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domingo, 22 de maio de 2022

CD/DVD: M.úsica P.ropositalmente B.izarra/Subtotal - Por Luiz Domingues

O Subtotal nasceu no início dos anos 1980, bem no meio do furacão que o movimento BR-Rock 80’s havia gerado. Porém, diferentemente da maioria das bandas surgidas nessa safra, ao se mostrarem orientadas pelas várias vertentes oriundas do movimento Punk e sobretudo da sua continuidade em torno do Pós-Punk (e tampouco pelos admiradores do Heavy-Metal e Hard-Rock oitentista), neste caso o Subtotal se colocou na cena com outro tipo de abordagem e influência.

                 A formação clássica do Subtotal nos anos 1980

Com admiração confessa pela Bossa Nova cinquentista, movimento tropicalista dos anos sessenta e pela então mais recente, Vanguarda Paulista dos anos 1980, a inspiração não foi exatamente o Rock, mas a buscar misturar a MPB mais vanguardista e sobretudo, urbana na sua constituição sonora e na construção poética de suas letras.

O Subtotal atuou até o final da década de oitenta quando encerrou atividades. No entanto, foi em 2006, muito tempo depois, que surgiu a proposta da banda voltar e nesse aspecto, veio com toda a força, a alimentar uma agenda boa desde então, e melhor ainda, a buscar o registro fonográfico para enfim perpetuar o seu legado artístico.

Dessa forma, foi em 2012 que a banda aproveitou bem a oportunidade de gravar e filmar um show realizado em um espaço famoso de São Paulo, ou seja, o palco do Sesc Belenzinho, unidade localizada no bairro homônimo da zona leste de São Paulo, para produzir um belo CD e DVD ao vivo.

Denominado como: “M.úsica P.ropositalmente B.izarra”, o disco traz um conjunto de onze canções, a maioria composições da banda e mais cinco canções adicionais, uma delas da parte da dupla formada por Lé Dantas e Cordeiro, valorosos compositores egressos dos anos setenta, duas do compositor e violonista osasquense, Eron Meira e duas de Edvaldo Santana, um outro bom artista que se notabilizou por criar uma linha de MPB bem próxima do Blues em sua carreira como compositor e intérprete.

Inclusive, o próprio Edvaldo Santana participou do espetáculo como um convidado muito especial e assim, deixou a sua ótima colaboração no CD e também no DVD que está anexado como um bônus do álbum.

O projeto gráfico do disco é de muita criatividade, a apresentar em sua capa frontal a foto de um automóvel da marca Volkswagen, o popular “fusca”, submerso, no leito do mar (ou de um rio), com a sua carcaça já dominado pela vegetação submarina, portanto a denotar o aspecto do possível naufrágio, por conseguinte a abrir uma gama de possibilidades para promover diferentes interpretações sobre o significado que a imagem possa adquirir.

Na parte interna, há uma foto bem conceitual do equipamento da banda a postos no palco para o show, sob a perspectiva do “headstock” de uma guitarra, portanto, a se revelar um belo click.

E na contracapa a exibir a foto da formação da banda que gravou esse disco e que nos dias atuais se modificou levemente, por conta do falecimento do baixista e backing vocalista original da banda, Gilberto Campos, que não está mais entre nós, lamentavelmente, desde 2015.

No encarte vem assinalado o repertório que consta no disco e na contracapa, há uma ficha técnica boa e a descrição completa sobre a formação da banda nessa ocasião.

Assista a performance de “New Funk”, abaixo:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=XG84nge1zG8

Sobre o repertório do disco, a primeira faixa, “New Funk” traz como sugere o seu título, um super balançado tema versado pela influência do bom Funk, aquele nobre derivado da Soul Music e do R’n’B e neste caso fortemente adaptado à linguagem da MPB com aquele sabor da Vanguarda Paulista de 1980, e por conta de tal característica, lembra demais o trabalho de Itamar Assumpção.

O groove do baixo, bateria e percussão é muito bom, a interpretação vocal segue aquela linha verborrágica e afiada ao estilo de Itamar, como já salientei e a guitarra solo pontua de uma maneira bastante salutar. Destaque também para a excelente dinâmica que a banda desenvolve, com contrastes muito bem colocados entre a intensidade e a amenidade como um recurso muito bem ensaiado.

A letra fala sobre o amor, mas de uma maneira nada usual, daí mais uma semelhança com a poesia alternativa recorrente entre os artistas do movimento da Vanguarda Paulista. Observe:

“Faz-me desesperar/Eu nunca sei dizer/Parece ser tão fácil ter você/Mas eu me atrapalho/E fico falando coisas inúteis/Tento saber o que você sente/Tenho claro o destino de nós dois"

"Será que a minha presença te incomoda/O tanto quanto a sua a mim/E já nem sei se tenho medo/Ou se tudo o que eu sentia se acabou/As formas do seu corpo/Não atentam tanto quanto ontem/E é uma pena/Que nada entre nós chegasse a ser completo”

Assista abaixo a performance de “Essa Menina”:

Eis o Link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=975n9ZHasJA

“Essa Menina” tem o sabor gostoso de um xote, mas este a se mostrar todo ambientado com uma intenção Pop-Rock ao modo oitentista e assim, poderia tranquilamente ser uma faixa radiofônica.

Em sua letra, há a citação explícita de um verso de uma canção dos Secos & Molhados (“Sangue Latino”), naturalmente a se constituir de uma homenagem e que encaixou bem.

E a instrumentação é toda muito boa, são ótimos músicos e isso soma demais ao trabalho, naturalmente.

Assista abaixo a performance de “Buscapé Xangô”:

Eis o Link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=yEH4uSANM4c

“Buscapé Xangô” é uma canção da dupla, Lé Dantas e Cordeiro, este duo a apresentar relevantes serviços prestados à MPB desde os anos setenta.

Sobre a canção propriamente dita, ela é versada por uma identidade daquela sonoridade que misturava raízes folclóricas com a MPB e a esbarrar no Rock, ou seja, é um tipo de manifestação artística bem setentista em tese, por tal intenção e empolga não só por essa lembrança boa de uma época tão empolgante culturalmente, mas por ela em si, que leva a banda a praticar uma linha de interpretação muito boa.

É ótima a instrumentação, tanto na parte mais amena do início da canção, com ótimas intervenções no arranjo das duas guitarras, quanto na parte mais acelerada e na qual os backing vocals se destacam, além disso, também pelo ótimo final, no qual a percussão se destaca muito positivamente ao ficar isolada e empolgar a plateia.

Assista abaixo a performance de “Energia Primitiva”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=wM5K8wZZ3eg

“Energia Primitiva” tem um uma força muito grande a soar Pop-Rock, mas com raiz do reggae bem sutil. Mais uma vez a banda se apresenta muito bem em todos os sentidos. Canção do compositor Eron Meira, tem na interpretação do Subtotal, um requinte muito grande. Gostei do solo de guitarra, bem melódico e também da base do violão bem batido.

Assista abaixo a performance de “Jererê:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=L33aik2HgFA

“Jererê” é também uma composição de Eron Meira, que apresenta uma bela harmonia no cômputo geral e por ter sido cantada em duo em alguns trechos e neste caso, a melodia se destaca. 

Gostei bastante da linha de baixo, muito criativa e que deu uma sustentação excelente à canção. Há um vocalize deveras interessante e enigmático, pois não fica claro se foi disparado durante a realização do show ou se algum cantor não revelado o emitiu da coxia, secretamente, visto que ninguém no palco o entoou pelo que se observa no vídeo, mas que também chama a atenção em seu decorrer. 

Assista abaixo a performance de “Nova Ironia”:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=y5wsOe7NeV0

“Nova Ironia” é a sexta faixa e se trata de uma balada com boa influência da MPB, todavia, pelo viés da Vanguarda Paulista, novamente a lembrar bastante o trabalho do grupo "Rumo", ao menos na minha impressão muito pessoal, não tenho a convicção de que tenha sido essa em específico a influência da banda neste caso.

A guitarra base pontuada por efeitos, com a segunda a estabelecer delicados desenhos com certa menção bluesy, ficou muito agradável. E no mais, baixo e bateria flutuam em perfeita sintonia, enquanto a percussão também cria atmosferas bem amenas, pontuais e muito felizes em suas escolhas. É ótimo o solo de guitarra, embora bem curto.

Assista a performance de “Raios do Oriente Médio” abaixo:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=MYrqY1PRXfM

“Raios do Oriente Médio” é uma canção do Edvaldo Santana e ele em pessoa foi um convidado especial para abrilhantar a performance do Subtotal.

E o tema é um Blues misturado com o Reggae, com rica melodia, letra poética muito bem construída. A banda a interpreta de uma forma muito competente. Drausio Silva pontua muito bem ao tocar o acordeon e assim enriquece a performance.

Assista a performance de “Dobradinha” abaixo:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=Gt0GB_8JBV4

“Dobradinha” é um tema bastante interessante pela sua condução bem executada. Gostei bastante da base de guitarra com bastante efeito de caixa Leslie, vocal com bom apoio de backing vocals e bateria com batida seca e muito bem tocada, incluso em uma parte levada na divisão “staccato”, muito interessante e também do solo bluesy com ótimo timbre da guitarra.

Assista a performance de “Menina do Poeta” abaixo:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=01PmaxTq0Lo

“Menina do Poeta” também tem uma intenção Reggae em sua constituição base, porém, na melodia, há um aspecto de inovação mais vanguardista na sua essência a se mostrar como um diferencial. 

Em sua letra, o jogo de palavras chama a atenção, como neste trecho, por exemplo:

“A linha ondulante/Cortando sua face/Bordando, vestindo
Sou corpo ao meu/Que fazes da vida?/Mendigas palavras?/O que diz o poeta ao p
apel?/Rouba da mente o inconsciente agente/Detalhas tudo que faz
”

Assista a performance de “Toda Dúvida” abaixo:

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=wz54HcQfG60

Já sobre a faixa: “Toda Dúvida”, esta música investe no Rock com aquele viés oitentista, ou seja, versado pela estética Pós-Punk que se mostrara predominante naquela década. Lembra bastante o som de bandas como Titãs, Cabine C, Smack e outras que fizeram sucesso naquela ocasião. 

Chama a atenção a intervenção do acordeon conduzido por Drausio Silva, tanto pela execução em si ao pontuar bons fraseados em duo com a guitarra, quanto na sua inclusão no arranjo da canção, por não ser algo muito habitual no cenário do Rock.  

“Quem é que não quer ser Feliz” é a última canção do álbum e se trata de mais uma composição de autoria de Edvaldo Santana que a banda interpretou, e diga-se de passagem, de uma forma bem efusiva. A sua sonoridade lembra a grosso modo o som daquela vertente bem setentista do dito estilo do “Samba-Rock” praticado por artistas da pesada tais como: Jorge Bem, Trio Mocotó, Luiz Melodia e outros.

Nesses termos, a banda tem uma performance rica em nuances rítmicas com a percussão e bateria a trabalharem com muita felicidade. Edvaldo Santana a cantou e a sua interpretação vocal também é muito boa, gostei bastante.

O recurso de forçar o efeito do “fade out” natural ao vivo, caiu muito bem, pois forçou a interação da plateia, para depois a banda poder voltar ao tema, girar em sua harmonia mais uma vez e enfim decretar o seu encerramento sob alta vibração.

O álbum tem um padrão de gravação e acabamento final pós-mixagem e masterização, muito bom. Mediante timbres agradáveis, equilíbrio muito feliz nos planos de volume e inteligibilidade perfeita na parte vocal, no tocante às letras. Dessa forma, proporcionou à banda ter um produto de ótima qualidade para ofertar aos seus fãs.

Como um bônus de luxo, há na mesma embalagem a presença de um DVD com o show ao vivo, na íntegra e o padrão da filmagem também se mostra muito bom. Portanto, trata-se de algo mais do que um bônus, mas um verdadeiro presente para o fã do Subtotal ter esse DVD para assistir no conforto do seu lar.

Em suma, o álbum: “M.úsica P.ropositalmente B.izarra" apresenta uma ótima performance ao vivo da parte do Subtotal e assim, a dar uma mostra muito convincente da sua proposta artística. 

A atual formação do Subtotal. Em pé, da esquerda para a direita: Rey Bass, Douglas Silva, Drausio Silva e Jurah Di Ann. Agachados: André Piovan e marcos Soledade "Pepito". Foto: Eduardo Soledade

Com o falecimento do ótimo baixista Gilberto Campos, a banda tem nos dias atuais apenas os irmãos Silva, Drausio e Douglas da formação original dos anos 1980, e alguns companheiros que estiveram na gravação do disco de 2012, como os ótimos percussionistas Marcos Soledad “Pepito” e Jurah Di Ann (no disco, o “Pepito” tocou apenas bateria), e doravante passou a atuar com o acréscimo do não menos ótimo baixista e backing vocalista, Rey Bass e do bom baterista, André Piovan.

Mais um detalhe a ser comentado, o título desse álbum contém notadamente uma intenção ousada sob o ponto de vista da sua apresentação nominal, ao demarcar a sua estranheza ortográfica que insinua a experimentação musical como um mote, mas não chega a ser na prática assim com tamanha radicalização que funciona o som do Subtotal. Há sim, flertes com recursos não exatamente tradicionais presentes na música Pop em geral, porém, a proposta do Subtotal está mais para a formatação musical tradicional e não pela aposta no radicalismo experimental mais intenso.  

Formação do Subtotal neste disco:

Drausio Silva: Voz, violão, guitarra e acordeon

Douglas Silva; Guitarra, gaita e backing vocals

Gilberto Campos (in memoriam): Baixo e backing vocals

Jurah Di Ann: Percussão e backing vocals

Marcos Soledade “Pepito”: Bateria

Músico convidado:

Edvaldo Santana: Voz e violão nas canções: “Blues do Oriente Médio” e “Quem é que não quer ser Feliz”

M.úsica P.ropositalmente B.izarra foi gravado ao vivo no palco do Sesc Belenzinho de São Paulo-SP, em agosto de 2012.

Editado, mixado e masterizado no estúdio Big Red (www.estudiobigrec.com.br)

Técnico de gravação, mixagem e edição: Mauricio Pastori

Técnico de masterização: Bill Reinikova

Assistente de palco: Pedro Campos

Projeto gráfico e edição de vídeo: Douglas Silva (www.zpolt.com.br)

Produção do vídeo: Visual Design Produtora Audiovisual

Fotos: Alex Mustard (capa) (www.amustard.com)

Sérgio Ribeiro de Barros (contracapa)

Para conhecer melhor o trabalho do Subtotal, acesse:

Site Oficial do Subtotal:

http://www.subtotal.com.br/

Página no Facebook:

https://www.facebook.com/BandaSubtotal/

Contato direto com a banda:

contato@subtotal.com.br

YouTube:

https://www.youtube.com/channel/UCnviJNyETAEW2qvXgF1eKIw/featured

Spotify:

https://open.spotify.com/album/1sB5e2sGT4DgnO4jFQZcQN?si=4hZmYQpIQJCVcneI2WLwVg&fbclid=IwAR3hDx440QMQGnYdvapMXt2c8roAbkZclaTKwIAa140CLuVQyE3_jpRt_BM&nd=1


terça-feira, 19 de abril de 2022

CD Blues Quasar/Marcião Pignatari - Por Luiz Domingues

Guitarrista fortemente versado nas tradições clássicas do Rock’n’ Roll e do Blues, Márcião Pignatari é mais do que um ótimo músico, compositor e cantor, mas é também um artista que se comunica com grande desenvoltura e bom humor espirituoso com o público, ou seja, assisti-lo ao vivo é sempre muito prazeroso pela alta qualidade sonora e igualmente pelo astral bom que ele irradia de uma forma muito natural, por conta da sua personalidade.

Artista que já participou de vários projetos, ele mantém a sua banda em atividade, Márcião Pignatari & Os Takeus, sempre cercado por músicos de grande qualidade artística, além dele mesmo ser solicitado para atuar com outros artistas em gravações e apresentações ao vivo, dado o fato de que a sua presença em estúdio ou no palco, sempre abrilhanta o trabalho de quem quer que seja. 

Neste caso, o objeto desta resenha é o CD Blues Quasar, um trabalho solo que esse artista oriundo de Osasco-SP, lançou com bastante desenvoltura. A sonoridade é rica ao longo de todas as faixas, com um instrumental de alto padrão, obtido com uma formação bem básica, o clássico Power-Trio a conter guitarra, baixo e bateria. E como sempre ocorre nesse tipo de formatação, os três músicos se desdobram e preenchem todos os espaços com muita criatividade e uma força incontestável.

 

A respeito do aparato gráfico que acompanha o disco, ele se mostra bem simples, contudo, de bom gosto a mostrar uma ilustração frontal com a foto de um “Quasar”, literalmente, ou seja, um fenômeno astronômico observado pela ciência, a se caracterizar como um núcleo galáctico ativo, maior que uma estrela, porém menor que uma galáxia e no caso da capa, a se mostrar azul com uma esfera exterior amarelada e sob o fundo preto do espaço sideral. 

Na contracapa, se vê uma montagem de uma foto do artista e de seus músicos convidados, com o tom dourado a predominar como fundo. Em relação ao encarte, mostra-se uma foto a se destacar a presença da guitarra e dos amplificadores do Márcião, que insinuam a formação do “quasar” e assim a justificar o título do disco. Seguem fotos dos músicos e uma breve ficha técnica.

Sobre a música proposta pelo Márcião Pignatari, se trata de um conjunto de treze faixas e sobre as quais tenho a pontuar algumas observações.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=FfEHKRNQ2q0

“68 Blues” é um tema instrumental a mostrar sonoridade muito agradável e que lembra muito o som de John Mayall & Bluesbreakers, bem ali na metade dos anos sessenta, com uma linha de Blues-Rock direta e reta, mediante uma timbragem bem limpa de todos os instrumentos, principalmente pela guitarra que destila o som puro da Fender Stratocaster.

A condução geral, tanto no aspecto harmônico, quanto na divisão rítmica é pautada pela linha tradicional do Blues e para enriquecer, há a presença de convenções pontuais. 

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=rnqb2u5szgE

A canção “Às Vezes” mostra um Blues-Rock balançado a pender para o R’n’B. Márcião mais uma vez desempenha com a sua guitarra mediante grande desenvoltura e os seus convidados, Marcos Soledade “Pepito” e Douglas Silva, vão juntos na mesma predisposição a acompanhar muito bem a intenção da canção.

Na parte cantada, Márcião lembra o estilo de interpretação do saudoso Celso Blues Boy e no aspecto da letra, a fina ironia se faz presente, ao discorrer sobre o fardo que é ter que conviver com um tipo de pessoa que se julga dotada da sapiência que na realidade não possui.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=jEcrYRiEJv0

“Celebrar a Vida” tem uma pegada Blues com sabor Country-Rock, a la Southern Rock, que é muito interessante. É muito bom o solo e o refrão também é bem convidativo para se cantar junto à banda e afinal de contas, o mote da letra é mesmo celebrar a vida, ou seja, uma dádiva.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=_0_6FjNfk9Q

“De onde eu Venho” é um Blues-Rock vigoroso, a lembrar o som de Robin Trower, Cream e de seus contemporâneos. É muito bom o riff e a parte melódica, que é cantada com ênfase.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=2H2a3TPOP-M

“Aquilo Lá” é um tema que pela timbragem e estrutura harmônica lembra bastante o som da Surf Music bem típica das décadas de cinquenta e sessenta, praticada por bandas instrumentais como The Shadows e The Ventures e por centenas de similares, inclusive no Brasil (Jet Blacks, The Spark’s, The Clevers etc). Tema gostoso de se escutar, mostra bem o desempenho preciso do Marcião à guitarra, sob fraseados mais rápidos.  

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=KAsSdOgbBcg

Em “Cowboy do Salão”, o estilo do Blues texano se faz presente com proeminência. A letra brinca com os clichês oriundos das tradições dos bares de música ao vivo, não só do estado do Texas como de outros estados do sul e oeste dos Estados Unidos, onde os músicos se acostumam a tocar em meio às brigas com garrafas que são arremessadas a esmo, inclusive sobre eles mesmos no palco.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=8LYbp3FalaQ

A sétima faixa, “Um Tempo Bom (Puteiro em Maislaqui)” tem o jeito brejeiro do Blues de New Orleans e como sugere o seu título, contém uma letra bastante satírica a descrever o ambiente de um prostíbulo.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=1I-tUQnYvXk

“Cigana” vem a seguir, com uma irresistível pegada a la Carlos Santana, com muita ginga mexicana na forma latinoamericana/hispânica para interpretar o Blues. 

Marcos Soledade, o grande “Pepito”, além de baterista é um excelente percussionista e assim, a sua contribuição nas congas e outros instrumentos de apoio, foi providencial. 

É ótimo o solo de guitarra e a inclusão de um violão também agregou bastante para encorpar a canção, além de brilhar no solo final a encerrar o tema, via efeito de fade out.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=wfilIp26DxQ

Chega a nona faixa, “Pronto para Viagem” e a proposta é um estilo de Blues a pender para o Pop, embora a proposta instrumental remeta levemente à Surf Music sessentista, inclusive pelo bom uso do trêmulo na guitarra.

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=erQkwQ3vwTA

“De Galho em Galho” tem o seu riff bem orientado pelo Rock’n’ Roll na sua estrutura e lembra bastante o som dos Rolling Stones nos anos setenta. Trata-se de um som que produz o apelo à dança, portanto, é uma peça bem agradável.

Há um final falso que serve para criar uma atmosfera interessante como interlúdio e assim a música volta subitamente ao seu refrão para terminar enfim no embalo total.

Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=3l0Xvi2OFBk

“No Silêncio” é uma música que tem uma proposta de letra mais densa, o que me fez recordar do trabalho de Itamar Assumpção, com uma abordagem de poesia urbana. Eis um pedaço de um verso que me pareceu emblemático:

“No Silêncio sentir o dom de respirar/No silêncio a vida que se tem”

Na parte musical, a canção tem a pegada dos bons discos solo do Eric Clapton no início da década de setenta, em meio a um som orientado pelo R’n’B, bem balançado.  

Eis o link para escutar no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=TzSI51OstiA

A décima segunda faixa é: “Só Pessoas”. Neste caso, se trata de um blues bastante ritmado e na sua letra, Márcio enfatiza o fato de que as pessoas são absolutamente iguais e dessa forma, a arrogância movida à exaltação das posses materiais e/ou em relação à posição social mais elevada, são meras ilusões que os prepotentes tem em mente para subjugar as demais pessoas. Eis um trecho da letra:

“Nus em frente ao espelho somos só pessoas”

Recado em tom de crítica social a parte, a música empolga por si só, ao se mostrar como um embalo de primeira qualidade.

Ao final, Márcio recita com ênfase: -“venha para a luz”, ou seja, que a prepotência dessa gente esnobe permaneça nas trevas...


Eis o link para ouvir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=E0FzPzvQKgw

“Feitiço de Áquila” fecha o disco e em grande estilo ao evocar a presença de Jimi Hendrix subliminarmente em seu estilo. Trata-se de um tema instrumental de uma beleza rara em termos de melodia, toda desenhada pela guitarra com bastante senso emotivo a alternar intensidade na dinâmica.

É belo o final ao se chegar no limite da saturação do amplificador e usar do recurso do “feedback”, bem ao estilo Hendrixiano.

E “O Feitiço de Áquila” em questão é uma lenda com teor medieval que fez grande sucesso como filme no ano de 1985 (“Ladyhawke”, título original em inglês, com direção de Richard Donner), a dar conta de uma maldição lançada por um feiticeiro inescrupuloso a um casal que ele almejou se vingar por ciúmes, no sentido de lhes impor que de dia a moça se transforme em um falcão e a noite, o rapaz se torne um lobo, para que assim, nunca se encontrem como humanos e consumam o seu amor. 

Para encerrar, eu recomendo bastante a audição do CD “Blues Quasar” do guitarrista, compositor e cantor, Márcião Pignatari, por considera-lo um bom disco a trabalhar com a base do Blues e Rock’n’ Roll e igualmente flertar com diversas variantes dessas correntes.

Gravado no Estúdio 500 de São Paulo

Técnico de som (captura): Mauricio Pastori

Mixado no estúdio Big Rec

Técnico de mixagem:  Mauricio Pastori

Capa/encarte: Case 21 Designer

Produção Geral: Márcião Pignatari

Banda:

Márcião Pignatari: Guitarra, violão e voz

Marco Soledade “Pepito”: Bateria e Percussão

Douglas Silva: Baixo 

Para conhecer melhor o trabalho do Márcião Pignatari, acesse:

Facebook:

https://www.facebook.com/adrian.pigblues

YouTube:

https://www.youtube.com/channel/UCXMaRA5uXPV8jtsWPoGaM6g

Spotify:

https://open.spotify.com/album/7n6JgtMplV6KuwO5K71Twd?si=Zrgky1j4R9qtqscm4l-rGA&nd=1

Instagram:

https://www.instagram.com/marciaopignatari/