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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Filme: Lisztomania - Por Luiz Domingues

Ken Russell, como é bem sabido, foi o diretor mais Rocker do cinema britânico, mesmo ter sido ele em pessoa, um Rocker propriamente dito. E também ficou marcado decisivamente por duas características, a citar-se: o seu estilo cinematográfico absolutamente delirante, baseado no sentido de usar e abusar dos devaneios oníricos e o seu apreço pela música em geral. 
 
No campo da música, o fato de eu ter mencionado que Russell tenha sido um cineasta Rocker por excelência, não significa em essência que ele tenha tido o Rock como como uma hipótese sequer, no entanto, a minha intenção foi enfatizar a sua forma para contar uma história cinematográfica, que nas entrelinhas, denotaria uma postura Rocker. Russell sempre foi um entusiasta da música, o Rock incluso, no entanto, a sua maior predileção sempre se pendeu em torno de dois pilares fundamentais: a música erudita e a música folclórica, ou seja, a Folk Music. 
O diretor de cinema britânico, Ken Russell, em cena de seu espetacular documentário: "In Search of the English Folk Song" 
 
Como um apaixonado pela música erudita e a nutrir um interesse pelo assunto como um autêntico musicólogo para investigar as raízes mais longevas dessa escola musical, Russell estudou a música Folk europeia de uma forma geral e em específico, em relação à Inglaterra e Reino Unido como um todo, ao retroagir ao som dos celtas, druidas e de outros povos que ali viveram no período pré-cristão e ainda sob o domínio romano ou até antes disso. 
Na primeira foto, cena do filme: "The Music Lovers" e na segunda, de "Mahler", ambos dirigidos por Ken Russell
 
Por amar a música erudita, Russell trabalhou firme em transportar para as telas, a biografia de compositores importantíssimos e foi o que ocorreu por exemplo em “The Music Lovers”, filme lançado em 1970, a tratar da cinebiografia do extraordinário compositor russo, Piotr Ilitch Tchaikovski. Obra espetacular por excelência, já mostrou que Russell gostava de utilizar a farta presença das alegorias, dos delírios oníricos simbólicos e sim, a conter muitos exageros cênicos, é bem verdade. Pouco tempo depois, ele lançou, “Mahler”, a cinebiografia do hermético compositor tcheco, Gustav Mahler, e esta foi ainda mais exagerada, inclusive a enfatizar a questão judaica em conflito com o nazismo. 
Cena do filme: "Tommy" com o vocalista do "The Who", Roger Daltrey, a interpretar o protagonista homônimo
 
Russell mergulhou no Rock ao filmar a Ópera-Rock, “Tommy” obra do grupo britânico, The Who e simultaneamente, decidiu filmar mais uma cinebiografia de um músico e compositor da música erudita que muito admirava, desta feita a tratar-se do pianista virtuose/compositor e maestro, Franz Liszt. Ao aproveitar bastante a mesma estrutura com a qual filmara “Tommy”, Russell contou inclusive com a presença de Roger Daltrey, o famoso vocalista do The Who, como ator protagonista a viver o papel de Liszt. Ora, Roger era um cantor de Rock e não um ator com técnica para tal, e a sua atuação em “Tommy” fora um risco em termos cinematográficos e somente justificada pelo fato dele ser o cantor do The Who e dessa forma a estar plenamente acostumado a interpretar as canções de tal Ópera Rock nos shows regulares do The Who, desde 1969, quando esse álbum foi lançado. 
 
A aposta deu certo, no entanto, pois Roger mostrou desenvoltura e atuou muito bem, muito acima inclusive do que se esperava em termos de desempenho para um ator improvisado que não era profissional, na realidade e assim, foi automático o voto de confiança. Porém, não foi apenas isso, visto que Russell quis exatamente um Rocker famoso da vida real para passar a credibilidade que o roteiro apresentou ao retratar Liszt de uma forma nada usual. Isso por que o script que ele tinha mãos revelou-se perfeito para o seu estilo histriônico habitual e com margem para poder exagerar ainda mais. 
Qual foi a ideia? Bem, o ponto de partida foi enfatizar um aspecto da biografia de Franz Liszt que foi verdadeiro, sem dúvida, ao dar conta que por um fenômeno espontâneo ocorrido em sua vida e reforçado pelo fato de que não existia o marketing do mundo artístico em sua época e nem mesmo o conceito de Show business existia como o conhecemos hoje em dia, durante o transcurso da primeira metade do século XIX. 
Tal fenômeno deu-se no sentido que de uma forma completamente inesperada para os padrões da época, Liszt, por mostrar-se como um pianista virtuose em sua época, costumava atrair multidões em seus concertos e isso caracterizou a organização de extensas turnês para dar vazão à sua fama adquirida e, como um dado a mais e a revelar-se um fato inédito na história, há registros de que em suas apresentações, havia histeria da parte de seus fãs, notadamente as mulheres que o idolatravam. Na época, chegou-se a cunhar o termo “Lisztmomania”, para comentar tal fato inusitado. Primeiramente é preciso enfatizar que no ambiente de um recital de música clássica, ainda mais a tratar-se de uma performance solo ao piano e reforçado também pela completa inexistência de um equipamento de sonorização adequado para amplificar-se o som do instrumento a atingir toda a sala de espetáculos, nessa época, o silêncio absoluto a ser observado pela plateia fazia-se mister. Portanto, a existência de manifestações de frenesi em seus recitais, é considerado por muitos estudiosos da história da música, como a primeira reação a fomentar-se a figura de um  ídolo Pop da música, ao atrair a atenção para algo além da sua música em si.
Em suma, Russell centrou os seus esforços para montar uma história a retratar Liszt em sua época, o século XIX, sem transposição para a então atualidade do século XX, contudo a conferir-lhe a aura de um Rock Star e nesse caso, Roger Daltrey pareceu-lhe a escolha perfeita para o papel. Nesse aspecto, vê-se Liszt a atuar para plateias frenéticas, formada por garotas em predomínio e com muitos maneirismos do métier do Rock sessenta/setentista, incluso nos bastidores, com camarins forrados por outros artistas tão famosos quanto Liszt no panorama da música do século XIX, groupies insinuantes, aspirantes a artistas a pleitear ajuda, empresários, seguranças truculentos e bajuladores em geral, ou seja,  a parecer-se  exatamente  como o camarim de uma banda  de Rock das décadas  de sessenta e setenta  no século vinte.
Retrato do verdadeiro Franz List a ilustrar a sua biografia no Wikipedia  

Na vida real, Liszt foi discreto e absolutamente comprometido com a sua música. Independente dele ter sido um virtuose ao piano, o seu empenho foi no sentido para deixar uma marca como compositor. Em sua vida pessoal, não há o registro oficial de que tenha tido filhos e nem casado-se, mas ele teve pelo menos duas mulheres em sua vida, o que denota ter havido relações afetivas, no entanto, na biografia oficial, são arroladas como mulheres com as quais teve uma convivência, sem no entanto configurar-se um namoro que fosse. É bem verdade que no caso da princesa, russo-polaca, Carolyne Zu Sayn-Wittgesntein, houve uma tentativa de culminar em casamento, mas o fato é que a nobre era casada e mesmo separada de seu marido, precisava da aprovação do Papa para ter o seu casamento anulado e posteriormente poder casar-se novamente. Por uma intervenção do Czar russo, uma manobra foi feita para que documentos chegassem às mãos do Sumo Pontífice e daí, o pedido de anulação, foi negado. Nesses termos, Liszt não casou-se e logo a seguir, ele resolveu buscar a vida religiosa e assim tornou-se um abade.
No entanto, no filme, Russell apresentou o seu Liszt como um Rocker excêntrico (a lembrar Jerry Lee Lewis), e absolutamente devasso, ao manter muitas amantes, as moças citadas em sua biografia, incluso (e toda a história do envolvimento com o Papa foi encenada, só que de uma forma excêntrica, pode-se afirmar). Tudo isso ocorreu de uma forma bem exagerada a pintar a sua imagem como um Casanova, portanto. 
Há até o abuso absoluto nas alegorias exibidas, vide a profusão de cenas a envolver elementos sexuais, incluso a presença de falos por todos os lados e até gigantes em alguns casos, para enfatizar o suposto apetite sexual desmesurado que Liszt teria. Mais delirante ainda, mostra-se toda a construção da amizade entre ele, Liszt e o compositor alemão, Richard Wagner, de uma forma a distorcer bastante a realidade.
De fato, Wagner foi um protegido de Liszt, assim como houvera sido também os casos de outros então jovens compositores tais como: Hector Berlioz, Camille Saint-Saënz e Edvard Grieg entre outros. Entretanto, da maneira como foi encenada no filme, Liszt aparece como um artista convencido ao extremo (pelo menos em seu início), e em seus arroubos de estrelismo, ele destrata Richard Wagner, ao dirigir-se ao colega, então iniciante, como um jovem inconveniente que o perturba. Tanto foi assim, que na cena em que prontifica-se para tocar uma composição de Wagner em seu recital, para ajudá-lo, ele na verdade faz de tudo para ridicularizá-lo ao vivo, perante as suas fãs. Ele toca o tema, "Rienzi" (um trecho da ópera, "Rienzi der lezte der tribunen", de Richard Wagner), mas intercalado com a famosa peça infantil, “Chopstick Waltz” (que no Brasil é conhecido como “Bife”, um prosaico exercício usado para principiantes no aprendizado do piano), e certamente foi uma forma para humilhar, Wagner, que deixa o teatro inteiramente indignado com a atitude da parte de Liszt.  
A namorar a ex-esposa do Conde D’Agoult, Marie D’Agoult, é mostrada uma vida doméstica a conter filhos, três e que Liszt não teve, na realidade. A mais velha, chamada, Cosima, mostra-se ardilosa e demonstra claramente odiar o pai, tanto que quando Liszt anuncia que vai viajar à Rússia, a convite da princesa, Carolyn, há uma briga com Marie e nesse ínterim, Cosima deixa nas entrelinhas que odeia Liszt, pelo diálogo travado e logo a seguir explicita tal sentimento ao manipular um boneco feito à imagem de Liszt, com a clara intenção em praticar com tal brinquedo, o ritual macabro do Vodu.
A relação de Liszt com a princesa russa é mostrada de uma forma lisérgica, a lembrar muito os recursos que Russell usara em profusão no filme, “Tommy” e quero crer, a carregar ainda mais no erotismo, com mais insinuações sobre a volúpia sexual do compositor e até a envolver um tom pesado quando insinuou-se o decepamento de seu pênis, retratado como um membro descomunal para enfatizar a sua volúpia.
 
Uma vez em Dresden, na Alemanha, Wagner está empenhado em lutar em uma revolução local, mas Liszt está alheio ao conflito e apenas tenta compor, a ignorar as bombas e soldados a lutar por todos os lados. Wagner pede dinheiro à Liszt para fugir do conflito e em seguida, droga-o para vampirizá-lo, e certamente daí, a amizade entre os dois compositores fica definitivamente rompida (trata-se da referência histórica sobre a revolta de março de 1848, talvez o estopim mais primordial para a formação do nazismo, muitas décadas após).
Eis que o Papa entra em cena de uma maneira bem alternativa, digamos, e primeiro promete ajudar o casal, mas depois nega a permissão para que eles se casem, Em seguida, o Papa afirma que excomungará Liszt, se este não ajudá-lo. Ele deseja que Liszt vá à Alemanha com a missão em exorcizar Wagner, que tornara-se um emissário do Diabo. Pior ainda, Wagner tornara-se de fato um vampiro e cientista maluco ao estilo do Dr. Frankenstein, comandava uma seita de fanáticos a promover a ideia da supremacia racial e a revelar-se um duro golpe para Liszt, pois também seduzira a sua filha, Cosima, que seria agora a sua esposa e colaboradora de suas ideias abomináveis.
Liszt vai até lá e vê o castelo assombrado a conter tudo o que o Papa alertara existir. É interessante nesse ponto, como Russell homenageou o terror clássico ao usar clichês desse gênero a mostrar a pequena vila que cerca o castelo com moradores a viver uma vida supostamente normal, mas ao ser indagados por um forasteiro sobre o castelo, a mostrar-se apavorados com a simples menção da existência do castelo, como se não morassem tão próximos e não vivessem sob o perigo iminente. Uma vez ali dentro do castelo, Wagner o recebe bem, como um velho amigo, mas logo Liszt nota a loucura macabra ali existente. 
Surge o laboratório onde Wagner trabalha na criação de um Ser que seria o protótipo do Super Homem germânico perfeito, na figura do Deus Thor, da mitologia nórdica e um ícone da supremacia ariana. Wagner apresenta-se em meio a um grupo de crianças uniformizadas como a imitar as vestimentas do Superman dos quadrinhos da DC Comics, mas a dar a entender ser a juventude hitlerista e delirante, hipnotizada e certamente a citar o filósofo, Friedrich Nietzsche em torno de sua tese sobre o Super Homem, contida no seu livro: "Also Sprach Zarathustra". 
Wagner mostra-se como o próprio Hitler, completamente obcecado pelo seu delírio em torno da supremacia ariana como referência. Bem, o Deus Thor é revivido, mas mostra-se um perfeito idiota, mais interessado em embebedar-se. Uma luta terrível é travada, quando a lembrar a figura do professor Van Helsing, Liszt enfrenta Wagner, com este a representar o Conde Drácula. Cosima usa enfim o boneco de vodu com a imagem de Liszt e o tortura mediante agulhadas. “A Cavalgada das Valquírias” ecoa como trilha, um clichê óbvio para associar a música de Wagner ao nazismo.
Enfim, a luta chega ao clímax, com o castelo em ruínas, e Liszt a agonizar em meio a um piano em chamas. O ritual nazista intensifica-se com o surgimento de Wagner, doravante a assumir o corpo do monstro de Frankenstein, mediante a observação das feições faciais de Adolf Hitler (devidamente trajado com o uniforme da SS e com direito ao uso da suástica, logicamente). Ele lidera o seu exército formado por jovens fanáticos e uniformizados como Superman e mediante uma metralhadora com o formato de uma guitarra futurista, sai a metralhar os judeus pelas ruas e nesse quesito, Russell não poupou e usou mesmo a referência explícita desse suplício do holocausto. 
Liszt, ao sugerir-se estar em uma espécie de vida "post-mortem" aparece a tocar harpa, apoiado com uma pequena orquestra de cordas formada pelas mulheres que amou na vida, incluso a sua filha, Cosima, que aparece e a mostrar-se doce, nesse ponto a história. É sugerido que estejam no céu, a viver uma vida após a morte, mas mesmo assim, no céu de Ken Russell, as pilastras ao estilo grego que sustentam o solo sob as nuvens, são pênis estilizados. Liszt aparece a seguir como se estivesse a comandar uma nave espacial, que contém o formato de um órgão de tubos e cada mulher ocupa um tubo. Essa nave toma posição de ataque e sob um mergulho rasante, ataca a metralhar e liquidar Wagner/Frankenstein/Hitler. Fim do nazismo, ou melhor, do filme...
Bem, trata-se de um roteiro absolutamente delirante, descolado da verdade exposta na biografia de Franz Liszt, mas a seguir tópicos reais para apoiar-se. Mais delirante ainda foi a estética usada por Russell, com o filme a parecer uma viagem proporcionada pela ingestão de um ácido lisérgico, literalmente. Nesse aspecto, é divertida a abordagem completamente nonsense a abusar das alegorias, mas é claro que os fãs da música erudita e sobretudo de Franz Liszt execram tal abordagem. Aliás, eu conheço pessoas que por ser fãs do universo erudito, mas alheias à história do cinema, assistiram os vários filmes de Ken Russell a tratar de cinebiografias de artistas desse campo, e ficaram horrorizadas. “Mahler” e “Lisztomania”, sobretudo, são considerados por tais pessoas, inclusive, como abominações. Entendo tal ponto de vista, certamente, mas Ken Russell era isso aí, portanto, uma pessoa pouco preparada para entender tal universo mais livre, realmente tende a considerar ofensiva a proposta do diretor. Quem conhece Ken Russell, na verdade sabe bem o quanto ele amava a música erudita, à sua maneira.

Tal filme contém referências sutis ao filme anterior, de Russell, “Tommy”, embora em tese, não tenha nada, absolutamente a ver com a obra do The Who. Vê-se por exemplo, quando Liszt está a visitar o palácio da princesa Carolyn, várias imagens com santos católicos em painéis e um deles é o retrato do guitarrista do The Who, Pete Townshend. Ringo Starr faz o papel de um monge e posteriormente do próprio Papa, a usar botas de cowboy e em sua estola papal, ao invés das imagens de Jesus Cristo, santos & anjos, vê-se estrelas do cinema dos anos vinte e trinta do século XX. Rick Wakeman, o super tecladista do grupo orientado pelo Rock Progressivo, "Yes", além de assinar a trilha sonora e tocar brilhantemente as partes de piano e órgão em que Liszt aparece a tocar, caracterizou o Deus do Trovão, Thor. A sua vestimenta foi feita igual à da estilização do Super Herói da Marvel, Thor, para reforçar o caráter Pop. Ainda bem, a cena em que atua é rápida e ele apenas limita-se a acordar, levanta-se de uma maca, urinar em uma lareira, soltar alguns grunhidos, beber chopp e arrota. Ou seja, como ator, não permitiu-se o desafio de ser testado, mas pelo pouco que fez, caricato ao extremo, deu para perceber que a sua vocação era mesmo para tocar teclados.
A trilha sonora é magnífica, certamente, a conter vários temas mais famosos de Liszt, alguns tocados com o rigor do arranjo original previsto em partitura e outros a observar arranjo moderno ao sabor do Rock setentista. Em alguns momentos, o Prog-Rock apresentado é muito bom e o tema final avança de um arranjo mais tradicional para um R’n’B sensacional. Inclusive a conter uma linha de baixo a chamar atenção e quando lê-se a ficha técnica do álbum que contém a trilha sonora desse filme, fica esclarecida a questão, pois foi o genial, Jack Bruce, quem gravou o baixo.
 
Temas como: “Liebstraum” (Love’s Dream), Hungarian Rhapsody Nº 14”, “Orpheus Song”, “Hell”, “Excelsior Song”, Funerailles”e “Piece at Last”, são escutadas e note-se que todas as canções contém títulos alternativos em inglês para facilitar o entendimento mediante o seu álbum com a trilha sonora, mas logicamente a tratar-se de composições a conter títulos originais em alemão e não necessariamente tocados na íntegra, mas apenas a observar-se um enxerto de cada obra para adaptar-se ao padrão Pop e caber assim no disco e no filme. Há também a menção para as canções “Master Race” e “Rape; Pillage & Clap”, também adaptações de obras de Richard Wagner (e a seguir o mesmo raciocínio anterior).
Uma cena engraçada a retratar bastidores, mostra o camarim de um show de Liszt, com a presença de muitos compositores contemporâneos dele e que realmente estiveram em seu rol de amizades, como participantes da festa, mas a revelar subliminarmente as características de cada um. Chopin por exemplo, é mostrado fragilizado a tossir, pois morrera precocemente na vida real, vítima da tuberculose e a sua namorada que era um “Drag King”, chamada como, George Sand (na realidade, chamada como: Amandine Aurore Lucile Dupin), uma escritora que utilizava uma identidade masculina para impor-se como artista. O compositor, Hector Berlioz, apresenta-se bem efeminado e Gioachino Rossini, o grande compositor de óperas, como um comilão contumaz, para reforçar o estereótipo do italiano bonachão. Felix Mendelssohn é retratado como um velho, e uma piada é feita sobre a presença de Johann Strauss II, o “Rei da valsa”, a gerar a clássica confusão com a figura de seu pai, igualmente compositor, Johann Strauss. Eu posso imaginar o quanto Ken Russell divertiu-se em inserir e dirigir essa cena no filme, tamanha era a sua paixão pela música erudita.
Outra cena muito bonita dá-se quando o tema “Liebstraum” (Love Dream), é encenado como se fosse um vídeoclip desconectado do filme e a simular a cena de um filme de Charles Chaplin, chamado: “The Gold Rush” (“A Busca do Ouro”), lançado em 1925, onde as personagens de Carlitos (interpretado por Charles Chaplin) e Georgia (interpretada por Gloria Hale), atuam em uma cabana construída sob a neve. É de uma beleza comovente tal cena, pois teve a proeza de homenagear Liszt e Chaplin, dois gênios em campos e épocas diferentes na história da arte, simultaneamente. O fato desse belíssimo tema composto por Liszt ter no filme uma roupagem Rock, com a melodia entoada, mediante letra, pode chocar muitos fãs puristas do universo da música clássica, mas se analisado sem preconceito, ficou notório conter uma beleza ímpar e a mostrar-se perfeitamente palatável aos ouvidos mais acostumados à música Pop. 
A crítica, de uma forma até surpreendente, dada a loucura habitual perpetrada por Ken Russell em seus filmes, não foi impiedosa. “Lisztomania” até alguns elogios recebeu, apesar das inúmeras alegorias exageradas, distorções na história e as muitas insinuações sobre a música de Wagner atrelar-se ao nazismo. Um crítico chegou a dizer: “é a obra de um gênio demente”, ou seja, uma opinião ambígua. 
 
Sobre o elenco, como já disse, Roger Daltrey interpretou Franz Liszt e segundo consta na história, mais relaxado após concluir a sua atuação em “Tommy”, ele não relutou em atuar e a sua única preocupação foi em relação ao admitir não possuir nenhum trejeito para sequer simular tocar piano. Mas Russell e sobretudo Rick Wakeman, deram-lhe respaldo e não há em sua atuação ao fingir tocar piano, nada que o desabone e no caso de Liszt, na vida real este fora um virtuose, dono de uma técnica sobre-humana.
 
Os demais atores foram: Sara Kestelman (como a princesa Carolyn), Paul Nicholas, (como Richard Wagner) e este ator participara de “Tommy” e na vida real era/é também um bom cantor, O baterista dos Beatles, Ringo Starr (como o Papa), o tecladista do Yes, Rick Wakeman (como o Deus Thor), John Justin (como o Conde D’Agoult), Fiona Lewis (como Marie D’Algout), Veronica Quilliman (como Cosima Wagner), Nell Campbell (como Olga Janina), Murray Melvin (como Hector Berlioz), Andrew Faulds (como Johann Strauss II); Keneth Colley (como Frédéric Chopin), Andy Reilly (como Hans Von Büllow, este também um grande compositor e maestro que foi muito amigo de Liszt na vida real), e outros atores de apoio. 
As letras escritas para adaptar-se à versão Pop de certos temas, foram escritas por Jonathan Benson, Roger Daltrey e pelo próprio, Ken Russell. Sobre os músicos, além de Rick Wakeman, Roger Daltrey e Jack Bruce, a banda de Rick Wakeman que o acompanhava em sua carreira solo, fora do Yes, atuou, e tratou-se da: English Rock Ensemble.

Foi escrito e dirigido por Ken Russell e lançado em outubro de 1975. Por conta das muitas cenas a envolver insinuações sexuais (logo no começo do filme, Liszt está na cama com Marie D’Algout e o ritmo da prática sexual do casal é regido por um metrônomo, por exemplo), a exibição em canais de TV aberta ainda ao final dos anos setenta, foi prejudicada. Demorou para a censura afrouxar e ainda assim, o filme foi liberado para exibições às madrugadas, somente. Foi lançado em formato VHS nos anos oitenta e muitos anos depois, ganhou a sua versão em DVD. Na Internet, é difícil encontrar uma cópia na íntegra, mas apenas fragmentos do filme.

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 326.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Filme: Rock'n' Roll High School - Por Luiz Domingues

O diretor, Allan Arkush, mostrava-se afeito ao Rock em sua formação pessoal, por conta de ter sido um funcionário do míticos auditórios, Fillmore East e West, ou seja, um dos principais templos norte-americanos para o Rock nos anos sessenta e setenta (tanto foi assim, que nos anos 1980, ele lançaria o filme : “Get Crazy”, em 1983, para ser preciso, para tentar prestar um tributo ao Fillmore East, cuja resenha desse citado filme, eu também já elaborei e portanto, falo sobre como essa suposta homenagem não configurou-se a contento). 
 
Entretanto, a sua veia natural a pender para o humor mais próximo do pastelão, mostrou-se proeminente. Daí, o diretor, Roger Corman, apareceu com a proposta de produzir uma película a buscar esse caminho e com o enfoque atualizado, moderno, a retratar a conjuntura da música que a juventude de final de década de setenta estava a consumir e pela qual refletisse a época.
Corman foi um diretor especializado em filmes de terror e ficção científica (mais terror), que vinha desde os anos cinquenta a construir a sua filmografia nesse sentido, mas especificamente nos anos sessenta, houvera experimentado (com o perdão pelo trocadilho), uma incursão à realidade paralela construída pelo conceito da contracultura e nesses termos, mantivera uma boa aproximação com o Rock, por extensão. 
 
Tal esforço de sua parte houvera ocorrido principalmente por conta de seu contato direto com um grupo de atores hollywwodianos e que formavam uma confraria de entusiastas pela contracultura & afins, entre os quais, Jack Nicholson, Peter Fonda, Bruce Dern, Karen Black e Dennis Hopper, para citar os principais artífices e por conta disso, Corman lançara filmes tais como: The Wild Angels, The Trip e outros filmes a abordar a juventude sessentista. 
 
Todavia, Corman perdera o fio da meada e ao final dos anos setenta, não continha mais uma referência do que ocorria em termos socio-comportamentais no seio da juventude e por conta disso, buscou em Allan Arkush e outras pessoas associadas, uma fonte para atualizar-se.
Bem, Arkush foi em tese uma boa pessoa a ser consultada se a intenção foi buscar uma retomada cinematográfica para abordar o assunto contracultural. Todavia, para o seu azar em 1979 o que Corman encontraria como sentimento legítimo de uma estratificação cultural natural pelas ruas, seria apenas um mero fruto da formação de opinião detratora, contudo, a veia humorística de Arkush não deixaria a produção tomar um rumo em torno da seriedade, mesmo que a situação assim delineasse-se. 
 
Portanto, se o leitor quiser assistir o filme, “Rock’n’ Roll High School”, a esperar uma continuidade do que Roger Corman expressara em películas que dirigiu ou coproduziu nos anos sessenta com tal teor, pode esquecer. No entanto, se tiver consciência que esta obra em si, trata-se apenas de uma peça sem maiores pretensões a não ser o humor escrachado, constituído pelo "pastelão" clássico do humor popularesco, então, sem problema, estará diante de um típico filme para ser assistido sob soslaio, na sala de estar de sua casa, enquanto a tarde passa lentamente ao seu redor.
Sob um roteiro absolutamente infantilizado, a história é baseada em um argumento remotamente inspirado em uma história verídica ocorrida em uma escola localizada em Milwaukee, Wisconsin, nos anos 1920, em torno de uma greve organizada por alunos, algo impensável para ter ocorrido entre jovens geralmente subservientes e nada contestadores, naquela década. No entanto, foi o mote para construir-se a história desse filme. 
 
Ocorre que neste caso, a ideia de uma diretora que impõe uma disciplina militarizada e logicamente intransigente, incomoda os alunos que desejam a bagunça, pelo sentido amplo da gíria. Nesses termos, uma aluna que é uma fanática seguidora da banda Punk, Ramones, organiza-se, com o apoio de outros alunos Rockers da escola para combater a repressão desmesurada da parte da linha dura adotada pela inspetora, e em torno dessa premissa, todas as piadas são montadas para justificar tal mote e também a trilha sonora.
Bem, o ambiente é a Los Angeles de 1979, e as piadas são grotescas, nada sutis e em alguns casos, constrangedoras até mesmo para a época, portanto, o que dizer décadas depois, quando tornou-se ainda mais fragilizada tal abordagem? Tudo bem, filme infanto-juvenil e inofensivo, se está a milhões de milhas longe de ser considerado uma obra prima, ostenta algo de positivo ao ponto de não ser totalmente defenestrado ao lixo da história, por alguns motivos. Entre os quais, naturalmente em primeira instância a questão da sua trilha sonora.
 
A despeito do fato cabal de eu, particularmente, guardar inúmeras restrições ao trabalho dos Ramones, não é apenas por conta de seu som que a trilha alimenta-se (ainda bem), e é interessante observar a presença de nomes mais significativos em termos musicais, tais como Alice Cooper, Todd Rundgreen; Chuck Berry; Wings; Fleetwood Mac; MC5 e outros. Nesse bojo contém o “Devo”, também nessa trilha sonora, mas tudo bem, isso foi produzido em 1979, fazer o quê, não é verdade? 
 
Aliás, a expectativa inicial seria contar com Todd Rundgreen ou mesmo o grupo, Cheap Trick, para figurar como personagem central e tais artistas não tiveram possibilidade para aceitar por conta de um choque de agenda momentâneo, daí ter sido acionado o plano C, com os Ramones a assumir tal posto.
Sobre as ditas “gags”, são muitos os clichês típicos usados em filme ambientados no espectro estudantil norte-americano, em torno das chamadas :“High School”. Um deles, super surrado, dá-se na figura da aula de música tradicional, com um professor completamente afastado da realidade social a ministrar a sua aula a enaltecer a figura de Ludwig Van Beethoven. 
 
Nesse aspecto, a percepção de que Beethoven é usado como um ícone de algo ultrapassado, revela o viés equivocado do humor popularesco, ao insistir no estereótipo da cultura oficial erudita ser usada como exemplo de algo obsoleto. Isso por si só já revela uma visão preconceituosa e obtusa, portanto, como é possível rir de uma piada construída em torno de tal premissa? 
As cenas das meninas a praticar educação física sob um som tradicional e isso provocar tédio, para em seguida animar-se ao som do Rock tosco dos Ramones, reforça o conceito preconceituoso e fomentado pela tola visão de uma guerra cultural entre o Rock e a cultura tradicional. 
 
Isso recorda-me de alguns debates promovidos pelos meios de comunicação brasileiros nos anos setenta, mediante uma discussão proposta em torno de um conceito, sobre supostamente ter instaurado-se um embate entre o Rock e o samba naquela época, ou seja, uma asneira sem nenhum cabimento sob o ponto de vista do estudo da evolução da cultura, musicologia e nem mesmo sob outras tantas cátedras.
Uma vez assumida a presença dos Ramones como farol a guiar tal produção, o favorecimento ao seu enaltecimento, ficou óbvio. Uma cena, por exemplo, mostra uma escala de valores com o nome de bandas de Rock dos anos sessenta e setenta, e os Ramones a ocupar o patamar máximo. 
 
Foi como se uma lanchonete de bairro colocasse uma placa na sua fachada, ao arvorar-se em vender o melhor sanduíche da cidade, ou seja, uma informação sem valor real algum, além da bravata. Outra cena em favorecimento dá-se no episódio da super fã que acampa na porta de um teatro onde tal banda anunciara um espetáculo e após vacilar por ter dormido, acorda com outra fá colocada à sua frente, à boca da bilheteria. 
 
O diálogo que ambas travam em tom de disputa particular para definir quem é mais fã da banda em questão e assim obter o “direito” de comprar o primeiro ingresso, mostra bem essa predisposição.
Todavia não para por aí. Observa-se aquele clichê em torno dos “experimentos” científicos sobre animais e plantas submetidas à audição de música erudita versus Rock e um rato que assume postura humana e torna-se fã dos Ramones, o professor de música que “converte-se” e também passa a seguir os Ramones, uma infame queima de LP’s de bandas de Rock promovida pela diretora da escola com tendência nazista e a colagem em suas costas de um cartaz com os dizeres: “chute o meu traseiro com força”, bem ao estilo da mentalidade de 5ª série etc... 
Bem, o filme encerra-se com uma rebelião na escola, com direito a um show dos Ramones a realizar-se no pátio da  instituição de ensino e a completa destruição de seu patrimônio (trata-se de cenas verdadeiras da demolição do colégio, e que de fato foi para o chão, mas não fruto de alguma rebelião da vida real, mas por conta de uma ação de engenharia civil), foram usadas para reforçar a dramaticidade.
Sobre os atores, destaque para: PJ Soles, como Riff Randall, Dey Young, como Kate Rambleau, Vince Van Patten como Tom Roberts, Clint Howard, como Eaglebauer (este ator, Clint, apesar de jovem na ocasião, já mostrava-se muito experiente por haver trabalhado desde criança em seriados de TV), Mary Woronov, como a temível diretora, Miss Evelyn Togar, Paul Bartel como Mr. Mcgree e outros atores de apoio, além da presença dos quatro componentes dos Ramones, logicamente e com participação também de Darby “Crash” e Lorna “Doom”, membros da banda Punk, The Germs.
Produção de Roger Corman (errou desta vez, uma pena) e direção de Allan Arkush (que tentaria enfim fazer um filme de Rock a honrar a sua experiência em ter sido um funcionário do auditório Fillmore East, em “Get Crazy”, de 1983, mas a falhar, infeliz e igualmente), “Rock’n Roll High School” foi lançado em agosto de 1979. 
 
Uma sequência foi produzida muitos anos depois, em 1991, com o título : “Rock’n’ Roll High School Forever”. E há boatos sobre uma refilmagem para breve (2019)
O filme foi disponibilizado em versão VHS, logo a seguir; passou bastante nos canais de TV a cabo, foi exibido no Brasil, na famosa: “sessão coruja” das madrugadas ao longo dos anos oitenta. Foi lançado no formato DVD, inclusive várias vezes, para oferecer extras diferentes, e é encontrado com facilidade no YouTube. 
 
Esta resenha faz parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume II, e está disponível a a partir da página 204