segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Filme: Across The Universe - Por Luiz Domingues

Muitos anos após o lançamento do filme/documentário, ”All This and World War II” (“Tudo Isso e a Segunda Guerra Mundial”, de 1976), e também de “Sgtº Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (este de 1978), mais uma vez o cinema usou o cancioneiro dos Beatles para dar mote; substância artística e trilha sonora para que uma história fosse narrada. Desta feita e a priori, tratou-se de um filme romântico, no entanto, que não se engane o leitor, pois nas entrelinhas (e são muitas nesta obra), há citações interessantes sobre a contracultura sessentista e a carreira dos Beatles. Portanto, para quem costuma adotar uma opinião definitiva sobre um livro, a basear-se na ilustração da capa, tão somente, e simplesmente não dar-se ao trabalho em lê-lo, vale a ressalva que por trás de uma suposta história de amor banal, ainda que embalada por reconhecidas ótimas canções, este filme tem um algo a mais.
 
Em primeiro lugar é preciso destacar que a proposta estilística desta película foi pelo musical em sua linha tradicional, ou seja, a conter uma dramaturgia normal, intercalada com diálogos cantados, na plenitude da prerrogativa clássica em torno das personagens a cantarolar em situações inusitadas, a esmo e a desafiar a realidade da vida comum. Nesses termos, não há nada de errado nesse conceito, se levarmos em consideração que essa vertente do cinema existe há décadas, portanto, para muitos aficionados, trata-se de uma metodologia considerada até charmosa, a produzir-se musicais dentro dessa característica, e assim dar vazão à nostalgia das pessoas que sentem saudade dos musicais produzidos em maior profusão, principalmente entre os anos trinta e sessenta do século passado. 
Assim como também não poderia ser totalmente condenável a opção da produção em trabalhar com o mote do romantismo tradicional, a evocar a relação homem/mulher. E dessa forma a construir-se de um roteiro conservador para observar os típicos recursos narrativos em torno dos desencontros, mal-entendidos e vilanias da parte de terceiros para atrapalhar a felicidade do casal protagonista etc. e tal. 
 
Questão de opção e livre arbítrio, quem quiser assistir pela milionésima vez a mesma história, considere-se livre para pagar o valor do ingresso cobrado por uma sala de cinema, sentar-se na sala escura e regozijar-se. No entanto, mesmo que este filme contivesse apenas tal fator para oferecer ao espectador como uma substância, a simples inserção de um repertório recheado por canções dos Beatles, trata por conferir-lhe um requinte inquestionável. 
E antes mesmo de comentar sobre a história, é preciso destacar que a obra tem uma produção visual requintada, por conter uma direção de arte primorosa; ótimos figurinos e a presença de efeitos até surpreendentes. E claro, ao tratar-se de um musical, a preparação dos atores e dançarinos envolvidos, foi muito boa, inclusive a apresentar em certas cenas, coreografias ousadas e uma excelente trilha sonora, pois a execução das canções dos Beatles, foi realizada com muito respeito à sonoridade original de seus autores (mesmo a conter algumas modificações em sua interpretação e arranjo), portanto bem tocadas & cantadas, além  de apresentar-se bem produzidas em estúdio, no quesito da resolução final de áudio de sua trilha sonora. 
Sobre o desenrolar da história, os signos em torno dos Beatles, aparecem desde o início da obra. A primeira cena, em uma praia, mostra um rapaz a cantarolar a canção, “Girl”, quase a balbuciá-la. Na sequência, uma bela moça aparece envolta às turbulentas ondas de um mar revolto, embalada pela peça, “Helter Skelter”, uma das, senão a mais pesada música gravada pelos Beatles em sua carreira, portanto a estabelecer um contraste com a docilidade ingênua da canção anterior, “Girl”. Nesses termos, configurou-se a antevisão de que a vida dessas duas personagens protagonistas, a formar um casal propriamente dito, não seria facilitada ao longo da trama, e provou-se óbvia pela imagem proposta e sobretudo pelo uso dessa canção mais contundente dos Beatles em termos de intensidade agressiva.
 
Passado esse preâmbulo, que é bonito pelo caráter onírico e poético, apresenta-se cenas a mostrar duas realidades distintas. O rapaz em questão chama-se, “Jude” (interpretado por Jim Sturgess). Ora, é clara a intenção em fazer referência à canção, “Hey, Jude” e por extensão a lembrar que na vida real, tal canção teria sido composta por Paul McCartney, para consolar o filho de John Lennon, o então menino, Julian Lennon, que por volta de 1968, ficara muito triste por ver o seu pai deixar o lar, ao assumir a relação com outra mulher que não a sua mãe, Cynthia Lennon, no caso, a tratar-se da artista plástica japonesa, Yoko Ono. 
E no avançar das cenas, o espectador é conduzido a entender que Jude é um rapaz britânico, oriundo da cidade portuária de Liverpool e trabalha como operário em um estaleiro. Portanto, fica claro toda a ambientação a evocar mais signos a representar os Beatles, pois ele é um rapaz simples, da dita “classe operária”, o proletariado britânico, a caracterizar uma menção à canção: “Working Class Hero”, que foi um sucesso de John Lennon, em sua carreira solo ao longo dos anos setenta. E naturalmente a mencionar a cidade de Liverpool, o berço natal dos quatro componentes dos Beatles.
Concomitantemente, são exibidas cenas com a protagonista feminina, a bela “Lucy” (interpretada por Evan Rachel Wood), que encontra-se em um típico um baile de formatura norte-americano (o famoso “Prom”), a envolver a sua turma da “High School” e a moça em questão, mostra-se completamente apaixonada pelo seu namorado, que fora recém convocado a servir as Forças Armadas na Guerra do Vietnã. Ela canta, “Hold me Tight”, o que significa uma alusão legítima ao sentimento que a permeia, em torno de sentir-se abraçada, no sentido físico, a revelar o seu amor ao namorado, mas também a usar da metáfora para sugerir a sua sensação de segurança pessoal, algo permitido pela boa vida burguesa que ostenta em meio ao sonho norte-americano. 
 
No sentido oposto, Jude também canta a mesma canção, simultaneamente, porém a revelar a sua realidade social que é muito diferente, como um trabalhador humilde, sem perspectivas para ascender. Interessante, ele aparece em um Pub, ao apresentar uma réplica do famoso, “Cavern Pub” de Liverpool, onde os Beatles tocaram muitas vezes antes de alcançar o seu sucesso estratosférico. E nessa cena, uma banda está a tocar no palco e o seu visual mostra-se muito parecido com os Beatles no período pré-1962, portanto, a menção é explícita.
 
Para reforçar a ideia de que os operários não detinham perspectivas, são mostradas cenas de Jude a trabalhar entre idosos, a sugerir que o seu futuro seria manter tal rotina exatamente como à de seus companheiros veteranos e para reforçar a mensagem, ouve-se “When I’m Sixty-Four”, uma menção ao fato de qualquer pessoa que chegar aos sessenta e quatro anos de idade, precisa resignar-se com as muitas mudanças físicas e mentais que tal idade impinge ao Ser Humano. 
 
Jude conversa com a sua mãe, que o criara sozinha e resolve aventurar-se nos Estados Unidos em busca de uma vida melhor e a ter como ponto de partida, buscar conhecer o seu pai, que é norte-americano. Uma referência interessante portanto, pois de fato, durante o conflito da II Guerra Mundial, muitos soldados norte-americanos envolveram-se com moças europeias, de várias nacionalidades, portanto é histórico o fato de que muitos engravidaram as suas namoradas e por pura canalhice ou até por desconhecimento e perda do contato, deixaram filhos espalhados pela Europa e também na Ásia. 
 
Pois então, Jude deixa a sua namorada inglesa, com a promessa de escrever-lhe com constância e que assim que ganhasse um bom dinheiro, para os seus modestos padrões, voltaria imediatamente para a Inglaterra. A canção, “All My Loving” é o veículo para que a personagem, Lucy, expresse o seu amor ao namorado que vai lutar na guerra, em cenas intercaladas com a ação de Jude.
Uma cena interessante mostra Lucy a participar do ensaio dos malabarismos coreográficos das “cheerleaders” da universidade e uma garota com traços orientais a observa em separado, a cantar: “I Wanna Hold Your Hand”, em explícita observação de sua homossexualidade, portanto a lamentar que Lucy não perceba que essa moça, Prudence (interpretada por T.V. Carpio), é apaixonada por ela. Bem, algo ousado para o filme, pois a música em questão não tem essa mensagem gay, de forma alguma. E mais um detalhe, o nome, Prudence é clara menção à canção: “Dear Prudence”.
Jude chega à América do Norte e sem dinheiro, faz uso de caronas para chegar ao campus da Universidade de Princeton, onde ele pensa que o seu pai, que não conhece, na verdade, fosse um professor. No entanto, o seu progenitor de fato trabalha ali, mas como um simples funcionário da manutenção da Universidade. Tudo bem, Jude não é ambicioso e operário como sempre o foi, isso não o incomoda ou desaponta, necessariamente, pois de fato, ele só queria conhecer o seu próprio pai. Independente desse momento familiar, Jude conhece e torna-se amigo de um líder estudantil que ali estuda, chamado: Maxwell “Max” Carrigan (referente à canção “Maxwell’s Silver Hammer?), interpretado por Joe Anderson, que vem a ser irmão de Lucy Carrigan, ou seja, a conexão para que Jude & Lucy pudessem iniciar uma relação, inicialmente como amigos, naturalmente, e assim estabeleceu-se. 
Daí em diante, cenas a conter estripulias juvenis perpetradas por Max, Jude e outros amigos, são mostradas em profusão, sob os acordes de “With a Little Help From My Friends”. A seguir, Lucy canta, “It Won’t Belong” em meio à dramática sequência que mostra emissários do exército norte-americano a entregar a famigerada carta que nenhuma família merecia receber, a comunicar a perda de um jovem ente querido, abatido em campo de batalha. A cena avança ao funeral para aumentar a dramaticidade e apesar de ser algo fúnebre e obviamente muito triste, tal cena é plasticamente muito bem-feita.
Claro que a moça fica arrasada, com a perda do seu amor, no entanto, a ênfase não é colocada no sentido desse sentimento pessoal de sua parte, pois o foco rapidamente vai de encontro aos movimentos múltiplos que ocorriam em 1966, data da ação proposta pelo filme e entre os protestos contra a guerra do Vietnã; todavia, também pelos direitos civis dos negros, além da emergente explosão contracultural motivada pelo movimento Hippie, realmente a questão pessoal da personagem, Lucy, foi suplantada, o que talvez não ocorresse, certamente, se o filme fosse um drama romântico tradicional, porém, não foi a opção desta obra. 
 
Nesses termos, um diálogo (não cantado), revela-se bastante interessante ao mostrar um jantar da família Carrigan e com Jude devidamente inserido na condição de amigo pessoal de Max, à mesa. O pai de Max e Lucy, naturalmente porta-se no padrão do cidadão norte-americano conservador, e em meio à uma acalorada discussão com o seu filho “rebelde”, pergunta-lhe: -“o que você pretende fazer da sua vida? O seu plano é sair com um carro velho por aí, como Jack Kerouac?” Tratou-se portanto, de uma explícita menção ao movimento literário “Beat” (onde o escritor Kack Kerouac foi um dos seus maiores artífices), um precursor natural das ideias contraculturais e que movimentou o posterior movimento Hippie. 
 
Jude e Lucy também tornam-se próximos e em meio a uma atividade lúdica, como o boliche do sábado noturno, canta-se: “I’ve Just Seen a Face”. Prudence, desapontada pela sua desilusão amorosa lésbica e não declarada, embarca em uma carona e vai viver a vida “on the Road”, enaltecida por Jack Kerouac e defenestrada pela opinião pública média, representada pelo pai de Max e Lucy. 
Uma nova personagem é apresentada, na figura da cantora e ativista contracultural, Sadie (interpretada por Dana Fuchs). Ora, o seu nome trata-se de uma clara alusão à canção “Sexy Sadie”. Em outra cena forte e a apresentar mais um novo personagem, vê-se uma ação de protesto pelos direitos civis e muitos manifestantes a serem agredidos pela polícia. Em meio à pancadaria generalizada, com direito a tiros e explosões, um menino negro morre tragicamente, para o desespero de seu pai, e tal cena ocorre ao som de “Let It Be”.
Eis que na sequência, o sensacional, Joe Cocker, cravou uma participação muito especial, ao cantar: “Come Togheter”, em uma bela cena onde a edição mostrou-o a interpretar três personagens distintos enquanto cantava pelas ruas. Como um cafetão em meio à prostitutas, mendigo e um Hippie, onde caracterizado como ele mesmo aparentava ser nos anos sessenta, tal figurino; peruca e maquiagem, rejuvenesceu-o. 
   
Prudence aparece, e mostra-se bem diferente, sinal de que a maturidade adquirida à fórceps, na estrada, dera-lhe um ganho, enfim. Ela vai morar na casa comunitária onde a cantora Sadie aluga quartos. Perguntada de onde ela vem, a moça responde laconicamente: -“nowhere”... Ohio”. A palavra que ela usou inicialmente, “Nowhere” (lugar algum), teria sido uma referência à canção: “Nowhere Man?” Jude e Max já moram ali e o guitarrista negro, Jo-Jo (interpretado por Martin Luther McCouy), que foi o pai do menino morto no conflito racial de rua, também vai hospedar-se no mesmo lugar.
Sadie é uma cantora muito boa, que apresenta-se no circuito de casas noturnas de Nova York. A cena onde ela canta a canção, “Why Don’t We DoIt It in The Road”, é forte ao extremo. A sua performance lembra, ainda que vagamente, Janis Joplin, mas há uma porção da Tina Turner sessentista em sua performance, também, ou seja, aquele élan do tempo em que tal cantora acompanhava o seu marido/algoz, Ike Turner, e que a despeito de seu drama pessoal e familiar, foi uma fase espetacular de sua carreira. 
 
Nesse ínterim, Jude e Lucy finalmente apaixonam-se, ao culminar em algo, que fora esperado desde o início do filme. Dessa forma, eis aí uma quebra de paradigma, pelo menos ao pensar-se em um musical romântico tradicional, pois o enlace só a ocorrer quase na metade do filme e sem que anteriormente houvesse ocorrido diversos desencontros, foi algo não usual. 
Bem, se não houve conflito prévio para o casal de namorados, eis que Max é surpreendido ao receber a malfadada carta de convocação militar. Ir ao Vietnã combater os Vietcongs, não estava em seus planos. Ele em princípio adota a postura que muitos hippies tiveram na vida real, ao simplesmente queimar a carta de convocação e ignorar a intimação militar. No entanto, as sanções para os ditos “desertores” não eram nada agradáveis e assim, a representação da convocação e posterior ida de Max à junta militar, é uma das melhores cenas do filme, pois foi muito elaborada a coreografia em sincronia com efeitos muito bem feitos. A figura do “Tio Sam” a saltar de um cartaz, para apanhar Max e obrigá-lo a passar pelos exames médicos preliminares, é sensacional. Ao som de “I Want You (She’s so Heavy)”, o ápice é quando vê-se Max já a atuar como um soldado e a carregar como um fardo, junto a muitos companheiros, a estátua da Liberdade em meio a uma batalha em um campo vietnamita, ao estabelecer-se um simbolismo muito intenso. 
Sadie e Jo Jo também formam um casal doravante e uma dupla musical, pois Jo-Jo entra para a sua banda. A sua postura no palco e na composição de seu figurino, faz com que ele lembre bastante a figura de Jimi Hendrix, portanto, creio que a menção à Janis Joplin & Jimi Hendrix fica mais clara nesse instante. 
Um ônibus psicodélico passa e arregimenta uma porção de pessoas. O mentor dessa ação, trata-se de uma espécie de guru psicodélico, chamado, “Dr Robert”, ou seja, mais uma menção a uma canção dos Beatles. Esse guru é interpretado pelo cantor da banda irlandesa U2, Bono Vox, que surpreende ao atuar como ator, devo dizer, apesar de seu papel ter sido curto. Bem, os personagens principais embarcam no ônibus e a lisergia ali é total, em clara referência às caravanas psicodélicas organizadas por Ken Kesey, um ativista contracultural/hippie, que costumava aplicar injeções em laranjas, a conter em seu conteúdo, doses de LSD e distribuí-las entre os seus correligionários, de onde a expressão: “a laranjada de Ken Kesey”, foi cunhada e tornou-se uma lenda sessentista. 
 
“Blue Jay Way” é executada em meio a uma festa psicodélica louquíssima (escolha perfeita de música para a cena), e onde a ideia de que o tal Dr. Robert espalha o conhecimento extradimensional, talvez tenha sido uma menção ao professor Timothy Leary, um ativista contracultural muito famoso, que de fato influenciou muito a juventude e foi incensado por muitos artistas, ao ter sido considerado como o “Papa do LSD”, nos anos 1960. Veio muito a calhar, a canção: “I’m The Walrus, uma das mais psicodélicas do repertório dos Beatles, que foi bem defendida por Bono Vox/Dr. Robert. 
Bem, a trupe chega em um outro acampamento repleto por freaks e em meio a uma representação circense, a canção, “The Benefit of Mr. Kite” é cantada e o Mr. Kite em questão, foi interpretado por Eddie Lizard. Rita, uma clara citação à canção, “Lovely Rita”, é uma trapezista do circo, que passa a namorar, Prudence, enfim a trazer-lhe a felicidade para viver um amor lésbico que não era aceito abertamente na época, como ocorre nos dias atuais de 2019, quando escrevi esta resenha.
Outra cena belíssima é mostrada em torno de um ballet multicolorido, mediante a encenação do amor entre o casal protagonista e outros secundários da trama, de uma forma subaquática, ao som da canção: “Because”. Entretanto, esse momento de amor é bruscamente cortado por cenas de guerra, onde Max está a sofrer nos arrozais asiáticos e minados. 
 
Em Nova York, Jude desenvolvera o seu talento como um desenhista sensacional. No entanto, ele parece alheio aos protestos contra a guerra; sobre os direitos civis e a liberdade. Para o seu desespero, Lucy, ao contrário, assume o ativismo que o seu irmão, Max, ostentava e talvez muito motivada pelo fato em ter perdido o primeiro namorado e agora ter o seu irmão sob o perigo extremo da guerra no front de batalha, tornou-se uma ativista muito proeminente. Ao som de “Something”, Jude desenha a figura de Lucy, como uma prova de amor. 
Enquanto isso, na casa noturna de shows, Sadie canta, “Oh Darling”, em uma versão para arrepiar, mas o namoro dela com Jo Jo não está bem e isso é demonstrado no palco, quando Sadie não deixa Jo Jo desenvolver um solo de guitarra como ele gostaria de ter realizado. Musicalmente a cena é muito bem feita e dá para sentir os nervos à flor da pele, para ambos, na interpretação vocal e na tentativa frustrada para elaborar um solo de guitarra portentoso. Sadie abandona o palco e Jo Jo assume a linha de frente do palco, para enfim cantar e tocar de uma forma contundente.
 
Cenas da guerra a serem transmitidas na TV são significativas, visto que a guerra do Vietnã foi de fato o primeiro conflito bélico da história, que teve uma transmissão ao vivo, e isso foi duramente criticado, pois denotara ter sido uma campanha governamental velada para influenciar a opinião pública e minar o resultado dos protestos perpetrados pelos jovens. 
Jude sente ciúmes de Lucy ao notar que o líder de um grupo militante antiguerra, está a dar em cima da sua namorada. Ela fica brava com a pressão, pois é apaixonada por Jude, todavia ele não consegue controlar-se. “Strawberry Fields Forever” marca essa cena de crise conjugal entre Jude e Lucy. Muito significativo, os murais pintados por Jude, a conter morangos, sangram, a denotar a corrosão causada pelos ciúmes e a consequente crise instaurada na relação do casal. Para incrementar, a cena da guerra, com Max a cantar e no caso dele, os morangos esmagados a denotar a ação das bombas a gerar sangue e ferimentos nos soldados, é forte.
 
Jude reage ao procurar Lucy e para tal, canta “Revolution”, mas tudo piora quando enlouquecido pelos ciúmes, ele agride o militante que é o pivô de sua raiva, por considerá-lo como um rival a nutrir esperança para tirar Lucy de si. Martin Luther King é anunciado como assassinado no noticiário da TV. Jo Jo e Jude unem-se na depressão e na bebedeira por ambos perderem as suas respectivas namoradas. “Across the Universe” é cantada em uma cena ocorrida dentro de um carro de metrô e com direito a adeptos do movimento Hare Krishna a cantar e dançar pelos vagões: “Jai Guru Deva On... nothing’s gonna change my world”.
O clima esquenta, pois os protestos não são feitos por pacifistas hippies bem intencionados, mas a infiltração de grupos extremistas com ideologia política, que não estão ali presentes para falar sobre “Peace & Love”, exatamente. O conflito explode e Lucy vai presa em uma ação violenta da polícia. “Helter Skelter” volta a ser executada e agora, em meio ao conflito deflagrado pelas vias de fato, a insinuação do início do filme, faz mais sentido. Max vive um pesadelo ainda maior, sob o ataque dos inimigos no Vietnã e Jude também é preso e ameaçado em ser deportado. 
 
Nem mesmo a intervenção direta de seu pai, que é cidadão norte-americano, sensibiliza as autoridades da imigração e ele é deportado para a Inglaterra. Jude volta a trabalhar no estaleiro, e conforma-se com a vida pobre de um operário. Ao encontrar a sua ex-namorada casada e grávida de outro homem, percebe que o seu lugar não é mais ali e isso desperta-lhe a saudade por Lucy. “Happiness is a Warm Gun” foi uma boa escolha para musicar tal cena.
Max é ferido seriamente e a cena dele, debilitado em um hospital de guerra, é muito boa, pela dramaticidade, mas sobretudo pela coreografia e presença de efeitos especiais. “A Day in The Life” ganha força durante tal cena. A cena em que ele toma uma injeção para conter a dor, mas que é insinuada como uma providência lisérgica, lembra muito a cena de Tina Turner como a personagem, “Acid Queen”, no filme “Tommy”, de 1975. De fato, tais cenas mais lisérgicas, carregadas por alegorias louquíssimas, lembram muito o estilo do diretor britânico, Ken Russell.
 
Nesse ínterim, os militantes preparam bombas de fabricação caseira e a seguir, Jude lê nos jornais britânicos que as bombas explodiram no comitê dos militantes e ele desespera-se ao imaginar que Lucy tenha perecido em tal acidente. Max volta para a América e passa a procurar pelos amigos, sobretudo, Lucy. “Hey Jude” explode na tela e levanta a emoção para os momentos finais da história. 
Sadie e Jo Jo, com os demais músicos, organizam um show surpresa no telhado de um edifício em Nova York a caracterizar a famosa ação dos Beatles, retratada no filme/documentário, “Let It Be”, no topo do edifício sede da sua própria empresa, a “Apple”, em Londres. Sadie e Jo Jo cantam “Down Let Me Down”, a reforçar a menção ao show do telhado feito pelos Beatles em 1969 (chamado como "rooftop concert", na biografia dos Beatles). 
 
E tal qual ocorrera na vida real com o quarteto britânico, a polícia é acionada, e chega a seguir com truculência, para acabar com tudo (na vida real, fora uma abordagem profissional e polida). 
 
Na rua, um automóvel da marca Porsche todo pintado com motivações psicodélicas, é muito parecido com o carro que Janis Joplin teve na vida real, cuja pintura houvera sido feita pelo artista plástico, Dave Richards. Talvez seja apenas uma impressão de minha parte, no entanto se o filme traz tantas sutis referências, permito-me o direito de ter enxergado mais uma, bem sutil, por sinal.
Os músicos são expulsos pela polícia, todavia Jude burla o bloqueio policial e uma vez no telhado, canta, a capella, a canção, “All You Need is Love” e imediatamente as pessoas inflamam-se a motivar com que a banda volte para o telhado para tocar e cantar juntamente com ele. Lucy ouve a voz de Jude, ainda no solo e faz de tudo para subir ao telhado, mas é impedida pelos policiais. Como solução, ela adentra o edifício ao lado e uma vez no telhado do outro prédio, é avistada por Jude. Ao som de “She Loves You”, o final feliz da história consolida-se e ao som de “Lucy in the Sky With Diamonds”, um caleidoscópio psicodélico faz o encerramento com a apresentação dos caracteres finais da ficha técnica da obra, the end.
Eficiente e criativo em muitos aspectos, mas ao mesmo tempo tradicional em outros, eis aqui um bom musical, sem dúvida alguma. Tal filme não é revolucionário e nem de longe pode ser considerado como um marco cinematográfico sob qualquer quesito técnico e muito menos como uma peça artística capaz em suscitar alguma modificação no panorama cultural de sua época. Contudo, é muito bem concebido, contém uma produção musical muito boa com o resultado sonoro a mostrar-se bem agradável.
 
Além das canções citadas, também compuseram a trilha sonora desse filme as músicas: “If I Fell”, “Dear Prudence”, “Flying”, “And I Love Her” e “Blackbird”. Os atores colocaram as suas respectivas gargantas para funcionar e em tempos moderno, mediante o recurso do “auto-tune” em estúdios de gravação, mesmo quem não possui nenhuma noção sobre canto, na verdade, consegue disfarçar a sua inabilidade com a máquina a corrigir a desafinação.
Outros atores que participaram e não foram citados anteriormente: Spencer Liff (como Daniel), Robert Clohessy (como Wes Huber), Linda Emond (como Mrs. Carrigan), Salma Hayek (ela mesma, a atriz/beldade mexicana, como a enfermeira), Logan Marshall-Green (como Paco) e outros.

O filme teve uma reação apenas discreta da parte da crítica, no entanto em termos de público, lotou as salas de cinema. E a trilha sonora também vendeu bastante, mesmo com o formato do CD tradicional em plena decadência por ocasião de seu lançamento. 

Com roteiro escrito por Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Frenais, teve em sua direção, Julie Taymor, que já detinha experiência com montagens teatrais grandiosas, a envolver musicais (a mais elogiada e premiada versão do “Rei Leão” para o teatro, foi dela),; Óperas e peças clássicas de William Shakespeare. No cinema, ficou famosa por dirigir o épico ambientado na Roma antiga, “Titus”, além de Frida e Tempest. Naturalmente que embasada pela experiência com Óperas e musicais no teatro, credenciou-se e não desapontou neste: “Across The Universe”, que foi lançado em 2007.

Após o sucesso nas salas de cinema, o filme foi muito bem cotado em canais de TV a cabo; esteve alojado por um bom tempo na rede Netflix e encontra-se à venda em cópias do formato DVD/Blue-Ray. Em portais gratuitos pela internet, está disponível no Dailymotion, ao menos em 2019, quando escrevi a resenha.

Esta resenha foi elaborada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume III e está disponibilizado para a leitura a partir da página 157.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Filme: All This and World War II (Tudo Isso e a Segunda Guerra Mundial) - Por Luiz Domingues

Sobre esta obra é necessário esclarecer que não obstante não se tratar de um filme com dramaturgia e portanto, muito mais próximo de um documentário, eu creio que faz por merecer a sua inclusão neste rol dos Rock Movies dos quais eu tenho aqui (neste blog e a referir-me ao livro impresso), arrolado, pois a sua proposta é bem interessante, em termos de mote e além disso, ele traz muitos méritos na sua produção, principalmente nos quesitos da pesquisa, decupagem e edição. Além desses fatores técnicos, a óbvia questão da sua trilha sonora, totalmente baseada no repertório dos Beatles, sob versões fidedignas aos arranjos originais e defendida por uma constelação formada por Rock Stars, britânicos em predomínio, faz valer a sua audiência, sem dúvida.
Bem, tal produção foi idealizada por Tony Palmer, um diretor que houvera lançado um interessante documentário em 1968, denominado: “All My Loving”, quando traçara um ótimo panorama do Rock inglês a contar com aparições sensacionais de artistas de alto calibre, como o Cream, The Animals, Moody Blues, Donovan, Lulu, Frank Zappa, The Who, The Jimi Hendrix Experience, The Beatles e The Rolling Stones além de depoimentos pontuais e cenas do cotidiano londrino sob a plena ação contracultural da Swingin’ London. Posteriormente, Palmer produziu uma série documental com o título: “All You Need is Love”, dividida em dezessete capítulos, a exibir um apanhado sobre a história da música popular, sobretudo pela ótica britânica e norte-americana. 
 
Sobre “All This and World War II”, Tony Palmer deveria ser o diretor único desta obra, no entanto, o papel da montadora, Susan Winslow, foi tão marcante que ela foi creditada como a diretora, oficialmente na ficha técnica da obra. E como eu havia mencionado anteriormente, de fato, o papel da montagem nesse filme/documentário, foi enorme, portanto, tornou-se cabível que a Susan fosse agraciada com esse crédito honroso.
E por que a montagem foi tão proeminente? Bem, o mote deste filme foi estabelecer uma colagem de imagens originais oriundas de diversos documentários sobre a Segunda Guerra Mundial, editadas em conjunto com cenas extraídas de diversos filmes norte-americanos e britânicos, notadamente dos anos trinta, quarenta e cinquenta, que basearam-se no evento dessa guerra. A montagem privilegiou portanto, uma linha mestra a dar vazão às muitas canções do Beatles, no tocante não apenas à emoção proposta pelas músicas em si, mas sobretudo pelo teor das suas letras e dessa forma, a passar uma mensagem subliminar em torno do repúdio ao horror gerado por tal conflito, no entanto muito além disso, a respeito de todos os conflitos bélicos, portanto a estabelecer uma ode ao pacifismo e à liberdade.
 
Sobre o desenvolvimento dessa colagem, a revelar um bom trabalho de pesquisa & decupagem, mas sobretudo na boa edição realizada, valoriza-se a trilha sonora e vice-versa, sendo assim, a gerar um trunfo para a produção desta obra, que soube estabelecer uma coerência em sua proposta. A inserção de cenas reais da guerra, não apenas sobre combates no front, mas também a revelar os bastidores políticos e militares, em meio aos acontecimentos ocorridos em seus gabinetes e sobretudo pelas imagens a mostrar o cotidiano das pessoas comuns, certamente são impressionantes. Mostra-se os civis e o seu sofrimento em meio à escassez de recursos, apreensão pelos acontecimentos a envolver o possível perigo de invasões da parte de exércitos inimigos e mesmo sob ataques frontais, caso de localidades que foram duramente bombardeadas.
Nesses termos há um bom acompanhamento do avançar do conflito, com a presença de manchetes de jornais e noticiários radiofônicos e também dos próprios documentários que eram exibidos normalmente em salas de cinema e na incipiente TV, que ainda engatinhava nos anos quarenta.
 
Sobre as cenas a envolver cenas extraídas de filmes, o trabalho de pesquisa foi muito bom, pois alguns diálogos proferidos na dramaturgia, foram cuidadosamente escolhidos para amalgamar-se perfeitamente à parte musical e com ênfase nas letras das canções dos Beatles. Nesse sentido, diversos sentimentos são expressos, a envolver o medo, angústia e depressão, em contraste com a esperança, o espírito igualitário e fraternal e sobretudo, o amor. 
 
Cenas sensacionais a envolver a atuação de atores como: Milton Berle, George Raft, Dana Andrews, Richard Burton, James Cagney, George Sanders, Farley Granger, Richard Conte e James Mason, entre muitos outros, são significativas. 
Só para citar duas cenas marcantes: o ator, James Mason a interpretar o Marechal de Campo, Erwin Rommel (filme: “The Desert Fox”/“The Story of Rommel”, de 1951 e dirigido por Henry Hathaway), a enfrentar a fúria de Adolf Hitler, é uma cena para tirar o fôlego. 
Outra bem forte, embora bastante carregada pelo ufanismo norte-americano, mostra o ator, Dana Andrews a enfrentar a arbitrariedade de um interrogatório mediado por um tribunal de exceção nipônico (e tirânico), com extrema força, ao caracterizar um desabafo, após o personagem defendido por Dana Andrews e os seus homens, prisioneiros de guerra, ser torturados cruelmente e a seguir, condenados à execução sumária (filme: “The Purple Heart”-“Coração Púrpura”, de 1944, dirigido por Lewis Milestone). 
 
Há também a inserção de cenas mais amenas de filmes, a mostrar soldados a passar alguns momentos românticos com as suas respectivas namoradas ou esposas, antes de partir para o front  e caracterizações das pessoas comuns a receber as notícias da guerra, sob apreensão. E também a inclusão de cenas a mostrar o esforço das mulheres no conflito, a trabalhar em fábricas de munição ou a atuar como enfermeiras em postos médicos no front. 
 
Isso sem deixar de mencionar o lado mais discutível em torno da mulher como objeto sexual, visto que as feministas tem razão em reclamar, no entanto, a indústria da sensualidade gráfica trabalhou a todo vapor, com a produção de fotos para ilustrar todo o tipo de material enviado aos soldados, com as imagens sensuais das ditas, “Pìn Ups girls” a fornecer um alento aos soldados, que viveram dias difíceis no inferno do front.
Outro acréscimo muito interessante, foi mediante cenas a apresentar atores famosos que alistaram-se nas forças armadas na vida real, casos de James Stewart, Tyrone Power, Dana Andrews, entre outros, e muito interessante, ufanismo e patriotada à parte, algumas cenas deixaram uma imagem mais humanista, embora implícita, sobre os adversários que formavam o Eixo: alemães, italianos e japoneses.
 
Cenas com batalhas reais, extraídas de documentários, mostram momentos épicos do conflito, tais como a duríssima batalha de Al Alamein, onde os ingleses e os germânicos lutaram entre si e principalmente contra a adversidade desumana observada no deserto do norte da África, a impressionante batalha naval de Midway, no Oceano Pacífico e a mais famosa de todas, em torno do “Dia D”, quando os aliados invadiram a região da Normandia e começaram a expulsar os nazistas da França. 
 
Cenas extraídas de documentários a mostrar os maiores mandatários na ocasião, como Roosevelt (Harry S. Truman, assumiu a presidência norte-americana quando Roosevelt faleceu pouco antes do final da guerra); Churchill, De Gaulle, Mussolini, Adolf Hitler e o imperador japonês, Hirohito, além de militares como o general Patton (norte-americano), o marechal de campo Montgomery (britânico) e o também marechal de campo, Erwin Rommel (alemão), além de outras personalidades que direta ou indiretamente estiveram ligadas ao conflito, aparecem.
Sobre a parte mais musical, Rock e contracultural dessa obra, a música sem dúvida é o elemento que faz o elo a estabelecer o contraste entre o horror da guerra e a proposta pacifista em torno da construção de um mundo fraternal movido pela paz. A música dos Beatles dá voz a construir tal ode à meta em torno de um mundo regido pelos signos de paz & amor. 
 
A ideia inicial de Tony Palmer, foi usar as gravações originais dos Beatles, no entanto, com a cifra exorbitante cobrada por parte da editora, foi óbvio que esse desejo inicial foi descartado. Acionou-se então o “plano B”, com a motivação de se convidar diversos músicos e cantores para regravar o material e aí, certamente as taxas cobradas pela editora, caíram significativamente, mas por outro lado, certamente que a produção arcou com um custo alto para bancar a gravação e mixagem desse material e também em relação ao cachet dos artistas escalados para cumprir tal tarefa. Deduzo o óbvio, ou seja, a redução do gasto, propiciou a solução adotada pela produção.
 
O que observo sobre a trilha foi que o arranjo das diversas canções selecionadas não foi modificado de uma forma radical em relação ao original gravado pelos Beatles. De uma forma geral, respeitou-se a sonoridade gravada pela banda, com pequenas modificações sutis, a destacar alguma mudança de interpretação ou em alguma passagem,  inclusive ligeiras mudanças de palavras nas letras, para realçar alguma cena do filme, mas é preciso prestar muita atenção, pois realmente é muito obscuro.
Sobre as canções selecionadas, ao se considerar que a obra dos Beatles é recheada por sucessos, mas sobretudo por grandes músicas no aspecto artístico, é sempre muito confortável montar qualquer lista de canções dos Beatles, para qualquer finalidade a envolver uma trilha sonora para compor um audiovisual; espetáculo teatral, ballet, ou qualquer outro tipo de expressão artística, com a certeza de que vai enriquecer o trabalho. Não significa dizer que a música por si só garanta tudo, no entanto, vide a aventura equivocada do filme: “Sgtº Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado no ano de 1978, e que redundou em fracasso, porém, mesmo assim, certamente que a música composta pelo Fab Four, amenizou o fiasco, nesse caso citado.
 
Em relação a este filme/documentário, é claro que o cancioneiro beatle caiu como uma luva para reforçar a intenção de Tony Palmer. As canções que foram utilizadas são as seguintes: “Magical Mystery Tour”, “Lucy in The Sky With Diamonds”, “Golden Slumbers”/“Carry That Weight”, “I Am The Walrus”, “She’s Leaving Home”, “Lovely Rita”, “When I’m Sixty-Four”, “Get Back”, “Let it Be”, “Help”, “With a Little Help From My Friends”, “Nowhere Man”, “Michelle”, “We Can Work It Out”, “The Fool on The Hill”, “Maxwell’s Silver Hammer”, “Hey Jude”, “Polythene Pan”, “Sun King”, “Getting Better”, “The Long and Winding Road”, “Yestarday”, “Because”, “Strawberry Fields Forever”, “A Day in The Life”, “Come Togheter”, “You Never Give me Your Money” e “The End”, ou seja, já que o filme mostra imagens de guerra, reais e dramatúrgicas, os Beatles forneceram um arsenal pesado para derrotar qualquer oponente.
  
E sobre os artistas convidados para tocar e cantar, também configurou-se em um batalhão fortíssimo de apoio. Veja a lista de quem cantou: Elton John, Keith Moon, Ambrosia, Bee Gees, Leo Sayer, Brian Ferry, Roy Wood, Rod Stewart, David Essex, Jeff Lyney, Lynsey De Paul, Richard Cocciante, Helen Reddy, The Four Seasons, Frankie Laine, The Brothers Johnson, Status Quo, Henry Gross, Peter Gabriel, Frankie Valli, Tina Turner, Wil Malone, Lou Reizner. E quem tocou: Nicky Hopkins, Les Hurdle, Ronnie Verrell. 
Além do apoio orquestral da Orquestra Sinfônica de Londres, sob as batutas de Harry Rabinowitz e David Meashaw. Wil Malone escreveu arranjos. Lógico que outros músicos participaram, porém não receberam crédito. A começar por algumas bandas acima citadas, cujos músicos não foram descritos individualmente.
É bom destacar que a versão de Lucy in The Sky With Diamonds, com Elton John, teve uma figura disfarçada a tocar guitarra. Sob o pseudônimo: “Doutor Winston O’Boggie”, ninguém menos que John Lennon foi quem atuou ao gravar.
 
A reação da crítica ao filme, foi um massacre, infelizmente. Compreensível, a moda comportamental na Inglaterra, ao final de 1976, e durante o ano de 1977 em diante, estabeleceu o vilipêndio sumário aos ideais pacifistas propostos pelo movimento hippie, portanto, configurou-se um momento péssimo para falar-se em “Peace & Love” e por conseguinte, faltou essa percepção da parte dos produtores do filme, sobre o que a opinião pública estava a pensar na época em que o filme foi lançado. O público não respondeu a contento e rapidamente o filme saiu de cartaz no circuito comercial e perambulou por salas menores de cine clubes, além de participar de festivais com pequeno porte, visto que em Cannes, ele não competiu entre os grandes, ao ser exibido em mostra paralela, apenas. Posteriormente, foi exibido pela TV, muito modestamente. 
A sua trilha sonora no entanto, despertou a atenção. Algumas canções tornaram-se sucesso para os artistas que as gravaram, caso de Elton John que lançou, “Lucy in The Sky With Diamonds”, como single seu e fez muito sucesso. Rod Stewart também explorou bem a sua interpretação para “Get Back”, assim como o grupo, Ambrosia, que fez sucesso com a sua interpretação para “Magical Mystery Tour” e Frankie Laine com “Maxwell’s Silver Hammer”.
 
Demorou, no entanto, para a trilha do filme sair em LP, o que somente veio a ocorrer em 1979. No entanto, quando a transição para o formato do Compact Disc surgiu nos anos oitenta, o álbum não foi lançado imediatamente e na verdade, isso demorou anos para acontecer, visto que apenas em 1996, veio a se concretizar. 
Em termos de vendas para o consumidor caseiro, este filme não foi lançado em cópia oficial nos formatos VHS, tampouco DVD/Blue-Ray, e dessa forma, somente existe disponível no mercado, sob cópias piratas para a comercialização. E nos portais da Internet, encontra-se com facilidade no YouTube, em versão na íntegra, ainda bem.
 
Foi produzido por Sanford Lieberson e Martin J. Machat. Edição a cargo de Colin Berwick e Susan Winslow e direção de Tony Palmer, embora creditada a Susan Winslow, conforme já comentei anteriormente. Foi lançado em dezembro de 1976.
Em suma, esta obra talvez não agrade muitas pessoas, no entanto, em meu caso, que sou um apaixonado pela obra dos Beatles, entusiasta da contracultura sessentista, cinéfilo, fã confesso da produção cinematográfica trintista/quarentista/cinquentista, muito interessado em história e também por conta do conflito a envolver a Segunda Guerra Mundial, tal obra agrada-me como peça cinematográfica a misturar tais elementos de meu apreço. 
 
Se o leitor considerar não se identificar com nenhum item desses que eu citei acima, no mínimo, eu creio que valha a pena assistir pela curiosidade em torno de uma peça que hoje em dia é considerada como um documento, talvez ingênuo, mas certamente bem intencionado em mais uma vez usar o Rock como ferramenta, a provocar questionamentos de ordem sociocultural e sobretudo, comportamental.
 
Esta resenha foi escrita para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll", em seu volume III e está disponível para a leitura a partir da página 149.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Boca do Céu lança o clip da música "1969" em 19 de outubro de 2023

Boa do Céu 

Clip da música "1969"

Lançamento no YouTube em 19 de outubro de 2023

Leia o release sobre a canção:

https://heyzine.com/flip-book/5c649200c8.html

Produção do clip: Lincoln Baraccat

O clip da música "1969" do Boca do Céu. Edição e produção de Lincoln Baraccat

Eis o link para assistir no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=_h5f3rSuejQ