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sábado, 1 de dezembro de 2012

Vera Cruz, a Hollywood Tropical - Por Luiz Domingues


Imediatamente no período do pós-guerra, a efervescência cultural na cidade de São Paulo foi muito grande. Formou-se grupos teatrais; cine-clubes e museus que não paravam em abrir e agitar a pauliceia, sob uma profusão muito acentuada, onde muitas dessas ações continham a generosa participação financeira e do empenho de trabalho de pessoas tais como : Francisco Matarazzo Filho (o popular, "Ciccilo" Matarazzo); um importante empresário das comunicações, Assis Chateaubriand e Franco Zampari. Ciccilo estava empenhado na criação de museus, principalmente, ao dar maior ênfase às artes plásticas, sua paixão maior. Mas foi um entusiasta de outros ramos artísticos, também.
Tanto foi assim, que auxiliou o seu amigo de infância, Franco Zampari a fundar o TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, onde um polo de dramaturgia criou-se na cidade de São Paulo. Com a proximidade do advento da televisão no Brasil, graças aos esforços de Assis Chateaubriand e com apoio de Ciccilo, Franco Zampari percebeu que chegara o momento ideal para a realização de um outro sonho seu, ainda mais ambicioso.
Franco Zampari sonhava com a criação de uma companhia cinematográfica super estruturada, nos moldes dos grandes estúdios norteamericanos e europeus, ele sentiu esse momento borbulhante na cidade, com tantos indícios bons na área da cultura e comunicações, e assim lançou a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. A base artística para a Vera Cruz poder iniciar-se, Zampari já possuía, com o excepcional elenco de atores e diretores que atuavam nos palcos do TBC.
Com o apoio de Ciccilo, um importante passo foi dado na questão logística, com a cessão de um enorme terreno que pertencia à família Matarazzo, na cidade de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Ali funcionava uma granja que foi desativada e onde então construiu-se as instalações da Vera Cruz, com os galpões para a função de set de filmagens; salas de edição, oficinas de cenotécnica; camarins; salas de figurino e produção em geral etc.
Em novembro de 1949, estava sacramentada a ata inaugural da Cia. Cinematográfica Vera Cruz e já em 1950, as suas primeiras produções estavam prontas : "Painel" e "Santuário", dois documentários dirigidos por Lima Barreto.

E no mesmo ano, foi lançado o primeiro longa-metragem, "Caiçara", dirigido pelo ator / diretor italiano, Adolfo Celi, que também dirigia peças teatrais no TBC, com regularidade. Zampari contratou técnicos franceses; italianos e ingleses, em princípio. Nos primeiros tempos, teve também o apoio decisivo de Alberto Cavalcanti, um famoso diretor de documentários, com carreira construída na Inglaterra, onde era muito respeitado.
E todo o equipamento importado, foi o que houve de melhor sob o ponto de vista da tecnologia, naquela época. Logo no primeiro filme longa metragem, "Caiçara", a Vera Cruz mostrou o que seria a sua marca registrada, com filmes tecnicamente sofisticados, a buscar superar o padrão de estúdios mais antigos como a Cinédia e Atlântida, onde o rigor técnico não era tão valorizado.
Ao não economizar, no afã em ter qualidade no padrão de primeiro mundo, Zampari passou a pagar salário fixo e altíssimo ao elenco de atores, para seguir a tendência de estúdios norteamericanos. Ele providenciou também uma estrutura extra, fora do âmbito do set de filmagens, para garantir o glamour dos artistas, no imaginário do público, certamente a seguir o padrão yankee na promoção do negócio.
Outros êxitos de público e crítica sucederam-se : "Angela"; "Terra é Sempre Terra"; "Apassionata", "Veneno"... e eis que surgiu : "Tico-Tico no Fubá", cinebiografia do compositor, Zequinha de Abreu, autor da famosa música que dá título ao filme. Ao seguir a cartilha do cinema norteamericano, o filme é cheio de recursos estilísticos típicos das cinebiografias de artistas da música, como os norteamericanos costumavam realizar, com maestria.
Foi um grande sucesso, sem dúvida, com a participação dos atores, Anselmo Duarte e Tônia Carrero, como protagonistas.

A seguir, a Vera Cruz lançou duas comédias incríveis, para revelar o talento de Amácio Mazzaroppi, com : "Sai da Frente" e "Nadando em Dinheiro".
Outro grande sucesso, ambientado no Brasil colonial, "Sinhá Moça", foi lançado em 1953.
Sob uma produção frenética, em ritmo de produção industrial (e foi isso mesmo), lançou-se no mesmo ano, "A Família Lero-Lero", outra comédia muito boa.  "O Cangaceiro", de Lima Barreto, ganhou prêmios; prestígio entre os críticos e encantou o público.
"Uma Pulga na Balança" e "Esquina da Ilusão", foram mais duas comédias lançadas.

"Luz Apagada" foi um outro drama e trata-se de uma curiosa comédia dirigida por Ugo Lombardi (pai da atriz, Bruna Lombardi), chamada : "É Proibido Beijar". Tal filme causou um certo alvoroço na opinião pública, pelo tema abordado, ainda que fosse uma comédia romântica.
"Na Senda do Crime", um filme policial veio a seguir. Então, mais uma comédia sensacional de Mazzaroppi, chamada : "Candinho" (particularmente, é o meu filme predileto dessa fase dele, na Vera Cruz).
"Floradas na Serra" foi o único filme da carreira da grande atriz, Cacilda Becker (na verdade, ela esteve em outro, obscuro e produzido em 1947, mas para todos os efeitos, esse é o definitivo e isolado registro de seu talento, exibido no cinema). Inacreditável que uma atriz daquele quilate não tenha sido melhor aproveitada pelo cinema. É um grande filme, ambientado em Campos do Jordão / SP, com a história a girar em torno de pessoas internadas em uma clínica de recuperação para tuberculosos.
"São Paulo em Festa", foi o último documentário lançado pela Vera Cruz, dirigido por Lima Barreto. E os últimos longas, "Ravina", um thriller psicológico e "Macumba na Alta", uma comédia.
Depois disso, a Companhia Vera Cruz entrou em um processo de profunda crise, e encerrou atividades em 1958. Qual a razão de um estúdio desse porte, que produziu um material de qualidade artística indiscutível e a angariar sucesso de público e crítica, ter terminado dessa forma ?
Segundo pessoas ligadas à Vera Cruz, o que a prejudicou tremendamente foi o caótico acordo de distribuição, onde tornou-se refém desse elo da corrente do qual não tinha autonomia, pois ganhava apenas 40% da renda líquida das bilheterias obtidas nas salas de cinema. Zampari havia pensado em todos os detalhes, menos nesse aspecto, que era crucial para a continuidade financeira do estúdio, infelizmente, e assim não levou em conta tal dado vital, desde o início das atividades da Companhia.
Outro fator muito duro para a Vera Cruz, deu-se em torno das regras comerciais da época, pois o governo brasileiro pagava a diferença cambial da defasagem entre o dólar oficial e o paralelo, para os estúdios internacionais, ao fazer com que os distribuidores / exibidores desonerassem-se desse resíduo, portanto a preferir sempre exibir filmes estrangeiros, norteamericanos sobretudo, em detrimento da produção nacional.
Sendo assim, não houve meio da Vera Cruz continuar, lamentavelmente para o cinema brasileiro. Ficou o legado de grandes obras, com a parte técnica a observar muita qualidade e também a presença de grandes atores; técnicos, diretores e boas histórias filmadas.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu e republicada a seguir no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Mecenato de Ciccillo - Por Luiz Domingues



Tendemos sempre a valorizar a obra artística pelo viés do seu realizador. Ao artista, entrega-se os louros da vitória e consequentemente, da imortalidade. Contudo, não é apenas pela genialidade criativa do artista que nós dependemos para dar vazão à difusão cultural.
Uma séria de fatores e pessoas são importantes nesse processo e entre elas, a figura do mecenas, é fundamental. A palavra "mecenas" designa pessoas dotadas de posses e que usam suas fortunas pessoais para patrocinar artistas, ao dar-lhes o suporte financeiro para que possam dedicar-se à sua criação, ao máximo e mais que isso, promove e difunde a sua arte para o mundo.
A etimologia da palavra deve-se à existência de um cidadão romano que viveu no século I antes de Cristo, chamado : Gaius Cilnius Mecenas, e que por ter sido um homem agraciado com muitas posses e apaixonado pela beleza artística, usou o seu dinheiro e prestígio político para bancar poetas e pensadores de sua época, tais como Virgílio; Horácio e Propertius. Contudo, foi a partir da Idade Média que a figura do mecenas ganhou força e a instituição "mecenato", tornou-se sinônimo de amor a arte.
Francisco Antonio Paulo Matarazzo Sobrinho, nasceu em São Paulo, em 20 de fevereiro de 1898. Filho de Andrea Matarazzo, irmão do Conde Francesco Matarazzo. Desde a tenra idade, ganhou o apelido de "Ciccillo". Herdeiro de um império industrial, passou boa parte da infância e adolescência a estudar em bons colégios italianos e belgas.
De volta ao Brasil, assumiu parte das indústrias da família, mas independente de seu lado empresarial, era apaixonado por artes plásticas.  Sempre inserido nas rodas intelectuais formadas por professores da USP, traçou uma meta ousada junto ao crítico de arte, Sergio Milliet e o arquiteto, Eduardo Kneese de Mello : a criação de um museu de arte moderna na cidade de São Paulo.
Em contato com o empresário norteamericano, Nelson Rockfeller, estabeleceu um acordo de cooperação com o MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York e lança assim as bases para a criação do MAM, o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1948, lançou portanto, o estatuto oficial da instituição, em consonância com o museu novaiorquino e em 1949, ele foi inaugurado oficialmente, ao utilizar inicialmente, as instalações localizadas em um espaço na Rua 7 de abril, número 230, no centro de São Paulo, ao dividir o seu espaço com o também embrionário, MASP, Museu de Arte de São Paulo, que utilizava o mesmo endereço nessa época.
O MAM mudou-se enfim para um espaço exclusivo, em 1958, em um pavilhão dentro do Parque do Ibirapuera. Ainda ao final dos anos quarenta, ao lado de seu amigo de infância, Franco Zampari, criou o TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, importantíssimo espaço no coração do bairro do Bexiga, onde revoluciona o teatro paulista e brasileiro. E dentro do TBC, ajudou decisivamente Franco Zampari a criar a Vera Cruz, uma companhia de cinema com planos ambiciosos, no sentido de seguir o padrão hollywoodiano de produção cinematográfica.Pois então, construiram estúdios em São Bernardo do Campo / SP, adquiriu-se equipamento norteamericano de ponta e contrataram técnicos europeus experientes, além da nata dos atores do teatro brasileiro para o seu elenco.



Simultaneamente, Ciccillo não mediu esforços para realizar em São Paulo, a Bienal de Arte, nos moldes da Bienal de Veneza. Realizou a primeira Bienal em 1951, ainda a utilizar o MAM como fomentador, mas logo a seguir criou a Fundação Bienal, que passou a ser a gestora da Bienal, aliás, até hoje. Por ocasião dos festejos do IV Centenário da Cidade de São Paulo, em 1954, Ciccilo foi o presidente da Comissão Organizadora dos festejos e participou ativamente da criação do Parque do Ibirapuera e para tanto, na contratação do arquiteto, Oscar Niemeyer, que fez todo o projeto das edificações.


Em 1963, o MAM é doado à USP, e recentemente, 2011, voltou ao Parque, agora a utilizar as amplas instalações que foram usadas pelo Detran, por décadas.  Ciccillo deixou a presidência da Fundação Bienal em 1975 e faleceu dois anos depois, em 1977.


Seu dinheiro e seu tempo foram muito bem gastos e certamente o prazer que teve em fazer tanto pela arte e cultura, foi o seu retorno, com lucro incalculável.
Foi um mecenas exemplar, desses que lamentamos a falta.



Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012