sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Márcia Cardeal no Rítmo de Zás-Trás - Por Luiz Domingues



A TV Paulista foi a segunda emissora fundada em São Paulo e teve uma existência profícua, até ser comprada pelo jornalista / empresário, Roberto Marinho em 1965, e tornar-se a Rede Globo de São Paulo. Em seu tempo pré TV Globo, a TV Paulista fez história, por concorrer com muita dignidade entre os seus pares à época, no caso, as emissoras : Tupi; Excelsior e Record.
Entre tantas atrações ali criadas, na linha dos programas infantis, a "Sessão Zás-Trás", criada em 1955, faz cinquentões e sessentões de hoje em dia, marejar os seus olhos, tamanha a saudade que gera. Inicialmente, tal atração infantil fora apresentada por Gisleine Marilda Roque; Délio Santos; Marco Antonio e Henrique Ogalla.
No início dos anos sessenta, passou a ser apresentado por Márcia Cardeal, uma adolescente carismática e que conduzia paralelamente, a sua carreira como atriz, ao participar de diversas montagens teatrais significativas. É portanto para a maioria das pessoas, considerada a melhor fase do programa, muito em questão do carisma de Márcia, que rapidamente tornou-se ídolo das crianças da época.
O programa era muito simples em sua produção. Ainda a contar com parcos recursos técnicos e por viver-se em plena época de uma ingenuidade generalizada na sociedade, limitava-se a concentrar um grupo de crianças, diariamente no estúdio, geralmente com uma ou mais a comemorar aniversário no dia e assim, ao criar um clima de festa prosaica, como se fosse na residência da criança, Márcia intercalava pequenas entrevistas pueris com a petizada, aos desenhos animados e seriados, predominantemente estrangeiros.
Com o passar do tempo, mudanças foram paulatinamente introduzidas e com os avanços da tecnologia, passou a ser apresentado também no Rio de Janeiro. Novos agregados ingressaram como personagens fixos.
Pequenas gags em torno de palhaços circenses; aulas sobre trabalhos manuais e mini gincanas com brincadeiras, costumava animar as crianças. Mario Lucio de Freitas; "Tio" Molina, e Ayres Campos reforçavam o time de Márcia Cardeal nessa segunda metade da década de sessenta. O sucesso foi garantido, até que um dia de 1965, o histórico canal 5 de São Paulo tornou-se a "TV Globo", e assim, o mandatário, Roberto Marinho preferiu transferir o núcleo da produção de "Zás-Trás" para o Rio de Janeiro, a matriz da emissora, em 1969.
Com essa mudança, o "Zás-Trás" perdeu o carisma de Márcia Cardeal e mesmo ao notadamente melhorar a sua produção, pôs-se a perder audiência.
Apesar de contar com a apresentação do ex-lutador de Luta Livre, Ted Boy Marino (que havia tornado-se um ator, ao atuar em programas humorísticos e filmes, notadamente no embrionário grupo de humor, "Os Trapalhões", ainda sem esse nome, ao lado de Renato Aragão e Dedé Santana), o programa entrou em declínio. Com baixa audiência, a "Sessão Zás-Trás" saiu do ar em 1970, para voltar com reformulações em 1972, mas tal retorno durou poucos meses, pois uma revolução no mundo dos programas infantis, causou-lhe um verdadeiro atropelamento.
Em outubro de 1972, Roberto Marinho deu fim à histórica, "Sessão Zás-Trás", para colocar no ar uma adaptação nacional para uma  atração internacional consagrada e que revolucionaria os programas infantis, chamada : "Vila Sésamo" ("Sesamo Street"), com uma nova abordagem pedagógica e direcionada às crianças pequenas. 


Fica a saudade para quem foi criança da metade dos anos cinquenta, até o fim dos anos sessenta, de Márcia Cardeal e seu carisma, ao apresentar a "Sessão Zás-Trás".
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Viagem aos Seios de Duília - Por Luiz Domingues



Para os não muito familiarizados com a história do cinema brasileiro, um filme com o título : "Viagem aos Seios de Duília", pode remeter à ideia em tratar-se de uma pornochanchada dos anos setenta, mas na verdade, tal obra passa muito longe dessa classificação. Pior ainda seria imaginar tratar-se de um nome de uma banda "indie", dessas que certos críticos empertigados adoram incensar, mas cujo hype não dura mais que quinze minutos, e convenhamos, tal metragem de tempo mostra-se até demasiada, visto que na maioria das vezes, observa-se a profunda ruindade artística desses elementos.

Carlos Hugo Christensen, foi um cineasta argentino que radicou-se no Brasil ao final dos anos cinquenta e aqui montou uma bela carreira, na verdade a dar continuidade ao bom trabalho que realizara em seu país natal, anteriormente.
Em 1964, ao basear-se em um conto escrito por Aníbal Machado, eis que ele realizou para as telas de cinema, "Viagem aos Seios de Duília", um filme que capturou algo além da sensibilidade expressa no conto, ao buscar no retrato de um homem amargurado, um estrato pungente sobre a questão do tempo perdido.  O homem em questão, é José Maria (interpretado por Rodolfo Mayer). Ele é um funcionário público austero e a viver os seus últimos dias na repartição federal, a um passo da aposentadoria compulsória.
Sua vida resumiu-se em cumprir as suas obrigações profissionais e manter-se modestamente, sem maiores ambições pessoais. Solteiro, vive aparentemente sob resignação em respeito de sua solidão contumaz, sem contudo que isso significasse uma misoginia assumida. Durante os anos que passaram-se, ele nutrira aqui e ali, vontade de em aproximar-se de uma mulher e ter enfim uma companheira que abrisse-lhe a oportunidade para constituir a sua própria família e possuir assim, um estilo de vida igual ao de seus colegas de repartição, todavia, algo internamente segurava-o ao passado longínquo de sua adolescência vivida em um remoto rincão do interior do país.
Uma festa é improvisada durante o seu último dia de trabalho na repartição, contudo, os seus vínculos ali construídos mostravam-se  meramente formais e não houve portanto, uma grande comoção de sua parte, tampouco dos seus colegas. Durante trinta e seis anos, José Maria apenas costumava chegar; bater o ponto; trabalhar o período do seu expediente; dizer : "até amanhã" e sair, ao consumar uma rotina mecânica, entediante. Um pequeno gesto de afago moral, da parte de uma colega de trabalho, pareceu ter outro significado, todavia.
Adélia (Natália Timberg), entrega-lhe um presente de despedida, que sob um vislumbre efêmero, soa-lhe como uma espécie de abertura para uma aproximação, entretanto, fora apenas um ato de coleguismo profissional e José Maria vai para a sua casa inteiramente frustrado, mais uma vez. Sem a rotina de trabalho, José Maria entra rapidamente em uma fase a demonstrar desespero em torno de seu vazio existencial. Ficar o dia inteiro trajado com pijamas dentro de casa, trouxera-lhe a perspectiva de confrontar o enorme vazio de sua vida, agora sem subterfúgios. José Maria passa por momentos angustiantes doravante, sem a distração que o trabalho burocrático proporcionava-lhe. Agora ele é uma peça fora da engrenagem, sem utilidade alguma para o sistema e só resta-lhe esperar a morte sentado, em sua modesta residência.
Então, ele toma uma atitude mais incisiva, quando percebe que definhará, caso não lute e assim, aceita o convite de um colega para visitar um "Night-Club", que naquela época era popularmente chamado como : "inferninho". Sem nenhum traquejo para frequentar tais lugares, ele apenas atrapalha as paqueras do colega, pois nem sabe lidar com as mulheres, ainda mais ao tratar-se de mulheres muito mais jovens e assim, ele sente-se um defasado senhor fora de moda. Pois, o que fazer para dar um sentido à vida, doravante ? Foi quando mediante uma epifania, José começou a lembrar-se de um tempo onde teve um amor quase correspondido, ou pelo menos ele interpretara dessa forma.
Em suas remotas lembranças, havia uma garota por quem apaixonara-se. Ambos eram muito jovens e infelizmente as suas juras de amor que estabeleceram, esbarraram no fato concreto de que não tinham independência financeira, tampouco maturidade o suficiente para assumir uma relação estável. Porém, fora um sentimento puro, verdadeiro e muito intenso. Tão forte, que criou uma raiz, ao perdurar sob um longo hiato criado pela separação inevitável. Ele não teve outra alternativa na ocasião, ao ter que deixar a distante cidade onde vivia e nesses termos, batalhar pela sua subsistência no Rio de Janeiro.
E preocupado em manter-se, seu sonho foi esmagado pela realidade, ao embotar-se. Por ter sido obrigado a viver sob tal rotina que o limitou, envelheceu e aceitou com amargura o fato de que a tal moça, chamada, Duília, fora apenas uma paixão juvenil. Todavia, a vida passou, e José Maria nunca conseguiu relacionar-se com outra mulher ao ponto em que, agora, estava aposentado e a viver em uma casa suburbana e vazia. Eis que sob um ímpeto incomum aos seus padrões recatados, ele toma enfim a decisão de lutar pelo seu amor juvenil.
Uma imagem nunca saíra-lhe da sua mente nesses anos todos : Duília, sob um rompante ato a denotar amor e certamente a revelar-se algo impensável para o início do século XX, em uma pequenina cidade interiorana, mostrara-lhe os seios desnudos. Em seu imaginário, essa fora a vivência mais erótica de sua vida e agora ele daria tudo para resgatar esse amor.
Como estaria Duília ? Poderia estar viúva, quem sabe ? Ou até mesmo ter ficado solteira como ele e nesses termos, essa seria a oportunidade para ser feliz, enfim. Em sua mente, esse pensamento começou a ficar obsessivo. Duília e a sua beleza infanto-juvenil; as juras de amor; o contato físico pudico daquela época e a explosão erótica, ante a visão de seus seios nus. Por martelar pesadamente em sua imaginação, essa imagem forneceu-lhe o ímpeto que jamais tivera em toda a sua vida subserviente : nada o impede em ir à sua cidade natal e procurar por Duília ! Nessa parte do filme, é incrível a condução de Carlos Hugo Christensen. A viagem é retratada como uma saga épica, porque o é assim para José Maria, embora seja ao espectador, uma viagem triste; morosa e plena de dificuldades.
Nessa ambiguidade, Christensen comove-nos, pois José Maria faz um esforço inimaginável para poder chegar. Ao usar vários meios de transporte, pois não havia acesso direto para um lugar tão longe do Rio de Janeiro, José Maria pulsa junto com as adversidades, sob um rítmo que faz com que acreditemos que ele finalmente encontrou a força dentro de si. Sensacional também é a trilha sonora incidental, onde nesse percurso sofrido, o barulho do vento que sopra-lhe, parece verbalizar o nome : "Duília", literalmente.
Uma genial ideia de Christensen, que parece evocar algo fantasmagórico, talvez um "banshee" irlandês no meio da terra vermelha, em pleno interior do Brasil. Finalmente, José Maria chega à Pouso Triste, a remota cidade. Nada mudou naquele lugar, parado no tempo e no espaço. O coração pulsa cada vez mais rápido; a garganta asfixia-se, o suor umedece-lhe as têmporas... e então, o encontro acontece... José Maria encontra-se com Duília, mas o encontro é um momento constrangedor para ambos.
Foi-se o viço da juventude, mas muito pior que os sinais do tempo que ambos ostentam em seus semblantes, é a constatação de que quarenta anos constituiu a aniquilação do sentimento de outrora. Em um vislumbre da realidade, desmoronou-se a expectativa de José Maria, ao deparar-se com o fato de que aquele momento pueril vivido há quarenta anos atrás, jamais repetir-se-ia.
Vidas separadas e construídas sob outros parâmetros, tratou por fazer daquele fugaz momento sensual do passado, apenas a lembrança de uma chama, com a durabilidade efêmera semelhante a de um palito de fósforo aceso. Um diálogo formal sobre o casamento de Duília (interpretada por Licia Magna, quando mais velha), a comentar sobre filhos e netos, encerrou melancolicamente para José Maria, a sua última esperança em ser feliz. Mesmo assim, eis que sob a expectativa de um ato impensado, dá-se a entender que Duília vai ceder, mas fora apenas um ímpeto, imediatamente sufocado pelo recato.
Segue-se planos oníricos, a evocar lembranças do passado e o elo com a tormenta da realidade, tratou por nunca deixar acontecer de fato, ou seja, a consumação da paixão. Frustração... uma vida desperdiçada e irremediavelmente perdida para a melancolia atroz. A única perspectiva doravante, será a sobrevivência burocrática, até onde o fluxo da vida determinar que José Maria tome a última xícara de café de sua existência, em sua cozinha simplória e vazia. É triste, sem dúvida, mas como obra de arte é dilacerante, para arrancar das entranhas do personagem, facetas do ser humano que não gostamos, mas que existem, infelizmente.
Rodolfo Mayer era na ocasião dessa produção, um ator veterano, egresso do teatro e das radionovelas, com poucas, mas boas participações nos primórdios do cinema brasileiro, desde a década de trinta. Com o advento da TV, atuou bastante em novelas, principalmente nos anos sessenta e setenta, quando ficou mais famoso, naturalmente. Nesse filme, ele teve atuação excelente, ao elaborar com a sua bagagem, uma dramaticidade exemplar. Mesmo com um escritor do quilate de Orígenes Lessa, sendo responsável pelos diálogos (o que foi um luxo para a produção desse filme), Mayer não apoiou-se somente no bom script que tinha em mãos, tampouco na segurança de Carlos Hugo Christensen, como diretor. Mayer, na verdade, foi além e compôs o personagem, "José Maria", com uma expressão física que diz muito ao espectador da obra.  É infelizmente uma obra circunscrita a um fechado mundo de fãs e talvez seja difícil para achar-se na Internet, mas já foi exibido com regularidade no Canal Brasil, anos atrás (nada contra a grade atual - 2013 - cheia de programas, mas confesso que gostava mais quando essa emissora exibia predominantemente filmes clássicos e obscuros, da cinematografia brasileira). Recomendo essa obra do grande diretor, Carlos Hugo Christensen, pois enxergo em sua constituição, uma das mais contundentes experiências do cinema brasileiro, em exprimir sentimentos viscerais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O País do Futuro, Segundo Stefan Zweig - Por Luiz Domingues



A expressão : "o Brasil é o país do futuro", vem sido usada há décadas. Formulada sob todas as formas mediante as mais variadas circunstâncias, pode ser encarada de várias maneiras, em um enorme leque de conotações, que vão da ironia, ao extremo otimismo. Atribui-se a criação dessa expressão à um intelectual austríaco de origem judaica, chamado : Stefan Zweig, que passou os seus últimos dias no Brasil, encantado com o potencial que enxergou, há mais de setenta anos atrás.
Stefan Zweig nasceu em Viena, na Áustria, no ano de 1881, filho e neto de ricos banqueiros da Boêmia. Nesses termos, teve uma educação refinada e desde cedo foi preparado para assumir as instituições financeiras da família, ao lado de seu irmão, mas a vida intelectual o cooptou antes. Mesmo por tratar-se de uma família judaica, segundo Zweig, a religião não era seguida à risca das tradições em sua casa e ele mesmo chegou a afirmar que ser judeu fora algo meramente ocasional em seu Lar. Ele estudou filosofia na Universidade de Viena e obteve o seu doutorado em 1904, ao defender a tese : "A Filosofia de Hyppolyte Taine". Entretanto, mesmo antes da graduação e doutorado, ele já havia publicado o seu primeiro livro de poemas ("Silbern Saiten", "Cordas de Prata" em português), em 1902.
Especializou-se em literatura inglesa e francesa e traduziu vários autores para o alemão (Keats; Baudelaire; Morris; Yeats; Verlaine, entre outros). Foi amigo pessoal de artistas e intelectuais de sua época, tais como : Rimbaud; Romain Rolland; Rainer Maria Rilke; Thomas Mann, e Sigmund Freud, entre outros. Em 1912, duas peças teatrais de sua autoria fizerem sucesso ("A Metamorfose da Comédia" e "A Mansão à Beira-Mar"), mediante encenações concorridas na cidade de Viena.
Começou então a interessar-se pelo cinema com muito entusiasmo, também. Chegou ao ponto de escrever muitos roteiros para tal veículo e até Roberto Rossellini culminou em filmar um roteiro de sua autoria ("o Medo", de 1954, anos após a sua morte). 

Quando, começou a primeira guerra mundial e inflamado pelo sentimento nacionalista que assolou a Alemanha e a Áustria, apoiou o estado germânico, mas logo a seguir passou a ter outra visão do conflito, ao tornar-se um pacifista ferrenho, doravante. Casou-se em 1915 com a escritora, Friderick Von Winsternitz a após o término da I Guerra, e viveu um momento de intensa produção literária, ao lançar livros de poesias; traduções de outros autores e muitas biografias de personalidades do quilate de : Maria Antonieta; Fouché; Dostoievski; Dickens; Balzac; Nietzsche; Tolstoi; Stendhal etc.
Passou a lançar também, romances e ensaios, a partir dos anos vinte. São famosas as obras como : "Amok" (1922); "Angústia" (1925), e "Confusão de Sentimentos" (1927), influenciadas pela psicanálise, que o seu amigo pessoal, Dr. Sigmund Freud, tanto conversou consigo, a respeito, certamente. 


Separado de sua primeira esposa, uniu-se desta feita com a sua secretária, Charlotte Elizabeth Altmann, apelidada como : "Lotte" entre os seus familiares. Com a ascensão do partido nacional socialista ao poder, na Alemanha, Zweig sentiu-se inseguro para continuar a viver na Áustria e às pressas, mesmo antes das primeiras hostilidades antissemitas ter início, mudou-se com "Lotte" para a Inglaterra, no ano de 1934.
Sua ideia inicial foi viver em uma pacata cidade de origem medieval, chamada : Bath, mas as suas atividades intelectuais exigia-lhe com que passasse o maior tempo em Londres. Quando a II Guerra eclodiu, percebeu que mesmo que a Inglaterra, possuísse a mais poderosa força armada para enfrentar os nazistas, na Europa, houve perigo iminente e dessa maneira, o casal fugiu para Nova York, nos Estados Unidos, onde sentiu-se mais seguro.
Em 1940, vieram pela primeira vez ao Brasil. Sua visita ocorreu em vista de palestras em que participou em universidades. No entanto, Zweig encantou-se com a Bahia, onde vislumbrou um paraíso alheio à guerra e impressionou-lhe sobremaneira como as pessoas nativas mostravam-se felizes, mesmo a viver com tão poucos recursos materiais. E nessa primeira viagem, concluiu com entusiasmo um ensaio, onde colocou o seguinte título : "Brasil, o País do Futuro".  



A sua presença foi celebrada pelos intelectuais brasileiros, todavia, certos setores do governo mal disfarçaram a insatisfação pela presença de um intelectual com origem judeu e assumidamente antinazista. Fato, o governo Vargas flertava com simpatia pelo Eixo na ocasião e só mudou a orientação em contrário, por outros fatores e interesses, quando uniu-se aos Aliados, nos estertores do conflito. Cada vez mais impressionado com os avanços dos nazistas, costumava inflamar-se em discursos antinazistas, onde questionava abertamente as intenções racistas de Hitler e por estabelecer o contraponto, considerava que o Brasil seria o exemplo da nova civilização a ser seguido, via miscigenação total de raças e não pelo modelo nazi-fascista em prol da aniquilação de raças ditas inferiores, sob um falso esforço em termos de um apuro genético, que foi a proposta absurda dos nazistas.
Encantado com essa perspectiva, resolveu estabelecer residência no Brasil, ao comprar um imóvel na cidade de Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro. Já a morar em Petrópolis / RJ, Stefan Zweig escreveu mais algumas obras ("O Jogador de Xadrez"; "O Mundo de Ontem", que ficou inacabado e "O Mundo que eu Vivi", onde descreve as suas impressões sobre a I Guerra Mundial). Mas as notícias vindas da Europa não foram nada boas em 1942, e Zweig entrou em um processo de depressão acentuado, quando perdeu a esperança diante dos avanços nazi-fascistas.
E sendo assim, decidiu dar cabo à própria vida, de comum acordo com sua companheira, "Lotte". Deixou, no entanto, uma carta para explicar os seus motivos :  
Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. 

Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. 

Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.
 

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.
 

Stefan Zweig

O casal foi enterrado no cemitério municipal de Petrópolis, e a sua antiga residência hoje em dia abriga um Centro Cultural com o nome de Stefan Zweig.


Décadas após, em 2002, o cineasta paranaense, Sylvio Back, realizou um filme chamado : "Lost Zweig, baseado na biografia de Stefan Zweig, escrito por Alberto Dines, denominado : "A Morte no Paraíso". O próprio Sylvio Back, já havia lançado um documentário sobre o casal Zweig anteriormente, e que serviu-lhe como base, além do apoio do livro de Alberto Dines, naturalmente. Uso político à parte, a expressão cunhada por Stefan Zweig, "o Brasil é o País do Futuro", finalmente mostra-se como uma perspectiva concreta nos dias atuais, e não como uma utopia, sujeita ao escárnio da parte dos pessimistas de plantão.

Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

E se os Beatles Houvessem Gravado : "Asa Branca" ? - Por Luiz Domingues



Na década de sessenta, não havia artista mais famoso no mundo do que o grupo britânico, The Beatles. O quarteto de Liverpool fora a referência máxima no Rock e ultrapassava em muitos os seus limites, por ter tornado-se um mito da música mundial. A partir de 1966, ao estabelecer uma guinada histórica na carreira, os seus componentes abriram-se à todo tipo de experimentalismo em sua música, ao deixar para trás o estilo simples da primeira fase da carreira, em que tocavam Rock'n Roll; R'n'B; Blues e baladas Pop, e assim, eis que passaram a engrandecer com arranjos suntuosos, as suas músicas, dali em diante. Não só pela grandiosidade, mas pela loucura explícita em incluir instrumentos étnicos, os mais inusitados.
Nesse aspecto, quem trouxe a sonoridade indiana para o som dos Beatles, foi o guitarrista, George Harrison.
Profundamente impressionado com a cultura indiana, Harrison tratou por estudar cítara com o mestre, Ravi Shankar, e claro, com o peso de sua fama, tornou o mestre indiano das ragas, uma celebridade Pop no âmbito mundial, com a possibilidade inusitada dele, Shankar, apresentar-se em festivais de Rock no ocidente (Monterey Pop de 1967; Woodstock em 1969 e Concert for Bangladesh, em 1971, só para citar os maiores), fora turnês individuais que realizou para maravilhar um público jovem e hippie, que passou a idolatrá-lo. E dentro da obra dos Beatles, Harrison tratou em contribuir com algumas canções a conter uma roupagem tipicamente indiana, ao tocar cítara e trazer músicos indianos como convidados, para executar instrumentos tais como a  Tabla;Tamboura e outros típicos dessa cultura milenar.

A primeira inserção de uma canção de estilo indiano nos discos dos Beatles, foi com a canção : "Norwegian Wood", do LP "Rubber Soul", lançado em 1966 (segunda faixa do lado "A", no antigo disco de vinil), todavia, ainda a mesclar o padrão de uma canção Pop, com o acréscimo de uma cítara, em meio aos instrumentos tradicionais do ocidente. "Love You To", terceira faixa do LP "Revolver", de 1966, também, mas essa segunda foi no entanto, a primeira inteiramente concebida na estética e sonoridade da cultura indiana. Já a mergulhar na fase psicodélica da banda, "Love You To" trazia a sonoridade da Índia, in natura. No LP seguinte, "Sgt° Peppers Lonely Hearts Club Band", Harrison contribuiu com "Within' You, Without You", ainda mais radical e belíssima. Outras bandas britânicas embarcaram na tendência.

Brian Jones, o saudoso e genial guitarrista dos Rolling Stones, tratou por familiarizar-se também com a cítara e na faixa : "Paint in Black", faz lindos fraseados na cítara durante o transcorrer dessa música, por exemplo. Quando saiu o próximo trabalho dos Beatles, "White Album", o LP duplo de 1968, Harrison, não incluiu nenhuma composição sua ao estilo indiano, mas um pouco adiante, saiu uma música nova como "single" (compacto), chamada "The Inner Light". Foi mais um exemplo de canção ao estilo indiano, com a letra a discorrer sobre espiritualidade, como sugere o seu título ("A Luz Interna"). Enquanto isso, no Brasil, um comunicador muito perspicaz e conhecido por ser um tremendo marqueteiro, muito tempo antes desse tipo de ação ser valorizada, teve uma ideia insólita.
Tratou-se de Carlos Imperial, o sujeito em questão. Radialista; apresentador de TV; simulacro de ator e compositor sazonal, nessa época, 1968, Imperial mantinha no ar o programa : "Os Brotos no 13", da TV Rio, quando soltou uma notícia bombástica : a música "Blackbird", contida no então último LP dos Beatles (O disco duplo, "White Album"), tinha influência do baião, e o quarteto de Liverpool estaria interessado em regravar o clássico do cancioneiro popular brasileiro : "Asa Branca" !
Claro, a notícia espalhou-se rapidamente e Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, os autores da famosa canção, foram procurados para expressar as suas opiniões a respeito. O grande, Luiz Gonzaga, atravessava uma fase de baixa na carreira e resmungava contra os "cabeludos" na música, ao deixar sempre farpas em tom de ressentimento com o fato da juventude da ocasião estar sob uma outra faixa de interesse, e assim, a sua sanfona não estar a fazer mais parte desse rol de interesse popular.
Mas quando o boato criado por Carlos Imperial espalhou-se, e a imprensa o procurou para repercutir a notícia, Gonzaga, que sempre foi muito inteligente, aproveitou o momento para dar sobrevida à carreira e afinal de contas, não fora ele o autor da mentira... e assim, disse nas páginas da Revista "Veja", que achava que os cabeludos ingleses tinham tudo para gravar bem a música, ao dar-lhe uma roupagem moderna etc. 
E o boato não parou de crescer em proporção viral. Dizia-se que ele, Gonzaga, ganharia um adiantamento na faixa de cinquenta mil dólares, uma verdadeira fortuna para os padrões daquela época, além dos direitos autorais devidamente recolhidos, que resultaria em mais uma soma mastodôntica em termos de repercussão, se fosse difundido através da fama e chancela dos Beatles. Da parte dos Beatles, seja em seu escritório de representação ou na gravadora EMI, da qual eram contratados, ninguém sabia de absolutamente nada. Paul McCartney, certa vez declarou que havia uma certa influência da Bossa Nova brasileira na música : "The Fool on the Hill", único elemento que conhecia, ainda que bem vagamente a respeito da música brasileira. Muita gente no Brasil, defendia a ideia de que o Rock internacional e o baião eram parecidos. Carlos Imperial, o autor intelectual dessa mentira sobre os Beatles regravarem, "Asa Branca", foi um dos que bateu nessa tecla a respeito da semelhança estilística. Objeto de estudos dos musicólogos, sem dúvida que há um fundo de verdade nessa afirmativa.
Sob um esforço de síntese, digo que se somos latinos e colonizados pelos portugueses, é óbvio que a cultura ibérica (Portugal e Espanha), sofreu uma brutal influência da cultura moura, afinal de contas, os árabes dominaram a península ibérica por séculos. Na Espanha os árabes permaneceram ainda mais, contudo, mesmo que o Infante Dom Henrique os tenha expulso de Portugal, bem antes, a influência estava amalgamada, igualmente.
Portanto, quando o Brasil foi colonizado, a música portuguesa e o seu folclore que aqui chegou, naturalmente como parte do esforço civilizatório da parte dos portugueses, tal cancioneiro popular da terrinha continha muito da cultura do Oriente Médio. Este, por sua vez, também era influenciado pela cultura da Ásia mais extrema. E nesse caso, quando ouve-se a música do Oriente Médio, é nítida a influência indiana, também. 
Portanto, não é de para admirar-se que muito da musicalidade do baião; xote; xaxado e outros ritmos do nordeste brasileiro, possam ter semelhanças com o Rock internacional, visto que este é influenciado por diversas correntes do Folk europeu e daí, ter rigorosamente as raízes semelhantes, por um conjunto de coincidências.

De volta à mentira marqueteira inventada por Carlos Imperial, o desfecho foi confessado pelo "velho Lua", em uma entrevista ao jornal "Pasquim", em 1971, quando Gonzaga afirmou que graças ao boato, gravou muitos programas de TV; concedeu entrevistas e vendeu muitos shows motivados por tal factoide. Ao ir além, disse também que além de tudo isso, essa história costumava render muitas risadas, sempre que encontrava-se com Carlos Imperial.
Os Beatles nunca gravaram "Asa Branca", mas o cantor, Demis Rousso, ex-vocalista / baixista da banda de Rock, grega, "Aphrodite's Child (que aliás eu gosto muito e recomendo), gravou-a em sua carreira solo, com o singelo título em inglês assinalado como : "White Wings". Portanto, quem disse que um Rocker nunca gravou o Gonzagão ?
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie e posteriormente republicada no Blog Pedro da Veiga, ambas em 2013.