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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Filme: Lisztomania - Por Luiz Domingues

Ken Russell, como é bem sabido, foi o diretor mais Rocker do cinema britânico, mesmo ter sido ele em pessoa, um Rocker propriamente dito. E também ficou marcado decisivamente por duas características, a citar-se: o seu estilo cinematográfico absolutamente delirante, baseado no sentido de usar e abusar dos devaneios oníricos e o seu apreço pela música em geral. 
 
No campo da música, o fato de eu ter mencionado que Russell tenha sido um cineasta Rocker por excelência, não significa em essência que ele tenha tido o Rock como como uma hipótese sequer, no entanto, a minha intenção foi enfatizar a sua forma para contar uma história cinematográfica, que nas entrelinhas, denotaria uma postura Rocker. Russell sempre foi um entusiasta da música, o Rock incluso, no entanto, a sua maior predileção sempre se pendeu em torno de dois pilares fundamentais: a música erudita e a música folclórica, ou seja, a Folk Music. 
O diretor de cinema britânico, Ken Russell, em cena de seu espetacular documentário: "In Search of the English Folk Song" 
 
Como um apaixonado pela música erudita e a nutrir um interesse pelo assunto como um autêntico musicólogo para investigar as raízes mais longevas dessa escola musical, Russell estudou a música Folk europeia de uma forma geral e em específico, em relação à Inglaterra e Reino Unido como um todo, ao retroagir ao som dos celtas, druidas e de outros povos que ali viveram no período pré-cristão e ainda sob o domínio romano ou até antes disso. 
Na primeira foto, cena do filme: "The Music Lovers" e na segunda, de "Mahler", ambos dirigidos por Ken Russell
 
Por amar a música erudita, Russell trabalhou firme em transportar para as telas, a biografia de compositores importantíssimos e foi o que ocorreu por exemplo em “The Music Lovers”, filme lançado em 1970, a tratar da cinebiografia do extraordinário compositor russo, Piotr Ilitch Tchaikovski. Obra espetacular por excelência, já mostrou que Russell gostava de utilizar a farta presença das alegorias, dos delírios oníricos simbólicos e sim, a conter muitos exageros cênicos, é bem verdade. Pouco tempo depois, ele lançou, “Mahler”, a cinebiografia do hermético compositor tcheco, Gustav Mahler, e esta foi ainda mais exagerada, inclusive a enfatizar a questão judaica em conflito com o nazismo. 
Cena do filme: "Tommy" com o vocalista do "The Who", Roger Daltrey, a interpretar o protagonista homônimo
 
Russell mergulhou no Rock ao filmar a Ópera-Rock, “Tommy” obra do grupo britânico, The Who e simultaneamente, decidiu filmar mais uma cinebiografia de um músico e compositor da música erudita que muito admirava, desta feita a tratar-se do pianista virtuose/compositor e maestro, Franz Liszt. Ao aproveitar bastante a mesma estrutura com a qual filmara “Tommy”, Russell contou inclusive com a presença de Roger Daltrey, o famoso vocalista do The Who, como ator protagonista a viver o papel de Liszt. Ora, Roger era um cantor de Rock e não um ator com técnica para tal, e a sua atuação em “Tommy” fora um risco em termos cinematográficos e somente justificada pelo fato dele ser o cantor do The Who e dessa forma a estar plenamente acostumado a interpretar as canções de tal Ópera Rock nos shows regulares do The Who, desde 1969, quando esse álbum foi lançado. 
 
A aposta deu certo, no entanto, pois Roger mostrou desenvoltura e atuou muito bem, muito acima inclusive do que se esperava em termos de desempenho para um ator improvisado que não era profissional, na realidade e assim, foi automático o voto de confiança. Porém, não foi apenas isso, visto que Russell quis exatamente um Rocker famoso da vida real para passar a credibilidade que o roteiro apresentou ao retratar Liszt de uma forma nada usual. Isso por que o script que ele tinha mãos revelou-se perfeito para o seu estilo histriônico habitual e com margem para poder exagerar ainda mais. 
Qual foi a ideia? Bem, o ponto de partida foi enfatizar um aspecto da biografia de Franz Liszt que foi verdadeiro, sem dúvida, ao dar conta que por um fenômeno espontâneo ocorrido em sua vida e reforçado pelo fato de que não existia o marketing do mundo artístico em sua época e nem mesmo o conceito de Show business existia como o conhecemos hoje em dia, durante o transcurso da primeira metade do século XIX. 
Tal fenômeno deu-se no sentido que de uma forma completamente inesperada para os padrões da época, Liszt, por mostrar-se como um pianista virtuose em sua época, costumava atrair multidões em seus concertos e isso caracterizou a organização de extensas turnês para dar vazão à sua fama adquirida e, como um dado a mais e a revelar-se um fato inédito na história, há registros de que em suas apresentações, havia histeria da parte de seus fãs, notadamente as mulheres que o idolatravam. Na época, chegou-se a cunhar o termo “Lisztmomania”, para comentar tal fato inusitado. Primeiramente é preciso enfatizar que no ambiente de um recital de música clássica, ainda mais a tratar-se de uma performance solo ao piano e reforçado também pela completa inexistência de um equipamento de sonorização adequado para amplificar-se o som do instrumento a atingir toda a sala de espetáculos, nessa época, o silêncio absoluto a ser observado pela plateia fazia-se mister. Portanto, a existência de manifestações de frenesi em seus recitais, é considerado por muitos estudiosos da história da música, como a primeira reação a fomentar-se a figura de um  ídolo Pop da música, ao atrair a atenção para algo além da sua música em si.
Em suma, Russell centrou os seus esforços para montar uma história a retratar Liszt em sua época, o século XIX, sem transposição para a então atualidade do século XX, contudo a conferir-lhe a aura de um Rock Star e nesse caso, Roger Daltrey pareceu-lhe a escolha perfeita para o papel. Nesse aspecto, vê-se Liszt a atuar para plateias frenéticas, formada por garotas em predomínio e com muitos maneirismos do métier do Rock sessenta/setentista, incluso nos bastidores, com camarins forrados por outros artistas tão famosos quanto Liszt no panorama da música do século XIX, groupies insinuantes, aspirantes a artistas a pleitear ajuda, empresários, seguranças truculentos e bajuladores em geral, ou seja,  a parecer-se  exatamente  como o camarim de uma banda  de Rock das décadas  de sessenta e setenta  no século vinte.
Retrato do verdadeiro Franz List a ilustrar a sua biografia no Wikipedia  

Na vida real, Liszt foi discreto e absolutamente comprometido com a sua música. Independente dele ter sido um virtuose ao piano, o seu empenho foi no sentido para deixar uma marca como compositor. Em sua vida pessoal, não há o registro oficial de que tenha tido filhos e nem casado-se, mas ele teve pelo menos duas mulheres em sua vida, o que denota ter havido relações afetivas, no entanto, na biografia oficial, são arroladas como mulheres com as quais teve uma convivência, sem no entanto configurar-se um namoro que fosse. É bem verdade que no caso da princesa, russo-polaca, Carolyne Zu Sayn-Wittgesntein, houve uma tentativa de culminar em casamento, mas o fato é que a nobre era casada e mesmo separada de seu marido, precisava da aprovação do Papa para ter o seu casamento anulado e posteriormente poder casar-se novamente. Por uma intervenção do Czar russo, uma manobra foi feita para que documentos chegassem às mãos do Sumo Pontífice e daí, o pedido de anulação, foi negado. Nesses termos, Liszt não casou-se e logo a seguir, ele resolveu buscar a vida religiosa e assim tornou-se um abade.
No entanto, no filme, Russell apresentou o seu Liszt como um Rocker excêntrico (a lembrar Jerry Lee Lewis), e absolutamente devasso, ao manter muitas amantes, as moças citadas em sua biografia, incluso (e toda a história do envolvimento com o Papa foi encenada, só que de uma forma excêntrica, pode-se afirmar). Tudo isso ocorreu de uma forma bem exagerada a pintar a sua imagem como um Casanova, portanto. 
Há até o abuso absoluto nas alegorias exibidas, vide a profusão de cenas a envolver elementos sexuais, incluso a presença de falos por todos os lados e até gigantes em alguns casos, para enfatizar o suposto apetite sexual desmesurado que Liszt teria. Mais delirante ainda, mostra-se toda a construção da amizade entre ele, Liszt e o compositor alemão, Richard Wagner, de uma forma a distorcer bastante a realidade.
De fato, Wagner foi um protegido de Liszt, assim como houvera sido também os casos de outros então jovens compositores tais como: Hector Berlioz, Camille Saint-Saënz e Edvard Grieg entre outros. Entretanto, da maneira como foi encenada no filme, Liszt aparece como um artista convencido ao extremo (pelo menos em seu início), e em seus arroubos de estrelismo, ele destrata Richard Wagner, ao dirigir-se ao colega, então iniciante, como um jovem inconveniente que o perturba. Tanto foi assim, que na cena em que prontifica-se para tocar uma composição de Wagner em seu recital, para ajudá-lo, ele na verdade faz de tudo para ridicularizá-lo ao vivo, perante as suas fãs. Ele toca o tema, "Rienzi" (um trecho da ópera, "Rienzi der lezte der tribunen", de Richard Wagner), mas intercalado com a famosa peça infantil, “Chopstick Waltz” (que no Brasil é conhecido como “Bife”, um prosaico exercício usado para principiantes no aprendizado do piano), e certamente foi uma forma para humilhar, Wagner, que deixa o teatro inteiramente indignado com a atitude da parte de Liszt.  
A namorar a ex-esposa do Conde D’Agoult, Marie D’Agoult, é mostrada uma vida doméstica a conter filhos, três e que Liszt não teve, na realidade. A mais velha, chamada, Cosima, mostra-se ardilosa e demonstra claramente odiar o pai, tanto que quando Liszt anuncia que vai viajar à Rússia, a convite da princesa, Carolyn, há uma briga com Marie e nesse ínterim, Cosima deixa nas entrelinhas que odeia Liszt, pelo diálogo travado e logo a seguir explicita tal sentimento ao manipular um boneco feito à imagem de Liszt, com a clara intenção em praticar com tal brinquedo, o ritual macabro do Vodu.
A relação de Liszt com a princesa russa é mostrada de uma forma lisérgica, a lembrar muito os recursos que Russell usara em profusão no filme, “Tommy” e quero crer, a carregar ainda mais no erotismo, com mais insinuações sobre a volúpia sexual do compositor e até a envolver um tom pesado quando insinuou-se o decepamento de seu pênis, retratado como um membro descomunal para enfatizar a sua volúpia.
 
Uma vez em Dresden, na Alemanha, Wagner está empenhado em lutar em uma revolução local, mas Liszt está alheio ao conflito e apenas tenta compor, a ignorar as bombas e soldados a lutar por todos os lados. Wagner pede dinheiro à Liszt para fugir do conflito e em seguida, droga-o para vampirizá-lo, e certamente daí, a amizade entre os dois compositores fica definitivamente rompida (trata-se da referência histórica sobre a revolta de março de 1848, talvez o estopim mais primordial para a formação do nazismo, muitas décadas após).
Eis que o Papa entra em cena de uma maneira bem alternativa, digamos, e primeiro promete ajudar o casal, mas depois nega a permissão para que eles se casem, Em seguida, o Papa afirma que excomungará Liszt, se este não ajudá-lo. Ele deseja que Liszt vá à Alemanha com a missão em exorcizar Wagner, que tornara-se um emissário do Diabo. Pior ainda, Wagner tornara-se de fato um vampiro e cientista maluco ao estilo do Dr. Frankenstein, comandava uma seita de fanáticos a promover a ideia da supremacia racial e a revelar-se um duro golpe para Liszt, pois também seduzira a sua filha, Cosima, que seria agora a sua esposa e colaboradora de suas ideias abomináveis.
Liszt vai até lá e vê o castelo assombrado a conter tudo o que o Papa alertara existir. É interessante nesse ponto, como Russell homenageou o terror clássico ao usar clichês desse gênero a mostrar a pequena vila que cerca o castelo com moradores a viver uma vida supostamente normal, mas ao ser indagados por um forasteiro sobre o castelo, a mostrar-se apavorados com a simples menção da existência do castelo, como se não morassem tão próximos e não vivessem sob o perigo iminente. Uma vez ali dentro do castelo, Wagner o recebe bem, como um velho amigo, mas logo Liszt nota a loucura macabra ali existente. 
Surge o laboratório onde Wagner trabalha na criação de um Ser que seria o protótipo do Super Homem germânico perfeito, na figura do Deus Thor, da mitologia nórdica e um ícone da supremacia ariana. Wagner apresenta-se em meio a um grupo de crianças uniformizadas como a imitar as vestimentas do Superman dos quadrinhos da DC Comics, mas a dar a entender ser a juventude hitlerista e delirante, hipnotizada e certamente a citar o filósofo, Friedrich Nietzsche em torno de sua tese sobre o Super Homem, contida no seu livro: "Also Sprach Zarathustra". 
Wagner mostra-se como o próprio Hitler, completamente obcecado pelo seu delírio em torno da supremacia ariana como referência. Bem, o Deus Thor é revivido, mas mostra-se um perfeito idiota, mais interessado em embebedar-se. Uma luta terrível é travada, quando a lembrar a figura do professor Van Helsing, Liszt enfrenta Wagner, com este a representar o Conde Drácula. Cosima usa enfim o boneco de vodu com a imagem de Liszt e o tortura mediante agulhadas. “A Cavalgada das Valquírias” ecoa como trilha, um clichê óbvio para associar a música de Wagner ao nazismo.
Enfim, a luta chega ao clímax, com o castelo em ruínas, e Liszt a agonizar em meio a um piano em chamas. O ritual nazista intensifica-se com o surgimento de Wagner, doravante a assumir o corpo do monstro de Frankenstein, mediante a observação das feições faciais de Adolf Hitler (devidamente trajado com o uniforme da SS e com direito ao uso da suástica, logicamente). Ele lidera o seu exército formado por jovens fanáticos e uniformizados como Superman e mediante uma metralhadora com o formato de uma guitarra futurista, sai a metralhar os judeus pelas ruas e nesse quesito, Russell não poupou e usou mesmo a referência explícita desse suplício do holocausto. 
Liszt, ao sugerir-se estar em uma espécie de vida "post-mortem" aparece a tocar harpa, apoiado com uma pequena orquestra de cordas formada pelas mulheres que amou na vida, incluso a sua filha, Cosima, que aparece e a mostrar-se doce, nesse ponto a história. É sugerido que estejam no céu, a viver uma vida após a morte, mas mesmo assim, no céu de Ken Russell, as pilastras ao estilo grego que sustentam o solo sob as nuvens, são pênis estilizados. Liszt aparece a seguir como se estivesse a comandar uma nave espacial, que contém o formato de um órgão de tubos e cada mulher ocupa um tubo. Essa nave toma posição de ataque e sob um mergulho rasante, ataca a metralhar e liquidar Wagner/Frankenstein/Hitler. Fim do nazismo, ou melhor, do filme...
Bem, trata-se de um roteiro absolutamente delirante, descolado da verdade exposta na biografia de Franz Liszt, mas a seguir tópicos reais para apoiar-se. Mais delirante ainda foi a estética usada por Russell, com o filme a parecer uma viagem proporcionada pela ingestão de um ácido lisérgico, literalmente. Nesse aspecto, é divertida a abordagem completamente nonsense a abusar das alegorias, mas é claro que os fãs da música erudita e sobretudo de Franz Liszt execram tal abordagem. Aliás, eu conheço pessoas que por ser fãs do universo erudito, mas alheias à história do cinema, assistiram os vários filmes de Ken Russell a tratar de cinebiografias de artistas desse campo, e ficaram horrorizadas. “Mahler” e “Lisztomania”, sobretudo, são considerados por tais pessoas, inclusive, como abominações. Entendo tal ponto de vista, certamente, mas Ken Russell era isso aí, portanto, uma pessoa pouco preparada para entender tal universo mais livre, realmente tende a considerar ofensiva a proposta do diretor. Quem conhece Ken Russell, na verdade sabe bem o quanto ele amava a música erudita, à sua maneira.

Tal filme contém referências sutis ao filme anterior, de Russell, “Tommy”, embora em tese, não tenha nada, absolutamente a ver com a obra do The Who. Vê-se por exemplo, quando Liszt está a visitar o palácio da princesa Carolyn, várias imagens com santos católicos em painéis e um deles é o retrato do guitarrista do The Who, Pete Townshend. Ringo Starr faz o papel de um monge e posteriormente do próprio Papa, a usar botas de cowboy e em sua estola papal, ao invés das imagens de Jesus Cristo, santos & anjos, vê-se estrelas do cinema dos anos vinte e trinta do século XX. Rick Wakeman, o super tecladista do grupo orientado pelo Rock Progressivo, "Yes", além de assinar a trilha sonora e tocar brilhantemente as partes de piano e órgão em que Liszt aparece a tocar, caracterizou o Deus do Trovão, Thor. A sua vestimenta foi feita igual à da estilização do Super Herói da Marvel, Thor, para reforçar o caráter Pop. Ainda bem, a cena em que atua é rápida e ele apenas limita-se a acordar, levanta-se de uma maca, urinar em uma lareira, soltar alguns grunhidos, beber chopp e arrota. Ou seja, como ator, não permitiu-se o desafio de ser testado, mas pelo pouco que fez, caricato ao extremo, deu para perceber que a sua vocação era mesmo para tocar teclados.
A trilha sonora é magnífica, certamente, a conter vários temas mais famosos de Liszt, alguns tocados com o rigor do arranjo original previsto em partitura e outros a observar arranjo moderno ao sabor do Rock setentista. Em alguns momentos, o Prog-Rock apresentado é muito bom e o tema final avança de um arranjo mais tradicional para um R’n’B sensacional. Inclusive a conter uma linha de baixo a chamar atenção e quando lê-se a ficha técnica do álbum que contém a trilha sonora desse filme, fica esclarecida a questão, pois foi o genial, Jack Bruce, quem gravou o baixo.
 
Temas como: “Liebstraum” (Love’s Dream), Hungarian Rhapsody Nº 14”, “Orpheus Song”, “Hell”, “Excelsior Song”, Funerailles”e “Piece at Last”, são escutadas e note-se que todas as canções contém títulos alternativos em inglês para facilitar o entendimento mediante o seu álbum com a trilha sonora, mas logicamente a tratar-se de composições a conter títulos originais em alemão e não necessariamente tocados na íntegra, mas apenas a observar-se um enxerto de cada obra para adaptar-se ao padrão Pop e caber assim no disco e no filme. Há também a menção para as canções “Master Race” e “Rape; Pillage & Clap”, também adaptações de obras de Richard Wagner (e a seguir o mesmo raciocínio anterior).
Uma cena engraçada a retratar bastidores, mostra o camarim de um show de Liszt, com a presença de muitos compositores contemporâneos dele e que realmente estiveram em seu rol de amizades, como participantes da festa, mas a revelar subliminarmente as características de cada um. Chopin por exemplo, é mostrado fragilizado a tossir, pois morrera precocemente na vida real, vítima da tuberculose e a sua namorada que era um “Drag King”, chamada como, George Sand (na realidade, chamada como: Amandine Aurore Lucile Dupin), uma escritora que utilizava uma identidade masculina para impor-se como artista. O compositor, Hector Berlioz, apresenta-se bem efeminado e Gioachino Rossini, o grande compositor de óperas, como um comilão contumaz, para reforçar o estereótipo do italiano bonachão. Felix Mendelssohn é retratado como um velho, e uma piada é feita sobre a presença de Johann Strauss II, o “Rei da valsa”, a gerar a clássica confusão com a figura de seu pai, igualmente compositor, Johann Strauss. Eu posso imaginar o quanto Ken Russell divertiu-se em inserir e dirigir essa cena no filme, tamanha era a sua paixão pela música erudita.
Outra cena muito bonita dá-se quando o tema “Liebstraum” (Love Dream), é encenado como se fosse um vídeoclip desconectado do filme e a simular a cena de um filme de Charles Chaplin, chamado: “The Gold Rush” (“A Busca do Ouro”), lançado em 1925, onde as personagens de Carlitos (interpretado por Charles Chaplin) e Georgia (interpretada por Gloria Hale), atuam em uma cabana construída sob a neve. É de uma beleza comovente tal cena, pois teve a proeza de homenagear Liszt e Chaplin, dois gênios em campos e épocas diferentes na história da arte, simultaneamente. O fato desse belíssimo tema composto por Liszt ter no filme uma roupagem Rock, com a melodia entoada, mediante letra, pode chocar muitos fãs puristas do universo da música clássica, mas se analisado sem preconceito, ficou notório conter uma beleza ímpar e a mostrar-se perfeitamente palatável aos ouvidos mais acostumados à música Pop. 
A crítica, de uma forma até surpreendente, dada a loucura habitual perpetrada por Ken Russell em seus filmes, não foi impiedosa. “Lisztomania” até alguns elogios recebeu, apesar das inúmeras alegorias exageradas, distorções na história e as muitas insinuações sobre a música de Wagner atrelar-se ao nazismo. Um crítico chegou a dizer: “é a obra de um gênio demente”, ou seja, uma opinião ambígua. 
 
Sobre o elenco, como já disse, Roger Daltrey interpretou Franz Liszt e segundo consta na história, mais relaxado após concluir a sua atuação em “Tommy”, ele não relutou em atuar e a sua única preocupação foi em relação ao admitir não possuir nenhum trejeito para sequer simular tocar piano. Mas Russell e sobretudo Rick Wakeman, deram-lhe respaldo e não há em sua atuação ao fingir tocar piano, nada que o desabone e no caso de Liszt, na vida real este fora um virtuose, dono de uma técnica sobre-humana.
 
Os demais atores foram: Sara Kestelman (como a princesa Carolyn), Paul Nicholas, (como Richard Wagner) e este ator participara de “Tommy” e na vida real era/é também um bom cantor, O baterista dos Beatles, Ringo Starr (como o Papa), o tecladista do Yes, Rick Wakeman (como o Deus Thor), John Justin (como o Conde D’Agoult), Fiona Lewis (como Marie D’Algout), Veronica Quilliman (como Cosima Wagner), Nell Campbell (como Olga Janina), Murray Melvin (como Hector Berlioz), Andrew Faulds (como Johann Strauss II); Keneth Colley (como Frédéric Chopin), Andy Reilly (como Hans Von Büllow, este também um grande compositor e maestro que foi muito amigo de Liszt na vida real), e outros atores de apoio. 
As letras escritas para adaptar-se à versão Pop de certos temas, foram escritas por Jonathan Benson, Roger Daltrey e pelo próprio, Ken Russell. Sobre os músicos, além de Rick Wakeman, Roger Daltrey e Jack Bruce, a banda de Rick Wakeman que o acompanhava em sua carreira solo, fora do Yes, atuou, e tratou-se da: English Rock Ensemble.

Foi escrito e dirigido por Ken Russell e lançado em outubro de 1975. Por conta das muitas cenas a envolver insinuações sexuais (logo no começo do filme, Liszt está na cama com Marie D’Algout e o ritmo da prática sexual do casal é regido por um metrônomo, por exemplo), a exibição em canais de TV aberta ainda ao final dos anos setenta, foi prejudicada. Demorou para a censura afrouxar e ainda assim, o filme foi liberado para exibições às madrugadas, somente. Foi lançado em formato VHS nos anos oitenta e muitos anos depois, ganhou a sua versão em DVD. Na Internet, é difícil encontrar uma cópia na íntegra, mas apenas fragmentos do filme.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 326.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Filme: Tommy - Parte 2 - Por Luiz Domingues

Para falar sobre o filme em si, obviamente que chama a atenção a quantidade de cenas impactantes e a observar inúmeros significados implícitos. Por exemplo, a cena em que a mãe de Tommy, deixa-se levar por um delírio hedonista, foi uma referência ao próprio, The Who. Mediante um verdadeiro aquário composto por feijões a sair de um aparelho de TV, ela lambuza-se languidamente, a evocar o LP: "The Who Sells Out", lançado em 1967 (antes mesmo do "Tommy", portanto, na discografia do The Who), disco esse em que Roger Daltrey aparece na capa, retratado dentro de uma banheira, mergulhado em feijões.

 

Em outra cena, onde a mãe de Tommy, Nora Walker (interpretada por Ann Margret), quebra o espelho, a atriz norte-americana cortou-se verdadeiramente por conta da ação filmada no set. A filmagem foi interrompida e Ann foi levada às pressas para um hospital de Londres, onde teve que submeter-se a vinte e sete pontos nas mãos. E por falar em mais acidentes no set de filmagem, Roger Daltrey quase afogou-se na cena em que mergulha no mar, após a quebra do espelho. Uma equipe de mergulhadores contratados para a segurança do ator & cantor, teve trabalho para resgatá-lo.

Na cena de incêndio ocorrida no cais do porto, realmente o fogo alastrou-se e Ken Russell teve problemas com as autoridades em Southsea. E Roger Daltrey sofreu queimaduras reais, infelizmente.

Ann-Margret foi indicada ao Oscar de 1976, por esse trabalho e não venceu este prêmio, mas ganhou o "Globo de Ouro", outro prêmio importante no mundo do cinema. Jack Nicholson faz um pequeno papel, como um psiquiatra que tenta curar Tommy. Nessa sequência o método de cura usado, lembrou o "tratamento Ludovico" que fora mencionado por Stanley Kubrick, em : "A Laranja Mecânica".

Oliver Reed, interpretou o padrasto (Frank Hobbs), além de Robert Powell, também um outro ator britânico, que defendeu a personagem do pai de Tommy, Capitão Walker. Ambos os atores citados, tiveram as suas respectivas carreiras iniciadas na lendária produtora britânica, especializada em filmes de terror & ficção científica, Hammer. 

Oliver Reed já era consagrado e Powell ficaria bem famoso logo a seguir (em 1977), por viver o personagem, Jesus Cristo, no filme do diretor italiano, Franco Zeffirelli, aliás, uma das melhores versões da Paixão de Cristo, de todos os tempos. 

É claro, a cena da disputa entre Tommy e um campeão de Pinball (interpretado por Elton John), é espetacular. Mesmo não sendo um ator de ofício, toda a fantasia gerada na cena, combinou muito com o estilo exagerado de Elton em apresentar-se e por isso, ele desempenhou o seu papel com muita tranquilidade, em meio a uma fantasia estrambótica, não muito diferente das que ele costumava usar como figurino em seus shows nos anos setenta. 

O The Who, mas sem Roger Daltrey que encenava Tommy a jogar Pinball no palco, aparece a tocar também, na cena, como se fosse a banda de apoio de Elton, que canta, logicamente,  a canção, Pinball Wizard".

O guitarrista, Eric Clapton e o vocalista, Arthur Brown, aparecem na cena onde Tommy é levado a buscar uma cura milagrosa em um a igreja, onde a Deusa a ser venerada é Marilyn Monroe e novamente, Pete Townshend e John Entwistle, guitarrista e baixista do The Who, participam. 

A filha de Ken Russell, Victoria Russell, interpretou a ninfeta "Sally Simpson". O próprio, Ken Russell, aparece em uma cena onde diversos paraplégicos cadeirantes pedem ajuda ao Tommy transformado em Guru. É rápida a tomada e ele está sentado em uma cadeira de rodas e a usar um tapa-olho.

Paul Nicholas, outro ator britânico (Nicholas mantinha carreira como cantor Pop, igualmente, com relativo sucesso, aliás), que despontara nos anos setenta, fez o papel do primo sádico,  de Tommy, Kevin.

No filme posterior de Ken Russell, "Lisztomania", Nicholas interpretaria o papel do compositor  erudito alemão, Richard Wagner. 

E o baterista  do The Who, Keith Moon, interpretou um tarado tio "Ernie", que abusa do sobrinho, Tommy. Moon não era ator, mas o seu comportamento completamente enlouquecido no cotidiano, fez com ele sentisse-se bem à vontade para interpretar de uma forma perturbadora, digamos assim e convenhamos, ele já havia participado de outros filmes a interpretar lunáticos, como por exemplo, "200 Motels", que inclusive, também consta com a sua resenha disponível no arquivo deste Blog. 

 

A mencionar a música clássica, aliás, fanático pelo universo erudito, Russell introduz rápidas referências em Tommy. Trechos subliminares de obras de compositores tais como: Mahler, Delius e Bartok, são sutilmente introduzidos ao longo da película. 

 

Tina Turner oferece-nos um show de vocalização Soul, além da sua sensualidade quase ameaçadora que imprime à personagem da "Rainha do Ácido". Nos anais dessa produção, consta a informação que Mick Jagger, o cantor dos Rolling Stones, fora convidado anteriormente para interpretar tal personagem, mas o acerto ficara dificultado, pois ele teria exigido cantar mais que uma música e inclusive a introduzir canções de sua autoria, a quebrar a ideia do libreto do The Who e claro que isso foi vetado e assim, optou-se pela contratação de Tina Turner.

O filme foi um sucesso retumbante em termos de público. Rockers do mundo todo que idolatravam esse álbum do The Who, esperaram ansiosamente pela sua versão sob carga dramatúrgica, através do no cinema, portanto, foi um resultado mais do que previsto. A crítica, no entanto, dividiu-se. Alguns gostaram e outros reclamaram das cenas exageradamente alegóricas, ao tachar Ken Russell como um cineasta, histriônico. 

 

De fato, trata-se de uma colagem lisérgica, praticamente um delírio. Contudo, fora absolutamente proposital e dessa forma, esperar por uma outra resolução, teria sido inadequado, creio eu, diante da profusão de imagens provocadas pela música do The Who. Nesse caso, o exagero fez-se mister e para contrariar o dito popular, "mais foi mais", como uma necessidade premente. 

 

Algumas colocações foram até engraçadas pelo pedantismo expresso por certos críticos, como por exemplo quando um deles escreveu: "Uma pictorização decepcionante e estúpida da boa música do "The Who". Entretanto, muitos foram elogiosos a destacar-se: -"Pode ser o filme mais super produzido já realizado... é a última palavra da arte Pop".

No Brasil, o filme estreou em março de 1976. O meu primeiro contato com tal produção houvera sido ainda em 1975, quando eu tive a oportunidade de ler uma reportagem na Revista Pop, produzida pela editora Abril Cultural, a cobrir bastidores das filmagens (aliás, essa foi uma prática salutar da revista, que perpetrou tal medida com vários outros filmes interessantes dos anos setenta, ainda em fase de produção, ao despertar dessa forma, a curiosidade dos leitores e geralmente a tratar-se de produções com cunho contracultural em geral e geralmente envolvidos com o Rock, diretamente). 

 

Em janeiro de 1976, a propaganda oficial da estreia brasileira esteve estampada na contracapa da Revista: "Rock, a História e a Glória" e daí, eis que eu iniciei a contagem regressiva para o grande dia da estreia nas telas brasileiras.

Fui então com amigos assistir pela primeira vez, no sábado inicial da exibição em São Paulo, no Cine Gazeta da Av. Paulista. Extasiados pela profusão de imagens lisérgicas e emolduradas pela música maravilhosa do The Who, ficamos ali por três sessões seguidas. Saímos entorpecidos pela experiência proposta por Ken Russell e na esquina da Av. Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, havia um "Flipperama" (para quem conhece São Paulo, hoje em dia ali funciona um café), com dúzias de máquinas de Pinball, disponibilizadas aos seus clientes. 

 

Compramos fichas e totalmente cegos, surdos & mudos, após a carga lisérgica criada pelo The Who e transposta à tela por por Ken Russell, jogamos as bolinhas naquelas engenhocas e... bem, em meu caso eu não encontrei a mesma iluminação do Tommy a jogar e parei na primeira ficha perdida. Mas o impacto do filme... enfim, eis que até hoje emociona-me muito a saga do garoto cego, surdo & mudo, que encontra a sua verdade dentro de si. Tal chave é uma grande lição de vida e pouco importa se Pete Townshend e seus colegas, e nem mesmo a figura criativa e carismática de Ken Russell soubessem disso, deliberadamente. A esmo ou de forma proposital, a grande chave está ali, disponível para quem tiver olhos para enxergar; ouvidos para escutar e boca para falar. Portanto, cabe palmas para o The Who e palmas para Ken Russell! 

Ainda sobre o elenco, Roger Daltrey, o vocalista do The Who, mostrou um desempenho muito acima do esperado para um não ator de ofício, ao interpretar a personagem, "Tommy". Tanto foi assim, que Ken Russell convidou-o para que estrelasse o seu próximo filme, "Lisztomania", uma cinebiografia do compositor e pianista erudito do século dezenove, Franz Liszt. É bem verdade que essa escolha de Russell provavelmente foi baseada no fato de que o roteiro de "Lisztmania" previa retratar a vida de Franz Liszt a usar uma licença poética gigantesca, por sugerir que ele teria sido o primeiro Pop Star da história da música, em pleno século dezenove, mas a portar-se como se estivesse a viver nos anos setenta do século vinte, ou seja, a presença de Roger Daltrey como um Rock Star da vida real, seria perfeita para o papel. Entretanto, é claro que o convite não lograria êxito, caso o seu desempenho em "Tommy", não tivesse sido bom. Tanto foi assim, que Daltrey recebeu nomeação ao Globo de Ouro como ator revelação e mesmo que não o tenha vencido, a indicação pode ser comemorada como um grande triunfo em sua biografia pessoal.

Em termos de bilheteria, o filme arrecadou mais de dez vezes o orçamento gasto, portanto, para os padrões setentistas, foi considerado um êxito extraordinário do cinema britânico. 

Em termos de trilha sonora, foi alardeado à época que esse filme contaria com um com um novo sistema de áudio, absolutamente inédito até então, apresentado como "quintafônico". A ideia seria trazer um avanço ao sistema quadrafônico, que já era usado por algumas produções cinematográficas e estava a popularizar-se nessa época, pois a indústria de aparelhos de som estava a oferecer a novidade do som Hi-Fi caseiro, sob tecnologia quadrafônica para a venda ao público em geral. Tanto foi assim, que se tornou um sonho de consumo de muitos jovens Rockers, durante a metade/fim dos anos setenta, possuir aparelhos com tal potência sonora e distribuídos em quatro canais, onde teoricamente o efeito do tradicional sistema "stereo", fosse duplicado. Portanto, ouvir os discos do Rock Progressivo, a conter arranjos muito sofisticados, seria um deleite, com tanta informação sonora distribuída em quatro caixas, isoladamente a destacar minúcias gravadas em estúdio por seus artistas prediletos. 

 

Portanto, quando surgiu a ideia de um sistema que fosse além da possibilidade dos quatro canais, a sugerir o aperfeiçoamento da tecnologia, é claro que chamou a atenção de todos. No entanto, tal sistema de áudio distribuído em cinco fases, não prosperou, mesmo por que, se o som quadrafônico mal era percebido em salas de cinema equipadas para funcionar em sistema stereo e em muitos casos, até em mono, foi óbvio que investir em tal tecnologia tornou-se algo inviável.  Dessa maneira, bem rapidamente o filme foi relançado para funcionar no sistema tradicional, para evitar problemas e o alarde sobre ser dotado de sistema "quintafônico" ou "pentafônico", logo tornou-se descartado.

Sobre a parte musical, é preciso salientar que muitas mudanças foram feitas. Incluso a troca da posição das músicas em relação à ordem original do LP de 1969. Trocas de nomes de canções também ocorreram e uma delas foi inevitável, visto que a canção original, chamada "1921", teve que mudar para "1951", mas outras canções também passaram por modificações. E acrescente a isso, alguns trechos de letras para também acompanhar a opção em mudar-se a ação temporal da trama. Em relação ao som, também há mudanças significativas. O som original do The Who, no LP "Tommy", de 1969, é bastante rústico e na trilha sonora do filme, os arranjos ficaram mais robustos, com a inclusão de muitos teclados, naipe de metais, dobros de guitarras, violões e vozes de apoio. Gosto das duas versões, particularmente, embora tenda a considerar a versão clássica do The Who, mais crua, como mais genuína, logicamente.

Após o êxito obtido nas salas de cinema, "Tommy" ganhou muitas exibições na TV, em canais abertos e idem na TV a cabo. Ganhou versão teatral, nos anos noventa, com direito a vídeo e disco de uma trilha sonora específica, também. Foi lançado em versão VHS, relançado em DVD e Blu-Ray (a trilha sonora do filme também vendeu muito na época, em LP duplo e posterior relançamento em CD), e em termos de internet, na atualidade (2012), este filme é encontrado em muitos portais onde a inscrição via login, é obrigatória. No youtube, encontra-se fragmentos, apenas.

Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, e republicado no Site/Blog Orra Meu, ambos em 2012. Posteriormente, esta resenha foi revista, ampliada e unificada, para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" e está disponível em seu volume I, a partir da página 190.