terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Filme: Carnival Rock - Por Luiz Domingues

Após o lançamento do filme, “Rock All Night”, Roger Corman praticamente mergulhou de imediato em seu projeto subsequente em para retratar o universo jovem e ambientado na euforia causada pelo Rock’n’ Roll, a usar dos mesmo expedientes de produção do filme anterior, desta feita a produzir o filme: “Carnival Rock”. Nessas condições, ele novamente usou um mini conto televisivo, exibido como teleteatro como base e no caso, a tratar-se de: “Carnival at Midnight”, escrito por Leo Lieberman. Veladamente, tal história também teve a influência do libreto da Ópera, “Pagliacci”, escrita pelo compositor erudito italiano, Rugero Leoncavallo, ao final do século XIX.
Corman usou a mesma fórmula, portanto, com a qual produzira e dirigira, “Rock All Night”, seu Rock Movie anterior, visto que comprara os direitos de um mini conto televisivo, e assim adaptou-o para uma outra realidade, levemente e tratou por introduzir o elemento Rock’n’ Roll, sutilmente para fornecer-lhe o substrato musical mínimo necessário para atrair o público jovem e aproveitar a euforia que tal gênero estava a gerar na sociedade norte-americana desse período, pós segunda metade da década de cinquenta. 
Além do mais, Corman filmou a toque de caixa, com baixa verba de produção, utilizou muitos atores com os quais havia trabalhado em “Rock All Night”; sob fotografia em preto e branco e direção de arte simples, quase a revelar um despojamento, no entanto, é nítida a falta de recursos a gerar o caráter prático dessa produção, sob improvisações inevitáveis. Bem, como já expliquei ao longo da resenha de “Rock All Night”, Corman era um especialista em filmar sob tal penúria material, portanto o que para outros diretores seria um bom motivo para sentir-se envergonhado e tolhido em termos de possibilidades, em seu caso, foi simplesmente mais uma oportunidade em atuar conforme o seu modus operandi para trabalhar normalmente. Portanto, o filme assim foi concebido ipsis litteris conforme o anterior, a mudar-se a história, naturalmente, mas mediante a estrutura de roteiro e produção tão semelhante que parece ser um segundo ato do filme anterior.
Qual é o mote, neste caso? Bem, em “Carnival Rock”, há uma boite que promove shows musicais e notadamente com a presença de artistas ligados direta ou indiretamente ao Rock’n’ Roll. Há uma ambientação externa a sugerir que tal casa de espetáculos faz parte de um parque de diversões, com as personagens a caminhar por tal local, em algumas cenas e isso justifica um pouco a influência da Ópera, “Pagliacci”, como ao longo da resenha ficará mais clara ainda.
Então, eis que há uma cantora, Natalie (interpretada por Susan Cabot), que costuma apresentar-se ali no clube musical. Ela é apaixonada por Stanley (interpretado por Brian Hutton), que não tem um bom caráter, infelizmente, mas a moça, mostra-se cega por amor, e não percebe tal traço nocivo da personalidade do rapaz. Na contrapartida, há um outro homem, um pouco mais velho e que ama Natalie, na figura de Christopher “Christy” Cristakos (interpretado por David J. Stewart). Esse homem é o proprietário do estabelecimento e que fora namorado de Natalie, anteriormente e por conta desses fatores citados, não conforma-se em tê-la perdido para um rival e pior, a tratar-se de um canalha contumaz, daí o seu desespero ser amplificado.
Por azar absoluto e a denotar uma fraqueza pessoal de Christy, eis que ele perde a sua boite para o seu rival, mediante um fortuito jogo de cartas, ou seja, a desgraça total para gerar o conflito emocional do filme.
Em uma tentativa desesperada, Christy passa a adotar uma tática completamente aleatória para reconquistar a sua ex-namorada, ao vestir-se e maquiar-se como um palhaço para atuar ao vivo com tal número humorístico, entretanto, a moça não sensibiliza-se com tal ação, é lógico. Está aí justificada a influência da Ópera, “Pagliacci”, portanto a retratar o palhaço como um personagem triste que sente-se inferiorizado por não reunir condições para conquistar a garota que ama.
O filme avança em meio a tal conflito base e entre frustrações, socos e números musicais, eis que há um clímax. Isso ocorre com o palhaço, “Christy”, a tomar a medida extrema em colocar fogo na casa, literalmente, e assim provocar a morte da sua amada e de si próprio, como uma ação desesperada a visar encerrar o seu sofrimento. Ao final, a personagem, Ben (interpretado por Dick Miller), que é uma espécie de gerente da boite, consegue salvar Natalie e o pesadelo encerra-se parcialmente, pois o palhaço sucumbe ao seu próprio martírio. Uma história triste, portanto, e nada original em tese, por ter havido uma inspiração praticamente explícita no libreto de uma Ópera razoavelmente famosa, e além do mais, tal mote é um clichê da literatura, certamente, com centenas de histórias a conter tragédias a envolver triângulos amorosos. 
Independente desse fator repetitivo, há por enaltecer-se a parte musical e que mais uma vez contou com o espetacular grupo vocal “R’n’B”, “The Platters”, em atuação impecável. Participam também, David Houston; “The Blockbusters” (que defende o tema título do filme, “Carnival Rock”); Bob Luman and The Shadows e também um número solo do grupo, The Shadows. A atriz, Susan Cabot, canta a defender a sua personagem, Natalie. Não há registro que seja a sua voz real, no entanto, pois salvo engano de minha parte, essa atriz não era cantora, portanto, tudo leva a crer que a sua voz tenha sido dublada por uma cantora de ofício, não creditada na ficha técnica do filme.
 
Sobre o grupo, “The Shadows”, é preciso esclarecer que não trata-se do grupo instrumental britânico, famoso por ser banda de apoio do cantor e astro britânico, Cliff Richard. O “The Shadows”, britânico, foi em tese muito mais famoso, certamente, mediante a construção de uma carreira longa e recheada por grandes êxitos, pois além de ter sido a banda de Cliff Richard por muitos anos, manteve a sua discografia exclusiva e muito celebrada pelos fãs do Rock Instrumental, influenciado pela corrente da Surf Music cinquenta/sessentista. No caso deste, “The Shadows” norte-americano que aparece neste filme, trata-se portanto de um homônimo bem menos famoso, no entanto, a revelar-se uma ótima banda. 
No filme, em meio aos números em que atua a fornecer suporte instrumental para o cantor, Bob Luman (este por sinal, a tratar-se de um artista centrado no estilo Rockabilly e fortemente influenciado pela Country Music, por extensão e que teve uma longa carreira vitoriosa, até deixar-nos ao final dos anos setenta),; e também quando executa um tema instrumental, “The Creep”, a banda impressiona pela sua qualidade e é espetacular verificar que o seu guitarrista era ninguém menos do que James Burton. Talvez ainda não devidamente famoso em 1957, o fato é que Burton tornou-se nos anos posteriores um dos melhores guitarristas norte-americanos da corrente do Country Rock, a revelar-se um mestre do estilo. Extremamente técnico e com uma postura de palco muito chamativa, Burton tornar-se-ia guitarrista da banda de Elvis Presley na fase sessenta/setentista, do Rei do Rock. 
 
Portanto, quando mais maduro, por volta de 1969, Burton ganhou enfim uma maior proeminência popular, visto que a super exposição advinda em tocar com Elvis Presley dali em diante, tornou-o enfim mais conhecido do grande público. Em suma, que prazer assistir o grande guitarrista, James Burton em 1957, bem jovem e a tocar de uma maneira exuberante a sua guitarra Fender Telecaster, a sua marca registrada, e bem típica de quem era influenciado pela Country Music.
Então, em suma, “Carnival Rock” é isso, um filme montado em torno de um roteiro bem simples, com produção modestíssima e a conter artistas reais da música, sensacionais, portanto a despeito da sua precariedade em termos de produção, nos dias atuais tornou-se um documento valioso para preservarmos a história do Rock, principalmente em termos cinquentistas, na plena euforia gerada em meio aos seus primórdios. 
Conforme eu já havia comentado na resenha do filme, “Rock All Night”, Roger Corman teve a sua fama construída principalmente em torno dos filmes orientados pelos gêneros do terror e da ficção científica, no entanto, a sua filmografia é eclética e teve espaço para abordagens sobre o universo jovem sob diversas matizes nas décadas de cinquenta e sessenta, portanto, lidar com o Rock’n’ Roll com um mote subliminar, não foi algo meramente sazonal em sua carreira como diretor e produtor cinematográfico.
 
Ainda no elenco de “Carnival Rock”, arrolo as presenças de outros atores e atrizes: Jonathan Haze (como Haze), Ed Nelson (como Cannon), Iris Adrian (como Celia), Dorothy Neumann (como Clara), Chris Alcaide (como Slug), Frank Ray Perille (como Billy), Bruno VeSota (como Mr. Kirsch), e outros. A bela atriz, Abby Dalton, que teve uma participação mais efusiva em “Rock All Night”, aparece em “Carnival Rock”, praticamente como uma figurante, em cena rápida e não creditada.
Escrito por Leo Lieberman, “Carnival at Midnight”, originalmente foi concebido para ser encenado como um teleteatro na TV, e neste caso foi adaptado, dirigido e produzido por Roger Corman para ser  lançado no segundo semestre de 1957. Como repercussão, a sua trajetória angariou pouca visibilidade da parte do público, pelo mesmo motivo pelo qual o filme anterior de Corman dentro do mesmo universo de um Rock Movie conseguira, ou seja, teve a concorrência muito forte de muitos outros filmes correlatos lançados pelos estúdios concorrentes e a destacar-se os filmes a conter Elvis Presley como ator protagonista, muito melhor acabados. 
E além do mais, se a euforia em lançar-se Rock Movies aos borbotões, pareceu ser uma necessidade premente, dada a onda do Rock’n’ Roll em seu auge cinquentista, por outro lado, a tendência decorrente por tal exagero em produzir-se filmes em linha de produção industrial, também gerou o excesso natural e sufocou o público. Não foi a melhor estratégia, certamente, porém é compreensível que o espírito empreendedor de Roger Corman tenha movido-se nesse sentido, no calor dos acontecimentos de 1957.
Mesmo assim, o filme recebeu uma crítica boa da parte da revista “Variety”, uma publicação bastante respeitável na América do Norte, a destacar a direção de Roger Corman e certamente mencionar a similaridade com o libreto da Ópera, “Pagliacci”. Tal filme embalou muitas "sessões da tarde" nos anos sessenta, e posteriormente caiu no limbo, para ser resgatado em canais de TV a cabo com atenção aos clássicos e obscuros filmes de décadas passadas ou simplesmente em mostras temáticas sobre o Rock’n’ Roll ou em específico sobre a carreira de Roger Corman.

Desconheço a existência de uma versão caseira para a venda em plataforma VHS, mas nos anos dois mil, o filme ganhou a sua versão em DVD. É facilmente encontrado para ser assistido na Internet de uma forma integral e gratuita, através do YouTube e outros portais especializados em filmes.

Resenha preparada para fazer parte do livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III, com a leitura disponibilizada a partir da página 374.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Livro: A Chave do Sol (a autobiografia de Luiz Domingues na música - Volume V/Tomo B - Matilda Cultural 2025

Amigos: é com muito prazer que eu anuncio o lançamento de mais um livro de minha autoria!

A dar continuidade no meu relato autobiográfico dentro da área musical, apresento-lhes a segunda parte da minha história com a banda de Rock, "A Chave do Sol" (a autobiografia de Luiz Domingues na música - Volume V/Tomo B).

Neste tomo B do volume V, eu narro os acontecimentos da história da banda do ponto onde encerrei o tomo A, ou seja, de janeiro de 1986 a dezembro de 1987.

Nesse aspecto, são analisados com detalhes todos os fatos que ajudaram a nossa banda a alcançar a ascensão, a extrapolar até o nicho do Rock underground, mediante forte exposição midiática, algo bem além dos nossos limites e com isso, a nos propiciar shows incríveis, a gravação de duas demos tape no ano de 1986, e o LP The Key em 1987.

E também há o desfecho triste, quando a euforia se transformou em frustração e a banda encerrou atividades abruptamente, ante a ruptura interna que sofremos.

Apesar disso, a minha avaliação ao final do livro, é amplamente positiva sobre a trajetória dessa banda, da qual muito me orgulho de ter sido cofundador! 

Ficha técnica:

Livro A Chave do Sol (a autobiografia de Luiz Domingues na música – Volume V /Tomo B)

Revisão gramatical & ortográfica, carta catalográfica, arte & layout de capa e material de divulgação: Alynne Cavalcante

Editor: Cristiano Rocha Affonso da Costa

Foto do autor e apoio de divulgação: Michel Camporeze Téer

Uma produção da Matilda Cultural

Apoio: Clube de Autores  

O livro "A Chave do Sol" (a autobiografia de Luiz Domingues na música - Volume V/Tomo B), já está disponível para a aquisição através dos sites do Clube de Autores e Amazon.

https://clubedeautores.com.br/livro/a-chave-do-sol-2


domingo, 30 de novembro de 2025

Filme: Rock All Night - Por Luiz Domingues

Em meio a euforia gerada pela explosão do Rock’n’Roll na América do Norte, a partir da segunda metade dos anos cinquenta, muitos filmes foram produzidos a toque de caixa para explorar tal filão. E por ter observado em geral essa característica da pressa e sob baixo orçamento para trabalhar, tais filmes, em sua maioria, não são primorosos pela produção, certamente, no entanto, dada a importância histórica adquirida a posteriori, são pérolas documentais e portanto, notáveis de alguma forma. Uma das tantas peças lançadas nesse rol, foi “Rock All Night”, dirigida por um diretor que estava ainda a construir a sua fama em meio ao furor dos anos cinquenta, um sujeito chamado: Roger Corman.
Como hoje em dia (2019, quando escrevi esta resenha), é público e notório, Roger Corman é um diretor que é muito mais conhecido pela sua extensa obra baseada principalmente nos gêneros do terror e da ficção científica, a dita “Sci-Fi”. Entretanto, ele não limitou a sua filmografia apenas para tais gêneros, pois há uma boa diversidade de estilos em que ele trabalhou e inclusive, arrole-se igualmente a sua boa inserção no campo dos filmes a abordar a juventude, principalmente pelos universos distintos a envolver a música e as práticas automobilísticas. Além disso, Corman também se aventurou pela psicodelia observada durante a década de sessenta, ao ter filmado, “The Trip”, uma película cuja história tem tudo a ver com a lisergia sessentista. No caso dos filmes anteriores e a envolver diretamente o Rock, destaca-se dois de sua produção cinquentista, a saber: “Rock All Night” e “Carnival Rock”, ambos lançados em 1957, e a usar praticamente o mesmo elenco de atores, em ambos.
Outra característica típica de Roger Corman, observada em quase todos os seus filmes, principalmente nos seus maiores êxitos a enfocar o terror e o Sci-Fi, deu-se com a sua capacidade para filmar sob baixo orçamento. Com pouca verba, Corman nunca intimidou-se em dirigir e extrair o máximo das possibilidades mediante parcos recursos técnicos, cênicos, fotografia e iluminação de segunda linha, atores não famosos (com as devidas exceções para ser destacadas, caso do grande ator, Vincent Price, que estrelou diversos filmes seus), direção de arte paupérrima e efeitos especiais toscos. Registre-se que há diretores na história do cinema que rendiam mais ante dificuldades estruturais, e Corman seguramente figura nesse rol. Portanto, filmar a usar um cenário mal-ajambrado, com fotografia simples em preto & branco, mediante o apoio de um elenco pequeno e a contar com apenas cinco dias para concluir todas as tomadas, não foi exatamente um drama para que Roger Corman entregasse o material bruto deste filme, “Rock All Night” na mão dos responsáveis pela sua montagem/edição e pós-produção.
A história foi baseada em um teleteatro encenado no programa, “Jane Wyman Presents The Fireside Theatre”, no ano de 1955, e cuja história, chamada como, “The Little Guy”, contava a proeza de um homem com baixa estatura cuja extrema valentia, garantia-lhe a devida segurança para que enfrentasse bandidos armados e assim, ele salva um grupo de pessoas, em uma situação limítrofe, e que haviam sido usadas como reféns por tais marginais. O que ocorreu como adaptação, foi que o Rock foi inserido no roteiro, para alinhavar a situação a conter números musicais e claramente aproveitar a onda de euforia em torno do Rock’n’ Roll que explodia pelas rádios e nas telas, através de vários filmes e isso sem contar que a TV também repercutia fortemente a mesma cena. Dessa forma, ficou mais que justificada a pressa da produção em colocar o filme rapidamente nas telas das salas de cinema, exatamente como muitos outros estúdios também estavam a apressar-se para aproveitar o mesmo embalo gerencial.
Se o espectador atual de 2019, quando escrevi esta resenha (com o século XXI em pleno curso e quase a atingir a sua terceira década), não mantiver a devida paciência em assistir tal filme, com a consciência em entender o contexto de 1957, e sobretudo, também levar em conta que este filme foi feito às pressas, e a conter a simplicidade total em sua realização, tornar-se-á difícil nutrir algum tipo de simpatia natural por ele, a não ser que tal espectador seja um Rocker inveterado e disposto a aceitar a sua simplicidade em prol dos números musicais, tão somente. Pois a sua história é absolutamente simples e inverossímel, em via de regra. Que fique avisado portanto o leitor que nunca o assistiu e pretende conferi-lo após ter lido esta resenha.
Pois então, a história gira em torno de um grupo de pessoas, que são desconhecidas entre si e estão no ambiente de uma casa noturna. Há uma rápida inserção de tais personagens em cada mesa, para delinear superficialmente quem são e o tipo de conflito particular que os envolve. Alguns números musicais ocorrem, e claro que são interessantes, pois tem artista de peso ali envolvido, caso do grupo vocal “Rn’B, “The Platters”, acompanhado pelo grupo de Eddie Beal, e a destacar-se a presença do famoso saxofonista barítono, Eric Dolphy, além da cantora, Nora Hayes e do grupo, “The Blockbusters”. 
O tal homem com baixa estatura, apelidado sugestivamente como “Shorty” (interpretado por Dick Miller), é o protagonista a adotar uma atitude valente, quando enfrenta diversos conflitos ao longo da noite, sem abalar-se, inclusive quando ocorre a pior situação, ao adentrar o ambiente dois assassinos que estavam a ser perseguidos pela polícia após a realização de um ato de latrocínio. Pois tais homens entram no ambiente, muito nervosos e colocam todas as pessoas ali presentes, em situação de sequestro, a usá-las como reféns para suplantar a ação policial que os persegue. Há abusos, quando ao aproveitar-se da situação gerada, tratam por provocar humilhações nas pessoas ali subjugadas, ao dar a entender que cogitam inclusive, abusar de algumas moças jovens presentes no recinto. 
Pois o tal “Shorty”, não se abala e imobiliza os dois meliantes com uma facilidade incrível e tal cena final é tão fora da realidade que causa espécie. Bem, trata-se de uma ficção a enaltecer a valentia de uma homem com baixa estatura e pouca força muscular, portanto eu sei que é mote do mini conto e que serviu como base, mas chega a ser risível a cena crucial onde ele ataca os bandidos e arranca-lhes as armas. Tudo resolvido enfim, a polícia que cercava a casa noturna, prende os meliantes e todos os sequestrados vão para a casa, aliviados. “Rock a noite inteira” passa a ser um título irônico, portanto, visto que a conotação dupla com a expressão fica clara em sua resolução.
Somente isso, então? Em suma, a história resume-se a esta pequena sketch, todavia, apesar da trama bem simples e construída sob uma produção modesta, o filme reúne alguns méritos enquanto peça dramatúrgica, por incrível que pareça, ante tais condições. E a primeira condição positiva a ser arrolada, dá-se com a diversidade das personagens, embora isso tenha sido retratado de uma forma sucinta. Por mostrar um pouco de cada envolvido nessa condição desagradável em estar em meio a um sequestro coletivo, o filme ganhou um pouco mais de substância, embora eu admita que não tenha sido algo absolutamente inovador em termos de mote para narrar uma história, pois na literatura policial e no cinema, por consequência, tal tipo de situação já havia sido colocada em cena, por centenas de vezes. Portanto, com a devida ressalva, deixo claro que neste caso, o uso de tal clichê policialesco serviu ao menos para dar mais corpo ao filme. 
Nesses termos, vê-se um grupo de personagens que não são exatamente exemplos de candura, pois há ali sentados sobre as mesas, alguns vigaristas contumazes, incluso o próprio, “Shorty”, que não é necessariamente um homem honrado, mas uma espécie de malandro de rua e exatamente por ser experiente nesse tipo de expediente, é que ele domina a cena ao enfrentar algumas confusões, e sobretudo ao dominar os dois bandidos que usam as pessoas como reféns. Em princípio, é confusa a reação generalizada, visto que os malfeitores matam um homem a sangue frio e o fato de haver um corpo estendido no piso da casa noturna, parece não causar uma grande comoção entre as pessoas. Somente depois desse cadáver ser retirado dali, foi que tais pessoas, usuárias da casa, notaram estar em uma situação perigosa e esboçaram assim, mostrar temor em seus respectivos semblantes. 
Outro mérito é naturalmente a música. Há inclusive a inserção de uma cena muito interessante a mostrar uma tímida aspirante a cantora que está na casa para mostrar o seu valor, mas nervosa ao extremo, desafina vergonhosamente quando canta o sucesso: “The Great Pretender”. Enquanto canta e mal por sinal, as pessoas nas mesas não disfarçam o seu desconforto auditivo com a fraca apresentação de Julie (interpretada por Abby Dalton). 
Ironizada pela sua apresentação, ela não suporta o revés e abandona o palco aos prantos, para refugiar-se no toilette da casa. Quando os bandidos entram no ambiente e aterrorizam os seus frequentadores, Julie é um dos alvos dos assaltantes, exatamente por ser muito bonita e como havia fracassado como cantora, eis que os bandidos a obrigam a cantar e nesses termos, a sentir pavor pela situação, Julie passa a cantar um blues, muito bem, a soltar a voz. Tem artista que só funciona sob forte emoção, talvez tenha sido essa a mensagem que Roger Corman quis enfatizar com tal cena. 
Em suma, o filme é isso e creio que valha a pena assisti-lo principalmente pela boa música exibida e também pela curiosidade em verificar uma encenação sui generis. Corman assinaria no mesmo ano, outro filme, como já disse e a aproveitar quase o mesmo elenco, “Carnival Rock” e cuja resenha eu também no meu livro e se encontra disponível neste Blog.
Outros atores não citados anteriormente: Russell Johnson (como Jigger), Ed Nelson (como Pete), Jeanne Cooper (como Mabel), Barboura Morris (como Syl), Robin Morse (como Al), Mel Welles (como Sir Bop), Richard Cutting (como Steve), Chris Alcaide (como Angie), Jonathon Haze (como Joey) e outros.
Escrito por Charles B. Griffith, que baseou-se no conto televisivo, “The Little Guy”, de David P. Harmon, foi dirigido e produzido por Roger Corman. Tal obra foi lançada em abril de 1957.
Esse filme não fez um estrondoso sucesso nas salas de cinema, certamente pela sua modesta produção e sobretudo por ter sido sobrepujado por outros filmes contemporâneos mais robustos, notadamente as produções a envolver, Elvis Presley, como ator protagonista e galã instantâneo, no entanto, tornou-se cultuado entre cinéfilos, tanto foi assim que o diretor, Quentin Tarantino, que é um fã declarado deste filme, anunciou nos anos 2000 que pretendia refilmá-lo. Tal projeto não foi anunciado até este momento de 2019, mas nada impede que ele o retome, em algum momento.
Claro que esse filme passou bastante em canais abertos ao longo das décadas de sessenta e setenta; chegou à TV a cabo e ganhou a sua versão em DVD, nos anos dois mil, embora não haja registro de que tenha sido lançado no formato VHS, antes, nos anos oitenta ou noventa.
Esta resenha foi preparada para constar no livro: "Luz; Câmera & Rock'n' Roll" em seu volume III, a partir da página 368.