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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Filme: Help - Por Luiz Domingues


Segundo filme dos Beatles, “Help” teve como proposta primordial a diversificação, ao usar conceitos diferentes em relação ao primeiro filme, “A Hard Day’s Night”. Se no primeiro, a simplicidade em centrar esforços na banda, apoiada com momentos de humor, foi a tônica, em “Help”, a proposta foi investir em uma história mais robusta, a valorizar a dramaturgia e agregar elementos extras, inclusive com certos elementos a mostrar-se fora da cultura Rocker.
Bem, teria sido fácil produzir um filme nos mesmos moldes do anterior, com foco na banda, sem maiores preocupações em contar-se uma história, envolver dramaturgia e usar de quaisquer outros artifícios. Pois a banda estava ainda mais famosa, já a colocar-se como icônica e pasmem, em pleno processo de expansão, ou seja, atingira um patamar de popularidade tão grande, que um simples documentário teria sido o suficiente para provocar frenesi nas portas das salas de cinema do planeta inteiro, sem dúvida alguma, no entanto, optou-se por um filme mais encorpado, e é evidente que tal determinação precisa ser enaltecida enquanto resolução dessa produção, pura e simplesmente. E claro, pelo outro lado, a vontade de ter produzido algo mais contundente, não significa que a meta tenha sido totalmente cumprida em termos de qualidade cinematográfica e certamente que isso será analisado no decorrer desta resenha.
Posta tal reflexão como preâmbulo, cabe dizer agora que os tais ícones extra Rock aos quais eu aludi no início da explanação, são múltiplos e interessantes, no sentido de colorir o filme com outras referências. Primeiro ponto: na mesma época, em termos de cinema mega blockbuster, estava (e permaneceria por muitos anos, no futuro), em plena voga, a fama em torno dos filmes a apresentar a saga do super agente secreto, James Bond, também conhecido pela sua alcunha sob código: “Agente 007”. Criado pelo escritor, Ian Fleming, como um personagem tipicamente inspirado em agentes de serviços secretos a serviço da inteligência governamental, e embalado certamente pela paranoia gerada pela Guerra Fria cinquenta/sessentista, o fato é que tal sequência de filmes tornara-se um dos maiores fenômenos Pop da década de sessenta, quase no mesmo patamar em termos quantitativos, ao que os Beatles representavam para o Rock mundial nessa mesma época. 
E para reforçar um ponto em comum, a configurar dois trunfos da cultura Pop Britânica, portanto, imbatíveis se colocados a atuar conjuntamente. Não foi exatamente o caso aqui observado, mas a inserção de uma trama a envolver perseguição, fugas espetaculares e tramoias obscuras, evidentemente que foi inspirada na saga de James Bond. 
Outro reforço importante observado em “Help” e também a esbarrar em recursos muito bem explorados nos filmes do agente 007, expressa-se através do uso (e abuso) do recurso da aventura, inspirada na literatura infantojuvenil. Desde a antiguidade, quando lembramos das “Mil e uma Noites”, a passar pela Idade Média em meio a tantas histórias narradas por trovadores; nos livros de Julio Verne, Allan Quatermain e depois de tudo isso, com a intensificação do bombardeio que adveio via Comics/Histórias em Quadrinhos e multiplicado pela ação do cinema e da TV, ficou patente que aventuras espetaculares a abordar temas como: civilizações perdidas, sociedades secretas; seitas obscuras; tesouros guardados a revelar poderes sobrenaturais, ações extraterrestres e super vilões munidos por tecnologia de ponta, entre outros temas, causavam furor nas salas de cinema e nas poltronas & sofás residenciais a empolgar crianças e adolescentes fascinados a observar a tela da TV para assistir filmes e seriados com tal teor.
E ainda acrescente-se mais um elemento: o humor. Piadas (boas ou não), a produzir o típico humor britânico, carregado por sarcasmo, também representa uma faceta observada em “Help”. Neste aspecto, os próprios componentes deixaram claro que as piadas eram inspiradas em dois parâmetros que eles adoravam: os filmes dos irmãos Marx (“Duck Soup”, sobretudo), e do programa radiofônico e que posteriormente migrou para a TV britânica, “The Goon Show”, de onde saiu de suas fileiras o talento extraordinário do comediante e ator, Peter Sellers. Isso também fora observado no filme anterior, “A Hard Day’s Night”, como eu mencionei, aliás, na resenha sobre esse filme, que também elaborei. 
Por último, sobre o quesito humor, há por registrar-se que nos bastidores do set de filmagem, os rapazes estiveram suscetíveis às epidemias de gargalhadas e muitas vezes, esse fator atrapalhou bastante o trabalho. Conta-se que as filmagens atrasaram muito por conta dessas interrupções geradas pelas crises de euforia da parte dos rapazes, isso sem contar o fato de que no período da tarde os quatro componentes da banda tornavam-se quase que imprestáveis, a prejudicar o andamento do cronograma da filmagem. O motivo das epidemias de risadas: o farto uso de um tipo de cigarro que causava bastante fumaça, mediante um odor deveras característico e a gerar em via de regra, a euforia. E o fato dos quatro componentes dos Beatles ficarem sonolentos após o período do almoço: a ingestão de vinho em demasia. Bem, nem os membros dos Beatles eram feitos de ferro e em segunda análise, eles não eram meninos tão “bonzinhos”, como muitas pessoas acreditavam que fossem e colocassem outrossim, a culpa antagônica aos Rolling Stones a estigmatizá-los como maus meninos, na contrapartida.
Por último, contudo a revelar-se fatalmente como o mais importante fator, para enaltecer o filme, é lógico que arrola-se a presença do próprio Fab Four, com os seus membros a representar figuras icônicas do imaginário Rocker/Pop de então, como os protagonistas do filme e a sua música, a representar o ingrediente mais importante dessa receita, sem dúvida alguma.
Sobre a história/mote e roteiro, a ideia foi misturar todos esses conceitos a imprimir aventura, mistério, suspense, paisagens paradisíacas e os Beatles a viver tudo isso, além de uma rotina a falsear aos seus fãs, o conceito  de que eles morassem juntos como se fossem estudantes em uma “república”. Aliás, tal modelo de estruturação da história a mostrar uma banda de Rock, cujos membros morassem juntos como se fossem irmãos e a misturar as suas atividades musicais com mil confusões em seu cotidiano, inspirou diretamente os produtores da série de TV norte-americana, “The Monkees”, pouco tempo após o lançamento deste filme, a criá-la, não há dúvida.
Sobre o filme em si, a história inicia-se em meio a um ritual macabro a envolver o sacrifício humano de uma moça, possivelmente situado em algum obscuro ponto em meio à selva de um país asiático, provavelmente algo entre a Índia; Bangladesh; Paquistão ou Sri Lanka, ou seja, onde o Império Britânico esteve a dominar e a gerar assim uma identificação imediata pelos trejeitos e sotaques observados, com os ingleses a exercer um processo de controle. 
No momento em que a moça vai ser abatida, a sacerdotisa, Ahme (interpretada por Eleanor Bran), interrompe o sacerdote, Swami Clang (interpretado por Leo McKern), ao observar que o ritual não pode ser cumprido, visto que a moça a ser sacrificada está sem o anel considerado sagrado por tal seita e imediatamente vê-se em um telão, uma aparição dos Beatles a cantar a música título do filme, “Help”, com foco nas mãos de Ringo Starr, onde entre vários anéis que ele de fato costumava usar (o apelido “Ringo” foi gerado por ele chamar-se, Richard, mas também pelo fato dele ser conhecido, desde sempre, por gostar em usar anéis espalhafatosos e a palavra, “Ring”, significar anel, em inglês). Imediatamente, os membros da seita ficam enlouquecidos por ver o anel ritual no dedo do Rock Star e vão à Londres com o intuito em capturá-lo e é bom observar que em sua crença, quem o usa, é o eleito para ser sacrificado à Deusa Kali (nesta comitiva está incluso um terceiro elemento, chamado Bhuta, interpretado por John Bluthal). 
Pausa para comentar que essa ideia não foi aleatória, mas fez alusão à seita conhecida como: “Thuggees”, que existiu na Índia medieval e que costumava realizar sacrifícios humanos em favor de tal Deusa, com a intenção de garantir benefícios da parte dessa divindade, supostamente. Em suma, houve um mínimo de pesquisa, mesmo que a real intenção no filme tenha sido satirizar a questão. Bem, para gerar mais emoção à história, Ringo está com um problema em relação ao anel, pois ele simplesmente não sai do seu dedo. Portanto, eis que nesse pequeno detalhe de ordem anatômica, fica sustentada toda a ação do filme, pois é em torno da perseguição à Ringo Starr, que tudo vai acontecer.
Muito bem, então essa comissão formada por membros de tal seita fanática, vai a Londres e tenta através de diversas artimanhas, resgatar o anel, ao ameaçar Ringo em primeira instância, e aos seus demais companheiros de banda, por conseguinte. Em meio à muitas cenas hilárias para mostrar tal perseguição, é óbvio que as gags são montadas para provocar o humor, em via de regra, no entanto, são construídas dentro do parâmetro que eu observei anteriormente, ou seja, a orientar-se pelo campo da aventura, sobretudo, mas a trazer no bojo a ação de filmes policiais e a envolver conspirações em geral. 
Nesses termos, cenas ocorridas em um restaurante indiano em Londres, são hilárias, assim como a tentativa de Ringo em buscar apoio de um joalheiro para tirar o tal anel de seu dedo, mas pelo fato desse ornamento estar constituído por algum tipo de material imantado por alguma força sobrenatural que o valha, eis que as ferramentas do joalheiro quebram e o anel permanece intacto. É pior ainda quando Ringo procura um laboratório científico e submete-se a um tipo de experimento avantgarde e mediante tal máquina futurista, caem todos os anéis de suas mãos, menos o que ele precisa tirar... ora, o filme precisava continuar, não era o momento ainda para livrar-se dele. 
Neste ponto em particular, os cientistas malucos, “Foot” (interpretado por Victor Spinetti) e Algernon (interpretado por Roy Kinnear), ficam impressionados com a indestrutibilidade do material que compõe o anel e também passam a perseguir Ringo, ao vislumbrar a possibilidade em amealhar tal artefato para os seus propósitos pseudocientíficos. Ou seja, Ringo e os demais, ganham mais dois perseguidores.
A permear tais trapalhadas, mostra-se o cotidiano fictício dos componentes dos Beatles. Uma cena emblemática revela-os a chegar da rua e cada um entra em uma casa, a denotar que são vizinhos. Senhoras idosas que moram nos arredores, comentam entre si que gostam deles, pois são rapazes ordeiros, para reforçar a ideia que nem todo cabeludo seria uma ameaça à sociedade. No entanto quando a cena é vista pela perspectiva interna da casa, descobre-se que a casa é uma só, e em seu interior, eles vivem em meio a uma série de engenhocas a conferir um aspecto futurista e tecnológico aos padrões da época (1965), e certamente a buscar tal referência em meio aos filmes de James Bond, como já eu comentei antes.
Ahme anuncia que na impossibilidade do anel ser capturado, declara Ringo Starr como a pessoa a ser sacrificada, para piorar a situação do baterista dos Beatles. Uma artimanha inacreditável é feita quando um líquido preparado pelos membros da seita é injetado por engano na perna de Paul McCartney, ao invés de Ringo e ele encolhe, literalmente, para ficar inteiramente nu, e assim indefeso, protege-se ao entrar dentro de um cinzeiro, ou seja, a denotar algo bizarro. Foot e Algernon também estão na cena com o objetivo de apanhar o anel para si e isso gera mais confusão ainda. 
A banda resolve fugir para a Áustria e de fato, as cenas a seguir são realizadas em uma pista de neve, típica para a prática do ski. É dessas cenas com os membros dos Beatles super agasalhados, que saiu a capa do álbum, “Help”, com os quatro a usar vestimentas especiais para suportar o frio extremo e a sinalizar com os braços o código de pedido de socorro, que corresponde à palavra “Help”, na tradução literal. 
Em meio à perseguição, vemos os Beatles a fugir sob skis e interferir em uma corrida. Há também o jogo do “curling”, um esporte típico para ambientes com neve e um desses artefatos, estaria carregado com uma bomba pelos perseguidores. Uma gag absolutamente nonsense, ocorre, quando em meio à neve, o roadie dos Beatles, Mal Evans, aparece a nadar em buraco estabelecido aleatoriamente e este improvável nadador pergunta aos rapazes para que lado fica o penhasco branco de Dover (que vem a ser um rochedo belíssimo, por sinal e localizado na costa da Inglaterra), como se estivesse a pedir uma informação de um endereço em um ambiente urbano. Passada essa cena bizarra, fora do contexto, e sem outra saída para escapar de seus algozes, Ringo e os seus amigos voltam para a Inglaterra.
Em princípio, a Scotland Yard vai finalmente proteger os rapazes, entretanto, a corporação designa para tal missão, um inspetor fraco, chamado: Gluck (interpretado por Patrick Cargill). Vem então a famosa cena em que os Beatles tocam em um campo aberto, com a proteção do exército real britânico, mediante a presença de tanques de guerra e soldados armados por todos os lados (tal cena foi filmada na planície de Salisbury). 
A seguir, os Beatles escondem-se em um palácio e quase são capturados pelo tresloucado, Foot. Em outra cena, a banda chega a um Pub e quando Ringo tenta apanhar o seu copo e não consegue alcançá-lo, George Harrison acidentalmente mexe em uma alavanca e tal ato aparentemente banal, abre um alçapão, onde Ringo cai. Tratava- se de uma armadilha preparada pelos membros da seita. Ringo cai em uma espécie de calabouço, onde um feroz tigre está ali presente. Como sair dessa situação? Eis que o inspetor, Gluck instrui os rapazes a adotar uma medida bizarra: o animal é controlado se ouvir a melodia principal, oriunda da nona sinfonia de Beethoven. Ringo a assovia e em seguida, todos que tentam resgatá-lo, reforçam o coro improvisado (e desafinado). Essa resolução é tão nonsense que nem é possível acreditar que tal cena tenha sido escrita com a intenção humorística.
A banda viaja para as Bahamas e ali, em meio a uma ambiente praiano, mesmo em meio ao perigo do qual fogem, parecem turistas “bon vivant” a aproveitar a vida, inclusive cercados por belas garotas a usar biquínis insinuantes etc. e tal. Logo aparecem os membros da seita fanática, os cientistas inescrupulosos e os agentes da Scotland Yard a propiciar correrias desenfreadas. 
Os outros membros da banda usam máscaras com as feições de Ringo para despistar os seus perseguidores, mas não houve escapatória, Ringo foi finalmente capturado, por Foot, a bordo de um navio pirata, e o cientista maluco, obcecado pelo anel, planeja cortar o dedo de Ringo, sem nenhum pudor. Ahme, a sacerdotisa, aparece e oferece à Foot, um frasco a conter uma essência de uma certa orquídea, que conteria poderes sobrenaturais. 
Clara menção às drogas alucinógenas, foi o momento lisérgico do filme, embora com 1965 em pleno curso, esse tipo de abordagem ainda não fosse a pauta do dia, fator que entraria em maior visibilidade, a partir de 1966, de uma maneira geral. 
Ringo e Ahme caem na água e são resgatados pelos membros da seita. Na praia, Clang inicia rapidamente o ritual para concluir finalmente o objetivo dos fanáticos. No entanto, a cena torna-se um inevitável pastelão, pois o anel cai do dedo de Ringo, miraculosamente, e este ao sinalizar para os seus companheiros, percebe que a solução definitiva para tirá-lo do perigo, seria apanhá-lo na areia e rapidamente colocá-lo no dedo de Ahme e assim transferir a indicação de sacrifício, para ela. No entanto, Ahme, por sua vez, tenta passar o anel para Foot, ou seja, torna-se uma confusão generalizada ao estilo dos filmes dos Irmãos Marx, como os componentes dos Beatles realmente declararam ter buscado inspiração para atuar.
Para finalizar e esta é uma informação vital (estou a brincar, leitor): quem finalmente vê-se com o anel no dedo, é Bhuta, um dos membros da seita e ele passa a ser o novo perseguido pelos demais. O nadador que aparecera nos Alpes austríacos (interpretado por Mal Evans), surge novamente a procurar o caminho marítimo para atingir os rochedos brancos de Dover e uma máquina de costura aparece na praia, mediante uma tarja que afirma homenagear o invento de tal máquina, o senhor, Elias Wowe, em 1846, e sobre tal final inusitado, eu creio que nem merece ser analisado, acredito, em face ao seu caráter abstrato, para ser bem gentil, com o autor da ideia. Nos créditos, ao som da abertura da Ópera, “O Barbeiro de Sevilha”, o anel é colocado em destaque e os Beatles ainda interagem com gracejos.Fim da história.
Bem, se visto com a ótica conservadora, o filme é tolo e constrangedor em muitos aspectos. No entanto, sob uma visão mais livre, enxerga-se no todo, uma boa tentativa de se misturar muitos conceitos, para tornar a obra mais substancial do que um simples registro da banda a tocar. Por outro lado, talvez a pensar no anseio padrão dos Beatlemaníacos, isso teria sido ainda mais conveniente do que assistir a banda na tela com a preocupação de ver os seus ídolos a atuar como atores e sobretudo com a obrigação em conter uma história a justificar a dramaturgia. Creio que entre os quatro componentes, somente Ringo Starr apresentava um certo potencial para aventurar-se como ator, e não foi à toa que isso já havia sido notado no filme anterior, “ Hard Day’s Night” e seria também aproveitado no filme posterior, o telemovie, “Magical Mystery Tour”, que seria filmado e lançado em 1967. 
Tenho certeza no entanto, que cansaço a parte em ter que enfrentar as agruras de um set de cinema, sem deter traquejo para serem atores (já falei da exceção sobre Ringo), os componentes da banda divertiram-se em participar dessa aventura, sem dúvida alguma. Da parte de Brian Epstein, o empresário dos Beatles, certamente que o filme representou uma oportunidade para fomentar ainda mais a fama da banda, que nessa altura já mostrava-se consolidada em âmbito mundial, no entanto, a ambição ampliar esse domínio,´por incrível que pareça. Sob o ponto de vista de George Martin, o produtor musical da banda e dos executivos da gravadora EMI, claro que o filme atrelado ao álbum foi ótimo para os negócios, igualmente. E finalmente para o diretor, Richard Lester, foi a oportunidade em mostrar mais serviço, visto que em “A Hard Day’s Night”, que ele também dirigira, o roteiro bem mais simples, não deu-lhe a oportunidade para trabalhar com algo mais substancial. Portanto, “Help” foi uma peça importante para a banda e igualmente para todos os que trabalharam ou usufruíram dessa peça cinematográfica, à época. 
As críticas recebidas à época, da parte da imprensa, dividiram-se. Alguns mais ortodoxos, certamente que não foram benevolentes com o filme, mas isso já fora esperado, certamente pela produção. O importante foi que a despeito de certas opiniões em contrário, o filme deslizou facilmente sobre a fama que a banda já ostentava sob um patamar inimaginável. 
Para ilustrar, e trazer assim uma lembrança pessoal minha, eu não assisti o filme em uma sala de cinema à época, pois detinha entre cinco e seis anos de idade na ocasião, mas conheço pessoas mais velhas que tiveram essa oportunidade e jamais esqueço-me do depoimento da esposa de um tecladista com o qual eu toquei em uma banda, no início dos anos oitenta, ao contar-me que fora adolescente na época e assistira “Help” no cinema, por sessenta e três vezes seguidas. 
Esse grau de entusiasmo do qual ela relatou-me, mensura bem o comprometimento dos jovens com a banda, no calor de seu lançamento. Neste caso, é preciso salientar que os meios de comunicação disponíveis nos anos sessenta, eram terrivelmente limitados, portanto, um filme (neste caso, o segundo, com os Beatles a protagonizá-lo e a conter músicas inéditas), no imaginário do jovem fã dessa banda à época, foi algo grandioso ao extremo. Bem diferente da juventude atual, que acostumou-se a ter qualquer conteúdo disponível através da internet, no momento em que assim o desejar, vinte e quatro horas por dia. Em suma, o impacto de “Help” em 1965, foi enorme, e muito maior revela-se, se analisado pelo prisma da proporção em relação aos meios possíveis daquela época em termos de difusão.
Sobre a música, eis a melhor parte, sem dúvida, sem demérito à dramaturgia; roteiro, mote e produção em geral, mas claro que ao tratar-se de Beatles, seria o caso de relembrar o comercial protagonizado pelo genial compositor, Adoniran Barbosa, difundido na TV brasileira nos anos setenta, quando ao fazer propaganda de uma marca de cerveja, dizia: -“nós viemos aqui para beber ou para conversar?” Pois é, independente do filme, o que interessa mesmo é o som dos Beatles, ou estou a exagerar? Nesse quesito, a banda não desapontou de forma alguma. 
“Help” marca exatamente a linha divisória entra as duas fases criativas na história dos Beatles, em termos musicais. Foi o último álbum a manter a sonoridade inicial do grupo, em torno do Rock’n’Roll tradicional com raízes cinquentistas, R’n’B, Baladas e Folk Music de uma forma bem ampla, em linhas gerais. Daí em diante, ainda em 1965, mas já através do álbum, “Rubber Soul”, a banda passou a experimentar e ousar, sobretudo e em 1966, com o lançamento do LP “Revolver”, isso escancarou-se de vez, ao abrir caminho para o LP “Sgtº Pepper’s Lonely Hearts Club Band” em 1967, e assim em diante. No entanto, não é demérito algum classificar,“Help”, como um trabalho a representar a primeira fase da banda, pois mesmo a soar com bastante simplicidade musical e sobretudo a usar de uma linha de poesia bem ingênua nessa fase, ao citar as letras das músicas, o trabalho tem muitos méritos.
Além da canção “Help” (que é muito forte por si só), título do álbum e do filme, é muito significativa a presença de óticas canções tais como: “Ticket to Ride” (esta, uma excelente peça, por sinal), “You’re Going to Lose That Girl”, You’ve Got to Hide Your Love Away”, “I Need You”, The Night Before e “Another Girl”, além de menções à outras canções do repertório da banda, inseridas na trilha, como “A Hard Day’s Night”, “I’m Happy Just to Dance With You”, “You Cant’ Do That” e “From Me to You”. O repertório do álbum, foi baseado nas canções especialmente feitas para compor a trilha do filme (as sete primeiras que eu citei), e reforçados por mais algumas músicas que haviam sido lançadas recentemente em formato “single” (compacto).
O filme foi lançado com pompa e circunstância, naturalmente, no London Pavillion Theatre de Londres, em 29 de julho de 1965, com a presença da Princesa Margaret, duquesa de Snowdon na plateia a prestigiar o lançamento, o que denotou a importância que a família Real Britânica devotou ao quarteto, tamanho o seu benefício já expressivo na ocasião, em termos de royalties a reverter em impostos para o fisco inglês. Houve época em que os Beatles renderam tanto, que tal cifra entrou para a estatística do governo, como uma dos maiores geradores de PIB do Reino Unido, ou seja, como se The Beatles fosse uma mega empresa industrial ou do ramo primário das commodities. E não por acaso, a Rainha Elizabeth ofertou comandas aos quatro componentes da banda, exatamente dois meses depois, em cerimônia oficial, realizada em 29 de setembro de 1965.
“Help” foi escrito por Marc Behn, com roteiro do próprio, Marc Behn e Charles Wood. Produção de Walter Shenson. Direção de Richard Lester, um diretor norte-americano que era radicado na Inglaterra e entrou para o imaginário dos fãs dos Beatles como um agregado da carreira da banda, por ter dirigido os dois primeiros filmes do grupo: “A Hard Day’s Night” e “Help”. 

Tirante o sucesso mastodôntico que o filme obteve nas salas de cinema, obviamente que seguiu a cadeia natural da exibição, ao passar na TV, mas com uma certa parcimônia, visto que o controle sobre a obra dos Beatles sempre foi muito mais restrito do que outros artistas, portanto, a ideia sempre foi monetizar ao máximo a obra. Em cima desse conceito, a quantidade de versões que foram lançadas deste e de outros filmes da banda, é grande, em todos os formatos e muitas vezes a repetir lançamentos dentro do mesmo formato, a apresentar versões com extras ou sob mixagem e/ou masterização diferenciada ou a inventar Kits com a inclusão de produtos adicionais como camisetas, bonés e outros, para incentivar o consumo do mesmo produto, por diversas vezes. 

Na internet para achar um portal que exiba gratuitamente tal filme na íntegra, é muito difícil por conta das restrições legais. A despeito desse mercantilismo exacerbado, é claro que eu recomendo assistir o filme, “Help”, pois a música dos Beatles sempre valerá a pena, e o filme em si é para ser encarado nos dias atuais como algo divertido, sem a necessidade do espectador preocupar-se em buscar sinais metafóricos, na obra, pois não há o menor sinal de profundidade, mesmo que tenha-se abusado da inserção de colocações bizarras dentro desse roteiro. 

Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll, através do seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 198.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Filme: A Hard Day's Night (Os Reis do Iê-Iê-Iê) - Por Luiz Domingues



Em 1963, os Beatles estavam a todo vapor, a usufruir de sua fama que mal dera os seus primeiros passos, entretanto tal banda já demonstrava que alcançaria uma projeção muito além do comum. Por volta de outubro desse ano, uma proposta, em meio a tantas outras esfuziantes, chegou à mesa de seu empresário, o astuto, Brian Epstein, e veio a calhar para estimular ainda mais o sucesso da banda. Tal ideia partira da parte do famoso estúdio de cinema, United Artists, dos Estados Unidos, que propôs a produção de um filme com os rapazes.
                     O empresário dos Beatles, Brian Epstein

Isso aconteceu quatro meses antes da 1ª excursão que Epstein estava a programar para os rapazes na América do Norte, que já estava devidamente alinhavada com a aparição que estava a ser agendada no programa de variedades de Ed Sullivan, um comunicador de TV norte-americano e mega popular, por sinal, cuja audiência era mastodôntica, desde os anos cinquenta, por ser assistido por milhões de famílias naquele país, todos os domingos. 

Sendo assim, se o Reino Unido já vivia fortemente a histeria provocada pela Beatlemania e isso estava a espalhar-se muito rapidamente pelo restante da Europa, com tais ações a serem marcadas na América do Norte, faltava um triz para a banda estourar mundialmente, e de fato, foi o que ocorreu a seguir.
Claro que Epstein aceitou a proposta e rapidamente a produção pôs-se a ser amadurecida a toque de caixa. Há por considerar-se no entanto, que a banda vivia a loucura das turnês exaustivas, ao aproveitar ao máximo o sucesso retumbante em clima de avalanche e o tempo e por consequência, ao mostrar-se como uma típica estratégia das gravadoras na época, para lançar "singles", sistematicamente entre os LP's  oficiais, a visar alimentar o mercado sempre com novidades, além de manter a banda na briga pelos "chart's" (paradas de sucessos), em torno das músicas mais executadas nas emissoras de rádio e a contar com os seus discos na posição entre os mais vendidos nas lojas. No entanto, bem jovens que os seus componentes eram na ocasião, o fato de acumular filmagens em meio a esse frenesi, não foi nada de mais e assim, a nova missão foi aceita por todos. 
A respeito da produção do filme, a United Artists sabia que lidava com artistas britânicos e a dinâmica tinha que ser outra, diferente do espírito "yankee". Foram sábios portanto, ao reunir produtores associados e escolher um diretor acostumado a lidar com a fleuma britânica. Para início de conversa, havia um representante da United Artists para o Reino Unido, chamado: George Orstein, que rapidamente incumbiu o produtor, Walter Shenson, a liderar o trabalho. Shenson era bastante experiente em estabelecer essa ponte entre britânicos e norte-americanos, por ter vendido anteriormente, produções audiovisuais do Reino Unido à América do Norte.
O diretor norte-americano, mas muito atuante na Inglaterra nas décadas de 1950 e 1960, Richard Lester

Foi Shenson inclusive que abordou e negociou com o empresário dos Beatles, Epstein, e inteligentemente deu espaço para que este profissionalmente e os próprios componentes da banda pudessem opinar sobre a produção e até sugerir nomes para compor a equipe de trabalho. Foi aí que se chegou ao nome de Richard Lester, um diretor norte-americano, mas que já estava radicado na Inglaterra desde a metade dos anos cinquenta e havia feito vários trabalhos na terra da Rainha. Por que Lester ? 


Os quatro membros dos Beatles adoravam uma série de TV, cujo diretor era Lester e que se chamava: “The Goon Show”, que foi uma comédia tipicamente britânica, com humor sarcástico e que tinha entre os seus protagonistas, o genial, ator/comediante, Peter Sellers. Tal programa fora na verdade uma adaptação do que tais comediantes já faziam no rádio, portanto, era mega popular na Inglaterra, há muitos anos.

O elenco de comediantes do programa, "The Goon Show", que migrou da Rádio (BBC), para a TV. O ator, Peter Sellers é o rapaz que está na parte de cima da foto
 
John Lennon, principalmente, adorava os “Goonies” e muito do seu temperamento ácido, com humor sarcástico, tinha muito a ver com o tipo de humor que ali praticava-se, aliás, uma espécie de humor bem britânico. Para muitos críticos, os “Goonies” são pais honorários do grupo "Monty Phyton", a genial trupe de humor britânica e que explodiria por sua vez, ao final dos anos sessenta.
Enfim, Lennon e os seus companheiros apreciaram a ideia em contar com Richard Lester para a direção e assim, ele foi contratado. Outra figura chave nessa produção, foi Alun Owen, que se tornou o roteirista do filme. Epstein (com o aval dos rapazes, também) o sugeriu por conta da sua fama em conhecer bem o espírito britânico e especificamente a alma de Liverpool, a cidade natal deles. 

Filmes com astros do Rock ou com motivações Rockers, não foi nenhuma novidade em 1963/1964 (na própria Inglaterra, já haviam sido lançados vários filmes com o cantor, Cliff Richard, acompanhado da ótima banda, "The Shadows" e produções avulsas tais como "Some People" e "Live it Up", por exemplo e aliás, filmes estes que constam neste livro, devidamente resenhados), mas houve no entanto, a preocupação em não copiar o modelo, principalmente dos filmes de Elvis Presley, visto tratar-se de motivações completamente diferentes e um fato mostrou-se cabal: Elvis havia adquirido com a prática, traquejo como ator e os quatro componentes dos Beatles, nem cogitavam tentar aventurar-se nesse campo. 

Portanto, surgiu a ideia de se produzir um filme que fosse camuflado como documentário, ao misturar ficção, com atores de apoio e ao mesmo tempo a retratar a rotina dos artistas, em meio aos seus compromissos habituais com gravações; shows ao vivo e intervenções de divulgação, notadamente em programas de TV.
Outra questão importante, foi explorar ao máximo a histeria coletiva que forjara-se ao redor dos rapazes, não só a retratar a Beatlemania pelo seu aspecto positivo, em termos de sucesso artístico galopante da parte dos Beatles, mas também o lado ruim disso, com o aspecto humano a ser sacrificado, visto que nenhum dos rapazes podia mais andar pelas ruas, livremente, nessa altura dos acontecimentos sem que houvesse uma convulsão frenética por conta de fãs ensandecidas, portanto a caracterizar-se como uma espécie de preço caro que a fama cobrou-lhes. As filmagens ocorreram entre março e abril de 1964, ou seja, logo após a banda voltar consagrada da América do Norte e a aumentar a sua fama ainda mais, sob uma proporção inimaginável para os padrões da época. 

Foram seis semanas de filmagens e intercaladas com os shows que não paravam, inclusive com escala em Paris. Usou-se os estúdios Twickenwam de Londres (onde inúmeros filmes famosos do cinema britânico foram feitos), além de locações de rua, que imagino, devem ter sido dificílimas de executar-se pela questão da fama dos Beatles e não por acaso, eu já li declarações de Richard Lester a afirmar que adorava aquela balburdia para trabalhar com cenas em externas. 
Sobre o filme em si, o roteiro é bem simples. Mostra os Beatles a sair de Liverpool para Londres, e para tal missão a usar o trem, e na capital inglesa, o objetivo seria a participação da banda para tocar ao vivo em um programa de TV. Ou seja, nada muito diferente da rotina dos rapazes, quando enfrentavam o cotidiano massacrante de um artista em franca ascensão na carreira e sob parâmetros de um conforto logístico bem improvisado, visto que a produção musical para mega eventos era insípida naquela época. 

O toque de dubiedade a justificar o filme como metade ficção e não apenas um documentário realista, ficou baseado nas “gags” de humor perpetradas pelas situações criadas ao longo desse dia longo, que culminaria na noite dura de um dia difícil (A Hard Day’s Night)...
Portanto, a ideia dos rapazes de correr para fugir de multidões de fãs enlouquecidos, não revelou-se nada diferente da vida normal que estavam a ter e as inúmeras situações bizarras que enfrentavam para driblar a perseguição, foram hilárias é bem verdade, mas também tratou-se de artifícios que usavam para tal finalidade na vida real. Dessa forma, sair e entrar em carros, freneticamente, para despistar as meninas tresloucadas ou usar disfarces bizarros, fez parte da rotina na vida real deles, naquele instante, mas simultaneamente, tornou-se um conjunto com ótimas ideias para usar-se no filme, no melhor sentido do humor "pastelão". Há quem diga que lembra o estilo de humor dos primórdios do cinema mudo e há um certo sentido nessa informação.

John Lennon, Paul McCartney e o ator, Victor Spinetti, em cena do filme, A Hard Day's Night. Esse ator foi recorrente em outros filmes com os Beatles.

Logo que os quatro componentes  dos Beatles chegam ao trem, são muitas as cenas ambientadas nas cabines, carro restaurante etc. Ali, com menos ação e mais diálogos, o efeito “Goonies” fez-se presente, com várias piadas sarcásticas, para mostrar os rapazes como jovens irreverentes, mas com uma certa altivez, um deboche a la Oscar Wilde, digamos assim. Ele estão acompanhados de dois assessores, a saber: um “roadie”(para quem não sabe, “roadie” é a designação para funcionários que trabalham para artistas musicais e que cuidam de seus instrumentos e equipamentos, prioritariamente, mas culminam em fazer serviços gerais, muitas vezes), interpretado por Norman Rossington; e um produtor de TV, interpretado por Victor Spinneti. O ator, Kenneth Haigh, fez o produtor do programa onde os Beatles apresentam-se ao final da película.
Paul McCartney e o ator, Wilfred Bambell, que interpretou o seu avô trapaceiro, em tal filme

Todavia, o personagem mais hilário nesse elenco de apoio, foi o do ator, Wilfred Bambell, ao interpretar o suposto avô de Paul McCartney, que viajou junto à banda e tratou por criar confusões múltiplas ao longo da jornada, ao reforçar em muito o sentido de humor no filme.
Em meio à viagem de trem, eles tocam, como a simular um ensaio e assim otimizar o tempo perdido sobre os trilhos. Ali nessas cenas, para justificar o mote primordial do filme, os Beatles apresentam a canção: “I Shoud Have no Better”.
Nos vagões desse trem, algumas fãs estão presentes, e entre elas, Patricia Boyd, conhecida pelo apelido, "Patty", que dois anos depois, casar-se-ia com George Harrison na vida real. Em sua homenagem, Harrison comporia anos depois, uma das mais lindas canções dos Beatles, “Something”.
 
Outra curiosidade nas cenas do filme, um jovem adolescente ali a atuar como um figurante desconhecido, tornar-se-ia alguns anos depois, em um dos bateristas mais sensacionais do Rock britânico, um certo, Phil Collins, baterista do Genesis, uma das maiores bandas de Rock Progressivo dos anos setenta e que também ficaria famoso nos anos oitenta, por lançar-se como cantor Pop, em carreira solo mediante a obtenção de muito sucesso.

Em meio a confusões geradas em quartos de hotéis e com o avô de Paul McCartney a criar problemas em rodadas de carteados, eis que os Beatles tocam : “Don’t Bother Me”, significativa canção ali executada, ao dizer-se, “não aborreça-me”, quando milhões de pessoas corriam atrás deles para arrancar-lhes as vestes... e também, “All my Loving”. Daí em diante eles participam de um cocktail típico em tom de “press conference”, uma das obrigações mais massacrantes que músicos tem que enfrentar quando ficam famosos, ou seja, as famosas: “coletivas de imprensa”.


Nesse aspecto, Richard Lester foi esperto ao dar vazão aos sarcasmos nos diálogos propostos pelo roteirista, Alun Owen, e sob um ritmo ágil e inovador para a época, eis que se editou os quatro Beatles a responder perguntas maçantes dos jornalistas, de uma forma desconcertante, em tom de deboche. São famosas as frases que depois do filme, tornaram-se jargões entre os Beatlemaníacos. Por exemplo, quando perguntam à George Harrison sobre como qualificaria o seu corte de cabelo (e o comprimento dos cabelos era algo que chocava a sociedade da época, acostumada com o padrão militarizado dos cortes curtos para homens, desde meados do século XIX), e este responde-lhe cinicamente: “Arthur”. 

Outra boa colocação, foi quando perguntam para John Lennon como ele viu os Estados Unidos e ele respondeu com mais cinismo: "virei à direita depois de passar a "Groelândia"...
E talvez a mais famosa, embora quem não seja britânico e não conheça a cultura Rocker, não a entenda plenamente. Uma repórter pergunta para Ringo Starr se ele se considerava um "Mod" ou um "Rocker" e ele responde de forma bizarra: -“Sou um Mocker”, ao misturar os dois conceitos. Para explicar rapidamente como adendo, a Inglaterra vivia o auge do movimento, “Mod, naquele instante. Em linhas gerais, sem alongar-me, os Mods eram jovens ultra-nacionalistas e que odiavam os Rockers, a quem acusavam de ser “americanizados”. Portanto, estes só apoiavam bandas britânicas e mantinham em seu modo de vestir-se e portar-se, baseados nesse nacionalismo exacerbado. 

A seguir, a banda executa: “If I Fell” no estúdio de TV e mais confusões são geradas nos bastidores, principalmente pelo avô embusteiro de Paul.
Quando soa os primeiros acordes da canção : “Can’t Buy me Love”, uma sucessão de cenas com os quatro a fazer maluquices ao ar livre, tornou-se icônicas nos anos sessenta. Muitas bandas repetiram tal tipo de cena em promos feitos para a TV. Vistas com rigor, mostram bastante ingenuidade aos olhos atuais, porém, ao pensar-se que foram concebidas há mais de cinquenta anos atrás (1964/2026), dá-se o desconto devido de ter sido uma outra época bem diferente. 

 
George Harrison é confundido com um ator nos bastidores e todos brincam com barbas postiças e figurinos que acham nos camarins, a denotar uma criancice irreverente para os padrões da época. Enquanto isso, o ardiloso “avô” de Paul, encontra muito material fotográfico da banda e passa a falsificar os autógrafos dos componentes do grupo, com o intuito de vendê-los mais caros do que o normal aos fãs. O ator, Ronaldo Golias na pele do personagem, “Bronco Dinossauro”, teria feito o mesmo, certamente. 

The Beatles tocam a seguir: “And I Love Her”, uma balada belíssima e sim, com uma latinidade explícita, ao mostrar-se quase como um bolero latinoamericano.
Quando os rapazes chegam ao estúdio novamente, um grupo de dança ensaia uma coreografia ao som de: “I’m Happy Just to Dance With You”, sob uma versão jazzística e orquestrada, que surpreende pela sua beleza. Ao pensar detidamente nesse pormenor, a banda mal havia iniciado a sua escalada de sucesso e já havia tornado-se uma referência para rearranjos interessantes de suas canções, por parte de outros músicos, inclusive de vertentes estéticas distintas... e isso fora só o começo para eles.
Uma cena que eu adoro, é a escapada de Ringo Starr, ao disfarçar-se e assim caminhar incólume pelas ruas de Londres. Chega a ser poético e ouso dizer, parece cena de filmes do diretor, Tony Richardson, a retratar o cotidiano de personagens simples do povo, a dita classe operária, aqueles ingleses mais rudes, trabalhadores de fábricas, a expressar-se com sotaque cockney, e mediante uma vida dura, cuja única diversão além das bebedeiras em Pubs, é frequentar estádios de futebol aos domingos e cantar em plenos pulmões o hino: “You’ll Never Walk Alone”, mesmo se o seu time estiver a perder o jogo. 

Ringo brinca com garotos de rua; joga pedras no rio, deita e fica a olhar a paisagem... cáspite, um Beatle humano, igualzinho a qualquer um de nós, grande “Ringão”, nosso amigo...
Claro, a cena prolonga-se e para voltar o ritmo de humor e frenesi, Ringo mete-se em confusão para ser detido pela polícia. Revela-se hilária a cena com o policial a anotar em uma caderneta, as supostas esquisitices que observou no comportamento do narigudo cabeludo. Nesse ínterim, o avô de Paul é preso na mesma delegacia, acusado em vender material de propaganda da banda, com falsos autógrafos, o que foi verdade, afinal de contas, visto ser este senhor, um idoso larápio.
Se algumas pessoas achavam haver influência de filmes mudos das décadas de dez e vinte neste filme, agora tal fator escancara-se, com os demais membros dos Beatles a invadir a delegacia para libertar Ringo e o avô de Paul, com todos desesperados por outro motivo, pois estava em cima da hora para a apresentação derradeira da noite, no estúdio de uma emissora de TV, desta feita com público presente no auditório. Essa cena, sim, lembra muito o “Comedy Capers”.
Dali em diante, os Beatles tocam várias canções e Richard Lester soube captar as expressões das fãs, quase histéricas, e a significar em sua leitura labial ao pronunciar com volúpia assustadora os nomes dos quatro membros da banda. Chega a ser impressionante notar tal frenesi que inclusive foi muito comentado por críticos na época, em resenhas publicadas nos principais jornais britânicos. 

No “set list” desse momento do filme, executa-se as músicas: “Tell me Why”, If I Fell (desta vez mais a ver com o arranjo original, eletrizada com guitarras); “I Should Have Know Better (de novo, também); She Loves You e “A Hard Day’s Night”, fecha a sequência e o filme.


Gosto bastante da fotografia em PB (assinada por Gilbert Taylor), com bastante contraste. É muito anos sessenta; tem tudo a ver com o então “novo” cinema britânico que já citei anteriormente quando falei sobre Tony Richardson e tem a ver também com a Nouvelle Vague francesa, sem dúvida alguma.
Ao comentar sobre as músicas em si, o som dessa fase dos Beatles foi permeado pelo Rock’n' Roll em estado bruto e com total influência do Rock cinquentista norte-americano e daí, veio por tabela a raiz do Blues, naturalmente. Porém houve também muita influência do R’n’B, igualmente americanizado, além de ritmos britânicos como Jambalaya e Skiffle, bem populares nos anos cinquenta na Inglaterra e que certamente influenciou a banda.

Doses generosas de música Folk em geral e o cancioneiro britânico e europeu dos anos trinta a cinquenta do século passado, também fizeram parte dessa receita, além de uma surpreendente latinidade de viés sulamericano e hispânico, sobretudo, visto haver uma pitada de bolero nesse bolo. 

E para fechar, o Pop Rock típico dessa metade de década de sessenta e que era chamado pejorativamente como: “Bubblegum”, ou seja, música com refrães “pegajosos” que literalmente eram concebidas para grudar na memória das pessoas, a provocar-lhes propositalmente, a vontade para cantarolá-las, assoviá-las etc. E nesse quesito, os Beatles tiveram a felicidade de criar músicas muito eficazes nessa fase inicial da carreira, ao ajudar a alavancar a sua fama. Sem esse impulso inicial tão certeiro, e sem a fama que ganhou, não seria possível ter tido a oportunidade para obter a segunda fase na carreira, quando após 1966, tornaram-se também artistas muito mais profunda sob o ponto de vista da criação e assim, a legar-nos uma obra mais robusta, com consistência suficiente para eternizá-los na história do Rock e da música em geral.

Sobre essa última música e que tem título homônimo ao filme, foi através de uma inspiração de Ringo Starr que surgiu a ideia primordial para a canção e creio, definiu o mote para o filme. De fato, “a noite de um dia duro” caiu como uma luva para roteirizar um filme permeado por um dia inteiro na rotina dos Beatles, e com muita ação; música e humor.
E foi providencial também, pois até surgir a canção, a ideia inicial seria que o filme chamasse-se: “Beatlemania”. Não teria sido uma má ideia em princípio, mas acredito que, “A Hard Day’s Night", caiu bem melhor, ao conferir-lhe um sentido mais artístico e dessa forma extrair o aspecto meramente documental que o outro título poderia sugerir. 

Então, quando o filme foi lançado em Londres, em julho de 1964, foi um estouro tão grande, que só fez aumentar a avalanche que a banda já causava pela explosão radiofônica de suas músicas; o barulho da imprensa, a gritaria das fãs etc.
Seis canções foram compostas especialmente para o filme, mas para rechear o LP, outras foram inclusas, e assim, o LP “A Hard Day’s Night" extrapolou a ideia de ser uma trilha de filme apenas, para entrar para a discografia da banda, como um álbum oficial.
O lançamento do filme foi um estrondo em Londres, com a avant première a contar com a presença da princesa, Margaret, na plateia.

Em Liverpool, a cidade dos rapazes, cem mil pessoas fizeram um cortejo até o aeroporto para recebê-los, além da homenagem oficial prestada pelo prefeito da cidade. 1964 e boom ! 
The Beatles não era mais um objeto de idolatria fomentada pela Beatlemania, somente entre os jovens ingleses, mas havia tornado-se um fenômeno mundial consolidado e o filme em si, foi apenas mais uma bola de neve a descer montanha abaixo, por que a avalanche apresentara várias motivações para ter ocorrido e não uma apenas. 

Um ano depois, e a parceria entre Beatles e Richard Lester seria feliz mais uma vez, mas essa outra história eu conto em outra resenha. Logo mais, falo sobre uma situação de perigo em que eles se envolveram, quando soltaram o grito de... Socorro!

Cabe acrescentar que entre todos os títulos ridículos que os programadores de cinema no Brasil, inventaram para filmes em língua estrangeira, este foi um dos mais bizarros e infelizes da história. Ocorre que uma parte da mídia brasileira da época, seguramente a parte mais popularesca e ignorante, inventou o termo: "Iê-iê-iê, para designar o Rock'n' Roll, como uma forma simplória e completamente fora da realidade, baseada em sua percepção prosaica de que a expressão: "yeah", recorrente entre norte-americanos e britânicos, fosse uma espécie de manifestação a representar o estilo musical que professavam os seus artistas.

Segundo consta na história, e isso é verdade, John Lennon recebeu uma cópia do LP "A Hard Day's Night", prensado no Brasil, com a inscrição em português: "Os Reis do Iê-Iê-Iê" e ao perguntar o significado daquilo em inglês, Lennon ficou estupefato com a resposta e simplesmente respondeu com uma única palavra: "ridículo". De fato, concordo inteiramente com ele. 

Como já mencionei, en passant, o filme fez um sucesso retumbante nas salas de cinema do mundo inteiro.E a crítica pareceu ter entendido a proposta do filme, em linhas gerais, a realçar tratar-se de uma produção leve e a conter uma dose de humor a contrabalançar os números musicais, notadamente a intenção primordial do filme. Eis algumas opiniões publicadas na ocasião: -"Os Beatles são retratados como jovens simpáticos que são assolados pela sua fama brutal, e na verdade, querem apenas viver em paz, sem esse assédio todo". -"Trata-se de uma sátira à própria Beatlemania". Concordo, tais colocações contiveram fundamento.
Sobre o elenco de apoio, além dos que já foram citados, é preciso acrescentar: o roadie dos Beatles na vida real, Mal Evans, figura recorrente em todos os filmes que o grupo produziu, e que aparece certamente nesta obra, no entanto, de uma forma bem discreta, quase imperceptível, em uma cena onde está a carregar instrumentos, dentro do vagão do trem. E mais: Norman Rossington (como Norm, o agente dos Beatles e fica a pergunta, Brian Epstein foi convidado a interpretar a si mesmo ou simplesmente descartou a hipótese por timidez?), John Junkin (como "Shake", Road Manager da banda), Victor Spinetti (como o diretor do programa de TV, onde a banda apresenta-se e que também participaria com maior destaque, inclusive, do filme posterior dos Beatles, "Help"), Anna Quayle (como Millie), Deryck Guyler (como o sargento da polícia), Richard Vernon (como Johnson, um passageiro do trem), Edward Malin (como um garçom do hotel), Robin Ray (como um produtor de TV), Lionel Blair (como o coreógrafo da TV), Allison Seebohn (secretária) e outros.
Roteiro escrito por Alun Owen. Produção de Walter Shenson. Direção de Richard Lester. Foi lançado em julho de 1964. Naturalmente que o filme chegou com relativa rapidez ao circuito da TV aberta, na época, e a destacar-se que a TV a cabo ainda nem existia. Portanto, foi exibido com muitas reprises ainda nos anos sessenta e a postergar a sua presença até os anos setenta, com frequência, certamente. Em meu caso particular, lembro-me de ter assistido pela primeira vez em 1969, mas seguramente que já estava a ser reprisado desde bem antes. Posteriormente, foi exibido com certeza em canais da TV a cabo e relacionado em mostras a ver com o Rock, anos sessenta em geral, contracultura ou especificamente em mostras temáticas a envolver os Beatles. 

Bem, no campo dos produtos caseiros de alto consumo, é óbvio que o filme foi lançado em todas as plataformas possíveis. da fita VHS, a passar pelo Laser-Disc, DVD e Blu-Ray e em cada uma dessas plataformas, a conter relançamentos com extras e atrativos de merchandising, inseridos em Kits especialmente concebidos para colecionadores. Na Internet, por ser um produto totalmente cercado por normas restritivas sob o ponto de vista comercial e do direito autoral, é difícil achar uma cópia integral e gratuita no YouTube. Mas a driblar restrições, eis que em portais como Vimeo e Dailymotion, mantém-se o filme em cartaz nestes dias de 2016.


Esta resenha foi revista e ampliada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n Roll". Está disponível para a leitura através do seu volume I, a partir da página 344.