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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Caso de Person S/A - Por Luiz Domingues

Eu sou muito fã do cinema brasileiro, desde sempre, e sou de uma geração mais antiga, portanto, não comecei a acompanhar apenas depois do famoso "boom" gerado pelo filme : "Carlota Joaquina", em plena Era Pós governo Collor. Na verdade, tenho esse apreço desde criança, com a infância vivida nos anos sessenta, e dessa forma, certamente um dos filmes que mais impressionou-me nessa década, foi uma história baseada em fatos reais, denominada : "O Caso dos Irmãos Naves". E daí em diante, pus-me a conhecer as demais obras do diretor desse filme, e tornei-me seu fã.

Tratou-se de um cineasta paulistano chamado : Luiz Sérgio Person, que não foi um autor de um sucesso apenas, mas pelo contrário, criou e muito bem, outros filmes significativos para o cinema brasileiro. Nascido em 1936, na cidade de São Paulo, Person ainda quando foi adolescente realizou cursos de interpretação, ao visar inicialmente tornar-se um ator. O seu seu foco fora o cinema, no entanto, o teatro (e também a TV), entrou em sua vida, primeiramente ao conceder-lhe uma bagagem interessante para o cinema, posteriormente, visto que ele obteve a oportunidade para dirigir, muito cedo. Atuou como ator em pequenos papéis nos filmes : "Cais do Vício" e "A Doutora é Muito Viva", no ano de 1956.

Escreveu o roteiro em parceria com Alfredo Palácios (e também atuou como assistente de direção e ator), do filme : "casei-me com um Xavante", em 1957, e a seguir, dirigiu enfim, o seu primeiro longa, denominado : "Um Marido para Três Mulheres". Através de uma uma guinada radical, abandonou por um bom tempo o mundo artístico, para ir trabalhar na indústria.

Entretanto, ele pode voltar com tudo para a sétima arte, com muita vontade para mergulhar no celuloide, pois em 1961, mudou-se para Roma, com o objetivo em matricular-se no curso de cinema do "Centro Sperimentali di Cinematografia (CSC).

Fã ardoroso do grande cineasta italiano, Michelangelo Antonioni (eu também sou !), Person estudou e experimentou muito na cidade eterna. Foi o momento certo, no lugar certo, com a cidade a respirar cinema por todos os poros, ou por todas as fontes da Dolce Vitta. Na pátria do Neorrealismo, Person produziu; dirigiu e roteirizou em parceria com os seus colegas de curso, o curta : "Al Ladro", em 1962, ao usar e abusar das ruas de Roma como set, e utilizar atores amadores, e gente desavisada da rua para atuar sob improviso, na melhor tradição dessa escola cinematográfica, pródiga em desnudar a realidade. Esse curta representou a Itália nos festivais de Veneza e Bilbao (Espanha). Ainda como trabalho no curso da CSC, realizou "L'ottimista Sorridente" e "Il Palazzo Doria Panphili", em 1963.

Historiadores costumam dizer que a sua curta experiência como executivo de uma indústria (Person / Bouquet), foi decisiva para escrever o roteiro de "São Paulo S/A" (que em seu primeiro título, chamar-se-ia previamente : "Agonia"). Particularmente, eu concordo com essa observação, porém em termos, pois nesse filme, outras influências decisivas impuseram-se. Sem a arguta observação de Person, em relação à psique do ser humano, o filme não teria sido tão rico em sua resolução final. Se o massacre da sociedade industrial de alto consumo, foi a linha mestra do filme, não creio que só por ter conhecido o mundo corporativo na pele, teria fornecido-lhe tantos elementos para criar um filme tão brilhante. Foi nessa somatória, onde a experiência como ator e diretor de Teatro e TV; além dos filmes de Antonioni e o Neorrealismo italiano como um todo que o influenciou, foram elementos decisivos. Person lançou enfim (em 1964), a sua primeira obra-prima : "São Paulo S/A".


Um impressionante retrato do massacre capitalista; da sociedade de consumo; da hipocrisia; do status social; da futilidade atroz, mas sobretudo, um estudo sobre o vazio do homem contemporâneo, vítima de tudo isso que descrevi, e muitos outros fatores inerentes.

Mediante atuações espetaculares da parte de seus atores principais (talvez a melhor atuação da carreira de Walmor Chagas, no cinema); ótima edição; roteiro; fotografia; e trilha, trata-se de um filme que impressiona muito, e na minha opinião, está entre os melhores da história do cinema brasileiro. Super premiado, inclusive internacionalmente (Pesaro - Itália e Acapulco - México), tal obra solidificou Person como cineasta, no cenário brasileiro.

Com a responsabilidade desse êxito, Person não intimidou-se e seu próximo longa foi tão bom quanto, para dignificar ainda mais a sua carreira. Nesse ínterim, ocorreu que nessa época, Person foi sondado para filmar um longa com o astro da Jovem Guarda, Roberto Carlos, a atuar como protagonista, em uma tentativa para seguir os passos de Elvis Presley e dos Beatles, sobretudo, ao usar o cinema como plataforma extra de popularização da carreira musical. A ideia seria produzir-se um filme de ação, também a aproveitar a incrível onda de sucesso que os filmes do agente James Bond / 007 ostentaram naquela época, no mundo inteiro.


Então, Person deixou momentaneamente o projeto :"O Caso dos Irmãos Naves" de lado e foi trabalhar nesse roteiro para o "Rei da Juventude", junto com Jean Claude Bernadet e Jô Soares. Tal filme com Roberto Carlose o filme estava com o nome provisório ainda, a chamar-se : "SSS Contra Jovem Guarda". Contudo, as negociações não lograram êxito, e o projeto foi abortado, ao fazer com que Person e Bernadet mergulhassem então em "O Caso dos Irmãos Naves", e no ano seguinte, Roberto Carlos entraria enfim nas salas de cinema com : "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", dirigido por Roberto Farias, e aliás, para honrar as tradições de Elvis Presley, em torno de suas três máximas cinematográficas : 

1) Dar soco em bandido; 
2) Cantar uma canção; 
3) Beijar uma garota...

Em "O Caso dos Irmãos Naves", Person recorreu à atuação do roteirista, Jean Claude Bernadet, para contar a história real de dois irmãos mineiros, que nos anos trinta haviam sido vítimas de um erro judiciário terrível, e muito pior que a injusta condenação de ambos por um crime que sequer ocorreu, foram vítimas de terríveis torturas e humilhações múltiplas.

Inacreditável a coragem em filmar essa história chocante sobre a arbitrariedade, em um momento crucial em que o regime governamental começara a endurecer para valer no Brasil e portanto, a metáfora do filme, fora quase explícita em torno da injustiça alicerçada por arbitrariedade.

Sucesso absoluto de crítica e público, tal obra arrebatou inúmeros prêmios, inclusive para os atores, onde destaco a atuação de Anselmo Duarte, que nos anos cinquenta fora estigmatizado por papéis a viver "galãs" em produções das companhias, Vera Cruz, e da Atlântida, mas nesse filme parece ter incorporado um demônio, ao interpretar o sádico delegado, obcecado em forjar as falsas confissões dos irmãos Naves, mediante torturas bárbaras. 

Depois de dois sucessos retumbantes, Person deu-se ao luxo de atuar como ator em filmes de outros diretores. Por quê não, se ele era ator, também ?

E foi assim em "Anuska, Manequim e Mulher", de Francisco Ramalho Junior; "O Quarto", de Rubem Viáfora e uma surpresa... a atuar no episódio, "O Fabricante de Bonecas", do longa : "O Estranho Mundo de Zé Caixão", de José Mojica Marins, o popular "Zé do Caixão". Muito amigo de Mojica, Person recebeu o convite para dirigir um episódio em outro longa denominado, "Trilogia do Terror". Assinou então, o episódio : "A Procissão dos Mortos".

Em 1969, ele lançou : "Panca de Valente", mas esse projeto na verdade estava engavetado desde 1968.


A ideia foi produzir um filme ao estilo "western", onde influências múltiplas far-se-iam presentes. Ao misturar as chanchadas da Atlântida ("Matar ou Correr", sem dúvida); westerns norteamericanos clássicos, spaguetti western (Sergio Leone, é óbvio); e uma dose de experimentalismo implícito, Person causou estranheza com essa árida ambientação retratada em preto e branco. Para usar uma expressão típica da época, a crítica estigmatizou-o como um filme : "sem pé, nem cabeça". Perdoem-me críticos, mas eu gosto...

Infelizmente, como fazer arte no Brasil é bastante difícil, Person que estava recém casado, e logo foi pai de duas meninas, precisou embarcar no mercado publicitário para ganhar dinheiro. Logo de cara, em 1969, já ganhou um prêmio por um comercial de bastante sucesso que realizou, para uma rede de loja de pneus.


Person voltou a atuar como ator, em 1970, inserido no filme, "Audácia", de Antônio Lima e Carlos Reichenbach, e concomitantemente garantiu-se financeiramente como diretor de comerciais para a TV, até que em 1972, ele soube que o seu filme, "O Caso dos Irmãos Naves" estava a angariar um tremendo sucesso em recentes exibições na cidade de Nova York. Animado, viajou para lá e com o roteiro de um novo filme em mãos, que estava pronto desde 1967, "A Hora dos Ruminantes". Não deu certo, infelizmente, essa tentativa, mas ao menos os norteamericanos impressionaram-se com "O Caso dos Irmãos Naves", ainda que tardiamente. Em 1973, finalmente ele lançou um novo longa metragem : "Cassy Jones, o Magnífico Sedutor".
Nos compêndios de cinema, "Cassy Jones, O Magnífico Sedutor" é geralmente rotulado como uma "pornochanchada dos anos setenta". Sim, existe o elemento sensual / erótico no filme, mas ao meu ver, o filme vai muito além disso. Em minha humilde opinião, existe elementos anárquicos nesse filme, que muito o aproximam de trabalhos de diretores estrangeiros como Roger Vadim e Al Ashby.

Nesses termos, "Cassy Jones" dialoga com "Barbarella" e "Ensina-me a Viver", só para citar um trabalho de cada um dos diretores internacionais, que eu citei. A crítica não entendeu e infelizmente diminuiu a importância do filme à época. E digo de novo : eu gosto...

Person continuou a trabalhar com comerciais e a dividir-se em aulas de cinema que ministrava e produções teatrais, mas infelizmente, no início de 1976, ele sofreu um acidente automobilístico, que ceifou-lhe a vida, ocorrido na rodovia Régis Bittencourt, que liga São Paulo a Curitiba e Porto Alegre.


Ele Deixou duas filhas pequenas, que anos depois tornaram-se apresentadoras famosas na TV, e ambas a militar no mundo do cinema, e produção audiovisual em geral como seu pai, ao honrar o DNA da família, representadas por Marina e Domingas Person.

Lamento muito que o ótimo Person, não esteja mais entre nós, não apenas pela óbvia falta que faz, como pessoa, ao ter ido para o "outro lado", tão cedo (ele morreu um mês antes de completar quarenta anos de idade), entretanto, também por não ter produzido tanto quanto desejar em sua carreira, vítima do descaso absoluto que o Brasil tem por seus artistas, mas não vou estabelecer aqui o discurso óbvio, neste momento, sobre o que penso sobre a forma com a qual lida-se com a educação e cultura neste país. Prefiro afirmar que Luiz Sérgio Person foi um tremendo diretor de cinema; ator; roteirista; produtor; agitador cultural; homem de teatro; TV; cinema; mundo publicitário; professor etc. E claro, eu recomendo com ênfase os seus filmes, que citei ao longo desta matéria.



Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, e republicada na Revista Eletrônica Cinema Paradiso, número 347, ambas em 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Filme : Viagem aos Seios de Duília - Por Luiz Domingues



Para os não muito familiarizados com a história do cinema brasileiro, um filme com o título : "Viagem aos Seios de Duília", pode remeter à ideia em tratar-se de uma pornochanchada dos anos setenta, mas na verdade, tal obra passa muito longe dessa classificação. Pior ainda seria imaginar tratar-se de um nome de uma banda "indie", dessas que certos críticos empertigados adoram incensar, mas cujo hype não dura mais que quinze minutos, e convenhamos, tal metragem de tempo mostra-se até demasiada, visto que na maioria das vezes, observa-se a profunda ruindade artística desses elementos.

Carlos Hugo Christensen, foi um cineasta argentino que radicou-se no Brasil ao final dos anos cinquenta e aqui montou uma bela carreira, na verdade a dar continuidade ao bom trabalho que realizara em seu país natal, anteriormente.
Em 1964, ao basear-se em um conto escrito por Aníbal Machado, eis que ele realizou para as telas de cinema, "Viagem aos Seios de Duília", um filme que capturou algo além da sensibilidade expressa no conto, ao buscar no retrato de um homem amargurado, um estrato pungente sobre a questão do tempo perdido.  O homem em questão, é José Maria (interpretado por Rodolfo Mayer). Ele é um funcionário público austero e a viver os seus últimos dias na repartição federal, a um passo da aposentadoria compulsória.
Sua vida resumiu-se em cumprir as suas obrigações profissionais e manter-se modestamente, sem maiores ambições pessoais. Solteiro, vive aparentemente sob resignação em respeito de sua solidão contumaz, sem contudo que isso significasse uma misoginia assumida. Durante os anos que passaram-se, ele nutrira aqui e ali, vontade de em aproximar-se de uma mulher e ter enfim uma companheira que abrisse-lhe a oportunidade para constituir a sua própria família e possuir assim, um estilo de vida igual ao de seus colegas de repartição, todavia, algo internamente segurava-o ao passado longínquo de sua adolescência vivida em um remoto rincão do interior do país.
Uma festa é improvisada durante o seu último dia de trabalho na repartição, contudo, os seus vínculos ali construídos mostravam-se  meramente formais e não houve portanto, uma grande comoção de sua parte, tampouco dos seus colegas. Durante trinta e seis anos, José Maria apenas costumava chegar; bater o ponto; trabalhar o período do seu expediente; dizer : "até amanhã" e sair, ao consumar uma rotina mecânica, entediante. Um pequeno gesto de afago moral, da parte de uma colega de trabalho, pareceu ter outro significado, todavia.
Adélia (Natália Timberg), entrega-lhe um presente de despedida, que sob um vislumbre efêmero, soa-lhe como uma espécie de abertura para uma aproximação, entretanto, fora apenas um ato de coleguismo profissional e José Maria vai para a sua casa inteiramente frustrado, mais uma vez. Sem a rotina de trabalho, José Maria entra rapidamente em uma fase a demonstrar desespero em torno de seu vazio existencial. Ficar o dia inteiro trajado com pijamas dentro de casa, trouxera-lhe a perspectiva de confrontar o enorme vazio de sua vida, agora sem subterfúgios. José Maria passa por momentos angustiantes doravante, sem a distração que o trabalho burocrático proporcionava-lhe. Agora ele é uma peça fora da engrenagem, sem utilidade alguma para o sistema e só resta-lhe esperar a morte sentado, em sua modesta residência.
Então, ele toma uma atitude mais incisiva, quando percebe que definhará, caso não lute e assim, aceita o convite de um colega para visitar um "Night-Club", que naquela época era popularmente chamado como : "inferninho". Sem nenhum traquejo para frequentar tais lugares, ele apenas atrapalha as paqueras do colega, pois nem sabe lidar com as mulheres, ainda mais ao tratar-se de mulheres muito mais jovens e assim, ele sente-se um defasado senhor fora de moda. Pois, o que fazer para dar um sentido à vida, doravante ? Foi quando mediante uma epifania, José começou a lembrar-se de um tempo onde teve um amor quase correspondido, ou pelo menos ele interpretara dessa forma.
Em suas remotas lembranças, havia uma garota por quem apaixonara-se. Ambos eram muito jovens e infelizmente as suas juras de amor que estabeleceram, esbarraram no fato concreto de que não tinham independência financeira, tampouco maturidade o suficiente para assumir uma relação estável. Porém, fora um sentimento puro, verdadeiro e muito intenso. Tão forte, que criou uma raiz, ao perdurar sob um longo hiato criado pela separação inevitável. Ele não teve outra alternativa na ocasião, ao ter que deixar a distante cidade onde vivia e nesses termos, batalhar pela sua subsistência no Rio de Janeiro.
E preocupado em manter-se, seu sonho foi esmagado pela realidade, ao embotar-se. Por ter sido obrigado a viver sob tal rotina que o limitou, envelheceu e aceitou com amargura o fato de que a tal moça, chamada, Duília, fora apenas uma paixão juvenil. Todavia, a vida passou, e José Maria nunca conseguiu relacionar-se com outra mulher ao ponto em que, agora, estava aposentado e a viver em uma casa suburbana e vazia. Eis que sob um ímpeto incomum aos seus padrões recatados, ele toma enfim a decisão de lutar pelo seu amor juvenil.
Uma imagem nunca saíra-lhe da sua mente nesses anos todos : Duília, sob um rompante ato a denotar amor e certamente a revelar-se algo impensável para o início do século XX, em uma pequenina cidade interiorana, mostrara-lhe os seios desnudos. Em seu imaginário, essa fora a vivência mais erótica de sua vida e agora ele daria tudo para resgatar esse amor.
Como estaria Duília ? Poderia estar viúva, quem sabe ? Ou até mesmo ter ficado solteira como ele e nesses termos, essa seria a oportunidade para ser feliz, enfim. Em sua mente, esse pensamento começou a ficar obsessivo. Duília e a sua beleza infanto-juvenil; as juras de amor; o contato físico pudico daquela época e a explosão erótica, ante a visão de seus seios nus. Por martelar pesadamente em sua imaginação, essa imagem forneceu-lhe o ímpeto que jamais tivera em toda a sua vida subserviente : nada o impede em ir à sua cidade natal e procurar por Duília ! Nessa parte do filme, é incrível a condução de Carlos Hugo Christensen. A viagem é retratada como uma saga épica, porque o é assim para José Maria, embora seja ao espectador, uma viagem triste; morosa e plena de dificuldades.
Nessa ambiguidade, Christensen comove-nos, pois José Maria faz um esforço inimaginável para poder chegar. Ao usar vários meios de transporte, pois não havia acesso direto para um lugar tão longe do Rio de Janeiro, José Maria pulsa junto com as adversidades, sob um rítmo que faz com que acreditemos que ele finalmente encontrou a força dentro de si. Sensacional também é a trilha sonora incidental, onde nesse percurso sofrido, o barulho do vento que sopra-lhe, parece verbalizar o nome : "Duília", literalmente.
Uma genial ideia de Christensen, que parece evocar algo fantasmagórico, talvez um "banshee" irlandês no meio da terra vermelha, em pleno interior do Brasil. Finalmente, José Maria chega à Pouso Triste, a remota cidade. Nada mudou naquele lugar, parado no tempo e no espaço. O coração pulsa cada vez mais rápido; a garganta asfixia-se, o suor umedece-lhe as têmporas... e então, o encontro acontece... José Maria encontra-se com Duília, mas o encontro é um momento constrangedor para ambos.
Foi-se o viço da juventude, mas muito pior que os sinais do tempo que ambos ostentam em seus semblantes, é a constatação de que quarenta anos constituiu a aniquilação do sentimento de outrora. Em um vislumbre da realidade, desmoronou-se a expectativa de José Maria, ao deparar-se com o fato de que aquele momento pueril vivido há quarenta anos atrás, jamais repetir-se-ia.
Vidas separadas e construídas sob outros parâmetros, tratou por fazer daquele fugaz momento sensual do passado, apenas a lembrança de uma chama, com a durabilidade efêmera semelhante a de um palito de fósforo aceso. Um diálogo formal sobre o casamento de Duília (interpretada por Licia Magna, quando mais velha), a comentar sobre filhos e netos, encerrou melancolicamente para José Maria, a sua última esperança em ser feliz. Mesmo assim, eis que sob a expectativa de um ato impensado, dá-se a entender que Duília vai ceder, mas fora apenas um ímpeto, imediatamente sufocado pelo recato.
Segue-se planos oníricos, a evocar lembranças do passado e o elo com a tormenta da realidade, tratou por nunca deixar acontecer de fato, ou seja, a consumação da paixão. Frustração... uma vida desperdiçada e irremediavelmente perdida para a melancolia atroz. A única perspectiva doravante, será a sobrevivência burocrática, até onde o fluxo da vida determinar que José Maria tome a última xícara de café de sua existência, em sua cozinha simplória e vazia. É triste, sem dúvida, mas como obra de arte é dilacerante, para arrancar das entranhas do personagem, facetas do ser humano que não gostamos, mas que existem, infelizmente.
Rodolfo Mayer era na ocasião dessa produção, um ator veterano, egresso do teatro e das radionovelas, com poucas, mas boas participações nos primórdios do cinema brasileiro, desde a década de trinta. Com o advento da TV, atuou bastante em novelas, principalmente nos anos sessenta e setenta, quando ficou mais famoso, naturalmente. Nesse filme, ele teve atuação excelente, ao elaborar com a sua bagagem, uma dramaticidade exemplar. Mesmo com um escritor do quilate de Orígenes Lessa, sendo responsável pelos diálogos (o que foi um luxo para a produção desse filme), Mayer não apoiou-se somente no bom script que tinha em mãos, tampouco na segurança de Carlos Hugo Christensen, como diretor. Mayer, na verdade, foi além e compôs o personagem, "José Maria", com uma expressão física que diz muito ao espectador da obra.  É infelizmente uma obra circunscrita a um fechado mundo de fãs e talvez seja difícil para achar-se na Internet, mas já foi exibido com regularidade no Canal Brasil, anos atrás (nada contra a grade atual - 2013 - cheia de programas, mas confesso que gostava mais quando essa emissora exibia predominantemente filmes clássicos e obscuros, da cinematografia brasileira). Recomendo essa obra do grande diretor, Carlos Hugo Christensen, pois enxergo em sua constituição, uma das mais contundentes experiências do cinema brasileiro, em exprimir sentimentos viscerais.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Filme : São Paulo S/A - Por Luiz Domingues



"Cinquenta anos em cinco", foi o que o presidente, Juscelino Kubitschek costumava afirmar ao referir-se sobre o seu mandato, ao estabelecer uma alusão ao impulso desenvolvimentista que o Brasil ganharia com a introdução da indústria automobilística no Brasil. Sem dúvida que essa iniciativa trouxe progresso em muitos aspectos, mas trouxe a reboque, diversos malefícios também, fora o fato de que, sim, o Brasil cresceu, mas muito aquém do exagerado slogan de seu governo.

            São Paulo S/A : assista a versão integral do filme 

E foi dentro dessa perspectiva socioeconômica, que o jovem cineasta paulistano, Luiz Sérgio Person construiu o seu primeiro longa-metragem, denominado : "São Paulo S/A". Logo na primeira cena, Person já arrebata-nos. Do lado de fora de um prédio ao estilo da classe média, localizado no centro de São Paulo, vemos um casal a discutir dentro de um apartamento residencial.
Não ouvimos o diálogo, apenas observamos a briga e no ápice, o rapaz quebra objetos e sai de casa transtornado, para deixar a moça em prantos. Essa perspectiva silenciosa inicial, sucinta inúmeros questionamentos. Seria um casal ? Por quê brigaram ? Onde isso vai levar na trama do filme ?
Ecos Hitchcockianos óbvios logo de início, embora na biografia de Person, isso não seja citado com ênfase. Ele era um entusiasta do cinema italiano, principalmente, e talvez o mestre do suspense, não tivesse influenciado-lhe fortemente, mas convenhamos, essa primeira cena evoca tal suspeita. O sujeito transtornado é Carlos, interpretado por Walmor Chagas, sob um de seus melhores (senão o melhor), papéis no cinema.
A sua jovem esposa é Luciana, interpretada por Eva Wilma e a briga era mais uma entre tantas que o casal travava, pela insatisfação dela perante o comportamento de seu marido, que insistia em fugir ao padrão tradicional da família classe média daquele período.
Carlos tem amantes, mas não é nem pela vida dupla (no caso tripla), que leva, mas pelo fato de que não trata-se de um hedonista pura e simplesmente. O personagem vive sob pressão o tempo todo e nem o prazer carnal, dividido com várias mulheres, o satisfaz. A sua inquietude é profunda e reflete o massacre da sociedade que deixa o homem mediano acuado, sem perspectivas e pior que tudo, derrotado diante dessa engrenagem.
Carlos é recém formado em desenho industrial e acaba de ser admitido na Volkswagen, uma empresa sólida, gigante no mercado. Ele casou-se com Luciana (Eva Wilma), apenas para cumprir o roteiro esperado de um jovem típico da classe média que forma-se na faculdade e constituiu uma família.
E ela, idem (apesar de "trabalhar fora", algo incomum para a época, como professora de inglês), ao seguir o padrão da típica "menina de família", mas a sua frustração é diferente em relação ao Carlos, pois não apresenta a mesma inquietude que atormenta o rapaz em relação à sua crise existencial.
Isso intensifica-se, com as cenas onde aparecem as amantes de Carlos (Ana, interpretada por Darlene Glória e Hilda , vivida por Ana Esmeralda). No caso de Carlos, se nem o prazer sexual o supre inteiramente, a sensação de vazio o consome.
Ele conhece então o empresário italiano, Arturo (interpretado por Otello Zeloni), que prospera vertiginosamente no ramo de autopeças, sinal de que a indústria automobilística girava a economia paulista naquele momento marcado pela grande euforia do desenvolvimento industrial. Carlos larga o emprego na Volkswagen e vai trabalhar como gerente de Arturo, na loja de autopeças. Só que Arturo é um tremendo sonegador de impostos e muito da sua prosperidade acintosa vem dessa falcatrua contábil...
Luciana é ambiciosa e ingênua ao mesmo tempo. Acha Arturo um exemplo de homem bem sucedido a quem Carlos deveria imitar, o que o deixa ainda mais deprimido. Carlos entra em uma crise e nada mais dá-lhe esperanças. O massacre da grande cidade, via sociedade de consumo desenfreado, atormenta-o.
São incríveis as cenas dele a caminhar de forma atordoada por ruas do centro de São Paulo, para extravasar essa angústia indissolúvel.
Person estudou cinema na Itália (Centro Sperimentale de Cinematografia de Roma), e é claro que absorveu muito do neo-realismo italiano e do estilo introspectivo de cineastas do pós-realismo. Visconti; Antonioni e Zurlini, sem dúvida, impressionaram-lhe.
Em São Paulo S/A, Person soube trabalhar essas influências múltiplas de uma forma muito convincente. A dor existencial do personagem, Carlos, reflete-se em seu estômago, para consumi-lo. A força motriz do filme baseou-se nessa emoção angustiante e convenhamos, Walmor Chagas contribuiu muito com o sucesso do filme, através de sua interpretação, que é notável.
Considero o filme, São Paulo S/A, uma obra extraordinária, por todos esses elementos que descrevi, no campo da estética cinematográfica, mas é também um filme a conter virtudes técnicas. A fotografia PB é muito bonita (assinada por Ricardo Aronovitch); com trilha sonora muito boa de Cláudio Petráglia e edição de Glauco Mirko Laurelli.
Uma curiosidade anacrônica merece ser mencionada : há uma cena onde o casal, Carlos e Luciana vai ao cinema e vê-se um poster do filme : "Seven Days in May", do diretor norte-americano, John Frankenheimer. Ora, se o filme de Person dizia estar situado nos "anos JK", entre 1957 e 1961, como poderiam estar indo ver um filme que só seria lançado em 1964 ? Certamente a moça da continuidade distraiu-se e esqueceu de anotar esse "pequeno detalhe", no seu caderninho de anotações...
Mencionei isso apenas como um fato curioso, quiçá, engraçado, sem a menor intenção em desabonar a obra, deixo bem claro. Mesmo porque, eu o recomendo, sem reservas. Se não o viu, procure assisti-lo; se já o viu, cabe revê-lo !
Para a nossa sorte, Luiz Sérgio Person não parou por aí e realizou mais filmes com grande qualidade. Todavia, para o nosso azar, Person faleceu por conta de um acidente automobilístico nos anos setenta, com apenas quarenta anos de idade e para deixar a certeza de que brindar-nos-ia com muitos outros filmes dotados de muita intensidade, como São Paulo S/A. C'est La Vie, como diria o Greg Lake...