quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ivo Rodrigues / CD O Velho Homem do Folk - Por Luiz Domingues



É a primeira que vez que elaboro uma resenha póstuma e não posso deixar de registrar que ao ouvir o trabalho em questão, fiquei dividido entre a tristeza e a alegria. Parece bem óbvio o que quero exprimir, mas acho conveniente deixar bem claro para não dar margem alguma à interpretação errônea do leitor. É o seguinte : alegre por ouvir um trabalho ótimo que mostra-se consistente enquanto peça artística; bem gravado, executado; arranjado e com muita expressividade. Todavia, triste por ter que constatar que trata-se de um trabalho póstumo da parte de um artista de primeira linha que deixou-nos há muitos anos atrás e não há sentimento de resignação que suplante a ideia de que ele nos faz falta, e o ideal seria que estivesse entre nós, atuando e criando sem parar.


Ivo Rodrigues no QG de sua banda nos anos setenta, "A Chave". Acervo e cortesia de Carlos ("Carlão") Augusto Gaertner 

Falo sobre Ivo Rodrigues, um artista com muitos atributos, tendo sido um cantor com incrível poder de interpretação e qualidade na voz, mas também um ótimo instrumentista e sobretudo, um compositor de mão cheia. Ivo é um dos principais nomes do Blues e do Rock paranaense, de todos os tempos, tendo feito história em duas bandas seminais daquele pujante estado sulista, e que estão na história do Rock Brasileiro : “A Chave” e “Blindagem”.  Com A Chave, foi um desbravador ao lado de seus valorosos e talentosos companheiros de jornada, com um curriculum construído numa época onde as dificuldades eram enormes. Falo dos anos setenta, onde o Rock não era reconhecido na grande mídia e tendo como agravante a ditadura em voga no país, nada simpática aos "cabeludos em geral", digamos assim, acrescentando o fato de ser uma banda fora do Eixo Rio-São Paulo, portanto, com menos oportunidades ainda. Mesmo assim, A Chave fez muito em sua carreira, colocando-se  com méritos no panteão do Rock Brasileiro, onde deixou seu legado inquestionável. Tenho uma lembrança pessoal muito boa, por ter visto a banda ao vivo uma vez, no Teatro Bandeirantes de São Paulo, no hoje longínquo ano de 1977, e apesar da distância temporal elástica, minha recordação da Chave é muito querida no sentido de ter reconhecido naquele palco, uma banda vigorosa da escola do Blues-Rock e que em nada ficava devendo a bandas similares de origem norteamericana ou europeia, em geral. Ivo Rodrigues impressionava por seu vozeirão, ao centro do palco e seus colegas eram igualmente ótimos, caso dos grandes, Carlos Gaertner no baixo; Orlando Azevedo na bateria e Paulo Teixeira na guitarra. Já na década de oitenta, Ivo Rodrigues foi fazer parte de uma outra banda paranaense de muita categoria. Integrando o “Blindagem”, mantinha a velha pegada Blues-Rock, mas essa banda teve mais chances, por estar numa época onde a mídia deu abertura ao Rock e na vácuo de artistas que chegaram ao estrelato mainstream, escreveu uma história tão forte quanto A Chave, artisticamente falando, porém, com maior alcance ante as circunstâncias externas mais favoráveis.



E mais uma lembrança boa, de cunho pessoal, quando eu fui componente oficial da Patrulha do Espaço entre 1999 e 2004, tive o prazer de tocar ao vivo, uma música e até gravado-a (versão ao vivo extraída de um show realizado em 2004, mas está no CD coletânea : “Aventuras Rockeiras no Século XXI”, lançado em 2016), de autoria do Ivo em parceria com seus companheiros d'A Chave, que a Patrulha gravou e incorporou ao seu repertório (“Vampiros”). O Rolando Castello Junior, baterista e único remanescente original desde a fundação da Patrulha, sempre citava o Ivo com muito carinho, enaltecendo suas qualidades artísticas, mas igualmente falando bem dele. Não o conheci pessoalmente, mas baseado nesses depoimentos do Rolando, formulei a melhor imagem possível de sua pessoa. Segundo o Rolando (e eu acredito nisso, mesmo porque a obra artística deixada por Ivo confirma tal preceito), ele era um Rocker genuíno, “um dos nossos”, na acepção do termo. Mas eis que a finitude humana o chamou muito mais cedo que esperaríamos e assim, Ivo Rodrigues deixou-nos muito precocemente em 2010, abrindo uma lacuna irreversível, digo com pesar.


Já em plena época de amizades construídas através das redes sociais da Internet, fiquei amigo da viúva de Ivo, Suka Rodrigues, que falou-me muitas coisas sobre a obra de Ivo e o legado todo, sobre a sua atuação com “A Chave” e “Blindagem”, a parceria com o poeta Paulo Leminski e sua própria parceria com ele, visto que Suka também é uma poetisa. Como se não bastasse, um dos filhos do casal (Ivan Rodrigues), é um grande músico nos dias atuais e envolvido igualmente na produção musical. Para incrementar ainda mais, estreitei amizade com o excepcional baixista, Carlão Gaertner, que foi companheiro de Ivo, n’A Chave. Aliás, tive um grande prazer em entrevistá-lo no meu Blog 2, onde ele fez um relato impressionante sobre a sua trajetória na música, e claro, quando cita a sua passagem pela “A Chave”, mencionou Ivo Rodrigues muitas vezes, e eu convido o leitor a procurar tal relato impressionante, uma verdadeira aula sobre a história do Rock e do Blues do Paraná, mediante o link abaixo :


Bem, eis que em 2017, esforços foram empreendidos e um álbum com material inédito do grande Ivo Rodrigues é anunciado e minha amiga Suka Rodrigues, enviou-me gentilmente uma cópia para a minha apreciação. Logo que mirei a capa e vi a foto em close-up de Ivo a cantar diante de um microfone, já senti a força do intérprete sensacional que ele foi em vida (foto aliás, do Ivo atuando com A Chave ao vivo, em 1975). Bastava colocar o CD no aparelho de som para constatar o que já era presumível, ou seja, trata-se de uma bela coleção de canções de sua autoria (nem todas, tem uma do compositor italiano, Vasco Rossi), sendo a maioria só dele, e algumas com parcerias. O nome do disco é o mesmo de uma canção do álbum, e revela uma verdade implícita : “O Velho Homem do Folk”. É isso mesmo, Ivo era Rocker e bluesman por natureza, mas esse lado “Folk” também caía-lhe bem enquanto compositor e cronista do cotidiano. Tal trabalho foi gravado em algum momento do primeiro semestre de 2009, num estúdio caseiro, segundo consta na ficha técnica do álbum, mas apresenta um áudio muito bom em minha avaliação, dignificando a memória de Ivo e sendo portanto um item vital na coleção de quem o admirava pela sua atuação nas bandas em que foi componente. Trata-se de nove canções muito interessantes, trazendo um alento aos seus fãs, carentes desde que deixou-nos.



Logo na primeira canção, homônima ao título do disco, matamos a saudade do velho Ivo, ouvindo sua voz potente, com aquela verdade implícita na sua maneira de interpretar. Sim, o “O Velho Homem do Folk” vive em sua poesia imortal. Senti um verdadeiro híbrido, no ótimo sentido da palavra, entre o Folk americano e o Folk sulista do Brasil e na prática, mesmo não sendo um musicólogo a prestar um parecer técnico bem embasado, tenho em mente que a música Folk é igual em qualquer lugar do planeta, em sua essência e o que muda são as nuances étnico / culturais de cada região / nação. Gostei muito dessa canção com arranjo simples, porém muito feliz no uso de violões, banjo, baixo e bateria. Tem também uma boa intervenção de gaita e a voz do Ivo está muito límpida no tratamento de áudio dessa produção, usando o mínimo de processamento, e assim privilegiando seu timbre e emissão natural. Ivo canta :


"Quanta saudade vou deixando / sonhos de infância, rancho e banjo...pra saber que a resposta vem com o vento / pra saber que a resposta vem como vento".



“Inspiração” (em parceria com Luiz Rettamozo), é uma faixa deliciosa. Lembrou-me o trabalho da banda gaúcha, "Almôndegas", nos anos setenta. Aquele sentido do Folk-Rock que é raro, para não dizer inexistente nos dias atuais, infelizmente. Muito bom o passeio de slide-guitar. Nada mais silvestre e de fato, inspirador.  





“Vento”, a terceira faixa, traz um bom arranjo de piano em perfeita sincronia com os violões. Apreciei os backing vocals, muito pertinentes. Ivo investe na delicadeza poética :


"Vento, ouço você chamar / Folhas caem dos teus olhos"...


“Diga-me Onde Mora”, a faixa seguinte, é um Country-Rock muito bom. Gostei bastante dos vocais, condução da boa "cozinha" (baixo e bateria), e mais uma intervenção criativa do slide-guitar. Senti-me ouvindo um bom disco dos "Byrds"; "Quicksilver Messenger"; "Flying Burrito", enfim, essas e outras tantas bandas norteamericanas sessentistas boas, que praticavam essa seara rural do Rock.



“Típicos” (em parceria com Raymundo Rolim), é um Blues, ao estilo “slow”, belíssimo. Gostei de tudo nessa faixa, a começar pelo órgão com pegada Hammond; guitarras, e mais uma condução perfeita de baixo & bateria. Ivo arrebenta com seu vozeirão. A letra é forte, a investir na crítica ao comportamento humano em sociedade, mas com elegância, sem nenhuma apelação, o que é notável, visto que tem muito artista que deseja enveredar por tal tipo de denúncia sócio-comportamental, mas apela para grosserias que beiram a raiva recôndita, através dos seus recalques pessoais etc. Não foi o caso dessa letra, que tratou tal questão com maior classe. Eis um exemplo :


"Que essa gente maltratada pela vida / é tão jovem e tem suficiente idade pra morrer de tédio pelas ruas da cidade / sem direito ao sorriso ou ao juízo"...

A próxima canção, “Comigo não tem Vacilo”, é a mais balançada do álbum. Tem muito do R’n’B e da Soul Music e também agradou-me bastante os belos desenhos melódicos executados pelo violão.


“Voyeur Amigo” é uma parceria com sua esposa, Suka. É um reggae em linhas gerais pelo arranjo com as típicas acentuações em contratempo, mas é ao mesmo tempo pop com vocação radiofônica. E no texto, tem um teor erótico, como sugere seu título, mas com bom gosto, sem passar do ponto.



A penúltima música chama-se “Vivendo por Dois”. É um blues em tese, mas tem nuances do R’n’B e do Rock’n Roll cinquentistas, ao longo do seu desenrolar. Gostei bastante do piano e do belo solo de guitarra, com timbre limpo, provavelmente advindo de uma Fender Stratocaster, pelo seus estalos de harmônicos bem agudos, coisa bela, por sinal.



O disco encerra-se com “Vida Gozada”, numa versão bem "Classic" Folk, mesmo, com voz e violão, apenas. Trata-se de uma versão da música “Vita Spericolata”, do excelente compositor italiano, Vasco Rossi, que a Blindagem já havia gravado em disco de estúdio e também apresentada posteriormente numa versão grandiloquente, com apoio de uma orquestra sinfônica, ao vivo e com Ivo Rodrigues numa interpretação de arrepiar. Aqui, apesar desta versão ser bem mais comedida no seu arranjo, a interpretação é também, belíssima. É o tipo de faixa que não dá para ouvir e simplesmente desligar o CD Player, mas que pede mais uma nova audição, pelo menos.



Sintetizando, “O Velho Homem do Folk” é muito mais que uma bela homenagem ao saudoso Ivo Rodrigues, mas um sopro de vida, revelando-se um verdadeiro presente que ele oferece-nos, tantos anos depois de sua partida. Ouvindo-o, fica a certeza de que Ivo Rodrigues vive e continua sendo um artista que tem o que dizer e muito bem dito.




A capa do álbum é sóbria e o encarte segue o mesmo padrão. A foto de Ivo cantando ao vivo, parece ser dos anos setenta, no tempo em que atuava n’A Chave. O uso de uma matiz de verde musgo profundo, mesclou-se à foto em preto e branco de forma magnífica. Remeteu-me ao campo, às raízes camponesas, portanto tudo a ver com o conceito do menestrel “folk”.



Gravado em estúdio caseiro - 1º semestre de 2009
Direção musical a cargo de Ivo Rodrigues e Neto Nonino
Técnico de gravação e pré-mixagem : Neto Nonino
Mixagem : Neto Nonino; Charlie e Claudio Thompson
Mixagem final : Neto Nonino e Ivo Rodrigues
Mixagem da música “Vida Gozada” : Alberto Rodriguez Ovelar
Masterização : Virgílio Milléo 
Foto : Nelida Kurtz Retamozo
Projeto gráfico : Bruno Pianaro Souto
Produção Geral : Rafael Martins e Ivan Rodrigues
Prefácio do encarte : Sandro Moser.

Selo independente, com apoio da Prefeitura Municipal de Curitiba / Fundação Cultural de Curitiba




Ouça o álbum na íntegra, no Site "Nave dos Deuses” :



Ivo Rodrigues : Voz & violão


Músicos convidados :

Neto Nonino : Violão / banjo / guitarra

Rodrigo Panzone : Baixo / teclados

Vander Ferreira : Bateria

Bene Chireia : Gaita

Paulo Teixeira : Guitarra

Charlie Thompson : Violão / guitarra / teclados

Claudio Thompson : Percussão

Christopher Michael : Teclados

Gerson Marçal : Baixo


Agradeço a Suka Rodrigues pelo envio de uma cópia do álbum


Para conhecer a trajetória completa de Ivo Rodrigues, consulte o site "Nave dos Deuses". Abaixo, o links da sua discografia básica :


A Chave



Blindagem



"O Velho Homem do Folk", de Ivo Rodrigues, na íntegra :



Ivo Rodrigues no Wikipedia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivo_Rodrigues 

Os Kurandeiros - 30/11/2017 - Quinta-Feira / 20 Hs. - Santa Sede Rock Bar - Tucuruvi - São Paulo / SP



Os Kurandeiros


30 de novembro de 2017 - Quinta-Feira - 20 Horas

Festival do Chopp Artesanal / Entrada Gratuita


Santa Sede Rock Bar

Av. Luiz Dumont Villares, 2104 - 200 metros da Estação Parada Inglesa do Metrô - Tucuruvi - São Paulo / SP


Os Kurandeiros :
Kim Kehl : Guitarra e Voz
Carlinhos Machado : Bateria e Voz
Luiz Domingues : Baixo

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

The Blues Riders / CD Domador de Tempestades - Por Luiz Domingues



The Blues Riders Band é um grupo que eu admiro há anos pela sua luta incansável. Perseverante, a banda iniciou atividades no ano de 1994, e vem lutando com uma tenacidade incrível, completamente alheia aos modismos trôpegos que passaram e passam, centrada em sua escola tradicionalista incólume, isto é, versada pelo bom e velho Blues-Rock. Todavia, tem também no bojo do trabalho, bastante influência do Hard-Rock setentista, nítido pelo seu arsenal de riffs e sobretudo pelas resoluções melódicas estabelecidas em suas canções, logicamente baseada no potencial vocal disponível em suas linhas, sendo isso um trunfo, é claro. E como se não bastassem tais atributos musicais, trata-se de um grupo formado por grandes pessoas e sei que isso destoa um pouco do espírito técnico de uma análise tradicional feita numa resenha de disco, mas eu acho que conta sim, porque acredito que isso reflete-se no resultado artístico perpetrado pelo grupo em sua obra. Tanto que eu sempre falo em ocasiões sociais e informais, que acho os Blues Riders uma boa banda formada por boas pessoas, isso é um fato.

“Domador de Tempestades” é o terceiro álbum oficial de sua discografia. Antes, já havia lançado : “Blues Riders na Cidade do Rock” (2000) e “A Sagrada Seita do Rock’n’Roll” (2009). Se na prática a banda permanece fiel ao seu estilo, trata-se outrossim de um álbum trazendo elementos diferentes a agregar, como o próprio Hard Rock já citado e também o Pop, via baladas, e boas por sinal.

Logo de início, antes mesmo de apertar o “play” para ouvir o trabalho, a temática proposta pelo álbum (e bem expressa na sua bela arte gráfica), chama a atenção. O “domador de tempestade”, em questão, evoca muitas coisas, indo da magia pura e simples, mas passando pela arte circense / ilusionismo e certamente também pela metáfora forte, que vem a denotar poder e controle, sendo um convite muito interessante para todo o tipo de reflexão sob diversos ângulos, indo do campo sócio/comportamental à política e esta por sua vez, abrindo um campo enorme para especulações múltiplas, indo desde a crítica aberta à política rasteira praticada pelos partidos políticos brasileiros à geopolítica internacional, mais ampla e sofisticada. E logicamente passando pela manipulação de informações e formação de opinião pública, trusts e monopólios secretos e escusos, etc etc. Aliás, consta no encarte do álbum, uma divertida frase de efeito, com bom humor é claro, mas que revela nas entrelinhas tal abordagem sutil, porém profunda da parte da banda, ao afirmar : “nenhum animal foi maltratado durante as gravações. Este disco respeita as normas internacionais anti- corrupção, anti-trust e anti-ferrugem”. E que fique a vontade o ouvinte / leitor a buscar suas próprias conclusões.

Falando da música, propriamente dita, o disco foi gravado pela sua formação clássica, após mudanças pontuais ocorridas no passado, portanto, reunir a formação mais estável, também pode ser considerado como um ponto positivo a mais, trazendo um sentido de entrosamento considerável. O áudio do disco mostra-se ardido, com um ganho extra de frequências agudas, naturalmente fruto do processo final de acabamento, onde a masterização imprime mais agudo ou grave, numa camada final como resultado final.

A produção, operação de gravação (captura), mixagem e masterização ficou a cargo de Edu Marron. A fama de Morron no meio é grande, pois é sabido que trata-se de um músico excelente (inclusive tocou teclados e guitarra como convidado no álbum), tendo muita capacidade como técnico de som / produtor musical e não obstante tudo isso, ainda revela-se um designer gráfico de muita qualidade, porque a concepção e arte-final / lay-out da capa e encarte, assim como as fotos da banda, são inteiramente de sua responsabilidade também.

Por falar em capa, a concepção de uma floresta sob o lusco fusco do entardecer e a imagem do personagem do domador de tempestades, caracterizado como um mago a dominar os elementos da natureza, ficou excelente. O baixista da banda, Álvaro Sobral posou interpretando tal personagem e ficou muito convincente a imagem, a trazer a ideia do poder do personagem em questão. O encarte é rico com informações e contendo todas as letras, portanto, fiquei bastante impressionado, positivamente, com a arte gráfica que acompanha o álbum.

The Blues Riders em ação. Da esquerda para a direita, na linha de frente : Áureo Alessandri; Augusto Marques e Álvaro Sobral. Atrás, na bateria : Marcos Kontis. Click de Kacau Leão 
Falando sobre as faixas, o disco abre com “No Céu e na Lama”. Trata-se de um Rock’n Roll acelerado e tradicional, bem na tradição do trabalho pregresso da banda. A banda soa como o “Made in Brazil” em seus melhores dias. Tem um piano muito bom executado pelo ótimo convidado, Edu Marron, a trazer-nos a volúpia do mestre Jerry Lee Lewis. Gostei do timbre do baixo do bom, Álvaro Sobral e o vocal de Augusto Marques, a voz oficial da banda, é muito firme, lembrando e muito o timbre e extensão avantajada que o saudoso Percy Weiss apresentava. Um dado interessante a mais, a presença da cantora convidada, Juliana Kontis, irmã do baterista Marcos Kontis, trazendo sua bela voz para compor backing vocals com teor feminino e bem afinados. Experiente, Juliana atua na noite paulistana cantando MPB com desenvoltura, portanto, mostrou uma participação ótima nessa faixa.

“Eu Estou Chegando”, a segunda canção, tem um solo muito bom, da parte do guitarrista Áureo Alessandri, com aquela ardência que já mencionei anteriormente, quando falei do áudio, inclusive. Há de destacar-se também a providencial intervenção do órgão Hammond e uma excelente participação do saxofonista convidado, Bangla, que é um dos músicos de Rock mais requisitados em São Paulo e no Brasil.   

“Tara”, pelo seu título, sugere uma temática pesada, quiçá polêmica. No entanto, a forma pela qual a letra desenvolveu-se, tratou de amenizar quaisquer expectativas mais maliciosas, visto que o enfoque poético e praticamente romântico, surpreende. Sobre a sonoridade, gostei do início com baixo e bateria apenas, deixando soar notas longas e onde dá para apreciar bem o timbre de seus respectivos instrumentos, aspecto que não é muito valorizado pelo ouvinte padrão, mas é digno de nota em minha opinião. O Riff de guitarra é ótimo e mesmo levado em torno do Blues-Rock mais clássico, tem um certo peso Hard, extra. Lembrou-me bastante o trabalho do “Nazareth”, uma banda escocesa setentista, não muito reverenciada geralmente, mas muito valorosa em meu entender. Apreciei uma bela desdobrada no decorrer da música e o arranjo bacana quando ao final deixou sobrar a bateria segura do bom Marcos Kontis, e a gaita, esta executada pelo vocalista / guitarrista, Augusto Marques, que notabiliza-se também por tocar bem tal instrumento.

A quinta faixa, “O Domador de Tempestades”, mostra no título a sutileza da inclusão do artigo “o” a diferenciar do nome do álbum, Todavia, indo muito além, a canção tem muitos atrativos musicais e poéticos, e não só pela curiosidade ortográfica citada. Faz uso do recurso de uma introdução contendo um áudio externo como efeito de sonoplastia, ao utilizar a sonoridade natural de um Parque de Diversões lotado, com a presença de um realejo, incluso. 
             The Blues Riders ao vivo ! Foto : Leandro Almeida
 
Quando a banda entra em ação de fato, a música mostra-se como uma bela balada, com muito capricho nos detalhes inseridos pelo seu arranjo. Por exemplo, a presença de uma flauta muito inspiradora a trazer docilidade, pontuando com frases quase o tempo todo, e executada por Mag Vieira. Gostei muito de alguns trechos onde uma guitarra soa com uma carga de vibrato acintosa, trazendo um efeito espetacular. Em linhas gerais, lembrou-me muito o som do “Moody Blues”, com aquela sofisticação delicada, ao estilo do Soft Rock britânico de início de década de setenta. A letra traz uma série de referências ao universo circense, contendo versos bem estruturados e rimados, a lembrar a escola do romantismo na poesia, ao estilo de Gonçalves Dias. Veja um verso abaixo, como exemplo :


“E como um rio que salta no infinito / no fundo a solidão afogada / palavras nos vales, de minh’alma / deixando a voz embargada”

Na faixa seguinte, “O Acaso”, o Hard-Rock de bandas como o “Uriah Heep” e “Ufo”, são influências que detectei pelo uso muito feliz do lap steel (Thank you, Ken Hensley !), e pelo Riff mais acelerado (danke, Michael Schenker !). Apreciei o timbre do baixo, muito bom e das belas linhas executadas pelo bom baixista Álvaro Sobral, que seguindo a imagem que interpretou na capa do disco, de fato comandou a tempestade, aqui. Três músicos da pesada contribuíram bem para abrilhantar a faixa. Douglas Numakura pilotou o Lap Steel; Tiago Claro fez o primeiro solo de guitarra e Rubens Gióia, o segundo. Sobre o Rubens, eu sou mega suspeito para elogiá-lo, pela nossa amizade e companheirismo na Chave do Sol, banda que modéstia a parte, deixou seu legado e presença garantida na história do Rock brasuca e claro que isso orgulha-me. Analisando seu solo especificamente, é tão marcante o seu estilo pessoal que mesmo sendo relativamente curto, é inconfundível a sua presença.

A sétima faixa, “Um Dia por Vez” tem um riff sensacional que se por um aspecto é bem característico da escola do Blues Rock, tem um sabor Jazzy, delicioso, pois a inclusão do trompete do músico convidado, Alexandre Gutierrez, tratou de levar a banda para uma sonoridade muito próxima de bandas como o “Chicago”; “Cold Blood” e “Blood; Sweat & Tears”e outras nessa sonoridade. Para reforçar o peso, a presença sempre providencial do órgão Hammond, sempre uma garantia de ornar bem e um belo solo de trompete.

Vem a seguir, a faixa, “Espírito de Aventura”. Aqui a sonoridade do áudio sugere timbres mais modernos. Lembrou-me o som mais atual do “ZZ Top”, ou seja, mantendo aquela pegada tradicional do Blues-Rock texano, mas trazendo um elemento pop, sutil. É uma autêntica “road song”. E também tem um som de saxofone a pontuar a canção, desta feita executado pelo músico convidado, Mag Vieira. Eis um verso significativo a reforçar tal ideia :


“Um brinde ao destino / eu deixei minha marca / um brinde ao destino / estou voltando p’ra casa”

“O Rei da Ilusão” mostra o baixo fazendo uma frase em looping e com um belo timbre. Uma guitarra a usar o efeito da caixa Leslie, é muito agradável. O som tem um balanço funkeado bem legal, fazendo-me recordar o som do “Trapeze” e mais uma vez a gaita esperta de Augusto Marques traz seu charme ao som da banda.

Ouça o disco na íntegra (assim como os anteriores dos Blues Riders), no espetacular portal “Nave dos Deuses”, um arquivo impressionante a serviço do Rock brasileiro e capitaneado pelo agitador cultural, José André :



Discos físicos disponíveis para venda nos shows da banda, e na loja Aqualung, tradicional na Galeria do Rock, no centro de São Paulo.

Gravado; mixado e masterizado no estúdio “A Nave”, de São Paulo, entre abril e dezembro de 2015.

Técnico de som e produção : Edu Marron

Co-produção : Áureo Alessandri e Álvaro Sobral

Capa e encarte (concepção; lay-out e arte-final) : Edu Marron

Fotos : Edu Marron

Formação da banda nesse álbum :

Augusto Marques - Guitarra; Voz solo e Gaita

Áureo Alessandri - Guitarra; violão e Backing vocals

Álvaro Sobral - Baixo; Baixo Acústico e Backing Vocals

Marcos Kontis - Bateria e Percussão


Músicos convidados :

Edu Marron - Teclados (em todas as faixas onde aparecem) e Guitarra (“No Céu e no Inferno” e “Um Dia por Vez”)

Juliana Kontis - Voz (“No Céu e na Lama”)

Alexandre Gutierrez - Trompete (“Um Dia por Vez”)

Douglas Numakura - Lap Steel (“O Acaso”)

Tiago Claro - Guitarra (1º solo em “O Acaso”)

Rubens Gióia - Guitarra (2º solo em “O Acaso”)

Mag Vieira - Flauta Transversal (“O Domador de Tempestades”) e Saxofone Alto (“Espírito de Aventura”)

Octavio Bangla - Saxofone (“Estou Chegando”)

           The Blues Riders ao vivo ! Click de Bolívia & Cátia

É isso, eis aí um disco realizado por uma banda muito honesta, fiel aos seus princípios, feito com qualidade e trazendo atrativos interessantes a somar no cômputo geral. Recomendo a sua audição, certamente.


Para conhecer mais sobre a banda, consulte os endereços abaixo :


Página na Rede Social Facebook



Contato direto com a banda :
Blues.riders.oficial@gmail.com