domingo, 7 de maio de 2023

Filme: American Hot Wax (Viva o Rock'n' Roll) - Por Luiz Domingues

Se há uma personalidade que não foi músico, mas tem uma importância enorme no estopim do Rock’n’ Roll como algo muito maior que um simples gênero musical, na década de cinquenta, esta pessoa foi: Alan Freed. Radialista, Freed foi um dos primeiros, senão o primeiro a perceber algo novo no panorama da música norte-americana no início dos anos cinquenta, inicialmente ao descobrir uma variação do Blues tradicional, ao mostrar-se algo mais dançante e com alto teor Pop, no caso o Rhythm and Blues, conhecido pela sigla: “R’n’B”. 
 
Corajoso, em meio a uma sociedade extremamente pautada pelo racismo, encantou-se pela música produzida pelos artistas negros, de uma maneira geral e por conta desse seu entusiasmo, primeiramente com o Blues e o R’n’B, percebeu o potencial desse novo galho oriundo da raiz primordial da música negra. Posteriormente, ao perceber que a música negra ao fundir-se com o tradicional Country & Western, a poderosa raiz do cancioneiro da cultura branca, haveria por produzir uma música explosiva, rica e capaz de abranger um público miscigenado, a englobar brancos e negros e assim: “boom”, a explosão consumou-se em torno do Rock’n’ Roll. 
A importância de Alan Freed nesse processo é tão grande que é atribuído à sua pessoa, esse ponto de fusão que gerou o estilo. Exageros à parte, Freed ficou responsabilizado por ter criado o neologismo: “Rock’n’Roll. Independente desse fato ser verídico ou mero exagero em tom de boato e/ou lenda urbana, o fato foi que Freed foi um difusor do Rock, com um fervor impressionante e mais que isso, Freed organizou shows com muitos artistas da cena, inclusive a configurar uma periodicidade e também por gerar filmes, vários, nos quais o próprio Freed atuou, a interpretar a si mesmo e cercado por artistas musicais sensacionais.
Bem, Alan Freed também foi controverso. A despeito de ser reconhecido como um agente para a propulsão do Rock na década de cinquenta e enaltecido por uma série de artistas que foram beneficiados diretamente pela sua força midiática inconteste, todavia, por outro lado ele foi duramente perseguido pelas autoridades, por conta de seus shows realizados em salões e teatros, irremediavelmente a gerar tanta euforia espontânea.
 
Por conta de tal frenesi despertado, muitas vezes os jovens a dançar freneticamente, quebraram cadeiras e objetos em geral de tais locais, a suscitar muitas intervenções policiais truculentas. 
Porém, o incômodo maior, foi óbvio, e sob uma outra monta, ao tocar-se em um assunto delicado ao extremo na sociedade norte-americana de então, ao propor subliminarmente, que garotos brancos pudessem entusiasmar-se com a música dos negros. E ainda houve um terceiro elemento a demolir a sua imagem, e fato grave que praticamente o derrotou em sua credibilidade: a acusação que pairou sobre a sua reputação em torno do recebimento da chamada, “Payola”, que foi o neologismo criados pelos norte-americanos para designar o que no Brasil é conhecido como “Jabaculê”, ou “Jabá” na forma mais simplificada. 
 
Em síntese, a prática amoral da cobrança de um ágio, para a execução de músicas dos artistas nas estações de rádio. A “Payola” (a junção de sílabas das palavras: “Pay”-pagar, com “ola”, a sugerir “vitrola”, “radiola”, ou seja, aparelhos para ouvir-se música etc), foi uma prática abominável que gerou uma discussão sobre ética no âmbito da cultura, fortemente nos Estados Unidos, nessa época.
 
Pois em 1978, um filme cinebiográfico foi lançado para trazer à tona a pessoa de Alan Freed, a enaltecê-lo como um grande difusor do Rock’n’ Roll. Claro que isso foi verdade, a despeito de alguns aspectos negativos de sua biografia, como eu mencionei acima. Longe de estabelecer qualquer tipo de julgamento de minha parte, eu sei que o aspecto negativo em torno do escândalo da Payola foi grave e desagradável, no entanto, no cômputo geral, a sua contribuição ao Rock foi e sempre será inquestionável. 
Em “American Hot Wax” (no Brasil, tal filme recebeu o título: “Viva o Rock’n’ Roll”), o roteiro privilegiou a cronologia já a mostrar Alan Freed a viver o início de sua explosão como radialista. Em uma das primeiras cenas, Alan Freed (interpretado pelo ator, Tim McIntire), é duramente repreendido por um executivo da emissora (WINS de Nova York), por estar a tocar o sucesso de Little Richard, “Tutti-Frutti”, e ele ouve a verborragia irritada do sujeito, passivamente, a denotar uma atitude de deboche e assim deixar claro que não iria obedecer nenhuma ordem da direção para mudar a sua programação.
 
Destaca-se a presença da secretária, Sheryl (interpretada por Fran Drescher), que mostra-se engraçada, ingênua e dá o tom cômico do filme ao ser assediada o tempo todo por muitos homens, visto que além de ser uma personagem engraçada, Sheryl/Fran Drescher (e bem jovem nessa época), era muito bonita. E do motorista de Freed, “Mookie” (interpretado por Jay Leno, que anos mais tarde tornar-se-ia muito mais famoso ao apresentar um talk-show prestigiado na TV). Mookie mostra-se engraçado também em alguns momentos, mas na verdade, é um personagem dúbio, ao denotar não estar comprometido inteiramente com o seu patrão.
 
Cenas com Freed a comandar o seu programa, intercalam-se à outras, onde é realçada a repercussão entre os jovens e isso é alvissareiro para demonstrar o poder da difusão radiofônica nesse processo. E nesse bojo, vem também o contraponto com os pais dos adolescentes a mostrar-se muito revoltados com tal influência, e assim pressionar profundamente os seus filhos em sinal de reprimenda e sob a sua visão tacanha, certamente vir a desnudar o seu racismo indelével, entre outros aspectos nada louváveis.
 
Uma cena ainda mais forte sobrevém, ao mostrar uma pressão que Freed sofrera da parte de um comitê em prol dos “bons costumes”, a reclamar sobre ele estar a difundir essa tal música tóxica e assim, gerar um desserviço ao país etc. e tal. 
 
Outro aspecto bem interessante do filme, foi ter mostrado com bastante ênfase, inclusive, a questão sobre o assédio direto que Freed recebia, diariamente da parte de artistas e até aspirantes a artistas. Fato concreto, isso realmente foi uma constante na trajetória de Alan Freed, que costumava ser abordado por artistas na porta do prédio onde funcionava a estação de rádio, para mostrar os seus dotes musicais. Cenas nesse sentido são interessantes e até divertidas, pois chegou-se em um ponto onde as pessoas o confundiam com um produtor caça-talentos de alguma gravadora e a todo custo, o procuravam. Até mãe a levar filhos pequenos para atormentá-lo ao obriga-lo a assistir os seu pimpolhos a cantar (e desafinar), a capela, em seu gabinete. 
Destaca-se a presença de uma jovem compositora chamada, Louise (interpretada por Loraine Newman), que não apenas compõe canções ao piano, como ajuda um grupo vocal negro, orientado pelo R’n’B, para arranjar e ensaiar os rapazes. Essa personagem é acintosamente inspirada em Carole King, uma artista sensacional e que de fato, bem nova, ainda nos anos cinquenta, forjou-se no mercado musical como uma compositora e até chegar ao ponto de ser contratada por uma gravadora, definitivamente. 
 
Verdade histórica, Carole King insistiu bastante em abordar pessoas ligadas ao show business, através do apoio de grupos vocais R’n’B, formado por rapazes (ou moças), negros com os quais os alimentava com as suas composições.
 
Outra cena interessante no filme, mostra um garoto muito novo, que abordou Freed, ao se apresentar como o presidente de um fã clube do genial cantor/compositor e guitarrista, Buddy Holly. Pois Freed abriu o microfone e o garoto deu um depoimento emocionado, ao ponto de embargar a voz e deduz-se que isso ocorrera em setembro de 1959, pois ele estava ali a comemorar a data de nascimento do artista e emocionara-se ao citar perda de Buddy (falecido por conta de uma acidente aéreo), o que ocorrera em fevereiro desse ano. 
 
Uma cena forte ocorre quando o pai de Louise a repreende por estar envolvida com homens negros e ela revolta-se, pois a sua paixão pela música falara mais alto que o preconceito de sua família conservadora. Se a personagem foi inspirada em Carole King, vale destacar que Carole, na vida real, passou por esse tipo de aborrecimento com o seu pai, que foi um empresário poderoso e este frustrou-se com a decisão de sua filha de não ser uma boa herdeira obediente, para preferir viver de música e andar com “más companhias”. Enfim, no filme, não é explicitado tratar-se de Carole King e a condição social da personagem é bem mais modesta, alojada na classe média.
Enquanto isso, cenas do show de primeiro aniversário do programa radiofônico que Freed protagonizava, realizado no teatro Paramount, mostra o tumulto gerado pela super lotação e principalmente pela euforia proporcionada pelos jovens. Vê-se de tudo, incluso artistas fantasiados. 
Um músico de rua, a tocar uma bateria improvisada com um tambor de óleo, é notado em alguns "frames". Um pedaço da performance do sempre exótico, "Screamin" Jay Hawkins, mostra-o a grunhir, literalmente e encerrar a sua apresentação e entrar em um caixão, algo bem chocante para os padrões da época, muitos anos antes de Alice Cooper teatralizar os seus shows. Aliás, Alice nessa época, 1959, era só um garoto estudante, fã de Rock’n’Roll e certamente a ouvir o programa de Alan Freed no rádio.
 
Cena desagradável, mas que corresponde à realidade, de fato as autoridades usaram a polícia para reprimir o show. O clima fica tenso na coxia, quando o aparato policial cerca tudo e ameaça parar o show a qualquer instante e pior ainda, efetuar prisões a esmo, incluso os artistas que estão ali a apresentar-se. Uma ordem é proferida a dar conta que a polícia não toleraria nenhum jovem em pé, a dançar. Todos deveriam assistir tal show sentados e caso alguém desobedecesse, o espetáculo seria sumariamente encerrado, ou seja, uma tremenda arbitrariedade abominável.
Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, em pessoa, apresentam-se. A produção convidou os dois artistas o que foi simpático, mesmo porque, ambos foram muito amigos de Alan Freed e apresentaram-se muitas vezes nesses espetáculos produzidos pelo radialista, na vida real. Tenho certeza que os dois participaram do filme com muito prazer pela homenagem ao seu saudoso amigo, Freed, no entanto, ao pensar no filme, a licença poética ficou descabida, pois ambos, na casa dos quarenta anos de idade nos anos setenta, quando este filme foi produzido, não foram maquiados para parecer mais jovens, e assim, com quarenta e poucos anos a interpretar a si próprios com vinte e poucos, ficou bem forçado. 
 
E mais um detalhe, a sobre a sonoridade dos shows, não houve nenhuma preocupação em buscar-se um áudio mais compatível com a realidade dos anos cinquenta. Detalhe, eu sei e compreendo igualmente que a licença poética justificou-se pela homenagem prestada, no entanto, se tal encenação houvesse sido feita com atores mais jovens e os dois super astros cinquentistas aparecessem de outra forma, a homenagem estaria representada dignamente, acredito.
 
De volta ao filme, a cena em que a polícia pressiona na coxia do teatro chega aos ouvidos de Jerry Lee Lewis, que estava no palco a apresentar-se. Ele pede calma aos jovens, mas em seguida, ele mesmo já sobe em cima do piano e comanda a rebeldia total (bem típica a reação do “The Killer”, por sinal). A polícia manda cortar a energia elétrica e sai a bater e prender todo mundo que conseguiu agarrar, em meio ao tumulto e correria.
A última cena é muito simbólica. Aquele rapaz que cantava e tocava um tambor de óleo na rua, é mostrado com a rua deserta após o tumulto. Nada mais simbólico, pois se a repressão tentou barrar (e tentaria muitas vezes no futuro), o fenômeno, na verdade o Rock sobreviveu, tal qual o percussionista improvável das ruas continuou a tocar, incólume aos acontecimentos policialescos.
 
Uma tarja com dizeres, apenas afirma que Alan Freed foi morar na Califórnia, posteriormente. Então, nada mais é esclarecido, portanto, a questão sobre o “Payola” que o prejudicou ao ponto de ser demitido da rádio, não foi mencionada a justificar a decadência do radialista e a sua morte em 1965, decorrente do alcoolismo e certamente pela tristeza gerada pelo ostracismo forçado.
Enfim, trata-se de uma obra que maquiou bastante a trajetória do radialista, nos aspectos mais obscuros de sua biografia. Entretanto, mostrou méritos ao exibir a sua importância para a cena. E contém igualmente algumas pontuais passagens da sua vida e obra, interessantes. 
 
A direção de arte não foi das mais caprichadas o que causa um espanto, ao tratar-se de uma produção norte-americana. Não é nada gritante, mas observa-se no figurino e no visual das personagens, um certo anacronismo, que não é compatível ao padrão norte-americano que é sempre tão rigoroso nesse quesito em específico sobre filmes ambientados em épocas mais antigas. Não basta comprar figurinos em brechós para encenar uma dramaturgia ambientada em algum ponto do passado. É preciso fazer uma pesquisa mais apurada etc. e tal. 
O mesmo em relação ao áudio. Não é necessário ser um engenheiro de som para notar que o som cinquentista que soa na trilha sonora do filme, a excetuar-se trechos de músicas extraídas de discos da época, na verdade é óbvio tratar-se de uma sonoridade setentista e Pop, para ser mais preciso. 
 
O ator que interpretou, Alan Freed, Tim McIntire, tinha uma aparência pessoal semelhante ao cinebiografado, porém, nitidamente mais robusto. Brincadeiras surgiram a dizer que McIntire havia composto a personagem de Freed, após um tratamento intensivo realizado em bons restaurantes italianos.
 
Outros atores que participaram do filme: Moosie Drier (como Artie Moress), Jeff Altman (como Lennie Richfield), John Lehne (como DA Coleman), Charles Greene (como Chuck Otis) e Richard Perry (como um produtor de estúdio). Uma curiosidade especial, o cineasta e crítico musical, Cameron Crowe, faz uma participação especial, com um entregador. Nessa época ele era bem jovem, mas precoce, era crítico de Rock da revista Rolling Stone, já desde o início dos anos setenta.
 
Outros artistas musicais que participaram: The Chesterfields (representado por atores), The Delights (representados por atores), Brenda Russell, Timmy and The Tulips (representado por atores) e The Planotones (representado por atores). 
O roteiro foi escrito por John Kaye e a direção ficou a cargo de Floyd Matrux. Foi lançado em março de 1978. O resultado prático revelou-se muito mal na bilheteria das salas de cinema assim que entrou em cartaz e recebeu críticas pouco animadas, inclusive mediante menções ao filme ter edulcorado a biografia de Alan Freed e dessa forma, ignorar os pontos negativos, como o caso da “Payola”, por exemplo. Circulou na TV, com muitas reprises. Está disponível em formato DVD e encontra-se na íntegra para ser assistido no YouTube, ao menos neste instante em que escrevi esta resenha, em 2019.
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz, Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 58. 

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Noite de Autógrafos dos livros "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" e "Humanos Pitorescos" + Show d'Os Kurandeiros (Lançamento da versão digipack do CD "Cidade Fantasma") - 6/5/2023/Sábado - 19 horas - Instituto Cultural Bolívia Rock - SP

Noite de Autógrafos dos livros "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" (3 volumes) e "Humanos Pitorescos" + Show d'Os Kurandeiros (Lançamento da versão digipack do CD "Cidade Fantasma")  

6 de maio de 2023  -  Sábado

19 horas: noite de autógrafos com Luiz Domingues

21 Horas: Show d'Os Kurandeiros

Instituto Cultural Bolívia Rock (ICBR) -

Rua Dr. Suzano Brandão, 537/543

Penha

São Paulo - SP

300 metros da estação Penha do metrô

Apoio: Matilda Produções - Clube de Autores - Instituto Cultural Bolívia Rock - Webradio Stay Rock Brazil

domingo, 30 de abril de 2023

"Humanos Pitorescos" é o novo livro de minha (Luiz Domingues) autoria!


Amigos: é com prazer que eu anuncio o lançamento do meu novo livro, denominado, "Humanos Pitorescos". A obra já está à disposição do público em geral através do site do Clube de Autores (https://clubedeautores.com.br/livro/humanos-pitorescos). Em breve alcançará também outras plataformas virtuais de vendas. Por uma questão burocrática momentânea, a sua versão "e-book" ainda não foi disponibilizada, porém, em breve isso ocorrerá no site do Clube de Autores. 
 
E sim, o livro "Humanos Pitorescos" também terá a sua noite de autógrafos durante o mesmo evento programado para o dia 6 de maio em São Paulo, cujo serviço completo eu anunciarei em breve.
 
Segue abaixo uma breve sinopse sobre a obra:
 
“Humanos Pitorescos” é um livro de contos curtos a narrar histórias díspares entre si, mas que nas entrelinhas revela um conceito único a representar a alma humana desnuda em seus aspectos mais realistas, para o bem e para o mal.
 
Nesses termos, o mote geral apresenta as diversas nuances humanas que questionam as contradições expressas no convívio cotidiano dentro da sociedade, ou a trocar em miúdos, ao tratar da disparidade em torno da inveja e do reconhecimento sincero, a mesquinhez e a solidariedade, escárnio e compressão, soberba e humildade, e assim por diante.
 
Livro: “Humanos Pitorescos”
Uma realização da Matilda Produções
Editor: Cristiano Rocha Affonso da Costa
Revisão, diagramação e carta catolográfica: Alynne Cavalcante
Arte de capa, encarte e material promocional: Victoria Costa
Fotos do autor: Lincoln Baraccat
Suporte: Lorena Bindo da Costa
Apoio: Clube de Autores

sábado, 22 de abril de 2023

Filme: Lennon Naked (Simplesmente Lennon) - Por Luiz Domingues

Entre tantos filmes já surgidos a enfocar a carreira dos Beatles, destaca-se uma notável proeminência de obras a buscar exclusivamente a biografia de John Lennon. Nenhuma delas pode ser considerada definitiva e veja bem, estou a desconsiderar a grande profusão de documentários, igualmente, e alguns inclusive, chancelados por Yoko Ono. A despeito dessa constatação, devo dizer que este telemovie britânico (filme feito para a TV e no caso por uma emissora do porte da BBC, a maior estatal do mundo no setor das comunicações), “Lennon Naked”, tem diferenciais em relação aos seus pares e posso afirmar, muito interessantes.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que o título tem uma conotação dupla, visto que faz alusão ao fato de que pretendeu expor a personalidade de John Lennon, daí a expressão “Lennon Nu”. Mas também é uma clara menção à polêmica capa de um disco experimental que ele lançou em dupla com Yoko Ono, quando ainda era oficialmente um componente dos Beatles, chamado: “Two Virgins” e cuja foto que se usou para ilustrar a capa e contracapa do álbum, chocou o mundo em 1969, ao gerar uma polêmica estrondosa sobre a legitimidade do Rock e da contracultura como um todo, e nessa questão a colocar em xeque a presença dos Rockers, que seriam influenciadores negativos aos jovens, na visão conservadora da sociedade, a evocar não só o paradigma dos ditos “bons costumes” no âmbito sociocultural e comportamental, mas sobretudo ao afrontar os valores religiosos sob a égide judaico-cristã.
Dentro desse assunto sobre o título do filme, cabe acrescentar que a versão brasileira foi mais uma vez infeliz ao fugir da tradução literal e optar por criar um nome alternativo, pois ao denominar a obra como: “Lennon Simplesmente”, eliminou completamente a possibilidade do público brasileiro ter contato com a sutileza que o título original sugeriu, em inglês. E o critério usado para tal adulteração infeliz, certamente foi por uma questão a envolver um puritanismo obtuso, a evitar a insinuação sobre a “nudez” literal.
Bem, sobre a obra em si, o primeiro aspecto a se destacar foi a opção do roteiro para retratar a vida de John Lennon em um período pouco explorado em outras cinebiografias sobre tal artista. O filme centra a sua exploração entre 1964 e 1971, ou seja, a começar com a figura de Lennon já completamente consagrado, inclusive em escala mundial, passar por momentos ricos da história dele com os Beatles, quando conheceu e envolveu-se com Yoko Ono, um pouco além do término das atividades dos Beatles e a encerrar bem no começo de sua carreira solo, em termos oficiais, digamos, pois na prática ele já havia lançado alguns discos solo, ainda que estes trabalhos fossem completamente experimentais e bem distantes de uma obra que pudesse ser considerada como música, propriamente dita.
E um outro ponto, e sem dúvida o mais interessante, pois como insinuou o seu título, mostrou Lennon desprovido de vestimentas no sentido metafórico, ao repercutir passagens de sua vida com bastante dramaticidade no aspecto humano. Por exemplo, logo no início, a opção do roteiro foi passar bem rapidamente pela questão de que em 1964, ele estava a viver a completa loucura proporcionada pela fama em meio à Beatlemania e foi direto em um ponto nevrálgico: um encontro promovido pelo empresário da banda, Brian Epstein (interpretado por Rory Kinnear), entre ele, John (interpretado por Christhopher Eccleston) e o seu pai, Freddie Lennon (Interpretado por Christopher Fairbank). 
De fato, na vida real, Freddie havia ignorado o filho e só havia aparecido certa vez durante a tenra infância de John e por um breve instante, para traumatizá-lo ainda mais. Agora, com o filho a mostrar-se um jovem a usufruir de um sucesso avassalador e naturalmente a revelar-se um milionário com tão pouca idade, pareceu ter motivado o seu velho a buscar uma aproximação e obviamente que Lennon trata o pai friamente nesse encontro. Pois é interessante como tal passagem do encontro em 1964, nunca fora mencionada em nenhum outro filme similar, ou seja, um ponto para esta produção, pela observação da sua busca por um tipo de abordagem inédita. 
Bem, o filme avança com uma aceleração estratégica sobre os anos de 1965 e 1966, para abordar doravante, Lennon (e os Beatles), em 1967. Vive-se a época em que o LP super premiado, “Sgtº Pepper’s Lonly Hearts Club Band” mal acabara de ser lançado e a notícia trágica sobre a morte de Brian Epstein abala profundamente os quatro componentes da banda. Nesse ínterim, Freddie Lennon reaparece e John resolve dar uma chance ao seu pai, que não está bem financeiramente e assim decide leva-lo para morar com ele em sua mansão. Ali, Freddie conhece a sua nora, Cynthia Lennon e o neto, Julian. 
O novo trabalho dos Beatles, a seguir, tratou-se de um filme feito para a TV e que motivou o lançamento de um LP com a sua respectiva trilha sonora, acrescido com alguns singles, chamado: “Magical Mystery Tour”. Pois este material no entanto, recebeu críticas negativas da imprensa e isso irritara Lennon, não pelos comentários ruins em si, mas pelo fato dele ter brigado com Paul McCartney, previamente por essa realização e este insistira na realização do filme, à revelia de Lennon que nunca apreciou tal ideia.
Como se não bastasse tudo isso, Lennon está às turras com a sua esposa, Cynthia e ainda mais com o pai, Freddie, hospedado em sua casa, portanto, o clima fica ruim. E piora ainda mais quando Freddie conta para John, que a sua namorada, que é uma moça jovem, com apenas dezenove anos de idade (chamada: Pauline e que não aparece no filme), está gravida. Foi a gota d’água para John expulsar o seu pai de casa.
O filme avança para 1968, e mostra os Beatles a fazer um retiro espiritual com o guru indiano, Maharishi Mahesh Yogi (que aliás motivou Lennon a escrever a belíssima canção, “Sexy Sadie” que entrou no disco seguinte dos Beatles, “White Album”, a conter duras críticas ao tal guru charlatão, que o desencantara), e nesse ponto, o roteiro induz uma licença poética, uma daquelas típicas que diretores e roteiristas de cinema costumam usar para supostamente adequar uma biografia ao padrão cinematográfico, a justificar falhas na cronologia dos fatos. Pois na realidade, John Lennon conhecera a artista plástica japonesa, Yoko Ono, em novembro de 1966 e não em 1968. Entretanto, foi nesse ponto do filme que tal encontro ocorre. 
A cena desse momento, a despeito deste filme ter muitos méritos, deixou a desejar, pois a dramatização foi feita com subterfúgios, como se não quisesse esclarecer tal fato a contento. Nesse específico ponto, um outro telemovie, chamado: “John and Yoko, a Love Story”, é bem mais completo ao abordar esse importante episódio na vida de Lennon, com mais propriedade. Aqui em “Lennon Naked”, além da rapidez, a abordagem saiu inteiramente pela tangente. 
Mostra-se Lennon a se aproximar da galeria de arte onde Yoko faria a sua famosa exposição, mas não retrata a importante cena da instalação a conter a escada, a lupa e a palavra “yes” escrita no teto, e que em tese, foi o que despertou em Lennon a vontade para conhecer Yoko. Exibe-se apenas a presença de Lennon na porta e no momento em que interage com Derek Taylor (que havia sido recém contratado pelos Beatles para assumir a assessoria de imprensa do grupo, como uma das primeiras medidas adotadas para estabelecer um novo gerenciamento do conjunto, após a morte do empresário, Brian Epstein). 
Lennon estava com um encontro marcado para conhecer a atriz francesa, Brigitte Bardot que o aguardava em um hotel de Londres. Brigitte houvera sido uma obsessão pessoal de Lennon desde a adolescência e de fato, ela ainda era considerada como uma das, senão a mais bela mulher do mundo, portanto não fora apenas o adolescente Lennon que sonhara com ela, solitariamente em seu quarto, nos anos cinquenta em Liverpool, mas milhões de garotos ao redor do mundo nutriram o mesmo pensamento. 
Bem, a seguir, o filme mostra Lennon já encantado por Yoko e a brigar feio com Cynthia. Na clássica abordagem da esposa traída a dar o ultimato, “ou eu ou ela”, Lennon usou o seu habitual sarcasmo para responder: -“fique com as piscinas da casa”. Houve mais tensão no ar, dentro do seu trabalho, pois o clima com os Beatles estava péssimo. E sucedem-se as cenas sobre John e Yoko a entrosar-se cada vez mais, inclusive a mostrar a sessão ou auto sessão de fotos (em uma época em que o conceito da “selfie”, nem existia), a compor a famosa e polêmica capa do LP “Two Virgins”, com o nu frontal do casal, sem nenhum pudor, ou seja, o literal: “Lennon Naked”, que o título do filme aludi. Vem a cena da invasão da residência do casal, onde a Scotland Yard foi bem truculenta e achou um punhado de maconha a gerar um espetaculoso processo e questão essa que render-lhe-ia um enorme aborrecimento no decorrer dos anos setenta. 
Yoko engravida e encena-se a passagem onde Lennon fez a gravação do coração do bebê no ventre de Yoko e que foi incluída em mais um LP experimental do casal, chamado: "Life With the Lions”, lançado em 1969, embora o posterior aborto desse feto tenha gerado uma grande tristeza ao casal. 
Rapidamente mostra-se o ato político que o casal promoveu em sua própria “Lua de Mel”, o famoso: “Bed-In”, a ação em devolver a comenda que recebera da Rainha da Inglaterra, em sinal de protesto ao apoio do Reino Unido à guerra do Vietnã, a ação da campanha: “War is Over” (!), que o casal patrocinou e a consequente reação de setores da mídia e do público conservador em geral, a ridicularizar o pacifismo.
Um ponto muito delicado que toda biografia dos Beatles e de seus membros individualmente tem que tomar muito cuidado ao retratar, é a questão do final das atividades da banda e isso é feito por diferentes pontos de vista, em várias películas. Por um lado, é bom que tenha havido o contraponto proporcionado por diferentes versões, mas é nocivo verificar, ao assistir tantos filmes, que não se trata apenas de diferentes visões do mesmo fato, mas infelizmente, verifica-se distorções de um filme para o outro. 
Neste caso em específico, mostra-se que Lennon pediu para sair da banda, mas McCartney o persuadiu a não anunciar isso por um determinado prazo e que no momento oportuno, seria feito um comunicado oficial para decretar o final das atividades da banda, e isso seria fundamental para os negócios, visto que a empresa por eles fundada, a “Apple” estava a ser muito mal administrada e seria prudente que o derradeiro filme produzido pelo grupo, um documentário chamado, “Let it Be”, fosse lançado e rendesse um montante para equilibrar as contas. 
No entanto, antes do prazo solicitado, McCartney anunciou a sua saída e o consequente lançamento de seu primeiro disco solo, simultaneamente, o que enfureceu Lennon, que lançara algumas músicas anteriormente, mas não fizera uma grande divulgação exatamente para cumprir a sua palavra. No filme, “The Linda McCartney Story”, tal passagem é contada pelo ponto de vista de Paul, a eximir-se da culpa pela quebra de palavra e a mostrar Lennon como um desequilibrado histérico, ao ponto de apedrejar a residência da família McCartney.
Uma importante passagem da vida de Lennon é mostrada quando ele conheceu o psicanalista norte-americano, Arthur Janov, que desenvolvera a partir de seus estudos da terapia Gestalt, uma nova técnica, denominada: “Primal Scream”, ou “Grito Primal”, sob uma tradução livre para o português. Bem, Lennon e Yoko encantaram-se com a técnica, ao ponto dessa terapia ter influenciado profundamente o lançamento do então primeiro álbum solo oficial de Lennon, “Plastic Ono Band”, em 1970. E o filme encerra-se ao início de 1971, quando o casal decide mudar-se para Nova York, nos Estados Unidos e a legenda do filme encerra a obra com uma frase realista, não obstante a mostrar-se tristonha, como uma constatação : “ele nunca mais voltou de Nova York”...
Portanto, no cômputo geral, este filme, “Lennon Naked” surpreendeu por trazer à tona certos aspectos geralmente não mostrados em outras cinebiografias sobre Lennon, individualmente ou com The Beatles e sobretudo a mostrar um período dos mais ricos de sua vida, como um artista a buscar desgarrar-se do estigma de ser considerado um Rock Star pelo viés do clichê que tal pecha carrega, a se embrenhar em arte experimental (graças à influência direta de Yoko, para o desespero dos fanáticos fãs dos Beatles que a odeiam com todas as forças), e pelo ativismo sociopolítico que ele adotou fortemente ao final dos anos sessenta e que foi a sua marca registrada na carreira solo demarcada no início, até a metade dos anos setenta.
Para reforçar tudo o que eu observei, devo salientar que o fato do ator, Christopher Eccleston, ter composto o personagem de John Lennon com muito brilhantismo, tornou a proposta do filme ainda mais incisiva. De fato, com um ator desse quilate, a intenção de se desnudar a personalidade de Lennon, adquiriu uma guarida técnica. E nem mesmo o fato do ator, na época a estar na casa dos quarenta anos de idade, para interpretar, Lennon, dos 24 aos 31 anos de idade, causou prejuízo para a composição do personagem. 
De resto, considere-se também que o fato de ter sido uma produção de “telemovie”, ou seja, sob baixo orçamento, enaltece o esforço dos seus responsáveis, pois trata-se de um filme bem acabado em linhas gerais.
A parte musical, sob responsabilidade de Dickon Hinchcliffe, é boa e a inserção de gravações originais de Lennon em carreira solo e dos Beatles, ainda que a conter parcos segundos, deu substância ao filme, mesmo com a ausência do material integral dos Beatles, sempre por conta do entrave burocrático com os direitos autorais e da edição, é salutar.
Ainda no elenco: Andrew Scott (como Paul McCartney), Craig Cheetham (como Ringo Starr), Jack Morgan (como George Harrison), Naoko Mori (como Yoko Ono), Michael Colgan (como Derek Taylor), Claudie Bakley (como Cynthia Lennon), Rory Kinnear (como Brian Epstein), Allan Corduner (como Arthur Janov) e Charlie Coulthard (como Julian Lennon), entre outros. 

Escrito por Robert Jones e dirigido por Edward Coulthard. Foi lançado em 2010, pela BBC de Londres e paulatinamente em outros países. Recebeu boas críticas, e foi exibido com certa assiduidade em canais da TV a cabo. Existe para a venda em DVD e no YouTube é difícil para encontrar-se uma versão integral. É encontrado no entanto, no portal Dailymotion. 

Esta resenha foi escrita par compor o livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", através do seu volume 2 e está disponível para a leitura a partir da página 280