocorreu em 1973, com o tempo chuvoso e risco de choques para os componentes da banda. A partir do início dos anos 1980, com apoio do Jornal do Cambuci (que mais tarde passou a chamar-se : Jornal do Cambuci & Aclimação), e a ação de um jovem empreendedor chamado, Dalam Junior, o Parque passou a abrigar um evento fixo denominado : “Praça do Rock”, realizado uma vez por mês aos domingos, na concha acústica.
 
Eu, Luiz Domingues, a tocar com a A Chave do Sol, em uma edição do evento, "Praça do Rock", em agosto de 1984, na Concha Acústica do Parque da Aclimação

Tal evento ganhou vulto, e entre 1983 e 1985, fez muito sucesso, inclusive ao atrair a atenção midiática e eu mesmo, Luiz Domingues, ali apresentei-me em três edições desse evento, com a minha banda nos anos oitenta, chamada, A Chave do Sol, com bastante sucesso e perante multidões a contar com milhares de pessoas.
Mas somente em 1986, os moradores do bairro ganharam uma longa batalha burocrática e conseguiram o tombamento do Parque, pois sempre pairava no ar a possibilidade da prefeitura sucateá-lo e vendê-lo para as incorporadoras, a saciar a sua sanha pela especulação imobiliária. Menos mal, que isso não ocorreu.
Não faz muito tempo, já nos anos 2000, houve uma época difícil para os usuários do Parque que amargaram mais um descaso da prefeitura, ao permitir que o lago ficasse totalmente poluído e muitos animais aquáticos e também aves, morressem.
Com muito custo e pressão sobre as autoridades, providências foram tomadas e o Parque superou mais essa crise.
Hoje em dia, ele segue como um verdadeiro oásis em meio à selva de pedra, para atender os moradores do bairro da Aclimação, e também dos bairros vizinhos. Relativamente perto do Parque do Ibirapuera, culmina em ser um elo verde coligado e entre os bairros da Aclimação e Vila Mariana, que são vizinhos e demais bairros do entorno, é comum a grande quantidade de pássaros que voam de um parque para o outro, fora o benefício de dois parques muito arborizados e com boas opções sócioesportivas e culturais para os cidadãos paulistanos que habitam tais bairros do entorno. 
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016

sábado, 4 de abril de 2015

Os Yankees que Adoram São Paulo - Por Luiz Domingues




É óbvio que uma impressão pessimista cria uma atmosfera negativa, na mesma proporção. Se tendemos em apenas focar a nossa atenção em aspectos errôneos, fica difícil acreditar que existam aspectos positivos. Esse é um ponto. Um segundo aspecto, é o argumento de que pessoas otimistas seriam portadoras da “Síndrome de Pollyana”, em meio à sua visão edulcorada da vida ao somente mascarar-se a realidade. Ora, se existe mazelas neste mundo, certamente que a estratificação mental de tal realidade materializada, não partiu de pessoas que enxergam o mundo positivamente, não é lógico ? Terceiro ponto : como através de um círculo vicioso, um paradigma negativo  só tende a crescer, e mais que só exercer a “Síndrome de Pollyana” ao contrário, o baixo astral da parte de quem somente enxerga aspectos negativos, maltrata o meio ambiente, que contaminado, só pode mesmo reagir com a materialização de mais sujeira; degradação humana, crueza urbana etc.
Feito esse preâmbulo, quem acompanha as minhas crônicas, sabe o quanto abomino o paradigma da maioria das pessoas que vivem em São Paulo, em adorar odiar a cidade. Se isso é desagradável da parte de quem aqui veio viver, seja lá por qual motivo, é intolerável da parte de paulistanos natos. Não que devamos fingir que a cidade não ostenta problemas graves, mas pelo contrário, se existe tantos problemas, cabe a nós, que somos condôminos dela, arregaçar as nossas mangas e dar o melhor de nós para erradicá-los e fazer da cidade, um exemplo de cidadania. Todavia, curiosamente, os que mais adoram odiar a cidade, são os que menos fazem por ela, e quando o fazem, geralmente são ações que só corroboram a impressão que eles mesmo tem da urbe.
Outra tendência tipicamente brasileira é a de não dar-se o devido valor, e dessa forma, muitas vezes ser surpreendido com a opinião de estrangeiros, que mediante uma outra visão bem mais ampla e sem estar preso nesse paradigma maldito, enxergam o óbvio : o caráter cosmopolita; a diversidade cultural e a inacreditável gama de oportunidades que uma cidade como São Paulo oferece. 

Repercute ultimamente na mídia (2015), o vídeo produzido por dois jovens cineastas e fotógrafos norteamericanos, ao mostrar São Paulo exatamente pela sua grandiosidade e diversidade cosmopolita. Walker Dawson e Nick Neumann estão acostumados a viajar por diversos países do mundo, a fotografar e filmar o cotidiano de tais localidades. Isso não é uma grande novidade, basta ver a quantidade enorme de programas que tem esse mesmo mote e são veiculados em canais fechados da TV a cabo. No entanto, a grande verdade, é que raramente vê-se alguém de fora, que esteja interessado no Brasil, a não ser pelos clichês esperados. Pois estes dois jovens a estar na faixa de vinte e poucos anos de idade, vieram atraídos pela Copa do Mundo e o seu destino inicial e evidente foi o Rio de Janeiro. Ao aproveitar o evento, visitaram também Curitiba e outras cidades, mas culminaram em chegar à capital paulista. A sua estada em São Paulo, hospedados em casa de amigos, estava prevista para durar duas semanas, mas foi esticada para seis semanas. Diante da enorme profusão de eventos para cobrir, esses rapazes encantaram-se com a diversidade da cidade e produziram por conseguinte, um documentário para mostrar inúmeras nuances paulistanas; ao interagir com a população; mostrar a gastronomia multifacetada; as centenas de opções culturais; a quantidade enorme de colônias estrangeiras aqui radicadas há décadas (algumas, mais que centenárias, inclusive) etc. 

Walker e Nick perguntam por quê uma cidade a contar com tantos atrativos, não seja divulgada em escala mundial ? Uma Nova York encravada na América do Sul, que poucas pessoas no planeta sabem que existe e preterida pelos próprios brasileiros que só falam do Rio; Amazônia, e Bahia, a priori. Encantados com a cidade, planejam voltar e desta vez, com uma estadia estendida, para alguns meses, onde planejam esmiuçar ainda mais profundamente as possibilidades da megalópole. É a repetição de um modus operandi que assola o brasileiro e o paulista / paulistano ainda mais, ou seja : só quando um “gringo” afirma que é “cool”, convencemo-nos de que é mesmo, “bacana”. Eis abaixo, o vídeo que vem a causar sucesso na Internet :



Curiosamente, no fórum de comentários no You Tube, existe diversos comentários negativos, a ridicularizar o documentário, e a opinião dos dois cineastas. É o tal negócio : esse pessoal que “adora odiar São Paulo”, não dá trégua, e não suporta ver a sua opinião formada ser contestada com contra-argumentação. Ninguém suporta o contraditório em uma sociedade tão fechada  como a nossa. Toda vez que chegam as férias e / ou feriados prolongados, milhões de pessoas deixam a cidade desesperadamente, por não a suportar. E a cidade torna-se um oásis de tranquilidade sem a presença dessa gente que tanto reclama e mantém o baixo astral como seu modus operandi, não tenho dúvida. Sempre brinco entre amigos, ao dizer-lhe que desejava que tais pessoas simplesmente não voltassem... há um fundo de verdade nessa brincadeira, pois a carga de ódio dessa gente, é responsável pela tensão; descaso; medo da violência; truculência no trânsito etc...


Se existe lixo na rua, é um malfeito da parte de alguém que não enxerga a cidade como extensão de seu Lar, e tal conceito adequa-se à inúmeros outros fatores básicos da cidadania, que se postos em prática, eliminariam 90 % dos problemas urbanos da cidade. Neste caso, os dez por cento restantes seriam mais amenamente eliminados pelo poder público, que não dá conta em ter que cuidar de toda a destruição perpetrada por maus cidadãos. Não sou nenhuma “Pollyana”,  iludido por uma visão cor de rosa do mundo. Mas também não sou adepto de uma visão cinzenta; derrotista; niilista; bruta; cruel; pessimista etc. Problemas existem, mas a atitude em encará-los de frente, e a entender que a cidade é a nossa própria casa, e portanto depende de nós para ser melhorada, faz-se mister.
Os dois norteamericanos estão a enxergar o que a maioria não quer ver : São Paulo é uma cidade sensacional, com uma quantidade absurda de opções culturais; comerciais; educacionais etc. Está na hora em revertermos o paradigma de ódio que está arraigado entre todos, incluso os próprios paulistanos e dessa forma interromper esse ciclo de baixo astral gerado. Mais que isso, as autoridades nos âmbitos municipal e estadual, necessitam rever urgentemente os seus programas para a promoção da cidade ao redor do mundo. Nada contra o Rio e outros estados e cidades brasileiras, mas São Paulo precisa vender melhor a sua imagem, e, o seu potencial criativo e cosmopolita é mais do que suficiente para suprir sua falta de belezas naturais. Os dois norteamericanos descobriram isso...


Resta-nos fazer o mesmo, com a ressalva de que eu sempre pensei igual, basta ler as minhas crônicas mais antigas e não estou a gabar-me, todavia, apenas a constatar. Sobretudo, convido-o leitor, a refletir, ponderar e mudar a sua atitude, também. Principalmente se for paulista e paulistano...
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2015