sábado, 30 de junho de 2012

Filme : Easy Rider (Sem Destino) - O Filme que Tornou-se um Mito - Por Luiz Domingues




Peter Fonda é filho de um tremendo ator hollywoodiano, chamado : Henry Fonda, este com vasta e destacada filmografia e irmão de Jane Fonda, simplesmente a chamada resposta yankee à beleza estonteante da atriz francesa, Brigitte Bardot, na década de sessenta. Peter estava também empenhado em ser ator e tinha talento para tal, mas em seu íntimo, fugia do padrão tradicional da indústria, onde o pai era consagrado e a irmã, a nova aposta pós-Marilyn Monroe, como sensação sexy. Ao enveredar por caminhos alternativos, conheceu pessoas interessadas em cinema de arte; música e literatura. Foi assim que também conheceu jovens atores que pensavam igual e queriam fugir dos paradigmas da indústria do cinema tradicional de hollywood. E assim, ao lado de figuras como : Bruce Dern; Jack Nicholson e Dennis Hopper entre outros atores / freaks, encontrou a sua turma de atores alternativos e simpáticos à contracultura.
Em 1967, filmou : "The Trip", um ousado filme, cujo tema foi o  LSD, em questão, sob a direção de Roger Corman, e com o seu amigo e igualmente "Freak actor", Bruce Dern no elenco. E assim, em dada ocasião durante as filmagens, do filme "The Trip", tirou uma foto descompromissada ao lado de Dern, perto de algumas motocicletas. Quando a viu revelada, ficou impressionado com a imagem, pois a luminosidade obscurecera-lhes as feições faciais e dessa forma, ambos pareciam dois vultos em meio às motocicletas, distorcidos, sem identidade.
Essa foto provocou-lhe uma epifania imediata a motivá-lo a produzir um filme baseado nessa ideia, onde dois motociclistas sairiam a viajar juntos, mas sem que a sua identidade ou histórias pessoais tivessem muita importância no contexto do roteiro. Essa foi a motivação primordial para criar : "Easy Rider" ("Sem Destino", em português), que seria filmado no início de 1968, e lançado em 1969, com um impacto gerado, que ele jamais imaginaria anteriormente, ser possível alcançar.
A história mostra dois motociclistas que contrabandeiam drogas do México e ao vende-las pelos Estados Unidos, saem a rodar sem compromisso com nada, a não ser gastar o dinheiro, e aproveitar a liberdade através da estrada e certamente pelas oportunidades geradas para que divertam-se pelos lugares que visitam. Caracterizou-se aí, o elemento Beatnick em sair a esmo, sem vínculos com o sistema, mesclado à liberdade total, proposta como um ideário do movimento Hippie. Portanto, formatou-se um "road movie", como costumou-se rotular, doravante. Para tal empreitada, convenceu o seu amigo, Dennis Hopper a dirigir, e assim, acumular uma dupla função, pois Hopper, outro "Freak actor" contumaz, também atuaria como coprotagonista.

Peter Fonda vive Wyatt, codinome "Captain America", e Dennis Hopper, faz Billy. Logo no início, fazem negócio com um traficante (identificado apenas como "Connection"), interpretado pelo produtor musical e ator improvisado, Phil Spector (inacreditável essa aparição, por sinal !), na cabeceira do aeroporto de Los Angeles (LAX). Dali em diante, caem na estrada, ao passar por vários lugares, divertir-se e envolver-se em diversas confusões.

Vão parar no Mardi Gras de New Orleans. Conhecem mulheres (Karen, interpretada por Karen Black, e Mary, vivida por Toni Basil), e passam a dar carona para um advogado ébrio (George Hanson), interpretado por Jack Nicholson (também da confraria dos atores comprometidos com a contracultura). As viagens motivadas pelo uso de ácido lisérgico; maconha e outras drogas, embalam a aventura de ambos, com cenas antológicas e alimentadas por uma trilha sonora esplêndida.
Ao final, uma cena de tirar o fôlego, quando ambos são assassinados fria e gratuitamente por um caipira chucro que resolveu eliminá-los a esmo, só por não gostar de hippies. Metafórico, mas praticamente explícito, ao simbolizar o establishment e o seu desejo implícito em varrer do mapa o movimento hippie.  A interjeição : "-Hey, Hippie".. e o estampido da espingarda, resumem o sentimento da reação.
Quando iniciou o processo pela captação de recursos para realizar o filme, Dennis Hopper pediu ao amigo, Jack Nicholson, que intermediasse junto ao seu conhecido, Bert Schneider, sócio-proprietário da produtora independente, "BBS Productions", que estava acostumada a trabalhar em produções em parceria com a Columbia Pictures, uma facilitação no processo para tal produção prosperar. Schneider gostou do projeto e colocou quatrocentos mil dólares na produção. Jack Nicholson tornou-se o produtor do filme e às vésperas das filmagens, o ator, Rip Torn, desistiu de atuar e Nicholson foi convencido pelos amigos a assumir o personagem, George Hanson. O que ele nunca poderia imaginar, é que através de um filme munido por um orçamento modesto e destinado a ser obscuro no circuito comercial, seria alçado à condição de astro, com direito a várias indicações de prêmios, inclusive o Oscar, fora a consagração no Festival de Cannes, onde o filme foi aplaudido de pé.
O estrondo foi tão grande que aqueles quatrocentos mil dólares investidos na produção, retornou em torno de dezessete milhões de dólares, somente a contar com os recursos provenientes da bilheteria. Peter Fonda e os demais, nunca esconderam de ninguém que filmaram sob o efeito de drogas e isso é nítido, evidentemente. A despeito de ser ótimos atores, estavam mesmo alterados em sua constituição em termo s de estado alterado de consciência e dessa forma, o caráter realista da interpretação, ficou impregnado no celuloide.
A trilha sonora é fantástica. Nunca é demais afirmar que a música "Born to Be Wild", do Steppenwolf, tornou-se um verdadeiro hino entre os motociclistas, graças ao filme. E com nomes como : The Byrds; Roger McGuinn; Bob Dylan; Jimi Hendrix; The Electric Prunes, e Fraternity of Man, entre outras feras do Rock; Blues & Folk sessentista, a parte musical é um luxo. Aliás, cabe acrescentar que a magnífica canção : "The Weight" da The Band, entrou na trilha, mas na hora de sair o LP com o soundtrack do filme, teve problemas com a editora / gravadora e sendo assim, outro artista foi chamado ao estúdio para regravá-la, o Smith.
"Easy Rider" / "Sem Destino", tornou-se icônico, referência contracultural e também como cinema de arte, ao dar margem a múltiplas interpretações sobre os seus aspectos metafóricos. Teses abundam por aí, desde 1969, ao analisá-lo minuciosamente e sob diversas visões. Trata-se sim, de um filme feito despretenciosamente, que ganhou uma importância seminal, e por que não dizer, ao escapar de qualquer expectativa, por mais otimista que fosse por parte dos envolvidos nessa produção (notadamente os atores freaks : Hopper; Fonda; Nicholson e mais à distância, Dern), todos simpáticos à contracultura e sempre dispostos a subverter os códigos estéticos conservadores da indústria hollywoodiana.
Caso o leitor não o tenha visto ainda, e é normal que as novas gerações não tenham tido essa oportunidade, o meu conselho é : vá imediatamente procurá-lo na internet, ou locadora mais perto de sua casa. E fique atento, pois costuma ser exibido com relativa frequência em canais de TV a cabo, especialistas em filmes alternativos.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Os Múltiplos Talentos de Ignácio de Loyola Brandão - Por Luiz Domingues

Quando o talento é nato, basta que não haja empecilhos na vida, para que deslanche-se. Parece uma frase solta, extraída de um livro de autoajuda qualquer e embora tenha um fundo de verdade, não é só isso que conta no cômputo geral. Esse é o caso do escritor; cronista; jornalista; roteirista de cinema & teatro e editor, Ignácio de Loyola Brandão.
Nascido na bela cidade de Araraquara, no interior de São Paulo e tal localidade é conhecida como a "Morada do Sol", desde pequeno, Ignácio mostrou que tinha o dom da escrita, ao redigir em um caderno escolar, o seu primeiro romance, "Dias de Glória" (1946), um conto policial ambientado em Veneza. Não demorou muito e o cinema arrebatou-lhe. Passou a frequentar com assiduidade o cine-clube de sua cidade, e assim tornou-se um crítico informal, ao publicar resenhas sobre os filmes que assistira, em um pequeno jornal, onde despertou a atenção do maior jornal local, apesar da sua pouca idade na ocasião.

Interessado em entender todo o processo de produção de um periódico, aprendeu também técnicas gráficas. E para expandir os seus horizontes jornalísticos, acumulou, além da crítica de cinema, a coluna social e reportagens gerais, com direito a entrevistas. Daí em diante, foi uma questão de (pouco) tempo para mudar-se para a capital paulista, onde foi contratado para trabalhar no jornal : "Última Hora".
Aí entra o elemento a mais, que eu citei logo nos primeiros parágrafos, ou seja, não basta ter talento e sorte, mas o ímpeto, a iniciativa e a capacidade para antever a oportunidade, que também contam. E foi em um dia comum que o editor berrou na redação do jornal : "-Alguém aí fala inglês com fluência" ?
O repórter Ignácio não pestanejou e apresentou-se. E lá foi com o seu inglês muito incipiente, aprendido parcamente no curso ginasial e reforçado por expressões decoradas em filmes norteamericanos que tanto assistiu, para entrevistar o irmão do presidente norteamericano, Einsenhower, que encontrava-se em São Paulo. No dia seguinte, a entrevista foi destaque com manchete na capa...
E o mesmo deu-se com o idioma francês, onde passou a entrevistar, mesmo tendo só o francês básico da escola pública e o apoio dos filmes e das leituras do Cahiers du Cinema, a super famosa revista francesa de cinema. Ignácio tanto infiltrou-se no meio, que foi figurante no clássico : "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte e assim, nunca mais deixaria de ter essa estreita ligação com o universo do cinema, ao colaborar inclusive com a roteirização de duas histórias suas que foram adaptadas para a grande tela :
"Bebel, a Garota Propaganda" (de Maurice Capovilla / 1966), baseado em seu conto, "Bebel que a Cidade Comeu" e "Anuska, Manequim e Mulher" ( de Francisco Ramalho / 1969), baseado no seu conto : "Ascensão ao Mundo de Annuska".


O seu primeiro livro foi lançado em 1965, denominado : "Depois do Sol".

Assume posteriormente, o posto de redator da revista "Claudia", onde rapidamente vem a tornar-se o editor-chefe. E sob uma época marcada por fortes transformações sócioculturais, foi o sujeito certo no lugar certo, ao fornecer um novo impulso à linha editorial de uma revista feminina anteriormente bastante engessada em paradigmas antigos sobre o universo feminino.

No início dos anos setenta, surgiu-lhe um novo desafio : a tradicional revista francesa, "Planète", anuncia o lançamento da sua versão brasileira, e ele foi o seu primeiro editor. Nasceu então a revista "Planeta", em 1972, um sucesso no segmento do esoterismo / ocultismo e que existe até hoje, solidificada no mercado. Trabalha também nas revistas "Realidade" e "Setenta".
Da sua ligação de amizade com o dramaturgo, Plínio Marcos, nasceu a ideia de um conto, que após modificações por conta do momento político brasileiro, leia-se "censura", finalmente foi publicado. Em 1975, surgiu então : "Zero", a sua obra mais impressionante. A história fictícia (fictícia ?) de um cidadão comum a viver em uma sociedade violenta e sob uma ditadura ferrenha. Claro, mesmo com a censura, o recado estava dado e o romance estourou, ao tornar-se uma referência para artistas; intelectuais e universitários insatisfeitos com o regime autoritário vigente.
Ao perceber a repercussão, o Ministério da Justiça do governo Geisel, o proibiu, ao tratar de retirá-lo das livrarias. Mas o estrago libertário já estava feito e a emenda ficou pior que o soneto para o governo, pois o romance já estava na ponta da língua de todos que ansiavam pelo seu fim. Em 1979, a aproveitar os ventos da "anistia ampla; geral & irrestrita", o livro foi liberado novamente.
Nos anos oitenta, Ignácio lançaria outro romance com teor político, chamado : "Não Verás País Algum", muito elogiado e premiado, tal como "Zero". Viveu posteriormente, por um bom período em Berlim, onde enviara crônicas muito interessantes e publicadas em diversos jornais brasileiros e continuou a escrever os seus contos e romances. Lançou : "O Verde que Violentou o Muro", em 1984, ao narrar as suas impressões sobre o cotidiano berlinense.
Lançou outros livros a seguir, e no início dos anos noventa, retornou enfim ao jornalismo, como editor da revista : "Vogue". Em 1993, passou a escrever as suas crônicas no "Jornal da Tarde" e logo a seguir, no Caderno 2, d'O Estado de São Paulo.
Em 1996, teve um tremendo susto. Acometido de um mal-estar súbito, descobre no hospital que tem um aneurisma cerebral. Após uma longa (onze horas !) cirurgia, restabelece a saúde, mas muda muito a sua visão da vida, ao pensar em aspectos que não levara em consideração antes de passar pela iminência da morte, e isso reflete-se em suas crônicas, onde passou a falar abertamente sobre tais mudanças. Enfim, são muitos livros; participações em cinema e teatro; crônicas; trabalho jornalístico de muita qualidade e sobretudo marcado pelo ecletismo do autor.
Particularmente, tornei-me fã de sua escrita, por ler as suas crônicas publicadas em um prosaico jornal de bairro, onde foi colaborador por muitos anos. Só depois de algum tempo, fui tomar conhecimento de sua carreira como escritor. E também pela sua atuação como editor da revista, "Planeta", onde imprimiu ao meu ver, a melhor fase dessa publicação, com uma linha editorial instigante para os interessados em tais assuntos ligados ao ocultismo em geral. Hoje, a revista parece adotar mais uma linha em defesa do ambientalismo, tão somente, da qual não aprecio com a mesma veemência.
Entre tantas crônicas suas, geniais que eu li, por tantos anos no jornal de bairro, gratuito : "Shopping / City News" e posteriormente no "Jornal da Tarde" e no "Estadão", recordo-me de uma em especial, onde relatou a sua rotina cotidiana e de onde extraía ideias para as suas crônicas; contos e romances.
É simples, exatamente como deve ser : ao invés de tomar o café da manhã em sua casa, Ignácio vai até a padaria da esquina. Enquanto alimenta-se, apenas ouve as conversas ao seu redor... e
que manancial maior pode existir para um cronista atento ?
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, e republicada no Blog Pedro da Veiga, ambos em 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

MUG, Febre de 1966 - Por Luiz Domingues


A publicidade brasileira nos anos sessenta ainda mantinha uma boa dose de ingenuidade, ao não projetar oportunidades mercadológicas provenientes de seus golpes (no bom sentido do termo), sem dúvida. Não fosse por isso, os senhores, Horácio Berlinck Neto e João Evangelista Leão, criadores do boneco "MUG", no ano de 1966, teriam enriquecido da noite para o dia, tamanha a febre que isso gerou.
Criado para ser um mero apoio publicitário à uma grife de roupas da época, o boneco ganhou ares de um talismã, quando diversos artistas da MPB começaram a espalhar o boato de que o boneco MUG seria um protetor de ambientes e trazia boa sorte ao seu dono.

Imediatamente, artistas como Chico Buarque de Hollanda e Wilson Simonal forjaram declarações em apoio, publicadas em diversas reportagens de jornais e revistas, para exprimir sobre isso e... "boom", tornou-se uma febre epidêmica, com todo mundo a desejar ter o MUG em casa ou pendurado no retrovisor do automóvel. Outros artistas e personalidades puseram-se a engajar-se nessa ação, que ganhou ares de uma autêntica mania nacional.
O boneco em si era feio em demasia. Tratava-se de uma espécia de estilização de um troglodita a apresentar um corpo desproporcional e a usar um figurino de tecido xadrez que remetia à Escócia, de certa forma. Lembro-me que chegou a ser publicado em reportagens em jornais e revistas, dicas para fazer o boneco artesanalmente, e assim, talvez aí tenha residido a falha dos criadores em não ter sabido explorar convenientemente a sua venda exclusiva, mas convenhamos, nos anos sessenta, pouca gente pensaria nessa hipótese.
No LP "Vou Deixar Cair", de Wilson Simonal, há uma menção curiosa ao boneco, para reforçar a febre e segundo dizem, na letra da música "A Banda", de Chico Buarque, também existem menções subliminares (onde ? quem souber, que poste um comentário abaixo com a explicação, por favor).

E teve também o caso do assalto de um carro do Chico, onde ele lamentou o fato do boneco ter ido junto, a causar repercussão essa declaração. E talvez, tenha sido uma ação precursora das famigeradas : "Fake News". No meu caso pessoal, sim, o meu pai teve um MUG pendurado no retrovisor do carro da família, mas o boneco partiu, assim que carro foi vendido a um estranho.
Adoraria ter de volta essa curiosa relíquia que gerou essa febre toda, mas do mesmo jeito que surgiu, o MUG sumiu, sem deixar vestígios. Logo que entrou o ano de 1967, ninguém mais falou sobre o MUG, que entrou dessa forma, para um melancólico ostracismo eterno.
É raro ver hoje em dia, conhecer alguém que lembre-se dele, mesmo que tenha recordações pessoais marcantes do ano de 1966. No meu caso, ficou na memória, pois o associo imediatamente àquele ano, e apesar de eu ter tido apenas seis anos de idade nessa época, asminhas sinapses cerebrais associam-no a vários fatos desse ano. Eu lembro do MUG e logo vem à cabeça os Beatles Cartoons; o Festival de MPB da TV Record; o LP Rubber Soul dos Beatles; Thunderbirds; Jonny Quest; e Lost in Space...
Ou seja, que saudade de 1966...

domingo, 24 de junho de 2012

Filme : Chappaqua (Almas Entorpecidas) - Por Luiz Domingues

Conrad Rooks foi um menino norteamericano privilegiado, pois apesar de ter nascido em 1934, a sua família não sentiu os efeitos da grande depressão, direto na pele. Aliás, foi baseado pelo fato de sua família vender produtos criados para o tratamento da pele, que ele nasceu em um berço de ouro, pois era filho de Russell Rooks, um dos donos da indústria de cosméticos, Avon.
Mesmo tendo um futuro delineado como herdeiro e possível executivo da indústria gerida pela família, desde cedo interessou-se por cultura; literatura, cinema e música, principalmente.
Influenciado fortemente pelos escritores e poetas da geração Beat, assim que chegou à idade adulta, caiu na estrada como sugeria Kerouac em seus textos, e respaldado pelo bolso cheio, ficou anos a perambular por países exóticos da Ásia, quando absorveu cultura e afins.
Mas também cometeu abusos nessa vida libertária ou sob libertinagem, a depender da sua compreensão sobre como pensavam e agiam os beatnicks e por conta disso, ainda muito jovem, adquiriu uma lastimável dependência do álcool e drogas, sobretudo as com teor anfetamínico. Dessa maneira, foi parar em uma clínica de reabilitação, localizada em Zurique, na Suíça, onde submeteu-se a um tratamento baseado na terapia da sonoterapia, que segundo ficou registrado, curou-o dos vícios.
Contudo, nenhum percalço pessoal advindo de suas perturbações físicas e mentais, mudou os seus interesses primordiais e de novo apto para a vida social, voltou à Ásia, onde teve a oportunidade para morar em Nova Déli; na India e Pattaya, na Tailândia.

Em 1972, a sua produção e direção em "Siddhartha" (adaptação do romance escrito por Hermann Hesse) para o cinema, fez sucesso no circuito cinéfilo de arte, no entanto, esta incursão não havia sido a sua primeira experiência no mundo da sétima arte. Isso por que em 1966, lançara : "Chappaqua", um dilacerante filme lisérgico, baseado em suas experiências pessoais com as drogas e principalmente em relação à sua internação.
O filme centra-se nessa internação e as crises de abstinência, os chamados "cold turkeys", onde Rooks usou e abusou da lisergia, ao criar cenas muito perturbadoras.
A história segue o personagem, Russell Harwick (interpretado pelo próprio Conrad Rooks), que é internado à revelia e chega amarrado e em crise, em uma clínica de Paris.
Daí em diante, realidade e alucinação misturam-se, com cenas de intensa lisergia vividas na localidade de Chappaqua, a intercalar-se ao tratamento vivido em Paris. Cabe lembrar que Chappaqua é uma pequena localidade pertencente ao Estado de Nova York e era uma antiga aldeia indígena.

Figuras louquíssimas aparecem. Ravi Shankar como "Sun God", a tocar a sua cítara maravilhosa; o grande escritor Beat em pessoa, William Burroughs (a interpretar : "Opium Jones"), que dispensa comentários; O grande músico jazzista, Ornette Coleman, como "Peyote Eater"; o guru indiano, Swami Satchidananda, a interpretar : "The Guru" e o poeta Beat, Allen Ginsberg, como, "Messiah", além do ator Jean-Louis Barrault, a dar vida para o personagem, "Doutor Benoit", entre outras participações.


Conrad Rooks misturou as suas influências dentro de um grande caldeirão, pois a percepção dele sobre o mundo das drogas, mantém várias conotações paralelas no filme. Quer pelo viés da Beat Generation, quer pelo emergente movimento Hippie que borbulhava à época de seu lançamento do filme.
Foi o encontro entre o libertário pensamento da cerca do não enquadramento no sistema, e consequente "cair na estrada" da vida regado à jazz e anfetaminas, ao mesclar-se à lisergia com pretensão em torno da expansão das fronteiras da mente, ao culminar no enfoque místico e espiritualizado através da milenar cultura indiana e devidamente induzida pela cítara mágica de Ravi Shankar a ressoar em suas ragas. 

O filme ganhou o premio do júri do Festival de Veneza em 1966, além de ter tornado-se um item cultuado entre colecionadores e apreciadores da contracultura.

A ideia original de Conrad Rooks para a trilha sonora, foi usar o jazz de Ornette Coleman. Isso foi encomendado ao grande artista, pois de fato, Ornette compôs uma bela suíte chamada : "Suite Chappaqua", mas Rooks optou posteriormente em não utilizá-la na edição final, onde predominou o som da cítara de Ravi Shankar. A banda de Rock "The Fugs", também aparece no filme. Tratava-se de uma banda cujo trabalho era calcado fortemente no deboche, através de suas letras. Inclusive, existem relatórios da CIA, onde The Fugs é tão citado quanto o The Doors, no quesito "periculosidade" ao sistema.

"Chappaqua" não é um filme construído em torno de um roteiro tradicional de cinema, com começo; meio & fim. É difícil para ser digerido e eu não recomendo assisti-lo junto de sua avó, na sala de estar da família, embora ao pensar bem, se considerarmos que estamos em 2012, uma avó hoje em dia pode ter sido jovem nos anos sessenta, e vai saber se ela não apreciará mais do que você ?