terça-feira, 24 de abril de 2012

Compre, Compre, Compre... Carros - Por Luiz Domingues

Em qualquer turbulência econômica que esboce uma crise à vista, o governo corre para socorrer os bancos e a indústria automobilística, à frente de qualquer outro setor da sociedade. 

Isso não depende exatamente de tendência ideológica, embora no caso dos bancos em si, é óbvio que se o governo é orientado por ideais direitistas a balança penda para os detentores do dinheiro. 

É em tese uma prioridade para qualquer governo, no entanto, que no caso da indústria, sejam consideradas vital para se evitar um mal maior na economia geral. Se você for dono de um pequeno comércio de bairro, é melhor que disponha de suas reservas pessoais, pois não receberá ajuda para se se levantar e salvar o seu empreendimento, em caso de uma crise aguda.

Da parte dos bancos, é bem óbvio o comprometimento que políticos conservadores tem, basta pensar nas suas vultuosas campanhas eleitorais etc.
 
Mas e no casa da indústria automobilística? A desculpa na ponta da língua, usada por qualquer governante, é a questão social, que supostamente desequilibrar-se-ia. Se param de fabricar automóveis, quantos empregos diretos e indiretos poderão ser comprometidos?
Quantas centenas de milhares de famílias entrariam em apuros se não se fabricassem mais automóveis? Isso sem contar o setor de autopeças, a colossal indústria petrolífera, os gigantes dos pneumáticos etc.
 
Será que uma redução dessa loucura em torno da produção em massa, realmente causaria esse desequilíbrio social, sempre usado como desculpa? 
 
Pois a contrapartida dessa produção absurda, cobra-nos uma conta gigantesca. Segundo dados que li na mídia recentemente (fonte: O Estado de São Paulo), a expectativa da indústria é vender 3,7 milhões de carros até o final de 2011.
Ora, é sabido que o trânsito está completamente caótico nas grandes e médias cidades. Os índices da poluição, cada vez piores, o aumento da violência em torno dos roubos aos automóveis, são alarmantes, acidentes perpetrados pelos bêbados irresponsáveis, cada vez mais acentuados etc. 
 
O preço cobrado para a aquisição de um carros, deveria ser muito menor, proporcional ao incentivo consumista, mas pelo contrário, são extorsivos, a começar pela absurda carga tributária, o que caracteriza não uma contradição estratégica, mas, mera exploração predatória, mesmo. 
 
Para manter um carro, é preciso preparar o bolso para pagar em dia as altas taxas dele decorrentes. Para se manter a documentação do veículo em dia, é preciso ter uma carteira recheada. 
 
Fora o verdadeiro gargalo das restrições: para se estacionar nas ruas, é preciso pagar uma fortuna, pois as prefeituras transformaram as ruas em seu estacionamento particular, com o advento da dita, "zona azul" e mediante outros dispositivos arrecadatórios. 
 
Por exemplo, em cada esquina, um agente de trânsito trabalha o dia inteiro com um grosso talão de multas, que preenche com uma volúpia sem igual. E como a ação policial deixa a desejar na questão dos assaltos, não dá para ficar sem o caríssimo seguro particular, não é mesmo?

O país pretende se consolidar como uma potência petrolífera, mas nem se cogita um repasse à população, pois o preço dos combustíveis, aqui praticado, é dos mais caros do planeta, como se não houvesse uma só gota de petróleo, saída de nosso território. 
 
E mais um dado visível e triste nessa equação viciada: investimentos em transporte público, são feitos sob passos de tartaruga, certamente em comunhão com a indústria automobilística que deseja apenas vender os seus produtos e com transporte público deficiente, estimula-se a ideia das pessoas comprar seus carros particulares, correto? 
 
O cidadão comum entra em um ônibus, ou vagão de metrô ultra-lotado, chega fatigado ao seu local de trabalho e assim, é levado a raciocinar que é melhor ficar presa no trânsito infernal, mas sentada no seu carrinho particular, munido com ar condicionado e a ouvir música, a ficar espremido como uma sardinha em um veículo público, e ironicamente, parada no mesmo trânsito engarrafado...

Resumo da ópera: está do jeito que eles querem! Compre um carro, compre um carro e compre um carro...

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica em 2011, e republicada no Site/Blog Orra Meu, em 2012

sábado, 21 de abril de 2012

Filme: The Train (O Trem) - Por Luiz Domingues

Entre tantas atrocidades perpetradas pelos nazistas durante a segunda Guerra Mundial, existe a denúncia por conta das pilhagens e demais crimes de natureza civil e nada a ver com a conduta ética de guerra, assegurada por tratados internacionais.  

Nesse cenário permeado por abusos, aliás múltiplos em termos de crimes comuns perpetrados ao se aproveitarem da situação caótica que toda guerra gera por conseguinte, muito se falou do roubo de obras de arte e foi nesse contexto que situou-se o filme: "The Train", lançado em 1964. 

A trama gira em torno dos momentos finais da ocupação imposta pelos nazistas na França, entretanto em seus momentos finais, no ano de 1944, quando já a antever a derrota, se iniciou um recuo. 

Nesse contexto histórico, é sabido que de fato, muitos comboios com trens foram usados para a retirada de tropas, armas e munição, mas sabe-se igualmente, que havia muito material roubado em meio à carga retirada das suas bases de ocupação, a caracterizar um crime de guerra. 

Dessa forma, o filme, "The Train", trata dessa temática, ou seja, ao retratar tal tipo de crime, dramaturgicamente através da obsessão de um personagem fictício a representar tal prática vergonhosa, na persona de um oficial nazista, o Coronel Von Waldhein, vivido pelo bom ator, Paul Scofield, em seu afã de conduzir um trem recheado com obras de arte, a escapulir o mais rápido possível da França e amealhar para si próprio tal tesouro de valor inestimável.

Na ficção, a curadora do museu "Jeu de Paume" faz o alerta do roubo ao entrar em contato rapidamente com a resistência francesa (quem mais poderia auxiliar em uma situação de estado de sítio imposto por uma nação inimiga?), e esta organização clandestina passa a elaborar diversas ações de sabotagem, ao visar retardar ao máximo essa partida do trem. 

Nesse momento, entra em cena a figura do chefe de estação ferroviária, Paul Labiche, protagonizado pelo grande astro, Burt Lancaster. Em princípio, esse personagem é um ferroviário rude e um pouco alheio à questão da guerra em si, no entanto, ele logo se inflama em favor da causa, ao testemunhar o fato de que o seu colega, o maquinista, Papa Boule (Michel Simon), fora executado brutalmente pelos soldados nazistas, após ser flagrado em um ato de sabotagem.

Com Labiche a assumir o comando da locomotiva, mais ações de sabotagem, arquitetadas pelos "maquis" da resistência francesa, transcorrem até o desfecho, até culminar em que as obras são recuperadas e o oficial nazista morre, após um confronto direto e eletrizante com Labiche (Lancaster), ao evocar cenas que movimentam bem a ação, para um filme de guerra, mas não ambientado exatamente no front de batalha e mais a se parecer com um filme com teor policial. 

Esta obra cinematográfica, segundo consta em sua história de produção, deveria ter sido conduzida por Arthur Penn, mas por conta de certos desentendimentos com os produtores, promoveu-se uma ruptura inevitável, após duas semanas com os trabalhos das filmagens em curso, apenas. 

Dessa forma, John Frankenheimer assumiu a direção. O nome de Arthur Penn é creditado como codiretor, mas o trabalho maior foi mesmo de John Frankenheimer.

Com fotografia em preto e branco, o contraste ajudou a realçar a aspereza do ambiente da estação ferroviária, a dramaticidade da situação e de certa forma a firmar um ponto de contradição com o objeto do roubo em si, com toda a beleza das obras de arte e sua profusão de cores, traços & expressão de alta inspiração e sensibilidade artística.

O fato de Burt Lancaster ter sido muito famoso como ator, também por seus atributos acrobáticos, o ajudou certamente a compor o personagem, que foi concebido no roteiro para ser retratado ao se pendurar literalmente na locomotiva, nos vagões e a protagonizar cenas de alta periculosidade não apenas nesse sentido da ambientação insalubre por natureza, mas sobretudo pelo jogo de caça que estabeleceu com os criminosos nazistas em meio às composições do bólido férreo. 

A história foi baseada em fatos reais, com a diferença de que na história oficial, o trem em questão nunca saiu dos arredores de Paris, pois a resistência francesa agiu rapidamente e promoveu ações de sabotagem, muito eficazes. No filme, o comboio ferroviários se põe a avançar, para realçar as ações de sabotagens com maior ênfase.

Ainda no elenco, ótimos atores e atrizes a serem mencionados: Jeanne Moreau, Suzanne Flon, Wolfgang Preiss, Albert Rémy, entre outros. 

Como um fã declarado do diretor John Frankenheimer que eu sou, gosto muito desse filme e o recomendo, naturalmente.

Resenha publicada anteriormente na Revista Eletrônica, Cinema Paradiso, em sua edição de número291, no ano de 2011

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Filme: A Place in The Sun (Um Lugar ao Sol) - Por Luiz Domingues

O mote: "rapaz pobre & moça rica, apaixonados" (ou vice-versa), é o moto perpétuo dos folhetins que são exibidos na TV brasileira, todas as noites há cerca de sessenta anos, ininterruptamente, sob a alcunha de "novelas". Esse tema, nas mãos dos produtores de TV, causa náuseas aos estômagos mais delicados, mas nas mãos de um diretor de cinema chamado, George Stevens, veio a se tornar arte! 
Baseado no romance, "An American Tragedy", de Theodore Dreiser (lançado em 1925), o filme de Stevens conta a história de um rapaz pobre e sem ambições maiores, que envolve-se em uma situação familiar como incauto, e não só modifica a sua vida, mas também a de outras pessoas próximas, pelo choque social, ante as diferenças notórias.

Produção de 1951, denominada: "A Place in the Sun" ("Um Lugar ao Sol", em português), tal história deu a oportunidade para que Stevens explorasse com maestria, todo o talento do ator, Montgomery Clift, ao salientar o contraste do rapaz pobre e tímido, sem saber portar-se no meio social habitado pelos seus parentes ricos e esnobes. 
Para incrementar tal contraste abissal, Stevens explorou também o inferno do personagem, atormentado por sua origem puritana, plena de sentimento de penitência e culpa.  
 
Na trama, George Eastman (interpretado por Montgomey Clift), é um rapaz humilde que só pensa em arrumar um emprego fixo e honesto, com o único intuito de se manter dignamente e auxiliar a sua mãe, uma senhora que dedica a vida ao "Exército da Salvação", uma famosa instituição sob cunho evangélico, cujo mote era (é) praticar a caridade. 
Ao se empregar no império industrial de seu tio milionário e que em tese, sempre ignorou a ala miserável da família, George aceita passivamente ser colocado sob uma posição inferior, como um operário simples, bem longe dos gabinetes finos usados pelo seu tio e primos, membros da diretoria.

Então, dentro de sua rotina operária, ele conhece uma moça humilde, igualmente funcionária de baixo escalão (Alice Tripp, interpretada pela ótima, Shelley Winters), no ambiente de trabalho, e eles se envolvem, emocionalmente. 

Sob um deslize do casal, ela engravida. George poderia ter se casado e ao assumir a paternidade, seguir o rumo previsível de sua vida simples, ao se tornar um tradicional pai de família e assim trabalhar por trinta anos na fábrica, resignado por viver modestamente, como qualquer rapaz de sua classe social, entretanto, um outro evento inesperado, mudou tudo.  

Mesmo ao ter consciência de que não pertencia à classe social de seus parentes, ele aceitou o convite para uma reunião familiar e aí... bingo, eis que vem a conhecer  a bela, Angela Vickers (interpretada por Elizabeth Taylor). E convenhamos, quem não apaixonar-se-ia pela personagem angelical, interpretada por Liz Taylor, ainda com ares adolescentes e tão absurdamente doce e linda?

Que dramalhão ali se formou, por conseguinte! Se tal texto chegasse às mãos das emissoras de TV brasileiras, fatalmente cairia na vala comum do roteiro típico, ou seja, um melado piegas com direito a um nauseabundo tema musical, e objeto certeiro para a discussão animada nos salões de beleza das cidades, mas Stevens tratou por colocar essência em tal mote, ao descartar o melado da pieguice.  

E de que forma? 

Foi através da exploração da angústia desesperada do personagem de George Eastman, que só aumenta no decorrer do filme, quando em um acidente, vê morrer a moça que engravidara (Alice) e que o pressionara a se casar com ela, pois já estava ostentar um abdômen bem saliente e para os padrões do final dos anos quarenta/início dos cinquenta, obviamente a envergonhava sobremaneira ao não estar oficialmente casada.  

Portanto, visto sob a ótica do rapaz que relutava em concretizar o tal casamento forçado, se insinuou como algo muito conveniente, não é mesmo?

Aparentemente, tratou-se de um acidente, entretanto, fica a dubiedade no ar: foi uma fatalidade mesmo, ou no fundo, ele premeditou essa situação, ao vislumbrar livrar-se do "problema", que aniquilaria completamente o seu sonho utópico de se casar com a linda moça rica e obter assim a ascensão social decorrente, amparado pelo seu tio? Seria no fundo, um rapaz inescrupuloso ou foi vítima das circunstâncias? E mais uma questão: mesmo que houvesse sido um acidente de fato, ele teria ao menos por algum momento negligenciado socorrer a moça, ao vislumbrar a oportunidade que lhe conviera?

Esse foi de fato o grande mérito de George Stevens, pois esse enfoque no espectro interior e muito atormentado do personagem, George Eastman, aliado à dúvida colocada ao espectador sobre a morte de Alice ter sido acidental ou não, afastou por completo o perigo do roteiro adquirir o ranço folhetinesco.

E para coroar a intenção, ao final, aconteceu que... bem, apesar de ser um filme lançado em 1951, não vou estragar a surpresa para os jovens que nunca o assistiram. 

Só posso antecipar aos que não assistiram ainda tal película, que toda a parte final da história, a envolver a investigação policial, julgamento e veredicto final, é bastante intensa, com ótima linha de diálogos, a se realçar a interpretação dos atores envolvidos nesse núcleo em específico da trama A se destacar a atuação apaixonada do promotor público e assim, se configura a angústia que é gerada, que é obviamente uma metáfora muito forte sobre o abismo que separa as classes sociais, e com a tendência óbvia das camadas mais simples, sempre estarem em desvantagem moral, em qualquer suspeita que se levante sobre os seus representantes, pelo simples fato da sua posição social mais humilde. 

Portanto, há o mérito do livro que deu origem à história, certamente ao elaborar um roteiro tão rico em possibilidades, no entanto, é para se enaltecer essa adaptação ao cinema, pelo brilhantismo dos atores escalados, Montgomery Clift, sobretudo e pela direção requintada de George Stevens, um diretor eclético, que filmou muitos gêneros e mesmo sendo aberto a vários estilos dispares entre si, brilhou em todos e neste caso, sobretudo, foi muito feliz.  

Eis aí um filme que eu recomendo, entre tantos da filmografia do grande diretor, George Stevens.

Resenha publicada inicialmente em uma comunidade chamada: "George Stevens", na extinta Rede Social Orkut, como tópico, ao propor uma discussão sobre esse filme em específico, e aberto por eu mesmo, Luiz Domingues, em 2010.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Filme: Two of Us (Tudo Entre Nós) - Por Luiz Domingues



Tudo o que envolve a carreira dos Beatles, seja por fatos ocorridos antes da sua formação, durante a sua trajetória ou mesmo depois da sua dissolução, sucinta todo o tipo de especulação entre os seus fãs, certamente. Fatos sobre a banda ou seus componentes, individualmente, motivam em caráter permanente, a criação de livros, filmes, documentários, reportagens, discussões de todo o tipo no campo midiático, em diversas plataformas. No caso específico dos filmes, há uma boa quantidade de obras a abordar muitos aspectos específicos da carreira da banda, e muitos a mostrar o ponto d vista individual de seus componentes e até da carreira solo dos quatro ex-componentes.

Eis aqui, portanto, mais um exemplo de abordagem cinematográfica, e a exibir um fato concreto, ocorrido em 1976, a envolver dois ex-companheiros de banda e neste caso, tratou-se de um encontro revestido por simbolismos e que suscitou muitas especulações. É preciso primeiramente situar o leitor no contexto desse apontamento, para que fique bem claro como ocorreu tal fato e sobretudo, o que foi especulado pela imprensa, nessa ocasião.
Paul McCartney e Sid Bernstein, em algum evento social, sem data definida. 

E antes mesmo de ir direto ao ponto, é preciso esclarecer um dado histórico ainda mais antigo. Se houve a "British Invasion", a espetacular invasão das bandas britânicas sobre a América do Norte, a partir de 1964, houve um empresário que foi diretamente responsável para que essa porta, ou portal, a melhor dimensionar, pudesse abrir-se e esse produtor cultural foi o norte-americano, Sid Bernstein. Esse empreendedor musical, percebeu no decorrer de 1963, que algo diferente ocorria na Europa, na Inglaterra em específico e por conta dessa percepção, ligou para Brian Epstein, o empresário dos Beatles e propôs trazer o grupo britânico para apresentações nos Estados Unidos.

Brian Epstein, o hábil empresário do grupo de Rock, The Beatles

Brian relutou em princípio, pois a despeito da explosão da banda estar em pleno andamento na Inglaterra e a espalhar-se por outros países europeus, ele considerou que a América do Norte ainda seria inatingível, por deter o maior mercado fonográfico do mundo e não haver tradicionalmente uma grande penetração para artistas europeus, ali.

Ocorre que Sid percebera o potencial e assim, insistiu na ideia e quando finalmente a banda atingiu o número um da parada norte-americana, Brian sentiu-se seguro e aceitou a oferta de Sid. Portanto, foi Sid Bernstein quem sedimentou o caminho para os Beatles alcançar a fama nos Estados Unidos e por conseguinte, abrir o caminho para uma invasão de outras bandas britânicas, o que caracterizou então o movimento conhecido como: "British Invasion", que mudou completamente o rumo do Rock, no mundo. Em termos de proporção, portanto, se o radialista, Alan Freed, fora considerado uma peça fundamental para a solidificação do Rock'n' Roll no mercado, ao longo dos anos cinquenta, Sid Bernstein, ganhou fama por ter alavancado o sucesso dos Beatles na América e por conseguinte a explodir em escala mundial, para colocar a Inglaterra na linha de frente do Rock, ao propiciar a British Invasion, que modificou inteiramente o panorama do Rock Mundial, na década de 1960. Desde então, Sid tornara-se um amigo pessoal de Brian Epstein e dos quatro componentes dos Beatles, certamente.
Sid Bernstein, o produtor musical que sonhou em reagrupar os Beatles em 1976


Em 1976, seis anos após a dissolução desse super grupo, Sid Bernstein, fez uma oferta pública e milionária para que a banda se reunisse a visar um único concerto a ser realizado em Londres, com a renda toda revertida à caridade. É óbvio que essa proposta jogada ao vento causou um rebuliço, com a onda de boatos a correr o mundo afora. Separadamente, cada componente da banda, rejeitou a proposta, através de notas oficiais, porém a euforia gerada por essa expectativa foi enorme. 
O humorista, Lorne Michaels em sketch do programa humorístico de 
TV, Saturday Night Live, em edição de 1976, quando brincou com a oferta de Sid Bernstein aos Beatles

Na mesma época, o programa de TV, Saturday Night Live, muito popular nos Estados Unidos, e baseado no humor, fez uma brincadeira sobre essa boato, com o apresentador, Lorne Michaels, ao visar ridicularizar a proposta em torno de milhões de dólares oferecida por Sid Bersntein, fez uma outra proposta, ao oferecer U$ 3000, se os componentes dos Beatles fossem naquela noite aos estúdios da NBC, em Nova York, e tocassem ao vivo, no programa.

Vinte e dois milhões de pessoas assistiam aquele programa humorístico naquela noite, segundo a medição de audiência e o que Lorne Michaels não poderia imaginar, foi que John Lennon e Paul McCartney estavam entre elas, e a assistir tudo, juntos em frente a um aparelho de TV caseiro. Como assim ?

Por coincidência, naquela noite, a aproveitar a estada na cidade de New York, Paul e Linda McCartney foram visitar o casal, John Lennon e Yoko Ono, no apartamento em que viviam, no famoso Edifício Dakota. Ao assistir a proposta feita pelos humoristas na TV, ambos cogitaram ir ao estúdio da Rede NBC, para entrar no espírito da brincadeira, mas desistiram logo a seguir, pois certamente a sua aparição espontânea haveria por causar ainda mais especulações sobre o assunto da "volta" dos Beatles.

Foi baseado nesse encontro real entre Lennon e McCartney, nesse dia 24 de abril de 1976, que foi produzido o filme: "Two of Us", mais uma produção da VH1, em sua série, "Movies That Rock" (já comentei sobre o filme, "Sweetwater, a True Rock History", que caracterizou a primeira produção dessa linha de filmes, anteriormente em matéria escrita para o Blog do Juma e republicada aqui no meu Blog 1, e que foi a primeira produção cinebiográfica da parte dessa emissora).
 
Este é o mote portanto, do filme: "Two of Us", que no Brasil recebeu o título: "Tudo Entre Nós" (quem conhece a discografia dos Beatles, sabe que esse título representa o nome de uma música da banda, contida no LP "Let it Be" e que tornou-se um bom trocadilho para dar nome a esta película).

O filme dirigido por Michael Lindsay-Hogg, (o diretor do próprio filme, "Let it Be", dos Beatles, filmado em 1969, e lançado em 1970), usou a licença poética mais que a realidade, a explorar outros aspectos desse encontro. Para início de conversa, suprimiu-se a presença das respectivas esposas, para focar na ideia dos dois amigos a sós, a encontrar-se após anos de separação e ressentimentos ainda presentes para ambos. 

No filme, Paul resolve visitar John, fortuitamente, em um dia livre dos seus compromissos com o Wings (a sua banda na ocasião), que excursionava e estava em temporada no Madison Square Garden, famosa arena na cidade, habituada a abrigar shows de Rock. Recebido friamente por seu velho amigo de Liverpool, esboça estar arrependido rapidamente por ter forçado a visita, tamanha a aspereza com a qual fora recebido.
Na vida real, em 1976, Lennon estava absorto em outros interesses, de fato em sua vida real, pois desde a virada de 1975, ele entrara em uma fase de desconstrução de si mesmo, ao fugir da inerência de sua fama e negar dessa forma, a sua condição como um "Rock Star". Nessa fase, ele desejava a todo custo manter uma vida normal, como um homem comum, longe de sua condição como estrela do Rock, mundialmente famoso, ao isolar-se em seu apartamento, e dessa forma, mostrava-se encantado em ser apenas um "dono-de-casa", e cuidar de seu filho, Sean, recém nascido. 

Quanto ao McCartney, ele estava no auge da fama de uma segunda banda bem sucedida no pós-Beatles (Wings), e a aproveitar o fato dessa banda estar a obter sucesso por seus méritos, sem usar o repertório dos Beatles para obter o seu êxito comercial. No filme, o gelo entre os dois passa a quebrar, quando o Lennon percebe que estava a ser turrão demais e assim, ao esquecer as suas mágoas enraizadas, relembra em McCartney, o amigo adolescente com quem dividiu sonhos e expectativas por anos a fio, no passado, muito antes da fama construída em conjunto, na cidade de Liverpool, Inglaterra, sob os bons ares cinquentistas.

Ao apreciar falar sobre reminiscências em comum dos seus tempos pueris, vividos na adolescência em Liverpool, entram em climas muito lúdicos, como ao sair para caminhar pelo Central Park e aproveitar para andar como pessoas comuns, sem nenhuma preocupação com o inevitável assédio da parte de fãs, assim como entrar em um café e não ser incomodados por fãs inconvenientes etc. (mesmo assim, ao mostrar-se "disfarçados", não conseguem concretizar isso, em sua totalidade, é claro...). Entretanto, o clima entre ambos azeda mesmo, quando não percebem o limite desse resgate na amizade estremecida, e isso ocorre quando Paul empolga-se e vai buscar um violão na limousine que o aguardava porta do edifício, para que ambos pudessem tocar juntos, novamente. 

Esse é o momento do filme, onde qualquer Beatlemaníaco que se preze, passa por uma taquicardia, pois a pergunta é óbvia: será que a dupla mais bem sucedida da história do Rock, vai voltar a trabalhar junta? Será, será ? 

Entretanto, ao voltar para o apartamento, Paul flagra Lennon a conversar com Yoko Ono ao telefone e percebe claramente pelo tom que John fala com a esposa, que não havia mais clima algum pata tocarem. Na vida real, é sabido que após o jantar muito amistoso ocorrido nesse sábado, McCartney voltou a visitá-lo no dia posterior, domingo, e desta feita chegara ao Edifício Dakota com um violão em mãos e disposto a tocar com o seu velho amigo, mas este não o recebeu, ao dispensá-lo pelo interfone do prédio, ao dizer-lhe: -"não estamos mais em 1956, Paul. Se quiser visitar-me, tenha a bondade de telefonar antes, para avisar-me"...
O filme foi produzido com a intenção deliberada em discutir o tema, "amizade", sobretudo. Com isso, os produtores e o diretor não preocuparam-se em retratar a história real, mas sim, criar uma narrativa com licenças poéticas em torno desse tema. E dessa forma, os atores não foram escolhidos por serem muito parecidos fisicamente com os astros britânicos, porém mais pela sua capacidade em interpretar essa gama de sentimentos envolvidos no espectro da amizade.

Aidan Quinn interpretou, Paul McCartney, e Jared Harris, fez John Lennon. A fotografia é muito boa, em tons pastéis, propositalmente a evocar uma implícita melancolia, que eu diria, revelou-se adequada para retratar a situação. Os diálogos são muito bons, com o show de sarcasmo da parte de Lennon, que detinha de fato essa característica tipicamente britânica em sua personalidade, em contraponto ao cartesianismo conformado da parte de McCartney, o que corresponde também à sua postura na vida real. 

O filme agradou em cheio aos Beatlemaníacos, mesmo com muitas modificações a alterar a real situação ali vivida por ambos e deixa no ar aquela deliciosa pergunta, nunca respondida: eles realmente poderiam ter acertado-se e promovido um retorno dos Beatles, ainda que sob uma única noite, em 1976? Bem, isso ficou por conta das especulações advindas e mais um dado, a despeito de Lennon & McCartney sempre serem lembrados como a exercer a liderança natural dos Beatles, nessa equação havia igualmente dois outros elementos: George Harrison e Ringo Starr, portanto, a despeito destes dois últimos ter geralmente uma imagem subestimada, para que os Beatles pudessem ter aceito a proposta de Sid Bernstein, isso somente teria sido possível com as quatro assinaturas no contrato. Um nome a menos, inviabilizaria o projeto.
O diretor, Michael Lindsay-Hogg, que também dirigiu o filme: "Let it Be", dos Beatles, em 1970

Sobre o diretor, Lindsay Michael-Hogg, ao longo das resenhas sobre os filmes "Rock and Roll Circus", dos Rolling Stones e "Let it Be", dos Beatles, eu teci alguns comentários sobre a sua biografia, que é bastante interessante e relevante, tanto sobre o ponto de vista pessoal, quanto da sua contribuição salutar ao Rock. Não repetirei aqui para não se tornar enfadonha uma insistência na mesma informação, portanto, convido o leitor a reler tais resenhas citadas, para relembrar os fatos que tornam tal diretor, alguém importante para a história do Rock.

Como o filme centra a história em duas personagens, a relembrar: Aidan Quinn (como Paul McCartney) e Jared Harris (como John Lennon), eis que a presença de outros atores foi observada com muita parcimônia, apenas para compor poucas cenas. Portanto, cito alguns deles: Martin Martinuzzi ( o motorista da limousine), Neil Foster (concierge do hotel), Lois Di Bianco (este um ator famoso, como Luigi), Heather Hodgson (a mulher com o cachorro, na rua), Scott Wickware(policial), Robert Seeliger (outro policial), Ian Eugene Ryan (freak a andar pelo parque), Joy Bostick (o ascensorista), Rick Reid (apresentador da TV) e outros figurantes ainda menos cotados.
 
O público comprou a ideia do filme com simpatia, notadamente os fãs dos Beatles e de Lennon & McCartney em específico. A crítica, também enalteceu a abordagem ao ressaltar a qualidade dos diálogos. Um certo crítico chegou a afirmar que esperava mais um filme amadorístico feito para agradar o fã-clube dos Beatles, mediante atores a usar perucas ridículas e a forçar sotaque de Liverpool, sendo ainda mais grotesco se tratassem-se de atores norte-americanos, no entanto, ele surpreendera-se com a leveza observada nos diálogos, interpretação e mão leve do diretor para conduzir tal história com um toque ameno, a explorar sutilezas. Martin Lewis, um historiador e que é reconhecido como um dos maiores pesquisadores sobre a carreira dos Beatles, foi consultor deste filme, ao suprir a produção com muitas informações valiosas.

Sobre a trilha sonora, como quase sempre acontece em filmes a retratar os Beatles, não se ouve um único acorde das músicas da banda. É claro, a tratar-se de uma barreira intransponível, como sempre sempre, a editora detentora dos direitos, não autorizou o uso desse repertório. Portanto, ouve-se uma canção tema de abertura, composta por David Schwartz e daí em diante, música incidental, praticamente, apenas para fornecer o background. Produção simples, porém, muito funcional, foi enxuta na questão de cenários e externas, a parecer praticamente um tipo de produção a lembrar um episódio de um seriado de TV, em sua resolução técnica. Escrito por Mark Stanfield e dirigido por Lindsay Michael-Hogg, foi lançado em fevereiro de 2000
Por ser um telemovie, certamente que após a primazia de ter sido exibido com exclusividade inicialmente no canal musical VH1, o seu produto foi exibido a posteriori em canais, sobretudo na TV a cabo, ao redor do mundo. Rapidamente esteve nas telas de canais dessa natureza, mesmo caso no Brasil, certamente. Imediatamente, foi lançado com rapidez em formato DVD. Na internet, na atualidade de 2012, tal filme é encontrado com facilidade no YouTube.
Resenha publicada inicialmente no Blog do Juma, e republicada no Site / Blog Orra Meu, ambas em 2011. Tal resenha foi revista e aumentada a posteriori e publicada no livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume I, a partir da página, 175.


domingo, 15 de abril de 2012

Sete Bilhões de Bocas Famintas - Por Luiz Domingues

Recentemente, a mídia alardeou o nascimento de um bebê que foi arrolado como o ser humano de número: sete bilhões, no planeta.

É fato concreto que a aceleração no processo demográfico, iniciou-se principalmente a partir do incremento da revolução industrial, em meados do século XVIII. O economista britânico, Thomas Malthus, desenvolveu a sua famosa teoria nessa época, ao dar conta do crescimento geométrico da população não acompanhar o crescimento aritmético dos recursos materiais para supri-la, em termos de alimentos e água potável, isso para falar nas necessidades mais prementes dos seres humanos. 

 Isso é o básico, claro, mas sob uma análise mais realista e adaptada ao século XXI, sabemos que somente tais itens não suprem as necessidades de sete bilhões de pessoas.

A questão do equilíbrio econômico é muito preocupante, haja vista as convulsões sociais que temos observado (já falei sobre esse tema em matérias anteriores, como, "A Ocupação dos Insatisfeitos", por exemplo). 

A insatisfação pelo colapso do capitalismo mais selvagem está a chegar no seu limite máximo de tolerância, mas a perspectiva em torno de sua eventual derrocada, é sombria, pois não trata-se de derrotar Wall Street como se derrubou o comunismo simbolicamente, através da queda do muro de Berlim, em 1989. Não é tão simples assim.

A grande questão é: como alimentar e hidratar sete bilhões de pessoas? Como cuidar para que hajam meios de subsistência, empregos, sustentabilidade para prover esse contingente absurdo de criaturas? 

Isso sem contar no seu bojo, outras necessidades a serem supridas. Além da comida e da água potável, existem outras tantas questões, como por exemplo: moradia digna, saneamento básico, serviços públicos eficientes, diminuição dos índices poluentes, reciclagem, coibição de desperdício, saúde pública, erradicação de doenças e epidemias, lazer para não enlouquecer essa gente toda, esportes para que gastem sadiamente a energia e claro, educação, arte & cultura asseguradas para todos.

Como garantir isso para sete bilhões de pessoas, se nunca na história da humanidade isso foi possível de ser provido e com um contingente humano muito menor (em 1959, haviam três bilhões de seres humanos a respirar neste planeta)? 

Em tempos de tanta tomada de consciência em torno da ecologia, reciclagem e processos a envolver conceitos de sustentabilidade (sem contar na luta contra a poluição), será que ninguém coloca na pauta do dia a questão da sustentabilidade concreta? Ou seria algo quixotesco para se ventilar?

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2011.

sábado, 14 de abril de 2012

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Dia 14 de abril em Santo André / SP

Kim Kehl & Os Kurandeiros
Dia 14 de abril  - Sábado  - 22:00 h
Central Rock Bar
Av. José Antonio de Almeida Amazonas, 596
Santo André  -  SP
Banda de abertura : Capitão Bourbon