quinta-feira, 27 de julho de 2017

Blind Horse / Patagonia - Por Luiz Domingues



Nos tempos atuais em que vivemos, onde a qualidade musical passa ao largo da difusão cultural mainstream, artistas genuínos que prontificam-se a trabalhar mesmo sob condições inóspitas no que tange às oportunidades democráticas (digamos assim), merecem aplausos dobrados. Como se não bastasse a sua arte autêntica, feita com labuta e honestidade (longe dos esquemas arquitetados pelos marqueteiros e seus famigerados lacaios, os “formadores de opinião”), ainda ter que lutar contra uma máquina poderosa atrapalhando-os acintosamente, é mesmo uma luta inglória.

E se está ruim para artistas que militam na música em geral, o que dizer então dos Rockers que são marginalizados por natureza e mesmo quando num breve período da história da música no Brasil, refiro-me aos anos oitenta, o Rock teve uma certa notoriedade na difusão oficial, vamos ser francos, quem beneficiou-se na verdade fora um seleto grupinho de artistas escolhidos pelos marqueteiros de então, e na verdade rezando pela cartilha do Pós Punk em voga, portanto, “Rock” verdadeiramente não era...

Diante de tal panorama, quando vejo artistas lutando bravamente, lançando álbuns e tocando ao vivo da melhor maneira possível, visto que as oportunidades são muitas escassas também no campo das apresentações ao vivo, claro que animo-me e sinto esperança por dias melhores. Ao final de 2015, publiquei em meu Blog 2 uma entrevista com a super promissora banda carioca, “Blind Horse”, repercutindo o lançamento de seu primeiro EP “In the Arms of Road”. Leia ou releia essa entrevista : 

http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/search?q=Blind+Horse  

Foto promocional do Blind Horse por ocasião do lançamento de seu excelente LP, "Patagonia"

Recentemente, 2017, os rapazes lançaram seu segundo álbum, denominado “Patagonia” e demonstram o mesmo caldeirão de influências ótimas já mostradas no EP anterior e sim, revelam ainda maior consistência e amadurecimento do trabalho, embora o tempo transcorrido entre uma obra e a outra, seja relativamente curto. Com capa muito bonita e um trabalho de estúdio muito bom, salvaguardando a qualidade do áudio. A maioria das canções é cantada em idiomas estrangeiros (inglês em predominância e uma em castellaño), e apenas uma em português. Naturalmente que os rapazes apostam suas chances maiores no mercado internacional e relembrando tudo o que eu disse nos primeiros parágrafos, realmente não dá para criticá-los por isso. Se o mundo está maltratando a música neste século XXI em curso, imagine no Brasil onde todos os esforços são feitos para valorizar a subcultura e pior ainda, a anticultura de massa...

Portanto, fazer Rock com esse padrão de qualidade e comprometimento com assumidas influências tão boas do passado glorioso do gênero, já faz da obra e da banda, vitoriosas. Mas o disco vai muito além da hombridade artística e realmente destaca-se pela qualidade. Trata-se de seis faixas, o que em princípio caracterizaria um EP com duração mais curta, mas como não existe linearidade na metragem das canções, o disco tem duração longa, no padrão dos velhos LP’s. Sobre as faixas, muitos são seus atrativos.


“Patagonia”



Eis o Link para escutar no You Tube

https://www.youtube.com/watch?v=Is7DxWCSLy0


Na faixa de abertura, por exemplo, “Patagonia”, canção título do álbum, observa-se uma densidade sonora muito grande. Canção com quase 16 minutos de duração, mostra-se pesada, com troca de ritmos em seu decorrer, apresentando desdobradas, inclusive. Sua linha melódica primordial lembrou-me o estilo do Ronnie James Dio, com uma carga interpretativa dramática. E muitos solos inspirados de guitarra, além de um solo de sintetizador Mini Moog com timbre ultra setentista e remetendo aos melhores discos da carreira solo do tecladista britânico, Rick Wakeman (referindo-me aos seus álbuns onde foi menos sinfônico e mais Prog Rock tradicional, tais como “The Six Wives of Henry VIII”; “No Earthly Connection” e “Criminal Record”, por exemplo). Há de destacar-se igualmente a presença de um órgão Hammond com uso de Caixa Leslie rápida, muito bacana. Partes distintas propondo mudanças bruscas ficaram muito interessantes, inclusive com o uso de looping contínuo em alguns trechos, um recurso bem setentista e claro, muito salutar. Sobre influências, é o tal negócio, minha orientação pessoal é totalmente 1960 / 1970, portanto eu tendo a ouvir música fazendo associações com múltiplos artistas que conheço e aprecio, cuja época de atuação centrou-se nessas duas décadas citadas. Sei de antemão que a base primordial dos componentes do Blind Horse também é essa, mas existe igualmente conexão com sonoridades mais contemporâneas da parte deles e das quais eu nem consigo detectar, mas deduzo que existam. Por exemplo, nessa faixa, ouvindo suas múltiplas passagens, além do Ronnie James Dio já citado (e acredite, Dio para o meu conceito é “modernoso” e sua verve metálica, incomoda-me...), pensei em bandas de searas diferentes, como : “Camel”; “Beggar’s Opera”; “Caravan” e até o “Curved Air”. Em partes mais lentas, a lembrança do “Nektar” também ocorreu-me, mas como já disse, sei que os rapazes também tem suas influências modernas, portanto, não descarto que suas inspirações versem nesses termos. Ao final, uma improvável incursão ao Funk-Rock levou-me direto à lembrança da “James Gang”, com o grande Joe Walsh swingando para valer na sua guitarra.


“Stun Bomb Blues”


Eis o Link para escutar no You Tube:



Na faixa seguinte, é inevitável haver uma constatação em relação à primeira. Após uma faixa longa, com densidade e intensidade , temos em “Stun Bomb Blues”, uma antítese. Trata-se de uma faixa curta, uma vinheta praticamente, e mais inusitado ainda, uma performance solo do vocalista, “a cappela”, com a voz bem processada no áudio. E mostrando força interpretativa, parecendo quase um monólogo de ator dramático. Muito interessante.


“Rock’n Roll Me”



Eis o Link para escutar no You Tube :



Chega a terceira faixa, “Rock’n Roll Me”, com uma dose setentista fortíssima. Lembrou-me o som vigoroso do "Thin Lizzy", misturando influências diferentes e até díspares, tais como o “Cactus”, principalmente em se considerando a linha melódica primordial da canção. Uma parte com acentos fortes chamou-me a atenção, por um detalhe que tende a passar despercebido, mas eu achei muito bonito. Ao acentuar junto, na campana do seu prato Ride, o baterista foi muito criativo e feliz pelo timbre extraído.


“Noite Estranha”



Eis o Link para escutar no You Tube :



A faixa seguinte, “Noite Estranha”, é a única cantada em português e começa de uma maneira bastante instigante, ao evocar o cinema nacional marginal, Rogério Sganzerla na veia, graças a uma locução extraída de seu filme, “O Bandido da Luz Vermelha”. Ouvir um diálogo de 1968, travado entre os personagens protagonizados pelos atores Helena Ignes e Paulo Villaça já chamaria a atenção por si só, mas o fato é que a música é muito boa, lembrando bastante o trabalho do "Deep Purple" em seus melhores dias, com riffs fortes, tendo a atuação da guitarra pontuando com notas isoladas e não necessariamente com acordes, uma marca registrada do Ritchie Blackmore, realçando a ideia do Purple como influência, e reforçando, o órgão Hammond atua bastante, igualmente e com Jon Lord no pedaço, o púrpura profundo acentuou-se.


“Soul Locomotive”



Eis o Link para escutar no You Tube :



A quinta faixa, chama-se “Soul Locomotive” e aí o blues chegou, que beleza...

Recentemente (2017), um guitarrista desses virtuoses do mundo do Heavy-Metal declarou que ao perder o elo com o Blues, o “Metal” degringolou. Eu já penso bem diferente e acho que o metal (com o perdão aos amantes desse gênero e dos quais tenho muitos amigos), pouco tem a ver com o Rock e na verdade, esse rompimento de elo já começou décadas atrás com ele mesmo e o Punk Rock. Mas a declaração desse músico norteamericano, tem um fundo de verdade, no sentido de que todo o sentido do Rock está no Blues e quanto mais distanciamo-nos de sua raiz, mais vamos maltratando o Rock ou arremedo de Rock, como temos visto nos dias atuais.

Mas o Blind Horse, valentemente encara essa missão e vai buscar ali no trilho do trem, nas estações ferroviárias cantadas em verso e prosa pelos velhos bluesman do passado, essa verdade, e claro que isso emociona. Não é exatamente uma pegada de blues clássico, os rapazes incorporam modernidades, mas em nada desabona o resultado final que é muito bom. De início, um riff pontuando uma escala que chega a lembrar melodias nipônicas, dá um toque inusitado, até. Mas isso é rápido e o que predomina é a intenção calcada no Blues-Rock. Uma desdobrada muito bonita, recordou-me o som do guitarrista Robin Trower em seus discos solo, com longas intervenções baseadas no "Slow Blues", porém com pegada "Hendrixiana". Gostei novamente das intervenções do órgão Hammond e a voz com efeito de eco distante. O uso de vibrato e outros efeitos em intervenções pontuais de guitarras sobrepostas, também agradou-me, certamente. Uma segunda desdobrada na música com um solo muito inspirado, lembrou-me a veia Bluesy do "Pink Floyd", quando a banda flutuava para David Gilmour fazer a sua Fender Stratocaster chorar, e o Blind Horse conseguiu tal resultado semelhante, não tenho dúvida.

E ao final, uma intervenção de áudio traz um cântico muito bonito, evocando o Blues remoto da raiz mais profunda, aquele autêntico coro dos escravos nos campos de algodão, transmutando sua dor e humilhação em arte in natura, e muito bela, apesar de melancólica.


“Los Heraldos Negros”



Eis o Link para escutar no You Tube :



Mais uma surpresa ao final, o disco encerra-se com outra faixa curta (“Los Heraldos Negros”), destoando das longas digressões das faixas de maior duração. É impossível não pensar-se no “The Doors” como inspiração, pois a banda faz uma base contínua, mezzo blues / mezzo psicodélica (o órgão com timbre de Farfisa ou Vox, traz o elemento psicodélico, sem dúvida), enquanto um poema declamado quase de forma monocórdica, é puro Jim Morrison. A letra em castellaño é oriunda de um poema de autoria de César Vallejo, autor peruano, sendo um dos mais importantes poetas latinoamericanos do século XX, e certamente que ao musicar tal poema com esse quilate, o Blind Horse lembrou-me a contundência de artistas da seara do “Folk Protest Song”, latinoamericano, como Mercedes Sosa e Violeta Parra. Tal poema é também título de um livro de César Vallejo, lançado em 1919, portanto, mais um ponto muito positivo do Blind Horse para esse disco, ao trazer uma obra poética da mais alta relevância. E tudo a ver com a expressão do sofrimento nos campos de algodão, não resta dúvida de que existe uma conexão sutil nesse texto do poeta peruano. Muito interessante trazer essa peça tão diferente do bojo do álbum, para justamente encerrá-lo, fugindo do esperado.

Sobre a performance individual dos componentes, só elogios. São músicos de alto gabarito, criativos e muito técnicos. Isso reflete-se também na produção do áudio do disco, privilegiando os timbres vintage, compatíveis e imprescindíveis eu diria, em se considerando as ótimas influências que eles carregam na sua formação pessoal.

Portanto, no cômputo geral, eis aí uma banda que confirma as ótimas expectativas geradas quando do lançamento de seu primeiro EP e indo além, avança, mostrando desenvolvimento nítido.


Gravado e lançado em 2017. Produzido por Sergio Filho no Mitinga Studio, na cidade de Barra de São João / RJ.


Formação do Blind Horse nesse álbum :
Alejandro Sainz : voz, violão e gaita
Rodrigo Blasquez: guitarra e backing vocals.
Eddie Asheton: baixo e backing vocals.
Maicon Martins: bateria


Músico convidado:  Ronaldo Rodrigues : teclados

Capa : criação e lay out final : Alejandro Sainz
Foto da capa: Eliseo Miciu


Uma versão do álbum na íntegra, não do canal oficial da banda, mas certamente com sua aprovação :


Eis o link para escutar no You Tube :




Contatos com a banda :


Site oficial :



Página do Facebook :



Canal do You Tube :



Bandcamp :
https://blindhorse70.bandcamp.com/album/patagonia

sábado, 8 de julho de 2017

Marcenaria (1º Álbum) - Por Luiz Domingues



Os tempos atuais são tão desoladores no âmbito cultural em geral no Brasil e no mundo, que chega a causar estupefação que ainda haja artista que empenhe-se em perpetrar obras com substância artística inquestionável e nesse caso, agrega-se um fator a mais a enaltecer-se : a incrível resiliência que demonstra ter, com tal determinação.


É o caso do sexteto “Marcenaria”, que produz um som de extrema complexidade e baseado num caldeirão tão vasto de boas e diferentes influências, que torna o seu trabalho, um verdadeiro exemplo de que ficar nos lamentos pelas redes sociais, em nada ajuda-nos a vencer a guerra contra o baixo astral do show business dominado por gente deliberadamente comprometida com a subcultura, anticultura e afins. O negócio é dar apoio a quem está trabalhando firme, mesmo sem respaldo algum dos grandes meios de comunicação e mesmo assim, mostrando seu valor, que é muito grande, caso dessa banda. Ecléticos e polivalentes, os componentes do Marcenaria são todos multi instrumentistas com extrema destreza nos muitos instrumentos que tocam, cada um, e diga-se de passagem, eles também mantém trabalhos paralelos com outras bandas de carreira (o ótimo “Cosmo Drah”, é um exemplo) e trabalham como side man de artistas importantes.

Neste seu primeiro trabalho fonográfico, o Marcenaria transborda sua musicalidade riquíssima em todas as faixas, fazendo uma amálgama forte entre a urbanidade, e as tradições rurais do Brasil. As músicas interligam-se, sem que no entanto o disco seja assumidamente conceitual ou no formato “ópera”, mas simplesmente a conexão existe e tudo é reforçado pelo apoio de um esmerado trabalho gráfico que mescla o conceito “Comics” ou História em Quadrinhos, melhor dizendo. Não trata-se de nenhuma novidade estética, muitos artistas já usaram desse expediente anteriormente, basta uma rápida consulta aos registros na história do Rock, contudo, não vejo mal algum em reutilizar-se o mesmo recurso e basta usar de criatividade para deixar a marca pessoal, e é o que acontece nesse trabalho, com ilustrações de qualidade e texto amarrado inteligentemente, usando as letras das canções.

Sobre o nível instrumental dos componentes, qualidade das canções e sofisticação dos arranjos, sob esses parâmetros citados, é altíssimo. Não surpreendeu-me em nada, já esperava por isso quando recebi o disco em mãos, e como se não bastasse tal fato, ainda fazem vocalizações em harmonia muito sofisticadas, ou seja, algo muito fora do padrão do que ouve-se no mundo mainstream das emissoras de rádio FM ou na televisão e devo observar, ainda bem ! Os rapazes não estão nem aí para os padrões da música pasteurizada que os marqueteiros determinam que o povo vá ouvir. Maravilha, a preocupação é fazer arte e eles cumprem seu objetivo com galhardia e devo acrescentar, hombridade artística.

Sobre as faixas, são 12 canções muito intensas, apresentando sofisticação musical ímpar, belas harmonias; além de melodias e letras buscando signos do folk brasileiro (entenda isso pelo sentido amplo do termo “Folk”), misturando à urbanidade / modernidade das grandes metrópoles.

Em “Intro”, as convenções com acentos mostram força logo no início. Gostei muito das trocas de ritmos e fórmulas de compasso, mostrando destreza instrumental. A brasilidade evocada é nítida e lembrou-me bastante os bons momentos do “Som Imaginário” de Wagner Tiso & Cia., de outrora. Hermeto Pascoal creio que também encaixar-se-ia como influência. Vocais em harmonia muito bonitos e o som de viola caipira passeando com os sopros intermitentes, são muito ricos. E fora o fato de que frases agressivas executadas por guitarra, baixo e bateria, com instrumentos de sopros cortando tudo em passeios assim, são puro Prog Rock, na tradição de bandas como o "Gong" e "Van Der Graaf Generator", entre outras que usavam tal prerrogativa, certamente 

A faixa seguinte, “Meio Tom Acima do Chão” tem muita inspiração na dita psicodelia nordestina dos anos setenta. Não obstante o fato de evocar Lula Cortes, tem elementos sofisticados que muito lembram o Jazz fusion brasuca de Egberto Gismonti, pleno de brasilidades e virtuosismo. As intervenções de sopros são belas ao extremo, garantindo um colorido ininterrupto, como se uma revoada monumental de pássaros coloridos passasse pela janela enquanto ouvimos a faixa. Gostei muito de um solo de guitarra ao estilo “backwards” que é executado sobre uma batida tribal e linha de baixo num “looping” meio caribenho. E o parte final vai para a quebradeira total (ótimo !). Chamou-me a atenção um trecho da letra : 

“Lei de Newton, debaixo da castanheira, um banzeiro na minha cabeça... as vezes pareço andar meio tom acima do chão”...


Acho que uma imagem assim espelha bem a proposta da banda em buscar a poética das raízes, sob o viés da amálgama urbana.

Em “Guarânia”, trata-se de fato de desse gênero musical sulamericano / paraguaio / guarany, mas claro, sob uma sofisticação instrumental que a faz mais parecer uma música do "Jethro Tull", tamanha a profusão de detalhes e pegada Progger Rock. Gostei muito do solo de flauta, executado por Claudia Rivera, uma instrumentista convidada especial da banda.

E a letra / linha melódica e também interpretação, eu diria, tem uma lembrança forte do trabalho do Zé Rodrix, a meu ver, bem daqueles discos solo dele dos anos setenta, que se o leitor nunca ouviu, conclamo-o a procurá-los no You Tube. É aquele toque de urbanidade que o saudoso Rodrix tão bem sabia dar no seu recado e o Marcenaria parece ter recuperado, ainda bem.

A faixa “Vire o Disco !” tem na sua proposta uma crítica ácida, mas muito pertinente à inércia da atual juventude. Todo mundo com olhos e dedinhos que não desgrudam dos celulares, mas de conteúdo bom que tal interação sócio tecnológica poder-se-ia resultar, nada, absolutamente nada !! E nesse deserto de ideias, chega a ser indecente termos tanta tecnologia disponível para que a imensa maioria fique hipnotizada por futilidades múltiplas. Portanto, a metáfora proposta pela letra é muito boa, ao utilizar a imagem do velho disco de vinil e sua inevitável necessidade gerada de obrigar o ouvinte a vira-lo na pick up, a cada término de lado executado.


“É hora de virar o disco, esse lado já se acabou. Levante o corpo do sofá e o braço da vitrola”.


Muito boa a mensagem, faça alguma coisa edificante, senhor "abduzido" das redes sociais...

Musicalmente, essa faixa fez lembrar-me bastante o som da banda Prog Rock brasileira dos anos setenta, “Terreno Baldio”, pela mescla de virtuosismo instrumental "Progger", com brasilidades. Sopros e violas caipiras passeiam o tempo todo.

A faixa seguinte, “O Trem” tem um sabor Blues, todavia pelo viés de um “quase” reggae. A proposta da letra lembrou-me o Zé Ramalho de seus mais inspirados trabalhos e um solo de guitarra, de arrepiar, trouxe o elemento Rock com muita força.

Bruxismo”, tem fortes elementos do Jazz-Fusion, lembrando-me inicialmente o trabalho do “Weather Report”, mas como a pegada dos rapazes é de Rockers, acredito que soe mais Jazz-Rock, algo na linha do “Soft Machine”. Admirável a quebradeira ao longo das mudanças bruscas no tema. Tem algo de experimental bem na tradição dos compositores malditos da MPB setentista, bem naquela predisposição nonsense de artistas como Tom Zé; Jards Macalé & Walter Franco, com direito a intervenções de vozes e risadas. Muito bom, meninos, sabemos desde os anos setenta que loucura pouca é bobagem.




Teste de Viola” é um tema instrumental e parece que o “Captain Beyond” foi tocar com violeiros caipiras, tamanho o peso Hard-Rock (em alguns trechos) e uma tremenda performance da viola. Um longo interlúdio, pleno de climas dá espaço para os solos.


Fusa Roceira” tem uma base harmônica bastante sofisticada, com ótimos vocais em harmonia, percussão criativa e lembrou-me bastante os primeiros trabalhos do Alceu Valença, quando este era menos “pop” e mais instigante como artista, eu diria. As intervenções de guitarra ao final, lembraram-me o som cerebral de Robert Fripp e gostei muito do final épico, que despertou-me a lembrança da sofisticação do “Wishbone Ash”. Bacana o piano, incluso.


“Pessoas de alumínio e cobre, presas de jacaré e pedra. Só para descobrir. Mais um ponto do encerado pra eu arrochar. Mais um ponto do mistério pra eu descobrir”...


Uma letra que deixa bem clara a dicotomia da visão da vida moderna, pelo viés da sabedoria caipira. A pensar-se...

A canção “Chuva”, traz efeitos muito interessantes no seu início. Gostei da onomatopeia que fez-me recordar de uma linhagem melódica da MPB, que simplesmente não existe mais e até meados dos anos 1960, era ouvida em profusão no rádio e na TV. Gostei bastante da linha de bateria e baixo, com um sentido de preenchimento de espaços muito criativo. Fora as múltiplas convenções super técnicas. Tem climas jazzísticos acentuados, igualmente.


Na canção “Rinha de Galo”, a proposta é aparentemente mais regional, com acordeon, mas o Marcenaria não abre mão de seu esmero instrumental e logo entram elementos experimentais diversos. Gostei muito de uma desdobrada proeminente, e logo a seguir, um solo de guitarra ultra anos sessenta, que dá a impressão que Randy California ou Jorma Kaukonen foram trazidos por uma máquina do tempo, direto do palco do Fillmore West, de San Francisco em 1968, para o estúdio. Muito legal. Ótimas as convenções finais e com o belo solo de sax, dobrado.

Na faixa seguinte, “Camping de Noel”, é muito clara a semelhança com os trabalhos mais experimentais / psicodélicos dos primeiros discos dos Mutantes, com direito à robustez dos arranjos do maestro, Rogério Duprat. Mais uma vez, as vozes fazem um belo trabalho em harmonia.


A última canção do álbum tem um título conclusivo : ...”Mas no Final”..., uma ideia interessante, sem dúvida em dar ao ouvinte, um norte do que pretendem, com a obra. Na letra, fala-se :


“Olhou para si, olhou para o céu. E se pôs a lembrar tudo o que aconteceu quando então saiu de si em sua Marcenaria”...


Muito bacana dar essa opção para que o ouvinte faça de sua auto reflexão um mergulho, cada qual em sua “marcenaria”, ou seja, sua própria vida. Pela metáfora da oficina e das ferramentas todas à disposição para a livre manipulação e criação de seu caminho / obra / vida.


Sobre a sonoridade dessa canção, soa como um baião bastante sofisticado e com elementos no arranjo que muito recordou-me o som do “Ave Sangria”, uma banda nordestina dos anos setenta, infelizmente pouco citada, mas muito relevante. O final da canção tem mais uma vez um sabor “Van Der Graaf Generator”, muito bonito, a meu ver.

O Marcenaria é formado por Anderson Ziemmer (voz; guitarra; clarinete e percussão); Augusto Miranda (voz; guitarra; viola caipira; violão e flauta transversal); Bruno Costa (sax soprano e tenor); David Forell (voz e bateria); Elton Amorim (baixo; violão; acordeon; piano e viola caipira); Paulo Costa (voz; clarinete baixo; clarinete soprano; sax tenor e percussão).


Além da versatilidade da banda, ainda convidaram músicos para colaborar, casos de Claudia Rivera (Flauta Transversal); Clara Andrade (percussão) e Renato Amorim (guitarra).

Gravado no estúdio X, com Giorgio Karatchuk na operação do áudio; Thiago Nacif na mixagem e André Ferraz na masterização. Criação e lay out final de capa e encarte por Augusto Mendonça. Produção executiva por Marcelo Spindola Bacha. Selo : Melômano / Rock Company.



No cômputo geral, trata-se de um álbum com excelente áudio; é moderno, com pressão e definição, mas apresentando timbres bastante próximos de uma sonoridade mais “vintage” (viva !!). A qualidade musical da banda impressiona muito, tanto no nível instrumental quanto vocal, além da elaboração de arranjos sofisticados e letras com poética muito além da pasmaceira pasteurizada da música mainstream dos tempos atuais de 2017.

Contato direto com a banda, via E-mail : 


O Site oficial da banda :

https://www.bandamarcenaria.com

Eis abaixo, o álbum na íntegra para o leitor conhecer esse trabalho :

O Link do álbum na íntegra, no You Tube :

Facebook :

https://www.youtube.com/watch?v=7ab_px8fAOY