Era a noite da cerimônia do Oscar de 1999, e como de costume, chegou o momento da entrega do prêmio honorário. Todo ano a Academia homenageia um grande nome do cinema, pelo conjunto da obra e neste ano, o agraciado foi o consagrado diretor, Elia Kazan.
Grandes nomes do cinema, entre atores; produtores e diretores vinham a receber esse reconhecimento desde os anos vinte e artisticamente a falar, não havia nenhuma surpresa em ter um diretor da importância de Elia Kazan, como homenageado. Todavia, quando esse momento chegou, uma reação radical de vários convidados ilustres sentados na plateia, chamou a atenção, para tornar impossível que a geração de imagens oficial do evento, pudesse disfarçar o descontentamento de muitos com a presença de Kazan no palco, para receber o seu Oscar. Ed Harris; Ed Bengley Jr.; Nick Nolte; Holly Hunter; Ian McKellen, entre outros, recusaram-se a aplaudir e a ostentar propositais semblantes pesados, mostraram claramente estar a protestar contra tal decisão da Academia. Rod Steiger; Richard Dreyfuss e Sean Penn chegaram a formalizar uma nota de repúdio formal na Academia antes da cerimônia e no caso de Sean, fora também algo pessoal, pois o seu pai fora vítima das perseguições do Macartismo.
E afinal de contas, o que Elia Kazan teria feito que tivesse causado tanta contrariedade e o que significou o Macartismo ? Ao retroagir aos anos quarenta, a história mostra que o
ambiente político ideológico, logo após o final da segunda guerra mundial, afunilou-se para a dualidade entre o capitalismo e o comunismo, com os Estados Unidos da América a assumir o comando do bloco capitalista e a União Soviética ao estabelecer o mesmo em relação ao comunismo.
Estabelecida a polarização ideológica em que o mundo colocou-se, a guerra fria passou a monopolizar todo o jogo estratégico da política; militarismo e das agências de espionagem. E claro, toda uma rede de pessoas oriundas de todas as camadas da sociedade, engajou-se em esforços colaborativos, para atuar em diversas atividades, notadamente a espionagem, com direito às delações.
Instaurou-se uma pesada instituição nos Estados Unidos, denominada : "Comitê de Investigações de Atividades Anti-Americanas". E o seu principal artífice, foi o senador, Joseph McCarthy.
Truculento e fanático, comandou uma arbitrariedade atrás da outra, ao violar os direitos civis, sob uma lamentável demonstração só conhecida em países de terceiro mundo.
Tamanha foi a sua contundência nos tribunais inquisidores (algo parecido com as CPI's que parlamentares convocam, aqui no Brasil), que logo o seu nome ficou marcado e o termo "Macartismo" ("McCarthyism", em inglês), tornou-se o emblema dessa fase arbitrária da história norteamericana. E que não impressione-se o leitor, pois do lado soviético, estratégias iguais ou mesmo piores do que essa, foram usadas com direito ao terror arbitrário, não tenha dúvida disso, por isso deixo claro, não estou a defender nenhum dos lados dessa mesma moeda.
Pessoas de qualquer estrato social, de todas as profissões, eram convidadas a esclarecer denúncias vazias que davam conta de suas supostas atividades anti-americanas (leia-se pró-União Soviética), sob uma "caça às bruxas" sem precedentes, desde as bruxas (literais...) de Salém.
Nesses termos, artistas tiveram as suas carreiras destruídas, mediante muitas vezes, falsas denúncias. Professores; cientistas; estudantes universitários, e artistas tornaram-se os principais alvos, ou seja a intelectualidade. Muita gente sofreu boicote, ao ter que buscar outro rumo na vida, visto ser impossível trabalhar, mediante a perseguição. Houve casos de suicídios, inclusive.
Um dos mais célebres prejudicados por essa perseguição, foi sem dúvida, Charles Chaplin. E com isso, tal artista exilou-se na Suíça, sem condições de viver mais nos Estados Unidos.
A lista de perseguidos foi enorme e só com a mobilização da opinião pública, graças às denúncias (foi corajoso, sem dúvida), do jornalista, Edward R. Murrow (da CBS), McCarthy foi desmascarado, execrado e caiu no ostracismo.Tarde demais, pois muitas pessoas inocentes tiveram suas vidas destruídas indevidamente por denúncias falsas. E o que Kazan teve com isso ?
Nascido em Constantinopla, em uma época onde o Império Otomano ainda comandava a região, Elia Kazan era filho de gregos. Emigrou então para os Estados Unidos com a família, e assim, Kazan cresceu a interessar-se por teatro inicialmente e posteriormente nutriu simpatia pela revolução soviética.
Tornou-se um entusiasta da causa proletária, principalmente durante os anos trinta, em meio à grande depressão decorrente da crise da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Segundo as suas próprias palavras, o mote das peças teatrais que dirigia nessa época, seria em torno de "contos de fadas típicos, onde as injustiças sociais eram superadas pela mobilização das massas." No início dos anos quarenta, Kazan chegou à Hollywood e ao estabelecer uma guinada de posicionamento, abandonou sumariamente os seus ideais de outrora.
Já no fim dos anos quarenta, passou a fazer delações para o Comitê de McCarthy, ao entregar pessoas que supostamente agiam de forma "anti-americana".
Em seu filme clássico, "On the Waterfront" ("Sindicato de Ladrões"), Kazan retrata quase sua auto-confissão, com a história de um homem dividido entre manter a lealdade ao sindicato ou denunciar as falcatruas deste, à polícia.
Infelizmente no caso do tribunal da "caça às bruxas" de McCarthy, a realidade não era bem essa, e muita gente inocente foi prejudicada por denúncias falsas ou infundadas.
Eu considero Kazan, um grande diretor.
Filmes como : "On the Waterfront"; "Pinky"; "A Streetcar Named Desire"; "Viva Zapata"; "East of Eden"; "Splendor in the Grass"; e "Wild River", entre outros, são obras significativas demais, em minha ótica. Portanto, prefiro separar o artista do homem comum, que colaborou com uma onda de arbitrariedades. Isso foi execrável, claro e além de Kazan, nomes fortes de Hollywood também participaram desse esforço de delações, como o criador de personagens tão adorados no mundo inteiro e cheios de candura, um certo Walt Disney...
Portanto, foi compreensível o protesto político de muita gente, quando Elia Kazan, já idoso, subiu ao palco para receber o seu Oscar, em 1999, aliás merecido, pela grande obra artística.
Sou músico e escrevo matérias para diversos Blogs. Aqui neste meu primeiro Blog, reúno a minha produção geral e divulgo as minhas atividades musicais. Não escrevo apenas sobre música, é preciso salientar ao leitor, pois abordo diversos assuntos variados. Como músico, iniciei a minha carreira em 1976, e já toquei em diversas bandas. Atualmente, estou a trabalhar com Os Kurandeiros.
domingo, 11 de novembro de 2012
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Talidomida, o Tardio Pedido de Desculpas - Por Luiz Domingues
Foi na metade dos anos cinquenta que um medicamento chegou às prateleiras das drogarias, a prometer uma revolução nos costumeiros desconfortos que as mulheres sentiam (e sentem) durante o período da gravidez. Inicialmente arrolado como um sedativo e hipnótico, logo tornou-se a panaceia para eliminar os desagradáveis enjoos matinais das mulheres grávidas.
Há por considerar-se que naquela época, o rigor dos testes prévios eram bem menos rigorosos ao comparar-se aos atuais padrões, mas mesmo assim, no caso da Talidomida, o fato foi que os testes falharam e muito, pois não chegou-se perto para cogitar os males congênitos que o medicamento causaria em milhares de pessoas. E foi assim que ao final dos anos 1950, começou a popularizar-se casos de crianças nascidas com graves problemas físicos, notadamente a ausência ou má formação de membros; braços e pernas principalmente (dismelia), e também com possibilidades de deformações no aparelho genital; olhos; boca e aparelho digestivo / intestinal.
Isso tornou-se epidêmico e já em 1962, havia registrados mais de dez mil casos em quarenta e seis países ao redor do mundo. Rapidamente a imprensa cunhou a expressão : "Bebês da Talidomida" para designar tais crianças prejudicadas severamente pelo medicamento. E nessa época, o remédio foi proibido em todos os países, por suas respectivas agências reguladoras de saúde pública, ministérios de saúde etc. Veio uma enxurrada de ações judiciais, naturalmente. Brigas intermináveis ocorreram nos tribunais desses países afetados e milhões de dólares foram pagos em indenizações pelo laboratório responsável, Grünenthal e por laboratórios associados em diversos países, que responsabilizaram-se por sua industrialização e distribuição em âmbito local.
Associações de vítimas foram criadas em diversos países e nem preciso descrever o tormento que essa tragédia produziu nessas pessoas afetadas diretamente e também em suas respectivas famílias. Agora em 2012, mais de cinquenta anos depois, o laboratório Grünenthal finalmente pronunciou-se de forma oficial e pediu desculpas pelas décadas de silêncio sobre o assunto.
Esse pedido de desculpas oficial foi feito durante uma solenidade onde uma estátua de uma criança vítima da Talidomida foi inaugurada em Stolberg, cidade da Alemanha onde a Grünenthal tem a sua sede. A Associação Brasileira de Portadores da Síndrome da Talidomida criticou duramente esse evento, através de nota em seu site oficial, onde afirmou que o pedido de desculpas veio com incrível demora (verdade...), e o dinheiro gasto para produzir a tal escultura em Stolberg (cotada em 5 mil Euros), seria muito melhor gasto, se fosse distribuído às vítimas. Apesar de tudo, a Talidomida enquanto substância, hoje em dia serve de base para testes, onde cientistas descobriram que tem eficácia para combater a Hanseníase e a Aids. Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Zequinha de Abreu - Por Luiz Domingues
A vida prega peças para todo mundo e invariavelmente somos surpreendidos com fatos imponderáveis, em todas as áreas.
Existe muitos exemplos de meninos com origem humilde, nascidos em pequeninas cidades interioranas e que subitamente alcançam notoriedade estrondosa por conta de algum feito extraordinário que realizam.
É o mesmo caso de um menino nascido na pequena cidade de Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo, no longínquo ano de 1880. Batizado como : José Gomes de Abreu, foi filho de José Alacrino Ramiro Abreu, o boticário da cidade, e de Dona Justina Gomes Leitão, dona-de-casa. Mais velho dos oito filhos do casal, recebeu o apelido de "Zequinha" e mostrou aptidão para a música desde a tenra infância, por ter aprendido sozinho a tocar flauta. Aos dez anos de idade já possuía uma grande fluência nesse instrumento, além de dominar a clarineta, também, e ousado, foi o maestro mirim da bandinha escolar. Apesar do sonho do seu pai, em vê-lo formado como médico e da mãe, em vê-lo ordenado padre, Zequinha perseguiu na música, desde sempre.
Já a dominar o piano e estudar com afinco a matéria da harmonia musical, aos dezessete anos de idade, organizou uma orquestra na cidade, onde o objetivo fora tocar em festas; bailes; solenidades, e concertos de toda espécie. Logo surgiu as composições, e sob uma Era pré fonograma, a única maneira para expandir a sua arte, foi através da venda de partituras das composições.
Pobre, e a morar em uma pequena cidade interiorana e naquela época, ainda por cima, tudo foi muito difícil. Casou-se aos dezoito anos e tornou-se funcionário público, para garantir o sustento da família.
Por um golpe de sorte, as suas composições mais famosas, "Branca" e "Tico-Tico no Fubá", chegaram a São Paulo e Rio de Janeiro e daí, ambas ganharam uma dimensão extraordinária, todavia, tudo isso ocorreu muito anos depois, portanto, ele não usufruiu de nada, dessa fama advinda, infelizmente. Foi bem no fim dos anos vinte e durante os primeiros momentos da década de trinta, do século vinte, que essa expansão ocorreu, principalmente por conta da super artista, Carmem Miranda, ter gravado "Tico-Tico no Fubá" e levado esse mega sucesso ao mundo, através dos filmes norteamericanos onde ela tornara-se uma estrela exótica da latinidade.
Claro, em uma época onde o show business mal engatinhava, essa expansão veio muito tempo depois, sem que ele pudesse usufruir adequadamente dessa fama e sobretudo, da sua compensação financeira advinda. Nesse aspecto, a sua biografia assemelha-se muito a do pianista / compositor norteamericano, Scott Joplin.
Tal como Zequinha, Scott foi um menino pobre e com a agravante de enfrentar o preconceito, por ser negro, em meio a uma sociedade muito preconceituosa. Genial pianista e compositor, foi um dos maiores, senão o maior nome do "Ragtime", uma vertente extremamente melódica e técnica do Jazz. Contudo, ele morreu pobre e sem reconhecimento, só vindo a tornar-se famoso muitas décadas depois, quando a sua música maravilhosa estourou como trilha do filme : "The Sting" ("Golpe de Mestre"), e assim motivar uma cinebiografia sua em 1977. Nesse aspecto, as biografias de Scott Joplin e Zequinha de Abreu são mesmo muito parecidas. Zequinha de Abreu faleceu em 1935 e tal como Scott Joplin, passou os seus últimos anos a sobreviver de música, a duras penas, ao tocar em cabarés; boites e festas particulares ocorridas em São Paulo, capital.
No início dos anos 1950, a Companhia cinematográfica Vera Cruz, bancou a cinebiografia de Zequinha de Abreu. Sob uma produção muito boa, o bom ator, Alselmo Duarte interpretou Zequinha de Abreu e a beldade, Tonia Carrero, interpretou Branca, moça que fora artista de um circo que teria inspirado Zequinha a compor a sua famosa valsa : "Branca". O filme usou de bastante licença poética e bem na esteira de cinebiografias com artistas da música, ao estilo norteamericano de Hollywood, edulcorou bastante a cinebiografia de Zequinha.
Porém, trata-se de um filme muito bem produzido, pelos padrões brasileiros da época e apresenta a arte dele, Zequinha de Abreu, com muita dignidade. Esse foi Zequinha de Abreu, o menino simples do interior, que deixou uma bela obra artística, com alcance internacional, inclusive.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012
É o mesmo caso de um menino nascido na pequena cidade de Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo, no longínquo ano de 1880. Batizado como : José Gomes de Abreu, foi filho de José Alacrino Ramiro Abreu, o boticário da cidade, e de Dona Justina Gomes Leitão, dona-de-casa. Mais velho dos oito filhos do casal, recebeu o apelido de "Zequinha" e mostrou aptidão para a música desde a tenra infância, por ter aprendido sozinho a tocar flauta. Aos dez anos de idade já possuía uma grande fluência nesse instrumento, além de dominar a clarineta, também, e ousado, foi o maestro mirim da bandinha escolar. Apesar do sonho do seu pai, em vê-lo formado como médico e da mãe, em vê-lo ordenado padre, Zequinha perseguiu na música, desde sempre.
Já a dominar o piano e estudar com afinco a matéria da harmonia musical, aos dezessete anos de idade, organizou uma orquestra na cidade, onde o objetivo fora tocar em festas; bailes; solenidades, e concertos de toda espécie. Logo surgiu as composições, e sob uma Era pré fonograma, a única maneira para expandir a sua arte, foi através da venda de partituras das composições.
Pobre, e a morar em uma pequena cidade interiorana e naquela época, ainda por cima, tudo foi muito difícil. Casou-se aos dezoito anos e tornou-se funcionário público, para garantir o sustento da família.
Por um golpe de sorte, as suas composições mais famosas, "Branca" e "Tico-Tico no Fubá", chegaram a São Paulo e Rio de Janeiro e daí, ambas ganharam uma dimensão extraordinária, todavia, tudo isso ocorreu muito anos depois, portanto, ele não usufruiu de nada, dessa fama advinda, infelizmente. Foi bem no fim dos anos vinte e durante os primeiros momentos da década de trinta, do século vinte, que essa expansão ocorreu, principalmente por conta da super artista, Carmem Miranda, ter gravado "Tico-Tico no Fubá" e levado esse mega sucesso ao mundo, através dos filmes norteamericanos onde ela tornara-se uma estrela exótica da latinidade.
Claro, em uma época onde o show business mal engatinhava, essa expansão veio muito tempo depois, sem que ele pudesse usufruir adequadamente dessa fama e sobretudo, da sua compensação financeira advinda. Nesse aspecto, a sua biografia assemelha-se muito a do pianista / compositor norteamericano, Scott Joplin.
Tal como Zequinha, Scott foi um menino pobre e com a agravante de enfrentar o preconceito, por ser negro, em meio a uma sociedade muito preconceituosa. Genial pianista e compositor, foi um dos maiores, senão o maior nome do "Ragtime", uma vertente extremamente melódica e técnica do Jazz. Contudo, ele morreu pobre e sem reconhecimento, só vindo a tornar-se famoso muitas décadas depois, quando a sua música maravilhosa estourou como trilha do filme : "The Sting" ("Golpe de Mestre"), e assim motivar uma cinebiografia sua em 1977. Nesse aspecto, as biografias de Scott Joplin e Zequinha de Abreu são mesmo muito parecidas. Zequinha de Abreu faleceu em 1935 e tal como Scott Joplin, passou os seus últimos anos a sobreviver de música, a duras penas, ao tocar em cabarés; boites e festas particulares ocorridas em São Paulo, capital.
No início dos anos 1950, a Companhia cinematográfica Vera Cruz, bancou a cinebiografia de Zequinha de Abreu. Sob uma produção muito boa, o bom ator, Alselmo Duarte interpretou Zequinha de Abreu e a beldade, Tonia Carrero, interpretou Branca, moça que fora artista de um circo que teria inspirado Zequinha a compor a sua famosa valsa : "Branca". O filme usou de bastante licença poética e bem na esteira de cinebiografias com artistas da música, ao estilo norteamericano de Hollywood, edulcorou bastante a cinebiografia de Zequinha.
Porém, trata-se de um filme muito bem produzido, pelos padrões brasileiros da época e apresenta a arte dele, Zequinha de Abreu, com muita dignidade. Esse foi Zequinha de Abreu, o menino simples do interior, que deixou uma bela obra artística, com alcance internacional, inclusive.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
Filme : The Swimmer (Enigma de uma Vida) - Por Luiz Domingues
Em julho de 1964, foi publicado na famosa revista semanal, "The New Yorker", um curioso conto escrito por John Cheever, denominado : "The Swimmer" ("O nadador").
Uma historieta introspectiva, quiçá dotada de elementos surrealistas, e sem muita margem para a criação cinematográfica em princípio, ficou esquecida por alguns anos, até que o diretor, Frank Perry resolveu filmá-la em 1968, para espanto de muita gente que não acreditava ser possível roteirizar um argumento aparentemente muito limitado para tal veículo.
Com a ajuda de sua esposa, Eleanor Perry, que assinou o roteiro, iniciou então as filmagens de "The Swimmer", com Burt Lancaster para atuar como protagonista.
Digo, iniciou, pois ao final da produção, quem assinou a direção foi um outro diretor, Sidney Pollack, já que Frank Perry brigou com os produtores por conta de posicionamentos criativos divergentes, durante as filmagens.
A história gira em torno de um homem de meia-idade, chamado Ned Merrill (Burt Lancaster), um publicitário aparentemente bem sucedido, com família estruturada e típico representante do "american-way-of-life". Ao que tudo indica, um homem bem comportado, pois a ação inicia-se com ele a trajar roupa de banho, e distante cerca de oito milhas de sua residência a suscitar um desconforto óbvio ao espectador mais conservador.
Essa estranheza já dá margem às primeiras interpretações metafóricas, visto não haver explicação plausível para a cena, a não ser o justificável calor do verão no estado de Connecticut. Então, o imponderável acontece, para garantir a dinâmica que permearia toda a ação, com Ned (Burt Lancaster), a resolver voltar para a sua casa, mediante a ação de mergulhos por todas as piscinas das casas de amigos seus, que estivessem pelo caminho.
Na primeira casa que visita, é recebido pelo casal, Westerhazy. Em conversa animada, fala sem rodeios que fora apaixonado por Helen Westerhazy (Diana Van Der Vlis), na juventude, mas nem ela, nem o marido, Donald Westerhazy (Tony Bickley), parecem abalar-se com tal revelação fora de propósito. E ao continuar a agir com naturalidade, perguntam sobre a esposa e as filhas de Ned, para que ao final da visita, indiquem outras piscinas de vizinhos amigos, para que ele prossiga em sua empreitada aquática.
Mas algo enigmático acontece, pois Ned sai da piscina e sem despedir-se do casal anfitrião, vai embora, a buscar a próxima piscina pelo caminho.
Na casa dos Graham, é igualmente bem recebido, por ser amigo do casal desde a adolescência. Encontra com Betty Graham (Kim Hunter - que nesse mesmo ano de 1968, protagonizaria : "The Planet of the Apes", como a chimpanzé, Dra. Zira), na piscina e logo a seguir, Howard Graham (Charles Drake) aparece para unir-se aos dois. Ned causa mais estranheza ainda, quando os Howard atendem a campainha (com a chegada dos Westerhazy), pois Ned Merrill sai do mergulho e mais uma vez parte sem despedidas.
Nesse ponto, já ficou claro três pontos desse roteiro, a conter uma abordagem psicanalítica :
1) A necessidade de Ned em realizar os mergulhos, tem o propósito de revisitar e ajustar contas com seu próprio passado;
2) A água é claramente o elemento da limpeza que Ned busca internamente e;
3) Ele sai das casas de forma abrupta por querer romper com quaisquer amarras com o seu passado.
A próxima piscina a ser visitada, causa-lhe um dissabor. Enquanto dava as braçadas na enorme piscina da mansão da família Hammar, Ned é duramente advertido pela Sra. Hammar (Cornelia Otis Skinner), uma idosa muito mal humorada. Ao indagar que era amigo de seu filho, ela retruca com veemência, ao dizer-lhe que ele não fora amigo o suficiente de seu filho, para visitá-lo no hospital. Uma acusação forte, que deixa Ned sem contra-argumentação.
Contudo, nem assim Ned parece ter desanimado em sua determinação e ainda com a tentativa em imputar remorso feita pela Sra. Hammar, a repercutir em seus tímpanos molhados pelo cloro das piscinas, chega à outra casa e encontra, Julie Ann Hooper (Janet Landgard), ex-babá de suas filhas, agora adultas, e esta agora na faixa dos vinte anos de idade.
Em sua companhia, entram na casa da família Bunker. Também fortuitamente, a ex-babá confessa que fora apaixonada por ele, no período em que cuidou de suas filhas. É óbvia a intenção confessional, mas não provoca a catarse, ao permanecer tudo apenas no campo das revelações efêmeras que não causam transformações profundas, pois são apenas fleumaticamente serenas, como a água das piscinas residenciais. Enid Bunker (Marilyn Langner) recebe os dois e ao contrário das outras casas, a residência dos Bunker, contém convidados naquele instante, e muitas dessas pessoas, são conhecidas de Ned Merrill.
Interessante observar outro elemento metafórico ao notar que essas pessoas falam e perguntam sobre a esposa e filhas de Ned, que de fato não aparecem nunca na ação do filme. Seriam arquétipos da personalidade de Ned Merrill ? Ned e Julie partem para uma nova piscina, mas no caminho desentendem-se, e Julie o deixa prosseguir sozinho. É clara a menção ao caráter fugaz das relações sociais. Pessoas entram e saem de nossas vidas o tempo todo.
Ned chega então à residência dos Hallorans. Aqui, o que causa estranheza é o fato do casal ser adepto do nudismo, mas nenhum constrangimento maior é detectado, a não ser o fato do casal, tratá-lo friamente, por conta de dívidas não saldadas por Ned. E a nudez significaria o que exatamente neste caso ? O despojamento moral num duplo sentido ? A vergonha seria não pela exposição dos corpos, mas pela falta de caráter ?
Na casa dos Gilmartins, ele encontra apenas o filho do casal, o garoto, Kevin Gilmartin Jr. (Michael Kearney). Seus pais divorciaram-se e a mãe acabara de viajar em Lua de Mel com o novo marido. A piscina está vazia, por motivo de segurança.
Piscina vazia ? Divórcio e padrasto à vista para o garoto ? Não seriam meras manifestações alegóricas do passado de Ned a atormentá-lo ? Mas ele não abate-se e ante um jogo lúdico, simula movimentos de nado com a companhia do garoto. O que vale é a ação, com ou sem água.
A próxima piscina é a de um espaço recreativo de um clube. Após o mergulho habitual, Ned envolve-se em uma bizarra confusão, ao brigar com o dono de um carrinho de cachorro-quente. A sua alegação fora a de que o carrinho pertencia-lhe e de fato, ele fora o seu dono no passado, mas por razões desconhecidas, o carrinho fora confiscado-lhe e arrematado em leilão pelo novo e legítimo dono. Sem dúvida, mais um resgate do passado.
Expulso do local e com as pessoas a formatar uma péssima impressão ao seu respeito, Ned vai à casa de Shirley Abbott (Janice Rule). Ela houvera sido sua amante anos atrás e nesse momento, trata por descarregar toda a sua frustração, ao acusá-lo de não ter tido coragem de assumir a relação, por ter medo da esposa. Diálogos ríspidos são travados dentro d'água, e Ned quase a seduz novamente, em uma das melhores cenas do filme, onde a água deixou dois sentimentos distintos sob seu balanço : amor e ódio.
Venceu o ódio, com Shirley a expulsá-lo sumariamente, enquanto destilou o seu veneno vingativo em forma de bravatas sexuais com outros homens, que alegou ter conseguido.
Cabisbaixo, a última piscina que encontra é a de um espaço público. Ali, é ainda mais hostilizado por várias pessoas. São pequenos comerciantes que cobram-lhe dívidas de pequena monta, para deixar transparecer que a sua situação financeira é muito pior do que imaginava-se. O homem com porte atlético e supostamente um publicitário bem sucedido, revelou-se na verdade um cidadão derrotado, em péssima situação financeira e atormentado pelos fantasmas do passado.
Começa uma chuva e assim, a última oportunidade de expiação pela água, leva-o ao esgotamento físico. A cena final mostra-o ao chegar a porta de sua casa, e a colocar-se quase em posição fetal, para ser banhado pela água da chuva. Um final emblemático para um filme cheio de metáforas psicanalíticas.
No Brasil, o filme recebeu o nome fantasia como : "O Enigma de uma Vida", mais uma vez a fugir completamente da proposta original. O mais correto teria sido batizá-lo pela tradução literal, ou seja, "O Nadador".
Apesar de possuir admiradores, não fez sucesso comercial algum na época de seu lançamento, e só é lembrado por cinéfilos mais antenados e colecionadores, nos dias atuais. Causou um certo frisson no entanto, durante os anos setenta, aqui no Brasil, por ser reprisado inúmeras vezes nas sessões das madrugadas promovidas pelas TV's brasileiras. Eu incluo-me no rol das pessoas que assistiram-no várias vezes nessa época, oportunidade que propiciou-me tornar-me seu fã.
Burt Lancaster foi o ator perfeito para interpretar, Ned Merrill, por ter o porte atlético, e a idade ideal do personagem. A ideia de começar o filme com autoconfiança total e encerrar aos frangalhos, certamente reforçou toda a trajetória introspectiva do personagem.
No geral, existe uma certa melancolia, reforçada pela fotografia pastel, e pela trilha sonora, deveras melancólica. Mas ao mesmo tempo, enxergo beleza nessa trajetória aquática de Ned Merrill, um homem que buscou na água, o acerto de contas com o seu passado.
Há muitos anos que não o vejo na grade da TV, mesmo dos canais a cabo, especialistas em filmes vintage. Se o leitor souber de uma exibição por aí, assista, pois vale a pena.
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