quarta-feira, 15 de abril de 2026

Livro: "Mil frases de famosos e quase famosos"/Laert Falci (com participações de Denise Falci e Laert Sarrumor - Por Luiz Domingues

Uma frase pode ter muitas nuances quando é lida a esmo, fora de qualquer contexto, desprovida de compromisso com um texto, formalmente a se falar, como aforismo, lema, slogan, impropério e até desabafo. Na verdade, uma frase solta ao vento pode se revestir de qualquer significado, a expressar diversas nuances que passam pela mente de uma pessoa e até mesmo se proferida sem se pensar em nada, como mero improviso a expressar interjeição de momento.

Há livros de aforismos interessantíssimos nas prateleiras das livrarias e bibliotecas, é uma realidade da literatura, mas geralmente são aforismos oriundos de um mesmo autor, a exercitar o seu poder de síntese para expressar ideias e sentimentos.

Entretanto, no livro “Mil frases de famosos” (e quase famosos), o exercício ganhou uma aura inusitada, quase a nos fazer recordar dos velhos almanaques e curiosidades que fizeram sucesso nos tempos de outrora, seções de revistas de variedades a conter colunas dessa característica e revistas para se ler sem compromisso algum, como mero passatempo em meio às leituras digestivas, como apregoava aquela antiga revista norte-americana, no entanto a apresentar muitos diferenciais. 

A se tratar de uma compilação a conter exatamente mil frases proferidas por diversas personalidades e subpersonalidades, esse livro despertou-me uma reflexão interessante acerca de diversos aspectos.

Primeiro que o autor (com apoio de uma coautora e “pitacos” pontuais da parte de um terceiro colaborador), arrolou essa enorme lista de frases a buscar fontes diversas e isso chamou a minha atenção por si só, no sentido de que denotou ter trabalhado com uma percepção de 360° ao seu redor, ou seja, um grande mérito na minha opinião.

O segundo aspecto, foi que a gigantesca diversidade apresentada pelas pessoas que citou, tratou por montar um mosaico surreal de pensamentos. De grandes artistas a subcelebridades inusitadas, políticos de enorme respeitabilidade aos mais rasteiros e fisiológicos, dos intelectuais renomados a pessoas incultas, foi montado um painel pleno de disparidades, ao ponto de despertar contradições interessantíssimas, no sentido de levar o leitor a concluir que é muito difícil viver em sociedade e ao mesmo tempo, tal diferença brutal de mentalidade entre as pessoas, tem o seu lado belo, também.

O terceiro ponto que eu notei, foi que a obra foi lançada em 2001, mas claramente denotou que veio a ser construída nos anos noventa, portanto, quando a li em 2026, foi impressionante me deparar com a incrível cristalização de conceitos que estabeleceram o pensamento de uma época e o quão se desintegrou inteiramente certos preceitos, que para tais pessoas, eram afirmados com o poder da certeza, mas que na verdade, rapidamente esfacelaram-se ante a sua insipidez.

Muitas dessas personalidades falaram de uma forma séria e convicta a discorrer sobre diversos tópicos no calor de seu tempo, e hoje em dia, tais projeções se mostram risíveis, principalmente da parte de certos políticos que provaram que não enxergavam nem um palmo adiante do nariz.

Fiquei impressionado também com o poder da paixão idiossincrática observada em colocações feitas por certos jornalistas, principalmente do campo esportivo, a escancarar as suas predileções e paixões, acima da análise isenta que deveria permear a sua forma de atuação nesse meio.

Quase na mesma linha, preconceitos destilados na forma de veneno, provam que a sociedade avança silenciosamente, pois o que era lugar-comum na mentalidade de muita gente, tempos atrás, provoca arrepios se lidos e/ou ouvidos nos dias atuais. Tive essa sensação ao ler muitas frases absurdas proferidas por pessoas com a maior naturalidade em tempos de outrora.

Há uma boa quantidade de frases acometidas pela futilidade abissal, principalmente da parte das subcelebridades, que em tese nem deveriam se expressar para o bem da humanidade, porém, visto por outro lado, é objeto de pura galhofa, certamente. 

E sim, muitas frases belas, em tom poético, outras a expressar pensamentos nobres sob o poder de síntese do aforismo em si, além do bom humor inerente de muitas outras. Aliás, tive que interromper muitas vezes a leitura para esgotar a minha vontade de gargalhar e somente depois de sentir o meu fígado perfeitamente desopilado, poder voltar a ler com foco.

No cômputo geral, o livro surpreendeu-me positivamente, ao oferecer uma gama de sensações bem variadas através de sua leitura.

Deixo abaixo algumas poucas frases arroladas no bojo da obra. Descrevo apenas cinco delas, como uma mera amostra, em meio a mil frases contidas no livro, portanto, fica a minha dica para que leitor deste blog busque a leitura completa do livro, pois tenho a certeza de que vai ter muitas surpresas. Veja abaixo:

“Gostaria de viver como um homem pobre, porém com muito dinheiro” (Pablo Picasso)

Essa do Picasso me fez lembrar do Paul McCartney, que no auge da “Beatlemania” teria dito que “gostaria de ter muito dinheiro para não ter que fazer nada e também para o caso de querer fazer algo”.

“Tenho ânsia de ser o autor do mais puro, do mais simples. Meu sonho é chegar a essa perfeição, de ser o autor de uma “ciranda, cirandinha”, uma coisa que se perca no meio do povo” (Dorival Caymmi)

Nesse caso, Caymmi foi fundo ao buscar a beleza da simplicidade absoluta e sua inerente grandiosidade. 

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente de viver” (Leila Diniz)

Que pena que um acidente aéreo lhe furtou a oportunidade de viver muito mais do que ela viveu e certamente a nos fazer falta.

“Estão fazendo a mesma novela há 20 anos. Os atores interpretam os mesmos papéis e o telespectador chora a mesma lágrima” (Lima Duarte)

Assertividade máxima da parte desse pioneiro da teledramaturgia e eu aumentaria esse número que ele citou, pois o folhetim se repete há pelo menos 70 anos!

“O governador vota aqui. Esta seção é simplesmente um luxo!” (Athaíde Patreze)  

Para quem acha que a cafonice máxima, advinda do colunismo social havia se esgotado com Ibrahim Sued, eis que amargamos Patreze, o homem do microfone dourado.  

Sobre o autor, Laert Falci, ele foi um intelectual com formação no direito e nas letras. Escreveu outros livros: “Mar Sereno” (tal título inspirado abertamente na obra do compositor erudito, Felix Mendelssohn), “Feliz Viagem”, “Poezyas pra boi dormir” (esses três iniciais, de poesias), “Os Degraus de Alice” (crônicas, em parceria com sua irmã, Denise Falci), além de haver participado de antologias de poesias ao dividir espaço com outros autores). 

Ele e Denise eram filhos de Lily Falci, grande pianista e primos da poetisa Cecilia Bossi e no caso do Laert, pai do meu querido amigo, o vocalista, compositor, ator, dublador, radialista/jornalista e cartunista, Laert Sarrumor, do Língua de Trapo. Laert, pai, nos deixou em 2018.

Está explicado o talento compartilhado pelo DNA de uma família formada por artistas tão criativos.

Laert Sarrumor a gravar. Click de Moacir Barbosa de Lima ("Moah")/Produtora Bicho Raro

Laert Sarrumor deixou algumas frases de sua autoria no bojo da obra e escreveu a apresentação. Denise Falci, sua tia, também colaborou com diversas frases.

Denise Falci foi professora de literatura portuguesa e brasileira, autora de outros livros além do já citado em parceria com seu irmão e membro da União Brasileira de Escritores (UBE). Os livros de sua autoria, isoladamente, são: “De Kéryma a Maranathá” e “Kairós”. Era foi freira da ordem Salesiana e nos deixou em 2004.

Sobre a apresentação gráfica da obra, eu gostei bastante das ilustrações de apoio contidas nas suas páginas internas. Com tom satírico, reforçaram bem em pontos estratégicos da obra. Criação de Clayton Ribeiro e Leandro Franco, com as caricaturas da capa a cargo de Clayton.

Gostei do tom de cor usado na capa e contracapa a transmitir leveza, lay-out esse de criação dos irmãos Hermano, Rubenal e Leonardo, e sim, deliberadamente calculada tal arte para estabelecer um elo com os livros lançados pelo Laert Sarrumor, pela sua motivação visual bem parecida e nesse caso, penso que foi uma decisão acertada da Navegar Editora, pelo ponto de vista do marketing. Aliás, cabe destacar que tal similaridade estratégica também se deu na escolha do título da obra, pois ao enfatizar o fato de haver ‘mil” frases (e essa conta bate, de fato), a conexão com as mil piadas encontradas nos livros escritos pelo Laert, filho, o Sarrumor.  

A preparação do texto foi feita por Angela Bugelli e a revisão gramatical foi realizada pelos próprios autores, Laert e Denise Falci. Diagramação por Marcelo Silva Calixto com apoio de digitação de Juliana de Oliveira. Fotos dos autores nas respectivas orelhas do livro, por Júlia Tanaka. Editor: Rubenal Hermano Santos.

Um lançamento da Navegar Editora em 2001.

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